Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

JUR.NAL

O blog da revista oficial dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

O blog da revista oficial dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

04
Nov19

Uma Aventura no Oriente II

jurnal

 

 

Após mais uma aventura – esta agora em Shanghai – sinto que preciso de escrever para eu própria me relembrar de tudo aquilo que, na medida do deambular e fotografar, pensava que deveria escrever.

 

Fui a Shanghai sozinha quatro dias e um deles cheguei a ir a uma província também muito visitada e apenas a 1h de comboio. Posso dizer, antes de mais, que o que me vem mais facilmente à cabeça referir é mesmo o receio inicial de, como disse a minha amiga italiana que já viajou sozinha, «feel the void». Ainda assim, decidi seguir o meu instinto, fazer a coisa à minha maneira e canalizar o meu dinheiro em destinos prioritários.

 

Só me faz sentido retirar desta experiência idas à China, conhecer a cultura predominante dos meus dias, pois acho que são viagens de uma vida, com ida e volta contadas. Shanghai é, obviamente, um clássico chinês e dá realmente uma boa perspetiva do rumo cosmopolita, uma evolução a olhos vistos, mas que, de perto, consegue ser bem minimalista e com espaços distintos em harmonia. Há quem lhe chame a Nova Iorque chinesa quando se depare com a People’s Square e a infinita Ninjang Road, mas nem por isso descuro a tradição que está tão presente no Yu Garden e nos templos. Chega a haver uma mistura de épocas, muito visível em Jing’An. Sem querer dar o spoil, faria tudo outra vez e não mudava uma vírgula (quer dizer, mudava ter perdido o meu cartão de crédito durante três horas…mas isso não conta).

 

Cheguei e tive oportunidade de conhecer no aeroporto – um aeroporto tão imenso, tão confuso, tão… em chinês – um rapaz de Shanghai, de seu nome Larry Lu, que me viu feita barata tonta a treinar técnicas de tradução na máquina de venda de bilhetes para o metro. Assumiu ali o controlo da situação, corria e perguntava por uma máquina de multibanco, por uma máquina de trocar as notas maiores (que a máquina do metro não aceitava), explicava, esclarecia com mais energia que eu – que tinha dormido umas boas duas horas extra no avião – no melhor inglês que sabia. Levou-me inclusivé à minha paragem de metro, a uma hora do aeroporto, a dita «xinzha road» que, dita por mim, poderia ser umas outras três ou quarto que lá têm – jing’an, jinjian, entre outras combinações possíveis.

 

O meu hostel era convidativo, com um jardim exterior iluminado e colorido, bancos de baloiço e tudo em madeira, com uns cinco ou seis gatinhos que já eram tão hóspedes que se tornaram marca do espaço. As pessoas diziam olá calorosamente, mesmo não percebendo que raio de espécie eu era e porque é que estava ali sozinha aparentando ter 12 anos. Na verdade, ao lado daquela malta forasteira eu parecia uma blogger de 16 anos com a mania que é aventureira.

 

Mas senti-me tão bem: só eu e a minha câmara pendurada no ombro e um saco com carteira, bloco e caneta no outro; um saco de pano que estava a competir comigo na leveza aparentada. Não sentia aquele nó na garganta, o medo de pessoas, de metros, de culturas, de coisas. Só me sentia a chapinhar na minha própria independência, sem me preocupar para onde iam esses salpicos.

 

Lembro-me perfeitamente quando no dia 12 dei o dia de folga a Shanghai e fui para Hangzhou às 6h40. Sair do hostel às 5h e pouco e parecer-me estar numa rua completamente diferente. Aquela luz azulada a tentar encontrar tons alaranjados, uma brisa acompanhada do despertar dos pássaros; aqueles que regressavam a casa, aqueles que se preparavam para um novo dia e, subitamente, o trânsito fluído parecia uma dança de motas a rodopiar sozinhas e silenciosas. Não sei porquê, mas apeteceu-me ficar a apreciar como um início de dia pode ser tão bonito sem uma razão, mas cheia delas.

 

 

A voltar senti exatamente o mesmo. Vim a dormir na viagem de comboio e fui acordada por uma rapariga que, tal como 99(,9)% das pessoas, não falava inglês, mas ia tomar o meu lugar e percebeu que aquela era a minha paragem. Começou a abanar-me a apontar para a estação e eu sem perceber coisa alguma lá corri ensonada e estava com os fones numa playlist automática. Não conhecendo a música, esta estranhamente condizia com aquele momento, com aquela noite de volta a Shanghai e estava feliz por ter dormido e por ter sido acordada a tempo de não passar uma noite ao relento. Com aquele som, saí a sorrir e apetecia-me dançar pelas luzes intermitentes da estação sem vergonhas e inibições. Sentia-me em casa, de alguma forma. Já nem me importava de retornar às estradas de motociclos sem regras, que não cumprem sinais vermelhos e até andam no passeio e apitam para o peão se desviar, bem como o retornar a uma inquebrável barreira linguística que me treinou de certeza para o campeonato de mímica. Tudo me parecia tão insignificante de tão significante que esta viagem estava a ser para mim.

 

Não acho que seja sobre Shanghai, sobre os ares da China ou a cultura asiática. Acho que percebi que gerir o meu caminho consegue ser uma coisa tão bonita e que não sou mais eu ou menos eu com base nas pessoas com quem estou, porque sou genuína. Senti-me a mesma e descobri facetas minhas tão bonitas que às vezes não sobressaem aos outros por ausência de circunstância. Quando estamos um bom bocado sozinhos e quando conseguimos sobreviver numa selva, sem nos querermos apegar à jaula, sabemos que somos capazes e que somos uma excelente companhia. Percebemos que não há ali ninguém para nos dizer que devíamos sorrir mais, que devíamos vestir outra coisa, que devíamos ter posto um corretor de olheiras naquele dia, que isto ou aquilo já passou de moda, que aquele anda com aquela e que ela fala mal da outra, que não fomos convidados para aquela festa, que não temos um milhão de seguidores e o dinheiro para fazer uma cirurgia plástica a cada traço irrelevante que só nós notamos e todas as imperfeições e pressão que colocamos em nós todos os dias para que estes passem e possamos suspirar de alívio como quem correu uma maratona de encaixar aparências e pôr check no relatório de final de dia; no fundo, que não é preciso ir dormir de cabeça cheia e dar voltas e voltas à cama sobre o dia que vem e se vamos conquistar mais pessoas, mais coisas, numa ânsia de controlar o futuro e garantir que todos os dias estamos a trabalhar nas nossas relações, no nosso sucesso, na nossa aparência, quando podemos simplesmente viver a passos curtos e a ritmo próprio. Aí, deixei-me eu conquistar por Shanghai.

 

Desligo o VPN e, subitamente, o burburinho cala-se e sou só eu e a minha câmara.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

 

Nós

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Powered by