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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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13
Abr19

“There and back again”: Uma defesa do género de fantasia

Jur.nal

 

 

No próximo dia 14 de Abril de 2019, o mundo inteiro irá parar para assistir em êxtase à estreia da última temporada da série “Game of Thrones”, baseada na história de George R. R. Martin da saga “A Song of Ice and Fire”. Este que assina estas linhas contar-se-á, certamente, entre os devotos que acompanharão com piedosa atenção os últimos episódios desta série. Narrar aqui o sucesso astronómico desta história, quer na sua versão literária, quer na sua adaptação ao pequeno ecrã, seria, em igual medida, impossível e desnecessário. Mais curioso e importante será notar que este êxito incomparável foi alcançado por uma narrativa que se enquadra num género literário considerado como “infantil”, “imaturo”, reservado para “nerds” que vivem agarrados aos computadores nas caves das casas dos pais e permanentemente afastado dos altares da “literatura séria”: o género de fantasia.

 

A propósito da estreia da última temporada desta série, propõe-se, nestas poucas linhas, uma defesa do género de fantasia, através da consideração de um dos elementos narrativos mais poderosos e transformadores que este género literário tem para oferecer.

 

Antes disso, será preciso clarificar o que se quer aqui dizer quando se fala no género de fantasia. O próprio termo conjura imagens de elfos, anões, dragões e outras estranhas criaturas, feiticeiros, feitiços e artefactos mágicos. Numa palavra, um mundo ou mundos estranhos àquele em que vivemos. J. R. R. Tolkien abre-nos as portas à sua imensa e complexa Terra-Média, um mundo totalmente diferente daquele que habitamos. J. K. Rowling apresenta-nos a sugestão de um mundo em tudo semelhante ao nosso, mas povoado dessa ideia deliciosamente misteriosa e sedutora, a Magia. Frank Herbert pede-nos para considerar um universo que será, à partida, o nosso, mas tão distante nas malhas do futuro que poderia ser tão diferente com a Terra-Média de Tolkien. No seu magistral ensaio “On Fairy-Stories”, Tolkien, o fundador e Eterno Mestre da forma moderna deste género literário, refere exatamente que este é o principal artifício de todas as histórias de fantasia: o facto de habitarem num “Mundo Secundário” em relação ao “Mundo Primário”  em que se movem todos aqueles que inventam, contam e escutam essas histórias.

 

O potencial transformador destas histórias, conclui Tolkien, está assim assente na viagem que quem as vive (ouvindo, lendo ou vendo) experimenta, entre o “Mundo Primário”, onde habitam, e o “Mundo Secundário”, onde as histórias se passam. Numa curiosa passagem de “The Fellowship of the Ring”, o primeiro volume da monumental narrativa de “The Lord of the Rings”, Tolkien parece usar as palavras do hobbit Merry para explicar ao leitor este poder transformativo das histórias de fantasia:

 

‘There!’ said Merry. ‘You have left the Shire, and are now outside, and on the edge of the Old Forest.’

‘Are the stories about it true?’ asked Pippin.

‘I don’t know what stories you mean,’ Merry answered. ‘If you mean the old bogey-stories Fatty’s nurses used to tell him, about goblins and wolves and things of that sort, I should say no. At any rate I don’t believe them. But the Forest is queer. Everything in it is very much more alive, more aware of what is going on, so to speak, than things are in the Shire.” (J. R. R. Tolkien, “The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring”, Livro I, Capítulo VI).

 

Com a saída do Shire, o mundo confortável e familiar, e a entrada na Velha Floresta, estranha e desconfortável, Tolkien sinaliza o verdadeiro início da épica viagem daqueles hobbits no seio da narrativa, mas parece sinalizar também o início da viagem do leitor, do Mundo em que vive para o Mundo fantástico e “queer” da Terra-Média, onde tudo parece mais vivo, mais nítido e mais consciente do que no Mundo Real. Este último ponto é particularmente importante: a viagem do leitor (sentado no conforto do seu lar) não é uma viagem física, mas sim espiritual, mental e da sua consciência. Ao entrar no Mundo Secundário da fantasia, quem experiencia estas histórias é convidado a aprender os princípios e fundamentos deste novo mundo: a sua história e as histórias daqueles que o habitam, bem como as forças, ocultas ou percetíveis, que sobre ele agem (quer seja a sua “magia” peculiar, ou forças mais mundanas – políticas, económicas, sociais, culturais, tecnológicas). Um resultado óbvio desta construção e aprendizagem de novos mundos é a de que a narrativa é desamarrada da contingência histórica do Mundo Primário, para explorar os seus temas e ideias de uma forma mais livre e, arrisca-se a sugerir, mais “experimental”. Um resultado menos óbvio é o efeito desta aprendizagem sobre o leitor: ao aprender os princípios e fundamentos de um novo Mundo Secundário, o leitor é indiretamente conduzido a reavaliar os princípios e fundamentos do seu Mundo Primário, do mundo real em que habita.

 

Em “The Lord of the Rings”, Tolkien convida-nos a refletir, através do artifício de um anel mágico, sobre o Poder e sobre as lutas, pessoais e coletivas, que os seres humanos (uns mais humanos que outros) travam para lhe tentar resistir, ou em virtude de lhe ter sucumbido. Rowling narra uma das mais belas histórias dos tempos modernos sobre a força do Amor e da Amizade em face das forças mais negras que habitam nos nosso corações, opondo a magia que Lily Potter lança sobre o seu filho e a força que este encontra no Amor e Amizade dos que o rodeiam contra a magia negra, porque oriunda dos impulsos e desejos mais negros do coração humano, de Lord Voldemort. Nos desertos escaldantes de Arrakis, Herbert oferece-nos uma perspetiva rica e complexa sobre os perigos das lideranças carismáticas e messiânicas, da supressão daquelas qualidades humanas que, parecendo as mais irracionais, são também aquelas que nos tornam mais humanos, e da tendência humana para interferir com as delicadas ecologias do(s) mundo(s) que habita(m). Bilbo Baggins dá à história das suas aventuras fora do Shire, narradas por Tolkien em “The Hobbit”, o título de “There and back again”. Este título sintetiza este poder transformador das narrativas do género de fantasia: através de uma viagem a um Mundo Secundário, de fantasia, somos convidados a reaprender e repensar os princípios e fundamentos do nosso Mundo Primário, real, e das nossas existências humanas nele e, quando regressamos ao Shire, a casa, ao mundo real e familiar, não somos já os mesmos. Toda e qualquer viagem transforma o viajante, porque lhe alarga os horizontes, as perspetivas, hipóteses e experiências. Ninguém é a mesma pessoa depois de contemplar as venerandas ruínas de Roma, a majestade de Versalhes ou o poder colossal das Cascatas do Niágara O poder transformador da Fantasia consiste em oferecer uma dimensão inteiramente nova de viagens: viagens da mente, do espírito e da consciência.

 

O que podemos, então, esperar trazer connosco quando regressarmos ao mundo real depois desta viagem que Martin nos ofereceu a Westeros e que terá como um dos seus pontos culminantes esta última temporada da sua adaptação televisiva? Esta é a pergunta que, julgo, deverá acompanhar todos os que vão seguir com amorosa e reverente devoção as últimas horas deste fenómeno da cultura pop contemporânea. “Beauty lies in the eyes of the beholder”, pelo que não caberá a este que assina estas linhas especular sobre a forma como cada pessoa desfruta de uma qualquer narrativa, ou sobre as formas como permite (ou não) que essa narrativa a transforme. Todavia, em jeito de conclusão, deixa-se uma sugestão de interpretação que talvez não seja a mais antecipada para esta última temporada. A principal Joia da Coroa desta história de Martin é o manancial de personagens incrivelmente complexas e profundamente empáticas. Destaca-se, a título de exemplo, entre muitos, o arco narrativo de Jaime Lannister, que inicia o seu percurso com um ato atroz, perpetrado por amor, e culmina, no final da 7ª Temporada, com o abandono desse mesmo amor em favor de uma causa maior. Outro tema central desta saga é a forma como os seres humanos percecionam a História e os mitos e lendas que a circundam, principalmente a forma como a História, contada e recontada, se transforma nos Mitos que condicionam a nossa perceção do mundo. Todavia, à boa maneira dos grandes mestres deste género literário, Martin parece estar a encaminhar esta história para nos colocar uma questão bastante profunda sobre uma faceta da experiência humana. E a pista está no próprio título original desta história épica: “A Song of Ice and Fire”. Nesta última temporada, o mundo assistirá ao confronto entre o Fogo dos Dragões de Daenerys e o Gelo dos “White Walkers”. Qual o resultado final deste conflito? Espera-se que os próximos capítulos tragam essa resposta, mas reflita-se: no Mundo Primário, o contacto entre gelo e fogo resulta na aniquilação de ambos – o gelo derrete e o fogo extingue-se. Será isso que Martin nos quer fazer refletir sobre a natureza dos conflitos humanos? Que são jogos de soma nula, como é espelhado no enredo paralelo da luta pelo Trono de Ferro de Westeros? Ou haverá alguma redenção possível na conciliação, agora que foi revelado que Jon Snow carrega em si a herança do gelo dos Stark e do fogo dos Targaryen?

 

Embarquemos, então, coletivamente, nesta última etapa da viagem a Westeros através da série “Game of Thrones”. Voltaremos os mesmos? Espero que não.

 

João Francisco Diogo

 

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