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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

12
Dez19

Uma Aventura no Oriente III

Jur.nal

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Já se vai evaporando esta miragem deslumbrada com cheiro a novidade. Já sabe a pouco este vinho que me deixava alegre.

O que é voltar? Voltar significa regresso, mas a que chamam ao retrocesso de um processo que envolveu mais que lançar cartas?

Já pouco aqui se passa que chame a atenção, pois a lei da vida é a racionalização de qualquer significância ao nada.

Uns despedem-se das aventuras pelo globo.

Há quem se despeça mais do campus, do quartinho que decorou para poder chamar de casa.

Outros despedem-se uns dos outros, com promessas de voltar.

E há sempre quem se vá despedindo de cada bocadinho rotineiro, cada lugar no qual, inconscientemente, se senta todos os dias na cantina, aqueles noodles de pequeno-almoço, o inverno que mais parece primavera, a biblioteca de estética arquitetura com milhares de livros espalhados em 5 andares; e das relações de vizinhança – vida cheia de gente, contente descontente, se cruza todos os dias e dá aquele apoio moral na única despedida que temos tido em comum: mais uma pinga de café por cada página virada, cada desespero nesta correria de 2 semanas nas quais já pouco nos cruzamos, no que não seja nesta companhia de noites de estudo esquizofrénicas de quem corre contra o tempo.

E ele não pára de correr.

Mas resta alguém que se despeça de si próprio? Também isso será comum?

Resta-me a graça desgraçada de me arrastar por velhas ruas e velhas gentes, enquanto todos se voltam a expressar na forma mais eficaz de violência: e vai um boato, e vai uma ofensa e vão posts de raiva injustificada. Encolhem o mundo na rotina da mesma hora, transporte, bom dia, boa tarde, qual tranbordo de sociabilidade perfumada! Perfume de intenso e espalhado que enjoa, bem como os sucessos efémeros das vedetas na sua bolha.

Aqui absorve-se água transparente, desde luzes nela refletidas até horas depois as nuvens se esgueirando perseguindo-se em linha reta.

Será um televisor sem sinal que só mostra quadradinhos pretos e brancos que se ondulam sem perderem forma, ainda que disformes?

Mas que na verdade absorve a vista no primeiro momento e de resto já capta o preguiçoso embasbacado, que com vício se deixa especar nesse nada.

Olhar cativo da rotina que sempre cativa pelo conforto. Como se sonha acordado, lá olhamos e voltamos a fitar, até que desviamos o olhar e, por alguma ciência que não me cabe a mim deslindar, já ele se acostuma ao padrão e ainda está a ver a quadrilhagem ao redor. Que impressão causa esta cegueira de vermos tudo igual.

Receio que crie nova velha deficiência de tanto ver mais do mesmo e que o que de colorido vi fique sotoposto, que sempre que tente ver o programa, continue a ir abaixo e me volte a juntar ao vício do preto e branco e não me vou querer levantar. Dá trabalho.

Porque tudo dá trabalho e se nos habituamos, deixamo-nos perder nessa fixação. Se um dia temos a chave de mudar, podemos bem perdê-la e não há chave duplicada.

E se perco?

No fundo que mudança de mundo quando se sai do televisor e estamos em casa, passa o circo e não sou personagem do outro lado; é Natal e mais um ano passa.

Adeus Macau.

E se perco

Já não sei a morada.

E se não souber

Espalhou-se por aqui que não há morada fixa.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

06
Dez19

Poesia #7

Jur.nal

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Estou hoje vencido

Pela indiferença cansada

De quem não se deixou de perder

Pelos caminhos ilusórios

Da mentira que veste o mundo.

 

Perdi-me por entre os recantos

Daquilo que opaco sempre fora

(E permanecera)

Sem que a perceção da falta de norte

Me visitasse.

 

Não me doeu,

Nem me dói.

(Mas devia)

 

O caminho é tudo

O que somos

E o que seremos

E o que fomos,

Mas eu não.

 

Sou,

Não a estrada percorrida,

Mas a estrada por percorrer.

 

Ela era alheia e eu um alheado,

Sentia a dor dos buracos

Mas não a da escolha pelo vazio

Que me sugou a vida

Oferecendo-me nada mais

Do que nada.

 

Hoje quero que me doa

Mas não dói,

O cansaço da inércia

Está agarrado à indiferença

Do que de uma sombra alheia

(Que me oculara o ser)

Não passou.

 

Não me dói

Mas tenho a esperança

De que venha a doer,

De que o trilho da próxima

Estrada me faça sentir

Mais do que a indiferença

Da existência

De vida desprovida.

 

Quero que me doa.

 

André Neves

Aluno do 2.º ano da Licenciatura

 

29
Nov19

Marraquexe III

Jur.nal

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Apreensão. Apreensão parece-me uma boa palavra para introduzir um texto sobre esta incrível aventura no Royaume du Maroc. Digo isto porque era o que via na cara de praticamente todas as pessoas a quem falei sobre esta viagem, curiosamente com exceção dos que já a tinham feito. “Com tanto sítio para ir… Vê lá onde é que te vais meter!” Era sempre assim. Eu ainda me dava ao trabalho de dizer que ia com dois amigos, que um deles até é campeão de boxe e que ia ser sempre muito seguro, mas não fazia diferença. Ainda assim não me preocupei muito, estávamos todos demasiado empolgados para aturar pessimismos. Ainda bem que assim foi, acabou por ser uma viagem única.


A chegada foi tranquila e se não tivéssemos esperado tanto tempo na fila para a verificação de passaportes teria sido ainda melhor. O próximo desafio era encontrarmos o nosso transfere para o hostel, o que também não foi muito difícil tendo em conta que assim que passamos pela porta das chegadas vimos logo um senhor, com os seus chinelos da Nike, e com uma placa com o nome do nosso hostel: Kasbah Castel Red Hostel… ou talvez fosse Kasbah Red Castel Hostel, nunca consegui acertar com o nome do raio do hostel. O Salah, o nosso motorista, era muito simpático e entre inglês e francês – para minha tristeza, sobretudo francês – lá nos íamos entendendo.


A viagem de carro surpreendeu-nos. A verdade é que o que estávamos a ver era algo muito parecido com o que temos cá… e depois chegamos à medina, a parte antiga da cidade. Saímos da via principal e viramos à esquerda para um sítio onde as ruas eram estreitas, mal iluminadas e labirínticas. Rapidamente perdemos a noção do caminho que fizemos a partir daí e passamos por pessoas que, naquele ambiente, não nos transmitiam confiança nenhuma. O jipe parou em frente a um edifício que, para além de ter o nome do hostel na porta, era igual a muitos outros. Confesso que nessa altura fiquei apreensivo, não foi de forma alguma a melhor primeira impressão.


Acordamos relativamente cedo para podermos apanhar o pequeno almoço e as coisas mudaram como da noite para o dia. O hostel era mesmo muito bom e tinha um rooftop incrível com grandes mesas e sofás ainda maiores, um espaço verdadeiramente agradável. Logo aí conhecemos imensas pessoas que estavam/iam fazer o mesmo que nós: correr Marrocos. Assim que meti o pé na rua percebi que tudo tinha mudado. Os becos escuros eram agora pequenas lojas com os mais variados produtos; as ruas labirínticas e estreitas estavam agora cheias de locais que tentavam ganhar a sua vida com a venda de peixe, carne, pão, vegetais, enfim, tudo o que esperamos ver nas prateleiras de um supermercado, só que ali, naquele enorme labirinto que era a medina de Marrakech. Era impossível assimilar tanta coisa ao mesmo tempo!


Rapidamente nos sentimos confiantes o suficiente para andar à vontade nas ruas e estávamos desejosos de nos estrearmos numa ronda de negociações marroquina. Pode parecer estranho, mas em Marrocos – sobretudo em Marrakech – nada tem um preço definitivo e se cairmos no erro de não negociar e aceitar o primeiro número que nos é proposto, estamos a pagar o dobro ou mesmo o triplo do valor do que estamos a comprar. As souks eram intermináveis e sem sombra de dúvida muito mais movimentadas do que se possa imaginar. É indescritível a quantidade e variedade de coisas que estavam ali!


Quando penso em Marrakech lembro-me é do ambiente que vivi lá. É um desperdício de tempo tentar visitar as “atrações turísticas”, até porque eles prometem grandes palácios reais, mas depois o melhor que temos é um muro e um sinal de interdito. Há toda uma experiência além disso, todo um mundo que tem de ser vivido.

 

António Garcia

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

24
Nov19

God Delusion

Jur.nal

O problema sem fim da existência de Deus e a minha inconformidade e incompreensão na fé cega que os homens têm na inexistência “D”ele.

 

 

Realmente, quem é que acredita em Deus? O ser humano, aliás, o ser humano que não pensa, ou o ser humano que pensa demasiado e acaba por ser esmagado pela insignificância, pela absurdez ou pelo horror do Mundo, sendo assim obrigado a acreditar em Deus. Isto é como os bifes, há bem-passado e mal-passado, bem-pensado e mal-pensado. O melhor é ficar no médio, ou no médio-mal. Porque quem olha para as coisas, com olhos de ver, apercebe-se de que não consegue aperceber-se de nada, isto é, exceto que a fé em algo maior não passa de um cope por ter medo de tudo o que não compreende, e que “Deus”, seja lá o que for, não passa de uma resposta predefinida a todas as grandes questões da Humanidade. Essas são as duas verdades absolutas da nossa existência. Bem, essas e que nada pode ser irracional, porque se há uma coisa que todos os grandes filósofos, pensadores e cientistas concordam sobre a nossa existência é que esta é puramente racional e explicada por factos. Portanto, arrogantes são aqueles que as contrariam, e humildes são os que as aceitam. Arrogantes são os apóstolos que se ajoelharam no momento que viram Cristo ressuscitado, humilde é Tomé, que só acredita no que vê. Arrogantes são os que preferem acreditar no mistério de Deus, numa força que admitem não compreender, mas que tentou ao máximo simplificar as coisas ao descer à Terra, e humildes são os que preferem assumir que tudo ou já foi descoberto ou estará por descobrir, e que na sua humildade chamam os crentes de arrogantes por recusarem a acreditar nas suas crenças, e bem.

 

E mal, claro. Não estou aqui para justificar a existência de Deus, nem para explicar o que é a fé. Cada um tem um caminho para a crença, ou para a descrença, e há que respeitar isso. O que é, no entanto, inaceitável, é acusar os outros de serem sabichões ao ser sabichão/sabichona. O argumento que encontramos aqui é simples, embora enganador. Quem acredita em Deus utiliza Deus para explicar tudo, exceto a própria existência de Deus. Aqui deparamo-nos com a clássica irracionalidade do crente, o ponto fulcral do texto. Digo clássica quando na realidade deveria dizer moderna, este tipo de crítica só começou a surgir, historicamente, no século XIX, tanto que antes o Racionalismo era identificado com autores bastante religiosos, sendo o Catolicismo (a religião com a qual tenho mais familiaridade e, por isso, menos problema em levantar) visto como “demasiado racional”. Aliás, podemos dizer que a teologia clássica de autores como São Tomás de Aquino era puramente racional, pretendendo sistematizar o conteúdo da revelação divina, da preambula fidei, de uma forma efetivamente compatível com a razão. Ora, o nosso amigo/a anónimo/a cai na simples contradição de assumir verdades absolutas embora incompreensíveis ao promover o que parece ser ou niilismo ou positivismo/cientismo. Uma contradição que roça na hipocrisia, diria eu. Deus é misterioso, como quem vai à missa saberá. Quem acredita em Deus aceita que não terá todas as respostas e que não conhecerá as formas com que Deus age. No entanto, dá esse salto de fé, de olhos vendados, e dá-o com confiança e alegria. Quem não acredita, irá acreditar em n outras coisas, sem as compreender também. É assim a vida. Se nem no Direito o positivismo-formalismo serve, quanto mais na vida? Ou vai me dizer que consegue explicar tudo o que vê? Ao detalhe, de forma puramente racional e empírica? Muitos já tentaram, muitos já falharam. Parece uma atitude meio arrogante. Outra opção seria não acreditar em nada, mas nem vale a pena levantar essa hipótese tendo em conta que todos acreditam em algo, mesmo se for algo mínimo que nem reparam. Citando uma frase que gosto muito de citar, de David Foster Wallace: Because here's something else that's weird but true, in the day-to day trenches of adult life, there is actually no such thing as atheism. There is no such thing as not worshipping. Everybody worships. The only choice we get is what to worship”. Espero que o absurdismo acabe por ser a posição adotada pelo texto, embora não seja claro, porque mesmo sendo mais preguiçosa sempre é mais honesta. Posto isto, será o homem mais parvo do mundo crente? Se calhar, mas até Gil Vicente dizia que esses mereciam salvação. Agora, quem está no curso de Direito, não tem mais que poucos anos de idade e acha que sabe o que está certo e errado num mundo que admite não compreender? Na melhor das hipóteses, acha-se bom e, nas piores, é hipócrita, ou iludido. Só sei que nada sei, e que prefiro estar do lado dos "parvos" do que dos intelectualmente desonestos. 

 

22
Nov19

Marraquexe II

Jur.nal

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Marrakesh é aquele Marrocos que idealizamos. É aquele Marrocos seco, quente e exótico. Marrakesh é cor e agitação. É um ataque aos 5 sentidos. Quase sentimos que não conseguimos absorver tudo, precisávamos de nos focar em cada um dos 5 de cada vez. Mas quando queremos captar bem cada cheiro, há algo que nos enche a vista ou que irrompe pelos nossos ouvidos. Marrakesh é intensa e impactante. Quando queremos tirar uma fotografia "a Marrakesh" não conseguimos. Porque a verdade é que os monumentos da cidade não chegam aos calcanhares daquilo que verdadeiramente existe para visitar: o ambiente. Não conseguimos captar o ambiente numa imagem, pelo menos eu não consigo, porque não sou particularmente dotado. É um local que tem verdadeiramente de ser visitado, pois nenhum relato lhe faz justiça, nenhuma imagem o consegue representar adequadamente.

 

As paredes vermelhas levam-nos para mais longe do que uma travessia de uma hora e meia. As pessoas que frequentam a cidade levam-nos a vários cantos do mundo, uma vez que, ao contrário das outras cidades, existem visitantes de todo o lado a habitar os hostels. As souks da cidade levam-nos a crer que não têm fim. Toda a gente se parece dedicar ao comércio, a "sacar" mais alguns dirahms aos turistas. Sobretudo se forem vestidos de calção beje e polo lacoste como o António. A venda de peixe colocado no chão com a temperatura a marcar os 33 graus e as vespas que infestam os doces vendidos fazem antever o pior, mas os deliciosos sumos naturais da praça jem el-fna acalmam qualquer preocupação e "obrigam-nos" a confiar nos vendedores.

 

Enquanto único local a visitar numa ida a Marrocos, aconselho. Aconselho porque é uma explosão de sensações que não se consegue encontrar em mais nenhuma das outras cidades e é também onde mais sentimos que estamos noutro mundo face à Europa. Mas enquanto primeira etapa de uma viagem de 16 dias pelo país, era desaconselhável. Porquê? Por um lado, porque cada detalhe em Marrakesh é avaliado em, sensivelmente, 5 vezes o preço praticado "para marroquinos" nas outras paragens. Por outro, porque tememos que a viagem seja sempre assim: calor, abordagens permanentes, um frenesim que pretendemos captar e nos foge.

 

Miguel Almeida

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

20
Nov19

God Complex

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O problema sem fim da existência de Deus e a minha inconformidade e incompreensão na fé cega e desmedida que os Homens têm “N”ele.

 

 

O ser humano, enquanto ser pensador e consciente, tem uma necessidade sôfrega de saber tudo e pensa-se merecedor de todo esse conhecimento. No entanto, e felizmente, a realidade que vivemos não nos permite obter respostas para a maioria das perguntas que nos traspassam ao longo de uma vida, por si só finita. Como seria expectável, o Homem não se contenta com o não saber, não se contenta com o inexplicável e sente medo do desconhecido, sente receio de tudo aquilo que não vê e não compreende; reside aqui, para mim, a maior contradição e irracionalidade na fé em Deus.


Numa tentativa de supressão desse medo e desse receio e com o objetivo de viver uma vida com uma consciência mais tranquila, despreocupada e desresponssabilizada, o ser humano recorre a uma identidade metafísica divina - Deus - que, através de mecanismos que transcendem a capacidade e o entendimento humano, “responde” a várias questões pendentes, exceto à própria questão, Deus.


A contradição: o Homem procura respostas para aquilo que não conhece recorrendo a algo que não tem uma explicação plausível por si só, ou seja, procura o saber e a verdade absoluta numa “coisa” que também não consegue compreender, explicar ou provar empiricamente.


Tudo aquilo que achamos saber é limitado pela única perspetiva que temos. Vivemos numa cápsula e receamos o inexplicável, no entanto recorremos a Deus para nos retirar da cápsula da qual temos medo de sair, efetivamente.

 

15
Nov19

Marraquexe I

Jur.nal

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Uma das memórias mais vívidas que tenho de Marraquexe é a viagem feita do aeroporto até ao hostel em que iríamos ficar hospedados, que nos aterrorizou na altura, mas é hoje motivo de galhofa.


Ora, estávamos nós acabados de chegar a Marrocos, com a cabeça feita de hesitação e prudência por aqueles que deixámos em Portugal – cujo receio habitava, por vezes, no limiar da xenofobia – quando enfrentámos o primeiro teste: apanhar o transfere pré combinado que nos levaria ao hostel.

Para este efeito, lá procurámos o nosso chauffeur privé marroquino, que nos pareceu simpático, bem, pelo menos um pouco mais do que a viatura em que tivemos de entrar...


De cinto posto, colocámos o GPS para controlar a viagem e fomos trocando algumas palavras em francês e inglês. As estradas pareciam normais e o panorama não assim tão diferente... isto é, até ao momento em que encostámos o carro ao pé de uma rua estreita e escura, saída de uma mistura entre um filme de guerra e um de terror.


“Ah, vai só mostrar-nos aquele monumento ali! Não vai entrar por aqui, é impossível...”
E de facto mostrou. Porém de seguida, entrou pela tal rua a dentro e, aí, troquei um olhar com os meus companheiros que dizia tudo.


“Bem. Já fomos."


As casas acomulavam-se umas após as outras e as passagens encolhiam cada vez mais. As luzes do carro eram as únicas naquele labirinto sombrio. Na rua, vivalma excepto um marroquino aqui e ali, que naquele contexto, pareciam fazer jus ao que nos haviam dito.


Paramos no meio do nada. De repente, motas.


“É agora. Preparem-se para ser assaltados e/ou raptados.”

Mas não foi. E não fomos. E o hostel era fantástico.

 

André Carmona

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura; Diretor do JUR.NAL)

 

22
Out19

Anónimos #10

Jur.nal

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Nada. É o que eu sinto ao olhar nos olhos de quem me passa à frente.

Vazio. É aquilo que me consome a alma, que aos poucos deixa o meu corpo.

Zero. É o esforço que sinto da tua parte para me tentares acalmar estes pensamentos que só me levam à destruição.

Há quem diga que o amor basta para fazer andar uma relação. Eu nunca fui muito de concordar com essa opinião.

É suposto eu conformar-me com o facto de estarmos no mesmo patamar em que isto começou?

É suposto eu dar o litro sem cair, sem estremecer, por uma carruagem que nem andou?

Não consigo. Não sou capaz. Nunca fui de me sentar à espera, a ver se o tempo traz solução a uma situação que já vem de trás.

Posso falar em códigos, às vezes - alguns difíceis de decifrar. Mas noutras vezes sou bastante explícita e cuidadosa nas palavras que escolho proferir. Se não percebes, é porque realmente para ti nada está mal. Se assim é, isto não pode continuar.

Eu tentei. Acredita em mim quando digo que tentei. Tu sabes que tentei. É por isso que saio pela porta de consciência tranquila: eu fiz tudo o que pude por nós.

Lamento. E adeus.

 

30
Jun19

JU(NIO)R.NAL #4

Jur.nal

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Imóvel

 

Sozinha. Num quarto escuro e estreito está, encolhida no chão, uma rapariguinha agarrada aos joelhos. Pequena. Mas não de tamanho nem de cabeça – pequena de alma, pequena porque a vida nisso a tornou. 

 

Escura sala sem nada a preenchê-la. As vermelhas paredes não têm qualquer ruga nem ornamento. Sem levantar a cabeça, sem erguer o olhar ou limpar as lágrimas que lhe correm pelo rosto a pequena rapariga sente as paredes a aproximarem-se, toda uma sensação de enjaulamento. 

 

Sente-se a fundir com o meio. Mas se o meio vazio é, em que se torna a rapariga quando com ele se une? Passará a ser só mais uma parte deste quarto, absorvendo toda a sua essência, como se desta fosse fruto.

 

O que estará por detrás destas quatro paredes? E será que importa saber? Pois quer seja todo um mundo claro e desafiante, quer seja apenas um vácuo, uma aglomeração de nada, isso não muda a sua pequenez. Nada altera a sua condição, ninguém pode prometer um diferente amanhã e, por isso, de pouco vale pintar o futuro. 

 

As expectativas tornam-se, demasiado facilmente, o nosso maior inimigo. Não o maior, mas o mais evidente. Não há maior ameaça que nós próprios. Nada nos sufoca mais que a nossa consciência. 

 

A sala pode não ser pequena. As paredes podem não estar vazias. Mas para a pequena rapariga, debruçada sobre si mesma, há de sempre ser um quarto escuro de paredes que sufocam.

 

Abre-se uma porta. Estra luz. Mas a rapariga permanece agarrada aos joelhos, imóvel.

 

Teresa Cabral

 

19
Jun19

Pedido público de desculpas ao Sr. Jackie Chan e à sua mãe

Jur.nal

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Bem sei que os sonhos não interessam senão a quem os tem. Nas palavras de Dennis, personagem da comédia It’s Always Sunny In Philadelphia: «I hate listening to people's dreams. It is like flipping through a stack of photographs. If I'm not in any of them and nobody is having sex, I just don't care.” Porém, o mesmo não se passa com os erros alheios, e, bem, eu cometi um grave erro ontem.

Tudo começou ao encontrar o Jackie Chan e a sua mãe, algo que para os sonhadores mais atentos levantaria suspeitas, uma vez que a pobre senhora já não está connosco. Reagi como reajo ao avistar qualquer celebridade: curioso, mas sem querer chatear. No entanto, e para meu espanto, o célebre ator, com toda a amabilidade a que nos habituou nos grandes ecrãs, convidou-me a ficar. De seguida, um pouco melancólico, como que numa subtil crise de meia idade, elogiou a minha jovialidade. Em poucos segundos, éramos já praticamente amigos e, por isso, senti-me não só à vontade para pedir à pobre mãe que nos tirasse uma foto, como também que o fizesse com o seu próprio telemóvel, pois a câmara do meu não estaria à altura – o que corresponde, infelizmente, à realidade, desde que fui furtado.

A senhora estranhou e eu também - como é que era suposto eu ficar com as fotos? – mas lá o fez. Posto isto, eu e o Jackie começámos a festejar juntamente com os seus dez amigos asiáticos aparecidos do nada. Isto tudo numa mistura de um centro comercial com um armazém, importada diretamente de um dos seus vários filmes. Tudo me corria de feição, mas tal como Icarus, voava demasiado perto do Sol. Rodeado de asiáticos, não consegui conter a necessidade de demonstrar toda a minha perícia linguística, proferindo um orgulhoso arigato, que como todos sabemos, é japonês para obrigado.

Ora, o Sr. Jackie e a sua família são chineses. E misturar as duas nacionalidades é um grave erro. Imaginem, talvez, a rivalidade portuguesa e espanhola, com um bocadinho (enorme eufemismo!) de genocídio e horríveis atrocidades, relativamente recentes, à mistura.

O Jackie e os seus amigos, para meu alívio, permaneceram na sua inexplicável festa. Mas, a senhora... A senhora Lee-Lee Chan olhou-me com desdém e fez a cara mais azeda que alguma vez vi, sonho ou realidade.

Felizmente acordei pouco de seguida, um pouco como quem encontra a morte nos seus sonhos. Agarrei no telemóvel e confirmei o meu desastre. Pedi, mentalmente, desculpa à senhora e dei graças por se tratar apenas de um sonho de que nunca ninguém iria saber.

 

André Carmona

 

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