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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

29
Nov19

Marraquexe III

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Apreensão. Apreensão parece-me uma boa palavra para introduzir um texto sobre esta incrível aventura no Royaume du Maroc. Digo isto porque era o que via na cara de praticamente todas as pessoas a quem falei sobre esta viagem, curiosamente com exceção dos que já a tinham feito. “Com tanto sítio para ir… Vê lá onde é que te vais meter!” Era sempre assim. Eu ainda me dava ao trabalho de dizer que ia com dois amigos, que um deles até é campeão de boxe e que ia ser sempre muito seguro, mas não fazia diferença. Ainda assim não me preocupei muito, estávamos todos demasiado empolgados para aturar pessimismos. Ainda bem que assim foi, acabou por ser uma viagem única.


A chegada foi tranquila e se não tivéssemos esperado tanto tempo na fila para a verificação de passaportes teria sido ainda melhor. O próximo desafio era encontrarmos o nosso transfere para o hostel, o que também não foi muito difícil tendo em conta que assim que passamos pela porta das chegadas vimos logo um senhor, com os seus chinelos da Nike, e com uma placa com o nome do nosso hostel: Kasbah Castel Red Hostel… ou talvez fosse Kasbah Red Castel Hostel, nunca consegui acertar com o nome do raio do hostel. O Salah, o nosso motorista, era muito simpático e entre inglês e francês – para minha tristeza, sobretudo francês – lá nos íamos entendendo.


A viagem de carro surpreendeu-nos. A verdade é que o que estávamos a ver era algo muito parecido com o que temos cá… e depois chegamos à medina, a parte antiga da cidade. Saímos da via principal e viramos à esquerda para um sítio onde as ruas eram estreitas, mal iluminadas e labirínticas. Rapidamente perdemos a noção do caminho que fizemos a partir daí e passamos por pessoas que, naquele ambiente, não nos transmitiam confiança nenhuma. O jipe parou em frente a um edifício que, para além de ter o nome do hostel na porta, era igual a muitos outros. Confesso que nessa altura fiquei apreensivo, não foi de forma alguma a melhor primeira impressão.


Acordamos relativamente cedo para podermos apanhar o pequeno almoço e as coisas mudaram como da noite para o dia. O hostel era mesmo muito bom e tinha um rooftop incrível com grandes mesas e sofás ainda maiores, um espaço verdadeiramente agradável. Logo aí conhecemos imensas pessoas que estavam/iam fazer o mesmo que nós: correr Marrocos. Assim que meti o pé na rua percebi que tudo tinha mudado. Os becos escuros eram agora pequenas lojas com os mais variados produtos; as ruas labirínticas e estreitas estavam agora cheias de locais que tentavam ganhar a sua vida com a venda de peixe, carne, pão, vegetais, enfim, tudo o que esperamos ver nas prateleiras de um supermercado, só que ali, naquele enorme labirinto que era a medina de Marrakech. Era impossível assimilar tanta coisa ao mesmo tempo!


Rapidamente nos sentimos confiantes o suficiente para andar à vontade nas ruas e estávamos desejosos de nos estrearmos numa ronda de negociações marroquina. Pode parecer estranho, mas em Marrocos – sobretudo em Marrakech – nada tem um preço definitivo e se cairmos no erro de não negociar e aceitar o primeiro número que nos é proposto, estamos a pagar o dobro ou mesmo o triplo do valor do que estamos a comprar. As souks eram intermináveis e sem sombra de dúvida muito mais movimentadas do que se possa imaginar. É indescritível a quantidade e variedade de coisas que estavam ali!


Quando penso em Marrakech lembro-me é do ambiente que vivi lá. É um desperdício de tempo tentar visitar as “atrações turísticas”, até porque eles prometem grandes palácios reais, mas depois o melhor que temos é um muro e um sinal de interdito. Há toda uma experiência além disso, todo um mundo que tem de ser vivido.

 

António Garcia

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

22
Nov19

Marraquexe II

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miguel marraquexe.jpeg

 

 

Marrakesh é aquele Marrocos que idealizamos. É aquele Marrocos seco, quente e exótico. Marrakesh é cor e agitação. É um ataque aos 5 sentidos. Quase sentimos que não conseguimos absorver tudo, precisávamos de nos focar em cada um dos 5 de cada vez. Mas quando queremos captar bem cada cheiro, há algo que nos enche a vista ou que irrompe pelos nossos ouvidos. Marrakesh é intensa e impactante. Quando queremos tirar uma fotografia "a Marrakesh" não conseguimos. Porque a verdade é que os monumentos da cidade não chegam aos calcanhares daquilo que verdadeiramente existe para visitar: o ambiente. Não conseguimos captar o ambiente numa imagem, pelo menos eu não consigo, porque não sou particularmente dotado. É um local que tem verdadeiramente de ser visitado, pois nenhum relato lhe faz justiça, nenhuma imagem o consegue representar adequadamente.

 

As paredes vermelhas levam-nos para mais longe do que uma travessia de uma hora e meia. As pessoas que frequentam a cidade levam-nos a vários cantos do mundo, uma vez que, ao contrário das outras cidades, existem visitantes de todo o lado a habitar os hostels. As souks da cidade levam-nos a crer que não têm fim. Toda a gente se parece dedicar ao comércio, a "sacar" mais alguns dirahms aos turistas. Sobretudo se forem vestidos de calção beje e polo lacoste como o António. A venda de peixe colocado no chão com a temperatura a marcar os 33 graus e as vespas que infestam os doces vendidos fazem antever o pior, mas os deliciosos sumos naturais da praça jem el-fna acalmam qualquer preocupação e "obrigam-nos" a confiar nos vendedores.

 

Enquanto único local a visitar numa ida a Marrocos, aconselho. Aconselho porque é uma explosão de sensações que não se consegue encontrar em mais nenhuma das outras cidades e é também onde mais sentimos que estamos noutro mundo face à Europa. Mas enquanto primeira etapa de uma viagem de 16 dias pelo país, era desaconselhável. Porquê? Por um lado, porque cada detalhe em Marrakesh é avaliado em, sensivelmente, 5 vezes o preço praticado "para marroquinos" nas outras paragens. Por outro, porque tememos que a viagem seja sempre assim: calor, abordagens permanentes, um frenesim que pretendemos captar e nos foge.

 

Miguel Almeida

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

15
Nov19

Marraquexe I

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Uma das memórias mais vívidas que tenho de Marraquexe é a viagem feita do aeroporto até ao hostel em que iríamos ficar hospedados, que nos aterrorizou na altura, mas é hoje motivo de galhofa.


Ora, estávamos nós acabados de chegar a Marrocos, com a cabeça feita de hesitação e prudência por aqueles que deixámos em Portugal – cujo receio habitava, por vezes, no limiar da xenofobia – quando enfrentámos o primeiro teste: apanhar o transfere pré combinado que nos levaria ao hostel.

Para este efeito, lá procurámos o nosso chauffeur privé marroquino, que nos pareceu simpático, bem, pelo menos um pouco mais do que a viatura em que tivemos de entrar...


De cinto posto, colocámos o GPS para controlar a viagem e fomos trocando algumas palavras em francês e inglês. As estradas pareciam normais e o panorama não assim tão diferente... isto é, até ao momento em que encostámos o carro ao pé de uma rua estreita e escura, saída de uma mistura entre um filme de guerra e um de terror.


“Ah, vai só mostrar-nos aquele monumento ali! Não vai entrar por aqui, é impossível...”
E de facto mostrou. Porém de seguida, entrou pela tal rua a dentro e, aí, troquei um olhar com os meus companheiros que dizia tudo.


“Bem. Já fomos."


As casas acomulavam-se umas após as outras e as passagens encolhiam cada vez mais. As luzes do carro eram as únicas naquele labirinto sombrio. Na rua, vivalma excepto um marroquino aqui e ali, que naquele contexto, pareciam fazer jus ao que nos haviam dito.


Paramos no meio do nada. De repente, motas.


“É agora. Preparem-se para ser assaltados e/ou raptados.”

Mas não foi. E não fomos. E o hostel era fantástico.

 

André Carmona

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura; Diretor do JUR.NAL)

 

04
Nov19

Uma Aventura no Oriente II

Jur.nal

 

 

Após mais uma aventura – esta agora em Shanghai – sinto que preciso de escrever para eu própria me relembrar de tudo aquilo que, na medida do deambular e fotografar, pensava que deveria escrever.

 

Fui a Shanghai sozinha quatro dias e um deles cheguei a ir a uma província também muito visitada e apenas a 1h de comboio. Posso dizer, antes de mais, que o que me vem mais facilmente à cabeça referir é mesmo o receio inicial de, como disse a minha amiga italiana que já viajou sozinha, «feel the void». Ainda assim, decidi seguir o meu instinto, fazer a coisa à minha maneira e canalizar o meu dinheiro em destinos prioritários.

 

Só me faz sentido retirar desta experiência idas à China, conhecer a cultura predominante dos meus dias, pois acho que são viagens de uma vida, com ida e volta contadas. Shanghai é, obviamente, um clássico chinês e dá realmente uma boa perspetiva do rumo cosmopolita, uma evolução a olhos vistos, mas que, de perto, consegue ser bem minimalista e com espaços distintos em harmonia. Há quem lhe chame a Nova Iorque chinesa quando se depare com a People’s Square e a infinita Ninjang Road, mas nem por isso descuro a tradição que está tão presente no Yu Garden e nos templos. Chega a haver uma mistura de épocas, muito visível em Jing’An. Sem querer dar o spoil, faria tudo outra vez e não mudava uma vírgula (quer dizer, mudava ter perdido o meu cartão de crédito durante três horas…mas isso não conta).

 

Cheguei e tive oportunidade de conhecer no aeroporto – um aeroporto tão imenso, tão confuso, tão… em chinês – um rapaz de Shanghai, de seu nome Larry Lu, que me viu feita barata tonta a treinar técnicas de tradução na máquina de venda de bilhetes para o metro. Assumiu ali o controlo da situação, corria e perguntava por uma máquina de multibanco, por uma máquina de trocar as notas maiores (que a máquina do metro não aceitava), explicava, esclarecia com mais energia que eu – que tinha dormido umas boas duas horas extra no avião – no melhor inglês que sabia. Levou-me inclusivé à minha paragem de metro, a uma hora do aeroporto, a dita «xinzha road» que, dita por mim, poderia ser umas outras três ou quarto que lá têm – jing’an, jinjian, entre outras combinações possíveis.

 

O meu hostel era convidativo, com um jardim exterior iluminado e colorido, bancos de baloiço e tudo em madeira, com uns cinco ou seis gatinhos que já eram tão hóspedes que se tornaram marca do espaço. As pessoas diziam olá calorosamente, mesmo não percebendo que raio de espécie eu era e porque é que estava ali sozinha aparentando ter 12 anos. Na verdade, ao lado daquela malta forasteira eu parecia uma blogger de 16 anos com a mania que é aventureira.

 

Mas senti-me tão bem: só eu e a minha câmara pendurada no ombro e um saco com carteira, bloco e caneta no outro; um saco de pano que estava a competir comigo na leveza aparentada. Não sentia aquele nó na garganta, o medo de pessoas, de metros, de culturas, de coisas. Só me sentia a chapinhar na minha própria independência, sem me preocupar para onde iam esses salpicos.

 

Lembro-me perfeitamente quando no dia 12 dei o dia de folga a Shanghai e fui para Hangzhou às 6h40. Sair do hostel às 5h e pouco e parecer-me estar numa rua completamente diferente. Aquela luz azulada a tentar encontrar tons alaranjados, uma brisa acompanhada do despertar dos pássaros; aqueles que regressavam a casa, aqueles que se preparavam para um novo dia e, subitamente, o trânsito fluído parecia uma dança de motas a rodopiar sozinhas e silenciosas. Não sei porquê, mas apeteceu-me ficar a apreciar como um início de dia pode ser tão bonito sem uma razão, mas cheia delas.

 

 

A voltar senti exatamente o mesmo. Vim a dormir na viagem de comboio e fui acordada por uma rapariga que, tal como 99(,9)% das pessoas, não falava inglês, mas ia tomar o meu lugar e percebeu que aquela era a minha paragem. Começou a abanar-me a apontar para a estação e eu sem perceber coisa alguma lá corri ensonada e estava com os fones numa playlist automática. Não conhecendo a música, esta estranhamente condizia com aquele momento, com aquela noite de volta a Shanghai e estava feliz por ter dormido e por ter sido acordada a tempo de não passar uma noite ao relento. Com aquele som, saí a sorrir e apetecia-me dançar pelas luzes intermitentes da estação sem vergonhas e inibições. Sentia-me em casa, de alguma forma. Já nem me importava de retornar às estradas de motociclos sem regras, que não cumprem sinais vermelhos e até andam no passeio e apitam para o peão se desviar, bem como o retornar a uma inquebrável barreira linguística que me treinou de certeza para o campeonato de mímica. Tudo me parecia tão insignificante de tão significante que esta viagem estava a ser para mim.

 

Não acho que seja sobre Shanghai, sobre os ares da China ou a cultura asiática. Acho que percebi que gerir o meu caminho consegue ser uma coisa tão bonita e que não sou mais eu ou menos eu com base nas pessoas com quem estou, porque sou genuína. Senti-me a mesma e descobri facetas minhas tão bonitas que às vezes não sobressaem aos outros por ausência de circunstância. Quando estamos um bom bocado sozinhos e quando conseguimos sobreviver numa selva, sem nos querermos apegar à jaula, sabemos que somos capazes e que somos uma excelente companhia. Percebemos que não há ali ninguém para nos dizer que devíamos sorrir mais, que devíamos vestir outra coisa, que devíamos ter posto um corretor de olheiras naquele dia, que isto ou aquilo já passou de moda, que aquele anda com aquela e que ela fala mal da outra, que não fomos convidados para aquela festa, que não temos um milhão de seguidores e o dinheiro para fazer uma cirurgia plástica a cada traço irrelevante que só nós notamos e todas as imperfeições e pressão que colocamos em nós todos os dias para que estes passem e possamos suspirar de alívio como quem correu uma maratona de encaixar aparências e pôr check no relatório de final de dia; no fundo, que não é preciso ir dormir de cabeça cheia e dar voltas e voltas à cama sobre o dia que vem e se vamos conquistar mais pessoas, mais coisas, numa ânsia de controlar o futuro e garantir que todos os dias estamos a trabalhar nas nossas relações, no nosso sucesso, na nossa aparência, quando podemos simplesmente viver a passos curtos e a ritmo próprio. Aí, deixei-me eu conquistar por Shanghai.

 

Desligo o VPN e, subitamente, o burburinho cala-se e sou só eu e a minha câmara.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

 

08
Out19

No verão em que acabei o liceu

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miguel almeida.jpg

 

No verão em que acabei o liceu, resolvi arranjar um trabalho nesses meses com o intuito de financiar o interrail que iria fazer posteriormente. Mimado como sou, acabei por não arranjar nada de jeito (por falta de empenho na minha busca) e fiz apenas uns biscates para a minha mãe, que lá me fez sentir melhor comigo mesmo, procurando dar-me a sensação de que eu realmente tinha contribuído para a viagem. Mas, antes disso, ainda encontrei uma empresa de marketing que fazia campanhas na rua para diversas empresas e que me chamou para um dia de teste. Nesse dia, por sorte ou azar, a campanha era num bairro social. Menino como sou, fiquei todo incomodado. Toda a gente tinha péssimo aspeto, os prédios estavam decadentes e neles imperava um forte cheiro a droga. Dentro deste maravilhoso papel de embrulho, o chefe de campanha disse uma frase que me fez pensar: não te preocupes, aqui nos centros mais pobres, as pessoas são sempre mais simpáticas. Deve ser por serem mais felizes, os ricos são sempre mais infelizes.

 

Bem, eu tinha acabado de sair do liceu e ele era o chefe da campanha, portanto, não disse nada. E a verdade é que a primeira parte da frase tomou algum corpo durante aquela tarde, uma vez que fui recebido de forma espantosa por uma cabo-verdiana em sua casa, que aceitou responder a todos os questionários e receber todos os folhetos, oferecendo-me ainda um chá.

 

Eu assimilei toda aquela simpatia e quase que aceitei o que o tal chefe me tinha dito (no entanto, recusei claramente trabalhar para a agência de novo depois daquela tarde). A juntar a isto, obtinha relatos de pessoas que tinham ido fazer voluntariados para países mais pobres e voltavam a dizer que todo o nosso estilo de vida tinha de ser repensado e que os locais eram muito mais felizes que nós.

 

Ironia do destino ou não, eu acabei por fazer voluntariado em Cabo Verde uns anos mais tarde. Era um voluntariado com crianças. Não digo que ia com a expectativa de encontrar crianças felizes na sua simplicidade, porque algo naquela conceção de feliz ignorante camponesa sempre me incomodou de certa forma. Mas ia com estas sementes plantadas na cabeça.

 

O centro de voluntariado era em Mindelo, na ilha de São Vicente. Toda a ilha é bastante árida, ver um rasgo de verde é de facto um achado por lá. Os dias de chuva são raros, e as temperaturas são sempre bastante altas. Nas ruas, dominam lojas chinesas e mulheres a vender mangas deliciosas em cestas que vinham de uma ilha vizinha, menos árida.

 

O centro acolhia crianças cujos pais não tinham condições para as sustentar. Era um centro só para rapazes, com uma ala de dormitórios e os respetivos balneários, uma sala de brinquedos (partilhados pelos rapazes) e um campo de futebol. Alguns daqueles rapazes tinham sido encontrados a dormir por baixo de caixotes do lixo e em outras condições igualmente más. No centro, eram acolhidos e acompanhados.

 

Os rapazes conviviam uns com os outros 24 horas por dia e as discussões e desavenças eram muito constantes, sendo que o principal meio de resolução de litígios era o arremesso de pedras. Todos me diziam que o seu sonho era vir para Portugal, era ter uma t-shirt do Benfica como a que eu tinha, entre outras coisas que a mim me pareciam simples. Sinceramente, comecei a duvidar seriamente da tese da feliz ignorante camponesa naquelas semanas. A ignorância, ali, não trazia felicidade. O facto de não conhecerem outra realidade não os deixava felizes na sua contentação. A pobreza não era fonte de felicidade, de todo.

 

Eu fui fazer este voluntariado a Cabo verde, mas todos sabemos que centros semelhantes existem em Portugal. Penso que é fácil fazer estes exercícios de lirismo quando as condições nos são oferecidas, até porque o ser humano procura sempre o novo e o que não tem. Os miúdos olhavam para o meu telemóvel e os olhos brilhavam quando os deixava jogar, mas eu também estava ali, à procura de algo que não encontrava na minha bolha do dia-a-dia. Mas meter o dinheiro nesta equação de forma tão simplista não me parece um exercício correto. A felicidade que certas pessoas, menos favorecidas materialmente, podem ter, não se pode resumir a mais ou menos dinheiro, mas a uma série de fatores culturais e psicológicos. Ali, a miséria não trazia alegria, esta fórmula de: quanto menos posses, mais felicidade não era verdadeira.

 

Miguel Almeida

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

24
Set19

Uma Aventura no Oriente

Jur.nal

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23 de agosto 2019

 

 

Nem sempre tudo o que fazemos muito em função das modas e bons testemunhos tem os seus alicerces nos mesmos motivos e, estranhamente ou não, os mesmos percursos podem levar-nos a absorver e carregar sentimentos muito diferentes.

 

Apesar de ter chegado a Macau há apenas uma semana, tenho compreendido algo que é tão senso comum, mas não tão fácil de captar: cada pessoa leva um programa de intercâmbio com um peso e leveza distintos e cada qual tem no seu subconsciente as verdadeiras razões por detrás disso, que sempre ultrapassam o querer enriquecer o currículo.

 

O sítio que escolhemos também acaba por dizer muito sobre os desafios e interesses que queremos encarar. Acabo por sentir que fazer um intercâmbio em Macau se tem revelado uma turbulência de emoções. Como disse acima, só passou uma semana, mas quando os dias são imprevisíveis, quando estamos a adaptar-nos ao outro, a um outro tão diferente de nós, a um lugar onde somos estranhos em sentido amplo, poucos dias sabem a muito; somos mais capazes todos os dias porque agora estamos por nossa conta. Começar do zero desta forma não se compara a qualquer experiência e deverá ser por isso que cedo nos é dito que é importante passar por isto, crescer.

 

5 de setembro 2019

 

Crescer.

 

20 dias passaram desde que cheguei aqui e o meu crescimento, autoconhecimento e capacidade de superação atingiram níveis que um par de anos não pareceu carregar.

 

Nas primeiras noites e manhãs tive frio. Foi um frio similar àquele frio de dormir com uma botija de água quente porque é mais confortável, o mesmo frio de ser verão e ficar no sofá com a manta só a cobrir os pés porque sim. É o frio do aconchego, da necessidade de privacidade, de ver todos os dias pessoas tão diferentes de mim e ainda assim ser eu A pessoa diferente, a estranha.

 

Não há um manual de instruções que nos ensine a pôr de parte certos estereótipos e preconceitos que nem sabíamos bem que tínhamos; que nos ensine o que se faz fora da bolha na qual vivemos: cá somos ninguém para toda a gente, não temos o nosso quarto, família e amigos, vivemos com um budget mais contado. Aterrámos aqui e o mecanismo de defesa é comparar tudo e todos com o que conhecemos e o que conhecemos é, na nossa cabeça, melhor. Mas só é melhor porque não é difícil e o difícil nisto vem da maneira como mexe com o ego e com inseguranças.

 

No fundo, há que aceitar que não vamos controlar 99,(9)% do nosso dia e das duas uma: ou embarcamos ou nos refugiamos no quarto à espera que um monte de desconhecidos batam à porta com o sonho de serem nossos amigos.

 

Vir estudar para Macau não é um tipo de intercâmbio do género «férias grandes» e a Universidade de Macau tem muito de similar à Nova, seja no método de avaliação, seja na proximidade professor-aluno. Uma grande diferença passa por um requisito de presenças obrigatórias a 80% das aulas, bem como um horário mais próximo do que chamamos de pós-laboral, o que, por um lado, permite ao estudante aproveitar todo o seu dia e, por outro, poder ainda fazer planos para a noite. Tem-se afigurado uma faculdade exigente e proporciona as equivalências necessárias para fazermos um semestre similar ao que faríamos na Nova.

 

Na minha ótica, essa rotina diária e seriedade conferem boas ferramentas de comparação entre o ensino português e o macaense, rodeiam-nos de portugueses que vivem e estudam cá – quer nascidos em Macau ou vindos de Portugal – e conseguimos atingir um certo tato e sensibilidade sobre como se vive aqui, o que não é certamente possível em todas as faculdades; nem há qualquer outra cultura em que vejamos um distanciamento tão grande e, ao mesmo tempo, a proximidade com Portugal.

 

Com isto, pretendo dar uma perspetiva transparente, sendo esse o lema que adoto sempre. Fazer um intercâmbio tem tanto de liberdade, de festa, surpresas, de um desapego saudável aos bens materiais, lugares e pessoas que nos acrescentam, como de uma quantidade de desafios iniciais que nos fazem questionar se isto é certo, se estamos a fazer o nosso melhor, que nos obrigam a saber gerir horários, gerir dinheiro, lidar com situações inesperadas, lidar com alguma solidão. Há um processo de normalização e abrir a mente desde o dia 1. E desde o dia 1, cresci. E todos os dias compreendo-me melhor, relativizo os meus medos e continuo a brotar.

 

Passam 20 dias e sou mais feliz por estar do outro lado do mundo a deixar-me contagiar pela beleza da diferença.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

 

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