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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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25
Abr19

Let's talk about: 25 de Abril #2

Jur.nal

25 de Abril – A revolta desiludida na traição

 

            Um comunista desiludido com a glorificação de um início que foi tomado como o fim

 

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(Imagem: Capa de 25 de abril de 1974 do República; um jornal, já extinto, conotado à esquerda).

 

Se é chegada a anunciada

Noite da libertação

Se estes ventos a cantar

São o fim da escuridão

 

Pedem-me que fale num tempo floreado por gerações.

 

Mistificada a origem.

 

Heroicos os sobreviventes.

 

Acolhendo a aparente liberdade, o povo subjuga-se de novo ao regime opressivo, mascarado desta vez por uma débil democracia afirmando a desnecessidade de revolta. Celebramos esta épica data não compreendendo, porém, que o regime contemporâneo não é o conquistado em Abril, mas sim o forçado em Novembro. Dia 25 de Novembro. Rouba-se novamente o poder ao povo, entregando-o aos grandes burgueses. Tal como afirmava o célebre Francisco Martins Rodrigues:

“Se as personalidades eminentes que nos governam fossem capazes de dar a cara festejariam, em vez do 25 de Abril, o golpe militar de Novembro e reconheceriam que nesse dia, ao contrário do outro, não saiu o povo em delírio para a rua mas reinou o silêncio opressivo do estado de sítio; fascistas e magnatas rejubilaram, os militares fiéis ao povo foram metidos nas cadeias e os pobres entenderam que chegava ao fim o seu breve tempo de liberdade e esperança.

 

A voz do povo esquecido grita de longe que ganharam as batalhas, mas, perderam, inevitavelmente, a guerra. Por todo o lado é-nos forçosamente ensinada uma história corrompida, persuadindo o espírito revoltoso a um estado de pacifismo e criando uma inércia abundante na alma humana. Tentando apagar da memória lusitana a ideia de liberdade, entregam-nos uma sociedade com a qual devemos estar satisfeitos, afirmando as conquistas reclamadas. Mas, o que resta realmente de Abril?

 

Presos num ciclo vicioso centrista, de onde a rotatividade é rotina e a política se tornou uma farsa traidora do povo, a real esquerda é esquecida. Num esforço incessante de a apagar do cenário político, envenenam o projeto socialista na mente lusa, conformando-se o povo à sua condição inferior.

 

A luta clandestina prosseguida pelo Partido Comunista Português, a real força opositora e de resistência ao regime fascista durante os 48 anos da ditadura protagonizada pelo mítico Salazar, é minorada nos livros de História. Ensinamos às gerações futuras as grandes e honrosas conquistas e proezas de Delgado, Soares, Sá Carneiro, deixando para trás os 400 anos de prisão acumulada por parte dos militantes do PCP, as conquistas grevistas legais, os movimentos oposicionistas juvenis que criaram a EDE. Falamos, e com legítimo orgulho, da conquista proclamada pelo MFA mas esquecendo-nos, porém, que toda a revolta e insurreição só foi possibilitada devido ao clima que o PCP passou anos a fomentar nas massas, a vontade de liberdade e esperança num regime renovado. O movimento popular foi o que fez do 25 de Abril a vitoriosa rutura com o fascismo.

 

Porém, de que serviu a luta clandestina e os sacrifícios humanos se tudo o conquistado foi atirado novamente aos lobos?

 

A reversão das nacionalizações, a injeção de capital mirabolante em bancos privados, a contínua precariedade da classe trabalhadora, o enfraquecimento crescente do sistema nacional de saúde... O que resta verdadeiramente?

 

Conquistámos grandes liberdades políticas e direitos sociais. Concebemos, como todos nós sabemos, uma grande jornada pela emancipação da mulher e a legalização do casamento homossexual. Ainda estamos longe do ideal, mas progredimos para bom porto. Temos um catálogo de direitos fundamentais excecionalmente completo. Mas, e a real aplicação do espírito de Abril?

 

Numa sociedade cada vez mais despolitizada, resultante da má representação da Nação, percebemos a indiferença com o rumo que Abril tomou. Levam-se à rua as gentes para reivindicar o que é legitimamente seu, entregando-lhes medidas minoritárias, acabando por servir somente para deitar poeira nos olhos da Nação, tendo esta a crença de que tudo estará feito.

 

Honrosas as conquistas. Estagnação afigurando-se evidente. O mais prudente é, de facto, acomodarmo-nos à comunidade como ela se exibe hoje. Porém, seremos os Heróis do Mar se ao invés de lutarmos “contra os canhões” nos subjugarmos a estes?

 

Micaela Ribeiro

 

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