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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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03
Dez19

Slow J no Coliseu de Lisboa: a afirmação de um colosso

Jur.nal

Há magias que nunca vêm sós. É o ciclo da vida, disse Slow J, natural da Música. Há presenças que nunca estão sós. O meu avô faleceu, disse João Batista, natural de Setúbal. Confissões sem receio de quebrar qualquer magia. Deu o nome do avô recém-falecido ao filho recém-nascido. Assim continua o ciclo. Assim perpetua a magia. Assim, João ainda procura o caminho.

 

Esta confissão veio no palco do Coliseu dos Recreios, palco emblemático no coração de Lisboa, ornamentado sob a marca “Super Bock Em Stock”. Talvez não esgotado, mas a mim parecia-me inteiro, total, num palco onde já fui feliz, graças ao concerto de Sam the Kid em Outubro onde comemorou 20 anos de carreira e onde o Coliseu, esgotado nesse dia, também foi feliz e inteiro. Um mês e meio depois repetiu-se. Vejo aqui uma simbologia, uma espécie de passagem de testemunho, como se o facto de Sam ter actuado ali a comemorar o passado e Slow a comemorar o presente desenhasse magia na Música. Como se fosse Hereditário apenas de se escutar.

 

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Sendo pai de família mas também sonhando, Slow J definitivamente agigantou-se naquela noite. “O Nascimento de um Colosso” foi o título duma peça de Alexandre Ribeiro na publicação “Rimas e Batidas”, aquando o concerto de lançamento do segundo álbum "The Art of Slowing Down". Com qualquer autoridade que me possa ser atribuída, confirmo: o colosso vive, maior e mais mágico do que nunca.

 

Entrando com “Também Sonhar”, seguiu-se um dos seus emblemáticos sorrisos, tão puro e genuíno como se o mundo fosse um paraíso, como se nós, público, enérgico e apaixonado público, fossemos os habitantes do seu pedaço de terra e magia. A segunda canção foi “FAM”, com uma entrada surpresa de Papillon, que detém um verso neste som, e, de repente, os donos daquele mundo eram dois, sem qualquer problema, sem qualquer dúvida, eram eles e nós, ou só nós, todos, de olhos rendidos em poesia dançante.

 

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No meio desta apaixonante energia, decerto perdoar-me-ão por não me lembrar de todas as canções, pelo menos não da sua sequência, enquanto Slow J saltita pelo seu fantástico catálogo. O último álbum dele, obviamente, não faltou na sua totalidade, ou não fosse este uma espécie de concerto de apresentação do álbum (pelo menos foi assim publicitado, embora Slow J já tenha realizado outros concertos no entretanto). Mas outras canções poderosas não faltaram, sobretudo do seu segundo álbum, desde a “Comida”, com o público do Coliseu mágico a degustar cada uma das barras pensativas e assertivas daquela canção sem refrão, fazendo ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez com o Figo, até à “Às Vezes”, onde a ausência de Nerve no palco (a rapariga ao meu lado comentava que seria incrível se Nerve entrasse, mas não entrou, e isso não importou) não significou a ausência da sua magia no público. A “Muros”, de todas as canções, libertou-me as primeiras lágrimas; a “Serenata” trouxe ainda mais, dum público romanticamente rendido em lágrimas de corações partidos, porquanto o amor seja o ar que ali se respirou.


Na “Lágrimas”, contudo, veio aquele que foi, provavelmente, o momento mais mágico da noite. Do nada, os assistentes de palco trazem uma plataforma. Três cadeiras, um microfone, duas guitarras, uma acústica e outra portuguesa. Slow chama mais habitantes para o seu mundo (perdoem-me, novamente, por não me recordar dos nomes). Um seu ex-professor de música e um amigo produtor de longa data. O primeiro na guitarra portuguesa, maravilhosamente dedilhando lágrimas dos acordes, e o segundo na guitarra acústica, fazendo o ritmo angustiante e estranhamente reconfortante que qualquer choro tem. Só as paredes do Coliseu agora sabem o quão ecoaram "lágrimas de quem se ama" noite fora. Não dá para repetir, não imagino outro palco onde tal possa ser feito. Se lágrimas tivéssemos, ou nos olhos ou na alma, ali ficaram, deitadas no chão, libertas, abraçadas pelo pequeno mas majestoso solo de guitarra portuguesa do ex-professor de música de João Batista.

 

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Em “Mea Culpa” houve o momento mais insano, com aquele drop do beat a despertar toda a energia que ainda não havia sido exposta pelo público. Foi hora de levantar do colchão, de assistirmos a mais um sorriso de João (infinitos houveram), de escutarmos a voz intensa e rasgada e ao timbre único e acolhedor de Slow, e de prosseguirmos por mais clássicos como “Fome” (outro momento de libertação intensa de energia), “Cristalina” (numa performance sempre íntima e angelical de quem pede socorro e não encontrou o seu caminho), “Water” (onde Richie Campbell também faz sentir a sua magia despeito da sua ausência física, olha por mim mamã) ou “Vida Boa” (a terminar o concerto fazendo o público entoar que quer uma vida boa, sem se aperceberem, talvez, que são estes momentos que nos dão essa vida).


Na “Silêncio” ficou registada o momento mais insólito, que só Slow J conseguiria transformar num momento incrível. A meio da canção, o microfone começa a falhar intermitentemente, e o instrumental também salta umas partes. Antes de conseguir acabar o seu verso, que surge antes do último refrão, de repente o instrumental começa a tocar o playback do refrão, totalmente fora de tempo. Slow J, sempre olhando para a equipa técnica do lado do palco, aproxima-se deles, e assinala para parar. Sorriu, só queria sorrir. Não era suposto acontecer, é uma quebra de magia, um percalço na história que ali se fazia. Mas não era. Da sua autoridade, autoridade de amigo como quem é dono do mundo mas não cobra imposto a ninguém por existir, saído dum sorriso, pergunta ao público "vamos cantar outra vez?". Escusado será dizer que o público já estava a bater palmas, para não permitir a morte da magia; e escusado será dizer que a segunda vez foi ainda mais íntima, incrível e ressonante que a primeira. Agora, nada falhou tecnicamente. Porque nada falhou naquela noite de Lisboa rendida.

 

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Se depois desta vida vier a outra, em todas ficou eternizado a magia que João Batista carrega e que Slow J transmite. Caro leitor, não pense que isto são personas diferentes, que entre canções é-se João e nelas é-se Slow. É precisamente esta a magia: são apenas etiquetas dum mundo que não se separa, e recebe o seu público como abraços há muito suplicados. Foi como se encontrássemos o caminho nas cordas vocais de João, nos grafismos inteligentes no ecrã ao fundo do palco, no espectáculo de luzes surpreendentemente adequado a cada interpretação. Foi um sonho durante o espectáculo, durante a arte. Depois disso, o público saiu como entrou: o público continuou, também, a sonhar.

Em “Arte”, cantaste que querias ser como os grandes cantores. Conseguiste.

 

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Duarte Sales

(Licenciado em Finanças, Mestre em Gestão de Sistemas de Informação, a trabalhar no INE)

 

25
Set19

Novos Sons #6 - You Are Forgiven

Jur.nal

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João Batista Coelho apresenta-se à tuga como Slow J em 2015 ao lançar The Free Food Tape. Apesar de nascido e criado em Setúbal até os 8 anos, é nos 12 anos seguintes que João Coelho muda de casa 10 vezes, passando por lugares como Cascais, Carcavelos, etc..., acabando por ir parar a Londres, onde estudou Engenharia de Som.

 

Se há artista que mereça qualquer tipo de hype é este senhor, pois em 2017 lança The Art of Slowing Down, sendo considerado um dos melhores trabalhos realizados em Portugal.

 

O estilo poucos sabem ao certo, é uma mistura entre todos. Sendo que: seja qual for… é bem produzido.

 

Hits como Cristalina, Às vezes e Pagar as Contas cercaram o país, e nada mais podíamos fazer senão ouvir. As harmonias contagiantes e os espaços silenciosos bem preenchidos, faziam com que nos apegássemos ao botão do repeat.

 

21/9/2019

 

O dia é de chuva. Abro o Twitter e num dos primeiros tweets que leio vejo algo do género: “Obrigado Slow”. O coração vai batendo cada vez mais forte, abro o YouTube e lá está, outro álbum. Sem qualquer aviso prévio ou publicidade, lá está ele: “You Are Forgiven”, um dos melhores álbuns que já vi passar pela frente.

 

Slow J não aparece muito, entre os poucos concertos e aparições em público vai mantendo a sua pessoa fora dos holofotes. Mas no que toca à sua música, cada batida é escutada longe.

 

Também Sonhar,

“Eu queria ser melhor pai que o meu pai
Ele trabalhava demais e agora eu trabalho por todas as horas que ele trabalhou sem amar o que faz”

 

É nada mais do que a primeira faixa do álbum e já tenho os olhos pesados. Acompanhando o trabalho do artista apercebemo-nos que os agradecimentos à família são espontâneos e que é por eles e para eles que o mesmo é tudo o que é. A sua arte reveste a alegria que sente em hoje poder fazer o que gosta, tendo possivelmente este sonho sobrevivido às custas daqueles que sonharam também em si.

 

“Bem-vindo ao topo
Topo do quê?
Topo p'ra quem?
Qual é o teu sonho?
Protege-o bem
Pra não esquecer”

 

A fama surge, o ano é 2017 e só se ouve falar em Slow J, se o seu sonho era ser famoso, crê-se que o haja alcançado, mas será apenas isso?

 

Um álbum com 9 faixas que culmina com a música “Silêncio”, onde João, possivelmente, revela um dos seus maiores sonhos:

“Eu queria ser a cria que ia libertar o mundo
A lâmpada que acende e te guiar no escuro
Há tanta máquina que tende a incentivar o fumo”

 

Toda a letra e métrica de João é confusa, por mais subjetivo que seja ao dizê-lo, acredito que as suas músicas se sentem mais ao serem ouvidas do que lidas. A letra em si - embora complexa - vê-se vazia longe de toda a produção musical. Sem contar que a voz do Slow dá todo um voo ao sentimento depositado nas suas canções.

 

A música é “Só Queria Sorrir”, e a cada faixa sinto-me preso a este álbum.

 

Já o repeti, num espaço de 3 dias, umas 10 vezes, inclusive enquanto tirava uma sesta domingo à tarde.

 

Nesta canção observamos uma luta consigo próprio. Possivelmente uma das canções mais fortes do álbum, onde Slow J luta contra si mesmo, perguntando-se o que leva a que os outros se levantem e ele não. Uma certa culpa direcionada ao quotidiano suburbano onde o tempo voa e o sair da cama é apenas mais um passo a dar diariamente, apenas mais uma etapa. É aqui que João Batista revela que uma das suas motivações - para que possivelmente se dedicasse à sua paixão pela música - seja o poder levantar e não se sentir deprimido, como outrora.

 

“Primeira motivação pa' me tornar quem eu quiser ser
Pa' sair da cama mas nunca viver com pressa
Eu só queria sorrir e nunca mais viver depressin'”

 

Não quero ser exaustivo e isto é de facto muito pequeno. Mas é um álbum em que há tão pouco que se diga. Das poucas coisas que digo é que, a meu ver, You Are Forgiven revela-se como o melhor álbum da década em Portugal e possivelmente um dos melhores da história portuguesa. O espaço que o artista nos deixa para que os nossos sentimentos e pensamentos corram pelos corredores é algo soberbo.

 

A música é: “Onde é que estás?”; e pouco se tira da mesma. Um confronto e uma sequência de perguntas sobre o seu estado, sobre o seu paradeiro:

“Johnny boy onde é que estás agora?
Tu só querias ser feliz
Tanta coisa que tu tens agora
Diz ao mundo se estás triste
Deixa o mundo saber”

 

Slow tenta alcançar a “verdade nua e crua”, justificando que todas as etapas já passadas não o tornam mais Slow do que o costume. Refere que hoje tem tudo, mas que continua como antigamente, tendo sempre tudo e todos ao seu redor.

 

You Are Forgiven é um pedido de desculpas de Slow J a João.

 

Jefferson A. Fernandes

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

 

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