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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

19
Jun19

Pedido público de desculpas ao Sr. Jackie Chan e à sua mãe

Jur.nal

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Bem sei que os sonhos não interessam senão a quem os tem. Nas palavras de Dennis, personagem da comédia It’s Always Sunny In Philadelphia: «I hate listening to people's dreams. It is like flipping through a stack of photographs. If I'm not in any of them and nobody is having sex, I just don't care.” Porém, o mesmo não se passa com os erros alheios, e, bem, eu cometi um grave erro ontem.

Tudo começou ao encontrar o Jackie Chan e a sua mãe, algo que para os sonhadores mais atentos levantaria suspeitas, uma vez que a pobre senhora já não está connosco. Reagi como reajo ao avistar qualquer celebridade: curioso, mas sem querer chatear. No entanto, e para meu espanto, o célebre ator, com toda a amabilidade a que nos habituou nos grandes ecrãs, convidou-me a ficar. De seguida, um pouco melancólico, como que numa subtil crise de meia idade, elogiou a minha jovialidade. Em poucos segundos, éramos já praticamente amigos e, por isso, senti-me não só à vontade para pedir à pobre mãe que nos tirasse uma foto, como também que o fizesse com o seu próprio telemóvel, pois a câmara do meu não estaria à altura – o que corresponde, infelizmente, à realidade, desde que fui furtado.

A senhora estranhou e eu também - como é que era suposto eu ficar com as fotos? – mas lá o fez. Posto isto, eu e o Jackie começámos a festejar juntamente com os seus dez amigos asiáticos aparecidos do nada. Isto tudo numa mistura de um centro comercial com um armazém, importada diretamente de um dos seus vários filmes. Tudo me corria de feição, mas tal como Icarus, voava demasiado perto do Sol. Rodeado de asiáticos, não consegui conter a necessidade de demonstrar toda a minha perícia linguística, proferindo um orgulhoso arigato, que como todos sabemos, é japonês para obrigado.

Ora, o Sr. Jackie e a sua família são chineses. E misturar as duas nacionalidades é um grave erro. Imaginem, talvez, a rivalidade portuguesa e espanhola, com um bocadinho (enorme eufemismo!) de genocídio e horríveis atrocidades, relativamente recentes, à mistura.

O Jackie e os seus amigos, para meu alívio, permaneceram na sua inexplicável festa. Mas, a senhora... A senhora Lee-Lee Chan olhou-me com desdém e fez a cara mais azeda que alguma vez vi, sonho ou realidade.

Felizmente acordei pouco de seguida, um pouco como quem encontra a morte nos seus sonhos. Agarrei no telemóvel e confirmei o meu desastre. Pedi, mentalmente, desculpa à senhora e dei graças por se tratar apenas de um sonho de que nunca ninguém iria saber.

 

André Carmona

 

08
Jun19

O Pesadelo Americano (Resposta ao JU(NIO)R.NAL #3)

Jur.nal

 

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.

 

Assim começa o segundo parágrafo da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, publicada no dia 4 de Julho de 1776, um dia que ainda hoje é celebrado não só nos Estados Unidos, como por todo o mundo (nunca me irei esquecer das pequenas festas e barbecues em minha casa, ou dos cocktails que a Embaixada promovia, ambas decoradas com bandeirolas e fitinhas azuis e vermelhas, embutidas com um espírito de liberdade que sempre vestiu essas cores), como o dia da liberdade. O dia em que se tenta alvejar os céus, quer seja com foguetes, petardos ou até mesmo balas.

 

O dia em que se come tudo: hambúrgueres, pizzas, cachorros quentes e sloppy joe’s, tudo comida readaptada dos seus países de origem e apelidadas com as cidades que as adotaram. É um dia de liberdade, que representa todos os estereótipos americanos de que os europeus tanto gozam e de que os americanos tanto gostam.

 

Não escrevo este texto nesse dia, mas sim no dia depois das celebrações do Dia-D, aquele fatídico dia em Junho de 1944 em que milhares de jovens norte-americanos, o meu bisavô incluído, invadiram as praias normandas para retomar uma Europa envenenada pela raiva e pelo ódio, por homens fantasmagóricos e tiranos que tiraram tantos sonhos, tantas casas e tantas vidas. Uma Europa incendiada, esfolada, pintada a cinza e perfurada com balas. Sem estes americanos (e sem os ingleses, franceses, canadianos, australianos e neozelandeses que assistiram na intervenção), o que seria a nossa Europa?


São as duas facetas da história americana. O orgulho do que somos e a memória do que fomos. São aspectos integrais da nossa cultura, passando até mesmo para o nosso ser. Os americanos são conhecidos por ser arrogantes e chatos quanto a este aspeto. Talvez porque são o povo que efetivamente espalhou a liberdade pelo mundo. Seja ideologicamente, militarmente ou literalmente, este desejo americano de liberdade, quase que inserido no nosso ADN, brota nas nossas ações e nos nossos dia-a-dias.

 

Este desejo torna-se num sonho. Numa ideia. Numa crença de que, através da liberdade, da responsabilidade e do trabalho de cada um, se atinge a felicidade. In a nutshell, o sonho americano é isto. Não passa desta vontade de ser feliz, e nesta crença de que livres chegamos lá. E, enquanto país, nada exemplifica este sonho melhor que os próprios Estados Unidos da América. Basta pensar na quantidade de Americanos que morreram a carregar esta tocha de liberdade, por todo o mundo. Basta pensar na quantidade de imigrantes que chegaram aos Estados Unidos, pobres e famintos, e se tornaram em autênticos sucessos. Basta pensar na quantidade de Americanos que viveram e vivem felizes graças à liberdade que lhes deram.


Claro que a realidade nunca é igual ao sonho. Estes EUA da liberdade são também os EUA da guerra do interesse político, dos Iraques e dos Afeganistões. São os EUA da intolerância à imigração, das walls e das crianças aprisionadas na fronteira. São os EUA do sistema de saúde falido e ridiculamente caro, dos veteranos sem casa e das exorbitantes propinas de 10.000 por ano (nas universidades mais baratas). São também o país da felicidade falsificada, do neoliberalismo desgastante que com os seus anzóis de capital verde força um sorriso na cara dos americanos, nem que seja para o cliente os ver com melhor cara. E sim, como dizes Milene, são um país em que por vezes o violador é tratado com mais respeito que a mulher.


A América não é só o sonho que a representa, mas também é a realidade negra que o sonho esconde. Quase como duas facetas da mesma moeda. Isto deverá ser óbvio para qualquer observador, nacional ou internacional. Portanto, sim, concordo com a afirmação “o sonho americano é só um sonho”. Nunca almejou ser mais que um sonho. No entanto, é graças a sonhos que as realidades se transformam. Foi graças ao sonho americano que os Estados Unidos se libertaram. Foi graças ao sonho americano que a Europa foi libertada das presas fascistas, nazis e soviéticas. E, foi graças ao sonho americano que milhares, se não milhões de vidas se realizaram. E, será graças ao sonho americano, que as realidades e injustiças que agora prendem os Estados Unidos serão ultrapassadas e destruídas.


Acho injusto culpar o sonho americano, ou assumir que ele não existe porque ainda não se concretizou. Um sonho deste tipo não passa de uma mera pretensão à perfeição, de um ponto de referência, de uma estrela polar distante. No entanto, é através dele que os Estados Unidos se guiam. E, sabendo que deste sonho rebenta a liberdade e felicidade, dificilmente haverá forma de o julgar.

 

Como já deixei implícito, não quero desculpar tudo o que os Estados Unidos fazem, fizeram ou irão fazer. De todo. Se pudesse, enviaria inúmeros Presidentes, Senadores e Representantes para Haia, para o Tribunal Internacional dos Direitos Humanos, ou para algum sítio que seria indecente estar aqui a expor. Estes políticos não são quem concretizará o sonho americano. Essa função caberá aos próprios americanos, e a mais ninguém.


Termino com mais duas observações. Em primeiro lugar, os Estados Unidos não têm a responsabilidade de ser exemplo para todos os outros. É engraçado que os europeus criticam os americanos que acreditam no nacionalismo defensor da América como país #1 do Mundo, mas depois criticam os Estados Unidos por não assumir esta posição. Percebo, dada a função que os Estados Unidos tiveram na libertação mundial de inúmeros povos, mas não são o pai de todos os países, e acho que ninguém gostaria que fosse.

 

Em segundo lugar, antes da liberdade e da felicidade que representam a binomia do dito sonho americano, vem antes a vida. É o que está positivado na própria Declaração da Independência que acima citei. Por isso, é óbvio (e, para mim, moralmente correto) que os Estados Unidos sejam mais conservadores na sua abordagem contra o aborto. Não vou discutir até que ponto é verdade que os violadores passam menos tempo na prisão que as mulheres que abortaram, até porque há Estados onde o aborto é praticamente legalizado e onde os violadores são executados. No entanto, parece-me que implícito no texto a que respondo, está uma certa declaração de que o aborto e a sua legalização é essencial para atingir a liberdade e a felicidade caraterísticas do sonho americano. Recordo que, sem vida, não há liberdade nem felicidade, algo tão óbvio que os próprios founding fathers plasmaram na Declaração da Independência. Chamem-me de conservador, mas se é preciso prescindir do direito à vida para haver liberdade, não me importo se me chamarem de autoritário também.

 

Concluindo, os Estados Unidos têm muito por onde mudar, especialmente no campo da dignidade humana e, mais especificamente, no campo dos direitos das mulheres. Mas, recordo que ainda nenhum país acertou nesta fórmula, e há muito trabalho para fazer, por todo o mundo. Ainda na semana passada, a Holanda quase que executou (para utilizar terminologias modernas, eutanasiou) uma rapariga de 17 anos por ter sido violada e por sofrer de danos mentais graças à violação que sofreu (felizmente, o pedido foi negado, embora seriamente considerado). Imaginem só, um país onde a mulher violada pode vir a ser morta e o violador passa uns 20 aninhos na prisão porque a “dignidade” não permite mais. Até parece que isto é notícia do Levante, e não dos Países Baixos.Termino com um apelo à vida, à liberdade e à felicidade. O “pesadelo americano” só será resolvido pelo seu sonho e, tendo tudo em consideração, as coisas podiam estar bem piores. Recordo ainda o que um homem muito sábio outrora disse relativamente a isto do patriotismo que aqui tento defender:

 

Patriotism is supporting your country all the time, and your government when it deserves it. (Mark Twain)

 

Tomás Burns

 

 

22
Mai19

Como Explicar a Temporada 8 de Game of Thrones através do Direito:

Jur.nal

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Prometi-vos, ainda com a última temporada a meio, uma crítica de Game of Thrones. No entanto, não o fiz na altura com medo de que parte da minha crítica ficasse desvirtuada, e,  terminada a temporada, concluo que até estava certo, mas pelas razões erradas. Isto porque temi que os show-runners (D&D) pudessem ainda tirar um último coelho da cartola, fazendo jus ao trabalho apresentado nas primeiras temporadas, porém esses coelhos estão há muito mortos e chegado ao fim confirmo: já não existe sequer a cartola.

E penso que, embora em alturas diferentes e por motivos diversos, chegámos quase todos a esta conclusão. Nomeio, a título de exemplo, o meu pai, que há umas semanas atrás me fez perder a paciência ao defender o episódio da batalha contra os mortos, mas já ontem, quando mencionei a série, assumiu um silêncio comprometedor e uma postura derrotada.

Posto isto, seria tanto pouco desafiante elaborar uma crítica séria de algo tão evidentemente mau, como também seria doloroso estar para aqui a listar os infinitos atentados à inteligência que esta série cometeu.

Trago-vos, portanto, e por agora, algo decididamente mais único e proveitoso:

Como explicar a Temporada 8 de Game of Thrones através do (curso) de Direito:

Imaginem que a última temporada é uma importantíssima cadeira de 8 créditos, leccionada por um exigente professor à la Tiago Duarte (as minhas condolências para aqueles que não tiveram a oportunidade de entender a referência, pois não conheço melhor professor) e para acrescentar à dificuldade, é a primeira vez que está a ser dada por este senhor(a), que não irá seguir o método assumido nos outros anos, consistente em apresentações de alunos e/ou leitura de powerpoints.

Ora, D&D aparecem apenas na primeira aula do semestre, afinal de contas tiraram alguns 18’s nas primeiras seasons e as outras até se foram fazendo e vão às suas vidas diárias, aquelas estranhas vidas de quem não comparece na faculdade e cujos detalhes desconheço de todo.

Bem, a vida acontece e falta uma semana para os exames, plural, pois como todos os alunos, também D&D enfrentam mais que um -  nomeadamente, a trilogia de exames StarWars para os quais a Disney os inscreveu - quando D&D começam a pegar nas coisas. Os primeiros dias são gastos a recolher o pouco material e em idas às compras por códigos, enquanto esperam por esmolas no facebook da turma. Embora estejam cientes de que o exame de GOT vem primeiro, a matéria de StarWars é mais interessante, mais abundante e menos exigente, pelo que vão adiando o estudo de GOT, mas nada que umas diretas bem feitas não resolvam, acreditam D&D. Com o exame na segunda, e chegado o fim de semana, combinam um estudo na casa do amigo, mas levam a PlayStation para as pausas. Acabam por não estudar muito, mas nada que uma tarde no Skype a resolver exercícios não solucione.

Chegada a noite de domingo de Skype (porque o amigo não pôde de tarde), D&D assumem que já não têm tempo para exercícios e que o melhor a fazer será anotar o código de GOT.

Passam as horas seguintes nessa tarefa, atráves de uma qualquer sebenta manhosa em segunda mão que arranjaram, e vão-se deitar às 3 da manhã.

Chegam 15 a 30 minutos atrasados ao exame, provavelmente porque ainda tiveram de ir aos serviços académicos e/ou talvez porque foram imprimir legislação à papelaria.

Deparam-se com seis questões.

As primeiras duas pedem para explicar conceitos. Fácil, assumem. Abrem os códigos, viram as folhas, pedem ao colega do lado, vão à casa de banho consultar o telemóvel e lá as acabam razoavelmente. Tanto que a Wikipédia as atribui a outras pessoas

A terceira pergunta é a primeira de um díficil caso prático. Pede uma resposta bem mais complexa que as primeiras duas e influencia as restantes três.

  1. O que acontece ao Night King?

Infelizmente para D&D, a única coisa que conseguem retirar das cábulas é a sua morte. Falham redondamente no (como?) e nem sequer chegam a responder ao (porquê?). A resposta do (quem?) até se aceita, embora não fosse a resposta da doutrina maioritária, não obstante a tentativa de justificar com ligações de última hora. A resposta sabe a pouco e deixa muitas pontas soltas, bem como um Jon e um Bran insignificantes.             

4 e 5. Dany vs Cersey

Se até aqui D&D já acusavam dificuldades, nestas duas questões espalham-se ao comprido. No ínicio da sua resposta, decidem dar vantagem à Cersey. Determinam que os dragões não são omnipotentes e que existem maneiras de lidar com eles. Umas linhas depois, já descrevem a situação de Cersey como negra, destino que mais tarde se vem a confirmar, porque afinal os dragões são omnipotentes. Depois, sem saber o que fazer com Jamie, decidem responder como se estivéssem nas primeiras temporadas e ignorar qualquer desenvolvimento da personagem, conseguindo ainda encavalitar desajeitadamente a resposta a Euron num asterisco pelo meio.        

Entretanto, olham para as cábulas e percebem que a resposta à pergunta 6 está dependente da Dany. Ouvem os sinos da igreja simbolizar o meio dia e no desespero de terminar o exame, têm uma ideia fenomenal.

  1. The Iron Throne

E com apenas cinco minutos para entregar o exame, a resposta final de D&D fica algo do género:

“Dany enlouquece, o Tyrion vai preso. Jon faz a sua escolha. Jon vai preso. Os nobres aparecem em Kings Landing. Greyworm deixa Tyrion e Jon vivos e sai de cena. Jon sai de cena para a muralha, esta ainda relevante por alguma razão. Bran é eleito rei porque o Tyrion conta uma história, afinal já ninguém quer ser Rei ou ser independente, bem menos a Sansa, porque nenhum homem do Norte seguirá um Rei do Sul....Stark, ninguém contesta absolutamente nada e voltam todos para casa felizes. ”

The End.

Bonus Scene: Bronn, que não entendia o conceito de um empréstimo, temporadas atrás, é feito Lord of Highgarden and Master of the Coin.

André Carmona

Also: https://twit.ter.com/Schrecko/status/1130315365840506883

03
Mai19

Poesia #6

Jur.nal

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Duas da madrugada,

Uma leve brisa

E uma praia deserta,

Será o paraíso?

 

Se há coisa mais bela

Do que o silêncio

Coisa essa é

O som do mar,

O som da imensidão

A bater no areal,

O som da voz de Deus

Ou de outra coisa

Que se lhe assemelhe,

O som de tudo

Para os ouvidos de nada.

 

Do pó viemos

E para o pó iremos,

A única forma

De enquanto existimos

Pó não sermos

É viver,

E viver é sentir,

É sentir a brisa

Desta noite estrelada,

É sentir a areia fria

Nos pés gelados,

É escutar o mar

De olhos fechados,

É sentir os sorrisos,

As lágrimas,

Os abraços,

Os beijos

E os gritos,

É vislumbrar num olhar

A imensidão

De tudo aquilo

Que podemos sentir,

(E podemos sentir muito)

 

Os amores dos livros

Não são impossíveis

E a felicidade não está

No final de semana.

 

Pensemos e sonhemos

Mas por tal não fiquemos,

Sobretudo vivamos,

Porque se não vivermos

De defuntos adiados

Não passamos,

E o que pior

Do que isso será?

Decerto que nada.

 

Mas mais importante

Do que qualquer conclusão

É fechar os olhos

E escutar o mar.

 

André Neves

15
Abr19

Poesia #4

Jur.nal

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Não conheço nada nem ninguém,

(Conheço ideias que das coisas concebo).

 

Não poderá para mim alguém algo ser

Que para além da minha compreensão esteja,

Tal como não poderei eu para outrem ser algo

Que para lá se encontre do que tal mente projeta.

Nada intrinsecamente sou e o que para mim os outros são

De uma imagem por certo jamais dia algum passará.

 

O amor não mais se me afigura do que um sentimento

Nascido de uma representação mental,

Representação essa que não raras vezes disforme se torna

Aquando o primeiro sopro de um vento não endereçado,

(Tal como todos os sentimentos).

 

O que para o que sinto releva não é a mudança nos entes

Mas a mudança na imagem que deles tenho,

(Quem diz entes diz ideais).

 

Sou eu tantas coisas que coisa alguma sou

Que existência em si mesma tenha,

Perguntem a dez entes que comigo convivam

E nenhum deles semelhante representação de mim terá,

Seja ou não a minha conduta idêntica para com estes

Irão eles idealizar-me de acordo com a sua própria natureza,

Serei eu portanto dez sujeitos diferentes

Que parecenças poucas entre si terão.

 

Será a figura que de mim concebo a verdadeira?

A verdade e a mentira precisam de algo identificável

Para que se possam uma à outra sobrepor,

Como possível me não é conceber algo que não abstrato seja

Imerso me encontro num labirinto de paredes escritas,

De paredes escritas com palavras que significam

Exatamente o que lhes imprima a minha atual índole – ou seja o eu de hoje,

(Eu que nada sou para além de representações),

(Eu que amanhã diferentemente de hoje por mim próprio concebido serei).

 

A realidade das coisas não está nelas mesmas nem em coisa alguma

Porque as ideias que dela concebo para além do abstrato não vão,

Vivo num mundo das ideias – eu que sou uma ideia incerta que de mim conjeturo

(Como sou outras tantas ideias voláteis por voláteis ideias outras concebidas).

 

Não sou nada para além disto nem nada ou ninguém

Para além do mesmo do que sou eu é,

As coisas não têm existência em si mesmo

E de outras coisas precisam para coisa alguma ser,

(O mesmo sucedendo com coisas outras essas).

 

O meu mundo de ideias não passa – sendo ele próprio uma ideia

Por milhentas ideias diferentes diferentemente concebida.

 

André Neves

 

10
Abr19

Christchurch, cobardia e o cyber-ironismo

Jur.nal

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15 de Março, Christchurch, Nova Zelândia. No outro lado do mundo, 50 pessoas são mortas e 50 pessoas são feridas em duas mesquitas enquanto rezavam pacificamente, numa atrocidade sem paralelo, num ato repugnante e covarde que me deu vários nós no estômago logo que vi as primeiras reportagens a aparecerem no twitter às 5 da manhã nesse fatídico dia (uma da tarde nas distantes ilhas).

 

Mesmo tendo acontecido tão longe daqui, o ataque foi sentido por todo o Oeste, tornando-se intenção especial em inúmeras missas e lamentado por quase todos os líderes políticos das grandes nações. Todo o globo se juntou para oferecer as suas condolências e as suas orações aos mortos, aos afetados e às famílias destes. Chorou-se muito por Christchurch, e ficámos todos chocados.

 

Este choque ficou em grande parte devido à pessoa do perpetrador deste atroz e vil ato. Esta escumalha (recuso-me a dar-lhe qualquer atenção ao utilizar o seu nome verdadeiro, prefiro chamar-lhe de monstro, de escória, ou até mesmo de cabrão) não matou 50 pessoas só porque sim, ou porque as suas condições familiares o tornaram num homem malvado, mas porque tinha a mente envenenada por uma ideologia tóxica que eventualmente o conduziu a cometer este ataque terrorista.

 

Embora possa parecer, este artigo não será sobre a supremacia branca, ou o neo-nazismo (ou até mesmo “eco-fascismo”, ideologia com que o terrorista se identificava) como ideologias, mas sim sobre uma tendência nociva e perigosa muito presente nestes círculos, mas igualmente pervasiva noutros aspetos da sociedade. O manifesto do terrorista, que recomendo não lerem, serve como um perfeito exemplo do “ironismo” que quero explicar. Uma ideologia solta e incoerente, baseada em coisas como taxas de natalidade, é ofuscada por inside jokes e referências a memes. Durante o próprio ataque, o terrorista não hesitou em dizer coisas como “Subscribe to Pewdiepie” (aqui uma referência ao youtuber, que tem estado a competir pela posição de most subscribed com um canal indiano de música) e em tocar uma canção sérvia imortalizada pelo meme do Remove Kebab (uma asserção claramente islamofóbica).

 

Antes de mais, estas coisas são todas memes e surgem, na grande maioria das vezes, sem
intenções de maldade, estando no limbo entre humor absurdo e humor negro. Estes memes têm cada vez menos conteúdo, funcionando como referências soltas a pontos fulcrais de pop
culture ou da própria cultura da internet. Por vezes, são engraçados por serem puramente estúpidos ou absurdos, nem sequer tocando no aspeto de humor negro. De qualquer das formas, isto não significa que estes não possam ser um meio (não uma causa) de ódio e de xenofobia. A Alt-Right , e restantes movimentos semelhantes, é precisamente conhecida por esta “militarização” de memes, numa tentativa radical, e infelizmente com sucesso, de mudar a cultura, especialmente a cultura da internet.

 

Como o teorista marxista Antonio Gramsci argumentou, e como a eleição de 2016 nos EUA veio a provar, a mudança política depende da mudança cultural e, nos dias de hoje, a nossa cultura é marcadamente online. Ao contrário dos desejos de Gramsci, foi a Direita, não a Esquerda, que acabou por capitalizar este zeitgeist cultural. Aliás, já na década passada dizia Andrew Breitbart (fundador do famoso blog reacionário e pró-Trump, Breitbart): “Politics is Downstream from Culture”. Num exemplo exímio, Donald Trump cedo se aproveitou da internet e da sua cultura para promover as suas políticas, reutilizando e retweetando memes e gozando com os restantes candidatos à presidência, todos eles dolorosamente uncool. E, dentro deste rebranding cultural levado a cabo pela Direita em geral, foi a extrema-Direita que mais eficazmente readaptou estes memes, a online culture , distorcendo-os e transformando-os em símbolos do próprio movimento, e utilizando-os de uma forma particularmente nociva: como forma de diluir e limar a sua própria ideologia.

 

Ao misturar e sanear a sua mensagem com pequenos bitaites cómicos e irónicos, a extrema-direita conseguiu apresentar-se a uma geração inteira de internet-dwellers como a reação legítima a um ocidente decadente e, ao aproveitar-se da falta de compasso moral e de sentido de vida nestes jovens, implantou na cabeça destes que têm de assegurar a existência e a permanência da raça
branca, combatendo o multiculturalismo, que veem como direta ameaça a este objetivo. E é exatamente por isso que este cyber-ironismo se torna tão perigoso.

 

Ao tornar tudo numa piada, estas ideias tornam-se imediatamente mais aceitáveis e tudo a que estas se opõe torna-se mais ridículo e parodizado, quer seja o mutliculturalismo, quer seja o Islão, quer seja o europeísmo, quer seja a própria Igreja Católica. Até as próprias noções de “bem”, “moral” e “justiça” são alvos de gozo, desaparecendo em total destes posts irónicos.

 

O perigo do cinicismo e da ironia não é um problema de agora. Como David Foster Wallace perspicazmente apontava: “Irony and cynicism were just what the U.S. hypocrisy of the fifties and sixties called for. That’s what made the early postmodernists great artists. The great thing about irony is that it splits things apart, gets up above them so we can see the flaws and hypocrisies and duplicates. The virtuous always triumph? Ward Cleaver is the prototypical fifties father? "Sure." Sarcasm, parody, absurdism and irony are great ways to strip off stuff’s mask and show the unpleasant reality behind it. The problem is that once the rules of art are debunked, and once the unpleasant realities the irony diagnoses are revealed and diagnosed, "then" what do we do? Irony’s useful for debunking illusions, but most of the illusion-debunking in the U.S. has now been done and redone. Once everybody knows that equality of opportunity is bunk and Mike Brady’s bunk and Just Say No is bunk, now what do we do? All we seem to want to do is keep ridiculing the stuff. Postmodern irony and cynicism’s become an end in itself, a measure of hip sophistication and literary savvy. Few artists dare to try to talk about ways of working toward redeeming what’s wrong, because they’ll look sentimental and naive to all the weary ironists. Irony’s gone from liberating to enslaving.”

 

A ironia deixa de ser meio, nem se torna fim, passa a envolver todo o conteúdo da nossa
mensagem e tudo o que é humano, simpático e justo fica para trás. É a consequência óbvia de tudo o que a nossa sociedade pós-modernista tem vindo a construir. E não devia chocar ninguém que literais nazis estejam a utilizar memes e piadas cínicas para expandir a sua base e espalhar a sua mensagem. Enquanto o neo-nazismo vai adquirindo capital social e relevância, as restantes ideologias certamente descerão pelo mesmo caminho, adotando atitudes semelhantes online, sejam estas de Direita, Esquerda ou até mesmo Centro, numa tentativa de aproveitar esta onda de sucesso.

 

Como se pode esperar, numa atmosfera onde ninguém acredita no que quer que seja, e onde uma ideologia tem mais ironia que o conteúdo, os valores dissipam e a cobardia substitui a honra e a empatia. As piores rés da humanidade escondem-se por detrás da piada e do engraçado. Ou, pior ainda, são levados a cometer atrocidades simplesmente porque acham que é engraçado, uma consequência do que o jornalista Ben Sixsmith apelidou de Irony Poisoning, que pode ser definido como: “When one’s worldview/ Weltanshauung /reality tunnel is so dominated by irony and detachmentbased-comedy, that the joke becomes real and you start to do things that are immoral and wrong from a place of deep nihilistic cynicism.”

 

Voltando a uma palavra que já utilizei algumas vezes neste artigo e que ainda não desenvolvi, torna-se claro que a vítima de Irony Poisoning e o responsável por tamanhas atrocidades não passa de um cobarde. É cobarde porque não tem a coragem de expor as suas opiniões políticas (nocivas como elas são) sem as misturar com fortes doses de ironia: é cobarde porque em vez de enfrentar os seus problemas decide chacinar quem ele vê como responsável por eles. E é cobarde por ter medo de ser humano. Esta é uma cobardia de que, infelizmente, muitos de nós somos presas. A recusa da empatia e a aceitação do cinicismo torna-nos incapazes de ter as relações que desejamos desenvolver. Por quão hilariantes sejam estes memes e este Cyber-Ironismo , há que ter cuidado e não os deixar envenenar a nossa vida.

 

Afinal, como avisou David Foster Wallace na sua magnus opus de 1997, Infinite Jest: “What passes for hip cynical transcendence of sentiment is really some kind of fear of being really human, since to be really human (...) is probably to be unavoidably sentimental and naïve and goo-prone and generally pathetic. ”

 

A dicotomia entre empatia e cinicismo pode ser facilmente exemplificada pelas respostas ao atentado dadas por duas pessoas mencionadas pelo atirador: Candace Owens, ativista conservadora norte-americana, e Felix Kjellberg (Pewdiepie), youtuber sueco. A primeira, no Twitter, e com um excesso de “LOL’s” e egocentrismo totalmente inapropriado para uma resposta a uma tragédia, disse: “LOL! FACT: I’ve never created any content espousing my views on the 2nd Amendment or Islam. The Left pretending I inspired a mosque massacre in...New Zealand because I believe black America can do it without government hand outs is the reachiest reach of all reaches!! LOL!” Pewdiepie, por sua vez, apresentou uma resposta muito mais adequada e sóbria, também no Twitter: "Just heard news of the devastating reports from New Zealand Christchurch. I feel absolutely sickened having my name uttered by this person. My heart and thoughts go out to the victims, families and everyone affected by this tragedy."

 

Creio que estes tweets conseguem resumir bem o que quero dizer e que conseguem ser apresentados sem explicação. Como nota de conclusão, apelo à união e, como Papa Francisco pediu no mês passado na sua visita a Marrocos, à construção de pontes entre diferentes culturas através da esperança. Só assim conseguiremos impedir mais Christchurches.Peço também que mantenham as vítimas do ataque nos vossos pensamentos ou orações. Esperemos que não tenha de escrever mais artigos assim.

 

Tomás Burns

 

06
Abr19

Novos Sons #4 - Paris, Lisboa

Jur.nal

Salvador Sobral - Paris, Lisboa (março)

 

 

Começo por dizer que cantar em apenas uma língua é banal. Em duas, qualquer um faz. Em três para os bons, de facto, e 4 para o Sobral. 

 

Como Salvador nos encanta.

  

Salvador Vilar Braamcamp Sobral, o homem dos tiques, dos gritos e das piadas mais descabidas, tem, de facto, muito talento e, desta vez, não é como se “Vou mandar um peido a ver o que é que acontece.”  

 

Desta vez lançou-nos um álbum – e que grande é - que provavelmente ficará para a história da música portuguesa.  

 

Com canções em diversas línguas como francês, português, inglês e castelhano – julgo - este vem dar-nos um banho à alma, refrescando-a com tudo o que se quer: calma, harmonia e muito mais. E já que a psicologia não dá, ou não deu, este, numa perspetiva freudiana, prefere entrar numa introspeção em busca daquela que seria a nossa alma se não tivéssemos ouvido o seu mais recente álbum “Paris, Lisboa”.

 

Digo e repito, para aqueles que me conhecem: se na famosa ilha dos amores de Camões houvesse alguém a cantar, possivelmente seria o Salvador.  

 

Já todos sabem que o Jazz é a sua área, mas ao ouvir o álbum, não ficamos com a impressão de que é simplesmente um trabalho dedicado a este estilo. Com combinações entre diversos estilos, como o Soul, o Blues e – agora sim – o Jazz, Salvador resolve todo o puzzle que temos vindo a encaixar na mente de que os estilos são individuais. Já muitos cantores têm tentado ultrapassar esta barreira – e aqui um aplauso para o público -, como Rosalía, Baco Exu do Blues, etc… 

 

Salvador, como todos sabem, passara muito tempo internado no hospital à espera de um transplante de coração, e foi aí que esta obra prima nasceu. Ele diz que quase não escrevia, mas que aos poucos ia projetando as ideias e quando estas saíam, aproveitava-as. Refere, em entrevistas, a dificuldade que foi voltar a ser o Salvador, num processo em que tentara reaprender o seu estilo e toda aquela que é a assinatura do cantor. 

 

Tudo isto começa com a primeira faixa do álbum, cujo nome é “180, 181 (catarse)”. Nesta canção, ouvimos aquilo que foi a morte de Salvador, os 180 dias que ficara internado e que hoje fazem dele um novo homem. Talvez aquela que é a música mais triste do álbum, talvez “triste” não a defina, mas sentimos, de facto, o sofrimento na voz do músico. Isto é ser-se Salvador 

 

Seguidamente, uma interpretação de um poema do nosso grande Pessoa, intitulada como “Presságio”, sendo nada mais do que um grandessíssimo processo em que observamos aquela que é a metamorfose do poema “O amor, quando se revela” em notas musicais – e que belo é. 

 

Não venho aqui, de todo, para estar a analisar o álbum ao pormenor, nem tenho capacidades, talvez, para o fazer. Antes dou a minha opinião, se bem que sustentada por muita tecnicidade.  

 

Grandes Ilusiones sobressai-se, fortemente. Em versos como “Abre las puertas del destino / Frenando el espirito al entrar / Quería dejar mi huella / Héroe de novela, ser el tal / Con en el viento a favor.”, aos poucos, somos levados pelo vento. A suavidade com que entoa tais palavras, mesmo que não na nossa língua, entranha e mais: não é qualquer um que canta com a mesma paixão, ou intensidade, em todas estas línguas. Salvador é um dos fundadores do V Império, digamos. 

 

Não há muito que se diga sobre o álbum. É um trabalho que se sente e vive-se mais do que qualquer outra coisa. Destacam-se músicas como “Prometo não prometer”, em que convida sua irmã, Luísa Sobral, e La Souffleuse, onde se destacam versos como “Perdu dans les cris des errants d'aujourd'hui / La valse recommençait d'un aveu / Fragile, elle soufflait sur un air désuet / Les mots des amoureux” em que, com a ajuda da melodia, vamos presenciando um crescendo emocional. 

 

Creio que a ordem das músicas tem todo um sentido por detrás, começando por “180, 181 (catarse)” – já referido anteriormente – e acabando em “Anda estragar-me os planos”, “cover” – cover entre aspas, pois Salvador não faz simplesmente covers, aprimora tudo o que pega -  da música de Joana Barra Vaz, faz-nos pensar que o caminho que percorre é aquele que nos levará ao nosso destino final, sendo este qualquer um que seja, desde que nosso. 

 

A morte, definitivamente, assustou o músico, e agora, com um coração novo, dá-nos a sua alma, o seu “eu” mais “eu”, que, mais do que tudo, vem preso a estas 12 faixas. Se as ouvíssemos todos os dias, um pouco mais sobre este ilustre luso saberíamos. Mas será que este é o verdadeiro Salvador? Muitos pensam que é tudo teatro. Já eu, prefiro pensar que não, aliás, não sabemos. Gosto e basta. Ao poucos, dá-me a mim, a cada música, um coração novo também.  

 

Atrevendo-me: qual Conan, qual Variações, qual Quim, qual quê. Este sim.

 

Jefferson A. Fernandes

 

31
Mar19

ADJ e os novos preços dos passes

Jur.nal

 

Segunda-feira, 25 de março de 2019. Nos relógios passam já 37 minutos das 9 horas da manhã – eis que finalmente chega o professor de Análise do Discurso Jurídico. Justifica o atraso com congestionamentos no comboio e não se coíbe de rematar (cito de cor): “se já é assim agora, imagino com os novos passes”. Deu-me a ideia de escrever este texto, Sr. Professor.

 

A medida de redução drástica dos preços dos passes para os transportes públicos é, com efeito, importante ao ponto de vir à baila numa aula de ADJ. Talvez seja até, como dizia um dia destes Daniel Oliveira num Eixo do Mal, “a medida mais importante do governo”, pelo impacto direto que terá nos rendimentos das famílias - maior que qualquer redução de impostos - e pelo número de eleitores (o termo empregue não é displicente) que abrange. Reduzir o preço dos passes sociais dará por certo mais votos do que aumentar salários à função pública – com a vantagem de custar menos aos cofres do Estado e não semear ódios no restante universo de trabalhadores.

 

Ainda assim, não caio na tentação de atirar que é uma medida eleitoralista. As medidas certas nunca podem ser eleitoralistas. Podem discutir-se as circunstâncias que a circundam, mas estamos no âmbito da Política...

 

Esta é uma medida certa porque justa. Desde logo, reduz as desigualdades entre os portugueses que conseguem habitar os centros de Lisboa e Porto e aqueles que são atirados para as periferias (para as Áreas Metropolitanas, designadamente), sobretudo em tempos de especulação imobiliária. Assim o disse, e bem, Marques Mendes no seu comentário televisivo semanal – aponta o redator referências de ambos os pólos políticos para o leitor perceber que esta é, de facto, uma medida boa, capaz de gerar satisfação alargada, o que é raro na mesquinha política portuguesa.

 

Redistribui-se a riqueza: são os habitantes das áreas metropolitanas com – à partida - menor poder económico que vão precisamente beneficiar das maiores reduções, já que eram também os que mais pagavam pelos seus passes. Perfeito - ainda que nos possamos questionar: “então os pensionistas de Bragança vão pagar o passe social do mafrense que trabalha em Lisboa?”. É certo que nos podemos interrogar sobre essa questão, o que não invalida que seja uma questão néscia e não mais que superficial. O ponto é sobre a justiça social, que já sabemos sair reforçada com esta medida, e não o contrário. Colocarmo-nos aquela dúvida é tão pouco inteligente como perguntar se é justo o habitante do centro de Lisboa pagar os 40% a mais que recebe o médico que trabalha no interior do país; ou se é justo o desconto do açoriano que viaja, por preço mais barato, do arquipélago para Portugal continental na TAP. Não obstante, voltar-se-á à questão do habitante de Bragança mais à frente.

 

Bom, reduzir o preço dos passes – nalguns casos de forma drástica – significa estimular-se a poupança das famílias e fomentar-se o uso do transporte público (pode ler-se no Público: “O Governo espera que com esta diminuição do peso dos passes no orçamento das famílias, a procura pelo transporte público aumente 10% este ano, apontou Matos Fernandes, sublinhando que, nos últimos três anos, o crescimento anual tem variado entre os 4 e os 5%.”.

 

Não menos importante, retirará automóveis do centro de Lisboa e dos acessos, o que leva a duas coisas: melhoram-se as acessibilidades e agride-se menos o ambiente. Podem reduzir-se assim, e de forma drástica – espero –, as externalidades negativas associadas à nossa mobilidade. A fasquia de esperança está alta já que, segundo dados do INE de 2018, 67% dos portuenses usava o carro nos seus movimentos pendulares (59% em Lisboa).

 

Acontece que, como em tudo na vida, obstáculos se levantam: por um lado, a medida piorará a qualidade de vida diária de quem utilizará os transportes se não houver investimento – se assim for, degradar-se-ão (ainda mais). O certo é que (ainda segundo o Público): “De acordo com as normas estabelecidas, do valor usado pelas áreas metropolitanas ou pelas CIM [Comunidades Intermunicipais], enquanto autoridades de transportes, pelo menos 60% tem de ser canalizado para o apoio à redução tarifária (como a descida dos passes ou a “alteração de sistemas tarifários"). Os outros 40% podem ser usados para o “aumento da oferta de serviço e a expansão da rede”. António Costa anunciou, também, novos investimentos públicos nos transportes no debate no Parlamento, há duas semanas. A promessa, em política, de pouco nos vale – estaremos cá para ver.

 

Pela outra mão - e é aqui que se regressa a Bragança - numa altura em que tanto se fala de descentralização e desigualdades regionais/exclusão social, esta é uma medida que vai ao arrepio de tudo quanto se tem discutido naquele sentido. Só assim pode ser quando a fatia do orçamento que vai para o interior ou todas as áreas que não sejam as duas grandes Áreas Metropolitanas é muito reduzida – do valor total orçamentado (104 milhões de euros), 70% vai diretamente para a AML.

 

Para além disso, ainda que a medida abranja 85% da população (as duas Áreas Metropolitanas e 16 Comunidades Intermunicipais; nas restantes cinco—Trás-os-Montes, Tâmega e Sousa, Região de Leiria, Alentejo Litoral e Algarve —, a redução no preço dos passes entrará em vigor apenas em maio - é uma situação que se não pode descurar, já que é precisamente nas Comunidades Intermunicipais – com menos verba orçamentada – que os serviços de transporte públicos pior funcionam (em geral, e a vários níveis) – e eu sou um dos que o pode provar por experiência(s) própria(s).

 

Seria interessante que se abandonasse o hábito de pensar primeiro nuns e só depois noutros.

 

Não se pode, por fim, esquecer a situação de quem reside e trabalha em comunidades intermunicipais não coincidentes, ou o caso de quem, para estudar ou trabalhar, se tem de deslocar de uma Comunidade Intermunicipal para uma Área Metropolitana. Ainda algumas dúvidas persistem.

 

João Duarte

 

25
Mar19

Poesia #3

Jur.nal

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Sou um paradoxo que existindo vai
Sem que possa dizer que vive,
Que com sublimes paixões sonha
E somente ordinárias vivencia,
Que com amálgamas de intensas sensações
Se funde no pensamento
Mas nada fora dele sente,
Sou enorme por dentro
E de um átomo por fora não passo,
Talvez jamais daquele
Que no real algo poderia ter sido passarei
E permaneça eternamente aquele
Que para além da cogitação não vai,
Existo total e completamente em mim
Mas a realidade das coisas não alcanço,
Sempre que a intento enxergar
Me desiludo com a sua falta de cor
E instantaneamente para mim me volto,
Fecho os olhos e sou algo
Que sente e vive como quem é feliz,
Adormeço com um sorriso
Que roubado poderia ter sido
A alguém que se realiza
No que jamais me realizará,
Contudo sorriso esse devolvido será
Porque o amanhã por certo
Penosamente me abrirá os olhos,
Tal como todos os soturnos dias
Que me extinguem a luz noturna.

 

André Neves

 

23
Mar19

Novos Sons #2 - I Also Want to Die in New Orleans

Jur.nal

Sun Kil Moon - I Also Want to Die in New Orleans (março) - 6/10

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Sun Kil Moon, um nome roubado a um boxer coreano que o singer-songwriter Mark Kozelek adotou ao reiniciar a sua carreira após a sua saída dos Red House Painters, tem estado numa infeliz e rápida descida em termos de qualidade desde da sua magnus opus Benji, álbum lançado em 2014. O seu estilo passou a assemelhar-se mais a um podcast e menos a uma obra de música, com cada vez menos foco na instrumentação e cada vez mais foco nas letras, que se têm vindo a tornar entediantes retratos do dia-a-dia de Kozelek nas suas tournées europeias, que embora possam animar o bichinho nacionalista dentro de mim (sempre levarei a canção I Love Portugal , do álbum Common as Light and Love are Red Valleys of Blood, de 2016, no meu coração), não passam de meras divagações de um homem perdido na meia-idade e num egocentrismo que até dói ouvir. Esta progressiva queda em qualidade culminou no desastre que foi This is My Dinner , de 2018, que entre tributos a David Cassidy e “melancolia escandinava” não oferece nada de novo para além de uma desilusão.

 

Assumia-se, justamente, que This is my Dinner seria também “This is the End of My Career” para Kozelek, e ninguém esperava muito de I Also Want to Die in New Orleans , lançado apenas meses depois daquela desgraça de álbum. No entanto, o mundo da música ficou surpreendido. Não porque I Also Want to Die in New Orleans se tornou num clássico instantâneo como Benji ou Ghosts of the Great Highway , de 2008, mas porque foi, contra todas as expetativas, um álbum medíocre. Indica-nos que ainda há esperança para Kozelek, e que este ainda tem muito para nos dar.

 

Ora, como é que explicamos esta súbita melhoria na discografia de Sun Kil Moon? É fácil: ele voltou para os Estados Unidos. Nos seus últimos álbuns, as letras de Kozelek são quase como um diário de viagens que, em vez de descrever as paisagens e pessoas em cada paragem (embora, para ser justo, por vezes seja esse o caso), não passam de reclamações de um homem rabugento, velho e cansado, marcadas por nostalgia e por saudades de casa. De volta aos EUA, Kozelek torna as suas canções mais longas, mas também mais carregadas em conteúdo. Tal como é a moda agora, Kozelek enfiou sete destas no seu novo projeto, que dura uma longa hora e meia, sendo que algumas chegam a ter vinte minutos, e outras quatro.

 

O álbum abre com uma clássica canção deprimente ao estilo de Sun Kil Moon observando, não só a monotonia de viver em casa, como também o homicídio de uma rapariga que foi encontrada no frigorífico de um restaurante chinês, as emoções que sobem à cabeça de Mark ao ver uma performance de salmos na televisão e uma doninha que o distrai de tratar dos seus impostos. Estes devaneios e fugas da narrativa central podem parecer estranhas para quem nunca ouviu Sun Kil Moon, mas não são nada de novo. São, no entanto, um grande problema, se não o maior, das prolongadas melodias deste. Coyote é o perfeito exemplo deste estilo que já farta, mas salva-se pelo seu tema central minimamente perceptível e facilmente compreendido, sendo este o marasmo e a desilusão omnipresentes na vida adulta e neste álbum, melhor exemplificada pelas letras:


“ I don't understand myself
I spend the first 18 years of my life
Trying to get out of a three-bedroom house
With a yard full of sticks and squirrels
Then, way later in life, I ended up buying a three-bedroom house
With a yard full of sticks and squirrels”


Em Day in America , a vontade de desistir do álbum aumenta. Vemos agora uma canção
política, mais uma vez sobre school shootings, um tema curiosamente comum na música, especialmente na música de Sun Kil Moon, que já em Benji nos tinha dado uma longa, triste e linda melodia sobre o tiroteio em Newtown, Connecticut (Pray for Newtown). Não encontramos estas qualidades aqui, até porque Kozelek passa metade da canção a confundir o pianista Bill Evans com a cadeia de restaurantes Bob Evans e a contar histórias ridículas sobre um concerto onde alguém lhe acusou, justamente, de ser snob. Toda a força e impacto que Day in America podia ter, evapora-se nestas distrações líricas, tornando-se talvez no ponto mais baixo do álbum.

 

Passamos a L-48, uma curta (nos standards de Sun Kil Moon) melodia sobre uma guitarra Gibson L-48 que regressa aos temas e motifs expressos na primeira canção do álbum. Kozelek pouco divaga e mantém-se atento à narrativa que tenta construir, contando uma história em torno desta guitarra, uma memória distante mas querida pelo cantautor. L-48 destaca-se pela sua brevidade, mas pouco oferece ao projeto em geral. Mesmo assim, serve como um raro exercício de humildade e fragilidade na discografia de Sun Kil Moon.


Em Cows, o álbum começa realmente a ficar bom. Vemos uma instrumentação mais pesada marcada por um riff de guitarra constante e hipnotizante, enfim, uma banda a tentar fazer um som mais sério possível. Entretanto, no campo lírico, Kozelek toma uma perspetiva auto-flagelante mas ultimamente hipócrita, sobre a indústria bovina e o consumo de carne, caraterística dos Estados Unidos que Mark abandonou e a que agora regressou, estando historicamente e socialmente presente na cultura americana. Chegamos ao final da track e encontramos um devaneio e uma passagem súbita para um som mais jazz , onde Kozelek afirma a morte de Deus, proclama quase-hinduísticamente a vaca como o melhor animal, e expressa a sua opinião sobre aquela cena do Borat onde este tenta engatar a Pamela Anderson. Uma típica, mas forte, canção à Sun Kil Moon, como podemos ver.


Como quinta canção, temos a I’m not Laughing at You , uma canção tão perspicaz e tão bem produzida que nem devia de pertencer a esta fase de carreira de Sun Kil Moon. No entanto, só faria sentido se estivesse neste álbum, e torna-se símbolo do Mark Kozelek de 2019, um Mark Kozelek marcado profundamente pelas suas viagens, extremamente cético para com o seu país e, mesmo assim, com imensas saudades das suas origens. Entre a vergonha e o orgulho, encontramos o liricista enamorado por uma América do passado e repulsado por uma América do presente, reconhecendo que o seu país se tornou na laughing stock do mundo.


I’m not Laughing at You passa para Couch Potato que, ao ritmo de uma viva e animada
guitarra, volta à análise política de sofá (algo que também gosto muito de fazer), desta vez não admitindo as falhas do seu país, mas sim atacando-as, nomeadamente o estado da política de imigração. Aqui, Kozelek não critica apenas o atual, mas também o passado, especialmente as políticas de imigração de Barack Obama, que eram quase tão repreensíveis como as de Donald Trump, pondo em causa a nostalgia que sente por este passado, para além de pintar o típico americano como uma couch potato, que pouco se move e muito consome, sem questionar o que vê passar na sua televisão. O álbum quase que volta ao tema inicial de Coyote, esta inevitável repetição dos nosso passado, quer individual quer coletivo.


Se o álbum acabasse aqui, seria muito bom. Mas claro que Sun Kil Moon tem de estragar tudo com um retorno às desconexas romantizações de destinos de viagens com a canção Bay of Kotor, dedicada aos animais vagabundos da paradisíaca costa montenegrina. Mesmo tendo 23, sim, 23minutos de duração, há muito pouco que se possa dizer sobre a canção, só mesmo que é uma seca. Salva-se por ser uma reflexão humana sobre a nossa relação com animais, mas ficará sempre remetida para a grande quantidade de canções de Sun Kil Moon que irei saltar se se cruzarem comigo no spotify.


Termina assim I Also Want to Die in New Orleans , um álbum cujo título serve como resposta ao álbum I Want to Die in New Orleans dos Suicide Boys. Contudo, creio que este título diz, acidentalmente, muito sobre o projeto. Sun Kil Moon, quer ele queira quer não, está condenado a escrever música sobre os Estados Unidos, nos Estados Unidos, e acho que ele sabe disto. É por isso que, ao longo de várias décadas de carreira e turismo, nunca largou o estilo folk-rock clássico do seu país nem a capacidade de não se puder calar, tão comum no seu povo. Esta realização certamente nos trará futuros Benji’s e, mesmo que não traga, deixou-nos um álbum com canções que, embora não tenham a tragédia de Jim Wise , a comédia de Dogs, a consciência política de Pray for Newtown nem a lucidez de Ben’s my Friend, certamente se cimentaram como grandes, importantes e bons marcos numa carreira que receava estar estagnada.

 

Tomás Burns

 

 

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