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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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04
Set20

Dó sem Ré nem Mi

Jur.nal

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Era uma vez uma menina de vestido azul que estava sentada numa grande pedra debaixo de um velho sobreiro a olhar um prado, seco. E onde nós víamos um campo inóspito, a menina via um burro e um galo, aliás, via um galinheiro inteiro! E papoilas e corvos e legumes e espantalhos. E onde ela via tudo isto, nós não víamos nada.

Será que em tempos também tínhamos sido assim? Teríamos também sentido a prosperidade da imaginação sem sequer notar? Talvez sim, mas agora não. Agora só resta o desejo que a menina seja diferente e que carregue para o resto da sua vida toda a inocência e felicidade que couber num bolsinho muito pertinho ao coração.

Sabemos que vai crescer, mas isso ela também sabe, até já disse que queria ser pintora. Só não sabe que nem tudo vão ser suaves pinceladas de arco-íris e que vão haver bicos e tesouras e agulhas que vão tentar descoser aquele bolsinho de amor de perto do coração. Ah, que ela seja forte! E que sejamos nós também, mesmo depois de gastos os pincéis.

Talvez seja mesmo esta a beleza da vida. Crescemos, aprendemos e, pelo meio, tornamo-nos mais sábios das nossas escolhas, percebemos que o sol nem sempre brilha, mas está sempre lá.

A menina, já crescida, aprendeu que por mais apertinhos que a sua barriga tenha sentido, vale mais a pena comer a maçã trinca a trinca. Mais vale pensar na gente do que falar da gente. Mais vale a pena estender a mão do que a esconder.

 Aprendamos com quem já tudo viveu e disse: “podia-se fruir, podia-se criar durante toda esta breve vida, mas canta-se sempre e apenas uma canção de cada vez, nunca se ouve a sinfonia plena e completa, com as vozes e instrumentos em simultâneo” (Hermann Hesse).

 

Leonor Gambôa Machado

(Aluna do 4.º ano da Licenciatura e Diretora-Adjunta do Jur.nal)

25
Ago20

Canção Simples

Jur.nal

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Toco-te na mão. Dá-se uma espécie de vazio, há uma pausa. E nesse compasso de espera, aguardo que o Toque volte, e traga a resposta.

Ouço-te sussurrar qualquer coisa ao Toque e espero que ele desça por ti e suba por mim. O Toque, alcança-me o dedo e por ele caminha, atravessa-me o dorso da mão, segue pelo meu braço, trepa-me o ombro, corre-me contra o pescoço e sussurra-me ao ouvido. E eu penso e sussurro ao toque, que se afasta, descendo o ombro, caindo pelo braço, atravessando o dorso da mão e caminhando sobre o meu dedo para te ir sussurrar nova mensagem. A operação vai-se repetindo, e de cada vez que o toque vem, volta mais rápido porque nós já não pensamos tanto, já não demoramos tanto tempo a descodificar as mensagens um do outro. Compreendemos que partilhamos o mensageiro, o toque é meu e teu e compenetra-nos. E de cada vez que o faz, leva um bocadinho meu e traz um bocadinho teu. E a cada impressão, torna-se menos claro o seu emissor, e tanto eu como tu, já não sabemos quanto tu tens de mim e quanto eu tenho de ti. Chegados ao limite do limite, ele não faz mais sentido e a ideia de duas máquinas de sentir cai por terra, tornando-se relevante só o mensageiro e consequentemente a mensagem, que já não é minha ou tua mas resultado indivisível dos dois. Percebemos que já não conversamos, que já não precisamos de ouvir o que cada um tem a dizer para responder ao outro, os toques ganham ritmo, e embalados ao som das nossas próprias percussões, dançamos. O movimento excita-se a si próprio e estamos rubros. E o toque, que começou toque e virou conversa, torna-se toque outra vez, porque estamos rubros.

 

Maria Manuel de Sena

Aluna do 3.º ano da Licenciatura

 

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