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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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21
Mar20

Melhores Álbuns Portugueses da Década - Opinião de João Duarte

Jur.nal

Se a arte e o engenho eram já escassos, a tarefa é também ela árdua: se, por um lado, a década ainda não se cumpriu na íntegra (eu sou daqueles perfecionistazinhos que dizem que é preciso ter calma, que a década de 20 só se inicia em 2021 – tal como o século XXI só começou em 2001), por outro, o gosto é, como se sabe, intrinsecamente subjetivo (não se discute, sequer, a qualidade – essa é, por todas as vias, indiscutível: se tempos houve em que a música nacional, cantada em português, andava adormecida, a década de 10 do século XXI veio mostrar que onde há juventude também há talento e capacidade de manobrar a língua portuguesa e de reinventar os acordes e as batidas de sempre – tantos outros, que ficaram de fora, poderiam entrar para esta contagem). Propor uma lista dos melhores álbuns nacionais desta década é, então, inevitavelmente inglório. O meu gosto é forjado pelo que me habituo a ouvir, daí que este top-15 seja, em rigor, um top dos álbuns que mais tenho ouvido. 

 

P.S. Não pode haver outra ordem que não a alfabética para dispor todos estes álbuns: depois de uma seleção de somente 15 de entre um oceano de álbuns, todos estes mereceriam o primeiro lugar... 

1. Capitão Fausto – A Invenção do Dia Claro (2019) 

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Incluir nesta lista Capitão Fausto e não despejar aqui todos os quatro álbuns da banda pode parecer contraditório. Todos teriam qualidade para aqui figurar. Mas este é especial – este significou o dobrar da juventude, com tudo o que de bom isso traz: um som apurado e uma história inspiradora, para o bem ou para o mal (ou nos dá para correr atrás do nosso amor de sempre, ou para chorar por não podermos viver o mesmo Final deste álbum – estas duas situações podem ser cumulativas). Cinco jovens adultos que não são mais diamantes em bruto. 

2.Capitão Fausto – Pesar o Sol (2014)

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Aqui ainda tínhamos pedras preciosas por lapidar. E ainda bem. No auge da juventude e da ingenuidade, cinco jovens que faziam música exuberante, não tão imediata quanto a de Gazela, mas aliando instrumentais viajantes a letras que interrogam o mundo (próprio, aliás, de jovens que se prezem), o resultado foi algo que em muito superou os experimentos do primeiro disco – e, a meu ver, todos os restantes. Ouvir este disco é tocar no peito e sentir o coração a querer saltitar cá para fora, sentir na boca o sabor a sangue como quem termina de dar infinitas voltas à pista na aula de Educação Física. A referência não é displicente – estávamos no já longínquo ano de 2014, andava eu no 9.º ano... 

Pesar o Sol é mesmo a melhor metáfora para aquilo que deve representar a vida de um jovem. 

3. Ciclo Preparatório – As Viúvas Não Temem a Morte (2013)

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Este é o grupo coral pop especial rural-chique delicodoce (assim se descreveram estes jovens ao jornal Publico no já longínquo ano de 2013) que descobri somente há cerca de um ano. Foi, porém, o suficiente para me apaixonar. Há aqui algo de Heróis do Mar, seja nas letras, nas roupas ou no próprio nome da banda. Um quê de portugalidade latente, forte e indiscutível. Agrada-me bastante. Combinam ritmos frenéticos com canções contemplativas e até nostálgicas. Algo que não perderam no mais recente álbum, o segundo, que tardou (2018) – mas a espera compensou. 

Exulto ao som de Lena del Rey, mergulho sobre mim mesmo ao escutar a Casa da Lamarosa. Se esta antítese de sensações é possível de conter num só álbum, temos de contar com os Ciclo Preparatório. 

Tive a fantástica oportunidade de entrevistar, aqui para o JUR.NAL (leiam!), o baterista e o vocalista desta incrível banda. 

4. Diabo na Cruz – Lebre (2018)

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Estes são os homens corretos para falar de portugalidade.

Que dizer de Diabo na Cruz. Novamente, podia ter incluído todos os álbuns da banda. Tomai, todos, e bebei: este é o rock tradicional português dos Diabo. Quis o destino que Lebre fosse o último trabalho da banda. E acabou em grande: guitarras e letras marcantes. Ao leme o inquieto Jorge Cruz, que logo em Forte se descreve de forma tão certeira: “Não troco desespero por agravo, nem perigo por um bom lugar marcado”. 

Procissão (a fazer lembrar, com aquele poderoso riff inicial, a Roadhouse Blues dos The Doors) e Malhão 3.0 (a transportar-nos para as quentes noites de verão mesmo se estivermos a viver o mais profundo dos invernos) são canções vibrantes. Pelo meio, Terra Ardida acorda-nos cruamente para o fenómeno dos incêndios que vastas vezes tem dizimado a nossa pátria. No geral, é um belo retrato (ou resumo, se quisermos) do que é ser português. É mesmo por aí que finda o álbum: Portugal. Inicia-se com ritmos mais tradicionais e é paulatinamente substituído pela dominância da guitarra: “Vagueei por Portugal, com assombro ancestral. Quando chegue a minha hora, seja terra em Portugal.”

Diabo na Cruz não se pode explicar. Tem de ouvir-se. 

5. Filipe Sambado – Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo (2018)

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Se em Diabo na Cruz encontramos o cru rock balançado com os ritmos tradicionais portugueses, Filipe Sambado é, por entre as minhas viagens acompanhado do Spotify, a lufada de ar fresco a que recorro amiúde. Os ritmos mais frenéticos da guitarra, por vezes, também cansam. Filipe Sambado oferece-nos sonoridades arrojadas e letras por vezes atrevidas. O resultado final é um caldo bastante aprazível.

Deixem Lá foi sem dúvida uma das canções que mais ouvi em 2019. 

2020 trouxe-nos novidades quanto a Filipe Sambado (Revezo). Mantenho-me, ainda assim, firme nas minhas preferências: Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo é um belo álbum, porque constante. Mexido e agradável do início ao fim.  

6. Ganso – Costela Ofendida (2016)

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Esta será uma das escolhas menos óbvias. Trata-se de um EP de uma das bandas “satélite” dos Capitão Fausto. A banda tem já dois álbuns, mas não há volta a dar: esta é a minha produção de eleição. Psicadelismo, algum non-sense, letras despreocupadas mas com sentido bastante para serem uma letra de uma música. Nos Ganso – pelo menos neste Ganso - há loucura e razão em doses certas. 

Os tempos mais recentes são de Não Tarda (2019), algo menos apetecível - há que dizer. Habituei-me aos tempos iniciais de Ganso, mas as bandas transformam-se – é uma inevitabilidade. 

Sinto saudades daqueles tempos em que se comemorava Idalina, e investia-se na Idalina ingenuamente, sem pensar no que viria depois. 

7. Lena D’Água – Desalmadamente (2019)

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Lena D’Água tinha de estar presente. Foram três décadas sem editar. Desde os anos 80, em que era a namoradinha de Portugal. Nem já os meus pais têm idade para se lembrarem dos tempos em que a Lena “explodiu” na ribalta, mas eu gosto de Lena D’Água. Talvez porque nos últimos anos tem colaborado com vários artistas nacionais emergentes (dos quais os Ciclo Preparatório são exemplo), o que me deu a oportunidade de me cruzar com ela, e explorá-la. 

E o privilégio que foi poder passar dos intemporais Demagogia, Vigaro Cá, Vigaro Lá ou Sempre Que o Amor me Quiser para canções das quais sou contemporâneo: Opá, Grande Festa ou Hipocampo surgiram carinhosamente no meu dia-a-dia, ao bom estilo da Lena. Recebi-as com gosto e a elas regresso de quando em vez. 

8. Linda Martini – Linda Martini (2018)

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Linda Martini é para aqueles fins de tarde em que o céu se reveste de tons alaranjados. A alma aquece e só apetece ouvir esta banda fantástica. Em específico, este álbum efusivo e ao mesmo tempo reflexivo. Para que a alma aqueça ainda mais.

Foi este álbum que marcou o início da minha aventura em torno dos Linda Martini. Foi um amor à primeira vista. É uma aventura que está para durar. 

9. Luís Severo – Luís Severo (2017)

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Este rapaz com um ar tímido revela todo o talento que vive dentro de si quando pega na guitarra ou se senta ao piano. Das suas mãos e da sua voz saem canções fantásticas, e este álbum é um perfeito exemplo disso - todo ele muito bem conseguido. 

Hoje, ao cabo de três álbuns, pode dizer-se que Luís Severo construiu uma sonoridade que é marca sua. E eu aprecio-a bastante. 

Há momentos em que sinto que o que há a fazer é somente encostar-me nas costas da cadeira do comboio e escutar Luís Severo. De entre essas vezes, o que a minha cabeça maioritariamente me pede é o álbum que aqui menciono. 

Amor e Verdade é uma obra de arte. Nela se encontra a quadra que descreve o estranho momento que, enquanto aprendiz de adulto, vivo:

“Deixaste a mocidade à espera
Fumo a desaparecer
E só voltou a primavera
P'ra trabalhar até morrer”

10. Os Pontos Negros – Soba Lobi (2013)

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O triunfo da juventude, nu e crua. Estes mantiveram-se, até ao seu fim (este foi o último álbum da banda), iguais a si próprios. Talvez tenha apreciado em maior dose o Magnífico Material Inútil (2008), cuja canção homónima é, de facto, a minha favorita dos Pontos Negros. 

Mas não se percam: este Soba Lobi é de qualidade superior. Corrido, agressivo e assertivo. 

“Se tudo neste mundo é imprestável

Se não sou sal nem sou luz

Não há insipidez que esconda a nudez

De não carregar uma cruz”

Senna

E pensar que em 2012 o Festival NOVA Música (que anualmente se realizava no nosso campus) contou com Pontos Negros, Ciclo Preparatório e Capitão Fausto...

11. Salvador Sobral – Paris, Lisboa (2019)

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Não nego: conheci Salvador Sobral somente depois do Festival RTP da Canção de 2017. Mas o que ouvi deveras me agradou. E este Paris, Lisboa foi a confirmação dessa minha opinião. 

Não há muito mais que se possa dizer a propósito de Salvador Sobral. O que faz com a sua voz é, a todos os níveis, incrível. 

Ouço-o para me sentir bem, ainda que não com a regularidade que talvez merecesse este génio. 

12. Tara Perdida – Dono do Mundo (2013)

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Este é o último álbum de Tara Perdida com João Ribas, o bastião da cultura e mentalidade punk no nosso país. Também ele, ao seu jeito, um génio, que se foi demasiado cedo. 

Deste álbum fazem parte os hinos O Que é Que Eu Faço Aqui e o eterno Lisboa (com o Tim). 

Tara Perdida é, quer queiramos quer não, uma das bandas marcantes (talvez de culto) nacionais. E com eles não há surpresas: vão diretos ao assunto. Entregam à sua legião momentos para descarregar a adrenalina. 

“Hei de um dia ser alguém
Não a qualquer preço
Estás cá tu para lembrar
Tudo o que me esqueço”

O Que é Que Eu Faço Aqui

13. Tiago Bettencourt – Do Princípio (2014)

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Sou por tendência, uma pessoa calma, reflexiva e algo apática. Nessa medida, Tiago Bettencourt leva-me a constantes reflexões melancólicas sobre a vida e as aventuras que esta me oferece. Maria, Aquilo Que eu Não Fiz e Sara são, para mim, bom exemplo disso. A qualidade não deve sequer ser discutida. Merece, sem dúvida, este top. 

14. Xutos & Pontapés – O Cerco Continua (2012)

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Quem me conhece não estranhará esta “nomeação”. Pois é, talvez sejam os Xutos a minha banda de eleição. O Cerco Continua é um álbum carregado de significado. É uma reedição (com nova produção) do Cerco (1985). A verdade é que, 27 anos depois, as letras do Tim continuavam, e continuaram, atuais. Só o tipo de cerco era distinto: em 1985, o cerco era da banda, por não conseguirem encontrar uma editora que quisesse produzir as suas canções; em 2012, era a Troika e a crise quem cercava o país.

“Eu vou para longe, para muito longe
Fazer-me ao mar. Num dia negro
Vou embarcar. Num barco grego
Falta-me o ar, falta-me emprego
Para cá ficar.”

Barcos Gregos

A estas canções juntaram-se mais duas originais e uma terceira, Vossa Excelência, da banda brasileira Titãs, na voz do Tim e ainda na guitarra do Zé Pedro. Uma canção com uma letra agressiva, diretamente dirigida à classe política e aos titulares dos órgãos soberanos do Estado. 

Por entre todas estas letras de intervenção (uma marca indelével dos Xutos & Pontapés e um estilo que eu tanto aprecio), haveria ainda espaço para relembrar hinos como o Homem do Leme ou Conta-me Histórias

15. Zarco – Zarcotráfico (2017)

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À semelhança dos Ganso, Zarco, com um EP. Como em Filipe Sambado, há ritmos arrojados, acelerados, e letras que não me deixam indiferente. Em suma, tudo o que, por norma, me cativa numa banda. 

A referência à Tava Num Bar (de um disco posterior a este que menciono) na canção Sempre Bem dos Capitão Fausto foi o mote para conhecer esta maravilhosa banda. Não me arrependi. Recomendo-a a todos, caso ainda não a tenham ouvido. 

 

João Duarte

(Aluno do 3º ano da Licenciatura)

10
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte I)

Jur.nal

Num frio fim de tarde o JUR.NAL, pela mão dos entrevistadores João Duarte (3.º ano da Licenciatura), Maria Inês Opinião (2.º ano da Licenciatura) e Ana Machado (Mestrado em Forense e Arbitragem), com as fotografias da Sara Pacheco (3.º ano da Licenciatura) recebeu na sala 007 Sebastião Macedo e João Graça dos Ciclo Preparatório, banda independente de Lisboa que conta já com vários anos de estrada e dois álbuns (o mais recente, Se é Para Perder Que Seja de Madrugada, de 2018).

 

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Ana: Surgiu-nos uma pergunta muito profunda que é: porque é que é melhor perder de madrugada?

João Graça: Pá, realmente nunca pensei muito sobre isso…

João: Foi letra tua? [Pergunta para o Sebastião Macedo].

Sebastião Macedo: Foi. Mas não significa que saiba (risos). Mas talvez seja porque tens a noite toda a tentar não perder, ou aceitar…

João: Portanto se for para perder é melhor de madrugada porque ainda está meio escuro…

SM: É mais uma coisinha para acrescentar…

João: São aquelas coisas que surgem no processo criativo sem nenhuma razão?

JG: Não, foi simplesmente parte da ideia dele, e ficou aquela frase e usou-se para o título do disco.

João: Bem, nessa linha queríamos saber - e fez agora um ano do lançamento do vosso segundo álbum - qual o balanço que fazem da receção do álbum?

JG: Este foi preparado e promovido de maneira diferente, com menos recursos, foi uma edição de autor. O primeiro tinha sido com a Optimus Discos, depois NOS discos. Depois a coisa ficou de outra forma. Foi um investimento muito grande da parte deles na parte da promoção. E agora fomos nós que fizemos tudo, com ajuda do nosso agente e manager. Portanto, agora tivemos menos impacto. Mas acho que a quem chegou foi bem recebido. Pelo menos percebemos que sim.

 

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João: O público gostou?

JG: Sim. Exatamente.

João: E isso notou-se nos vossos concertos? Ou seja, passaram 5 anos sem voltar, e quando voltaram notou-se?

JG: Sim, sim. Especialmente em Lisboa, que tivemos a casa cheia. Mas fora também: em Coimbra e no Porto o ambiente foi bom. Depois fomos assim à Covilhã, que também foi fixe.

SM: Mas acho que a nossa perceção sobre a receção do disco passa muito por estarmos muito mais confortáveis com aquilo que nós tínhamos feito. Ou, se calhar, mais conscientes. E podemos também desfrutar mais, mas essa é só a nossa perceção. Em termos estatísticos, provavelmente, o último foi [bem-recebido]. A nossa sensação deste é que estava tudo mais sólido e estruturado, e se calhar uma próxima coisa já será mais fluída.

Maria Inês: Tenho uma pergunta específica em relação a uma das músicas, que não sei se foste tu que a escreveste, mas é a “Montes da Beira”. O que é que se está a passar (risos)? Qual é que é a ideia por detrás?

SM: O que é que tu achas, o que te parece? Tens alguma ideia? Alguma coisa que te confunda?

Maria Inês: É assim, à partida, a primeira vez que ouvi essa música fiquei a achar que era literalmente montes da Beira, tipo Beira-Baixa, mas depois fiquei a achar que podia ser um bocado relacionado com a Guerra. E isto pode ser já um stretch, mas porque vocês têm um approach próximo à realidade portuguesa, tenho estas duas teorias.

Ana: Teorias da Conspiração (risos).

SM: Não, essas coisas estão todas lá. Estão é inseridas numa realidade que motivou a fazer aquilo. Mas estão todas lá. Podes ficar com isso. Não vale a pena eu estar a estragar com algo concreto que tenha que não te vai dizer nada. Estão todas na minha ideia, só com outra cara e com mais coisas.

João: Mas qual foi essa realidade? Que motivou a escrever?

SM: Coisas mais de experiência… De vida e de história… De momentos que ficaram na cabeça. E tenho coisas muito concretas, mas a ideia geral não é assim tão concreta e, sei lá, não penso muito depois de ter feito. Lá, é muito claro, tipo sei exatamente o que quero, mas depois fecho, e se for pensar agora provavelmente vou arranjar uma justificação que não é racional e que fará mais sentido agora do que aquilo que estava a tentar dizer sobre o que pensava na altura. Mas acho que estás numa realidade perfeitamente coerente.

 

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João: Ela foi logo para a teoria da Beira Baixa porque é do Fundão…

Maria Inês: Sim.

Ana: Exato (risos).

SM: Seria Beira Alta neste caso… Mas próximo…

Ana: Bem, próxima questão: nós gostaríamos de saber se estão a preparar algum single ou álbum para breve.

JG: Temos aqui umas ideias… Mas ainda estamos a reunir os ingredientes (risos). Ainda não há assim nada concreto.

SM: Por acaso foi proposto pela agente fazermos.

JG: Estamos todos a colaborar…Mas vão haver novidades em breve, não sabemos quão em breve, mas no início do próximo ano.

João: Ou seja, não vão deixar passar tantos anos de intervalo entre projetos.

JG: Exato. Queremos mesmo continuar… Mas é complicado, sendo uma coisa altamente independente, não é tão fácil. Mas pronto, vamos continuar a tentar e com essa persistência crescer também.

João: E este intervalo de 5 anos entre os dois discos. Foi propositado?

JG: Foi um bocado feito do que foi acontecendo nas nossas vidas particulares. Alguns de nós… como o Francisco que foi estudar para fora, tivemos cursos para acabar, trabalhar também. Foram coisas que foram acontecendo, e como em simultâneo, ali naquela fase pós-primeiro disco, não pusemos mãos logo à obra, se calhar perdeu-se um bocado o timing necessário. E pronto, depois foi uma coisa que foi acontecendo e foi o recomeçar o processo, que começou no Verão de 2017. Foi um processo longo, compor e gravar, e o disco só saiu em 2018.

 

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João: Mas vocês no início, quando lançaram o [primeiro] disco tiveram bastante sucesso. Chegaram a atuar num Super Bock. Bem, não nos lembramos porque éramos demasiado novos, isto é tudo fruto de pesquisa, mas queria perguntar se vocês achavam que conseguiriam ser - não sei se é a melhor palavra - profissionais, ou pelo menos viver da banda.

JG: Pá, talvez. Eu tenho esse desejo, pessoalmente. Mas não sei se na altura, mesmo tendo sucesso, se achava que ia ser uma questão de causa-efeito tão óbvia, mas se calhar na altura tínhamos alguma esperança.

SM: Tínhamos mais ilusão que seria possível. Mas não sabíamos nada sobre o que estava entre o possível. Agora temos mais consciência sobre o que está entre o possível ou impossível, portanto com tempo se calhar conseguimos gerir as expectativas de forma mais moderada. Mas se calhar mudou-se um bocado o objetivo, quando és mais novo precipitas-te muito nos objetivos que queres e perdes-te um bocado. E, aqui, estamos a pensar numa coisa de cada vez e consoante o tempo que se arranja, porque já se percebeu que se viesse alguma vez a acontecer não seria de um dia para o outro. Temos de desenvolver outras coisas e perceber o que nos enriquece.

Maria Inês: Vamos voltar a tocar num ponto que tocámos há bocado, que é serem uma banda independente.

JG: Exato, exato.

Maria Inês: Qual é a diferença entre uma banda independente e outra que o não seja, e qual é o porquê de serem uma banda independente.

JG: Porquê? É só uma questão de oportunidade, ou se ninguém quiser dar oportunidade, pelo menos de forma independente podemos sempre construir algo.

 

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João: Mas no início?

JG: Com o primeiro disco? Sim, aí tivemos uma abordagem logo direta com a Optimus. Nós gravámos um single que na altura foi mostrado ao Henrique Amaro, da Antena 3, e ele colocou-o nos Talentos Fnac, e depois a Optimus Discos teve uma abordagem logo no sentido de financiar e editar. Na altura foi aos Pontos Negros e depois a nós, e depois não sei se continuaram a financiar ou não. Mas a grande diferença entre ser independente ou não é o suporte que há. Ter alguém que ajude a colocar o disco disponível, alguém que financie e trabalhe a promoção.

João: Mas por que não houve essa continuidade a partir do primeiro disco?

JG: É assim, nós tomamos a decisão de nem sequer tentar uma editora, porque nós podíamos escolher mostrar o disco que já estava gravado. Só com o disco pronto é que decidimos o que íamos fazer. Podíamos ter ido à Sony, ou à Warner, e se eles quisessem compravam, mas nós achámos que neste momento o melhor seria termos tudo por nossa conta. Tem que se dar muita coisa em troca quando se arranja uma editora. Há muitas decisões que não são tomadas por nós, pelo menos totalmente, portanto foi uma decisão boa porque podemos decidir tudo por nós.

João: E têm-se sentido bem assim?

JG: Sim. Agora, não sabemos se vai ser sempre assim. Até porque às vezes dava jeito outro tipo de suporte. Mas pronto…

Ana: Nós gostávamos de saber quais são as vossas inspirações portuguesas para o vosso estilo musical. Em que é que vocês se inspiram?

SM: Eu não vejo tanto como influências musicais, se calhar inspirações. Mais no sentido de influências que vejo mas não são necessariamente musicais. Mas há vários livros de autores portugueses, ou quadros portugueses…

João: No teu caso em concreto, porque escreves maioritariamente as letras.

SM: Sim, exato, mas também faço muitos instrumentais e é sempre bom essa ideia de não ser bandas, porque é sempre mais com imagens, e é isso que tento induzir-lhes quando eles estão a fazer, só para encaminhar. É mais universal do que dizer só “faz essa banda, só esta linha de guitarra, mais nada”. Se puseres uma imagem, o gajo vai até à imagem e aí encontra a sua linha musical para servir daquilo, e não há nada que vai ficar aí preso.

Ana: E se calhar também não vai ficar muito parecido com uma banda. Se vocês se inspirassem numa banda ou assim já podia ser uma coisa muito parecida.

SM: Mas é um pouco mais descontrolado. Portanto, nestas coisas há sempre alguém que conhece algo que não conheces e vai dizer que estás a copiar isto (risos) mas há mais espaço para fazer.

JG: Nós ficamos a saber mais quem são as nossas influências depois de lançarmos o nosso disco (risos) e sempre por outras pessoas!

João: Exato, são rótulos que as pessoas põem.

Ana: E o Spotify também, com os artistas parecidos (risos).

João: Já agora, posso ver quem é que aparece… Não sei se vocês têm ideia.

JG: Eu, por acaso, no Spotify, acho que é um algoritmo de o que as pessoas gostam de ouvir. Mas é assim, nós conhecemos as críticas: eram relacionadas com coisas como os Heróis do Mar, coisas assim, e acho que quando gravámos era isso que lá estava (risos).

SM: Também dizem Diabo na Cruz… Mas nenhuma dessas bandas está na nossa cabeça. Não ouvimos muito, mas gostamos todos.

João: Estava aqui a tentar encontrar… Valter Lobo, São Pedro, Samuel Úria, Luís Severo, os Pontos Negros… é o que me aparece.

SM: É um bom caminho (risos).

Ana: Próxima pergunta és tu (risos).

João: Está aqui. Era mesmo… Tinha mesmo a ver com isto, eu fui ver uma entrevista vossa ao Público, de 2013. O Público não, o P3, segmento do Público…

JG: Nós demos uma entrevista ao Público?

Ana:  Também não há muitas entrevistas vossas portanto… Chegamos lá facilmente (risos)

JG: Sim, na altura tínhamos alguém que tratava disto por nós.

João: Se calhar não é uma entrevista, é tipo uma chamada deles para o vosso álbum que tinha saído. Mas eles descrevem-vos como “grupo coral, pop especial rural chique delicodoce”.

 

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SM: Por acaso essa descrição foi ponderada (risos).

João: Ponderada como assim?

JG: Porque não foi o Público que inventou isso… Isso foi mesmo algo que partiu de nós.

SM: Quando surgiu a banda…

João: Mas, em jeito de brincadeira?

SM: Claro (risos).

Ana: Não, é muito a sério (risos)

João: Ou vocês formaram a banda e decidiram “vamos tocar música em coral pop especial delicodoce?” (risos).

JG: Não sei se vocês são do tempo de páginas de MySpace.

Ana: Sim, eu sou (risos). Sou, sou.

Inês: Eu já não.

JG: Quando era mais puto tive uma banda e nós, como todas as bandas e como erámos putos fazíamos páginas de MySpace. E, pá, é sempre a guerra de pôr o género na descrição (risos), mais perto daquilo que gostávamos que fosse, mas que não vai ser necessariamente.

 

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SM: Ou então só punhas cenas aleatórias.

JG: Mas, então, isto é uma brincadeira que suponho eu que tenha vindo um bocado nesse sentido. Uma desidentificação quase daquilo que poderá ser qualquer música.

SM: Vocês têm alguma banda?

João: Não, não. Temos a tuna (risos).

SM: Olha, fixe.

João: Acaba por ser (risos) mas então, ainda melhor: partiu de vocês esta brincadeira. Podem explicar um bocadinho? Ou é ironia completa?

Ana: Pelo menos o chique está lá.

JG: Bem, “grupo coral” porque as nossas músicas têm alguns arranjos assim de harmonias com vozes, portanto pode fazer algum sentido. “Pop” porque não é pop (risos). “Especial” porque há quem diga que sim (risos).

SM: Acho que “especial” era pela conotação negativa até (risos).

JG: “Pop especial”... Se calhar queria dizer pop espacial… (risos). Pá, eu “rural chique delicodoce” acho que já é só mesmo [invenção].

João: O rural eu vejo na “Casa da Lamarosa”.

JG: Nem mais, a imagem inicial que nós tínhamos, em que estávamos mais focados, era a nossa quinta de férias. Que, atenção, é só uma casa de família de um de nós.

João: Do José?

JG: Exato.

João: E foram lá as vindimas este ano, ou não foi na Lamarosa?

JG: Não foi lá, foi na Beira Alta.

João: Nos montes da Beira (risos).

JG: Exatamente.

João: Eu lembro-me dessa publicação… E o “delicodoce”?

JG: É a suavidade…

SM: Isso eu vejo, é que a voz do João é uma voz muito delicada e doce… (risos). Mas também porque foi sempre o objetivo haver uma espécie de contraste, era algo que era sempre comum na música que tocamos.

João: E as vozes da Benedita e da Constança também são delicodoces… Passando à próxima… Esta é uma pergunta especial (risos).

 

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Maria Inês: Nós queríamos saber o porquê do visual mais retro (risos).

JG: O nome também é retro… (risos).

SM: Em que consiste um visual retro?

Ana: Roupas dos avós (risos).

Maria Inês: Sim, basicamente. Abrimos o armário dos avós e é o que temos lá dentro…

João: E podíamos fazer aqui uma sondagem de nós os quatro para ver quem é que sabe o que era um “Ciclo Preparatório”. Sabem o que era o ciclo preparatório?

Ana: Sim… (risos).

João: Já não é do nosso tempo.

JG: Nem do nosso (risos).

Inês: É a escola primária.

João: Afinal sabemos…

JG: Sim, eu acho que era a primária. Ou será quinto e sexto [ano de escolaridade]?

Maria Inês: Pois, o preparatório se calhar era o quinto e sexto.

João: Faz mais sentido, eu acho que é.

Maria Inês: Se calhar até ia até ao 9º.

Ana: Pronto, temos uma discussão aqui…

João: Eu acho que era o atual segundo ciclo. E podemos aproveitar para fazer a pergunta clássica do porquê [do nome].

JG: Pois, porque está tudo um bocado na mesma questão, o porquê do nome e do visual. Acho que tem tudo a ver com a valorização do que era bom no passado.

João: Heróis do Mar… (risos). Mas numa época mais fácil de fazer isso… Não um pós 25 de Abril.

SM: Sem conflito… Mas essa ideia das roupas e dessa imagem toda era porque há uma grande dificuldade das bandas em surgirem. Quer dizer, hoje em dia é mais fácil fazer com que surjam, mas a imagem é sempre uma coisa que é muito igual, portanto é uma forma de destacar. Foi pensado na altura, maioritariamente não por nós… Mas hoje em dia já começa a diluir, porque a partir do momento em que começas um caminho, apesar de nós se calhar não nos identificarmos necessariamente com aquela imagem, temos coisas que usávamos, mas nunca era…

João: Não são betos (risos)?

SM: Não somos agrobetos… (risos).

JG: Agro não porque nenhum de nós é agricultor (risos).

João: Vocês são todos de Lisboa?

SM: Sim.

João: Então são só betos. Ou não são betos?

JG: É assim, isso é uma construção social (risos) meio estranha. O que é que se pode dizer…

João: Pronto, são normais.

JG: Sim, somos pessoas normais, como tantas outras.

SM: Há esta falta de definição, mesmo da nossa parte, porque achamos bem antecipar uma definição que se calhar até nos protege, porque no fundo as pessoas que estão a avaliar aquilo não estão a avaliar-nos.

João: Há uma pequena guerra num vídeo de Youtube, no “Lena Del Rey”, onde o pessoal nos comentários… Não sei se já viram.

JG: Vi no outro dia um comentário que era: “Ei tanto beto” (risos).

 

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João: Portanto isso começou uma guerra de comentários sobre se são betos ou não… Isso tem muita piada (risos).

JG: Se somos ou não, bem eu sei o que as pessoas dizem sobre o que é ser beto, agora, não acho que isso seja uma questão sequer (risos), percebem? Se a ideia é que os nossos pais têm vários irmãos e que temos muitos primos (risos) e se as nossas famílias são grandes… Se for isso então sim, qualquer um de nós vem de famílias compridas.

João: Ok, mas o pessoal comenta a personagem que vocês criam na banda, não vocês próprios, através da roupa e tudo mais.

Ana: Também porque não os conhecem, não é?

SM: Os nossos vídeos são iguais a toda a gente, não percebo… É o que quiserem (risos).

JG: Quando éramos pequeninos íamos à missa, penteadinhos com as nossas mães. Se isso é ser betinho então acabamos por ser… (risos). Crescemos assim. Mas não é o que nos define.

João: A zona de Lisboa a que vocês pertencem também influencia isso.

Maria Inês: A escola…

João: Se vocês forem de Belém…

Ana: Do Restelo…

JG: Não, nós somos ali da Estrela.

Ana: Ah também, pronto (risos).

JG: Também pode ser… Estrela, Lapa… (risos).  Mas há coisas que são mais importantes, como a forma de estar no dia-a-dia, as atitudes que se tem. Acho que isso é que importa.

 

(Continua...)

26
Nov19

Um adepto desiludido

Jur.nal

 

 

Bem, confesso-me um adepto do desporto no geral. Em termos figurativos, se o desporto for um buffet, eu sou o tipo de pessoa que escolhe um pouco de muito. Pratiquei 3 desportos (natação, basquetebol e andebol, a minha modalidade predileta) durante o meu desenvolvimento, desde miúdo com jardineiras a provável futuro licenciado em direito. Apesar de vir de um meio a quem o desporto era nada mais do que uma atividade extracurricular desenvolvedora de várias competências (agradecendo os meus progenitores), sempre tive o bicho do desporto (e consequentemente fui e sou um ávido crítico da nota de Educação Física não ser contabilizada para a média). E, inevitavelmente, é o futebol que me rouba mais tempo, não só pelo espaço mediático que ocupa mas sobretudo porque é o mais fácil de visualizar em stream (ups, chibei-me!).

 

Já andava há muito tempo para fazer esta análise, que na verdade é apenas a transcrição da minha visão atual do futebol, sobretudo o português (como adepto de um não-grande, há certos aspetos que passam menos despercebidos, ou que pelo menos são mais evidentes). E confesso que fico triste com o espetáculo que observo, incessantemente.

 

O futebol não é uma modalidade estática, aliás, nenhuma o é. Estática no sentido em que as mutações que ocorrem constantemente obrigam a uma constante reflexão sobre o "estado da coisa". O futebol português, contudo, parece querer remar contra uma corrente demasiado forte para a falta de estaleca dos portugueses. Numa era de otimização do físico dos jogadores, das capacidades técnicas, da inteligência de jogo e da capacidade mental de estar perante milhares de adeptos no estádio, fora todos aqueles bem concentrados dentro das câmaras, o jogador de campeonato português é aquele colega que lá vai passando de ano pelos pingos da chuva, não se destacando em nenhum desses aspetos (será que é daqui que vem a "luz" do Costa para poupar os cofres com a questão dos chumbos?).  O exponente máximo do que refiro são as terríveis exibições dos clubes "tugas" na Europa.

 

Temos um Benfica estático, sem frescura física (talvez com Grimaldo como exemplo perfeito), debilitado tecnicamente (Rafa que esteve para rumar ao enorme campeonato turco antes do Vieira ter uma "luz" e mantê-lo no plantel, Gabriel que vem de um modesto Leganés), em suma muito inferior ao necessário para atingir a "dimensão europeia". A aposta da formação é uma necessidade sem sombra de dúvidas. Mas será que meter os melhores num jogo contra um adversário modesto do nosso campeonato para depois largar os miúdos sem para-quedas na Normandia que é a UEFA Champions League é a melhor opção?

 

Um Porto vergonhoso cuja única surpresa que nos dá esta época é a posição na tabela da Liga Europa. Futebol extremamente previsível (ora por chutão, ora por variação lenta entre flancos, com laterais projetados ofensivamente, extremos que deixam de ser extremos por estarem em terrenos interiores, e cruzamentos a torto e a direito, na esperança de que apareça Zé Luis/Marega/centrais vindos do nada), com uma carteira extremamente apertada, mas sem um aparente projeto que permita a sustentabilidade de um clube que já muito fez pela reputação do campeonato português (para o melhor e para o pior).

 

Um Sporting ainda a perceber se é carne, peixe ou soja, em completo reboliço, sem sequer ter carteira e, mais que isso, com a clara falta de ideias de jogo, parecendo um grupo de amigos que se juntou para dar uns toques antes do jantar (e que depois levam da mãe na cabeça porque o arroz com salsichas e um ovo estrelado por cima ficou frio). Além de sem saber o que é, não há um esforço entre todos os sócios para se tentar arranjar uma solução. Já imaginaram o que era se cada neurónio dum cérebro funcionasse de forma diferente de todos os outros? Pois, eis o Sporting.

 

Um Guimarães que, recordando um sketch dos Gato Fedorento, vai para a guerra com "um pau, dos mais afiados" e 11+3 homens, contra "30 mil homens", armados com "canhões, algumas metralhadoras e 3 mísseis", fez sempre um "quase conseguimos". Com Ivo Vieira ao comando, inspirado pelos longínquos tempos em que, ao comando do Marítimo, vergou o FC Porto na meia final da Taça da Liga (e que recordo, com tanta saudade), e que apresenta um futebol fluído, clínico (a falhar talvez na eficácia). Fico a pensar que, com outros intérpretes e outra carteira, quem sabe se não estaríamos perante o próximo Leicester...

 

Não posso criticar o Braga porque têm feito um excelente percurso... até olharem para dentro de casa e perceberem que talvez deixar os biscoitos no forno enquanto se sai de casa para ir ao supermercado pode ser um risco demasiado grande. António Salvador promete um título nacional... para daqui a 3 anos, todos os anos. Parece o Costa a dizer que não vai aumentar os impostos.

 

Pareço o velho do Adamastor, talvez me exceda na crítica. Mas a falta de qualidade de jogo jogado, as constantes "fitas" dos jogadores (somos das piores ligas europeias em tempo útil de jogo), o constante autocarro... Há soluções? Talvez não imediatas, mas é sempre possível criar condições para que as coisas se possam desenvolver. Campeões Europeus? Sim somos, pelo menos até 2020. O facto de o Éder, sendo o jogador que é, ter marcado aquele maldito golo, é talvez a melhor demonstração daquilo que somos, prova de que há ainda muito por fazer.

 

Pedro Catanho

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

15
Out19

Reflexões sobre o Chega!, fascismo e extrema-direita

Jur.nal

(Imagem: Expresso)

 

Há uma parte fundamental da experiência humana que precisa, desde já, de ser categorizada. Aí se incluem as ideias de organização e governação dos povos e, portanto, séculos de teoria e ação volvidos, sentam-se à mesa os senhores, forças distintas de cada lado; carregam a bandeira da união política, ou ideológica – embora ideologia seja um termo ainda desnecessário – e então num só grupo geral convergem, muito embora as óbvias e naturais divergências específicas. Por motivos geográficos, uns chamar-se-ão direita e outros esquerda, significados pendentes de palavras rasas, geradores de fertilidade semântica e conflitos ideológicos, e sob os quais repousará a responsabilidade de organizar um inteiro espectro político. E assim se marcarão ambos — a direita, por nessa posição dialogar no século XVIII, em defesa do Rei e da lei, será para sempre força conservadora e austera, ou atrasada e caquética, conforme a necessidade. E a esquerda, no combate pela República e da justiça revolucionária, não deixará de ser grupo efervescente e excitante, sob pena de ser, também, fatal e perigoso salto.

 

A viagem na ponte entre o século XVIII e o XXI é uma jornada nebulosa que vê muito mudar — mas não a geografia da política. Liberalismo, social-democracia, marxismo-leninismo, nacional-socialismo, fascismo, neoliberalismo, terceira-via. Os movimentos políticos insurgentes, mais ou menos duradouros, mais ou menos praticáveis, passaram ao lado de uma sistematização funcional da política: pouco veio a importar a ideologia, o Estado Social é já uma necessidade, o constitucionalismo torna-se natural, o aparelho burocrático faz as coisas funcionarem e o espaço de manobra política e ideológica, entre as instituições monolíticas que o Estado moderno ergueu, torna-se um titânico jogo de forças que não cabe na democracia. A direita e a esquerda permanecem, mas, perante o complicado encaixe de geometrias tão diversas em tão quadrada caixa, criam-se as variantes: centro-direita, centro-esquerda; direita moderada, esquerda radical; direita radical, esquerda moderada; extrema-direita e, no quadrante oposto, extrema-esquerda.

 

As eleições legislativas de 2019 ofereceram à Assembleia da República um novo deputado, de um novo movimento, cuja presença nos salões de São Bento é estranha, excluindo-se aqui, evidentemente, aqueles corredores do Palácio toldados pelas câmeras e luzes da transmissão televisiva. André Ventura, antigo militante do Partido Social Democrata, fundou o Chega! em 2019, sob as bandeiras do conservadorismo social, do liberalismo económico e do nacionalismo, e sobre as declarações controversas que havia oferecido aos jornais. Ao homem que se diz inspirado por figuras liberais como Adam Smith, Friedrich Hayek ou Ludwig von Mises, pouco interessa as categorizações mediáticas: e são muitas. “Fascista”, “neofascista”, “extrema-direita”. Interessa pouco, ou não interessa, porque sabe André — como sabe quem observa — que, na política, importa sobretudo o volume do que é dito. “Fascista” é um termo historicamente pesado, mas terminologicamente injustiçado: o seu uso recorrente como insulto político tornou-o caricatura, fez dele ferramenta política facilmente detetável; e é, por isso, convidativo, desafiante, útil. O fascismo, ideologia cuja definição e classificação tem sido uma difícil e tortuosa tarefa para a ciência política, é reconhecido, contudo, como uma das ideologias mais estatizantes (isto é, que mais força e responsabilidades atribui ao Estado) do século passado; o Chega! propôs, no seu programa eleitoral, medidas que podem apenas ser consideradas como potencialmente aliviadoras da intervenção estatal, como a redução da carga fiscal ou a desburocratização. Socialmente, as diferenças são substanciais, até porque não há declarações registadas do líder do partido que possam alinhar a sua visão à de líderes ideológicos como Mussolini ou Hitler, e, que se saiba, muito menos em termos de Direito, cujas posições conhecidas, consubstanciadas no agravamento de penas para determinados crimes, como a pena de prisão perpétua, transversal, na história, a vários movimentos de posições políticas diferentes, não dialoga em ponto algum com teóricos fascistas como Carl Schmitt. Mas a André Ventura serve essa categorização, porquanto, descredibilizada, é muito mais fácil de combater, de ridicularizar, do que o exaustivo trabalho de apontar factualmente os seus problemas ideológicos e discursivos.

 

André Ventura é de extrema-direita. Assim escreve o Público1, que lamenta Portugal já não pertencer ao grupo de países da União Europeia em que este conjunto político não tem assento parlamentar. Evidentemente, ao Chega! comparam-se as forças políticas de Viktor Orbán, Nigel Farage ou Marine Le Pen. As diferenças, marcadas por políticas e ideias concretas, por discordâncias teóricas nos campos da sociedade civil ou da economia, pouco importam: nestas análises, e para o devido efeito, as divergências sucumbem perante a necessidade de convergência, nem que seja para facilitar, e a amálgama da extrema-direita repete a fórmula secular do espectro político. É extrema-direita aquilo que o parece ser, cujas características teóricas levam a acreditar que a rotulação seja apropriada. São-no Ventura, Le Pen, Orbán, Farage, Salvini, Trump, independentemente das diferenças e do que, de facto, desejam. Emilio Gentile propôs, no século passado, a inovadora, e, ainda assim, evidente, noção do sincretismo político, a partir da qual elencou um conjunto de linhas de pensamento político que não cabiam no usual espectro esquerda-direita. Naturalmente, aqui encaixaram os movimentos fascistas, tal como alguns movimentos anarquistas, mas a grande herança deste trabalho não foi apenas a compreensão tangível de algumas ideologias como disruptivas das clássicas noções de organização do pensamento político, mas a abertura de espaços para analisar outras ideias. Independentemente, André Ventura é a extrema-direita: porque tem de o ser. Porque, em Portugal, ainda não havia este grupo discursado no hemiciclo, nem podido chocar a sociedade com propostas legislativas inconcebíveis. É extrema-direita porque sim e é direita porque os séculos, os Homens, o espectro assim o definiram. Porque se senta do outro lado. O Rei, agora, no entanto, é outro; é Presidente. A lei fortaleceu-se, há a Constituição. Mas a posição geográfica das pernas cruzadas defronte de uma longa mesa, debatendo o futuro do Reino, gesticulando e discorrendo com urgência sob as longas cabeleiras postiças acerca dos perigos da revolução, agora num tom mais radical, agora mais intolerante, agora mais extremo, a posição que só o é por oposição não poderia ser, entenda-se claramente, outra. A eles juntam-se Mussolini, Rivera, Franco, Degrelle, talvez Stalin, se houver espaço e se a concordância o permitir, e Gentile que se cale, porquanto a sua ideia, embora elegante teoria académica, não serve para a simplicidade criteriosa do eleitoralismo e da categorização mediática.

 

As ideias políticas têm raízes, têm bifurcações, mas o que delas resulta altera incontornavelmente o que era na origem. As visões do mundo são diferentes. Norberto Bobbio dizia, com razão, que as definições políticas só adquirem significado quando colocadas ao lado de termos com que se relacionam — a esquerda só é esquerda em relação com a direita, e vice-versa. Uma necessita da outra para existir, para significar. Porque sem ela resta a visão, as ideias particulares, o que efetivamente interessa, uma vez que a relação entre as partes é infalivelmente mutável — no tempo e no espaço.  No entanto, a política é sinuosa. Marine Le Pen, por exemplo, o “rosto” da extrema-direita na França é forte e inquebrável defensora da intervenção do Estado na economia e na sociedade — posição contrária à da generalidade da direita francesa —, e substituiu os líderes da esquerda política como a principal concentradora de votos da classe trabalhadora nas últimas eleições presidenciais. O que levanta a pergunta: as suas palavras convulsivas, provocadoras, as críticas às “políticas draconianas de austeridade” que favorecem “as elites globais em detrimento do povo”2 encaixarão na ideia de direita? Ou será a estranheza das palavras, que parecem pertencer a bandeiras mais vermelhas — e por quem terão sido proferidas, senão em forma, iguais em substância —, consequência de uma indefinição ideológica, indefinição no sentido de incorreção, de incoerência, de rotulação? A verdade é que as políticas da tradicional esquerda francesa não mudaram, muito menos o seu discurso. Mudaram menos ainda os interesses das classes trabalhadoras. O que mudou foi o alcance político e eleitoral das mesmas forças, das mesmas ideias, por partidos diferentes: e essas ideias estendem-se desde a imóvel esquerda de Jean-Luc Mélenchon até à camaleónica extrema-direita de Marine Le Pen.

 

Le Pen e Ventura são fundamentalmente diferentes. Poderia liga-los aquilo a que se chama “populismo”, convencionalmente tido como uma propriedade ideológica. O populismo, porém, não é uma ideologia, mas um veículo de a transmitir. Na forma como dialogam com públicos, como geram e transmitem discursos, são tão populistas Le Pen, Ventura, Rebelo de Sousa, Trump e Obama. As diferenças residem atrás, nas ideias. A taxonomia política, no entanto, continua a ser uma ferramenta eleitoral eficaz para uns, tremendamente inútil para outros. Servir-se, sem peso, de noções como fascismo e extrema-direita enquanto dispositivos para abranger um conjunto de figuras ligadas por pontos isolados é um exercício de criação de constelações sem resultado. É preciso que haja a verdade para se a ver. É imperativo. Enquanto for mais útil afrontar o resultado da eleição do que compreender a sua génese, André Ventura não sairá do Parlamento e o Chega! poderá crescer exponencialmente nos próximos anos. Tem margem de manobra para isso, a começar pela elevada abstenção — afinal, a política eleitoral é um exercício de preencher vazios, e há um enorme espaço num eleitorado insatisfeito, despreocupado, e num sistema descredibilizado e sem respostas. E isso, sim, Ventura, Le Pen, Trump e Salvini têm em comum: emergiram de sistemas que falharam em dar respostas aos seus cidadãos, que perderam a ligação fundadora que o legitimava. São estas agora as circunstâncias e há um motivo para elas. Se as queremos mudar, é preciso começar por algum lado. Talvez seja útil começar por aqui.

 

  1. Gomes, M. e Barata, C. (2019, outubro 7). Já só há três países sem extrema-direita na UE. Ontem, Portugal deixou de ser um deles. Público. Retirado de https://www.publico.pt/2019/10/07/politica/noticia/portugal-juntase-paises-ue-partidos-extremadireita-eleitos-parlamento-1889128
  2. Astier, H. (2014, maio 16). French National Front: Far right or hard left?. BBC News. Retirado de https://www.bbc.com/news/world-europe-27404016

 

Francisco Fernandes

(Aluno de Ciências da Comunicação - FCSH)

 

 

11
Out19

Hobbits, hooligans ou vulcanos

Jur.nal

(Imagem: Comunidade Cultura e Arte)

 

Quem disse que a vida em democracia é a melhor? Estamos no rescaldo das legislativas e ainda a tentar entender do que será feito o futuro deste país. Vivemos o fado desta nação através de um compasso marcado pela comunicação social ao ritmo que já nos habituamos, mas este ano já está a ser diferente, há mudança no horizonte. 

 

Irromperam pelo parlamento três novos partidos muito diferentes entre si e daquilo a que estávamos acostumados a ouvir, todos eles com um espaço político já enunciado: a Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega.

 

A Iniciativa Liberal surge como o partido do marketing e dos cartazes espalhados pelo país numa tentativa de explicar a teoria liberal e a vontade que os move em desafogar os portugueses da atual carga fiscal, mas nem só de “menos Estado” é feita a IL, e a diferença já se tem visto com as declarações que Carlos Guimarães Pinto fez após a reunião com o Presidente da República, enunciando a sua insatisfação com o processo eleitoral relativamente ao facto de as reuniões presidênciais estarem a ser realizadas faltando quatro deputados eleitos pelos emigrantes. No que toca a pensamento ideológico penso que lhe devemos dar uma hipótese e não ceder ao estigma de esquerda que se instaurou, descartando iniciativas válidas de direita. 

 

O Livre e o seu espírito europeísta trazem consigo novas alternativas para o eleitorado de esquerda que se mostra a favor de uma maior integração europeia. Afirmando-se como um partido das pessoas, traz na algibeira novos e velhos desafios dos quais uma temática preocupante que recai num voto e discurso que se germinam a partir de diferenças étnicas, sociais ou pessoais e nem tanto pelas ideias e projetos, aquilo a que se chama identity politics, mas disto iremos falar mais tarde a propósito do título deste texto.

 

A entrada do Chega e da “extrema-direita” em Portugal invadiu de imediato a imprensa e redes sociais que incessantemente alertavam os leitores e internautas com o regresso do fascismo a Portugal. A bem dizer não é a primeira vez que vemos algo de extremo a ser eleito para o parlamento, repare-se que em anteriores legislaturas já era possível encontrar a extrema-esquerda e havemos de reparar que esta cresce a pulso firme. 

 

Acredito, porém, que não seja de introdução de extremismos que se está a falar quando refletimos sobre André Ventura, tão-pouco de um programa ideológico que se serve de uma ideologia e a impregna por todo o lado, falamos sim de um programa de café, de capa de revista cor de rosa, quase como um elenco de uma novela onde os pequenos dramas são introduzidos em letras garrafais apresentando-se para o leitor como o maior problema que a sociedade portuguesa está a viver.

 

Surge-me depois de tudo isto uma questão que subsiste na tipologia do eleitor português: será ele informado? Porque é que ele vota de determinada maneira? Jason Brennan, na sua obra Contra a Democracia, fala-nos de três tipos de eleitores: hobbits, hooligans ou vulcanos.

 

Os eleitores hobbits serão aqueles que entendem superficialmente daquilo que é a história nacional e de quando a quando vão apanhando uma outra manchete, humanos apáticos. A bem dizer, pouco se ralam para o que está a acontecer.

 

Os eleitores hooligans serão “os fanáticos desportivos da política”, aquele tipo de eleitor que procura apenas aprofundar a sua doutrina ideológica e se mostra sempre convicto que a razão está do seu lado.

 

Os eleitores vulcanos, por fim, baseiam-se no conhecimento das várias ideologias e escolhem pensar lógica e racionalmente, rejeitando tudo aquilo que não é passível de ser provado.

 

Importa concluir que a entrada destes novos partidos e a falta de confiança em partidos sistémicos demonstram a necessidade de readaptar a forma de como se faz política e políticas. O medo da globalização e da próxima grande “revolução industrial” começam a acusar um aumento de eleitores do tipo hooligan, eleitores que escolhem uma faceta da história, nesta medida, uma faceta nacionalista e protecionista que sustenta a falta de qualificações que toda uma geração tem, a mesma geração que vai perder esses empregos para as máquinas.

 

É imperativo repensar a educação de forma a transformar hobbits em vulcanos, não em hooligans que defendam afincadamente a anteriormente referida identity politics, também ela ameaçadora da democracia e dos seus pilares, que defendam populismo por ser mais fácil e mais identificável com a conversa corrente, com o desabafo do vizinho no café da esquina.

 

Concluir dizendo que o eleitor português será maioritariamente do tipo hobbit, um fraco conhecedor de matérias base do país e despreocupado com o estado da nação. Um eleitor abstencionista que se tem mantido assim por falta de políticas do país. Arrisco-me a dizer que terá havido nestas últimas eleições uma deslocação de eleitores abstencionistas para o populismo e uma fuga de vulcanos para a abstenção por falta de credibilidade do sistema.

 

João Vassal

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

15
Jun19

Entrevistas #5 - Luís Severo (Parte I)

Jur.nal
Depois da notável estreia em 2015 com o independente "Cara d'Anjo", Luís Severo juntou-se à Cuca Monga, editora pela qual lançou, com a mão da Sony Music Portugal, o seu segundo disco, o homónimo "Luís Severo", que o levou aos lugares cimeiros das listas anuais da imprensa musical e generalista e aos mais emblemáticos palcos e festivais do país. Com apenas dois álbuns editados, era já um dos nomes consensuais da escrita de canções da sua geração, mas não é por isso que deixa de surpreender. Do choque concordante entre o acústico e o electrónico, da contenda conciliante lírica e de todos os contrastes imagéticos, Luís Severo afasta-se do que já por si foi feito e, sem nunca perder o centro que o particulariza, chega assim com o seu terceiro disco, “O Sol Voltou”. (In https://www.facebook.com/pg/luisseverocantor/about/?ref=page_internal)
 
 
Numa tarde em que o Sol teimava em esconder-se, O Sol Voltou foi o mote para o JUR.NAL, pela audaz curiosidade do Tomás, da Sara e do André, conversar um pouco com o Luís Severo. Falou-se, entre outros, do novo álbum, do processo de criação e, para lá da música, do percurso académico do Luís. A primeira parte dessa agradável e descontraída conversa vê hoje as cores do mundo: 
 

 

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Tomás - Podemos começar por fazer uma apresentação: apresentas-te, explicas um pouco quem és, para quem ler isto e não souber quem é o Luís Severo. Vender o teu peixe! (Risos).

 

Luís Severo - Bem, eu sou músico, compositor, produtor. Tenho 26 anos, faço canções há 11. Comecei com 15 anos, em casa, a fazer maquetes e coisas assim muito underground, já numa altura em que existia MySpace, que é uma rede social que existiu durante muito pouco tempo e depois morreu – e eu comecei a fazer música lá. Depois houve uma fase em que muitos músicos começaram, e era uma rede social em que sentias que eram muitos músicos a fazer música na sua casa com uma placa de som de 50€ e um microfone de 20€ e cada um fazia as suas coisas. E eu comecei lá, e fui sempre evoluindo. A partir de 2015, depois de ter feito uma banda, que gosto muito e continua a existir – os Flamingos – decidi começar a editar discos a solo, em nome próprio. Fiz um disco em 2015, o Cara d’Anjo, depois fiz o Severo em 2017, e este último, O Sol Voltou, saiu em 2019. São três discos que eu acho que representam um pouco várias coisas que eu gosto, algumas coisas mais pop, algumas coisas mais lo-fi, algumas coisas mais folk. E pronto, por vezes canto e toco todos os instrumentos, outras vezes não. Este último disco fui eu que toquei tudo. Também costumo ser eu a produzir os discos e também me encarrego das questões do som. Portanto, apesar de alguma evolução no sentido profissional, hoje o que eu faço continua a ser muito aproximado ao que fazia há 11 anos no quarto, só que com mais material e mais produção, mas continua a ser muito aproximado. E pronto, acho que já fiz uma boa apresentação.

 

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Tomás - Por acaso acho piada, nos teus discos, teres estes estilos um pouco diferentes (tens o folk, tens o pop, …). Até já vi em algumas entrevistas chamarem-lhe sacro-pop. Consegues explicar isso?

 

LS - (Risos). Sim, isso foi só quando eu fiz aquele disco em 2015. Algumas pessoas disseram que tinha uma ou duas músicas que lembravam, quase, a missa e uma cena gospel. E sendo que eu, na minha vida, devo ter ido para aí duas vezes à missa (a minha família não é propriamente católica, e eu também não sou – também não tenho nada contra, mas nunca tive uma ligação muito forte ao catolicismo), achei piada – eu que nunca tive essa ligação – dizerem que as músicas tinham algo que se assemelhava à música litúrgica. E, então, eu, como piada, pus nos tags da minha página o sacro-pop. Foi só uma piada, mas depois, em mais do que uma entrevista, começaram a pôr questões sobre isso. E uma coisa que tinha sido só uma piada acabou por continuar.

 

Tomás – Mas, talvez porque a tua música pega em todos estes estilos diferentes, conseguindo ligá-los, criando uma “coisa” que eu acho bastante coesa, acho engraçado conseguires pôr tudo “por baixo” de uma matriz religiosa.

 

LS - Eu acho que apesar da música não ser religiosa, tem alguma espiritualidade, no sentido em que algumas das questões que a religião procura sempre responder são questões que mesmo quem não é religioso tem. Acho que questões do género “o que andamos para aqui a fazer”, “para onde vamos”, “o que é que nos move”, “o que é que há além de nós”, tudo isso são questões bastante espirituais e são questões pelas quais inevitavelmente as minhas letras também passam.

 

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Tomás - São questões às quais a música sempre tentou responder, e que os músicos sempre tentaram desenvolver.

 

LS - Exatamente. E tem piada como os EUA mesmo assim – e muita da música anglo-saxónica - é muito mais comum os músicos assumirem que têm fé. Não é o meu caso, não sou uma pessoa crente. Também não me consigo assumir ateu – não tenho aquela coragem de dizer “eu sou ateu” com toda a certeza deste mundo. Acho que serei aquilo a que se chama agnóstico, que é uma pessoa que é só palhaço porque não tem opinião nenhuma (risos), mas na verdade tem piada como a música e os músicos (Bob Dylan, Leonard Cohen, que são músicos que eu ouço) falam sobre Deus e sobre a ligação a Deus. E mesmo na música brasileira, muitas vezes, há uma ligação a Deus, que não é muito comum na música em Portugal. Exceto a FlorCaveira, ou mesmo o Samuel Úria e outros, que são pessoas de fé e eu vejo que não têm pudor em referir Deus e em falar sobre Deus. De uma perspetiva ateísta, por acaso.

 

Tomás - Se formos ver os EUA, e também o Brasil, e as grandes potências, têm muita influência religiosa, mesmo quase na criação do país.

 

LS - Sim, porque nos EUA, e também no Brasil, a música evangélica representa cultos em que se canta muito mais do que nos nossos. O católico tende a ser um culto em que as pessoas cantam pouco, e quando cantam são sempre coisas ‘metidas’ para dentro. Tipo aquela senhora a cantar a do “‘tá muito alto” (risos).

 

Tomás - Tens sempre o Johnny Cash, e outros, que vão tendo Deus de uma forma sempre presente…

 

LS - Sim, mas de uma forma não muito solene, mas muito pessoal. Ou seja, não é uma envolvência de Deus do ponto de vista bíblico e convencional. É muito do ponto de vista próprio e pessoal, e eu acho isso interessante. Mas pronto, na verdade, isto tudo veio da piada do sacro-pop, que foi só uma piada (risos).

 

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Tomás - Já estamos um bocadinho distantes, mas acho que é interessante.

 

André - Pegando agora no teu novo álbum, O Sol Voltou: há uma certa mudança de cenário, até da própria música e melodia. O Severo era um disco mais citadino, e O Sol Voltou traz quase uma mudança para o campo, ou, pelo menos, um ambiente mais campestre. O que é que levou a esta mudança?

 

LS - Eu acho que há aqui duas coisas: reconheço que haja um pouco disso, um pouco dessa mudança; mas também acho que há um bocadinho de exagero, ou seja, não acho que o disco que editei em 2017 fosse só sobre a cidade, acho que tinha mais mundo, e acho também que este não é só sobre o campo. Sem dúvida, este é um bocadinho mais contemplativo e reconhece mais a natureza e passa-a mais enquanto assunto, e isso não foi nada muito pensado, foi algo que simplesmente me fez sentido falar. Porque, na verdade, eu, quando acabo um disco, a minha tendência para o disco seguinte é pensar sempre: “de que é que eu não falei neste?”, “o que é que eu não fiz neste?” e “como é que eu posso ir contra o que fiz antes?”. Eu poucas vezes penso na continuidade das coisas, ou pelo menos penso quase sempre que a continuidade das coisas passa quase sempre por uma cisão, por uma rutura. E, claramente, quis que estas letras fossem diferentes das do outro disco, quis que o disco tivesse um ritmo um bocadinho mais calmo - fazia-me sentido, também porque ouço muita música folk e sentia que ainda não tinha, apesar de ouvir muita música folk e gostar muito de música folk, posto isso de forma muito vincada em nenhum disco que tinha feito, e acho que este disco já rompe mais isso, é um disco mais folk. Era uma coisa que eu queria mesmo muito, porque é algo que eu tenho dentro de mim, é algo que eu gosto muito e que ainda não tinha explorado. Para teres um disco folk, em primeiro lugar, a captação – numa questão simplesmente técnica – de instrumentos acústicos é muito mais exigente do que a de instrumentos elétricos. Tu mais facilmente com material medíocre fazes um som bacano a uma guitarra elétrica do que a uma acústica, porque uma guitarra acústica já depende da acústica da sala, já depende de que a guitarra tenha um grande som… ou seja, é muito mais difícil tu captares a realidade do que uma coisa com efeitos, com ‘maquilhagem’… e, nesse sentido, neste disco senti que já podia fazê-lo, antes de tudo porque investi algum dinheiro a comprar microfones, a comprar coisas melhores que as que tinha – e era um salto que tinha de ser dado, ou seja, ou eu ia para um estúdio e o disco não ia ser feito aqui no meu estúdio como eu faço todos (ou seja, um estúdio profissional), ou tinha de ser cá. Então investimos, e houve um investimento muito forte de todos. Os Capitão Fausto também compraram uma placa de som boa, melhor do que a que tínhamos, eu comprei microfones, e de certa forma quitámos o nosso estúdio melhor. Comprámos mais isolamento de som, tentámos que a acústica da sala fosse melhor. E, nesse sentido, ao fim de muita batalha, eu consegui ter aquele som de guitarra clássica e acústica que está no disco. Mas, para ter chegado lá, foi muito difícil porque, , é muito mais difícil [chegar àquele som]. Mas senti que com esse som a que eu tinha chegado, finalmente podia ter o meu disco folk. E depois, umas coisas puxam as outras: essa ideia do disco folk puxou um lado mais contemplativo a fazer letras; a ideia de ir contra o disco que tinha feito antes, ainda mais. O facto de neste disco ter sido eu a tocar tudo também puxou mais esse meu lado, porque é um lado que eu tenho dentro de mim e que, se calhar, no último disco que fiz [Luís Severo, 2017] em que são basicamente os Capitão Fausto que tocam quase tudo, mais o Diogo, e a Violeta a tocar flauta, e mais o coro, a Bia e o Manelito, etc., essa linguagem folk só eu é que tinha, que eles não têm tanto, portanto, acho que foi um conjunto de coisas que se reuniram e que possibilitaram que este disco fosse mais assim.

 

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Tomás e André - E tu, a fazer este álbum, estiveste nos Açores. Isso teve alguma influência na mudança de que falamos?

 

LS - Sim, estive lá a compor. Houve a possibilidade de eu fazer residência no Centro de Artes Contemporâneo Arquipélago, que é um espaço muito fixe. É em São Miguel, e na verdade foi lá que eu comecei a fechar canções e a fechar composições. O que aconteceu foi: entre 2017 e 2018, o ano a seguir a ter acabado o segundo disco, o que fiz foi estar simplesmente muitos dias a apontar letras, ideias para letras, apontar riffs de guitarra, mas soltos, sem estar a compor canções, ou seja, estive, no fundo, quase um ano só a ter ideias mas nunca a concluir nada. Nunca conclui nada porque queria precisamente tentar, de uma forma livre e não muito pensada, entender sítios diferentes a que podia ir, entender coisas novas. E depois, ao fim de um ano, em janeiro de 2018, que é quando vou para os Açores, é quando começo a compor músicas novas, a fechá-las. Acho que estar lá não decidiu completamente o rumo que o disco ia ter, porque como já tinha tanta coisa feita antes, muito do rumo já estava feito, mas possivelmente acentuou, e ter estado lá só reforçou ainda mais esse lado contemplativo que eu sabia que o disco ia ter de ter.

 

Tomás - É que até pela natureza do disco, ser mais rústico, mais pastoral, parece que estamos num ambiente mais açoriano, mais aberto, com as vaquinhas…

 

LS - Sim, há mais vacas do que pessoas lá… (risos). Se formos a ver bem, eu em 2018 tive para aí 50 datas [concertos] ao vivo, foi bué da Para um músico da minha dimensão em Portugal, ter 50/60 datas num ano é muito. Também porque eu faço tudo, gosto de tocar em todo o tipo de sítios. E, portanto, acabei tanto a tocar em festivais como a fazer clubes, como pequenos teatros, aldeias, bares… e, se eu for a ver bem, no fim de contas passei muito pouco tempo em Lisboa. O tempo que estive em Lisboa foi quase todo passado em casa, que era quando estava a descansar. Sendo que casa é casa, não é nenhuma cidade. Portanto, na verdade, essa ausência da cidade e de Lisboa surge como natural porque eu também passei cá muito pouco tempo durante o ano.

 

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Tomás - Eu acho que dá para ver essa ausência, até porque no teu segundo álbum vais falando da Alameda, Penha de França, Santa Apolónia. Neste apenas falas no Campo de Santana, portanto não dá aquela presença de Lisboa.

 

LS - Não dá, e eu acho que é fruto disto mesmo. Até porque quando eu pego para escrever – eu fiz muita estrada de comboio, autocarro… e, muitas vezes, era quando aproveitava e pegava no bloco e começava a apontar coisas, e fiz muitas letras nesses contextos. Portanto, sim. Mais uma razão para ter essa ausência lisboeta. Depois, o tempo que estive em Lisboa [para além de estar em casa] também foi passado no estúdio a fazer o disco.

 

Tomás - Agora entrando mesmo no álbum, abandonando este esoterismo: ao longo do álbum vais falando de diferentes estações do ano, sendo que a Primavera é omnipresente. Falas também do Inverno, do Verão, mas não falas do Outono. Tenho curiosidade de saber o porquê.

 

LS - Ora bem, na verdade acho que o Outono é a estação do ano que menos me interessa – e com isto não quero ser polémico, não quero ofender os outonais.

 

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André – Vai ser o título desta entrevista: “Luís Severo odeia o Outono.”

 

LS – (Risos). Na verdade, acho que, antes de tudo, a Primavera surge como símbolo de renascimento, como um símbolo de vida nova e de recomeçar, que é uma ideia que está também bastante no disco: recomeço e vida a seguir à morte. O disco tem um lado um bocadinho mais negro – e esse lado tens de associar à partida, ao Inverno, e depois tens também o Verão como a estação que se segue à Primavera, quando já houve o renascimento, quando já há uma vida nova e quando começas finalmente a viver uma vida nova. E eu acho que essa ideia, para mim, é muito importante. Nesse sentido, não menciono muito o Outono porque não se liga à Primavera de forma nenhuma. É a antítese, e não tem nenhuma ligação temporal. Mesmo O Sol Voltou remete para uma coisa escura, “estiveste muito tempo numa coisa escura, num Inverno, e finalmente O Sol Voltou”, ou seja, O Sol Voltou diz que o sol nem sempre esteve cá.

 

Tomás - É, então, um álbum otimista?

 

LS - É, acho que é otimista, apesar de ser um pouco denso. Não acho que seja um disco só feliz; acho que tem algumas camadas, mas sim, no fim de contas, é um disco otimista.

 

André - Mencionas na canção Primavera “agora canto a liberdade”. Queria perguntar se achas que a Primavera é, de facto, a estação que traz liberdade?

 

Tomás - É a estação de Abril…

 

LS - É. Não só mesmo abril como maio são meses muito políticos e são meses muito vivos. Maio é um mês muito vivo: é, há muitos séculos, o mês em que mais pessoas se casam, por exemplo – é um dado interessante. Para além disso tiveste o Maio de ’68, politicamente, que teve uma dimensão… [enorme]. Porque eu acho que é uma fase em que as pessoas acreditam, é uma altura em que a liberdade fala mais alto. E essa canção é sobre a liberdade, e eu acho que resume, um pouco, o disco. Por isso é que é, também, a canção que o abre, porque apresenta bastante bem o disco que vais ouvir. Nesse sentido, acho que é uma boa canção inicial.

 

Tomás - Até mesmo, depois, na canção Maio, que é logo a terceira do álbum… eu tenho uma questão em específico sobre esta canção: tu dizes “e a sonhar já se fez maio”, e eu queria perguntar se maio é mais uma ideia, uma representação, em vez de um mês. Para dar um exemplo: o Tyler, the Creator tem uma canção que se chama November, e ele diz “my november was the summer of ‘06” – é uma representação de outro momento, e não de um novembro, necessariamente.

 

LS - Para mim acho que é o mesmo. Obviamente que a minha canção tem a ver com o mês de maio, porque é, talvez, o meu mês favorito. É um mês mesmo fixe. E que historicamente está associado a tanta coisa, tanta vida, e a uma ideia de alguma esperança. Tanto política, como amorosa, como familiar, como mesmo temporal. É maio como uma ideia, mas não afastando da ligação ao mês.

 

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Tomás - Já falámos da primeira e da terceira canções, não falámos ainda da segunda. A Acácia parece algo dark. Porque é que escolheste esse nome?

 

LS - A acácia é uma árvore que simboliza, mesmo, a morte e depois a vida. E a Acácia, enquanto canção, fala sobre a morte e, nesse sentido, sendo uma canção sobre a morte e pretendendo ter um final feliz, achei que Acácia seria um bom símbolo.

 

Tomás - Há alguma ligação pessoal?

 

LS - Não. Apenas gostei do simbolismo e acho que é uma flor bonita. E acho uma palavra bonita, também – e isso também conta. E, na verdade, decidi pô-la como segunda canção porque, depois de ter explicado o lado mais luminoso daquele disco [com a canção Primavera], achei que, logo a seguir, era fixe explicar o lado menos luminoso e mais dark [com a canção Acácia].

 

Tomás - Temos uma pergunta sobre a canção Domingo: como cantas “o tédio trouxe a paz” e parece que estás numa fase mais calma da tua existência, queríamos perguntar se te sentes nostálgico nas andanças e peripécias do amor? É uma pergunta um bocado pessoal…

 

LS - Não. Sinceramente, a canção Domingo não é, sequer, sobre mim. É uma canção familiar. Na verdade, este disco é muito familiar. É um disco em que homenageei várias pessoas da minha família, e se calhar por isso é que é um disco tão romântico. Quando digo “Domingo o tédio trouxe a paz também” não é do meu ponto de vista. Até pode ser que a seguir faça um disco mais sobre… como é que disseste?

 

Tomás - “As peripécias do amor”. (Risos).

 

LS – Isso. Ou seja, neste [disco], sendo um disco sobre a minha família, seria estranho que eu falasse nisso. Seria uma família um pouco incestuosa se fosse esse o caso… enfim, é um disco familiar: a canção Joãozinho, por exemplo, é sobre o meu sobrinho. E, no fundo, a minha dificuldade com este disco, sendo sobre a minha família, foi evitar expô-los demasiado, se bem que acabo por expor, um bocadinho, naquela faixa de áudio que eu pus (é uma gravação familiar, do natal de ’94, portanto eu teria 1 ano. Eu estou , mas só mesmo a chorar. As outras pessoas são a minha avó, os meus pais, etc… Mas o choro que se ouve é meu!).

 

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Tomás - A canção Rapaz também é de alguém da tua família?

 

LS - Não. A Rapaz, por acaso, é uma canção mais de amizade. Sobre aquela cena de teres alguns amigos que depois inevitavelmente deixas de os encontrar tanto, quando a vida muda. Acho que quando entras na faculdade é um dos pontos em que isso acontece. Mas, depois, continua a acontecer noutros pontos [da vida]. E é uma canção que fala sobre, na verdade, nunca te teres chateado com uma pessoa, mas inevitavelmente terem-se afastado, e sentires falta dessa pessoa, mas também não lhe conseguires dizer isso assim tão explicitamente.

 

André - Eu tinha aqui preparada a pergunta sobre quem é o Joãozinho… [entretanto já respondida]

 

LS - É o meu sobrinho. Mas percebe-se que é uma música infantil, certo? É que eu tenho alguns amigos que têm esse nome e que pensaram que a música podia ser sobre eles!

 

Tomás - Agora uma pergunta relativamente à Última Canção: estávamos a falar há pouco sobre como sentes falta de ter alguém a mandar em ti, a mandar-te fazer trabalhos e isso… e tu cantas “se é minha riqueza não ter patrão, não vou mentir: a vida assim não é dura, não”. Isto relaciona-se?

 

LS - Sim, claro que é bom viver assim. É bastante fácil e nunca foi difícil do ponto de vista de que eu sempre gostei do que fiz. Mas tive anos em que não conseguia ter uma vida muito estável. Nestes últimos anos, obviamente, posso estar contente. Não sou uma pessoa que tenha assim muitos luxos, mas vivo bem com o que tenho, pago a minha renda de casa, e não tenho sentido muita instabilidade. Mas pensas inevitavelmente que isso é algo que não dura para sempre e que pode não ter uma continuidade, e a Última Canção fala um bocadinho sobre isso: sobre gostar muito do que faço, mas ter a consciência de que talvez não vá conseguir fazer isto para sempre. E de que, na verdade, aquilo que te faz ser uma coisa mais ou menos nova, também é algo que passa. E há de chegar, também, um ponto em que – não agora, porque estou já com uma sede louca de compor outro disco – [a inspiração e a vontade de fazer música se acalmam]. Este disco teve uma coisa muito gira, que foi: eu, quase sempre, quando acabo discos fico com uma “ressaca” de não saber se consigo voltar a fazer música, não saber o que se segue… e já falei com outros músicos que sentem a mesma coisa. Mas, na verdade, não tive isso com este disco.

 

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Tomás - E sentes alguma pressão em fazer um novo disco ou vais só pela tua vontade?

 

LS - Não, na verdade eu tenho tempo livre. (Risos). Quando não estou a tocar ao vivo ou a ensaiar, não estou a fazer nada. Ou dou entrevistas (risos). E, por isso, inevitavelmente os discos surgem. Mas nunca penso muito nisso de haver ou não pressão [de editar discos], o que é que as pessoas estão ou não à espera… Quando eu geralmente penso isso é na pior fase: quando o disco já está pronto, quando o acabo e entrego. Penso: “agora vou ficar aqui sentado, e haverá um dia em que isto cairá na net, as pessoas vão ter opiniões e eu já não terei nada a fazer”. Acho que essa é a parte que me custa mais. E, nesse sentido, detesto ter discos prontos que ainda não estão ‘cá fora’. Sendo que o tempo mínimo para que um disco saia são três semanas, mas é aconselhável mais, para trabalhar o marketing, a comunicação, e etc. Mas eu faço sempre o mínimo possível, e esse mês, quase, é o pior: ter um disco pronto prestes a vir ‘cá para fora’ e já não há nada a fazer… Tu nunca achas que está bom. Por tua vontade, ficavas sempre a fazer mais! E, portanto, nesse mês é quando eu sinto a pressão: durmo mal… (mas antes faço o disco, ‘tá-se bem…). O disco saiu a 17 de maio e eu entreguei-o por volta de dia 15 de abril – foi mesmo um mês. Depois de entregar, fui quinze dias para o campo, sem net, porque não tinha tido férias e então decidi ter nesse momento. Voltei, depois, em maio porque tinha de ensaiar para as datas [concertos]. Mas faço quase sempre isto depois de acabar um disco – ir para o campo - porque sinto aquela pressão.

 

(Continua...)

 

 

Os entrevistadores: Sara Pacheco, André Certã, Tomás Burns

Fotografias: Sara Pacheco

 

 

09
Mai19

A minha afinidade com Portugal

Jur.nal

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Gosto imenso duma frase, proveniente do enredo do filme americano Forrest Gump: “a vida é como uma caixa de chocolates, nunca sabes o que vais encontrar”, uma vez que tem sido mesmo assim a minha vida, repleta de reviravoltas inesperadas, sobretudo acerca de Portugal e do mundo lusófono.

 

Nasci e passei a maior parte da minha trajetória até agora numa cidade litoral chinesa que se chama Tianjin, era o centro económico do norte do país num certo período do século passado. Talvez a primeira vez que tenha ouvido falar de Portugal, um país no outro lado de mundo, tenha sido na televisão quando se transmitia uma cerimónia de transferência de Macau para a China, no dia 20 de dezembro de 1999. Na altura, não imaginava que podia, um dia, visitar este país que descortinou a época de Descobrimentos, nem pensava de forma nenhuma os demais cruzamentos que aconteceriam mais tarde.

 

Jamais tinha antecipado ir a outro país na fase da escola secundária, porém, tudo se virou para um ramo distinto num dia normal de aula, quando os meus pais foram informados sobre a candidatura do AFS, um programa de intercâmbio juvenil, pelo qual manifestaram interesse e quiseram que eu participasse. Candidatei-me pela insistência deles e escolhi aleatoriamente Portugal, desencadeando a partir daí uma encruzilhada predestinada. Apesar de não falar nada português nem dominar bem inglês na altura, vim cá assim pela primeira vez entre 2007-2008, sendo acolhido numa família portuguesa em Braga, que me recebeu com muita hospitalidade e simpatia. Fiquei cá 10 meses e acabei por conhecer melhor, geograficamente, Portugal do que a China a partir do Gerês até ao Algarve, graças à iniciativa da minha mãe portuguesa. Quando chegou a hora da despedida, disse adeus a Portugal sem previsão da data do regresso.

 

Não obstante, a vida deu uma viravolta dois anos depois, quando fui a Macau para tirar licenciatura na língua portuguesa sob recomendação familiar. Aterrei no terreno português novamente no terceiro ano universitário com o intuito de fazer um outro intercâmbio em Coimbra. Com a facilidade da língua, consegui conhecer a cultura portuguesa com mais profundidade, nesta vez, e fazer amizade com alunos de vários países, em particular do Brasil que também estudavam na cidade universitária. Após 7 meses de estudo e reunião emocionante com a família portuguesa, saí do país outra vez para perseguir o meu percurso da vida em Macau e na China, não tendo antecipação de voltar aqui a estudar. Logo que acabei a licenciatura, entrei numa conhecida empresa estatal chinesa e desloquei-me entre a China e Angola, trabalhando primeiro como tradutor e intérprete e posteriormente na área comercial e jurídica. Adquiri vastas experiências práticas relativamente ao direito angolano, principalmente na área de investimento privado, comercial, industrial e mineração, que me inspirou eventualmente a fazer o curso de direito em Portugal.

 

Quase exclui a hipótese de ser admitido para o ano letivo 2018/2019, já que estava em setembro e próximo do início das aulas, por conseguinte, espantou-me plenamente na altura que recebi o email de matrícula da Nova Direito, com enorme alegria, e nova esperança num dia luandense de calor abafado. Após a complicada organização de inúmeros documentos e tempo de espera para a obtenção de visto, cheguei finalmente a Lisboa em 23 de novembro, um dia marcante da vida, abrindo assim um novo capítulo para a minha história na terra de Camões, que ainda resta para contar no futuro.

 

Estarei eternamente grato pela afinidade com o país, pelo carinho da família portuguesa, pela aceitação da Nova Direito, pelos tempos eufóricos que passei aqui e pelos que certamente irei ainda passar. Nos últimos anos, tenho experimentado aventuras nos países e nas culturas diferentes e ser jurista qualificado em português é um desafio atual para mim, mas tenho a fé de que consigo chegar aí com paciência e tenacidade, tal como diz Alexandre Dumas no seu romance Conde de Monte Cristo, “toda a sabedoria humana estará nestas duas palavras: esperar e ter esperança”.

 

Shiping Shen

 

25
Abr19

Let's talk about: 25 de Abril #2

Jur.nal

25 de Abril – A revolta desiludida na traição

 

            Um comunista desiludido com a glorificação de um início que foi tomado como o fim

 

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(Imagem: Capa de 25 de abril de 1974 do República; um jornal, já extinto, conotado à esquerda).

 

Se é chegada a anunciada

Noite da libertação

Se estes ventos a cantar

São o fim da escuridão

 

Pedem-me que fale num tempo floreado por gerações.

 

Mistificada a origem.

 

Heroicos os sobreviventes.

 

Acolhendo a aparente liberdade, o povo subjuga-se de novo ao regime opressivo, mascarado desta vez por uma débil democracia afirmando a desnecessidade de revolta. Celebramos esta épica data não compreendendo, porém, que o regime contemporâneo não é o conquistado em Abril, mas sim o forçado em Novembro. Dia 25 de Novembro. Rouba-se novamente o poder ao povo, entregando-o aos grandes burgueses. Tal como afirmava o célebre Francisco Martins Rodrigues:

“Se as personalidades eminentes que nos governam fossem capazes de dar a cara festejariam, em vez do 25 de Abril, o golpe militar de Novembro e reconheceriam que nesse dia, ao contrário do outro, não saiu o povo em delírio para a rua mas reinou o silêncio opressivo do estado de sítio; fascistas e magnatas rejubilaram, os militares fiéis ao povo foram metidos nas cadeias e os pobres entenderam que chegava ao fim o seu breve tempo de liberdade e esperança.

 

A voz do povo esquecido grita de longe que ganharam as batalhas, mas, perderam, inevitavelmente, a guerra. Por todo o lado é-nos forçosamente ensinada uma história corrompida, persuadindo o espírito revoltoso a um estado de pacifismo e criando uma inércia abundante na alma humana. Tentando apagar da memória lusitana a ideia de liberdade, entregam-nos uma sociedade com a qual devemos estar satisfeitos, afirmando as conquistas reclamadas. Mas, o que resta realmente de Abril?

 

Presos num ciclo vicioso centrista, de onde a rotatividade é rotina e a política se tornou uma farsa traidora do povo, a real esquerda é esquecida. Num esforço incessante de a apagar do cenário político, envenenam o projeto socialista na mente lusa, conformando-se o povo à sua condição inferior.

 

A luta clandestina prosseguida pelo Partido Comunista Português, a real força opositora e de resistência ao regime fascista durante os 48 anos da ditadura protagonizada pelo mítico Salazar, é minorada nos livros de História. Ensinamos às gerações futuras as grandes e honrosas conquistas e proezas de Delgado, Soares, Sá Carneiro, deixando para trás os 400 anos de prisão acumulada por parte dos militantes do PCP, as conquistas grevistas legais, os movimentos oposicionistas juvenis que criaram a EDE. Falamos, e com legítimo orgulho, da conquista proclamada pelo MFA mas esquecendo-nos, porém, que toda a revolta e insurreição só foi possibilitada devido ao clima que o PCP passou anos a fomentar nas massas, a vontade de liberdade e esperança num regime renovado. O movimento popular foi o que fez do 25 de Abril a vitoriosa rutura com o fascismo.

 

Porém, de que serviu a luta clandestina e os sacrifícios humanos se tudo o conquistado foi atirado novamente aos lobos?

 

A reversão das nacionalizações, a injeção de capital mirabolante em bancos privados, a contínua precariedade da classe trabalhadora, o enfraquecimento crescente do sistema nacional de saúde... O que resta verdadeiramente?

 

Conquistámos grandes liberdades políticas e direitos sociais. Concebemos, como todos nós sabemos, uma grande jornada pela emancipação da mulher e a legalização do casamento homossexual. Ainda estamos longe do ideal, mas progredimos para bom porto. Temos um catálogo de direitos fundamentais excecionalmente completo. Mas, e a real aplicação do espírito de Abril?

 

Numa sociedade cada vez mais despolitizada, resultante da má representação da Nação, percebemos a indiferença com o rumo que Abril tomou. Levam-se à rua as gentes para reivindicar o que é legitimamente seu, entregando-lhes medidas minoritárias, acabando por servir somente para deitar poeira nos olhos da Nação, tendo esta a crença de que tudo estará feito.

 

Honrosas as conquistas. Estagnação afigurando-se evidente. O mais prudente é, de facto, acomodarmo-nos à comunidade como ela se exibe hoje. Porém, seremos os Heróis do Mar se ao invés de lutarmos “contra os canhões” nos subjugarmos a estes?

 

Micaela Ribeiro

 

08
Abr19

Uns pensamentos sobre as prodigialidades do nosso bom Governo

Jur.nal

 

 

Anda o Sr. Primeiro-Ministro a dizer por essas afamadas reuniões do Partido Socialista que os portugueses lhe deveriam dar um voto de confiança nas Europeias, devido ao bom trabalho do seu Governo e do seu anterior ministro Pedro Marques. Incautas razões, parecem-me – o maior cego é aquele que não quer ver. 

 

(Eu deveria estar a estudar obrigações ou a preparar o Moot Court, mas, muito genuinamente, estou farto de toda esta má-inteligência que nos diz governar.)  

 

Primeiro, é preciso alertar o Senhor Primeiro-Ministro que tudo aquilo que os eurodeputados fazem não está dependente do bom (ou mau) desempenho do seu Governo. Os eurodeputados – como nós bem sabemos – representam os cidadãos europeus num Parlamento que é europeu e não nacional, e com o qual o Governo não tem qualquer ligação de qualidade que possa influenciar a maré dos ventos. São águas diferentes – um bom cidadão, um cidadão inteligente, saberá isto; e sabe que o que importa é a qualidade dos candidatos que se apresentam a eleições para a discussão do projecto europeu e de tudo o que ele enfrenta. Só um parvo (perdoem-me a franqueza, mas hoje estou irritadamente pragmático) iria votar nas listas do Partido Socialista porque o seu Governo, em Portugal, tem feito um pretenso bom trabalho a administrar o Estado.   

 

Mas não é isto que mais me escandaliza, meu caro colega. Há por aí bem pior – é que o candidato do Partido Socialista ao Parlamento Europeu, anterior ministro das Obras Públicas do actual Governo, mente descaradamente. Bem sabemos, nós, que já somos suficientemente velhos para nos relembrarmos desses gloriosos anos de governação socrática, que a mentira está bem enraizada nas veias do Partido Socialista; pensávamos que o povo estaria imune já a isso (para a minha tristeza, e tristeza colectiva penso, não é verdade que esteja, segundo as sondagens).  

 

Mas enfim, o grande problema, aqui, é que Pedro Marques mente descaradamente, a toda a força - quando era ministro e agora, enquanto cabeça-de-lista pelo PS às europeias. Veja-se, por exemplo, no sítio web de fact-checking Polígrafo. Há, pelo menos, dois casos em que, logo na primeira página, o candidato apresentou ao público que são manifestamente falsas. E quem acompanhou de perto toda a cobertura excelente que o jornal Publico está a fazer da crise nos comboios sabe que muitos dos anúncios do ministro eram puras mentiras – houve um caso no Norte em que, para se vangloriar da electrificação de uma linha de comboio, montaram uma catenária só para o ministro poder passar no comboio eléctrico e fazer a sua propaganda, desmontando-a logo a seguir. A imprensa local utilizou o título “O ministro anda a brincar aos comboios” para descrever a triste situação.

 

Mas o problema é muito mais grave: o senhor Pedro Marques anda a faltar à verdade descaradamente, sem qualquer pudor, e ninguém o desmascara. E ninguém diz nada (faz-me lembrar, mais uma vez, essa tragédia clássica que foi o Governo de Sócrates e a respectiva campanha, muito embora, na altura, a oposição soubesse apontar os erros e incongruências do dito cujo, mas os cegos não quiseram ver…). 

 

Num país civilizado, onde existe honra e esses demais valores que foram banidos há muito tempo, senhor Pedro Marques desistia da campanha e recatava-se publicamente até ao resto dos seus dias; o senhor Primeiro-Ministro, por apoiá-lo, no mínimo, demitia-se (lembram-se da Finlândia, onde, há coisa de um mês, o PM se demitiu por não conseguir cumprir o Programa de Governo?). Mas, enfim, nós vivemos na República das Bananas – permitam-me que cite Arnaldo de Matos: isto é tudo um putedo –, isto só lá vai com a invasão espanhola.  

 

Isto entristece-me e revolta-me, caro colega (a repetição do “isto” foi propositada). Não concebo poder confiar para me representar em alguém que mente forçosamente para atingir objectivos políticos – vai contra toda a ética e bom-senso. “Eles são todos iguais” dir-me-ão: o meu professor de História no secundário disse-nos uma vez, na aula, que “votar era escolher de entre os menos maus” – acho que nunca ouvi nada tão apurado e balançado com a realidade; por isso vos digo: creio que existe menos mau que Pedro Marques… 

 

Tiago Jorge

O autor não adota o atual A.O.

31
Mar19

ADJ e os novos preços dos passes

Jur.nal

 

Segunda-feira, 25 de março de 2019. Nos relógios passam já 37 minutos das 9 horas da manhã – eis que finalmente chega o professor de Análise do Discurso Jurídico. Justifica o atraso com congestionamentos no comboio e não se coíbe de rematar (cito de cor): “se já é assim agora, imagino com os novos passes”. Deu-me a ideia de escrever este texto, Sr. Professor.

 

A medida de redução drástica dos preços dos passes para os transportes públicos é, com efeito, importante ao ponto de vir à baila numa aula de ADJ. Talvez seja até, como dizia um dia destes Daniel Oliveira num Eixo do Mal, “a medida mais importante do governo”, pelo impacto direto que terá nos rendimentos das famílias - maior que qualquer redução de impostos - e pelo número de eleitores (o termo empregue não é displicente) que abrange. Reduzir o preço dos passes sociais dará por certo mais votos do que aumentar salários à função pública – com a vantagem de custar menos aos cofres do Estado e não semear ódios no restante universo de trabalhadores.

 

Ainda assim, não caio na tentação de atirar que é uma medida eleitoralista. As medidas certas nunca podem ser eleitoralistas. Podem discutir-se as circunstâncias que a circundam, mas estamos no âmbito da Política...

 

Esta é uma medida certa porque justa. Desde logo, reduz as desigualdades entre os portugueses que conseguem habitar os centros de Lisboa e Porto e aqueles que são atirados para as periferias (para as Áreas Metropolitanas, designadamente), sobretudo em tempos de especulação imobiliária. Assim o disse, e bem, Marques Mendes no seu comentário televisivo semanal – aponta o redator referências de ambos os pólos políticos para o leitor perceber que esta é, de facto, uma medida boa, capaz de gerar satisfação alargada, o que é raro na mesquinha política portuguesa.

 

Redistribui-se a riqueza: são os habitantes das áreas metropolitanas com – à partida - menor poder económico que vão precisamente beneficiar das maiores reduções, já que eram também os que mais pagavam pelos seus passes. Perfeito - ainda que nos possamos questionar: “então os pensionistas de Bragança vão pagar o passe social do mafrense que trabalha em Lisboa?”. É certo que nos podemos interrogar sobre essa questão, o que não invalida que seja uma questão néscia e não mais que superficial. O ponto é sobre a justiça social, que já sabemos sair reforçada com esta medida, e não o contrário. Colocarmo-nos aquela dúvida é tão pouco inteligente como perguntar se é justo o habitante do centro de Lisboa pagar os 40% a mais que recebe o médico que trabalha no interior do país; ou se é justo o desconto do açoriano que viaja, por preço mais barato, do arquipélago para Portugal continental na TAP. Não obstante, voltar-se-á à questão do habitante de Bragança mais à frente.

 

Bom, reduzir o preço dos passes – nalguns casos de forma drástica – significa estimular-se a poupança das famílias e fomentar-se o uso do transporte público (pode ler-se no Público: “O Governo espera que com esta diminuição do peso dos passes no orçamento das famílias, a procura pelo transporte público aumente 10% este ano, apontou Matos Fernandes, sublinhando que, nos últimos três anos, o crescimento anual tem variado entre os 4 e os 5%.”.

 

Não menos importante, retirará automóveis do centro de Lisboa e dos acessos, o que leva a duas coisas: melhoram-se as acessibilidades e agride-se menos o ambiente. Podem reduzir-se assim, e de forma drástica – espero –, as externalidades negativas associadas à nossa mobilidade. A fasquia de esperança está alta já que, segundo dados do INE de 2018, 67% dos portuenses usava o carro nos seus movimentos pendulares (59% em Lisboa).

 

Acontece que, como em tudo na vida, obstáculos se levantam: por um lado, a medida piorará a qualidade de vida diária de quem utilizará os transportes se não houver investimento – se assim for, degradar-se-ão (ainda mais). O certo é que (ainda segundo o Público): “De acordo com as normas estabelecidas, do valor usado pelas áreas metropolitanas ou pelas CIM [Comunidades Intermunicipais], enquanto autoridades de transportes, pelo menos 60% tem de ser canalizado para o apoio à redução tarifária (como a descida dos passes ou a “alteração de sistemas tarifários"). Os outros 40% podem ser usados para o “aumento da oferta de serviço e a expansão da rede”. António Costa anunciou, também, novos investimentos públicos nos transportes no debate no Parlamento, há duas semanas. A promessa, em política, de pouco nos vale – estaremos cá para ver.

 

Pela outra mão - e é aqui que se regressa a Bragança - numa altura em que tanto se fala de descentralização e desigualdades regionais/exclusão social, esta é uma medida que vai ao arrepio de tudo quanto se tem discutido naquele sentido. Só assim pode ser quando a fatia do orçamento que vai para o interior ou todas as áreas que não sejam as duas grandes Áreas Metropolitanas é muito reduzida – do valor total orçamentado (104 milhões de euros), 70% vai diretamente para a AML.

 

Para além disso, ainda que a medida abranja 85% da população (as duas Áreas Metropolitanas e 16 Comunidades Intermunicipais; nas restantes cinco—Trás-os-Montes, Tâmega e Sousa, Região de Leiria, Alentejo Litoral e Algarve —, a redução no preço dos passes entrará em vigor apenas em maio - é uma situação que se não pode descurar, já que é precisamente nas Comunidades Intermunicipais – com menos verba orçamentada – que os serviços de transporte públicos pior funcionam (em geral, e a vários níveis) – e eu sou um dos que o pode provar por experiência(s) própria(s).

 

Seria interessante que se abandonasse o hábito de pensar primeiro nuns e só depois noutros.

 

Não se pode, por fim, esquecer a situação de quem reside e trabalha em comunidades intermunicipais não coincidentes, ou o caso de quem, para estudar ou trabalhar, se tem de deslocar de uma Comunidade Intermunicipal para uma Área Metropolitana. Ainda algumas dúvidas persistem.

 

João Duarte

 

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