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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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18
Mar20

Melhores Filmes da Década - Escolhidos por Maria Inês Opinião

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Porque a arte não é só música (e porque temos bastante tempo livre para ficar em frente da televisão), a nossa colaboradora Maria Inês Opinião traz-nos a sua lista de melhores filmes da década (um por ano). Através de cada imagem podem aceder ao trailer, e uma grande parte dos escolhidos estão disponíveis na Netflix, estando indicados quais. 


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2010 – Shutter Island, de Martin Scorsese
O Marshall Teddy Daniels, volvido recentemente da 2º Guerra Mundial, investiga o desaparecimento de uma paciente num hospital psiquiátrico. Como seria expectável através da premissa, é uma viagem pela sanidade. Com ótimas prestações, já habituais, de Mark Ruffalo e, especialmente, Leonardo DiCaprio, é-nos apresentado um filme que, apesar das características habituais de thriller, como a atmosfera arrepiante bem sucedida, fruto de uma aliança entre a imagem e o som, escolho não o ver como tal. De modo a evitar spoilers, não me alongo nesta ideia; acredito que quem já o viu saberá ao que me estou a referir. As cenas finais são difíceis de apagar da memória, quer pela sua harmonia, quer pelas suas implicações. (Disponível na Netflix)

 

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2011 – Hugo, de Martin Scorsese
A primeira vez que me deparei com a Invenção de Hugo Cabret foi no cinema. Gostei sem saber ao certo o porquê. Ao longo dos anos revi-o, muitas vezes, tal como fiz com o livro de Brian Selznick, no qual se baseia. Lá aprendi que tinha sido realizado por um dos cineastas mais reconhecidos da atualidade, que retratava uma realidade temporalmente menos distante do que achava e o que isso significava. Trato este filme como um abraço: sei que passe o tempo que passar vou sempre encontrar a mesma história que me encanta que é também uma ode ao cinema enquanto arte, não sendo perfeito em qualquer dos seus aspetos demonstra carinho pelo cinema de um modo infantil e genuíno. Georges Méliès, a personagem, quase no término do filme, pede à audiência para sonhar com ele; é apenas uma verbalização daquilo que o filme, em si, nos pede para fazer. (Disponível na Netflix)

 

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2012 – Amour, de Michael Haneke
Georges e Anne, casal octogenário de classe média-alta, ultrapassam, juntos, as consequências do AVC de Anne. Amour é um dos filmes mais angustiantes que já vi. É, também, um dos mais bonitos. Em apenas uma localização, Georges realiza uma viagem nostálgica por todas as décadas que passaram juntos. É personalização de um medo, profundo amor e sacrifício num só filme.

 

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2013 – Her, de Spike Jonze
Não tenho muitos filmes de 2013 no meu espólio. Assim, a história do escritor solitário, Theodore, que desenvolve uma relação amorosa com um sistema informático que tem como objetivo satisfazer todas as necessidades do utilizador, encontra-se no topo. Jonze apresenta-nos uma história que se tem mantido e irá manter relevante de forma honesta, pura – algo que não é assim tão comum. Esteticamente agradável, com um elenco imaculável (Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Amy Adams) e uma realização impecável. Her distancia-se das histórias de amor e das ficções científicas às quais estamos habituados e é, sem dúvida, uma das melhores conseguidas. Volto ao filme de tempo em tempo.

 

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2014 – Birdman or (the unexpected virtue of ignorance), de Alejandro G. Iñárritu
Tenho a memória particularmente viva de assistir a este filme em meados de 2017, felizmente, pois caso o tivesse feito aos 14 anos provavelmente achá-lo-ia simplesmente estranho, possivelmente nem o iria terminar. A história do ator em decadência, Riggan, unicamente conhecido pela interpretação de um super-herói, que tenta reerguer a sua carreira atuando numa peça da Broadway. Presos no limbo entre a realidade e o imaginário, acompanhamos Riggan e a suas relações marcadamente difíceis entre o próprio e aqueles que o rodeiam, com problemas quotidianos mais ou menos peculiares. A inclusão de atores participantes em filmes de super-heróis – Michael Keaton e Emma Stone – torna-se especialmente irónica na crítica da obsessão das massas, que agravou com os anos, com o género. A aparente realização de um único take excecional, uma soundtrack muito específica de jazz percussionista, porém adequada, e um final que me deixou completamente em êxtase tornam este filme num dos primeiros que adorei adorar, sabendo que é fruto de mais do que atores e enredo. (Disponível na Netflix)

 

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2015 – The Lobster, de Yorgos Lanthimos
2015 é, infelizmente, um ano que não nos presenteou com filmes de particular destaque. Tal não impediu Yorgos Lanthimos de apresentar uma sátira visualmente deslumbrante – algo a que já nos habituou – que retrata de forma peculiar e forçada o desenvolvimento de relações amorosas através de personagens monocórdicas e diálogo invulgar, com especial ênfase na importância da existência de semelhanças entre duas pessoas que se relacionam. A ruptura evidente define e divide somente a história, os juízos críticos acerca do filme continuam a colocá-lo num pedestal; pessoalmente, prefiro, sem desdenhar o restante, o início. O elenco, que conta com Colin Farrel, Rachel Weisz, Olivia Colman e Léa Seydoux, faz um trabalho incrível num filme que, até hoje, continua a surpreender e a deixar sem qualquer tipo de indiferença qualquer um que o veja.

 

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2016 – Arrival, de Denis Villeneuve
Louise Banks, linguista, é contratada pelo exército americano de modo a interpretar o modo de linguagem utilizado por alienígenas. Villenueve cria, então, um filme de ficção científica que ultrapassa as barreiras do género para se focar nas da linguagem e do tempo. Arrival é um filme ao qual não aponto falhas. Presenteia-nos com um elenco incrível, em especial a performance fenomenal de Amy Adams (que não foi devidamente premiada), banda sonora e cinematografia excepcionais, e um guião único. Ainda assim, o filme poderia não se destacar. Felizmente, pelo contrário, é inesquecível, tratando assuntos complexos de modo delicado.

 

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2017 – Three Billboards outside Ebbing, Missouri; de Martin McDonagh
Mildred (Frances McDormand), 7 meses depois do homicídio da sua filha, desafia pessoalmente a polícia a encontrar o culpado, ao colocar 3 outdoors vermelhos à porta da cidade. Num filme repleto pela imprevisibilidade, é complicado descrevê-lo sem incorrer em detalhes indesejados. Os pontos altos do filme são as prestações surpreendentes de McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, tal como o guião impecável. Three Billboards outside Ebbing, Missouri, no seu âmago, não se trata necessariamente de uma história de vingança. No entanto, e reitero, não devo detalhar: deve ser uma experiência pessoal.

 

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2018 – Roma, de Alfonso Cuarón
Roma é um filme simples. Apresenta-nos uma família e as suas empregadas domésticas nos anos 70, na Cidade do México. É, no entanto, um filme ambicioso. As prestações, especialmente de Yalitza Aparicio, são impecáveis, não deixando qualquer margem de dúvida no realismo das personagens – algo de louvar, especialmente considerando que muitas destas são crianças. A cinematografia, exclusivamente a preto e branco, é encantadora. Não deixa qualquer margem para um desejo de cor. Contudo, o fator mais surpreendente é o som. Um ladrar à distância, o motor de um carro, músicos ao fundo da rua e até o vento tornam a experiência completamente imersiva (não é por acaso que cada vez que menciono o filme aconselho também um bom sistema de som). Todas as cenas são impressionantes e devastadoras à sua maneira. (Disponível na Netflix)

 

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2019 – Parasite, de Bong Joon-ho
Bong Joon-ho é o homem do momento. Não só rompeu com o hábito da Academia de não premiar filmes estrangeiros com o prémio de “Melhor Filme”, como tal foi totalmente justificado. A realidade sul-coreana é-nos exposta através de um enredo insólito, colmatado pela crítica social daquele que, como diz o próprio realizador, é o país da humanidade – o capitalismo. Performances impecáveis, uma direção tão harmoniosa que seja a ser musical, um equilíbrio perfeito entre comédia, drama e emoção. Parasite é o início da valorização comum do cinema internacional.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

11
Nov19

Parasite

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Parasite (Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019

Direção: Bong Joon Ho

Guião: Bong Joon Ho, Jin Won Han

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park

Duração: 132 min.

 

Num ano repleto de obras-primas cinematográficas, de entre as quais podemos destacar Joker (dirigido por Todd Phillips) e Midsmommar (dirigido por Ari Aster), eis que surge o filme mais ousado de Bong Joon Ho – Parasite. Muitos poderão conhecê-lo pelo filme Snowpiercer, baseado no romance gráfico Le Transperceneige, ou até de Okja, mas atrevo-me a dizer que Parasite é talvez “o filme” da sua carreira, tendo sido galardoado com a Palma de Ouro no festival de Cannes deste ano.

 

As obras de Bong Joon Ho exibem traços de crítica e sátira sociais, imbuídas por um tom cómico, com alguns cenários de violência, que demonstram o domínio do meio social na construção dos comportamentos e vivências das personagens. O filme Parasite não é exceção e constitui um grande exemplo dessas características.

 

Parasite possui uma narrativa bastante cativante, repleta de surpresas – das gargalhadas ao incómodo, é um filme que inquieta o público, mas que transmite uma mensagem bastante profunda sobre as discrepâncias sociais, concretamente na Coreia do Sul, contudo, é uma mensagem bastante abrangente que se pode aplicar a qualquer tipo de sociedade.

 

O filme retrata o quotidiano de uma família pobre, apresentando a perspetiva daqueles que sobrevivem numa sociedade que apresenta cada vez mais desigualdades. Estes “parasitas” – forma como são considerados pelos membros das classes mais elevadas - fantasiam com vidas envoltas em luxo, aspeto que analisado ao pormenor revela um profundo desejo de alguma segurança social e financeira. A família de Ki Woo (família pobre que protagoniza o filme) vive numa cave minúscula, sem quaisquer condições ou segurança, tendo inclusive de roubar a wifi dos vizinhos – confesso que soltei uma longa gargalhada enquanto assistia ao filme, por causa deste anedótico pormenor.

 

Inicialmente conseguimos perceber que todos os membros da família se encontram desempregados, vivendo tempos muito difíceis, e ganhando algum dinheiro a dobrar caixas de pizza. Entretanto surge a oportunidade de Ki woo dar aulas particulares de inglês a Da-hye, filha mais velha da família Park (família esta bastante abastada). À medida que o filme avança surge uma problemática muito pouco conhecida – a pobreza na periferia das grandes cidades da Coreia do Sul, engrossando o abismo social. É possível verificar o contraste entre os espaços físicos: por um lado temos a cave onde mora a família de ki woo, composta por quatro membros e, por outro, temos a casa da família Park, uma casa majestosa, demasiado grande para a família Park. Esta discrepância entre espaços físicos é intensificada pelos tons de lente utilizados em cada cena: enquanto que na zona de residência da família mais pobre são utilizados tons mais escuros, que transpõem um enorme negativismo, e gerando alguma repulsa no público, nas cenas em que surge a moradia da família mais rica são utilizados tons muito mais claros, com muita luz, sendo este o ambiente mais agradável presente no filme.

 

Como não pretendo “arruinar” com spoilers a eventual experiência dos leitores, abstenho-me de prolongar a minha exposição sobre Parasite. Resta-me dizer que este é, de facto, um dos melhores filmes de 2019, difícil de classificar em termos de género, com um enredo nada expectável e um final que deixa alguma abertura para o surgimento de teorias (e quem sabe, uma possível continuação).

 

Ana Machado

(Aluna de Mestrado em Forense e Arbitragem) 

 

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