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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

03
Set20

Entre Duas Espadas e a Pandemia

Jur.nal

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Daqui a pouco meses, o povo americano lá terá de regressar às urnas (esperemos que o possa fazer a partir de casa) para escolher entre dois homens velhos e brancos, cada um com as suas próprias excentricidades e acusações de assédio sexual, para que um deles saia vitorioso. O problema desta escolha é que, seja qual for o vencedor, o povo sairá derrotado de qualquer das formas.

Esta é a infeliz realidade política dos Estados Unidos da América. Já o é desde há muito, sendo que só em 2016 é que se tornou óbvio. E, ao contrário de 2016, conhecemos bem as (poucas) virtudes e as (muitas) falhas de ambos os candidatos, não havendo a dinâmica de outsider vs. establishment que dominou a decisão desse ano.

Por um lado, temos Donald Trump, o 45.º Presidente dos EUA e talvez o mais controverso, não só porque foi o primeiro businessman sem qualquer experiência política a ficar encarregue da Casa Branca, mas também porque viu a sua estadia no Oval Office ser permeada de escândalos de todas as cores e feitios. Começou com a interferência russa numas eleições e quase que acabou com a interferência ucraniana noutras, passando por acusações de infidelidade, por nomeações para o Supremo Tribunal simplesmente indignas e por tentativas de adquirir a Gronelândia à Dinamarca, entre outras.

Para além dos escândalos, a presidência Trump ficou também marcada por um afastamento ideológico da doutrina de direita dominante nos EUA desde dos anos 80. O conservadorismo evangélico, pro-família e pró-guerra de Barry Goldwater e Ronald Reagan foi subitamente e pouco subtilmente sucedido por um conservadorismo reacionário, destinado a destruir o legado de Barack Obama, seja pelo Supremo Tribunal, seja pelo Senado, seja pelas inúmeras Executive Orders assinadas por Trump, entre as quais se destacam a declaração do estado de emergência na fronteira (o mais perto que alguma vez se chegou da infame Wall) e as respostas à pandemia de Covid-19, amplamente criticadas por não serem restritas o suficiente.

Por outro lado, temos Joe Biden, o 47.º Vice-Presidente dos EUA e um dos menos controversos, francamente porque nunca fez nada de especial. Aproveitando a sua imagem de avô fixe de calça de ganga e camisa com as mangas arregaçadas pelo cotovelo que cultivou através da sua amizade com Barack Obama, Biden usou o seu estatuto de establishment man dentro das fileiras democratas (e umas manobras um pouco indignas orquestradas com Elizabeth Warren) para derrotar Bernie Sanders e os restantes na corrida para a nomeação presidencial do Partido Democrático.

Ao longo da sua extensa carreira política, Biden ficou conhecido por desafiar as alegações de assédio sexual contra o Juiz Clarence Thomas na sua nomeação para o Supremo Tribunal em pleno Senado, por ser um dos principais patrocinadores da Crime Bill de 1994 que transformou o sistema de justiça criminal norte-americano num pesadelo draconiano e por apoiar as inúmeras incursões militares promovidas pelo seu patrão enquanto trabalhava na Casa Branca. Ficou também conhecido por ser um homem constrangedor e senil, que frequentemente se atropela nas suas palavras e que tem um hábito de tocar em mulheres de forma desconfortável e muita próxima do assédio.

Felizmente, o Partido Democrata conseguirá colmatar estas falhas todas com a escolha iluminadora e feminista de Kamala Harris para a posição de Vice-Presidente, sendo que será a primeira mulher afro-americana, asiática e procuradora de justiça responsável por atirar mais de mil pessoas para a cadeia por crimes de posse de marijuana (que a própria, entre risinhos, já admitiu fumar) a ocupar o cargo.

A boa verdade é que ambos estes homens são horríveis e dificilmente há forma de os defender. No entanto, a triste realidade é que o sistema eleitoral norte-americano é um two-party system, onde o Presidente nem é escolhido pela população, mas sim pelos estados, através do Electoral College. Graças a este sistema único e retrógrado, são 538 votos que decidem o Presidente, não 253.768.092.

Ainda por cima, este ano não há boas nomeações por parte de terceiros partidos, cujos candidatos estão longe de serem um Ross Perot ou até mesmo um Gary Johnson. Por isso, os EUA terão de escolher entre Biden ou Trump (ou Kanye West, não sei se melhora a situação). No entanto, esta eleição não decidirá apenas quem se senta na cadeira mais poderosa do mundo, decidirá muita outra coisa que importa também ter em consideração.

Em primeiro lugar, o Supremo Tribunal depende desta eleição. Atualmente, cinco dos juízes são republicanos e quatro são democratas, sendo que o Chief Justice John Roberts gosta de se fazer liberal de vez em quando, o que significa que o Partido Republicano está a um juiz de ter uma maioria confortável e duradoura. Se Trump tiver a oportunidade de nomear mais um juiz, o Supremo Tribunal ficará em posse republicana durante décadas, tendo tanto a possibilidade de criar precedente como de destruir precedente, estando principalmente em risco o estabelecido por Roe v. Wade (1973), que legalizou o aborto em todos os estados.

Em segundo lugar, a realidade geo-política está rapidamente a alterar e a China cada vez a ganhar mais poder em todos os cantos do mundo, pelo que a forte oposição de Trump acaba por ser um dos poucos impedimentos deste avanço, com o efeito nocivo de causar tensões indesejadas entre os dois rivais. Ademais, a Coreia do Norte e o Irão continuam a carregar com o seu anti-americanismo, sendo difícil de prever se as relações com estes países vão acabar em mais conferências como a de Hanoi ou em devastação nuclear. Infelizmente, o destino da paz mundial dependerá desta eleição, cabendo ao próximo Presidente dar o seu melhor para prevenir o colapso (se calhar inevitável) do planeta Terra.

Em terceiro lugar, as tensões raciais dentro dos próprios Estados Unidos da América atingiram um novo pico com o homicídio de George Floyd, em Minneapolis, que deflagrou centenas de protestos e motins por todo o país que foram reprimidos com ainda mais brutalidade e violência policial, incentivada pelo Presidente. No decorrer destes últimos quatro anos, Trump alimentou a divisão racial até chegar a um ponto que já não se via desde da década de 60 e, paradoxalmente, promoveu a maior política de reforma criminal destes últimos 50 anos, libertando milhares de prisioneiros injustamente encarcerados, sendo a maioria destes afro-americanos. Com este legado misto, caberá a Biden provar-se como o candidato mais sensível à questão do racismo, sendo que o seu legado igualmente misto não dá grandes asas à esperança que o seu grande amigo Barack Obama tão entusiasticamente promoveu em 2008, sem quaisquer efeitos.

Em quarto lugar, a resposta federal à pandemia tem sido desastrosa, pelo que os Estados Unidos da América são, de longe, o país mais afetado pela Covid-19, tanto em número de mortos como de infetados. Mesmo assim, a política não-intervencionista da Casa Branca tem provocado reações muito díspares entre os estados, muitos dos quais promovem uma hands-off approach que tem feito disparar o surto em todas as métricas disponíveis. Isto tudo sem mencionar a crise económica que se sente e que se irá sentir, o que responsabilizará o próximo Presidente com mercados em queda, desemprego nunca antes visto e uma taxa de inflação exorbitante, devendo este estar preparado para fazer o que os presidentes americanos sempre fizeram como resposta a estas dificuldades: resgatar os bancos e os grandes monopólios.

Ao fim do dia, este quarto fator será o determinante na eleição de novembro. Um sucesso gigante agora (como uma vacina) certamente ajudará Trump, enquanto que os falhanços sucessivos da administração atual apenas ajudam Biden, mesmo que este tenha uma presença pública muito diminuída. É ainda importante lembrarmo-nos que esta eleição caberá a poucos estados (os ditos swing states), como a Flórida e o Michigan, que foram muito afetados pela Covid-19, sendo esta decisiva para os eleitores mais importantes do país (porque, nos EUA, democracia não implica necessariamente “igualdade”).

Desta forma, o povo norte-americano, eu incluído, está encostado contra uma pandemia devastadora com duas espadas, uma vermelha e outra azul, ambas mentalmente instáveis, a pairar sobre a sua cabeça, como se tratasse de um autêntico Damocles. Olhando para os fatores em mão, eu já tomei a minha decisão. Mas não culpo os meus compatriotas que decidam de outra forma. Seja qual for a espada, nunca é agradável levar com uma na cabeça.

 

Tomás Burns

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura e Diretor-Adjunto do Jur.nal)

30
Ago20

Cultura, I guess

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Este texto é publicado na revista oficial dos estudantes de uma Faculdade de Direito. O conteúdo mais comum, aparte opiniões sociais e políticas, são álbuns, filmes e livros preferidos. O porquê de os termos consumido e porque é que os outros também o deveriam fazer. Todos nós lhes reconhecemos o valor enquanto escapatória do mundo da lei, caso contrário não teríamos uma tuna ativa, tal como o Grupo de Retórica e o Jur.Nal.

Enquanto colectivo, reconhecemos o valor dos artistas e das suas criações. Todos temos playlists no Spotify para as viagens grandes, enchemos cinemas, compramos o candeeiro novo porque é muito mais bonito do que o que já lá está em casa. No entanto, não reconhecemos as suas ambições. Todos os anos centenas de alunos ouvem que não vão ter emprego se seguirem certo caminho. Felizmente, ignoram.

Negar que existe um problema com a arte em Portugal é viver numa ilusão obscena. Negar que o mesmo se relaciona com motivos socio-económicos é um branqueamento profundo da realidade portuguesa.

Considero que crescer na Beira Interior é uma existência feliz. Não teria escolhido qualquer outro sítio. Ir e voltar é nostálgico: a nova realidade da nossa cidade pequenina, não reconhecer os miúdos – a frase que mais vezes repito quando cá estou é, sem qualquer sombra de dúvidas, “estou velha”; não é que o esteja, a mudança é que simplesmente não é confortável. O Luís Severo, na sua Cheguei Bem, expôs perfeitamente o que sinto desde setembro de 2018: “cheguei bem, mas já vou embora”. Sinto-o, mesmo que o Luís se esteja a referir a Lisboa. A arte tem a vantagem dos vários significados, de ser um conforto na situação concreta.

Crescer na Beira Interior é, também, um sentimento agridoce. É ir ao cinema ficar perante blockbusters e animação infantil, raros concertos – normalmente não a meu gosto ou que desconhecia (e que mais tarde me arrependia) – por sorte, sempre frequentei o teatro que, infelizmente, é algo atípico no interior. Os grandes concertos em Lisboa ou no Porto que falhei porque ia ter que faltar à escola. Comecei a ir no meu 11º ano, a escola ia continuar, os concertos nem por isso.

O interior apresenta um custo de vida muito inferior ao da capital. Na minha cidade arrendam-se casas a metade do preço de quartos em Lisboa. Entristece-me saber que alguns dos meus colegas ficaram a estudar por cá não por escolha, mas por necessidade. Um artista beirão está limitado pelo estigma com que é visto e pelas circunstâncias familiares. Alguns lá desistem e ingressam num trabalho mais convencional.

Em Lisboa encontrei um novo cenário. Havia tanto para fazer que nem sabia bem o que escolher. Somos bombardeados constantemente por todo o tipo de atividades culturais. Mesmo não me alongando, desta vez, em convicções pessoais, não posso deixar de reparar que a cultura parece mais apelativa aos mais abastados. Desengane-se quem acredita que é por falta de gosto. É falta de tempo, falta de posses, falta de vontade de ser olhado de lado. Mais uma vez, algo não bate certo. Como é que a cultura é para os ricos, mas os artistas são pobres?

O Orçamento de Estado para 2020 aumentou em 16,7% o que destina à cultura. Ficou aquém do 1% do OE pedido pelo setor. É urgente que a cultura comece a ser reconhecida. No mundo da cultura, um artista bem sucedido é aquele que na pandemia não precisou de ajuda. Nos teatros, aumentam-se os preços para não sucumbirem. Os artistas merecem, como qualquer outro, reconhecimento pelo seu trabalho. A arte é mais do que um passatempo, mais do que um entretenimento de outrem. Precisa de ser vista como algo essencial, que o é.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 3.º ano da Licenciatura)

29
Mar20

Uncut Gems (2019) - Crime para Outra Geração

Jur.nal

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Em Good Time (2017), Josh e Benny Safdie agradeceram especialmente a Martin Scorsese. O agradecimento é justíssimo – em Good Time ressoa, entre outras coisas, o pouco reconhecido After Hours (1985) – e o realizador regressou aos créditos do trabalho dos nova-iorquinos como produtor. Curiosamente, li há pouco tempo alguém que lembrava uma comparação do novo filme da dupla com Goodfellas (1990), o magnum opus de Scorsese, alegando que Uncut Gems seria para esta geração o que os bons rapazes foram para a sua. Arriscada como é, arrastando a força que, inevitavelmente, arrasta, talvez esta ideia diga muito sobre o que a última sensação dos irmãos Safdie significa para o cinema.


A internet já se encheu de imagens de Adam Sandler, de óculos escuros, os dentes grandes e branquíssimos, a legenda, This is me, this is how I win, pelo que não há muito que valha a pena dizer: está, sim, extraordinário; é, sim, uma atuação que reforça a força da transição da comédia para o drama – como com Jim Carrey ou Steve Carell; era, com certeza, performance para mais nomeações. Posto isto, Sandler é Howard Ratner, um negociador carismático, proprietário de uma loja de joias, que se envolve em vários negócios à volta de um novo e especial artigo: uma opala negra.


Neste circuito de negócios, Uncut Gems cansa. Propositadamente. A entrada no filme funciona como um salto de altitude, um mergulho na confusão sem a qual o mundo de Ratner não existiria. Trivial como possa parecer, este é um exercício particularmente difícil de executar: aos irmãos Safdie não interessava a suspensão da envolvência, ou o foco sobre determinado aspeto da ação, o que é estruturalmente constituinte do cinema com esta exposição. Uncut Gems é um filme lotado, é a cidade de Nova Iorque espremida na pequena loja de Howard Ratner, é a confusão de um homem soterrado pela rede de negócios que montou. A câmara flutua freneticamente ou amplia progressivamente, as luzes são saturadas, as cores dão uma dimensão de artificial àquela realidade, aquele mundo. E é justamente isso que isto é: é o dinheiro que vai e vem, as trocas desmesuradas, as apostas irreais, é um fugazi, é o poder de uma joia.


Essa dimensão de artificialidade é constante ao longo do filme e os irmãos Safdie trabalham-na primorosamente: na sua construção e na sua destruição. Uncut Gems é um cinema frenético, de sobreposição, de confusão, que cria, que gera, que cresce e que, finalmente, derrama. E derrama com estrondo e com estilo: para isto muito ajuda a fotografia do eclético Darius Khondji, numa aproximação (diria que melhorada) ao estilo visual do Good Time. Na verdade, a fotografia da longa é prodigiosa na configuração do ambiente. No que ao peso do filme concerne, por ser tão meândrico, tão enleado, tão convulso, Uncut Gems torna-se claustrofóbico; e, para isso, não servem apenas as vozes que se sobrepõem constantemente, os diálogos que se perdem na multidão ou as portas defeituosas – a câmara sabe sempre onde estar, de que forma se mexer, quando e como aproveitar o desfoque. Seja na forma como capta o posicionamento de Howard nas massas nova-iorquinas, no toque quase documental, no aproveitamento do espaço ou, e isto vale a pena ser frisado, na extraordinária última cena (e num plano particularmente bom).

Evidentemente, o protagonismo de Sandler não é aleatório. Uncut Gems funciona como um estudo de personagem, inserido num meio que lhe é, em medidas avulsas, ao mesmo tempo conhecido e estranho, a que pertence e não pertence, que o aceita e o parece querer expulsar. A atmosfera ilusória que os irmãos Safdie criam, atraídos pelo errado, pela mentira, pelo transcendental – os zoom-in que falam do passado, da origem, da essência -, é  o próprio interior das personagens, profundamente americanas, perfeitamente mediadas pelo meio. Tudo funciona, porque tudo está na mesma página, do mesmo lado: o trabalho de câmara, a fotografia, as luzes dispersas são tão psicológicos e tão psicologizantes como o diálogo, o olhar, a postura; são tão criadores de atmosfera como a música ou o silêncio e tão essenciais para o que o filme significa como Howard é para a opala e a opala para Kevin Garnett. Como um ciclo de significados, como um interior acessível por uma objetiva, e como um exterior inquieto, turbulento, opaco. As personagens dos irmãos Safdie não são só consequências dos seus ambientes, são o próprio ambiente, são as histórias com que cresceram e que tiveram acesso. Por isso são tão reais, tão pesadas; por isso a aproximação ao visual do documentário. São personagens imperfeitas, que existem ali, naquele mundo ilusório, destrutivo, imparável; homens repartidos como o reflexo de um corpo morto num espelho dividido em vários.

Uncut Gems é isso: é frenético, é tenso, é claustrofóbico. O efeito que produz no espectador é do mesmo espírito do slogan do anterior filme dos realizadores, que perguntava are you ready to have a good time? Aqui, as regras da longa-metragem de 2017 crescem, como que sob o efeito de uma levedura, não necessariamente em termos de dimensão, mas de amadurecimento, de qualidade. Uncut Gems é menos sobre a sua história – embora seja uma bela história – e sobre o seu guião – embora esteja muito bem escrito -, do que é sobre ritmo, criação de ambiente, desenvolvimento de tensão. E não há nada de errado nisto: é uma experiência válida, é um good time, é uma forma de ser de uma geração que quer contar outras histórias, de outras formas. E há algo fascinante na forma de contar histórias destes dois irmãos: talvez a sedução da confusão, da saturação, de outros e novos perigos. O facto é que o que Goodfellas fez pelas narrativas de crime dos anos 80 e 90, Uncut Gems poderá fazer pelas de hoje. O tempo das histórias dos gangsters do Scorsese, da máfia do Coppola ou dos assaltos do Mann, ainda que inqualificáveis e, inevitavelmente, insubstituíveis, já não ressoa na geração do hip-hop, das redes sociais, do The Weeknd. Não é que não possam fazer nada por ela; é que há algo de espiritual no cinema de cada geração que, por mais recuperável que possa ser, na lembrança, no Criterion Collection, nos ciclos, nasce e morre nessa geração. Os bons rapazes vivem até hoje e viverão muito mais, mas esta já não é a geração dos molhos de tomate com alho cortado com lâminas de barbear ou do Somewhere Beyond The Sea; é uma geração profundamente diferente – convalescente, frenética, imediata, onde o crime, os protagonistas e o seu espírito são outros.

 

Francisco Fernandes

(Aluno do 2º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na FCSH)

18
Mar20

Melhores Filmes da Década - Escolhidos por Maria Inês Opinião

Jur.nal

Porque a arte não é só música (e porque temos bastante tempo livre para ficar em frente da televisão), a nossa colaboradora Maria Inês Opinião traz-nos a sua lista de melhores filmes da década (um por ano). Através de cada imagem podem aceder ao trailer, e uma grande parte dos escolhidos estão disponíveis na Netflix, estando indicados quais. 


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2010 – Shutter Island, de Martin Scorsese
O Marshall Teddy Daniels, volvido recentemente da 2º Guerra Mundial, investiga o desaparecimento de uma paciente num hospital psiquiátrico. Como seria expectável através da premissa, é uma viagem pela sanidade. Com ótimas prestações, já habituais, de Mark Ruffalo e, especialmente, Leonardo DiCaprio, é-nos apresentado um filme que, apesar das características habituais de thriller, como a atmosfera arrepiante bem sucedida, fruto de uma aliança entre a imagem e o som, escolho não o ver como tal. De modo a evitar spoilers, não me alongo nesta ideia; acredito que quem já o viu saberá ao que me estou a referir. As cenas finais são difíceis de apagar da memória, quer pela sua harmonia, quer pelas suas implicações. (Disponível na Netflix)

 

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2011 – Hugo, de Martin Scorsese
A primeira vez que me deparei com a Invenção de Hugo Cabret foi no cinema. Gostei sem saber ao certo o porquê. Ao longo dos anos revi-o, muitas vezes, tal como fiz com o livro de Brian Selznick, no qual se baseia. Lá aprendi que tinha sido realizado por um dos cineastas mais reconhecidos da atualidade, que retratava uma realidade temporalmente menos distante do que achava e o que isso significava. Trato este filme como um abraço: sei que passe o tempo que passar vou sempre encontrar a mesma história que me encanta que é também uma ode ao cinema enquanto arte, não sendo perfeito em qualquer dos seus aspetos demonstra carinho pelo cinema de um modo infantil e genuíno. Georges Méliès, a personagem, quase no término do filme, pede à audiência para sonhar com ele; é apenas uma verbalização daquilo que o filme, em si, nos pede para fazer. (Disponível na Netflix)

 

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2012 – Amour, de Michael Haneke
Georges e Anne, casal octogenário de classe média-alta, ultrapassam, juntos, as consequências do AVC de Anne. Amour é um dos filmes mais angustiantes que já vi. É, também, um dos mais bonitos. Em apenas uma localização, Georges realiza uma viagem nostálgica por todas as décadas que passaram juntos. É personalização de um medo, profundo amor e sacrifício num só filme.

 

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2013 – Her, de Spike Jonze
Não tenho muitos filmes de 2013 no meu espólio. Assim, a história do escritor solitário, Theodore, que desenvolve uma relação amorosa com um sistema informático que tem como objetivo satisfazer todas as necessidades do utilizador, encontra-se no topo. Jonze apresenta-nos uma história que se tem mantido e irá manter relevante de forma honesta, pura – algo que não é assim tão comum. Esteticamente agradável, com um elenco imaculável (Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Amy Adams) e uma realização impecável. Her distancia-se das histórias de amor e das ficções científicas às quais estamos habituados e é, sem dúvida, uma das melhores conseguidas. Volto ao filme de tempo em tempo.

 

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2014 – Birdman or (the unexpected virtue of ignorance), de Alejandro G. Iñárritu
Tenho a memória particularmente viva de assistir a este filme em meados de 2017, felizmente, pois caso o tivesse feito aos 14 anos provavelmente achá-lo-ia simplesmente estranho, possivelmente nem o iria terminar. A história do ator em decadência, Riggan, unicamente conhecido pela interpretação de um super-herói, que tenta reerguer a sua carreira atuando numa peça da Broadway. Presos no limbo entre a realidade e o imaginário, acompanhamos Riggan e a suas relações marcadamente difíceis entre o próprio e aqueles que o rodeiam, com problemas quotidianos mais ou menos peculiares. A inclusão de atores participantes em filmes de super-heróis – Michael Keaton e Emma Stone – torna-se especialmente irónica na crítica da obsessão das massas, que agravou com os anos, com o género. A aparente realização de um único take excecional, uma soundtrack muito específica de jazz percussionista, porém adequada, e um final que me deixou completamente em êxtase tornam este filme num dos primeiros que adorei adorar, sabendo que é fruto de mais do que atores e enredo. (Disponível na Netflix)

 

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2015 – The Lobster, de Yorgos Lanthimos
2015 é, infelizmente, um ano que não nos presenteou com filmes de particular destaque. Tal não impediu Yorgos Lanthimos de apresentar uma sátira visualmente deslumbrante – algo a que já nos habituou – que retrata de forma peculiar e forçada o desenvolvimento de relações amorosas através de personagens monocórdicas e diálogo invulgar, com especial ênfase na importância da existência de semelhanças entre duas pessoas que se relacionam. A ruptura evidente define e divide somente a história, os juízos críticos acerca do filme continuam a colocá-lo num pedestal; pessoalmente, prefiro, sem desdenhar o restante, o início. O elenco, que conta com Colin Farrel, Rachel Weisz, Olivia Colman e Léa Seydoux, faz um trabalho incrível num filme que, até hoje, continua a surpreender e a deixar sem qualquer tipo de indiferença qualquer um que o veja.

 

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2016 – Arrival, de Denis Villeneuve
Louise Banks, linguista, é contratada pelo exército americano de modo a interpretar o modo de linguagem utilizado por alienígenas. Villenueve cria, então, um filme de ficção científica que ultrapassa as barreiras do género para se focar nas da linguagem e do tempo. Arrival é um filme ao qual não aponto falhas. Presenteia-nos com um elenco incrível, em especial a performance fenomenal de Amy Adams (que não foi devidamente premiada), banda sonora e cinematografia excepcionais, e um guião único. Ainda assim, o filme poderia não se destacar. Felizmente, pelo contrário, é inesquecível, tratando assuntos complexos de modo delicado.

 

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2017 – Three Billboards outside Ebbing, Missouri; de Martin McDonagh
Mildred (Frances McDormand), 7 meses depois do homicídio da sua filha, desafia pessoalmente a polícia a encontrar o culpado, ao colocar 3 outdoors vermelhos à porta da cidade. Num filme repleto pela imprevisibilidade, é complicado descrevê-lo sem incorrer em detalhes indesejados. Os pontos altos do filme são as prestações surpreendentes de McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, tal como o guião impecável. Three Billboards outside Ebbing, Missouri, no seu âmago, não se trata necessariamente de uma história de vingança. No entanto, e reitero, não devo detalhar: deve ser uma experiência pessoal.

 

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2018 – Roma, de Alfonso Cuarón
Roma é um filme simples. Apresenta-nos uma família e as suas empregadas domésticas nos anos 70, na Cidade do México. É, no entanto, um filme ambicioso. As prestações, especialmente de Yalitza Aparicio, são impecáveis, não deixando qualquer margem de dúvida no realismo das personagens – algo de louvar, especialmente considerando que muitas destas são crianças. A cinematografia, exclusivamente a preto e branco, é encantadora. Não deixa qualquer margem para um desejo de cor. Contudo, o fator mais surpreendente é o som. Um ladrar à distância, o motor de um carro, músicos ao fundo da rua e até o vento tornam a experiência completamente imersiva (não é por acaso que cada vez que menciono o filme aconselho também um bom sistema de som). Todas as cenas são impressionantes e devastadoras à sua maneira. (Disponível na Netflix)

 

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2019 – Parasite, de Bong Joon-ho
Bong Joon-ho é o homem do momento. Não só rompeu com o hábito da Academia de não premiar filmes estrangeiros com o prémio de “Melhor Filme”, como tal foi totalmente justificado. A realidade sul-coreana é-nos exposta através de um enredo insólito, colmatado pela crítica social daquele que, como diz o próprio realizador, é o país da humanidade – o capitalismo. Performances impecáveis, uma direção tão harmoniosa que seja a ser musical, um equilíbrio perfeito entre comédia, drama e emoção. Parasite é o início da valorização comum do cinema internacional.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

20
Fev20

Joker: Um Filme que a nossa Sociedade não estava pronta para receber

Jur.nal

 

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Não pretendendo incorrer em qualquer tipo de desentendimento factual fui, como todos os outros, vítima de todo o hype à volta do Joker. Estamos, afinal, a falar de um dos filmes mais esperados do ano. Vi-o no Alvaláxia, numa sala tão cheia que eu e os meus amigos tivemos que ficar separados, apenas trocando considerações no intervalo e no fim do filme. Lembro-me de já no intervalo saber quais os aspetos que me estavam a surpreender: a soundtrack e o quão desconfortável poderia o filme ter sido em algumas cenas caso não tivesse sido bem dirigido. Pela altura dos créditos finais estava feliz, era pois um bom filme que tinha correspondido às expectativas.


No entanto, estava destinado ao infortúnio de ter sido lançado em 2019. Assim sendo, a internet procedeu a arruinar o filme. Tal como no enredo, as reações dos espectadores em relação às ações do Joker revelam-se acidentalmente caóticas e anárquicas. Não levam, todavia, a gritos de morte aos mais ricos, mas materializam-se na tragédia da década de 2010: a criação de um meme.

Nesta versão, o célebre vilão não se forma a partir de uma queda para um barril de químicos enquanto se esquiva do seu Némesis, nem numa história trágica de abuso infantil. Aqui, Joker, solteiro e mal amado, sofre de um distúrbio psicológico. Arthur Fleck é um homem profundamente perturbado que, quando falha enquanto comediante, acaba por se revoltar contra a sociedade na qual se inclui que, não obstante pertencer ao universo fictício de Gotham, se assemelha à nossa por, muitas vezes, negligenciar ou até caricaturar quem não se encontra de acordo com os habituais padrões de “sanidade”.


Em primeiro lugar, estou a meio do processo de me perdoar por não ter previsto o que ia acontecer. Achava estar já habituada a ver os sinais. Mesmo assim, quando começaram a sair as primeiras notícias, ainda antes da première do filme, nas quais se estabelecia uma relação entre o caráter violento do mesmo e atitudes impetuosas de quem o pudesse ver - também recorrente em videojogos e enquadramentos factuais de Moot Courts de Direito da União Europeia – ignorei. Apelidei-as de “lixo jornalístico”, como é meu habitual. E, afinal, eu tinha razão. O filme acerca de uma das personagens que me faz tolerar e ainda dar oportunidades ao universo dos super-heróis era acerca de um doente mental. Respirei de alívio e falhei ao desconsiderar as consequências daquilo que os media iniciaram.


Todo o mediatismo que cercava o filme levou-o a uma explosão na bilheteira, movendo um público completamente heterogéneo ao cinema. Honestamente, só consigo pensar num aglomerado tão aleatório de pessoas em dia de eleições.


Com esperanças de não chocar ninguém com a minha próxima afirmação (que não contém qualquer tipo de julgamento, pois cada um sabe da sua vida): aliar uma plateia habituada a comédias românticas e trágicas histórias de amor que roçam levemente temas popularmente considerados “mais pesados” a um filme como este é uma receita para o desastre. Não tardou até frases marcantes como “The worst part of having a mental illness is people expect you to behave as if you don’t” e “What do you get when you cross a mentally-ill loner with a society that abandons him and treats him like trash?” fossem totalmente retiradas do contexto e utilizadas em chamadas de atenção para o problema real que é a fragilidade da mente humana. Não só simpatizam com as atitudes de um vilão, como problematizam quem sofre.


Ora, retirar do contexto as aflições de Arthur e unindo-as com dicas, awareness threads no Twitter e opiniões mal fundamentadas acerca do que é um distúrbio mental elevam o filme ao ridículo. Para tal compactuam as relações forçadas entre a dança do personagem e a sua “libertação pessoal”. A massificação destes comportamentos fundem-se num fenómeno típico da nossa geração: o meme.


Arthur Fleck nunca quis ser um símbolo de uma revolução, de uma luta de classes. Queria somente que ele, e todas as pessoas que sofrem de distúrbios psicológicos fossem incluídas e tratadas, ao invés de desvalorizadas e enviadas para hospitais. Joker, o filme, nunca quis ser um grito de revolta dos oprimidos. Peço, então, que não o tornem num. Há outros tipos de entretenimento que o pretendem fazer, apoiem-nos. Não sobrecarreguem a obra de Todd Phillips, que nunca quis ou tem capacidade para ser mais do que um filme acerca de um vilão.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

 

20
Dez19

Top Álbuns 2019

Jur.nal

Por: Jefferson A. Fernandes (aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

  1. Fine Line, Harry Styles

 

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Quando todos esperavam um “Harry Styles” 2 (primeiro álbum a solo do artista), Harry Styles, no dia 13 de dezembro, mostra-nos algo novo. Fine Line caracteriza-se como um dos melhores álbuns do ano, tanto pela sua complexidade (a música Watermelon Sugar demora um ano a ser produzida na sua totalidade) como pela sua pureza. Num tom de “retro pop rock”, Harry Styles explora cada faixa no seu expoente máximo. Um álbum que acaba por marcar a década, não só pela qualidade, mas pelo cantor. Harry Styles é, atualmente, umas das maiores figuras do mundo da música.

 

  1. Bubba, Kaytranada

 

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Ao senhor que conseguiu meter o SBSR de pernas para o ar. Nada fora daquilo que se estava à espera. Bubba chega às plataformas e sem grande publicidade o artista consegue juntar nas suas faixas artistas como SiR, Kali Uchis, Masego, Pharrell Williams e muito mais. Um álbum a não perder.

 

  1. Ginger, Brockhampton

 

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Possivelmente o melhor álbum do então grupo criado por Kevin Abstract. Um álbum totalmente sentimentalista que nos leva a um procurar por mais. Diz-nos tudo o que queremos. Não poderia deixar de estar nomeado para o top. O álbum surge após um momento em que o grupo estava meio separado, cada um a trabalhar individualmente nos seus diversos projetos, surgindo inclusive um álbum a solo de Kevin A, Arizona Baby, em que surge o então prodígio da música americana, Dominic Fike, na música Peach.

 

  1. Sou Rock N’ Roll, Dfideliz

 

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Dfideliz é uma das revelações da cultura brasileira. Lançando um álbum que me faz muito recordar o então Bluesman de Baco Exu do Blues, Dfideliz, vem reforçar a mensagem “Pode ficar puto quando eu tiver escrevendo”. Muito conhecido pela sua escrita um pouco pesada, este ignora as críticas e lança-se ao panorama nacional da música brasileira. Hoje conhecido por todo o país e enchendo arenas, podemos dizer que Sou Rock N’ Roll é um marco da música brasileira nesta década que acaba.

 

“Já vi muito moleque no morro
Tendo que fazer suas preces
E de passar sufoco, carai
Dinheiro é uma praga
Que eu desejo a todos que não merece”

 

  1. When We All Fall Asleep Where Do We Go, Billie Eilish

 

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Com apenas 17 anos, Billie Eilish lança o seu primeiro álbum alcançando o top mundial por diversas semanas consecutivas. Um álbum totalmente produzido pelo seu irmão Finneas (cantor e compositor) leva a que os bilhetes para os seus concertos se esgotem em horas (à semelhança do que aconteceu em Portugal, onde os bilhetes esgotaram em 40 minutos).

Com hits como Bad Guy e I Love You, Billie caracteriza-se como uma das cantoras mais requisitadas da nossa geração. Já nas palavras de Dave Grohl, antigo baterista dos Nirvana e atual vocalista dos Foo Fighters “Billie tem o mesmo efeito que os Nirvana tinham sobre as pessoas, é incrível.”

16
Dez19

Manifestantes e governo de Hong Kong em rota de colisão

Jur.nal

 

 

O 25 de novembro de 2019 foi um dia significativo na história de HK. O bloco pró-democracia conseguiu, pela primeira vez, vencer as eleições distritais duma forma esmagadora e obter a maioria em 17 das 18 assembleias locais. O número dos lugares ganhos por este era 389 enquanto que os obtidos pela força pró-governo eram apenas 59, contrariando todas as expetativas de Pequim. Muitos consideram tal vitória inédita da oposição “uma bofetada ressonante” face às medidas repressivas tomadas pelo governo chinês no decurso dos últimos 9 meses em virtude das manifestações contra a alteração da Lei de Extradição.  

 

A fim de entender melhor o contexto deste assunto que tem atraído os holofotes internacionais, convém relembrar-nos dsua origem, um homicídio cometido por um jovem de Hong Kong durante uma viagem a Taiwan no dia 17 de fevereiro de 2018. Depois de ter morto e desmembrado sadicamente a namorada grávida, o homem fugiu para a terra natal no próprio dia. O crime foi descoberto no imediato, porém, a autoridade taiwanesa não conseguiu fazer nada. Enviou por três vezes pedidos de colaboração à região autónoma chinesa, os quais foram negligenciados por esta última devido à ausência de acordo de extradiçãopara além das subjacentes relações esfriadas entre a China e Taiwan após o Partido Democrático Progressistao qual rejeitoo princípio de “uma só China”, ter chegado ao poder na ilha Formosa em 2016. 

 

Em contrapartidao tribunal de HK não pôde incriminar o homicida, apesar de este já ter admitido o crime, visto que sistema jurídico da ex-colónia britânica adere ao princípio da territorialidade e não exerce tutela em relação aos crimes cometidos fora da sua fronteira.  

 

Neste contexto, a Chefe Executiva de Hong Kong Carrie Lam propôs a alteração da Lei de Extradição um ano depois, dando luz verde à transferência de fugitivos para outras partes da China, inclusive Macau, e Taiwan, que o governo chinês sempre considerou uma província sua mesmo que já se tenha separado dela desde o que o Partido Comunista conquistou o país em 1949Não obstante, surgiram suspeitas de que tal proposta tivesse sido orientada pelo governo central ou fosse elaborada para o agradar, fazendo com que este tome o leme na área jurídica da cidade autónoma e possa extraditar pessoas que fossem por si condenadas.  

 

A proposta gerou logo no primeiro momento contestações do tecido empresarial e da comunidade estrangeira desse centro financeiro mundial que é HK, o qual serve de trampolim para investimento no mercado mais populoso do mundo. O primeiro receou que fosse perseguido pelo governo em virtude das suas atividades na China continental, tendo em conta o seu pecado de origem, nomeadamente a inevitabilidade de pagar luvas aos funcionários públicos do alto nível em troca de obras e de recursos no âmbito do national capitalism chinês. E a segunda teve pavor de ser objeto de represália judicial em virtude da detenção da diretora financeira da Huawei pelo Canadá, na altura a pedido dtribunal norte-americano.    

 

Concomitantemente, o público em geral também não aclamou a proposta, tendo receio da manipulação do sector judicial pelo Partido Comunista chinês e das condições desumanas do sistema prisionalUm dos rostos na fase inicial da oposição foi Lam Wing-kee, um docincos protagonistas do misterioso caso Causeway Bay Booksque foram alegadamente raptados pelos agentes secretos chineses em Hong Kong por terem publicado e vendido livros dizendo respeito a temas censurados, inclusive rumores sobre a vida privada do Presidente da RepúblicaTendo sido encarcerado no continente chinês durante mais de 7 meses, o livreiro que ainda é fugitivo procurado pela autoridade nacional, autoexilou-se em Taiwan logo depois de a proposta ter dado entrada no Conselho Legislativo de Hong Kong, temendo a sua extradição para a China sob acusação de “operação do negócio ilegal”.   

 

Tampouco os profissionais jurídicos em Hong Kong se satisfizeram por essa alteração. A Ordem de Barristers de Hong Kong considerou que proposta negligenciava a diferença entre os sistemas jurídicos da China continental e Hong Kong e os registos do governo chinês na área dos direitos humanos. Manifestou ainda preocupações relativas ao excesso do poder discricionário da parte executiva em relação aos casos de extradição, segundo a proposta.  

 

De modo expectável, Taiwan, denominado oficialmente como República da China, impugnou a proposta por esta a considerar uma parte da República Popular da China com a capital em Pequim, rebaixando, assim, a sua soberania, apesar de não ser amplamente reconhecida pela comunidade internacional, devido à objeção de Pequim. Tsai Ing-wen, a presidente do país insular, alegou que não colaborava com Hong Kong no âmbito da nova lei, mesmo que esta fosse aprovada pela assembleia da região autónoma chinesa.  

 

Apesar de tudo, a situação manteve-se relativamente controlável até junho deste ano, altura em que a proposta foi sujeita à sua primeira leitura na assembleia. A fim de impedir a sua segunda leitura, mais de um milhão das pessoas saíram à rua no dia 12. Apesar do protesto ser genericamente pacífico, ocorreram vários conflitos entre a polícia e manifestantes mais radicais, que inclusive usaram cocktail molotov. O número dos manifestantes foi chocante tendo em conta que a população total da região se fixa por volta dos sete milhões e quatro centos mil habitantesNo entanto, perante tal manifestação inédita, a primeira reação do governo foi acusar a manifestação de motimnão pretendendo fazer nenhuma cedência em relação à propostaA seguir, teve lugar uma outra manifestação ainda maior três dias depois com cerca de 2 milhões de participantes. Desta vez, Carrie Lam pediu desculpa ao público e o governo reagiu com a suspensão da proposta, embora rejeitando as cinco revindicações da oposição, a saber: retirada definitiva da proposta; libertação incondicional dos manifestantes detidos; estabelecimento de uma comissão independente da investigação sobre as violências entre a policia e os manifestantes; retratação da caracterização de motim” em relação à manifestação ocorrida no dia 12 de junho; realização de sufrágio universal para as eleições do Conselho Legislativo e do Chefe Executivo. Neste contexto, o governo de HK e os manifestantes encontram-se em rota de colisão  

 

Durante o protesto ocorrido no dia 1 de julho, centenas de manifestantes invadiram o Palácio da assembleia regional, pondo graffitis no emblema nacional chinês colocando, até, durante poucos minutos, a bandeira britânica em frente do hemicicloEsse comportamento herético foi visto pelo governo chinês como flagrante blasfémia e traição contra a dignidade soberana e as emoções nacionais, tendo em conta a amargura histórica resultante da anexação de Hong Kong pelo Império Britânico em que o sol nunca se põeduma maneira faseada, na sequência das Guerras do Ópio e da Aliança das Oito Nações no século XIX e no início do século XX.   

 

O antagonismo ainda se agravou mais no final do mês em virtude do ataque de Yuen Long, no decurso do qual um grupo mafioso vestido de camisolas brancas atacou indiscriminadamente os passageiros à volta da estação de metro Yuen Long, entre os quais muito manifestantes vestidos dpreto. Os rumores de que este ataque foi conspirado pelas forças pró-Pequim alimentaram-se devido aos factos de que a polícia só chegou ao local meia hora depois de ser contactada. Também Junius Ho, deputado pró-Pequim, apertou as mãos dos atacantes, elogiando-os como “heróis”, logo a seguir à violência. Posteriormente, a atitude da força pró-governo em geral foi ambígua, mostrando certas reticências em condenar o ataque.  

 

A partir daí, algumas ruas da cidade transformaram-se em quase trincheiras de guerra na medida em que nos meses seguintes se observou o desencadear de uma chuva de protestos. seu auge foi cerco da Universidade Politécnica de Hong Kong pela polícia em novembro. Após ter entrado num jogo do gato e do rato com a polícia, omanifestantes mais radicais deslocaram-se à Universidade, destruindo os equipamentos do túnel Cross-Harbour e bloqueando a estrada com vista a paralisar o transito urbano, que deu razão para a polícia cercar o campus universitário durante mais de 2 semanas, terminando apenas 2 dias depois das eleições, depois dos alegados manifestantes, que totalizaram 1.377 pessoas, se terem entregado àautoridades.   

 

Além dos confrontos no mundo realtambém os houve no espaço virtualOs mesmos não só aconteceram entre forças contra e a favor do governo, mas igualmente entre residentes locais e os de fora, e até entre gerações mais velhas e as mais novasSendo a Internet um outro campo de batalha, cada lado tenciona compartilhar as informações mais favoráveis a si próprio como se houvesse dois universos em paralelo. Enquanto os simpatizantes da oposição põem gosto em imagens em que se evidencia o abuso da força pela polícia contra os estudantes indefesos, os apoiantes da autoridade, entretanto, fazem circular um vídeo composto por cenas de agressões a um senhor idoso por manifestantes jovens devido à discrepância das opiniões. Enquanto os alunos do continente chinês levaram tareias dos de Hong Kong nas várias universidades australianas simplesmente por estes últimos terem protestado contra a lei da extradição, os estudantes chineses em Hong Kong retiraram-se para o continente devido à hostilidade dos manifestantes radicais. É lastimável que as pessoas só se interessem por verdades das quais correspondem as suas convicções e as suas opiniões não se adquirirem a partir da análise dos factos, mas pela mera inferência da ideologia forjada. 

 

A vitória do bloco pró-democracia foi conquistada no meio dessas divisões insanáveisTanto o governo como a oposição ficaram boquiabertos perante os resultadosdado que por mais audaciosa que fosse a previsão, não teria antecipado uma derrota tão humilhante para a força pró-Pequim. Com efeito, essa disparidade entre os dois em termo de lugares vencidos nas assembleias distritais também se deveu ao sistema uninominal maioritário. Se se considerar só as percentagens dos votos ganhos, a vantagem do pró-democracia não era tão esmagadora face ao seu adversário, tendo obtido 57 por cento dos votos o primeiro e 41 por cento o segundo. Ademais, alguns acreditam que o governo central chinês estivera convencidoaté ao último minuto antes da apuração dos votos, de uma vitória dos seus aliados, dado as informações sempre agradáveis proporcionadas pelo Gabinete de Ligação do Governo Central da China em Hong Kong, através do qual Pequim consegue impor a sua diretriz na administração da região. Caso contrário, não teria permitido a realização imediata das eleições.  

 

Embora o túnel adjacente da universidade politécnica tenha voltado a funcionar logo a seguir à intervenção policialainda estamos muito longe de ver luz ao fundo do túnel em relação à saída do impasse relativo aos conflitos.  

 

Receando que uma concessão em qualquer solicitação da oposição resultasse em mais apelo à democracia pela esta última e um efeito cascata nas outras regiões que sofrem problemas congéneres tais como o Tibete e Xinjiang, Partido Comunista chinês manterá firmeza acerca da sua atitude com os manifestantes, independentemente dos resultados das eleições e da chuva de críticas. Por conseguinte, seria inadmissível para este renunciar às rédeas do poder na questão do sufrágio universal a curto prazo.  

 

Por outro lado, não acredito também que os manifestantes, maioritariamente jovens na casa dos vinte anos, desistiam do seu apelo à democracia facilmente. Influenciados profundamente pelos valores liberais do ocidente, os jovens de Hong Kong insistentes nas suas causas seriam rebeldes demais para serem domesticados pelos dogmas obsoletos do comunismo maoísta e pelos valores tradicionais chineses.  

 

Por conseguinte, o futuro de Hong Kong jamais será otimista. O governo e os manifestantes continuarão a encontrarem-se em rota de colisão e o preço disto é a estabilidade e a prosperidade da cidade serem inevitavelmente postos em causa.  

 

Xavier de Macau

 

12
Dez19

Uma Aventura no Oriente III

Jur.nal

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Já se vai evaporando esta miragem deslumbrada com cheiro a novidade. Já sabe a pouco este vinho que me deixava alegre.

O que é voltar? Voltar significa regresso, mas a que chamam ao retrocesso de um processo que envolveu mais que lançar cartas?

Já pouco aqui se passa que chame a atenção, pois a lei da vida é a racionalização de qualquer significância ao nada.

Uns despedem-se das aventuras pelo globo.

Há quem se despeça mais do campus, do quartinho que decorou para poder chamar de casa.

Outros despedem-se uns dos outros, com promessas de voltar.

E há sempre quem se vá despedindo de cada bocadinho rotineiro, cada lugar no qual, inconscientemente, se senta todos os dias na cantina, aqueles noodles de pequeno-almoço, o inverno que mais parece primavera, a biblioteca de estética arquitetura com milhares de livros espalhados em 5 andares; e das relações de vizinhança – vida cheia de gente, contente descontente, se cruza todos os dias e dá aquele apoio moral na única despedida que temos tido em comum: mais uma pinga de café por cada página virada, cada desespero nesta correria de 2 semanas nas quais já pouco nos cruzamos, no que não seja nesta companhia de noites de estudo esquizofrénicas de quem corre contra o tempo.

E ele não pára de correr.

Mas resta alguém que se despeça de si próprio? Também isso será comum?

Resta-me a graça desgraçada de me arrastar por velhas ruas e velhas gentes, enquanto todos se voltam a expressar na forma mais eficaz de violência: e vai um boato, e vai uma ofensa e vão posts de raiva injustificada. Encolhem o mundo na rotina da mesma hora, transporte, bom dia, boa tarde, qual tranbordo de sociabilidade perfumada! Perfume de intenso e espalhado que enjoa, bem como os sucessos efémeros das vedetas na sua bolha.

Aqui absorve-se água transparente, desde luzes nela refletidas até horas depois as nuvens se esgueirando perseguindo-se em linha reta.

Será um televisor sem sinal que só mostra quadradinhos pretos e brancos que se ondulam sem perderem forma, ainda que disformes?

Mas que na verdade absorve a vista no primeiro momento e de resto já capta o preguiçoso embasbacado, que com vício se deixa especar nesse nada.

Olhar cativo da rotina que sempre cativa pelo conforto. Como se sonha acordado, lá olhamos e voltamos a fitar, até que desviamos o olhar e, por alguma ciência que não me cabe a mim deslindar, já ele se acostuma ao padrão e ainda está a ver a quadrilhagem ao redor. Que impressão causa esta cegueira de vermos tudo igual.

Receio que crie nova velha deficiência de tanto ver mais do mesmo e que o que de colorido vi fique sotoposto, que sempre que tente ver o programa, continue a ir abaixo e me volte a juntar ao vício do preto e branco e não me vou querer levantar. Dá trabalho.

Porque tudo dá trabalho e se nos habituamos, deixamo-nos perder nessa fixação. Se um dia temos a chave de mudar, podemos bem perdê-la e não há chave duplicada.

E se perco?

No fundo que mudança de mundo quando se sai do televisor e estamos em casa, passa o circo e não sou personagem do outro lado; é Natal e mais um ano passa.

Adeus Macau.

E se perco

Já não sei a morada.

E se não souber

Espalhou-se por aqui que não há morada fixa.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

03
Dez19

Slow J no Coliseu de Lisboa: a afirmação de um colosso

Jur.nal

Há magias que nunca vêm sós. É o ciclo da vida, disse Slow J, natural da Música. Há presenças que nunca estão sós. O meu avô faleceu, disse João Batista, natural de Setúbal. Confissões sem receio de quebrar qualquer magia. Deu o nome do avô recém-falecido ao filho recém-nascido. Assim continua o ciclo. Assim perpetua a magia. Assim, João ainda procura o caminho.

 

Esta confissão veio no palco do Coliseu dos Recreios, palco emblemático no coração de Lisboa, ornamentado sob a marca “Super Bock Em Stock”. Talvez não esgotado, mas a mim parecia-me inteiro, total, num palco onde já fui feliz, graças ao concerto de Sam the Kid em Outubro onde comemorou 20 anos de carreira e onde o Coliseu, esgotado nesse dia, também foi feliz e inteiro. Um mês e meio depois repetiu-se. Vejo aqui uma simbologia, uma espécie de passagem de testemunho, como se o facto de Sam ter actuado ali a comemorar o passado e Slow a comemorar o presente desenhasse magia na Música. Como se fosse Hereditário apenas de se escutar.

 

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Sendo pai de família mas também sonhando, Slow J definitivamente agigantou-se naquela noite. “O Nascimento de um Colosso” foi o título duma peça de Alexandre Ribeiro na publicação “Rimas e Batidas”, aquando o concerto de lançamento do segundo álbum "The Art of Slowing Down". Com qualquer autoridade que me possa ser atribuída, confirmo: o colosso vive, maior e mais mágico do que nunca.

 

Entrando com “Também Sonhar”, seguiu-se um dos seus emblemáticos sorrisos, tão puro e genuíno como se o mundo fosse um paraíso, como se nós, público, enérgico e apaixonado público, fossemos os habitantes do seu pedaço de terra e magia. A segunda canção foi “FAM”, com uma entrada surpresa de Papillon, que detém um verso neste som, e, de repente, os donos daquele mundo eram dois, sem qualquer problema, sem qualquer dúvida, eram eles e nós, ou só nós, todos, de olhos rendidos em poesia dançante.

 

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No meio desta apaixonante energia, decerto perdoar-me-ão por não me lembrar de todas as canções, pelo menos não da sua sequência, enquanto Slow J saltita pelo seu fantástico catálogo. O último álbum dele, obviamente, não faltou na sua totalidade, ou não fosse este uma espécie de concerto de apresentação do álbum (pelo menos foi assim publicitado, embora Slow J já tenha realizado outros concertos no entretanto). Mas outras canções poderosas não faltaram, sobretudo do seu segundo álbum, desde a “Comida”, com o público do Coliseu mágico a degustar cada uma das barras pensativas e assertivas daquela canção sem refrão, fazendo ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez com o Figo, até à “Às Vezes”, onde a ausência de Nerve no palco (a rapariga ao meu lado comentava que seria incrível se Nerve entrasse, mas não entrou, e isso não importou) não significou a ausência da sua magia no público. A “Muros”, de todas as canções, libertou-me as primeiras lágrimas; a “Serenata” trouxe ainda mais, dum público romanticamente rendido em lágrimas de corações partidos, porquanto o amor seja o ar que ali se respirou.


Na “Lágrimas”, contudo, veio aquele que foi, provavelmente, o momento mais mágico da noite. Do nada, os assistentes de palco trazem uma plataforma. Três cadeiras, um microfone, duas guitarras, uma acústica e outra portuguesa. Slow chama mais habitantes para o seu mundo (perdoem-me, novamente, por não me recordar dos nomes). Um seu ex-professor de música e um amigo produtor de longa data. O primeiro na guitarra portuguesa, maravilhosamente dedilhando lágrimas dos acordes, e o segundo na guitarra acústica, fazendo o ritmo angustiante e estranhamente reconfortante que qualquer choro tem. Só as paredes do Coliseu agora sabem o quão ecoaram "lágrimas de quem se ama" noite fora. Não dá para repetir, não imagino outro palco onde tal possa ser feito. Se lágrimas tivéssemos, ou nos olhos ou na alma, ali ficaram, deitadas no chão, libertas, abraçadas pelo pequeno mas majestoso solo de guitarra portuguesa do ex-professor de música de João Batista.

 

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Em “Mea Culpa” houve o momento mais insano, com aquele drop do beat a despertar toda a energia que ainda não havia sido exposta pelo público. Foi hora de levantar do colchão, de assistirmos a mais um sorriso de João (infinitos houveram), de escutarmos a voz intensa e rasgada e ao timbre único e acolhedor de Slow, e de prosseguirmos por mais clássicos como “Fome” (outro momento de libertação intensa de energia), “Cristalina” (numa performance sempre íntima e angelical de quem pede socorro e não encontrou o seu caminho), “Water” (onde Richie Campbell também faz sentir a sua magia despeito da sua ausência física, olha por mim mamã) ou “Vida Boa” (a terminar o concerto fazendo o público entoar que quer uma vida boa, sem se aperceberem, talvez, que são estes momentos que nos dão essa vida).


Na “Silêncio” ficou registada o momento mais insólito, que só Slow J conseguiria transformar num momento incrível. A meio da canção, o microfone começa a falhar intermitentemente, e o instrumental também salta umas partes. Antes de conseguir acabar o seu verso, que surge antes do último refrão, de repente o instrumental começa a tocar o playback do refrão, totalmente fora de tempo. Slow J, sempre olhando para a equipa técnica do lado do palco, aproxima-se deles, e assinala para parar. Sorriu, só queria sorrir. Não era suposto acontecer, é uma quebra de magia, um percalço na história que ali se fazia. Mas não era. Da sua autoridade, autoridade de amigo como quem é dono do mundo mas não cobra imposto a ninguém por existir, saído dum sorriso, pergunta ao público "vamos cantar outra vez?". Escusado será dizer que o público já estava a bater palmas, para não permitir a morte da magia; e escusado será dizer que a segunda vez foi ainda mais íntima, incrível e ressonante que a primeira. Agora, nada falhou tecnicamente. Porque nada falhou naquela noite de Lisboa rendida.

 

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Se depois desta vida vier a outra, em todas ficou eternizado a magia que João Batista carrega e que Slow J transmite. Caro leitor, não pense que isto são personas diferentes, que entre canções é-se João e nelas é-se Slow. É precisamente esta a magia: são apenas etiquetas dum mundo que não se separa, e recebe o seu público como abraços há muito suplicados. Foi como se encontrássemos o caminho nas cordas vocais de João, nos grafismos inteligentes no ecrã ao fundo do palco, no espectáculo de luzes surpreendentemente adequado a cada interpretação. Foi um sonho durante o espectáculo, durante a arte. Depois disso, o público saiu como entrou: o público continuou, também, a sonhar.

Em “Arte”, cantaste que querias ser como os grandes cantores. Conseguiste.

 

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Duarte Sales

(Licenciado em Finanças, Mestre em Gestão de Sistemas de Informação, a trabalhar no INE)

 

29
Nov19

Marraquexe III

Jur.nal

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Apreensão. Apreensão parece-me uma boa palavra para introduzir um texto sobre esta incrível aventura no Royaume du Maroc. Digo isto porque era o que via na cara de praticamente todas as pessoas a quem falei sobre esta viagem, curiosamente com exceção dos que já a tinham feito. “Com tanto sítio para ir… Vê lá onde é que te vais meter!” Era sempre assim. Eu ainda me dava ao trabalho de dizer que ia com dois amigos, que um deles até é campeão de boxe e que ia ser sempre muito seguro, mas não fazia diferença. Ainda assim não me preocupei muito, estávamos todos demasiado empolgados para aturar pessimismos. Ainda bem que assim foi, acabou por ser uma viagem única.


A chegada foi tranquila e se não tivéssemos esperado tanto tempo na fila para a verificação de passaportes teria sido ainda melhor. O próximo desafio era encontrarmos o nosso transfere para o hostel, o que também não foi muito difícil tendo em conta que assim que passamos pela porta das chegadas vimos logo um senhor, com os seus chinelos da Nike, e com uma placa com o nome do nosso hostel: Kasbah Castel Red Hostel… ou talvez fosse Kasbah Red Castel Hostel, nunca consegui acertar com o nome do raio do hostel. O Salah, o nosso motorista, era muito simpático e entre inglês e francês – para minha tristeza, sobretudo francês – lá nos íamos entendendo.


A viagem de carro surpreendeu-nos. A verdade é que o que estávamos a ver era algo muito parecido com o que temos cá… e depois chegamos à medina, a parte antiga da cidade. Saímos da via principal e viramos à esquerda para um sítio onde as ruas eram estreitas, mal iluminadas e labirínticas. Rapidamente perdemos a noção do caminho que fizemos a partir daí e passamos por pessoas que, naquele ambiente, não nos transmitiam confiança nenhuma. O jipe parou em frente a um edifício que, para além de ter o nome do hostel na porta, era igual a muitos outros. Confesso que nessa altura fiquei apreensivo, não foi de forma alguma a melhor primeira impressão.


Acordamos relativamente cedo para podermos apanhar o pequeno almoço e as coisas mudaram como da noite para o dia. O hostel era mesmo muito bom e tinha um rooftop incrível com grandes mesas e sofás ainda maiores, um espaço verdadeiramente agradável. Logo aí conhecemos imensas pessoas que estavam/iam fazer o mesmo que nós: correr Marrocos. Assim que meti o pé na rua percebi que tudo tinha mudado. Os becos escuros eram agora pequenas lojas com os mais variados produtos; as ruas labirínticas e estreitas estavam agora cheias de locais que tentavam ganhar a sua vida com a venda de peixe, carne, pão, vegetais, enfim, tudo o que esperamos ver nas prateleiras de um supermercado, só que ali, naquele enorme labirinto que era a medina de Marrakech. Era impossível assimilar tanta coisa ao mesmo tempo!


Rapidamente nos sentimos confiantes o suficiente para andar à vontade nas ruas e estávamos desejosos de nos estrearmos numa ronda de negociações marroquina. Pode parecer estranho, mas em Marrocos – sobretudo em Marrakech – nada tem um preço definitivo e se cairmos no erro de não negociar e aceitar o primeiro número que nos é proposto, estamos a pagar o dobro ou mesmo o triplo do valor do que estamos a comprar. As souks eram intermináveis e sem sombra de dúvida muito mais movimentadas do que se possa imaginar. É indescritível a quantidade e variedade de coisas que estavam ali!


Quando penso em Marrakech lembro-me é do ambiente que vivi lá. É um desperdício de tempo tentar visitar as “atrações turísticas”, até porque eles prometem grandes palácios reais, mas depois o melhor que temos é um muro e um sinal de interdito. Há toda uma experiência além disso, todo um mundo que tem de ser vivido.

 

António Garcia

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

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