Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

15
Nov19

Marraquexe I

Jur.nal

carmona marraquexe.jpeg

 

 

Uma das memórias mais vívidas que tenho de Marraquexe é a viagem feita do aeroporto até ao hostel em que iríamos ficar hospedados, que nos aterrorizou na altura, mas é hoje motivo de galhofa.


Ora, estávamos nós acabados de chegar a Marrocos, com a cabeça feita de hesitação e prudência por aqueles que deixámos em Portugal – cujo receio habitava, por vezes, no limiar da xenofobia – quando enfrentámos o primeiro teste: apanhar o transfere pré combinado que nos levaria ao hostel.

Para este efeito, lá procurámos o nosso chauffeur privé marroquino, que nos pareceu simpático, bem, pelo menos um pouco mais do que a viatura em que tivemos de entrar...


De cinto posto, colocámos o GPS para controlar a viagem e fomos trocando algumas palavras em francês e inglês. As estradas pareciam normais e o panorama não assim tão diferente... isto é, até ao momento em que encostámos o carro ao pé de uma rua estreita e escura, saída de uma mistura entre um filme de guerra e um de terror.


“Ah, vai só mostrar-nos aquele monumento ali! Não vai entrar por aqui, é impossível...”
E de facto mostrou. Porém de seguida, entrou pela tal rua a dentro e, aí, troquei um olhar com os meus companheiros que dizia tudo.


“Bem. Já fomos."


As casas acomulavam-se umas após as outras e as passagens encolhiam cada vez mais. As luzes do carro eram as únicas naquele labirinto sombrio. Na rua, vivalma excepto um marroquino aqui e ali, que naquele contexto, pareciam fazer jus ao que nos haviam dito.


Paramos no meio do nada. De repente, motas.


“É agora. Preparem-se para ser assaltados e/ou raptados.”

Mas não foi. E não fomos. E o hostel era fantástico.

 

André Carmona

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura; Diretor do JUR.NAL)

 

08
Out19

No verão em que acabei o liceu

Jur.nal

miguel almeida.jpg

 

No verão em que acabei o liceu, resolvi arranjar um trabalho nesses meses com o intuito de financiar o interrail que iria fazer posteriormente. Mimado como sou, acabei por não arranjar nada de jeito (por falta de empenho na minha busca) e fiz apenas uns biscates para a minha mãe, que lá me fez sentir melhor comigo mesmo, procurando dar-me a sensação de que eu realmente tinha contribuído para a viagem. Mas, antes disso, ainda encontrei uma empresa de marketing que fazia campanhas na rua para diversas empresas e que me chamou para um dia de teste. Nesse dia, por sorte ou azar, a campanha era num bairro social. Menino como sou, fiquei todo incomodado. Toda a gente tinha péssimo aspeto, os prédios estavam decadentes e neles imperava um forte cheiro a droga. Dentro deste maravilhoso papel de embrulho, o chefe de campanha disse uma frase que me fez pensar: não te preocupes, aqui nos centros mais pobres, as pessoas são sempre mais simpáticas. Deve ser por serem mais felizes, os ricos são sempre mais infelizes.

 

Bem, eu tinha acabado de sair do liceu e ele era o chefe da campanha, portanto, não disse nada. E a verdade é que a primeira parte da frase tomou algum corpo durante aquela tarde, uma vez que fui recebido de forma espantosa por uma cabo-verdiana em sua casa, que aceitou responder a todos os questionários e receber todos os folhetos, oferecendo-me ainda um chá.

 

Eu assimilei toda aquela simpatia e quase que aceitei o que o tal chefe me tinha dito (no entanto, recusei claramente trabalhar para a agência de novo depois daquela tarde). A juntar a isto, obtinha relatos de pessoas que tinham ido fazer voluntariados para países mais pobres e voltavam a dizer que todo o nosso estilo de vida tinha de ser repensado e que os locais eram muito mais felizes que nós.

 

Ironia do destino ou não, eu acabei por fazer voluntariado em Cabo Verde uns anos mais tarde. Era um voluntariado com crianças. Não digo que ia com a expectativa de encontrar crianças felizes na sua simplicidade, porque algo naquela conceção de feliz ignorante camponesa sempre me incomodou de certa forma. Mas ia com estas sementes plantadas na cabeça.

 

O centro de voluntariado era em Mindelo, na ilha de São Vicente. Toda a ilha é bastante árida, ver um rasgo de verde é de facto um achado por lá. Os dias de chuva são raros, e as temperaturas são sempre bastante altas. Nas ruas, dominam lojas chinesas e mulheres a vender mangas deliciosas em cestas que vinham de uma ilha vizinha, menos árida.

 

O centro acolhia crianças cujos pais não tinham condições para as sustentar. Era um centro só para rapazes, com uma ala de dormitórios e os respetivos balneários, uma sala de brinquedos (partilhados pelos rapazes) e um campo de futebol. Alguns daqueles rapazes tinham sido encontrados a dormir por baixo de caixotes do lixo e em outras condições igualmente más. No centro, eram acolhidos e acompanhados.

 

Os rapazes conviviam uns com os outros 24 horas por dia e as discussões e desavenças eram muito constantes, sendo que o principal meio de resolução de litígios era o arremesso de pedras. Todos me diziam que o seu sonho era vir para Portugal, era ter uma t-shirt do Benfica como a que eu tinha, entre outras coisas que a mim me pareciam simples. Sinceramente, comecei a duvidar seriamente da tese da feliz ignorante camponesa naquelas semanas. A ignorância, ali, não trazia felicidade. O facto de não conhecerem outra realidade não os deixava felizes na sua contentação. A pobreza não era fonte de felicidade, de todo.

 

Eu fui fazer este voluntariado a Cabo verde, mas todos sabemos que centros semelhantes existem em Portugal. Penso que é fácil fazer estes exercícios de lirismo quando as condições nos são oferecidas, até porque o ser humano procura sempre o novo e o que não tem. Os miúdos olhavam para o meu telemóvel e os olhos brilhavam quando os deixava jogar, mas eu também estava ali, à procura de algo que não encontrava na minha bolha do dia-a-dia. Mas meter o dinheiro nesta equação de forma tão simplista não me parece um exercício correto. A felicidade que certas pessoas, menos favorecidas materialmente, podem ter, não se pode resumir a mais ou menos dinheiro, mas a uma série de fatores culturais e psicológicos. Ali, a miséria não trazia alegria, esta fórmula de: quanto menos posses, mais felicidade não era verdadeira.

 

Miguel Almeida

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

10
Abr19

Christchurch, cobardia e o cyber-ironismo

Jur.nal

foto nova zelandia.jpg

 

15 de Março, Christchurch, Nova Zelândia. No outro lado do mundo, 50 pessoas são mortas e 50 pessoas são feridas em duas mesquitas enquanto rezavam pacificamente, numa atrocidade sem paralelo, num ato repugnante e covarde que me deu vários nós no estômago logo que vi as primeiras reportagens a aparecerem no twitter às 5 da manhã nesse fatídico dia (uma da tarde nas distantes ilhas).

 

Mesmo tendo acontecido tão longe daqui, o ataque foi sentido por todo o Oeste, tornando-se intenção especial em inúmeras missas e lamentado por quase todos os líderes políticos das grandes nações. Todo o globo se juntou para oferecer as suas condolências e as suas orações aos mortos, aos afetados e às famílias destes. Chorou-se muito por Christchurch, e ficámos todos chocados.

 

Este choque ficou em grande parte devido à pessoa do perpetrador deste atroz e vil ato. Esta escumalha (recuso-me a dar-lhe qualquer atenção ao utilizar o seu nome verdadeiro, prefiro chamar-lhe de monstro, de escória, ou até mesmo de cabrão) não matou 50 pessoas só porque sim, ou porque as suas condições familiares o tornaram num homem malvado, mas porque tinha a mente envenenada por uma ideologia tóxica que eventualmente o conduziu a cometer este ataque terrorista.

 

Embora possa parecer, este artigo não será sobre a supremacia branca, ou o neo-nazismo (ou até mesmo “eco-fascismo”, ideologia com que o terrorista se identificava) como ideologias, mas sim sobre uma tendência nociva e perigosa muito presente nestes círculos, mas igualmente pervasiva noutros aspetos da sociedade. O manifesto do terrorista, que recomendo não lerem, serve como um perfeito exemplo do “ironismo” que quero explicar. Uma ideologia solta e incoerente, baseada em coisas como taxas de natalidade, é ofuscada por inside jokes e referências a memes. Durante o próprio ataque, o terrorista não hesitou em dizer coisas como “Subscribe to Pewdiepie” (aqui uma referência ao youtuber, que tem estado a competir pela posição de most subscribed com um canal indiano de música) e em tocar uma canção sérvia imortalizada pelo meme do Remove Kebab (uma asserção claramente islamofóbica).

 

Antes de mais, estas coisas são todas memes e surgem, na grande maioria das vezes, sem
intenções de maldade, estando no limbo entre humor absurdo e humor negro. Estes memes têm cada vez menos conteúdo, funcionando como referências soltas a pontos fulcrais de pop
culture ou da própria cultura da internet. Por vezes, são engraçados por serem puramente estúpidos ou absurdos, nem sequer tocando no aspeto de humor negro. De qualquer das formas, isto não significa que estes não possam ser um meio (não uma causa) de ódio e de xenofobia. A Alt-Right , e restantes movimentos semelhantes, é precisamente conhecida por esta “militarização” de memes, numa tentativa radical, e infelizmente com sucesso, de mudar a cultura, especialmente a cultura da internet.

 

Como o teorista marxista Antonio Gramsci argumentou, e como a eleição de 2016 nos EUA veio a provar, a mudança política depende da mudança cultural e, nos dias de hoje, a nossa cultura é marcadamente online. Ao contrário dos desejos de Gramsci, foi a Direita, não a Esquerda, que acabou por capitalizar este zeitgeist cultural. Aliás, já na década passada dizia Andrew Breitbart (fundador do famoso blog reacionário e pró-Trump, Breitbart): “Politics is Downstream from Culture”. Num exemplo exímio, Donald Trump cedo se aproveitou da internet e da sua cultura para promover as suas políticas, reutilizando e retweetando memes e gozando com os restantes candidatos à presidência, todos eles dolorosamente uncool. E, dentro deste rebranding cultural levado a cabo pela Direita em geral, foi a extrema-Direita que mais eficazmente readaptou estes memes, a online culture , distorcendo-os e transformando-os em símbolos do próprio movimento, e utilizando-os de uma forma particularmente nociva: como forma de diluir e limar a sua própria ideologia.

 

Ao misturar e sanear a sua mensagem com pequenos bitaites cómicos e irónicos, a extrema-direita conseguiu apresentar-se a uma geração inteira de internet-dwellers como a reação legítima a um ocidente decadente e, ao aproveitar-se da falta de compasso moral e de sentido de vida nestes jovens, implantou na cabeça destes que têm de assegurar a existência e a permanência da raça
branca, combatendo o multiculturalismo, que veem como direta ameaça a este objetivo. E é exatamente por isso que este cyber-ironismo se torna tão perigoso.

 

Ao tornar tudo numa piada, estas ideias tornam-se imediatamente mais aceitáveis e tudo a que estas se opõe torna-se mais ridículo e parodizado, quer seja o mutliculturalismo, quer seja o Islão, quer seja o europeísmo, quer seja a própria Igreja Católica. Até as próprias noções de “bem”, “moral” e “justiça” são alvos de gozo, desaparecendo em total destes posts irónicos.

 

O perigo do cinicismo e da ironia não é um problema de agora. Como David Foster Wallace perspicazmente apontava: “Irony and cynicism were just what the U.S. hypocrisy of the fifties and sixties called for. That’s what made the early postmodernists great artists. The great thing about irony is that it splits things apart, gets up above them so we can see the flaws and hypocrisies and duplicates. The virtuous always triumph? Ward Cleaver is the prototypical fifties father? "Sure." Sarcasm, parody, absurdism and irony are great ways to strip off stuff’s mask and show the unpleasant reality behind it. The problem is that once the rules of art are debunked, and once the unpleasant realities the irony diagnoses are revealed and diagnosed, "then" what do we do? Irony’s useful for debunking illusions, but most of the illusion-debunking in the U.S. has now been done and redone. Once everybody knows that equality of opportunity is bunk and Mike Brady’s bunk and Just Say No is bunk, now what do we do? All we seem to want to do is keep ridiculing the stuff. Postmodern irony and cynicism’s become an end in itself, a measure of hip sophistication and literary savvy. Few artists dare to try to talk about ways of working toward redeeming what’s wrong, because they’ll look sentimental and naive to all the weary ironists. Irony’s gone from liberating to enslaving.”

 

A ironia deixa de ser meio, nem se torna fim, passa a envolver todo o conteúdo da nossa
mensagem e tudo o que é humano, simpático e justo fica para trás. É a consequência óbvia de tudo o que a nossa sociedade pós-modernista tem vindo a construir. E não devia chocar ninguém que literais nazis estejam a utilizar memes e piadas cínicas para expandir a sua base e espalhar a sua mensagem. Enquanto o neo-nazismo vai adquirindo capital social e relevância, as restantes ideologias certamente descerão pelo mesmo caminho, adotando atitudes semelhantes online, sejam estas de Direita, Esquerda ou até mesmo Centro, numa tentativa de aproveitar esta onda de sucesso.

 

Como se pode esperar, numa atmosfera onde ninguém acredita no que quer que seja, e onde uma ideologia tem mais ironia que o conteúdo, os valores dissipam e a cobardia substitui a honra e a empatia. As piores rés da humanidade escondem-se por detrás da piada e do engraçado. Ou, pior ainda, são levados a cometer atrocidades simplesmente porque acham que é engraçado, uma consequência do que o jornalista Ben Sixsmith apelidou de Irony Poisoning, que pode ser definido como: “When one’s worldview/ Weltanshauung /reality tunnel is so dominated by irony and detachmentbased-comedy, that the joke becomes real and you start to do things that are immoral and wrong from a place of deep nihilistic cynicism.”

 

Voltando a uma palavra que já utilizei algumas vezes neste artigo e que ainda não desenvolvi, torna-se claro que a vítima de Irony Poisoning e o responsável por tamanhas atrocidades não passa de um cobarde. É cobarde porque não tem a coragem de expor as suas opiniões políticas (nocivas como elas são) sem as misturar com fortes doses de ironia: é cobarde porque em vez de enfrentar os seus problemas decide chacinar quem ele vê como responsável por eles. E é cobarde por ter medo de ser humano. Esta é uma cobardia de que, infelizmente, muitos de nós somos presas. A recusa da empatia e a aceitação do cinicismo torna-nos incapazes de ter as relações que desejamos desenvolver. Por quão hilariantes sejam estes memes e este Cyber-Ironismo , há que ter cuidado e não os deixar envenenar a nossa vida.

 

Afinal, como avisou David Foster Wallace na sua magnus opus de 1997, Infinite Jest: “What passes for hip cynical transcendence of sentiment is really some kind of fear of being really human, since to be really human (...) is probably to be unavoidably sentimental and naïve and goo-prone and generally pathetic. ”

 

A dicotomia entre empatia e cinicismo pode ser facilmente exemplificada pelas respostas ao atentado dadas por duas pessoas mencionadas pelo atirador: Candace Owens, ativista conservadora norte-americana, e Felix Kjellberg (Pewdiepie), youtuber sueco. A primeira, no Twitter, e com um excesso de “LOL’s” e egocentrismo totalmente inapropriado para uma resposta a uma tragédia, disse: “LOL! FACT: I’ve never created any content espousing my views on the 2nd Amendment or Islam. The Left pretending I inspired a mosque massacre in...New Zealand because I believe black America can do it without government hand outs is the reachiest reach of all reaches!! LOL!” Pewdiepie, por sua vez, apresentou uma resposta muito mais adequada e sóbria, também no Twitter: "Just heard news of the devastating reports from New Zealand Christchurch. I feel absolutely sickened having my name uttered by this person. My heart and thoughts go out to the victims, families and everyone affected by this tragedy."

 

Creio que estes tweets conseguem resumir bem o que quero dizer e que conseguem ser apresentados sem explicação. Como nota de conclusão, apelo à união e, como Papa Francisco pediu no mês passado na sua visita a Marrocos, à construção de pontes entre diferentes culturas através da esperança. Só assim conseguiremos impedir mais Christchurches.Peço também que mantenham as vítimas do ataque nos vossos pensamentos ou orações. Esperemos que não tenha de escrever mais artigos assim.

 

Tomás Burns

 

10
Mar19

O inevitável progresso nas nossas repetições

Jur.nal

kim_trump.jpg

 

Tenho vindo a reparar em algo na política mundial da atualidade: a rapidez com que tudo - ou quase tudo - muda. Hoje nada é como ontem e será, certamente, diferente de amanhã. Ontem a Coreia do Norte era o némesis do mundo livre, um Estado-eremita que agia em total desacordo com a comunidade internacional e não tinha medo de apregoar o apocalipse que iria lançar sobre os Estados Unidos. Hoje, sai pela primeira vez da casca e dirige-se a Hanoi para tentar alcançar a paz com o seu inimigo número 1. No futuro existirão talvez dez voos por dia entre Los Angeles e Pyongyang - capital do país a que chamaremos orgulhosamente “República Democrática Popular da Coreia” ou “nosso querido aliado” - que levarão anualmente milhares de turistas que, sem medo de serem presos, torturados e executados, certamente irão tirar selfies em frente a uma grande estátua de Kim Jong-Un a apertar as mãos de Donald Trump - estátua esta que será provavelmente apelidada de “Estátua da Amizade”. Ou talvez já estejamos todos mortos. Só sei uma coisa: o hoje é muito diferente do ontem. Há um ano atrás ninguém conseguiria prever o que sucedeu nesta última semana em Hanoi, tal como, antes, ninguém conseguiria prever uma presidência Trump e, especialmente, uma presidência Trump capaz de construir paz com uma Coreia do Norte.

 

No entanto, para além destas mudanças voláteis, diria que a política mundial é ainda marcada por outro aspeto: a permanência. Parece que, mesmo após todas estas mudanças, nada muda. Já passaram 72 anos desde a independência da Índia e do Paquistão do Raj Britânico, que foi dissolvido em 1947 durante o processo de descolonização do Reino Unido e, passados estes 72 anos, os dois países-irmãos, um hindu e outro muçulmano, continuam em permanente guerra fria. Na passada semana, enquanto Donald Trump e Kim Jong-Un chocaram copos de Möet Chandon em nome de uma paz que há de vir, a guerra fria entre a Índia e o Paquistão quase virou quente sobre o território contestado de Kashmir, onde aviões de guerra paquistaneses abateram caças indianos, matando um piloto e capturando outro. Não é a primeira vez que a região quase entrou em guerra - e duvido que seja a última - especialmente enquanto os dois países continuam a desenvolver o seu já existente programa de armamento nuclear (surpreendentemente, ambos os países têm armas nucleares, o que torna a ausência deste conflito dos noticiários mundiais curiosa após tanta preocupação relativamente a países com “armamento nuclear em desenvolvimento”).

 

É verdade que existem muitas diferenças entre estes dois conflitos. Por um lado, entre a Índia e o Paquistão temos, por detrás, um longo historial de divergências religiosas (tripartidas - entre o islamismo, o hinduísmo e o budismo), um processo de descolonização mais uma vez condenado ao desastre futuro por cartógrafos ingleses e incompetentes (não muito diferente do sucedido no médio oriente), e uma população pobre e pouco educada, abalroada por anos de combate. Por outro lado, entre a Coreia do Norte e o resto do mundo dito livre temos, por detrás, uma longa guerra ideológica perpetuada pelas grandes forças de poder do século XX (o capitalismo, defendido pelos Estados Unidos e pelos seus aliados e o comunismo, defendido pela União Soviética e pelos países que esta ocupava e forçava a apoiar), uma dinastia de líderes com pouca vontade de abrir o território ao mundo e com muita vontade de engordar à custa dos seus súbditos (por sua vez anoréticos), e uma perpetuação de histórias de terror sobre a Coreia do Norte nos media do ocidente, que tornaram a liderança do país no grande e impertinente vilão da política internacional.

 

Contudo, há também muitas semelhanças. Em primeiro lugar, são ambos conflitos “nucleares”, no sentido em que todas as partes têm alguma capacidade nuclear, umas mais do que outras. Em segundo lugar, são ambos conflitos que envolvem partes marcadamente nacionalistas. Em terceiro lugar, os conflitos são muito parecidos e são vítimas das mesmas influências. Parece-me especialmente pertinente desenvolver este terceiro. Vou começar por mencionar um ator desta peça que ainda não mencionei e que age nas sombras da política mundial: a China. Ora, a China, com os seus tentáculos invisíveis mas omnipresentes, tem interesses óbvios nestas regiões. Em Kashmir, a China ocupou parte do território disputado de modo a construir uma autoestrada entre duas grandes cidades, enfurecendo a Índia. Entretanto, o Paquistão, aproveitando esta nova ingerência no conflito, rapidamente reconheceu o novo território chinês em troca do reconhecimento do território paquistanês. Na Coreia, a influência chinesa sempre foi óbvia no norte - não só por amizade ideológica, mas também por proximidade geográfica. Mesmo assim, dada a recente abertura do país até agora eremita ao mundo capitalista, a China tem vindo a preferir uma posição mais neutra, mais “americana” e aberta a negociações, muitas vezes mediando os dois pólos opostos do conflito. Outro aspeto em comum entre as duas contendas é a prevalência de fake news, de propaganda, de schadenfreude ou de pura desinformação (o que o leitor preferir e achar mais ajustado ao país que mais apoia). No lado Coreano, a propaganda e lavagem cerebral implementada pelo regime é óbvia e não muito diferente de um newspeak Orwelliano. Desde a mais tenra idade que impingem às crianças norte-coreanas as grandes glórias alcançadas pelos seus queridos líderes (tal como aprender a conduzir aos três anos, algo certamente plausível e acreditável) e o ódio aos americanos e japoneses (curiosamente não os sul-coreanos, que são vistos como irmãos perdidos e rebeldes que em vez de terem de ser destruídos, têm de ser arrastados de volta para o “bom caminho”). No lado Americano, vemos um tipo diferente de desinformação menos óbvio e que se assemelha mais a um kayfabe que veríamos num combate de wrestling (aqui falo da WWE). Vemos a exacerbação de testes nucleares falhados, os exageros das descrições dos media, a pregação de um apocalipse que está para vir, as ofensas lançadas pelo Presidente Trump a Kim Jong-Un no Twitter (uma em particular evocativa de uma certa canção de Elton John) e um fearmongering geral, que tornou a Coreia do Norte não só no némesis do mundo livre, mas também num adamastor, num Grendel, num Sauron comunista que na realidade não é. No conflito indo-paquistanês, vemos fake news à americana, perpetuadas pelos media e pioradas pelas redes sociais, criando o que Farhad Manjoo apelidou no New York Times de um “desfile de mentiras”. Os grandes noticiários indianos e paquistaneses não hesitam em publicar claras falsidades, alegando ataques que não ocorreram ou escondendo ataques que evidentemente ocorreram. Assim são travadas as guerras de hoje, não só no campo de batalha, mas também no campo informacional, com cada lado a aproveitar-se do almost-infinite jest que a internet nos providencia.

 

Estas semelhanças, e tantas outras mais, são meramente coincidentes e representam as grandes alterações políticas do século XX. Em 1950, ninguém conseguiria prever a hegemonia da China ou a prevalência de desinformação na internet. No entanto, representam também a repetição de velhos problemas. A Guerra nunca foi algo que se travasse entre dois poderes, sempre existiram terceiros interesses a influenciar e a manobrar o que podiam (dou aqui o exemplo dos burgueses mercadores que lucravam com as cruzadas e que fizeram com que um exército dito santo e cristão invadisse uma cidade católica - Zara). A Guerra sempre foi alimentada por um ódio construído e perpetuado à base do engano (já Sun Tzu dizia no seu Arte da Guerra: “Toda a Guerra é baseada na decepção”). Claro que o “marionetismo” da China e as fake news são muito diferentes das ilusões estratégicas e das interferências políticas de outrora, mas não perdem a sua componente principal, a sua essência, o seu núcleo: decepção será sempre decepção e ingerência será sempre ingerência. Assistimos sim a um progresso - nestes exemplos tecnológico e político - mas a um progresso muito marcado pelo nosso passado. Nos finais do século XIX, Friedrich Nietzsche falava de um “retorno eterno”, de uma repetição de tudo o que experienciamos ad infinitum. Podemos associar esta ideia a uma teoria cíclica da história, que surge em oposição à teoria linear que nos pode parecer óbvia. Embora este conceito tenha uma dimensão e implicações existencialistas demasiado complicadas para colar à conclusão deste artigo, podemos verificar que na história e na política mundial existe uma repetição eterna de certos factos que não contrariam um progresso e uma evolução não-ilusória, mas sim andam de mão dada com este, manifestando-se através da verificação de certos arquétipos históricos em acontecimentos atuais a um nível microscópico ou até mesmo macroscópico, como nos exemplos que expus aqui. Verificamos uma permanência marcada pela volatilidade.

 

Antes de o/a abandonar e terminar a minha exposição, gostaria ainda de falar sobre mais uma prova deste “progresso cíclico” que expliquei anteriormente. Pegando no já mencionado Nietzsche, acho que todos conhecemos a famosa declaração de óbito que este fez: “Deus está morto!”,  proclamou. Embora Nietzsche seja talvez o ateu mais conhecido da história, este grito não é uma celebração, mas sim uma lamentação, dado que o alemão tinha um enorme receio do que viria a substituir a Igreja; esse mal-afamado ópio das massas, na mentalidade do povo. A ideologia política tornou-se uma religião secular e, em certos países, substituiu por completo a crença no divino. Embora a falta de crença possa aparentar uma evolução da religiosidade de outrora, parece que o ser humano simplesmente não consegue viver sem crenças, sem fé, mesmo achando que efetivamente vive sem tais coisas. Como tão bem disse David Foster Wallace: “Nas trincheiras do dia-a-dia da vida adulta, não há tal coisa como o ateísmo. Não existe tal coisa como a não-crença. Toda a gente acredita. A única escolha que temos é a escolha do em que vamos acreditar”. Ora, a história antiga é marcada pelo conflito religioso, enquanto que a história moderna é marcada pelo conflito político-ideológico. Aliás, a religião detém ainda tanta importância que até nos dias de hoje vemos guerras que podemos apelidar de religiosas, tal como o conflito entre o Paquistão e a Índia. Embora esta seja uma aparente diferença entre os dois palcos de contenda, a guerra ideológica entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos em muito se aproxima de um conflito religioso, não só pela mitologia quasi-religiosa e marcadamente ateísta (paradoxalmente ou até mesmo ironicamente) em torno da família Kim, mas também pela fé que o povo Americano deposita na sua liderança, que atinge níveis não só preocupantes como também cultistas. Esta guerra ideológica é apenas a versão moderna das batalhas religiosas. Chegamos assim a uma conclusão que estou a tentar tornar óbvia desde o início: estes conflitos não só são extremamente semelhantes (e até mesmo ligados) entre si, como também são extremamente semelhantes aos conflitos que os antecederam. A política em pouco muda. Mas evolui na mesma. Repetimos o passado, apenas o repetimos de uma forma mais futurista, envolto em problemas e preocupações do presente.

 

(Curiosamente, quando acabei o artigo, as negociações entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos quebraram com a saída imprevista de Donald Trump da conferência de Hanoi e, numa ação quase digna de Nobel, o Presidente paquistanês Imran Khan libertou o piloto indiano capturado de modo a alcançar a paz. Deixai-vos surpreender pela política, ela certamente não desiludirá).

 

Tomás Burns

 

Nós

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Powered by