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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

04
Set20

Dó sem Ré nem Mi

Jur.nal

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Era uma vez uma menina de vestido azul que estava sentada numa grande pedra debaixo de um velho sobreiro a olhar um prado, seco. E onde nós víamos um campo inóspito, a menina via um burro e um galo, aliás, via um galinheiro inteiro! E papoilas e corvos e legumes e espantalhos. E onde ela via tudo isto, nós não víamos nada.

Será que em tempos também tínhamos sido assim? Teríamos também sentido a prosperidade da imaginação sem sequer notar? Talvez sim, mas agora não. Agora só resta o desejo que a menina seja diferente e que carregue para o resto da sua vida toda a inocência e felicidade que couber num bolsinho muito pertinho ao coração.

Sabemos que vai crescer, mas isso ela também sabe, até já disse que queria ser pintora. Só não sabe que nem tudo vão ser suaves pinceladas de arco-íris e que vão haver bicos e tesouras e agulhas que vão tentar descoser aquele bolsinho de amor de perto do coração. Ah, que ela seja forte! E que sejamos nós também, mesmo depois de gastos os pincéis.

Talvez seja mesmo esta a beleza da vida. Crescemos, aprendemos e, pelo meio, tornamo-nos mais sábios das nossas escolhas, percebemos que o sol nem sempre brilha, mas está sempre lá.

A menina, já crescida, aprendeu que por mais apertinhos que a sua barriga tenha sentido, vale mais a pena comer a maçã trinca a trinca. Mais vale pensar na gente do que falar da gente. Mais vale a pena estender a mão do que a esconder.

 Aprendamos com quem já tudo viveu e disse: “podia-se fruir, podia-se criar durante toda esta breve vida, mas canta-se sempre e apenas uma canção de cada vez, nunca se ouve a sinfonia plena e completa, com as vozes e instrumentos em simultâneo” (Hermann Hesse).

 

Leonor Gambôa Machado

(Aluna do 4.º ano da Licenciatura e Diretora-Adjunta do Jur.nal)

30
Ago20

Cultura, I guess

Jur.nal

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Este texto é publicado na revista oficial dos estudantes de uma Faculdade de Direito. O conteúdo mais comum, aparte opiniões sociais e políticas, são álbuns, filmes e livros preferidos. O porquê de os termos consumido e porque é que os outros também o deveriam fazer. Todos nós lhes reconhecemos o valor enquanto escapatória do mundo da lei, caso contrário não teríamos uma tuna ativa, tal como o Grupo de Retórica e o Jur.Nal.

Enquanto colectivo, reconhecemos o valor dos artistas e das suas criações. Todos temos playlists no Spotify para as viagens grandes, enchemos cinemas, compramos o candeeiro novo porque é muito mais bonito do que o que já lá está em casa. No entanto, não reconhecemos as suas ambições. Todos os anos centenas de alunos ouvem que não vão ter emprego se seguirem certo caminho. Felizmente, ignoram.

Negar que existe um problema com a arte em Portugal é viver numa ilusão obscena. Negar que o mesmo se relaciona com motivos socio-económicos é um branqueamento profundo da realidade portuguesa.

Considero que crescer na Beira Interior é uma existência feliz. Não teria escolhido qualquer outro sítio. Ir e voltar é nostálgico: a nova realidade da nossa cidade pequenina, não reconhecer os miúdos – a frase que mais vezes repito quando cá estou é, sem qualquer sombra de dúvidas, “estou velha”; não é que o esteja, a mudança é que simplesmente não é confortável. O Luís Severo, na sua Cheguei Bem, expôs perfeitamente o que sinto desde setembro de 2018: “cheguei bem, mas já vou embora”. Sinto-o, mesmo que o Luís se esteja a referir a Lisboa. A arte tem a vantagem dos vários significados, de ser um conforto na situação concreta.

Crescer na Beira Interior é, também, um sentimento agridoce. É ir ao cinema ficar perante blockbusters e animação infantil, raros concertos – normalmente não a meu gosto ou que desconhecia (e que mais tarde me arrependia) – por sorte, sempre frequentei o teatro que, infelizmente, é algo atípico no interior. Os grandes concertos em Lisboa ou no Porto que falhei porque ia ter que faltar à escola. Comecei a ir no meu 11º ano, a escola ia continuar, os concertos nem por isso.

O interior apresenta um custo de vida muito inferior ao da capital. Na minha cidade arrendam-se casas a metade do preço de quartos em Lisboa. Entristece-me saber que alguns dos meus colegas ficaram a estudar por cá não por escolha, mas por necessidade. Um artista beirão está limitado pelo estigma com que é visto e pelas circunstâncias familiares. Alguns lá desistem e ingressam num trabalho mais convencional.

Em Lisboa encontrei um novo cenário. Havia tanto para fazer que nem sabia bem o que escolher. Somos bombardeados constantemente por todo o tipo de atividades culturais. Mesmo não me alongando, desta vez, em convicções pessoais, não posso deixar de reparar que a cultura parece mais apelativa aos mais abastados. Desengane-se quem acredita que é por falta de gosto. É falta de tempo, falta de posses, falta de vontade de ser olhado de lado. Mais uma vez, algo não bate certo. Como é que a cultura é para os ricos, mas os artistas são pobres?

O Orçamento de Estado para 2020 aumentou em 16,7% o que destina à cultura. Ficou aquém do 1% do OE pedido pelo setor. É urgente que a cultura comece a ser reconhecida. No mundo da cultura, um artista bem sucedido é aquele que na pandemia não precisou de ajuda. Nos teatros, aumentam-se os preços para não sucumbirem. Os artistas merecem, como qualquer outro, reconhecimento pelo seu trabalho. A arte é mais do que um passatempo, mais do que um entretenimento de outrem. Precisa de ser vista como algo essencial, que o é.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 3.º ano da Licenciatura)

15
Ago20

This is America: Uma Música, Um Movimento

Jur.nal

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Lançado em 2018, o single do rapper Childish Gambino foi desenhado com o intuito de espelhar a problemática da cultura afro-americana e da violência nos Estados Unidos da América.

Entre contrastes na melodia, onde vigoram tons alegres das vozes de um coro, e batidas, iniciadas pelo som dos disparos das armas, que refletem o peso da violência naquele país, e representações peculiares visíveis no videoclipe, que remetem para um conjunto imenso de metáforas sociais, Childish Gambino procurou sensibilizar os ouvintes para uma realidade que há muito é vivida, num país em que a escravatura ajudou a erguer os pilares da democracia e a raça negra continua a ressentir as influências do passado.  

De facto, os recentes movimentos de contestação contra o racismo e abusos policiais nos EUA (o principal, conhecido por «Black Lives Matter»), que tiveram como ponto de partida a morte por asfixia de um cidadão afro-americano, George Floyd, provocada por um grupo de agentes da polícia de Minneapolis, Minnesota, que agiram de forma desproporcional perante o crime provocado por aquele, traduzem um grito de revolta de indivíduos de cultura negra, que se sentem ameaçados e discriminados, por serem tratados de uma forma diferente relativamente aos restantes, em toda ou em certas circunstâncias. É neste sentido que, imbuídos pelo cansaço a que estão constantemente sujeitos, a arte musical surge, em defesa daqueles que não são ouvidos de uma outra forma. Durante o movimento “#BlackOutTuesday”, ocorrido a 2 de junho de 2020, o single de Childish Gambino foi uma das músicas mais ouvidas no serviço de streaming Spotify naquele país, atingindo o pódio nesse mesmo dia. Pelo facto de estar carregada de enorme simbologia e por se focar, essencialmente, na comunidade negra e na violência a esta associada, a canção serviu de apoio a um número elevado de manifestantes, como forma de protesto contra a violência policial e ao racismo ressentido nos EUA, e, acima de tudo, de meio para transmitir a mensagem que lhe subjaz, com o intuito de provocar mudanças no tratamento social e de consciencializar aqueles que defendem a superioridade racial.

This is America reflete uma infeliz realidade, que perdura há muitos anos. O estereótipo criado do indivíduo afro-americano impede que, numa primeira instância, se aceitem mudanças nos padrões sociais, na medida em que os cânones sociais comportam ainda este caráter de diferenciação os indivíduos de raça branca e negra. Tal como ainda é demonstrado no videoclipe, a violência e o ódio quanto a estes é outro fator que faz mobilizar milhões, atualmente. Num dos seus momentos, Childish Gambino aparece empossando uma arma automática, disparando contra um coro afro-americano, retratando o massacre da igreja de Charleston, EUA, em 2015, provocado por um terrorista defensor da supremacia branca. Este é apenas um dos muitos exemplos de crimes de ódio a que parte da sociedade norte-americana está sujeita. Ainda assim, é de salientar que houve repercussões por todo o mundo, relativamente aos recentes eventos de abusos policiais, violência e racismo vividos nos Estados Unidos da América. Com esta disseminação, conduzida pelos ventos da globalização, procura-se erradicar aqueles atos e tornar a «aldeia global» mais igualitária e consciente, evitando o seguimento de uma tendência, que deve ficar relegada à História.  

 

Rúben Cirilo

Aluno do 2.º ano da Licenciatura

22
Mar20

Melhores Álbuns da Década - Opinião de Miguel Horta e de Zé Pedro Paiva

Jur.nal

Tal como qualquer outra carta de amor, todas as listas de melhores álbuns são ridículas. 

Tomando esta verdade inevitável como ponto de partida, propusemo-nos a criar, em primeira mão e exclusivamente para o Jur.nal, a lista mais próxima possível do que achamos terem sido os álbuns mais relevantes dos últimos 10 anos. 

Para tal, foram usados, como critérios, o impacto que cada um teve na indústria, no público, mas, principalmente, no gosto pessoal de ambos. Este último critério foi, sem dúvida, o mais difícil de conjugar, e talvez essa seja uma das primordiais razões pelas quais este texto não está a ser lido nos primeiros dias de janeiro (procrastinações à parte). 

Resta-nos agradecer ao Jur.nal, e desejar que muitos de vós discordem veemente das nossas escolhas. Se assim for o caso, sintam-se no direito (deixamos ao critério do leitor o escrutínio de a piada ser propositada ou mero acaso linguístico) de nos insultarem na caixa de comentários abaixo, de preferência, defendendo aquelas que seriam as vossas escolhas que, desde já informamos, estariam erradas, porque só as nossas é que interessam.

Ora, vamos lá.

20. A Tribe Called Quest - We Got it from Here, Thank You 4 Your Service (2016)

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Dificilmente se poderia prever, no início da década, que uma lista como esta abriria com um álbum de A Tribe Called Quest. Separados desde 1998, o coletivo de Queens, liderado por Q-Tip - uma das mais singulares vozes da história do hip-hop - reuniu-se em 2015 para gravar aquele que viria a ser o último álbum  do grupo, após a prematura morte de Phife Dawg, que faleceu durante as gravações do álbum.

Os Tribe de 2016 são diferentes dos Tribe do início da década de 90. A lírica, anteriormente pautada por letras bem-dispostas, descontraídas, de auto-vangloriação, mas sempre autoconscientes e marcadamente tongue-in-cheek, é agora forçada a confrontar os problemas socio-raciais que definiram a sociedade e a cultura americana nos últimos anos. Não se limita, porém, a isso: há também tempo para recuperar temas antigos, para falar de amor, mas, principalmente, para recordar Phife, o Five-Foot Assassin que era, verdadeiramente, a cola deste grupo. Sobre a produção, há pouco a dizer: Q-Tip é, como sempre foi, dos produtores mais interessantes, progressivos e idiossincráticos da música urbana dos Estados Unidos, e We Got it From Here é só o último reduto disso mesmo.

Uma verdadeira passagem de testemunho - oiça-se Dis Generation, veja-se a lista de convidados do álbum - daquele que fica na história como um dos melhores e mais importantes grupos da história do hip-hop.

19. Lorde - Melodrama (2017)

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Quanta da melhor música que ouvimos podemos agradecer a corações partidos?

Em Melodrama, Lorde encontra, no final de uma relação, a tempestade perfeita para fazer uma introspeção bildungsroman-iana acerca daquela agitada e confusa fase a que chamamos ser um jovem adulto. A solidão é pintada em tons de cinza, com Lorde a deixar claro o sofrimento que esta lhe causa, mas a reconhecê-la como uma boa amiga que faz parte do seu crescimento pessoal. É um álbum que explora, com mestria e elegância, as desilusões, as incertezas e os arrependimentos pelos quais todos passamos, e um que é brilhantemente produzido por Jack Antonoff: um produtor e compositor virado para paletas sonoras modernas e frescas, que, com perícia singular, serpenteia por entre sintetizadores dançáveis, silêncios que valem como instrumentos, e baladas de piano que não soam fora do lugar num álbum dominado por uma sonoridade synthpop. 

Lorde, juntamente com Antonoff, constrói um álbum transversalmente emotivo e exuberante, um coming-of-age musical que é simultaneamente dançável e melancólico, e que é, sem margem para dúvidas, uma das obras pop mais interessantes e progressivas da década.

18. Arctic Monkeys - AM (2013)

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É evidente que, antes de 2013, os rapazes de Sheffield não eram propriamente desconhecidos do grande público. No entanto, foi com AM que os Arctic Monkeys conquistaram aquilo que só está ao alcance da mais restrita elite da música britânica: o mercado americano.

Não muito longe iam os dias em que Alex Turner e companhia soavam ao que de mais britânico há, acompanhando a linhas de voz a roçar o spoken word com guitarras descuidadas e sapatos de vela. Contudo, e talvez devido ao pouco sucesso do seu antecessor Suck It and See (2011), os Arctic Monkeys decidiram adotar uma abordagem diferente em AM. A mudança começou, desde logo, pela mudança de paisagem, deixando Inglaterra para trás, e mudando-se para Los Angeles.

O resultado é uma produção bastante mais cuidada do que o habitual, em que as guitarras barulhentas deram lugar a riffs precisos, de uma sensualidade notável, e onde  a bateria acelerada de Matt Helders passou a ser mais direta e frequentemente alinhada com a linha de baixo. É audível a influência de Josh Homme dos Queens of the Stone Age neste disco, mas não só. O hip-hop, e a própria Califórnia, também são presenças assíduas no álbum. Não é por acaso que muitos apontam os Arctic Monkeys como estando entre os responsáveis por manter o rock vivo e popular nos últimos 10 anos.

17. Joanna Newsom - Divers (2015)

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É altamente discutível - e, provavelmente, até será mais fácil argumentar em sentido contrário - se Divers é, sequer, o melhor álbum de Joanna Newsom desta década, porque Have One On Me é uma extensa e brilhante obra da harpista, tendo sido lançada no início da década.

Permitam-nos a defesa de Divers. O álbum de 2015 é um trabalho particularmente focado e coeso, sem abdicar de singularidade musical em cada uma das 11 músicas do mesmo. Newsom é uma compositora mais originais e completas da cena musical alternativa, incorporando, com mestria, elementos e arranjos clássicos em composições tipicamente folk, construindo, ao mesmo tempo, aquela que é, provavelmente, a sua obra mais acessível até hoje.

A acompanhar a incrível instrumentalização, as letras de Joanna Newsom, sempre carregadas de referências obscuras e influenciadas por poesia barroca, constroem uma temática que culmina em ‘Time, As a Symptom’, brilhante closing track que traz clareza a todo o álbum e à mensagem que Newsom quer passar. 

Newsom é, sem dúvida, uma das mais singulares artistas da música contemporânea, e Divers só vem ajudar a consolidar esse estatuto, revelando a sua capacidade de, sem pôr de lado a veia barroca e grandemente ornamentada da sua música, construir um álbum conciso, que condensa todas as suas qualidades enquanto compositora e intérprete nuns deslumbrantes 50 minutos.

16. Kamasi Washington - The Epic (2013)

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Por muito que tenha gostado do La La Land, não consigo concordar com o Sebastian: o jazz não está a morrer! Muito pelo contrário. Com a ascensão do novo movimento de jazz londrino, já é possível encontrar este gênero em muitos dos maiores festivais de música em Portugal. Outro excelente exemplo de que o jazz está vivo e recomenda-se são os jovens canadianos BADBADNOTGOOD que também têm particular afinidade por subir aos palcos lusos, o que voltarão a fazer já na próxima edição do Vodafone Paredes de Coura.

No entanto, não parece haver como fugir a 2015 e a este disco - para ser mais exato, a estes três discos. No mesmo ano em que emprestou o seu saxofone a Kendrick Lamar, em To Pimp a Butterfly, Washington surpreende tudo e todos com o lançamento de um disco triplo que ficaria para a história do jazz. O disco é tocado por uma banda de volume surpreendente, duas baterias, o pai de Kamasi, parecendo haver espaço para tudo, e para todos. O que é certo é que o disco não só é uma carta de amor aos nomes mais conceituados da história da música afro-americana como vai um pouco mais longe e amplia horizontes sonoros muito próximos do jazz de fusão. É difícil de descrever. Ouça-se!

O saxofonista americano trouxe toda a sua banda (que mal cabia em palco) a Lisboa em 2016, e voltou a terras lusitanas em 2019. Continuamos com saudades.

15. Car Seat Headrest - Teens of Denial (2016)

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Will Toledo gravou oito dos seus álbuns, enquanto Car Seat Headrest, de forma, convenhamos, pouco ortodoxa. Toledo singrou na cena DIY e lo-fi, e desde cedo soube tornar a sua limitação de recursos naquela que foi, durante muito tempo, o seu principal apelo: música pouco convencional, experimental, praticamente incompreensível em certos momentos, altamente biográfica, direta, honesta, crua, sem grandes adornos, mas sempre carregada de emoções e sentimentos com os quais já todos nos pudemos relacionar.

Teens of Denial abdica do pouco convencional, do experimental e do incompreensível, e faz excelente uso de todos os recursos que Will e a sua rapaziada tem agora ao seu dispor. Optando por um estilo de composição muito mais straightforward, sem renunciar às composições mais longas que sempre caracterizaram a sua música (à parte de ‘Joe Goes to School’, todas as músicas correm por pelo menos 4 minutos), Toledo brinda-nos com um álbum rock moderno, polido, e que, sem esconder as suas influências, soa a algo verdadeiramente original.

Não houve, sequer, renúncia ao caráter biográfico e emotivo da música de Toledo. Teens of Denial é uma obra de auto-depreciação, de histórias embaraçosas, de constrangimentos sociais, de confissões cantáveis, de refrões orelhudos que fazem - talvez demasiado - sentido para os nossos seres deambulantes e sem rota definida. Quiçá, nós, tal como Toledo, também não saibamos como é que é suposto dirigirmos este navio; e, quiçá, o melhor que ainda temos é sabermos que não somos os únicos.

14. Solange - A Seat At The Table (2016)

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Apesar de não ser o seu primeiro lançamento, foi com este disco que Solange se libertou do rótulo de “irmã mais nova de Beyoncé” aos olhos da crítica, o que não vemos como uma grande surpresa. Não que os outros discos sejam maus, mas a A Seat At The Table é o mais refrescante que a artista lançou, e serviu de início a uma sonoridade que viria a cunhar como sua, transportando-a para o seu seguinte disco, When I Get Home, de 2019.

Com faixas como ‘Don’t Touch My Hair’, fica bastante claro que o disco é dominado pela tensão racial sentida os Estados Unidos da América. Este tema proliferou pela indústria discográfica dos últimos 10 anos e, consequentemente, é também uma incontornável presença nesta lista. 

Solange surpreende neste álbum com uma produção que, apesar de muito mais trabalhada, é também concisa e coerente, o que dá espaço às suas linhas de voz para crescerem e ficarem no ouvido. Este disco ilustra também uma das grandes tendências da música popular dos 10’s, a fusão e mistura com outras sonoridades fora do espectro da Pop.

13. Radiohead - A Moon Shaped Pool (2016)

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Servirá de parca surpresa a todos os que minimamente conhecem estes que aqui vos escrevem que A Moon Shaped Pool tenha encontrado uma forma de estar nesta lista.

Depois de um álbum menos bem conseguido em 2011, os gigantes britânicos regressam cinco anos depois para lançar aquele que, provavelmente, ficará para a história como o seu mais belo e emocionalmente arrasador álbum de sempre. Não se deixem enganar pela energia de ‘Burn the Witch’: A Moon Shaped Pool é uma bomba cujo rastilho arde lentamente, um turbilhão de emoções que soará bonito ao ouvinte mais desatento, mas que arrebatará aquele que preste atenção às palavras de Yorke. Nele, encontramos algumas das composições mais suaves e contemplativas dos Radiohead (‘Daydreaming’ e ‘Glass Eyes’ vêm à mente, ornamentadas com os seus melancólicos arranjos de cordas); uma sonoridade orientada para o rock mais artístico e ambiente, e ainda algumas sonoridades totalmente inovadoras na sua sonoridade (‘Present Tense’ é uma fantástica balada com elementos de bossa nova).

No fim, encontramos ‘True Love Waits’, e, aí, o nosso coração parte-se. Yorke, que se havia separado da sua mulher, com a qual mantinha um relacionamento há mais de 20 anos, antes da gravação do álbum, escolhe este momento para, finalmente, gravar a música que havia escrito em meados dos anos 90. Não, esta não é uma decisão infundada. E é isso que faz com que os versos finais doam tanto.

12. Fleet Foxes - Helplessness Blues (2011)

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Questionem-se connosco: como é que um álbum gravado de forma a soar imperfeito pode soar tão...perfeito?

O álbum de 2011 de Pecknold e companhia expande tudo o que havia sido feito bem na sua estreia, sem comprometer, por momento algum, a sonoridade que lhes é tão típica. Com Helplessness Blues, os Fleet Foxes entregam-nos uma obra de folk progressivo que não se abstém de ser, também, desavergonhadamente pop.

É, contudo, nas suas letras que Helplessness Blues mais se distancia do seu antecessor. Ao longo de todo o álbum, Pecknold procura uma forma de lidar com as mudanças que ocorrem ao longo da sua vida, de lidar com um mundo que não é estático, que desafia o nosso conforto e as nossas perceções sobre o mesmo. É um álbum sobre crescer, só para nos apercebermos que, afinal, e contrariamente ao que sempre nos disseram, somos só mais um “snowflake among snowflakes”; sobre estarmos presos nesta confusa idade - os malditos 20s - em que já não somos jovens, sem sermos já adultos. E o que fazer disto? 

Pecknold não sabe, mas, em ‘Grown Ocean’, faz-nos uma promessa:  “I know someday the smoke will all burn off/All these voices I’ll someday have turned off/I will see you someday when I’ve woken/I’ll be so happy just to have spoken/I’ll have so much to tell you about it.” E esperamos estar cá para ouvir o que terá para nos contar.

11. Tame Impala - Lonerism (2012)

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Talvez o aspeto mais curioso sobre Lonerism seja o facto de que o álbum é, na realidade, a desavergonhada confissão de que Kevin Parker ama pop foleira. Sem problema, Kevin, nós também.

Em Lonerism, Parker define a sonoridade psicadélica-rock-prog-pop (esta mania de rotular música torna-se chata, não é?), que viria a ficar conhecida como o som dos Tame Impala: músicas relativamente diretas, com uma instrumentalização rica e uma produção altamente criativa, sem cinismo, sem pretensiosismos. Guitarras carregadas de reverb, baixos carregados de groove e uma bateria carregada de punch, os vocais agudos de Parker e os seus sintetizadores reluzentes criam uma atmosfera psicadélica e relaxada que viria a ser emulada por tantos outros que a utilizaram como benguela antes de construírem a sua própria sonoridade. 

É um verdadeiro testemunho à criatividade de Parker que o som de Lonerism tenha estado em todo o lado ao mesmo tempo, sem nunca soar tão bem e único como soa aqui.

10. Kids See Ghosts - Kids See Ghosts (2018)

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Kids See Ghosts são 24 minutos praticamente perfeitos de hip-hop confessional, com coragem de abordar temáticas sensíveis e atípicas ao género, mantendo o nível de produção a que, quer Cudi, quer West, sempre nos habituaram. Cada música é célere, direta e eficaz, e serve o seu propósito numa narrativa que é transversal a todo o álbum. É o projeto mais focado que alguma vez ouvimos de qualquer um dos membros do duo, e, tal como seria de antever pelas suas colaborações passadas, a química e compatibilidade criativa de Kanye e Kid Cudi criam um dos mais interessantes e diversos álbuns de hip-hop dos últimos tempos.

E, claro, é um álbum terapêutico, de exorcismo de demónios, que despe os rappers de qualquer inibição e lhes dá liberdade para confessarem os seus problemas e pensamentos, abrindo-lhes ainda espaço para refletirem sobre o seu passado, sobre o seu sucesso, e sobre a relação de ambos.

Um álbum central à carreira dos dois artistas, e que exorciza os demónios de ambos da melhor forma possível: dando-nos um dos mais criativos e entusiasmantes álbuns que alguma vez saiu das mãos de West ou Cudi.

9. Death Grips - The Money Store (2010)

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The Money Store não é um álbum para todos. Aliás, Death Grips não é para todos, nem para todos os dias. Leia-se isto da forma mais despretensiosa possível: a música de Zach Hill (principal força criativa do coletivo), de Andy Morin e MC Ride é pouco convencional, barulhenta, agressiva, por vezes desconfortável.

Mas não há como negar que estamos perante uma das obras mais criativas e expansivas da história do hip-hop. Com a sua produção altamente distorcida e comprimida, os vocais inconfundíveis (e incompreensíveis) de MC Ride, as suas caóticas e vulgares odes a personagens neuróticas e violentas - que, só por vezes, são contadas na primeira pessoa -, e com as suas percussões latejantes, The Money Store é um álbum construído sobre uma sonoridade industrial que, apesar de não ser isenta de precedente no hip-hop, veio ditar muita da paleta musical que viríamos encontrar nas vertentes mais glitchy e alternativas do hip-hop da década. 

Muitos tentaram replicar o que os Death Grips criaram aqui; ainda estamos à espera de uma tentativa bem-sucedida.

8. Daft Punk - Random Access Memories (2013)

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É certo que o facto de, no final do verão de 2013, a canção Get Lucky continuar em loop em todas estações de rádio poderá ter afastado muita gente das restantes faixas do álbum da dupla francesa. No entanto, com este disco, os Daft Punk ensinaram-nos que ainda se pode (e deve) fazer música de dança recorrendo ao analógico.

É fascinante ver como, em vez de mascararem as suas influências, com este álbum, os Daft Punk vestem orgulhosamente a camisola da música disco. Exemplos desta celebração da música dançável é a participação Nile Rodgers, mítico guitarrista do Chic, na elaboração de várias linhas de guitarra, incluindo a icônica Get Lucky. No entanto, a participação de figuras icônicas não se fica por aí: o álbum dedica uma faixa a Giorgio Moroder, o grande pioneiro da utilização do sintetizador neste gênero musical, sonoridade essa que viria a marcar a disco como género. 

7. Tyler The Creator - Igor (2019)

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Personas e personagens não serão estranhas a quem já estiver familiarizado com o universo de Tyler the Creator, mas a de Igor talvez tenha sido a mais relevante de toda da sua carreira até hoje. Com este disco, Tyler foi o primeiro rapper a solo a ter um álbum totalmente produzido por si no número 1 da Billboard, o que poderá ter sido um dos primeiros passos para ganhar o Grammy de Melhor Álbum de Rap na cerimónia de 2020.

Igor tem uma estrutura narrativa bastante simples e direta. É um álbum conceptual em que cada faixa cumpre a sua função para a história que Tyler nos quer contar. Depois da introdução (‘IGOR’S THEME’) nos dá o tom daquilo nos espera, o disco tem duas metades que se distinguem facilmente, não só pela sonoridade, mas também pela temática. 

Na primeira metade (‘EARFQUAKE’ - ‘A BOY IS A GUN’), Tyler ilustra uma paixão desmedida que se transforma progressivamente em dependência. Em seguida, entramos na segunda metade do disco (‘PUPPET’ - ‘I DON’T LOVE YOU ANYMORE’). Após uma pequena colaboração vocal Kanye West a personagem principal “recupera os sentidos” e desperta Igor, uma personificação do seu ego que o acompanha na superação da paixão não concretizada. O disco acaba com a pergunta retórica e desoladora: “Are we still friends?” 

Nota curiosa: a última sequência de acordes do disco é interrompida a meio, e só vem ser concluída com o primeiro acorde do disco, se o voltarmos a ouvir de seguida. Alguns críticos apontam que o álbum, tal como os degostos amorosos, é cíclico, construindo um loop perfeito em volta de si.

6. LCD Soundsystem - This is Happening (2010)

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Não é fácil encontrar uma estrela rock menos cliché do que James Murphy; e garantimos-vos que ele sabe disso.

Murphy iniciou o projeto que o fez saltar para a ribalta com 32 anos, aquela que foi, de forma quase demasiado adequada, apelidada de ‘Losing My Edge’. Em 2007, com 37 anos, lança Sound of Silver, obra que define e estabelece os standards de toda a cena dance-punk, da qual é figura central.

Aos 40, lança This is Happening - e, pasme-se, isso nota-se. Não que a sua música não soe tão moderna e forward-thinking como sempre soou. É só que, se a premissa de Losing My Edge se verificou, então, em This is Happening, Murphy já não está muito preocupado com isso; e nós também não.

Em 2010, o nova-iorquino soa a Bowie; soa a David Byne; soa a Iggy Pop; e já não quer saber. This is Happening é mais homenagem e “wearing your influences on your sleaves” do que puro e duro pastiche. É um álbum despreocupado, livre, provocador (‘You Wanted a Hit’, senhoras e senhores), criado por um artista repleto de confiança e na posse das suas plenas capacidades musicais, que, sem abdicar de ser um pateta adorável, continua a conseguir, seja essa a sua vontade, tocar - e encantar - os nossos corações. 

E se o forem ouvir, não se esqueçam: cuidado com o volume em ‘Dance Yrself Clean’.

5. Sufjan Stevens - Carrie & Lowell (2015)

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Não há palavras suficientemente adequadas para se falar sobre Carrie & Lowell. A música de Sufjan Stevens sempre foi bela, mas só por vezes a beleza das suas melodias se tornava assombrosa e carregada de pesar. Aqui, tudo é assombroso, tudo é carregado de pesar, tudo é remorso, arrependimento, mágoa, saudade.

Carrie & Lowell é o luto de Sufjan. Após a morte da sua mãe, em 2012, Sufjan encontra, na sua música, uma forma de lidar com a sua perda, e o resultado é incrivelmente belo. A música, aqui, é frágil; a música de Sufjan, que anteriormente era altamente instrumentalizada - oiça-se Illnois para tornar isto claro - cinge-se, aqui, a pouco mais que uma guitarra, um piano, um banjo. A sua voz é, também ela, pouco mais que um sussurro ao nosso ouvido, um suspiro carregado de dor e munido de honestidade, que nos transporta pela sua infância, que nos fala sobre a sua mãe, sobre a sua morte, e, sobretudo, sobre o que isto despoletou na vida do cantor.

É esta simplicidade que torna Carrie & Lowell um dos mais bonitos discos desta década (e, aqui, talvez estejamos a criar uma injusta baliza temporal). É um disco de silêncios, de pausas, de contemplação, de recordação, um que nos transporta a momentos que não vivemos, e que, ainda assim, nos faz sentir na pele o que nos é contado. Sufjan fala-nos de uma forma pessoal, com letras confessionais e com uma crueza poética que expõe os seus sentimentos mais profundos e reflete sobre a relação com a sua mãe, com o seu padrasto, com a perda de alguém próximo, com a religião - esta última, temática central ao longo da sua carreira - e, principalmente, sobre a sua relação consigo mesmo, 

A troco de tudo isto, Sufjan pede-nos, apenas, que carreguemos um pouco da sua dor, e que o escutemos enquanto ele reflete sobre esta. Por nós, é um preço justo a pagar por podermos ouvir, e viver, as histórias de Lowell, Carrie, e do pequeno Subaru. 

4. David Bowie - Blackstar (2016)

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Blackstar foi, e bem, uma das obras musicais mais dissecadas da década passada, embora o tenha sido, principalmente, por ter sido o álbum com que David Bowie encerra não só a sua carreira, como a sua vida.

É simultaneamente arrebatador e fascinante que Bowie tenha escrito, composto e gravado Blackstar enquanto padecia da doença que lhe viria, mais tarde, tirar a vida. Arrebatador, porque Bowie não foge da fugacidade com que a sua saúde de dissipa no álbum: ‘Lazarus’, peça nuclear do álbum, é um assumido e digno adeus, que não cai em facilidades melodramáticas, e que nos mostra Bowie a receber a morte de braços abertos, como uma velha amiga que escolheu ser esta a sua hora para aparecer. Fascinante, por perante o cenário mórbido que é o final da sua vida, Bowie opta por deixar uma obra virada para um futuro que não vai viver, com composições experimentais e energéticas, recheada de rasgos de jazz, e que se afasta largamente das tendências pop que marcaram grande parte da sua carreira.

São cerca de quarenta os minutos que constituem o “canto do cisne” de um dos maiores artistas da história da música, uma obra que serve como lúgubre despedida, mas que perdurará pelo tempo, imortalizando um artista que sempre foi, verdadeiramente, maior que a própria vida.

3. Frank Ocean - Blond(e) (2016)

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Blond, ou Blonde de Frank Ocean é um dos nossos álbuns favoritos. Está nesta lista por essa razão, mas não só. Objectivamente,  este é um álbum extremamente relevante para a indústria discográfica, tendo sido um dos grandes marcos da evolução dos lançamentos independentes que dominou esta década. Após uma laborada manobra para se ver livre das suas obrigações para com a editora Def Jam, Frank Ocean lança Blond(e), de forma completamente independente, um dia após concluir o seu contrato. 

Quanto à obra propriamente dita, se com Channel Orange o artista se apresentava ao mundo como uma das maiores promessas da nova geração do R&B,  com o segundo longa-duração fica claro que Frank Ocean é bem mais do que uma promessa. Poucos discos têm um poder nostálgico tão imediato como Blond(e), que nos transporta sem pedir licença para os verões perdidos da nossa infância. Verões esses que, tal como o artista canta em Skyline To, já não são tão longos como costumavam ser e que provavelmente nunca mais voltaram a ser. 

É difícil explicar o grau de intimidade que o músico atingiu com este disco, mas é mais que certo que Blond(e) são 60 minutos aos quais vamos recorrer frequentemente na próxima década. Recomendamos que façam o mesmo.

2. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

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Poucos álbuns foram mais dissecados na passada década do que My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Falar sobre este de um ponto de vista puramente objetivo é não trazer nada de novo à discussão, é dizer palavras e expressar ideias que outros, provavelmente por outra ordem sintática, já disseram e já exprimiram; é ser, no fundo, redundante - um bocado como esta enumeração.

Cometendo, de plena consciência, o pecado da tautologia crítica, tentemos ser objetivos.

Em MBDTF, Kanye pega em todo o seu passado - musical, e não só - e pinta um quadro em que tudo parece maior, mais vibrante, mais detalhado; um quadro que retrata o luxo e a extravagância com as quais Kanye não sabe viver sem, mas também não sabe viver com.

São os conflitos internos e as incongruências que definem o rapper de Chicago que trilham o caminho que percorremos ao longo destes quase 70 minutos. Nas suas letras, encontramos o seu ego ferido, mas também o seu ego em esteroides, em devaneios megalómanos que já anteviam Yeezus, lançado três anos depois. Contrastando estes, encontramos West fragilizado e emocionalmente vulnerável; Runaway e Blame Game são exemplos claros de um Kanye pós-relacionamento que, sem pedir perdão, confessa não só a sua arrogância, como também as suas inseguranças, conjugando estes dois elementos antagónicos e dando-nos um vislumbre do caos emocional que o define. 

Contudo, é, maioritariamente, a sua relação conflituante com a fama, e, em particular, com a decadência que vê como um inevitável decurso da vida debaixo dos holofotes que estabelece a tónica lírica que nos acompanha quase durante toda a duração do álbum. Kanye sempre quis esta vida, e desde sempre o tornou bem claro - oiça-se, por exemplo, Last Call, do álbum de estreia de West, para este efeito - mas aquilo para que o miúdo prepotente de Chicago não estava pronto era para estar na boca do mundo apenas seis anos após o lançamento de The College Dropout. E as letras de MBDTF são, precisamente, um espelho disto: de alguém que estava, e está, a viver o seu sonho, só para se aperceber que este sonho é uma fantasia que, embora bela, é, também, negra e perversa.

Há muito mais a dizer sobre MBDTF. Kanye pega na sonoridade electropop de Graduation e 808s & Heartbreaks, na soulfulness de The College Dropout e na grandiosidade sinfónica que abrilhanta Late Registration e evoluí para o maximalismo que encontramos aqui, em beats que vão beber ao que foi feito de bem atrás, só para darem um passo grande à frente, sendo mais ricos, mais variados e mais extravagantes.

Quase 10 anos depois, mantenho todo o deslumbre e fascínio por My Beautiful Dark Twisted Fantasy; afinal de contas, foi este o álbum que me expandiu horizontes na tenra idade em que o ouvi pela primeira vez. Sim, há momentos, e frases, intrinsecamente foleiras aqui (olá, Chris Rock,). Eu perdoo, porque se Kanye pinta aqui um quadro, ele pinta um autorretrato: o de alguém altamente imperfeito, que sabe ser altamente imperfeito, mas que vê perfeição nas suas imperfeições, e por isso, nos graceja com todo o seu caótico esplendor.

1. Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

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Selecionar e ordenar os álbuns que constituem esta lista foi uma tarefa ingrata e árdua e que asseguramos ter gerado bastante discórdia entre os seus autores. No entanto, desde o primeiro momento que mantivemos uma conceção unânime e quase dogmática: To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, iria estar na primeira posição. 

O rapper, originário de Compton, na Califórnia, era apenas uma promessa da cena alternativa aquando do início da década e, nos dias que correm, é já uma presença assídua nas listas de melhores rappers da história. Muito desse reconhecimento deve-se ao seu álbum de 2015.

Após o sucesso do inteiramente autobiográfico Good Kid, M.A.A.D City, Kendrick Lamar lança o seu terceiro álbum de estúdio, e com este abraça toda uma nova sonoridade. A lista de instrumentistas convidados é ínfima - a destacar nomes como Thundercat, Flying Lotus ou Kamasi Washington - que contribuem para o ambiente ‘jazzístico’ que caracteriza e pauta todo o disco. TPAB trata-se de um álbum conceptual, no qual Kendrick recita, progressivamente, um poema entre as faixas que o compõem. Após última faixa, fica claro que a leitura é dirigida a um dos maiores ícones da música afro-americana, com quem Lamar encerra o disco a debater o futuro da sua comunidade, numa espécie de premonição do seu próprio futuro.

Dificilmente poderíamos ter escolhido uma obra com mais impacto nesta década, algo que se pode sentir desde a receção por parte da crítica e no impacto social. O tema ‘Alright’ tornou-se o hino do movimento “Black lives matter”, protagonizando a grande parte dos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos da América. 

Quanto ao reconhecimento por parte da crítica, a obra recebeu uma aclamação geral, encabeçando a maior parte dos tops do ano, tendo sido nomeado para 11 Grammys. 

Um álbum que vale a pena experimentar ou simplesmente recordar. Para uma melhor compreensão do seu conteúdo, recomendamos o podcast de análise musical Dissect, que dedica a sua primeira temporada integralmente a To Pimp a Butterfly, o nosso álbum da década. 

 

José Pedro Paiva

(Estudante de Mestrado em Direito e Tecnologia)

Miguel Horta

(Estudante de Mestrado em Direito e Gestão)

21
Mar20

Melhores Álbuns Portugueses da Década - Opinião de João Duarte

Jur.nal

Se a arte e o engenho eram já escassos, a tarefa é também ela árdua: se, por um lado, a década ainda não se cumpriu na íntegra (eu sou daqueles perfecionistazinhos que dizem que é preciso ter calma, que a década de 20 só se inicia em 2021 – tal como o século XXI só começou em 2001), por outro, o gosto é, como se sabe, intrinsecamente subjetivo (não se discute, sequer, a qualidade – essa é, por todas as vias, indiscutível: se tempos houve em que a música nacional, cantada em português, andava adormecida, a década de 10 do século XXI veio mostrar que onde há juventude também há talento e capacidade de manobrar a língua portuguesa e de reinventar os acordes e as batidas de sempre – tantos outros, que ficaram de fora, poderiam entrar para esta contagem). Propor uma lista dos melhores álbuns nacionais desta década é, então, inevitavelmente inglório. O meu gosto é forjado pelo que me habituo a ouvir, daí que este top-15 seja, em rigor, um top dos álbuns que mais tenho ouvido. 

 

P.S. Não pode haver outra ordem que não a alfabética para dispor todos estes álbuns: depois de uma seleção de somente 15 de entre um oceano de álbuns, todos estes mereceriam o primeiro lugar... 

1. Capitão Fausto – A Invenção do Dia Claro (2019) 

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Incluir nesta lista Capitão Fausto e não despejar aqui todos os quatro álbuns da banda pode parecer contraditório. Todos teriam qualidade para aqui figurar. Mas este é especial – este significou o dobrar da juventude, com tudo o que de bom isso traz: um som apurado e uma história inspiradora, para o bem ou para o mal (ou nos dá para correr atrás do nosso amor de sempre, ou para chorar por não podermos viver o mesmo Final deste álbum – estas duas situações podem ser cumulativas). Cinco jovens adultos que não são mais diamantes em bruto. 

2.Capitão Fausto – Pesar o Sol (2014)

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Aqui ainda tínhamos pedras preciosas por lapidar. E ainda bem. No auge da juventude e da ingenuidade, cinco jovens que faziam música exuberante, não tão imediata quanto a de Gazela, mas aliando instrumentais viajantes a letras que interrogam o mundo (próprio, aliás, de jovens que se prezem), o resultado foi algo que em muito superou os experimentos do primeiro disco – e, a meu ver, todos os restantes. Ouvir este disco é tocar no peito e sentir o coração a querer saltitar cá para fora, sentir na boca o sabor a sangue como quem termina de dar infinitas voltas à pista na aula de Educação Física. A referência não é displicente – estávamos no já longínquo ano de 2014, andava eu no 9.º ano... 

Pesar o Sol é mesmo a melhor metáfora para aquilo que deve representar a vida de um jovem. 

3. Ciclo Preparatório – As Viúvas Não Temem a Morte (2013)

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Este é o grupo coral pop especial rural-chique delicodoce (assim se descreveram estes jovens ao jornal Publico no já longínquo ano de 2013) que descobri somente há cerca de um ano. Foi, porém, o suficiente para me apaixonar. Há aqui algo de Heróis do Mar, seja nas letras, nas roupas ou no próprio nome da banda. Um quê de portugalidade latente, forte e indiscutível. Agrada-me bastante. Combinam ritmos frenéticos com canções contemplativas e até nostálgicas. Algo que não perderam no mais recente álbum, o segundo, que tardou (2018) – mas a espera compensou. 

Exulto ao som de Lena del Rey, mergulho sobre mim mesmo ao escutar a Casa da Lamarosa. Se esta antítese de sensações é possível de conter num só álbum, temos de contar com os Ciclo Preparatório. 

Tive a fantástica oportunidade de entrevistar, aqui para o JUR.NAL (leiam!), o baterista e o vocalista desta incrível banda. 

4. Diabo na Cruz – Lebre (2018)

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Estes são os homens corretos para falar de portugalidade.

Que dizer de Diabo na Cruz. Novamente, podia ter incluído todos os álbuns da banda. Tomai, todos, e bebei: este é o rock tradicional português dos Diabo. Quis o destino que Lebre fosse o último trabalho da banda. E acabou em grande: guitarras e letras marcantes. Ao leme o inquieto Jorge Cruz, que logo em Forte se descreve de forma tão certeira: “Não troco desespero por agravo, nem perigo por um bom lugar marcado”. 

Procissão (a fazer lembrar, com aquele poderoso riff inicial, a Roadhouse Blues dos The Doors) e Malhão 3.0 (a transportar-nos para as quentes noites de verão mesmo se estivermos a viver o mais profundo dos invernos) são canções vibrantes. Pelo meio, Terra Ardida acorda-nos cruamente para o fenómeno dos incêndios que vastas vezes tem dizimado a nossa pátria. No geral, é um belo retrato (ou resumo, se quisermos) do que é ser português. É mesmo por aí que finda o álbum: Portugal. Inicia-se com ritmos mais tradicionais e é paulatinamente substituído pela dominância da guitarra: “Vagueei por Portugal, com assombro ancestral. Quando chegue a minha hora, seja terra em Portugal.”

Diabo na Cruz não se pode explicar. Tem de ouvir-se. 

5. Filipe Sambado – Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo (2018)

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Se em Diabo na Cruz encontramos o cru rock balançado com os ritmos tradicionais portugueses, Filipe Sambado é, por entre as minhas viagens acompanhado do Spotify, a lufada de ar fresco a que recorro amiúde. Os ritmos mais frenéticos da guitarra, por vezes, também cansam. Filipe Sambado oferece-nos sonoridades arrojadas e letras por vezes atrevidas. O resultado final é um caldo bastante aprazível.

Deixem Lá foi sem dúvida uma das canções que mais ouvi em 2019. 

2020 trouxe-nos novidades quanto a Filipe Sambado (Revezo). Mantenho-me, ainda assim, firme nas minhas preferências: Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo é um belo álbum, porque constante. Mexido e agradável do início ao fim.  

6. Ganso – Costela Ofendida (2016)

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Esta será uma das escolhas menos óbvias. Trata-se de um EP de uma das bandas “satélite” dos Capitão Fausto. A banda tem já dois álbuns, mas não há volta a dar: esta é a minha produção de eleição. Psicadelismo, algum non-sense, letras despreocupadas mas com sentido bastante para serem uma letra de uma música. Nos Ganso – pelo menos neste Ganso - há loucura e razão em doses certas. 

Os tempos mais recentes são de Não Tarda (2019), algo menos apetecível - há que dizer. Habituei-me aos tempos iniciais de Ganso, mas as bandas transformam-se – é uma inevitabilidade. 

Sinto saudades daqueles tempos em que se comemorava Idalina, e investia-se na Idalina ingenuamente, sem pensar no que viria depois. 

7. Lena D’Água – Desalmadamente (2019)

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Lena D’Água tinha de estar presente. Foram três décadas sem editar. Desde os anos 80, em que era a namoradinha de Portugal. Nem já os meus pais têm idade para se lembrarem dos tempos em que a Lena “explodiu” na ribalta, mas eu gosto de Lena D’Água. Talvez porque nos últimos anos tem colaborado com vários artistas nacionais emergentes (dos quais os Ciclo Preparatório são exemplo), o que me deu a oportunidade de me cruzar com ela, e explorá-la. 

E o privilégio que foi poder passar dos intemporais Demagogia, Vigaro Cá, Vigaro Lá ou Sempre Que o Amor me Quiser para canções das quais sou contemporâneo: Opá, Grande Festa ou Hipocampo surgiram carinhosamente no meu dia-a-dia, ao bom estilo da Lena. Recebi-as com gosto e a elas regresso de quando em vez. 

8. Linda Martini – Linda Martini (2018)

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Linda Martini é para aqueles fins de tarde em que o céu se reveste de tons alaranjados. A alma aquece e só apetece ouvir esta banda fantástica. Em específico, este álbum efusivo e ao mesmo tempo reflexivo. Para que a alma aqueça ainda mais.

Foi este álbum que marcou o início da minha aventura em torno dos Linda Martini. Foi um amor à primeira vista. É uma aventura que está para durar. 

9. Luís Severo – Luís Severo (2017)

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Este rapaz com um ar tímido revela todo o talento que vive dentro de si quando pega na guitarra ou se senta ao piano. Das suas mãos e da sua voz saem canções fantásticas, e este álbum é um perfeito exemplo disso - todo ele muito bem conseguido. 

Hoje, ao cabo de três álbuns, pode dizer-se que Luís Severo construiu uma sonoridade que é marca sua. E eu aprecio-a bastante. 

Há momentos em que sinto que o que há a fazer é somente encostar-me nas costas da cadeira do comboio e escutar Luís Severo. De entre essas vezes, o que a minha cabeça maioritariamente me pede é o álbum que aqui menciono. 

Amor e Verdade é uma obra de arte. Nela se encontra a quadra que descreve o estranho momento que, enquanto aprendiz de adulto, vivo:

“Deixaste a mocidade à espera
Fumo a desaparecer
E só voltou a primavera
P'ra trabalhar até morrer”

10. Os Pontos Negros – Soba Lobi (2013)

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O triunfo da juventude, nu e crua. Estes mantiveram-se, até ao seu fim (este foi o último álbum da banda), iguais a si próprios. Talvez tenha apreciado em maior dose o Magnífico Material Inútil (2008), cuja canção homónima é, de facto, a minha favorita dos Pontos Negros. 

Mas não se percam: este Soba Lobi é de qualidade superior. Corrido, agressivo e assertivo. 

“Se tudo neste mundo é imprestável

Se não sou sal nem sou luz

Não há insipidez que esconda a nudez

De não carregar uma cruz”

Senna

E pensar que em 2012 o Festival NOVA Música (que anualmente se realizava no nosso campus) contou com Pontos Negros, Ciclo Preparatório e Capitão Fausto...

11. Salvador Sobral – Paris, Lisboa (2019)

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Não nego: conheci Salvador Sobral somente depois do Festival RTP da Canção de 2017. Mas o que ouvi deveras me agradou. E este Paris, Lisboa foi a confirmação dessa minha opinião. 

Não há muito mais que se possa dizer a propósito de Salvador Sobral. O que faz com a sua voz é, a todos os níveis, incrível. 

Ouço-o para me sentir bem, ainda que não com a regularidade que talvez merecesse este génio. 

12. Tara Perdida – Dono do Mundo (2013)

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Este é o último álbum de Tara Perdida com João Ribas, o bastião da cultura e mentalidade punk no nosso país. Também ele, ao seu jeito, um génio, que se foi demasiado cedo. 

Deste álbum fazem parte os hinos O Que é Que Eu Faço Aqui e o eterno Lisboa (com o Tim). 

Tara Perdida é, quer queiramos quer não, uma das bandas marcantes (talvez de culto) nacionais. E com eles não há surpresas: vão diretos ao assunto. Entregam à sua legião momentos para descarregar a adrenalina. 

“Hei de um dia ser alguém
Não a qualquer preço
Estás cá tu para lembrar
Tudo o que me esqueço”

O Que é Que Eu Faço Aqui

13. Tiago Bettencourt – Do Princípio (2014)

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Sou por tendência, uma pessoa calma, reflexiva e algo apática. Nessa medida, Tiago Bettencourt leva-me a constantes reflexões melancólicas sobre a vida e as aventuras que esta me oferece. Maria, Aquilo Que eu Não Fiz e Sara são, para mim, bom exemplo disso. A qualidade não deve sequer ser discutida. Merece, sem dúvida, este top. 

14. Xutos & Pontapés – O Cerco Continua (2012)

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Quem me conhece não estranhará esta “nomeação”. Pois é, talvez sejam os Xutos a minha banda de eleição. O Cerco Continua é um álbum carregado de significado. É uma reedição (com nova produção) do Cerco (1985). A verdade é que, 27 anos depois, as letras do Tim continuavam, e continuaram, atuais. Só o tipo de cerco era distinto: em 1985, o cerco era da banda, por não conseguirem encontrar uma editora que quisesse produzir as suas canções; em 2012, era a Troika e a crise quem cercava o país.

“Eu vou para longe, para muito longe
Fazer-me ao mar. Num dia negro
Vou embarcar. Num barco grego
Falta-me o ar, falta-me emprego
Para cá ficar.”

Barcos Gregos

A estas canções juntaram-se mais duas originais e uma terceira, Vossa Excelência, da banda brasileira Titãs, na voz do Tim e ainda na guitarra do Zé Pedro. Uma canção com uma letra agressiva, diretamente dirigida à classe política e aos titulares dos órgãos soberanos do Estado. 

Por entre todas estas letras de intervenção (uma marca indelével dos Xutos & Pontapés e um estilo que eu tanto aprecio), haveria ainda espaço para relembrar hinos como o Homem do Leme ou Conta-me Histórias

15. Zarco – Zarcotráfico (2017)

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À semelhança dos Ganso, Zarco, com um EP. Como em Filipe Sambado, há ritmos arrojados, acelerados, e letras que não me deixam indiferente. Em suma, tudo o que, por norma, me cativa numa banda. 

A referência à Tava Num Bar (de um disco posterior a este que menciono) na canção Sempre Bem dos Capitão Fausto foi o mote para conhecer esta maravilhosa banda. Não me arrependi. Recomendo-a a todos, caso ainda não a tenham ouvido. 

 

João Duarte

(Aluno do 3º ano da Licenciatura)

18
Mar20

Melhores Álbuns da Década - Opinião de Duarte Sales

Jur.nal

Já muito tempo passou desde do ano novo e, com o isolamento social, 2019 parece uma realidade distante. Mas, com tanto tempo nas nossas mãos, podemos e devemos recordar os bons tempos pelos quais passámos, bem como a boa música que ouvimos, não só no ano passado, mas na década passada. Para abrir este novo segmento, segue a opinião de Duarte Sales, colaborador do Jur.nal. Todos os álbuns são acessíveis por links integrados nas imagens.

 

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10. Kids See Ghosts - KIDS SEE GHOSTS (2018)

É o reerguer de duas almas criativas (Kanye/Cudi) que, após as suas quedas e os seus vícios, após as peripécias e mediáticas e obras de arte dúbias, encontram novamente forças e mostram-se capazes de enfrentar o mundo e encontrar terapia neste projecto incrivelmente conciso. Duas almas renascidas.

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9. Noname - Telefone (2014)

Desde o amanhecer de Yesterday até ao crepúsculo de Shadow Man, Noname elucida-nos a sua viagem de vida, os seus devaneios e pontos de interrogação, histórias de amor e desamor, numa mescla bela de spoken word, jazz e hip-hop.

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8. Beach House - Teen Dream (2010)

Um indie etéreo com a grandiosidade dos seus refrões entoados como cânticos de guerra e versos sangrentos com guitarras suaves e a voz honesta e intensa de Victoria Legrand, que nos eleva a quaisquer nuvens sonhadoras das nossas mágoas.

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7. The War on Drugs - Lost in the Dream (2014)

Um álbum que nos convida a meter-nos numa estrada mítica qualquer, sem fim, e desfrutar desta jornada de rock grandioso, por entre ventos solitários que nos entram pela janela do carro e melodias que nos fazem sonhar e esquecer de outros devaneios.

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6. Danny Brown - Atrocity Exhibition (2016)

Um álbum absolutamente insano onde Danny Brown explana a sua mente caótica, danificada por uma vida que ele sabe ser nefasta dos vícios (dos quais felizmente já saiu), num puzzle entre beats desconexos e versos delirantes que, de alguma forma, se encaixam na perfeição. 

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5. MGMT - Little Dark Age (2018)

Uma mirabolante mistura de post e goth rock, com texturas sonoras viciantes, refrões grandiosos e temas líricos contemporâneos, desde a desumanização do vício do telemóvel até à radicalização da política. Um álbum que deixaria qualquer Dead Can Dance ou The Cure orgulhoso.

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4. Frank Ocean - Blonde (2016)

Um convite ao seu mundo íntimo, embrenhado em suaves harmonias vocais e sons distantes que ecoam como se tivéssemos mergulhados no fundo dum oceano de fama, amor e dor, Frank deita, aqui, o seu coração e a sua alma para fora, e podemos apenas ser privilegiados ouvintes e sentir o abraço do seu timbre. 

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3. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

São passos de ballet num purgatório banhado por diamantes, coroas, rios de sangue e anjos sem asas. É a montra da personalidade opulenta, intensa, caótica, binária, excêntrica, mediática e genial do único Kanye West. Não é preciso mais.

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2. Papillon - Deepak Looper (2018)

É a obra-prima da vida. É a viagem do ciclo de borboleta, erguer, transformar, quiçá morrer, sempre viver, reerguer. É um mundo com cores sonoras que pintam esta história, a nossa história, Humanidade. Desde o sangrar do coração em Impec até ao questionar a definição de heróis e vilões em Imito. Desde a mesma aborrecida rotina em 1:AM até às soberbas mágoas da vida de cada um em Imagina. É encontrar a luz dentro do casulo e renascer metamorfoseando o nosso universo. É Deepak Looper. 

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1. Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

Quem me conhece já sabe que seria isto. Para mim, o melhor álbum da década, do Hip-hop, da Música, do Sempre. A celebração da Arte e da Vida. É o despertar consciente da Humanidade dentro de cada um de nós. Em semelhança ao Deepak Looper, pega-se na grandiosidade da vida de cada um e simultaneamente alarga-se a mensagem à sociedade em geral e ao indivíduo em particular. Mas, aqui, acrescenta-se uma tela original de jazz, funk e soul, presta-se respeito a ídolos como George Clinton ou 2Pac, ecoa-se um poema ao longo do álbum, verso a verso, até se revelar a bigger picture, e obtém-se algo muito maior que a soma das partes, embora as partes, em si, sejam infinitas em qualidade. Já muito escrevi sobre este álbum, e espero poder continuar a escrever muito mais, mas não existem palavras que descrevam com justiça esta obra de arte, e, como tal, por aqui me ficarei, ainda não sei em que estado, se dentro do casulo ou da borboleta, se no casulo de Papillon ou a borboleta viciada de Kendrick, pode ser que esta próxima década me responda, se a Mãe Natureza não se decidir vingar com rapidez sobre todos nós, se começarmos a tratá-La bem, veremos outras condições humanas, e o despertar consciente de cada uma.

 

Duarte Sales

(Licenciado em Finanças e Mestre em Gestão de Sistemas de Informação, atualmente a trabalhar no INE)

20
Dez19

Top Álbuns 2019

Jur.nal

Por: Jefferson A. Fernandes (aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

  1. Fine Line, Harry Styles

 

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Quando todos esperavam um “Harry Styles” 2 (primeiro álbum a solo do artista), Harry Styles, no dia 13 de dezembro, mostra-nos algo novo. Fine Line caracteriza-se como um dos melhores álbuns do ano, tanto pela sua complexidade (a música Watermelon Sugar demora um ano a ser produzida na sua totalidade) como pela sua pureza. Num tom de “retro pop rock”, Harry Styles explora cada faixa no seu expoente máximo. Um álbum que acaba por marcar a década, não só pela qualidade, mas pelo cantor. Harry Styles é, atualmente, umas das maiores figuras do mundo da música.

 

  1. Bubba, Kaytranada

 

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Ao senhor que conseguiu meter o SBSR de pernas para o ar. Nada fora daquilo que se estava à espera. Bubba chega às plataformas e sem grande publicidade o artista consegue juntar nas suas faixas artistas como SiR, Kali Uchis, Masego, Pharrell Williams e muito mais. Um álbum a não perder.

 

  1. Ginger, Brockhampton

 

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Possivelmente o melhor álbum do então grupo criado por Kevin Abstract. Um álbum totalmente sentimentalista que nos leva a um procurar por mais. Diz-nos tudo o que queremos. Não poderia deixar de estar nomeado para o top. O álbum surge após um momento em que o grupo estava meio separado, cada um a trabalhar individualmente nos seus diversos projetos, surgindo inclusive um álbum a solo de Kevin A, Arizona Baby, em que surge o então prodígio da música americana, Dominic Fike, na música Peach.

 

  1. Sou Rock N’ Roll, Dfideliz

 

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Dfideliz é uma das revelações da cultura brasileira. Lançando um álbum que me faz muito recordar o então Bluesman de Baco Exu do Blues, Dfideliz, vem reforçar a mensagem “Pode ficar puto quando eu tiver escrevendo”. Muito conhecido pela sua escrita um pouco pesada, este ignora as críticas e lança-se ao panorama nacional da música brasileira. Hoje conhecido por todo o país e enchendo arenas, podemos dizer que Sou Rock N’ Roll é um marco da música brasileira nesta década que acaba.

 

“Já vi muito moleque no morro
Tendo que fazer suas preces
E de passar sufoco, carai
Dinheiro é uma praga
Que eu desejo a todos que não merece”

 

  1. When We All Fall Asleep Where Do We Go, Billie Eilish

 

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Com apenas 17 anos, Billie Eilish lança o seu primeiro álbum alcançando o top mundial por diversas semanas consecutivas. Um álbum totalmente produzido pelo seu irmão Finneas (cantor e compositor) leva a que os bilhetes para os seus concertos se esgotem em horas (à semelhança do que aconteceu em Portugal, onde os bilhetes esgotaram em 40 minutos).

Com hits como Bad Guy e I Love You, Billie caracteriza-se como uma das cantoras mais requisitadas da nossa geração. Já nas palavras de Dave Grohl, antigo baterista dos Nirvana e atual vocalista dos Foo Fighters “Billie tem o mesmo efeito que os Nirvana tinham sobre as pessoas, é incrível.”

18
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte II)

Jur.nal

Ana: Bem, nós agora queremos falar um bocado sobre o vosso processo de composição musical. Nós sabemos que algumas das músicas partem de ti [para o Sebastião].

 

João: A maioria, talvez. Pelo menos as letras.

 

Ana: Exatamente, e isso é muito incomum nas bandas, porque normalmente não é o baterista a escrever as músicas, e nós queremos saber como isso funciona e como tu começas o teu processo criativo, como é que lhes passas as músicas?

 

JG: Acho que funciona muito bem… (risos)

 

SM: Como é que é o processo criativamente… Então, há contribuição [da banda] toda, mas como normalmente a imagem parte de mim, acaba por ser um bocado conduzido por mim, não havendo assim tanta liberdade, mas tento dar a sensação que existe (risos) quando a apresento, mas basicamente o que acontece é que nós, de repente, decidimos que vamos fazer mais um disco.

 

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JG: Isto foi o caso do segundo.

 

SM: No segundo e até mesmo no primeiro temos muito pouco tempo para as coisas, porque nos ocupa [tempo], e há sempre uma tentativa de surgirem coisas em conjunto e isso, mas depois é muito disperso, e não se chega a nenhum resultado. E acho que deve ser comum a todas as bandas, alguém ter de liderar [o processo]

 

JG: É difícil compor em grupo.

 

SM: Mas pronto, nessas divagações, até surgem algumas ideias lá no meio que não sei quem é que diz ou quem é que faz, mas há sempre qualquer coisa. Se calhar imponho-me um bocado, às vezes, mas só para definir.

 

João: Mas um bocadinho em cada instrumento, ou… ?

 

SM: Sim, tenho uma ideia para uma coisa e digo “faz aí isso” ou então alguém tem uma ideia e depois adapta-se e então surge um ritmo por cima daquela ideia, e depois aquela ideia vai fora e fica o ritmo, pronto, surgem elementos, e ficam lá. E depois, as ideias da música surgem por necessidade, ou outras não faço a pensar naquilo, na maior parte, simplesmente estou sempre a ter ideias e vou gravando as ideias, não sei bem para o que é que são na altura, e depois, quando é preciso, começo a tentar concretizá-las, ou seja dar-lhes algum tipo de sentido ou estrutura ou o que seja. E há uma ou duas músicas que fiz exatamente para isto, que foram feitas exatamente a pensar com aquele estímulo de “vamos fazer uma coisa nova” porque depois por acaso lembro-me sozinho e faço uma coisa a pensar nisto. Um exemplo é aquela da “Caravela”, que foi quando surgiu a possibilidade de sequer considerar um segundo álbum e começar a pensar o que seria. Foi uma coisa que foi feita a pensar naquilo.

 

JG: Aí já tinhas a guitarra?

 

SM: Não, depois acrescentou-se.

 

JG: Estás então a falar da letra?

 

SM: Estou a dizer a canção. Mas é isso, o processo criativo é sempre um bocado fragmentado, é sempre partes, na maior parte das músicas, até aquelas que parecem ser mais contínuas, tipo fluídas, os elementos vêm de várias ideias e de vários fragmentos. E depois é a questão de, eu não estar a fazer isto para mim, estou a fazer isto para ele [para o João Graça cantar], é difícil perceber que não posso fechar muito. Se eu quisesse fazer para mim, eu sei exatamente a dimensão que eu gostaria, ou a possibilidade de haver possibilidades. Aqui, eu tenho de experimentar, tenho que perceber porque são coisas, ao início, que eu imagino que resultam mas depois não resultam e tenho que mudar, não posso estar a trancar aquilo porque se não fico lixado (risos). Então é manter as coisas um bocado em possibilidade de mudança, e eu depois vou mostrando e experimentando, sendo que algumas coisas têm de ser firmes, porque eles podem não estar a ver por não estar lá na totalidade mas eu sei que pode resultar e então insisto em algumas coisas de outra forma para chegar a esse lado. Outras coisas realmente não resultam, e eu sinto logo que não resultam e por isso têm de se mudar. É um bocado triste (risos)... não sei se respondo à tua pergunta. Cada coisa, e cada música tem um processo muito diferente. Podes perguntar “esta aqui, como fizeste?”, mas passa por juntar ideias que vão sempre surgindo. Algumas surgem só voz, outras surgem só ritmo, outras surgem só melodia de instrumental, outras surgem em todos os elementos. Já tive ideias só de instrumental que depois adiciono a voz, já tive ideias só de ritmo que depois acrescentei instrumental, tipo já surgiram ideias específicas ou definidas de toda a gama de instrumentos ou elementos.

 

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João: A Caravela cheguei a mandar ao grupo da Tuna pelo Whatsapp, para fazermos uma versão. Ninguém pegou na ideia, mas pronto (risos). É muito gira a música.

 

SM: Mas a guitarra foi do Francisco, o guitarrista. Ele tinha uma linha de guitarra e, numa pausa de ensaios, eu experimentei cantar por cima da linha e funcionou, e depois a voz da Benedita era a única que podia…

 

João: Mas nunca pensaste em cantar também?

 

SM: Na banda?

 

João: Sim. As letras que escreves.

 

SM: Neste caso em específico, não sei.

 

JG: Fazes uns acordes às vezes…

 

SM: Mas mais porque é preciso para dar força. Acho que já experimentei coisas com a minha voz e apercebi-me de que na realidade não funciona. Com esta sonoridade não resulta, na minha opinião. Ele [o João Graça] tem um alcance muito maior neste tipo de música, e a música que eu faço para ele cantar ele consegue chegar muito mais às coisas que é preciso para aquele andamento.

 

João: No primeiro álbum, também foi assim? Ou não foste tu a liderar tanto o processo criativo. Eu sei que houve a presença do Pedro de Tróia....

 

JG: Sim, o processo criativo foi bastante diferente.

 

SM: Foi, mas eu reuni-me com o Pedro, e ele tinha uma ideia para a banda, e depois as primeiras músicas nós começámos a experimentar. E depois o Pedro começou a pegar naquilo e a dar ideias para mudar o andamento do instrumental, para ficar um pouco mais como este segundo, e pronto, mudou-se algumas coisas. E depois, a partir de uma ou duas músicas que definimos, o resto do processo foi com o Pedro, eu a ir ter com o Pedro, e imagina, ele tinha um refrão e depois eu surgia com o resto da música, ou então eu surgia com a música e com algumas coisas para acabar e ele acrescentava o que faltava, ou um verso. Era basicamente isto.

 

João: E agora, falando do primeiro álbum, como é que surgiu a ideia da Lena D’Água?.

 

SM: Foi ideia do Pedro.

 

JG: A história é gira: nós tiramos uma fotografia para promover o primeiro single em que fizemos uma montagem e colocamos uma fotografia da Lena D’Água numa moldura, que é uma fotografia em que está a Lena dentro de uma banheira com umas moedas.

 

SM: Não sei se és tu que está a segurar no quadro… Já não me lembro.

 

JG: Pronto, e dentro dessa moldura está uma imagem da Lena D’Água. E não sei qual foi a abordagem dela, se foi comentar, ou se foi uma mensagem ou algo assim, mas ela disse assim “Porque é que está a usar a minha imagem sem autorização?”. E nós ficamos um bocado assustados, mas o Pedro, como um gajo criativo, teve uma boa ideia e pensou em tirar um partido positivo daquilo.

 

João: Mas ela estava mesmo chateada?

 

JG: Eu suponho que era capaz estar um bocadinho (risos).

 

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João: Mas então conseguiram dar a volta?

 

JG: Sim, basicamente o Pedro disse-lhe, a tentar tirar um partido positivo, que haviam coisas que eram verdade, como o Pedro ter sido sempre um grande admirador dela, desde miúdo, e pronto, usámos a imagem de uma forma saudosista (risos) e então acabou por correr tudo, e ela até nos convidou a ir a casa dela… Para nós, é uma história assim meio engraçada. Depois, quando estávamos a gravar o disco, o Pedro convidou-a a participar naquele single do disco, A Volta ao Mundo com a Lena D’Água, e foi giro porque eu estava a gravar e não sabia que ela ia participar, mas depois de repente começo a ouvir a voz dela… Foi uma surpresa engraçada.

 

João: A próxima pergunta é sobre a vossa mudança de estilo do primeiro para o segundo álbum, porque fui buscar uma citação da Comunidade Cultura e Arte em que se dizia a certa altura “os coros colegiais foram a certa altura substituídos por uma faceta de inquietação”. E eu comecei a lembrar-me de outras bandas com o mesmo período de existência que vocês, talvez um pouco mais, e a pensar que o percurso deles é precisamente o contrário. Eles começam mais inquietos com os riffs de guitarra mais pesados, e depois tendem a ficar mais pop, como por exemplo os Capitão Fausto…

 

JG: Pois, nós estamos a tirar as amarras, e eles estão a apertá-las… (risos). Não posso falar pelas outras bandas mas acho que este disco tem uma carga tão diferente porque as nossas vidas foram-se desenvolvendo, o Sebastião criou as músicas mas vamos beber dessa criação e também nos identificamos, porque a verdade é que as nossas amizades continuaram a crescer em conjunto, e há aqui uma resposta a isso, e se calhar é o que eles querem dizer com, como é que eles dizem?

 

João: “Os coros colegiais foram substituídos por uma faceta de inquietação”.

 

JG: Faceta de inquietação… Eu acho que tem a ver com mais tensão, não sei, se calhar mais obscuridade, mais procura de dimensões que ainda não sabemos que existem… Não sei.

 

SM: Só dizer uma coisa, acho que não há nada de obscuro naquele álbum (risos). Não sei qual é a ideia que passa de negativo…

 

João: O design do disco está mais para esse lado obscuro…

 

SM: Pois, se calhar é isso. O que ficou e o que acabou por ser obscuro é a ideia de ser real, ou seja, de ser cru. E realmente as cores iludem de uma forma, e tu não vês aquilo que é, porque estás distraído: como há demasiada informação, não vês a gênese da coisa. E era mais nesse sentido, não tanto a obscuridade.

 

João: Eu ia insistir mais um pouco nesta mudança que claramente se sente. A guitarra está mais presente e mais agressiva, mas, então, não quer dizer que foi propositado ou pensado?

 

SM: Não, isso foi tudo pensado.

 

JG: É, mas é uma libertação daquilo que não se fez ao início.

 

João: Era o que vocês queriam fazer?

 

JG: Não sei se queríamos exatamente isso ao início…

 

João: Agora?

 

JG: Ah, agora sim. Até porque há uma resposta também àquilo que nós percebemos depois de começarmos a dar concertos, porque quando gravámos o [primeiro] disco nunca tínhamos tocado ao vivo. Quado comecámos a tocar ao vivo, percebemos que as músicas tinham uns arranjos muito mais a abrir e divertiamo-nos muito mais assim. Portanto, a resposta foi essa: vamos gravar uma cena assim.

 

SM: Foi também um bocado por conhecimento das qualidades de cada um e de tirar partido das coisas boas e coisas más.

 

JG: O Francisco faz ali uma boa camada de coisas diferentes com a guitarra e queríamos tirar partido disso, daquelas coisas mais vibrantes…

 

João: Ou seja, foi menos desperdício de talento.

 

JG: Não, era uma escolha criativa e agora foi outra.

 

Maria nês: Na mesma linha da outra pergunta, quais são as diferenças que vocês sentem na música portuguesa desde que começaram até agora?

 

JG: Sinto que cresceu imenso. Nós já aparecemos numa segunda vaga, porque a primeira é tipo Amor Fúria e assim, Flor Caveira e tudo mais. E nós já aparecemos inspirados por eles, e entretanto a coisa continuou a crescer muito mais, muito especialmente por causa deles, da Flor Caveira e de Amor Fúria, foram pioneiros nesta nova onda portuguesa, e se não fossem eles provavelmente não estávamos assim aqui. Mas crescemos e acho que está num excelente caminho, está ótima, há imensa oferta. Nos anos 90 só se consumia música estrangeira, e eu acho que neste momento temos condições para ter muito mais música nacional, seja cantada em português ou inglês, tanto faz.

 

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João: Eu já quase só oiço música nacional.

 

SM: A sério?

 

Ana: Ah, mas isso é porque não percebes inglês (risos).

 

João: Tinhas que me envergonhar Ana…

 

Ana: Desculpa (risos).

 

SM: Ah mas estás a falar a sério [em relação a só ouvires música portuguesa]?

 

Ana: Ele está a falar a sério.

 

SM: Mas isso é bom pá, é excelente. Há sempre muito impedimento [em relação à música portuguesa]…

 

João: E preconceito.

 

SM: Impedimento e preconceito, porque acho que há coisas que não consegues controlar neste processo, se calhar ouves música portuguesa e se calhar as pessoas estranham… Eu não oiço muita música portuguesa, por acaso, mas acho que há aí um bom caminho. Mais por causa do público.

 

Ana: Eu queria colocar ainda uma questão, nesta linha, vocês acham que as plataformas de streaming facilitam muito a divulgação de música portuguesa?

 

JG: De forma que facilita ouvir música que se calhar não seria ouvida se não tivesse editora. É ótimo, porque é muito fácil pôr a música online.

 

Ana: E receber benefício por isso, por exemplo vocês podem por no Bandcamp uma música mas não estão a ganhar com isso.

 

JG: Sim, mas acho que há benefício….

 

Ana: Vocês são apologistas de partilhar a música para as pessoas se divertirem a ouvi-la e não tanto para o benefício próprio de fazer dinheiro com isso?

 

JG: Sim, mas quando há benefício é ótimo.

 

SM: Eu acho que a posição aqui é um bocado diferente disso, acho que o objetivo nunca é esse, nós estamos a criar um vácuo para as pessoas que vêm a seguir, porque estamos a escavar cada vez mais a possibilidade disto, mas pá, toda a gente quer dispor o seu produto e toda a gente continua a fazer. As possibilidades estão cada vez mais reduzidas para quem ainda não tem poder, porque quem tem seguidores e tem estrutura consegue tomar mais decisões dessas. Neste momento nós não temos assim tanta liberdade para tomar decisões contra nós, estás a perceber? Mas gosto disso, e uso e desfruto disso, por isso, não pensei o suficiente sobre esse tema (risos).

 

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Ana: Na boa, nós compreendemos.

 

SM: Mas é importante, e acho que conheço as opiniões de diferentes pessoas, e compreendo-as todas, por acaso.

 

Maria Inês: Se vocês pudessem fazer uma colaboração com um artista português com qual seria?

 

JG: Nós já fizemos, com a Lena D’Água (risos).

 

Ana: Tirando a Lena D’Água…

 

João: E o Pedro de Tróia também.

 

JG: Acho que o Sam the Kid… Não sei, estou a gozar (risos). Nunca pensei em mais nenhuma colaboração, pelo menos numa específica, como aconteceu com a Lena.

 

Maria Inês: E internacional?

 

JG: Internacional? Isso é muito mais difícil… Nós cantamos em português…

 

SM: Com o Quim Barreiros (risos).

 

Ana: Se calhar, ele é muito divertido portanto…

 

JG: Nós por acaso nunca pensámos nesse tipo de colaboração, mas poderia acontecer… Não sei é com quem.

 

SM: Mas há essa possibilidade?

 

JG: Não, por acaso não (risos).

 

João: E com outra malta do vosso estilo? Luís Severo, Filipe Sambado, sei lá…

 

Ana: Estás a rotular o estilo agora… Já falámos sobre isso… (risos).

 

João: Pronto, não no vosso estilo mas da vossa onda.

 

JG: Talvez… É muito mais giro misturar coisas completamente diferentes…

 

SM: E não se sabe o que iria resultar, e isso é bom. Muitas parcerias que resultaram foram tipo novo e velho, aquela do Carlos Santana no Maria Maria, são dois miúdos do soul da altura, não faz sentido…

 

JG: Não sei quem canta, sei que é música do Santana. Cenas diferentes como Manuel Cruz e o Carlão resultou muito bem.

 

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João: Ok, última pergunta. Quem faz?

 

Ana: És tu, para acabar em grande.

 

João: Então vá, eu faço metade e tu fazes a outra metade.

 

Ana: Ok, pode ser.

 

João: Qual foi o concerto que mais gostaram de dar até agora? Assim em 5 segundos.

 

JG: Deste ano?

 

João: Não, de sempre.

 

JG: Eu gostei muito do Mexefest. Foi muito fixe.

 

SM: O Bons Sons.

 

JG: Pois, o Bons Sons também foi maluco.

 

Ana: Bem, última parte da questão: qual é o concerto que falta dar?

 

JG: Faltam muitos…

 

Ana: Deste ano falta o do MusicBox não é (risos)?

 

JG: Não sei o que falta…

 

João: Tendo em conta que vocês são independentes e não mainstream, qual é aquele palco?

 

JG: Não há uma relação direta entre independente e mainstream

 

João: Agora tramaram-me.

 

JG: Há muita malta independente que é mainstream, como o Bon Iver por exemplo.

 

SM: Mas cá em Portugal?

 

João: Sim.

 

SM: Um palco em Portugal…

 

JG: Eu percebo o que queres dizer, o caminho é mais difícil, mas nunca é associado. Tem a ver com aquela cena das aventuras.

 

SM: Um dos maiores palcos em que eu já estive, foi há para aí 10 anos e não tenho ideia de ver aquilo, mas foi o do Santiago Alquimista.

 

JG: Antigamente haviam imensos concertos lá, era ao pé do Castelo São Jorge. Acho que agora foi comprado…

 

SM: Mas estás a falar de um festival, ou?

 

João: Não, o que vocês acharem melhor.

 

SM: Não sei… Graça, tu conheces palcos, andas aí a agenciar coisas…

 

João: Altice Arena?

 

Ana: Isso tem uma acústica péssima.

 

JG: Mas há sítios giros…

 

SM: O Coliseu dos Recreios pá, esse palco é incrível.

 

Ana: E tem uma boa acústica.

 

SM: Por acaso tem, é perfeito.

 

João: Fica esse (risos).

 

JG: É difícil fazer estes planos assim, tanto esse como outro qualquer. Coisas grandes.

 

SM: Portanto, segundo o Graça, tudo e nada (risos).

 

JG: Todos e nenhum. Mas falta-nos imenso ir ao sul.

 

Ana: Pois, vocês nunca tocaram no Festival F pois não?

 

JG: Não.

 

Ana: É em Faro, lembrei-me agora assim…

 

JG: Pode ser para o ano, mas mesmo sem ser em Faro, nunca fomos tocar ao sul, sem ser a Évora, foi o mais sul que fomos.

 

João: Falta essa parte.

 

JG: Sim, acho que pode ter uma caraterística cultural, o facto de ainda não termos lá ido. Acho que há menos oferta em geral, menos coisas a acontecer em geral, não é?

 

Ana: É verdade.

 

João: Tens mais centros de cultura de Lisboa para cima.

 

JG: Do que para baixo. Sim, mas falta-nos ir ao sul de Portugal.

 

João: Depois se forem ao Algarve não podem tocar os “Montes da Beira” (risos) porque ninguém vai perceber…

 

SM: Tem que ser as “planícies” (risos).

 

Os entrevistadores: Ana Machado, João Duarte, Maria Inês Opinião

Fotografias: Sara Pacheco

10
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte I)

Jur.nal

Num frio fim de tarde o JUR.NAL, pela mão dos entrevistadores João Duarte (3.º ano da Licenciatura), Maria Inês Opinião (2.º ano da Licenciatura) e Ana Machado (Mestrado em Forense e Arbitragem), com as fotografias da Sara Pacheco (3.º ano da Licenciatura) recebeu na sala 007 Sebastião Macedo e João Graça dos Ciclo Preparatório, banda independente de Lisboa que conta já com vários anos de estrada e dois álbuns (o mais recente, Se é Para Perder Que Seja de Madrugada, de 2018).

 

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Ana: Surgiu-nos uma pergunta muito profunda que é: porque é que é melhor perder de madrugada?

João Graça: Pá, realmente nunca pensei muito sobre isso…

João: Foi letra tua? [Pergunta para o Sebastião Macedo].

Sebastião Macedo: Foi. Mas não significa que saiba (risos). Mas talvez seja porque tens a noite toda a tentar não perder, ou aceitar…

João: Portanto se for para perder é melhor de madrugada porque ainda está meio escuro…

SM: É mais uma coisinha para acrescentar…

João: São aquelas coisas que surgem no processo criativo sem nenhuma razão?

JG: Não, foi simplesmente parte da ideia dele, e ficou aquela frase e usou-se para o título do disco.

João: Bem, nessa linha queríamos saber - e fez agora um ano do lançamento do vosso segundo álbum - qual o balanço que fazem da receção do álbum?

JG: Este foi preparado e promovido de maneira diferente, com menos recursos, foi uma edição de autor. O primeiro tinha sido com a Optimus Discos, depois NOS discos. Depois a coisa ficou de outra forma. Foi um investimento muito grande da parte deles na parte da promoção. E agora fomos nós que fizemos tudo, com ajuda do nosso agente e manager. Portanto, agora tivemos menos impacto. Mas acho que a quem chegou foi bem recebido. Pelo menos percebemos que sim.

 

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João: O público gostou?

JG: Sim. Exatamente.

João: E isso notou-se nos vossos concertos? Ou seja, passaram 5 anos sem voltar, e quando voltaram notou-se?

JG: Sim, sim. Especialmente em Lisboa, que tivemos a casa cheia. Mas fora também: em Coimbra e no Porto o ambiente foi bom. Depois fomos assim à Covilhã, que também foi fixe.

SM: Mas acho que a nossa perceção sobre a receção do disco passa muito por estarmos muito mais confortáveis com aquilo que nós tínhamos feito. Ou, se calhar, mais conscientes. E podemos também desfrutar mais, mas essa é só a nossa perceção. Em termos estatísticos, provavelmente, o último foi [bem-recebido]. A nossa sensação deste é que estava tudo mais sólido e estruturado, e se calhar uma próxima coisa já será mais fluída.

Maria Inês: Tenho uma pergunta específica em relação a uma das músicas, que não sei se foste tu que a escreveste, mas é a “Montes da Beira”. O que é que se está a passar (risos)? Qual é que é a ideia por detrás?

SM: O que é que tu achas, o que te parece? Tens alguma ideia? Alguma coisa que te confunda?

Maria Inês: É assim, à partida, a primeira vez que ouvi essa música fiquei a achar que era literalmente montes da Beira, tipo Beira-Baixa, mas depois fiquei a achar que podia ser um bocado relacionado com a Guerra. E isto pode ser já um stretch, mas porque vocês têm um approach próximo à realidade portuguesa, tenho estas duas teorias.

Ana: Teorias da Conspiração (risos).

SM: Não, essas coisas estão todas lá. Estão é inseridas numa realidade que motivou a fazer aquilo. Mas estão todas lá. Podes ficar com isso. Não vale a pena eu estar a estragar com algo concreto que tenha que não te vai dizer nada. Estão todas na minha ideia, só com outra cara e com mais coisas.

João: Mas qual foi essa realidade? Que motivou a escrever?

SM: Coisas mais de experiência… De vida e de história… De momentos que ficaram na cabeça. E tenho coisas muito concretas, mas a ideia geral não é assim tão concreta e, sei lá, não penso muito depois de ter feito. Lá, é muito claro, tipo sei exatamente o que quero, mas depois fecho, e se for pensar agora provavelmente vou arranjar uma justificação que não é racional e que fará mais sentido agora do que aquilo que estava a tentar dizer sobre o que pensava na altura. Mas acho que estás numa realidade perfeitamente coerente.

 

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João: Ela foi logo para a teoria da Beira Baixa porque é do Fundão…

Maria Inês: Sim.

Ana: Exato (risos).

SM: Seria Beira Alta neste caso… Mas próximo…

Ana: Bem, próxima questão: nós gostaríamos de saber se estão a preparar algum single ou álbum para breve.

JG: Temos aqui umas ideias… Mas ainda estamos a reunir os ingredientes (risos). Ainda não há assim nada concreto.

SM: Por acaso foi proposto pela agente fazermos.

JG: Estamos todos a colaborar…Mas vão haver novidades em breve, não sabemos quão em breve, mas no início do próximo ano.

João: Ou seja, não vão deixar passar tantos anos de intervalo entre projetos.

JG: Exato. Queremos mesmo continuar… Mas é complicado, sendo uma coisa altamente independente, não é tão fácil. Mas pronto, vamos continuar a tentar e com essa persistência crescer também.

João: E este intervalo de 5 anos entre os dois discos. Foi propositado?

JG: Foi um bocado feito do que foi acontecendo nas nossas vidas particulares. Alguns de nós… como o Francisco que foi estudar para fora, tivemos cursos para acabar, trabalhar também. Foram coisas que foram acontecendo, e como em simultâneo, ali naquela fase pós-primeiro disco, não pusemos mãos logo à obra, se calhar perdeu-se um bocado o timing necessário. E pronto, depois foi uma coisa que foi acontecendo e foi o recomeçar o processo, que começou no Verão de 2017. Foi um processo longo, compor e gravar, e o disco só saiu em 2018.

 

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João: Mas vocês no início, quando lançaram o [primeiro] disco tiveram bastante sucesso. Chegaram a atuar num Super Bock. Bem, não nos lembramos porque éramos demasiado novos, isto é tudo fruto de pesquisa, mas queria perguntar se vocês achavam que conseguiriam ser - não sei se é a melhor palavra - profissionais, ou pelo menos viver da banda.

JG: Pá, talvez. Eu tenho esse desejo, pessoalmente. Mas não sei se na altura, mesmo tendo sucesso, se achava que ia ser uma questão de causa-efeito tão óbvia, mas se calhar na altura tínhamos alguma esperança.

SM: Tínhamos mais ilusão que seria possível. Mas não sabíamos nada sobre o que estava entre o possível. Agora temos mais consciência sobre o que está entre o possível ou impossível, portanto com tempo se calhar conseguimos gerir as expectativas de forma mais moderada. Mas se calhar mudou-se um bocado o objetivo, quando és mais novo precipitas-te muito nos objetivos que queres e perdes-te um bocado. E, aqui, estamos a pensar numa coisa de cada vez e consoante o tempo que se arranja, porque já se percebeu que se viesse alguma vez a acontecer não seria de um dia para o outro. Temos de desenvolver outras coisas e perceber o que nos enriquece.

Maria Inês: Vamos voltar a tocar num ponto que tocámos há bocado, que é serem uma banda independente.

JG: Exato, exato.

Maria Inês: Qual é a diferença entre uma banda independente e outra que o não seja, e qual é o porquê de serem uma banda independente.

JG: Porquê? É só uma questão de oportunidade, ou se ninguém quiser dar oportunidade, pelo menos de forma independente podemos sempre construir algo.

 

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João: Mas no início?

JG: Com o primeiro disco? Sim, aí tivemos uma abordagem logo direta com a Optimus. Nós gravámos um single que na altura foi mostrado ao Henrique Amaro, da Antena 3, e ele colocou-o nos Talentos Fnac, e depois a Optimus Discos teve uma abordagem logo no sentido de financiar e editar. Na altura foi aos Pontos Negros e depois a nós, e depois não sei se continuaram a financiar ou não. Mas a grande diferença entre ser independente ou não é o suporte que há. Ter alguém que ajude a colocar o disco disponível, alguém que financie e trabalhe a promoção.

João: Mas por que não houve essa continuidade a partir do primeiro disco?

JG: É assim, nós tomamos a decisão de nem sequer tentar uma editora, porque nós podíamos escolher mostrar o disco que já estava gravado. Só com o disco pronto é que decidimos o que íamos fazer. Podíamos ter ido à Sony, ou à Warner, e se eles quisessem compravam, mas nós achámos que neste momento o melhor seria termos tudo por nossa conta. Tem que se dar muita coisa em troca quando se arranja uma editora. Há muitas decisões que não são tomadas por nós, pelo menos totalmente, portanto foi uma decisão boa porque podemos decidir tudo por nós.

João: E têm-se sentido bem assim?

JG: Sim. Agora, não sabemos se vai ser sempre assim. Até porque às vezes dava jeito outro tipo de suporte. Mas pronto…

Ana: Nós gostávamos de saber quais são as vossas inspirações portuguesas para o vosso estilo musical. Em que é que vocês se inspiram?

SM: Eu não vejo tanto como influências musicais, se calhar inspirações. Mais no sentido de influências que vejo mas não são necessariamente musicais. Mas há vários livros de autores portugueses, ou quadros portugueses…

João: No teu caso em concreto, porque escreves maioritariamente as letras.

SM: Sim, exato, mas também faço muitos instrumentais e é sempre bom essa ideia de não ser bandas, porque é sempre mais com imagens, e é isso que tento induzir-lhes quando eles estão a fazer, só para encaminhar. É mais universal do que dizer só “faz essa banda, só esta linha de guitarra, mais nada”. Se puseres uma imagem, o gajo vai até à imagem e aí encontra a sua linha musical para servir daquilo, e não há nada que vai ficar aí preso.

Ana: E se calhar também não vai ficar muito parecido com uma banda. Se vocês se inspirassem numa banda ou assim já podia ser uma coisa muito parecida.

SM: Mas é um pouco mais descontrolado. Portanto, nestas coisas há sempre alguém que conhece algo que não conheces e vai dizer que estás a copiar isto (risos) mas há mais espaço para fazer.

JG: Nós ficamos a saber mais quem são as nossas influências depois de lançarmos o nosso disco (risos) e sempre por outras pessoas!

João: Exato, são rótulos que as pessoas põem.

Ana: E o Spotify também, com os artistas parecidos (risos).

João: Já agora, posso ver quem é que aparece… Não sei se vocês têm ideia.

JG: Eu, por acaso, no Spotify, acho que é um algoritmo de o que as pessoas gostam de ouvir. Mas é assim, nós conhecemos as críticas: eram relacionadas com coisas como os Heróis do Mar, coisas assim, e acho que quando gravámos era isso que lá estava (risos).

SM: Também dizem Diabo na Cruz… Mas nenhuma dessas bandas está na nossa cabeça. Não ouvimos muito, mas gostamos todos.

João: Estava aqui a tentar encontrar… Valter Lobo, São Pedro, Samuel Úria, Luís Severo, os Pontos Negros… é o que me aparece.

SM: É um bom caminho (risos).

Ana: Próxima pergunta és tu (risos).

João: Está aqui. Era mesmo… Tinha mesmo a ver com isto, eu fui ver uma entrevista vossa ao Público, de 2013. O Público não, o P3, segmento do Público…

JG: Nós demos uma entrevista ao Público?

Ana:  Também não há muitas entrevistas vossas portanto… Chegamos lá facilmente (risos)

JG: Sim, na altura tínhamos alguém que tratava disto por nós.

João: Se calhar não é uma entrevista, é tipo uma chamada deles para o vosso álbum que tinha saído. Mas eles descrevem-vos como “grupo coral, pop especial rural chique delicodoce”.

 

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SM: Por acaso essa descrição foi ponderada (risos).

João: Ponderada como assim?

JG: Porque não foi o Público que inventou isso… Isso foi mesmo algo que partiu de nós.

SM: Quando surgiu a banda…

João: Mas, em jeito de brincadeira?

SM: Claro (risos).

Ana: Não, é muito a sério (risos)

João: Ou vocês formaram a banda e decidiram “vamos tocar música em coral pop especial delicodoce?” (risos).

JG: Não sei se vocês são do tempo de páginas de MySpace.

Ana: Sim, eu sou (risos). Sou, sou.

Inês: Eu já não.

JG: Quando era mais puto tive uma banda e nós, como todas as bandas e como erámos putos fazíamos páginas de MySpace. E, pá, é sempre a guerra de pôr o género na descrição (risos), mais perto daquilo que gostávamos que fosse, mas que não vai ser necessariamente.

 

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SM: Ou então só punhas cenas aleatórias.

JG: Mas, então, isto é uma brincadeira que suponho eu que tenha vindo um bocado nesse sentido. Uma desidentificação quase daquilo que poderá ser qualquer música.

SM: Vocês têm alguma banda?

João: Não, não. Temos a tuna (risos).

SM: Olha, fixe.

João: Acaba por ser (risos) mas então, ainda melhor: partiu de vocês esta brincadeira. Podem explicar um bocadinho? Ou é ironia completa?

Ana: Pelo menos o chique está lá.

JG: Bem, “grupo coral” porque as nossas músicas têm alguns arranjos assim de harmonias com vozes, portanto pode fazer algum sentido. “Pop” porque não é pop (risos). “Especial” porque há quem diga que sim (risos).

SM: Acho que “especial” era pela conotação negativa até (risos).

JG: “Pop especial”... Se calhar queria dizer pop espacial… (risos). Pá, eu “rural chique delicodoce” acho que já é só mesmo [invenção].

João: O rural eu vejo na “Casa da Lamarosa”.

JG: Nem mais, a imagem inicial que nós tínhamos, em que estávamos mais focados, era a nossa quinta de férias. Que, atenção, é só uma casa de família de um de nós.

João: Do José?

JG: Exato.

João: E foram lá as vindimas este ano, ou não foi na Lamarosa?

JG: Não foi lá, foi na Beira Alta.

João: Nos montes da Beira (risos).

JG: Exatamente.

João: Eu lembro-me dessa publicação… E o “delicodoce”?

JG: É a suavidade…

SM: Isso eu vejo, é que a voz do João é uma voz muito delicada e doce… (risos). Mas também porque foi sempre o objetivo haver uma espécie de contraste, era algo que era sempre comum na música que tocamos.

João: E as vozes da Benedita e da Constança também são delicodoces… Passando à próxima… Esta é uma pergunta especial (risos).

 

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Maria Inês: Nós queríamos saber o porquê do visual mais retro (risos).

JG: O nome também é retro… (risos).

SM: Em que consiste um visual retro?

Ana: Roupas dos avós (risos).

Maria Inês: Sim, basicamente. Abrimos o armário dos avós e é o que temos lá dentro…

João: E podíamos fazer aqui uma sondagem de nós os quatro para ver quem é que sabe o que era um “Ciclo Preparatório”. Sabem o que era o ciclo preparatório?

Ana: Sim… (risos).

João: Já não é do nosso tempo.

JG: Nem do nosso (risos).

Inês: É a escola primária.

João: Afinal sabemos…

JG: Sim, eu acho que era a primária. Ou será quinto e sexto [ano de escolaridade]?

Maria Inês: Pois, o preparatório se calhar era o quinto e sexto.

João: Faz mais sentido, eu acho que é.

Maria Inês: Se calhar até ia até ao 9º.

Ana: Pronto, temos uma discussão aqui…

João: Eu acho que era o atual segundo ciclo. E podemos aproveitar para fazer a pergunta clássica do porquê [do nome].

JG: Pois, porque está tudo um bocado na mesma questão, o porquê do nome e do visual. Acho que tem tudo a ver com a valorização do que era bom no passado.

João: Heróis do Mar… (risos). Mas numa época mais fácil de fazer isso… Não um pós 25 de Abril.

SM: Sem conflito… Mas essa ideia das roupas e dessa imagem toda era porque há uma grande dificuldade das bandas em surgirem. Quer dizer, hoje em dia é mais fácil fazer com que surjam, mas a imagem é sempre uma coisa que é muito igual, portanto é uma forma de destacar. Foi pensado na altura, maioritariamente não por nós… Mas hoje em dia já começa a diluir, porque a partir do momento em que começas um caminho, apesar de nós se calhar não nos identificarmos necessariamente com aquela imagem, temos coisas que usávamos, mas nunca era…

João: Não são betos (risos)?

SM: Não somos agrobetos… (risos).

JG: Agro não porque nenhum de nós é agricultor (risos).

João: Vocês são todos de Lisboa?

SM: Sim.

João: Então são só betos. Ou não são betos?

JG: É assim, isso é uma construção social (risos) meio estranha. O que é que se pode dizer…

João: Pronto, são normais.

JG: Sim, somos pessoas normais, como tantas outras.

SM: Há esta falta de definição, mesmo da nossa parte, porque achamos bem antecipar uma definição que se calhar até nos protege, porque no fundo as pessoas que estão a avaliar aquilo não estão a avaliar-nos.

João: Há uma pequena guerra num vídeo de Youtube, no “Lena Del Rey”, onde o pessoal nos comentários… Não sei se já viram.

JG: Vi no outro dia um comentário que era: “Ei tanto beto” (risos).

 

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João: Portanto isso começou uma guerra de comentários sobre se são betos ou não… Isso tem muita piada (risos).

JG: Se somos ou não, bem eu sei o que as pessoas dizem sobre o que é ser beto, agora, não acho que isso seja uma questão sequer (risos), percebem? Se a ideia é que os nossos pais têm vários irmãos e que temos muitos primos (risos) e se as nossas famílias são grandes… Se for isso então sim, qualquer um de nós vem de famílias compridas.

João: Ok, mas o pessoal comenta a personagem que vocês criam na banda, não vocês próprios, através da roupa e tudo mais.

Ana: Também porque não os conhecem, não é?

SM: Os nossos vídeos são iguais a toda a gente, não percebo… É o que quiserem (risos).

JG: Quando éramos pequeninos íamos à missa, penteadinhos com as nossas mães. Se isso é ser betinho então acabamos por ser… (risos). Crescemos assim. Mas não é o que nos define.

João: A zona de Lisboa a que vocês pertencem também influencia isso.

Maria Inês: A escola…

João: Se vocês forem de Belém…

Ana: Do Restelo…

JG: Não, nós somos ali da Estrela.

Ana: Ah também, pronto (risos).

JG: Também pode ser… Estrela, Lapa… (risos).  Mas há coisas que são mais importantes, como a forma de estar no dia-a-dia, as atitudes que se tem. Acho que isso é que importa.

 

(Continua...)

03
Dez19

Slow J no Coliseu de Lisboa: a afirmação de um colosso

Jur.nal

Há magias que nunca vêm sós. É o ciclo da vida, disse Slow J, natural da Música. Há presenças que nunca estão sós. O meu avô faleceu, disse João Batista, natural de Setúbal. Confissões sem receio de quebrar qualquer magia. Deu o nome do avô recém-falecido ao filho recém-nascido. Assim continua o ciclo. Assim perpetua a magia. Assim, João ainda procura o caminho.

 

Esta confissão veio no palco do Coliseu dos Recreios, palco emblemático no coração de Lisboa, ornamentado sob a marca “Super Bock Em Stock”. Talvez não esgotado, mas a mim parecia-me inteiro, total, num palco onde já fui feliz, graças ao concerto de Sam the Kid em Outubro onde comemorou 20 anos de carreira e onde o Coliseu, esgotado nesse dia, também foi feliz e inteiro. Um mês e meio depois repetiu-se. Vejo aqui uma simbologia, uma espécie de passagem de testemunho, como se o facto de Sam ter actuado ali a comemorar o passado e Slow a comemorar o presente desenhasse magia na Música. Como se fosse Hereditário apenas de se escutar.

 

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Sendo pai de família mas também sonhando, Slow J definitivamente agigantou-se naquela noite. “O Nascimento de um Colosso” foi o título duma peça de Alexandre Ribeiro na publicação “Rimas e Batidas”, aquando o concerto de lançamento do segundo álbum "The Art of Slowing Down". Com qualquer autoridade que me possa ser atribuída, confirmo: o colosso vive, maior e mais mágico do que nunca.

 

Entrando com “Também Sonhar”, seguiu-se um dos seus emblemáticos sorrisos, tão puro e genuíno como se o mundo fosse um paraíso, como se nós, público, enérgico e apaixonado público, fossemos os habitantes do seu pedaço de terra e magia. A segunda canção foi “FAM”, com uma entrada surpresa de Papillon, que detém um verso neste som, e, de repente, os donos daquele mundo eram dois, sem qualquer problema, sem qualquer dúvida, eram eles e nós, ou só nós, todos, de olhos rendidos em poesia dançante.

 

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No meio desta apaixonante energia, decerto perdoar-me-ão por não me lembrar de todas as canções, pelo menos não da sua sequência, enquanto Slow J saltita pelo seu fantástico catálogo. O último álbum dele, obviamente, não faltou na sua totalidade, ou não fosse este uma espécie de concerto de apresentação do álbum (pelo menos foi assim publicitado, embora Slow J já tenha realizado outros concertos no entretanto). Mas outras canções poderosas não faltaram, sobretudo do seu segundo álbum, desde a “Comida”, com o público do Coliseu mágico a degustar cada uma das barras pensativas e assertivas daquela canção sem refrão, fazendo ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez com o Figo, até à “Às Vezes”, onde a ausência de Nerve no palco (a rapariga ao meu lado comentava que seria incrível se Nerve entrasse, mas não entrou, e isso não importou) não significou a ausência da sua magia no público. A “Muros”, de todas as canções, libertou-me as primeiras lágrimas; a “Serenata” trouxe ainda mais, dum público romanticamente rendido em lágrimas de corações partidos, porquanto o amor seja o ar que ali se respirou.


Na “Lágrimas”, contudo, veio aquele que foi, provavelmente, o momento mais mágico da noite. Do nada, os assistentes de palco trazem uma plataforma. Três cadeiras, um microfone, duas guitarras, uma acústica e outra portuguesa. Slow chama mais habitantes para o seu mundo (perdoem-me, novamente, por não me recordar dos nomes). Um seu ex-professor de música e um amigo produtor de longa data. O primeiro na guitarra portuguesa, maravilhosamente dedilhando lágrimas dos acordes, e o segundo na guitarra acústica, fazendo o ritmo angustiante e estranhamente reconfortante que qualquer choro tem. Só as paredes do Coliseu agora sabem o quão ecoaram "lágrimas de quem se ama" noite fora. Não dá para repetir, não imagino outro palco onde tal possa ser feito. Se lágrimas tivéssemos, ou nos olhos ou na alma, ali ficaram, deitadas no chão, libertas, abraçadas pelo pequeno mas majestoso solo de guitarra portuguesa do ex-professor de música de João Batista.

 

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Em “Mea Culpa” houve o momento mais insano, com aquele drop do beat a despertar toda a energia que ainda não havia sido exposta pelo público. Foi hora de levantar do colchão, de assistirmos a mais um sorriso de João (infinitos houveram), de escutarmos a voz intensa e rasgada e ao timbre único e acolhedor de Slow, e de prosseguirmos por mais clássicos como “Fome” (outro momento de libertação intensa de energia), “Cristalina” (numa performance sempre íntima e angelical de quem pede socorro e não encontrou o seu caminho), “Water” (onde Richie Campbell também faz sentir a sua magia despeito da sua ausência física, olha por mim mamã) ou “Vida Boa” (a terminar o concerto fazendo o público entoar que quer uma vida boa, sem se aperceberem, talvez, que são estes momentos que nos dão essa vida).


Na “Silêncio” ficou registada o momento mais insólito, que só Slow J conseguiria transformar num momento incrível. A meio da canção, o microfone começa a falhar intermitentemente, e o instrumental também salta umas partes. Antes de conseguir acabar o seu verso, que surge antes do último refrão, de repente o instrumental começa a tocar o playback do refrão, totalmente fora de tempo. Slow J, sempre olhando para a equipa técnica do lado do palco, aproxima-se deles, e assinala para parar. Sorriu, só queria sorrir. Não era suposto acontecer, é uma quebra de magia, um percalço na história que ali se fazia. Mas não era. Da sua autoridade, autoridade de amigo como quem é dono do mundo mas não cobra imposto a ninguém por existir, saído dum sorriso, pergunta ao público "vamos cantar outra vez?". Escusado será dizer que o público já estava a bater palmas, para não permitir a morte da magia; e escusado será dizer que a segunda vez foi ainda mais íntima, incrível e ressonante que a primeira. Agora, nada falhou tecnicamente. Porque nada falhou naquela noite de Lisboa rendida.

 

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Se depois desta vida vier a outra, em todas ficou eternizado a magia que João Batista carrega e que Slow J transmite. Caro leitor, não pense que isto são personas diferentes, que entre canções é-se João e nelas é-se Slow. É precisamente esta a magia: são apenas etiquetas dum mundo que não se separa, e recebe o seu público como abraços há muito suplicados. Foi como se encontrássemos o caminho nas cordas vocais de João, nos grafismos inteligentes no ecrã ao fundo do palco, no espectáculo de luzes surpreendentemente adequado a cada interpretação. Foi um sonho durante o espectáculo, durante a arte. Depois disso, o público saiu como entrou: o público continuou, também, a sonhar.

Em “Arte”, cantaste que querias ser como os grandes cantores. Conseguiste.

 

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Duarte Sales

(Licenciado em Finanças, Mestre em Gestão de Sistemas de Informação, a trabalhar no INE)

 

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