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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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13
Nov19

Entrevistas #6 - Benjamim

Jur.nal

“(…) escritor de canções, músico e produtor. Em 2015 lançou 'Auto Rádio' e em 2017 gravou '1986', disco a meias com o músico britânico Barnaby Keen.” É o que se começa por ler na biografia da página de Facebook de Benjamim, que, de resto, deu que falar nesta entrevista. A Micaela Ribeiro e o André Certã, ambos alunos do 3.º ano da Licenciatura, partiram para a conversa com este multifacetado artista português.

 

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André - Quem é o Benjamim?

Benjamim – O Benjamim é uma personagem que eu criei para escrever canções, basicamente. Vem originalmente do Walter Benjamin, que era outra personagem que eu criei para fazer canções em inglês. Mas depois passei a escrever em português e achei que o nome já não fazia sentido e fiquei só com o ‘Benjamim’. Acaba sempre por haver uma vontade de escapar ao nome [Luís Nunes] (risos).

André – Sendo nós alunos universitários gostávamos de conhecer a tua experiência universitária.

B – Comecei por estudar Antropologia na NOVA. Fui para lá em 2004 e saí em 2008. Foi uma boa experiência, acabei o curso. Depois, tive uma experiência em Londres. Estudei Engenharia de Som. Portanto, tenho dois currículos académicos bastante diferentes.

Micaela – De onde surgiu Antropologia?

B – Honestamente, veio de não ter média para Direito (risos). Acabou por ser engraçado porque apesar de ter Direito como primeira opção nunca quis fazer Direito. Era uma obrigação moral que eu sentia pelas expectativas familiares. Mas não entrei, e ainda bem, porque se tivesse entrado não teria acabado o curso porque é demasiado exigente para um gajo como eu que passou a Faculdade a fazer música.

Micaela – Consideras que o ambiente da FCSH te ajudou a perceber que o caminho era a música?

B – Foi claramente um ambiente mais favorável porque existiam mais pessoas ligadas às artes. Há malta ligada às artes em todas as Faculdades, mas na FCSH… eu conheci o B Fachada na FCSH! Foi absolutamente determinante no início da minha carreira musical.

 

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André – Focando-nos agora na tua música, e recuperando teu último álbum: como foi gravar o 1986 com o Barnaby Keen e todo o percurso que se seguiu com ele?

B – Isso surgiu porque eu conheço o Barnaby de Inglaterra já de alguns anos. Cruzámo-nos quando estava lá a trabalhar e acabei por fazer som para a banda dele. Ele percebeu que eu era português – ele viveu no Brasil e fala português, e é fanático por música brasileira. Criámos uma amizade baseada nisso. Ele é um grande músico. Houve uma vez em que veio a Portugal e fizemos uma jam juntos e aquilo estava a soar bem. Surgiu-nos a ideia: ‘bora fazer um conjunto, e fazemos um álbum em que eu posso cantar músicas tuas e tu músicas minhas. Ele veio duas vezes a Lisboa, depois, e gravámos. Foi incrível andar com ele na estrada.

Micaela – Em relação ao teu primeiro álbum, o Auto Rádio, que pessoalmente é o meu preferido, tem a canção Exílio. De onde veio? Parece-me uma ode de agradecimento a Lisboa.

B – Não é bem um agradecimento. Surgiu numa altura em que eu estava chateado com Lisboa- Foi quando voltei para Portugal, em 2013, na altura da crise, em que toda a gente dizia “não voltes, aqui não há nada”. Nasceu um pouco de eu andar por Lisboa à noite e pensar nos prédios com centenas de anos que resistiram a crises bem piores e continuam de pé. É essa ideia de que a vida continua e teres de te agarrar à cidade como coisa constante na tua vida.

André – Com o álbum 1986, a Terra Firme tornou-se a tua canção mais famosa. Como te sentes em relação a isso: tinha-lo previsto?

B – Não (risos). Não tinha previsto nada disso. Nunca prevejo esse tipo de coisas. Imagino sempre que vai correr mal, e depois logo se vê se corre bem. Foi surpreendente, e obviamente fiquei muito feliz. Na verdade, era uma canção na qual eu acreditava bastante, e acabou por ser uma grande luta chegar a ela tal qual ficou no disco, houve até momentos em que me disseram que a devia tirar. Foi uma canção que teve um parto algo difícil e, portanto, foi surpreendente ver o quanto cresceu e o impacto que teve. Fui completamente apanhado de surpresa. É uma canção que, ao contrário de outras, eu não me farto de tocar, e, portanto, fico contente que tenha ressoado nas pessoas.

André – Mas, ao contrário de outras canções, Terra Firme tem um cariz diferente, mais político.

B – Sim. Não lhe chamaria político, mas mais humanista em consciência. Não é uma canção política nem pretendo ter intervenção política. Estava no sofá, a assistir ao que se passava no mundo (na altura, havia mais ecos do Mediterrâneo), e tinha um pouco aquele sentimento de impotência. A única coisa que podia fazer era desabafar [através da música].

André – E o resto do álbum tem alguma back story?

B – Tem referências ao mar, que eu acho que têm a ver comigo. Não foi propositado. As minhas quatro canções deste último álbum são todas diferentes. Não tentámos que as canções tivessem uma ligação entre elas, porque isso era muito difícil de fazer e talvez nem desse grande resultado. A nossa ideia foi conseguir uni-las através da nossa energia musical. Mas são histórias diferentes.

 

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Micaela – Há muitos artistas que dizem que os pontos maus das suas vidas são o que lhes dá mais criatividade. Revês-te nisso?

B – Não quero acreditar nisso, espero que não seja verdade (risos).

Micaela – Se tivesses de escolher uma das músicas de todas as que já compuseste para te caracterizar enquanto músico qual seria?

B – Neste momento, é a Terra Firme que mais me representa. É uma canção na qual me revejo muito. Se pensar na Os Teus Passos ou na Tarrafal, os meus primeiros singles, e que lançaram o projeto, são canções nas quais eu me revejo pouco, mas foram muito importantes quando comecei a tocar. Também já estou um pouco farto: fiz 200 concertos com aquelas músicas, a certa altura começas a ganhar aversão… e há canções que sobrevivem melhor [Terra Firme]. Não me chateia nada que as pessoas me conheçam só por essa canção; seria pior se só me conhecessem pela Os Teus Passos ou pela Tarrafal.

Micaela – Que artista português podes dizer que, neste momento, está na tua playlist?

B – Olha, o Luís Severo está na minha playlist, o Filipe Sambado também. O B Fachada obviamente. Mas estou a esquecer-me de nomes…

André – O B Fachada é quase um ícone. Também na entrevista ao Luís Severo se falou dele.

B – Ele foi um grande precursor. Em 2008, com a Flor Caveira, quando aparece ele, o [Samuel] Úria, essa malta toda…, o B Fachada obviamente teve muito destaque na altura, e era um gajo que ocupava um território um bocado diferente porque não era religioso. De entre aquela malta toda ele apelou a públicos um pouco diferentes. Foi um pouco mais longe, na altura, do que os outros. Não esquecendo, obviamente, o Úria que hoje tem uma grande carreira e é um gajo que eu ouço bastante. E ando a ouvir muito Sam The Kid! [Ainda sobre a pergunta anterior].

André - Recentemente, quando aconteceu o triste falecimento do Daniel Johnston, puseste um vídeo no teu instagram de uma cover tua da True Love Will Find You In the End.

B – Não é uma grande cover (risos). Senti um bocado de vergonha com essa gravação.

André – Eu, pessoalmente, gostei. E também gosto do Johnston. Ele teve alguma influência na tua música?

B – Sim, claro. Quando eu o descobri foi um pouco uma revelação. Aquele tipo de som lo-fi… eu já tenho 33, portanto sou daquela geração que bebeu muito do indie rock dos anos 90 americano (Yo La Tengo, Pixies, Nirvana, Smashing Pumpkins, …) e, obviamente, nesse pacote também há Daniel Johnston. Aquela maneira de cantar deixa-te desconfortável, tu não percebes se gostas ou se não gostas – aquele som mais cru. Mais depois acabas por te apaixonar. Eu gosto mesmo muito da música dele.

 

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André – Tu colaboras com outros músicos portugueses, nomeadamente a Lena D’Água. Donde surgiu esta colaboração, tendo em conta que se trata já de um ícone da música portuguesa?

B – Eu conheci a Lena porque a tinha posto nas minhas influências no meu perfil de Facebook, e ela, uma vez, ouviu uma música minha na rádio e foi investigar no Facebook quem era eu. Deu de caras com a minha página no Facebook e viu lá o nome dela… mandou-me mensagem e começámos a falar. Depois, veio fazer uma colaboração comigo, na última vez que toquei no CCB, há 3 anos. , e eu sempre tive a cena de querer trabalhar um dia com ela. Entretanto, mais amigos meus também andavam a namorar essa ideia e acabaram por também tocar com ela. A primeira canção que gravámos com a Lena foi no Festival da Canção, há 3 anos. Aí, fomos a banda de suporte dela e fomos nós que gravámos a canção dela. Fomos à final, ganhou o Salvador [Sobral]. Foi aí que tudo começou – estivemos 2 anos a gravar o disco dela [Desalmadamente, 2019].

André – Quanto à Joana Espadinha, têm juntos a canção Leva-me a Dançar. De onde surgiu essa tua colaboração?

B – Eu conhecia a Joana apenas de “Olá, tudo bem?”. Conhecia, na altura, o João Firmino, namorado dela, vocalista dos Cassete Pirata. Houve um dia em que ela me mandou mensagem a convidar-me para um café dizendo que gostava muito de falar comigo, e surgiu a ideia. A história é mais comprida que esta, mas basicamente foi o que aconteceu. Sendo que desde este momento até começarmos a trabalhar demorou cerca de 1 ano. Houve uma série de coisas que tivemos de harmonizar.

André – Planeias algum álbum em breve? Qual o futuro do Benjamim?

B – Eu estive 3 anos a produzir montes de discos (Joana Espadinha, Cassete Pirata, Flak, Lena D’Água, e agora João Pedro Pais, muito recentemente), foram muitas coisas e foi muito duro em termos de trabalho. Cada disco são meses em que estás focado naquilo. É um trabalho física e psicologicamente muito exigente. E agora cheguei à fase em que parei completamente de trabalhar para outros e estou só focado em fazer o meu disco e fazer canções (desde o verão de 2018). Em 2020, seguramente, terá de haver um disco. Se não, estou tramado (risos).

 

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Micaela – Vais manter a vibe dos discos anteriores ou podemos esperar algo de diferente?

B – É diferente. Não há guitarras, quase. É quase tudo ao piano, sintetizadores, caixas de ritmo, bateria, baixo… Estou um pouco a explorar o universo. Eu sempre gostei de música diferente, e odeio que a coisa fique ali sempre naquele rock. Portanto, acho que o disco vai ser bastante diferente do que foram os anteriores. Quando acabei de gravar o 1986 comecei a gravar um disco sozinho, um disco muito eletrónico, que se chama Berlengas e que já está quase todo gravado, mas ainda não está terminado. É uma espécie de disco perdido. Então, nós, no CCB [próximo concerto], também vamos tocar uma malha desse disco. No CCB acho que se vai perceber a onda do novo disco, mas não completamente (há canções que “puxam mesmo a corda” do ponto de vista sónico e que no CCB não conseguimos explorar).

André – A nível internacional, o que tens na tua playlist?

B – Eu ouço muita música, e demoro muito tempo a ouvir discos. Sou crente de que 85% das coisas que saem num ano não são assim tão boas. Hoje em dia há tanta informação, tanta música, tanta coisa apresentada como grandes projetos que é muito difícil seguir. Então, tento agarrar-me às coisas que ficam. Acho que o disco que tenho curtido mais este ano é o último da Sharon von Etten. Fiquei coladíssimo ao disco, é um dos que me marcou muito este ano. Depois, também ouço muitas coisas antigas: anos 60, 70…

André – E Benjamim consulta o Spotify… (risos).

B – Olha, tenho aqui Filipe Sambado, Elliot Smith, Purple Mountains, Glockenwise, Bob Marley, Little Joy, a All Things Must Pass do George Harrison, Capicua, Jungle, Beck, Panda Bear, Barnaby Keen, Primeira Dama, Beatles…

 

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Micaela – Houve algum momento-chave em que tu pensaste, quando eras novo, que era mesmo isto que querias fazer para a vida?

B – Foi gradual. Eu comecei por querer ser polícia, piloto de aviões, astronauta, inventor (esta foi uma cena que durou muito tempo)… A determinada altura, quando já estudava música, e quando comecei a tocar e a experimentar gravar coisas, comecei a ficar obcecado. Em 1997, tinha 11 anos, comprei uma revista de gravação numa loja de discos, que custava 990 escudos, portanto quase 5 euros. Comprei essa revista e lembro-me de ficar completamente transtornado com aquilo, no bom e no mau sentido. Lia aquilo de trás para a frente. Se calhar foi mesmo esse o momento em que percebi que queria fazer música na minha vida.

 

Os entrevistadores: André Certã, Micaela Ribeiro

Fotografias: Petra Freire

 

 

30
Out19

IN MEMORIAM - Diogo Freitas do Amaral [1941 — 2019]

Jur.nal

No passado dia 3 de Outubro de 2019, deixou-nos o Senhor Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral. Tendo-me sido pedido, pelos estudantes da Nova Direito, um testemunho na qualidade de ex-aluno e de ex-colaborador, presto-o sem hesitar, embora não sem contida emoção.

 

Vem, desde logo, à memória a aura carismática do grand Seigneur Professor-Pedagogo. Inteira e apaixonadamente doado à tarefa da renovação do estudo do Direito, as suas aulas ao 1.º ano do curso jurídico da Nova, mais problemáticas do que dogmáticas, produziam vivíssima impressão nos estudantes: relembro, por exemplo, envolventes discussões sobre a questão da existência de um «estado de natureza», com o Professor a desafiar os alunos a terçarem armas sob as antagónicas bandeiras da dupla Aristóteles e S. Tomás ou dos modernos Hobbes, Locke e Rousseau, com as suas distintas antropologias; ou vibrantes desenvolvimentos doutrinais acerca dos elementos essenciais do conceito de Direito, designadamente sobre o lugar aí da coacção; ou a apologia, não sem uma sugestiva invocação de Antígona, da necessidade de um direito anterior e superior ao direito posto, i.é., do Direito Natural.

 

Recordo ainda o académico que, sem cessar, procurou fazer compreender, a um amplo público, a essência do fenómeno político e os grandes momentos, figuras, ideias e ideais do pensamento político ocidental (Introdução à Política – 2014; História do Pensamento Político Ocidental – 2012). E que quis legar à posteridade um trabalho reflexivo sobre a sua concreta existência de homem político, de pai-fundador de um novo Regime, que queria mais inclusivo do que as ordens políticas nacionais que supostamente o prefiguraram ou do que as hipotéticas alternativas de pendor não democrático-ocidental (ver memórias políticas em três volumes). Trabalho esse acompanhado pela consideração e ponderação da(s) experiência(s) de homens políticos seus contemporâneos (Glória e Tragédia de Gorbatchov – 2012).

 

Penso também no seu continuado e persistente esforço de edificação, em perspetiva jurídico-política e jurídico-pública, de um olhar sobre o percurso histórico da comunidade política portuguesa e as marcas nele deixadas pelos «grandes homens de Estado», designadamente os que entendeu terem contribuído para elevar Portugal aos mais altos patamares de civilização e de desenvolvimento integral. O que deu origem à emergência de um notável corpus de estudos – Em que Momento se Tornou Portugal um País Independente (1996); D. Afonso Henriques: uma biografia (2000 - 1.ª edição); D. Manuel I e a Construção do Estado Moderno em Portugal (2003), Do Absolutismo ao Liberalismo: as Reformas de Mouzinho da Silveira (2008); D. Afonso III: um grande homem de Estado (2015). Enfim, todo um trajecto que terá culminado num dos seus últimos livros, contendo uma leitura abrangente da História Pátria: Da Lusitânia a Portugal (2017).

 

Agora, não mais será possível continuar o (meta-)diálogo sobre o sentido e a viabilidade de Portugal na Europa e no Mundo, o qual tem acompanhado a contemporaneidade portuguesa (Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, António Sérgio, Franco Nogueira…), sem considerar a visão do saudoso Professor. Destacaria, muito em especial, uma lição contida nas derradeiras páginas de Da Lusitânia a Portugal: o Portugal pós-imperial será viável enquanto País independente («independência possível na interdependência necessária», citando o seu bem conhecido Giscard d'Estaing), se, para além da radicação europeia, buscar também apoio num pilar extra-europeu «de segurança e contrapeso».

 

Os referidos interesses histórico-políticos terão, em parte, justificado a última etapa do ensino de Freitas do Amaral, agora fortemente dedicada à história das instituições, à história das instituições portuguesas e à história do Estado e do Direito Público (no Direito Administrativo Especial, centralidade do estudo dos tipos históricos de Estado). Foi um privilégio tê-lo presenciado de perto: a forma intelectual não havia sido fundamentalmente beliscada pelo tempo.

 

«Last, but not least» (num tour de phrase característico de Diogo Freitas do Amaral), porque o saudoso Mestre não escondia mas, pelo contrário, sempre queria tornar transparente a “opção fundamental” que o guiava, não poderia, ainda, deixar de evocar aqui o Cristão que, na vida pessoal e na vida pública, sempre procurou – e confessou – inspirar-se «na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo». Requiescat in pace.

 

Pedro Velez

(Professor na NOVA Direito. Aluno, orientando e co-regente de várias disciplinas com o Prof. Diogo Freitas do Amaral)

 

24
Jun19

Anónimos #9

Jur.nal

 

O conceito de autobiografia é ridículo

A autoexibição grandiosa de momentos descomplicados

Polvilhada com um sarcástico demonstrar dos amores

Porquê sempre os amores?

Como se a vida a nada mais se resumisse senão a esse tal contacto efémero

Efémero real, longevidade conceito desconhecido ao povo

Então reúnem-se à volta de páginas fictícias

Esperando uma história autêntica

Num constante estado voyeurista

Que nada mais demonstra senão a podridão

Ai raça humana, o que fizestes de ti mesma...

O que fizestes de mim...

Corrompes as vidas antes de elas sequer terem uma chance

 

21
Jun19

Entrevistas #5 - Luís Severo (Parte II)

Jur.nal

Tomás e André - Olhando para a canção Cheguei Bem, a penúltima do álbum, tu falas de uma viagem, há uma “terra linda tão verde”. É esse campo de que falas?

 

LS - Essa canção é sobre andar na estrada. É sobre o que eu vos falava: aquele sentimento de andar na estrada e de nunca poder ficar muito tempo. Já percebi que várias pessoas vivem longe da sua terra natal, ou vivem longe do que chamam casa, e se identificam nesse sentido. É uma música de uma pessoa deslocada, mas, na verdade, não foi com esse sentido que foi composta. Mas acho interessante que as pessoas lhe deem essa aceção.

 

Tomás - Até acho que a maioria dos nossos leitores – como estamos na Faculdade – são deslocados e acabam sempre por sentir isso.

 

LS - É. E depois voltas a casa e acaba por parecer sempre pouco tempo… é uma música que fala um pouco disso. E depois tem aquela parte C que é suposto ser “quando eu já cheguei a casa”. Mas acho que isso não se percebe bem.

 

Tomás - Nós – entrevistadores – acabamos por não ser tão tocados por esta canção porque somos de Lisboa. Mas conhecemos pessoas que, realmente, têm a sua casa longe. Lisboa não é a casa deles; é apenas o sítio onde estão a estudar.

 

André - Há outro exemplo de canção que afeta um pouco os estudantes deslocados. Uma canção originalmente do António Variações, depois gravada pelos Humanos, a Adeus Que Me Vou Embora. Essa canção acaba por ter o mesmo efeito: é quase um regresso a casa.

 

LS - Sim, sendo que essa música é muito mais triste… mas é uma canção bastante bonita. É mais espontânea. Gosto muito dessa canção e o Camané canta-a muito bem. Aliás, o Camané é top.

 

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Tomás - Relativamente às canções do teu álbum, falta-nos apenas a última [Quem Me Espera]. O que é que está “à tua espera”?

 

LS - Acho que, nessa canção, se percebe que é uma espera por uma pessoa que já não está viva.

 

Sara - Qual é a tua música preferida deste álbum?

 

LS - , não sei. Boa pergunta. Acho que é com a distância que eu percebo melhor qual é. No Severo [álbum anterior], acho que a Amor e Verdade é a música melhor. As outras são piores, mas essa acho que é fixe. Depois, no Cara d’Anjo, a Cara d’Anjo, a Lábios de Vinho e a Escorpião são as melhores. São as mais bem feitas e as mais especiais. Neste disco, se calhar conseguirei responder-te melhor daqui a quatro meses. Levo tempo a perceber essas distâncias.

 

Sara - O momento em que percebes é sempre o mesmo?

 

LS - Sim, imagina: há canções que eu acho que cumprem bem a função que têm. A Boa Companhia é uma canção que cumpre bem a função de um single, mas não é a minha favorita. Acho que a pior canção do Severo é, claramente, a Lamento. É a que está mais mal feita.

 

Sara - É possivelmente a minha preferida…

 

LS - Ok… Acho que no Cara d’Anjo a pior é a Nita. ‘Tou a dar a minha opinião sendo que, depois, cada opinião é válida.

 

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Sara - Ao fazer essa avaliação consegues distanciar-te do aspeto técnico?

 

LS - É um bocado inexplicável, mas conta a sequência entre o verso e o refrão, a construção, a mensagem e tudo o que a canção é. Mas claro que são tudo opiniões.

 

Tomás - Acho que, como tens um entendimento musical superior à maioria das pessoas, acabas por ter uma visão mais técnica. Nós – grande público – tendemos a identificar-nos mais com a mensagem da canção.

 

LS - Claro. Eu quando toco ao vivo, ultimamente, tenho tocado as que mais gosto. Claro que, depois de esgotar o set list, toco as que o público me pede. Mas por minha vontade, toco só as que gosto.

 

Tomás - A última pergunta relativamente ao álbum, para fechar esta parte: voltando um pouco ao início, não obstante ser um álbum bastante pessoal – acho que pões bastante de ti neste álbum –, também dá para ver algumas influências a surgir. Um bocadinho de Fado na Acácia ou uma vibe mais Sufjan Stevens, mais folk ou eletrónica por todo o álbum… Quais são as tuas grandes referências?

 

LS - Eu já fico contente por haver referências diferentes. Durante toda a minha vida diziam [sobre os álbuns]: “Isto é Mac DeMarco e B Fachada”. E, claro, são dois músicos que eu admiro muito, e no caso do B Fachada tenho proximidade pessoal. Eles estiveram juntos uma tarde! Até há uma foto bué conhecida dos dois. Deixa ver se eu a encontro… [no telemóvel]. Enfim, fico satisfeito por falarem em novas influências. Eu sempre ouvi muito Fado e muito Sufjan Stevens, portanto fico contente. Também gosto muito, sei lá, do Bonnie "Prince" Billy; gosto da malta que nos está próxima: Ermo, Pega Monstro, [Filipe] Sambado, Samuel Úria, etc. Por acaso, o Samuel Úria sempre foi uma pessoa que me apoiou bué de uma forma muito fixe, de há muitos anos para cá, e reconheço isso nele – ele é impecável. Mas nunca foi paternalista, que é uma cena que me irrita um bocado. Sempre apoiou sem ser muito impositivo, ou seja, sem achar que estava numa posição muito alta face a mim (exceto o facto de a posição dele ser muito alta [risos]). Enfim, gosto dele e de muitos outros.

 

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André - No ano passado estiveste no Super Bock Super Rock, no Parque das Nações (duas pessoas aqui estiveram na primeira fila – abandonámos Slow J para te ver). Este ano, estás ausente, pelo menos até agora, dos grandes festivais…

 

LS - Sim, este ano não vou estar presente. Também não tinha o set-banda montado. Estamos a ensaiar banda agora, para este novo disco, e não fazia sentido ir para os festivais a solo. E também me faz bem estar um ano arredado “disso”, não vou tocar muito nem em julho nem em agosto, e depois, em setembro, vamos anunciar bué datas, de teatros, por exemplo, e vou finalmente voltar a fazer desde cidades grandes a cidades pequenas, vilas, aldeias, andar a correr Portugal, que é o que quero, e depois, eventualmente, no ano que vem, acabar a fazer festivais. Na verdade, eu não gosto assim tanto de festivais… ou seja, é fixe, claro (esse que viram no SBSR, até ‘tava um bocado chateado. Deve ter sido dos poucos concertos em que não falei), mas eu tenho alguma claustrofobia, detesto multidões, detesto sítios gigantes em que tens de ir para um sítio e andar bué. Isso põe-me ansioso. Detesto cenas em que as pessoas não são simpáticas. Detesto ritmos frenéticos. Na verdade, o que eu gosto, em festivais, é de tocar. Mas aquela azáfama faz-me mal à cabeça, cansa-me.

 

Sara - Mas isso também não acontece nos concertos normais?

 

LS - Não, é muito mais tranquilo. Chegas a um teatro para fazer o soundcheck e o técnico de som é sempre um ganda bacano, as pessoas todas muito simpáticas, o ambiente calmo. Mas, claro, não estou a criticar, porque são exigências normais de um contexto em que tens vinte bandas num sítio. E a verdade é que muitas das equipas técnicas desses eventos andam, muitas vezes, cansadas e não são as mais simpáticas. Têm uma vida precária, estão imensas horas a trabalhar, contra o sono, contra a fome, contra tudo… Há um lado intenso nesses contextos que eu gosto, mas a que não me consigo ligar muito bem.

 

Tomás - E qual é o sítio em que mais gostas de tocar? Bares, aldeias, …?

 

LS - Vou tendo fases. Gosto bastante de teatros e de clubes. Acho que se encontrar um clube sossegado é o meu sítio favorito. Sei lá, desde o B. Leza, em Coimbra o Salão… gosto disso, acho que é onde me sinto mais fixe e acho também que é onde as pessoas estão mais à vontade. Gosto de teatros, mas, na verdade, os teatros têm uma distância que, às vezes, me incomoda: a cena de não sentires o público mesmo ‘em cima de ti’, não sentires aquela proximidade, aquele intimismo. A cena que me acontece em teatro é que nunca há uma comunicação entre o público e eu, eu nunca percebo bem se as pessoas estão a gostar ou não. Tu, muitas vezes, quando tocas num teatro, não vês nada do palco porque, com as luzes, olhas em frente e só vês uma cena escura, nem percebes quantas pessoas estão [na sala]. Não há aquele lado de contacto que há em clubes. Por isso, acho que os clubes são o sítio onde me sinto melhor.

 

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André - Nós, como somos uma revista universitária, queríamos perguntar-te como foi a tua vida académica, a tua experiência universitária?

 

LS - Estudei Sociologia. Bem, entrei na faculdade em 2011, acabei em 2015. Fiquei mais um ano a fazer umas disciplinas… mas fui fazendo. Estudei na FCSH. Antes de tudo, Sociologia foi um curso que me ensinou muito e, na verdade, se não tivesse feito o curso não podia ser muito do músico que sou, porque a Sociologia é uma ciência social muito rígida e com muito método e que me ensinou, acima de tudo, isso mesmo: a ter método na vida, a saber arrumar as coisas, a saber criar etapas, a saber criar métodos. Foi muito importante para mim. Quanto à experiência na Faculdade, fui um aluno medíocre. Devo ter acabado com uma média à volta de 14 valores, o que em Sociologia é uma média fraca. Mas fiz e gostei. Mas vou confessar que, se calhar, a faculdade deu-me tempo para fazer música ao mesmo tempo, e isso foi uma riqueza boa, também. Muito do tempo em que estive na Faculdade foi feito a fazer música, tanto que o Cara d’Anjo [2015] é feito naquele ano em que estava a acabar. Já estava em estúdio a fazer o disco e ainda andava a fazer quatro disciplinas, para aí… Depois, quando acabei esse disco, foi, de facto, uma prova de fogo, foi “baza ver se isto dá qualquer coisa, se não vou ter de arranjar outra ocupação”.

 

Tomás - Como nós somos de Direito, queríamos perguntar-te sobre como vês a “malta” de Direito?

 

LS - Vou ser sincero: tinha uma grande amiga na vossa faculdade, e ela, muitas vezes, convidava-me para eu ir lá ter e eu não ia. Ah, não, não é na vossa, é na Clássica. , aquilo tinha um ambiente bué da Assustava-me imenso entrar lá, era um ambiente muito sério. Opinião sobre os estudantes não tenho; sei que há estudantes parvos com coisas académicas parvas, mas isso não é exclusivo de Direito. Eu tenho de confessar que sou bastante cético quanto a praxes e rituais académicos. As coisas que não gosto no meio académico em Portugal não têm a ver especificamente com o vosso curso. E acho até que o Direito é uma área muito importante, que não devia ser só abrangida quando se escolhe estudar Direito [na entrada para o ensino superior], mas se calhar mesmo na escola deviam dar algumas bases, porque, na verdade, vivemos muito mal informados sobre coisas que podem mesmo mudar toda a nossa vida. Acho que é um curso muito importante.

 

Sara – Voltando à música: sobre o teu processo criativo, em termos de letra, olhas para um momento e pensas “tenho de fazer uma música sobre isto”? Como é o processo de escrita?

 

LS - É apontar bué da Imagina, as minhas notas no telemóvel são só frases soltas. E depois há o dia em que monto o puzzle. Muitas vezes junto bué da frases soltas. Acho que as minhas melhores frases, as frases mais fixes, são as que me saem soltas e depois junto-as para uma música. Acho que este disco é o que tem as melhores letras, de longe, na minha análise crítica. Do ponto de vista de cada frase ser incisiva, acho que evoluí bastante. Claro que há sempre frases só de ligação que eu crio no momento, mas quase todas as frases estiveram nas minhas notas como uma coisa solta. Mas pode acontecer que fique complicado quando, como neste disco, acumulo demasiadas notas. Estava com uma coisa gigante – pior do que um Código Civil (risos) – e agora fiquei com muitas “sobras”. Sobrou-me bué da material, acho que já tinha letras para um disco novo. Claro que vou ser exigente e não vou pôr tudo [num próximo álbum], vou só, no que sobrou, tentar ver as coisas melhores.

 

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André - No natal de 2017 lançaste um pequeno álbum, o Pianinho. Pode haver uma coisa semelhante novamente?

 

LS - Uau! Porque é que me estás a perguntar isso? Ouviste algum rumor?

 

André - Não, não ouvi. Mas agora fiquei curioso!

 

LS - Não vou comentar… Mas, , acho bué da fixe teres posto essa pergunta. Na verdade, pode ser que aconteça qualquer coisa… Eu sou um gajo muito dessas coisas, gosto dessas maluquices… E gosto de álbuns ao vivo, e lançar coisas sem ninguém ‘tar à espera. Gosto disso.

 

FIM. 

 

Os entrevistadores: Sara PachecoAndré CertãTomás Burns

Fotografias: Sara Pacheco

 

19
Jun19

Pedido público de desculpas ao Sr. Jackie Chan e à sua mãe

Jur.nal

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Bem sei que os sonhos não interessam senão a quem os tem. Nas palavras de Dennis, personagem da comédia It’s Always Sunny In Philadelphia: «I hate listening to people's dreams. It is like flipping through a stack of photographs. If I'm not in any of them and nobody is having sex, I just don't care.” Porém, o mesmo não se passa com os erros alheios, e, bem, eu cometi um grave erro ontem.

Tudo começou ao encontrar o Jackie Chan e a sua mãe, algo que para os sonhadores mais atentos levantaria suspeitas, uma vez que a pobre senhora já não está connosco. Reagi como reajo ao avistar qualquer celebridade: curioso, mas sem querer chatear. No entanto, e para meu espanto, o célebre ator, com toda a amabilidade a que nos habituou nos grandes ecrãs, convidou-me a ficar. De seguida, um pouco melancólico, como que numa subtil crise de meia idade, elogiou a minha jovialidade. Em poucos segundos, éramos já praticamente amigos e, por isso, senti-me não só à vontade para pedir à pobre mãe que nos tirasse uma foto, como também que o fizesse com o seu próprio telemóvel, pois a câmara do meu não estaria à altura – o que corresponde, infelizmente, à realidade, desde que fui furtado.

A senhora estranhou e eu também - como é que era suposto eu ficar com as fotos? – mas lá o fez. Posto isto, eu e o Jackie começámos a festejar juntamente com os seus dez amigos asiáticos aparecidos do nada. Isto tudo numa mistura de um centro comercial com um armazém, importada diretamente de um dos seus vários filmes. Tudo me corria de feição, mas tal como Icarus, voava demasiado perto do Sol. Rodeado de asiáticos, não consegui conter a necessidade de demonstrar toda a minha perícia linguística, proferindo um orgulhoso arigato, que como todos sabemos, é japonês para obrigado.

Ora, o Sr. Jackie e a sua família são chineses. E misturar as duas nacionalidades é um grave erro. Imaginem, talvez, a rivalidade portuguesa e espanhola, com um bocadinho (enorme eufemismo!) de genocídio e horríveis atrocidades, relativamente recentes, à mistura.

O Jackie e os seus amigos, para meu alívio, permaneceram na sua inexplicável festa. Mas, a senhora... A senhora Lee-Lee Chan olhou-me com desdém e fez a cara mais azeda que alguma vez vi, sonho ou realidade.

Felizmente acordei pouco de seguida, um pouco como quem encontra a morte nos seus sonhos. Agarrei no telemóvel e confirmei o meu desastre. Pedi, mentalmente, desculpa à senhora e dei graças por se tratar apenas de um sonho de que nunca ninguém iria saber.

 

André Carmona

 

15
Jun19

Entrevistas #5 - Luís Severo (Parte I)

Jur.nal
Depois da notável estreia em 2015 com o independente "Cara d'Anjo", Luís Severo juntou-se à Cuca Monga, editora pela qual lançou, com a mão da Sony Music Portugal, o seu segundo disco, o homónimo "Luís Severo", que o levou aos lugares cimeiros das listas anuais da imprensa musical e generalista e aos mais emblemáticos palcos e festivais do país. Com apenas dois álbuns editados, era já um dos nomes consensuais da escrita de canções da sua geração, mas não é por isso que deixa de surpreender. Do choque concordante entre o acústico e o electrónico, da contenda conciliante lírica e de todos os contrastes imagéticos, Luís Severo afasta-se do que já por si foi feito e, sem nunca perder o centro que o particulariza, chega assim com o seu terceiro disco, “O Sol Voltou”. (In https://www.facebook.com/pg/luisseverocantor/about/?ref=page_internal)
 
 
Numa tarde em que o Sol teimava em esconder-se, O Sol Voltou foi o mote para o JUR.NAL, pela audaz curiosidade do Tomás, da Sara e do André, conversar um pouco com o Luís Severo. Falou-se, entre outros, do novo álbum, do processo de criação e, para lá da música, do percurso académico do Luís. A primeira parte dessa agradável e descontraída conversa vê hoje as cores do mundo: 
 

 

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Tomás - Podemos começar por fazer uma apresentação: apresentas-te, explicas um pouco quem és, para quem ler isto e não souber quem é o Luís Severo. Vender o teu peixe! (Risos).

 

Luís Severo - Bem, eu sou músico, compositor, produtor. Tenho 26 anos, faço canções há 11. Comecei com 15 anos, em casa, a fazer maquetes e coisas assim muito underground, já numa altura em que existia MySpace, que é uma rede social que existiu durante muito pouco tempo e depois morreu – e eu comecei a fazer música lá. Depois houve uma fase em que muitos músicos começaram, e era uma rede social em que sentias que eram muitos músicos a fazer música na sua casa com uma placa de som de 50€ e um microfone de 20€ e cada um fazia as suas coisas. E eu comecei lá, e fui sempre evoluindo. A partir de 2015, depois de ter feito uma banda, que gosto muito e continua a existir – os Flamingos – decidi começar a editar discos a solo, em nome próprio. Fiz um disco em 2015, o Cara d’Anjo, depois fiz o Severo em 2017, e este último, O Sol Voltou, saiu em 2019. São três discos que eu acho que representam um pouco várias coisas que eu gosto, algumas coisas mais pop, algumas coisas mais lo-fi, algumas coisas mais folk. E pronto, por vezes canto e toco todos os instrumentos, outras vezes não. Este último disco fui eu que toquei tudo. Também costumo ser eu a produzir os discos e também me encarrego das questões do som. Portanto, apesar de alguma evolução no sentido profissional, hoje o que eu faço continua a ser muito aproximado ao que fazia há 11 anos no quarto, só que com mais material e mais produção, mas continua a ser muito aproximado. E pronto, acho que já fiz uma boa apresentação.

 

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Tomás - Por acaso acho piada, nos teus discos, teres estes estilos um pouco diferentes (tens o folk, tens o pop, …). Até já vi em algumas entrevistas chamarem-lhe sacro-pop. Consegues explicar isso?

 

LS - (Risos). Sim, isso foi só quando eu fiz aquele disco em 2015. Algumas pessoas disseram que tinha uma ou duas músicas que lembravam, quase, a missa e uma cena gospel. E sendo que eu, na minha vida, devo ter ido para aí duas vezes à missa (a minha família não é propriamente católica, e eu também não sou – também não tenho nada contra, mas nunca tive uma ligação muito forte ao catolicismo), achei piada – eu que nunca tive essa ligação – dizerem que as músicas tinham algo que se assemelhava à música litúrgica. E, então, eu, como piada, pus nos tags da minha página o sacro-pop. Foi só uma piada, mas depois, em mais do que uma entrevista, começaram a pôr questões sobre isso. E uma coisa que tinha sido só uma piada acabou por continuar.

 

Tomás – Mas, talvez porque a tua música pega em todos estes estilos diferentes, conseguindo ligá-los, criando uma “coisa” que eu acho bastante coesa, acho engraçado conseguires pôr tudo “por baixo” de uma matriz religiosa.

 

LS - Eu acho que apesar da música não ser religiosa, tem alguma espiritualidade, no sentido em que algumas das questões que a religião procura sempre responder são questões que mesmo quem não é religioso tem. Acho que questões do género “o que andamos para aqui a fazer”, “para onde vamos”, “o que é que nos move”, “o que é que há além de nós”, tudo isso são questões bastante espirituais e são questões pelas quais inevitavelmente as minhas letras também passam.

 

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Tomás - São questões às quais a música sempre tentou responder, e que os músicos sempre tentaram desenvolver.

 

LS - Exatamente. E tem piada como os EUA mesmo assim – e muita da música anglo-saxónica - é muito mais comum os músicos assumirem que têm fé. Não é o meu caso, não sou uma pessoa crente. Também não me consigo assumir ateu – não tenho aquela coragem de dizer “eu sou ateu” com toda a certeza deste mundo. Acho que serei aquilo a que se chama agnóstico, que é uma pessoa que é só palhaço porque não tem opinião nenhuma (risos), mas na verdade tem piada como a música e os músicos (Bob Dylan, Leonard Cohen, que são músicos que eu ouço) falam sobre Deus e sobre a ligação a Deus. E mesmo na música brasileira, muitas vezes, há uma ligação a Deus, que não é muito comum na música em Portugal. Exceto a FlorCaveira, ou mesmo o Samuel Úria e outros, que são pessoas de fé e eu vejo que não têm pudor em referir Deus e em falar sobre Deus. De uma perspetiva ateísta, por acaso.

 

Tomás - Se formos ver os EUA, e também o Brasil, e as grandes potências, têm muita influência religiosa, mesmo quase na criação do país.

 

LS - Sim, porque nos EUA, e também no Brasil, a música evangélica representa cultos em que se canta muito mais do que nos nossos. O católico tende a ser um culto em que as pessoas cantam pouco, e quando cantam são sempre coisas ‘metidas’ para dentro. Tipo aquela senhora a cantar a do “‘tá muito alto” (risos).

 

Tomás - Tens sempre o Johnny Cash, e outros, que vão tendo Deus de uma forma sempre presente…

 

LS - Sim, mas de uma forma não muito solene, mas muito pessoal. Ou seja, não é uma envolvência de Deus do ponto de vista bíblico e convencional. É muito do ponto de vista próprio e pessoal, e eu acho isso interessante. Mas pronto, na verdade, isto tudo veio da piada do sacro-pop, que foi só uma piada (risos).

 

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Tomás - Já estamos um bocadinho distantes, mas acho que é interessante.

 

André - Pegando agora no teu novo álbum, O Sol Voltou: há uma certa mudança de cenário, até da própria música e melodia. O Severo era um disco mais citadino, e O Sol Voltou traz quase uma mudança para o campo, ou, pelo menos, um ambiente mais campestre. O que é que levou a esta mudança?

 

LS - Eu acho que há aqui duas coisas: reconheço que haja um pouco disso, um pouco dessa mudança; mas também acho que há um bocadinho de exagero, ou seja, não acho que o disco que editei em 2017 fosse só sobre a cidade, acho que tinha mais mundo, e acho também que este não é só sobre o campo. Sem dúvida, este é um bocadinho mais contemplativo e reconhece mais a natureza e passa-a mais enquanto assunto, e isso não foi nada muito pensado, foi algo que simplesmente me fez sentido falar. Porque, na verdade, eu, quando acabo um disco, a minha tendência para o disco seguinte é pensar sempre: “de que é que eu não falei neste?”, “o que é que eu não fiz neste?” e “como é que eu posso ir contra o que fiz antes?”. Eu poucas vezes penso na continuidade das coisas, ou pelo menos penso quase sempre que a continuidade das coisas passa quase sempre por uma cisão, por uma rutura. E, claramente, quis que estas letras fossem diferentes das do outro disco, quis que o disco tivesse um ritmo um bocadinho mais calmo - fazia-me sentido, também porque ouço muita música folk e sentia que ainda não tinha, apesar de ouvir muita música folk e gostar muito de música folk, posto isso de forma muito vincada em nenhum disco que tinha feito, e acho que este disco já rompe mais isso, é um disco mais folk. Era uma coisa que eu queria mesmo muito, porque é algo que eu tenho dentro de mim, é algo que eu gosto muito e que ainda não tinha explorado. Para teres um disco folk, em primeiro lugar, a captação – numa questão simplesmente técnica – de instrumentos acústicos é muito mais exigente do que a de instrumentos elétricos. Tu mais facilmente com material medíocre fazes um som bacano a uma guitarra elétrica do que a uma acústica, porque uma guitarra acústica já depende da acústica da sala, já depende de que a guitarra tenha um grande som… ou seja, é muito mais difícil tu captares a realidade do que uma coisa com efeitos, com ‘maquilhagem’… e, nesse sentido, neste disco senti que já podia fazê-lo, antes de tudo porque investi algum dinheiro a comprar microfones, a comprar coisas melhores que as que tinha – e era um salto que tinha de ser dado, ou seja, ou eu ia para um estúdio e o disco não ia ser feito aqui no meu estúdio como eu faço todos (ou seja, um estúdio profissional), ou tinha de ser cá. Então investimos, e houve um investimento muito forte de todos. Os Capitão Fausto também compraram uma placa de som boa, melhor do que a que tínhamos, eu comprei microfones, e de certa forma quitámos o nosso estúdio melhor. Comprámos mais isolamento de som, tentámos que a acústica da sala fosse melhor. E, nesse sentido, ao fim de muita batalha, eu consegui ter aquele som de guitarra clássica e acústica que está no disco. Mas, para ter chegado lá, foi muito difícil porque, , é muito mais difícil [chegar àquele som]. Mas senti que com esse som a que eu tinha chegado, finalmente podia ter o meu disco folk. E depois, umas coisas puxam as outras: essa ideia do disco folk puxou um lado mais contemplativo a fazer letras; a ideia de ir contra o disco que tinha feito antes, ainda mais. O facto de neste disco ter sido eu a tocar tudo também puxou mais esse meu lado, porque é um lado que eu tenho dentro de mim e que, se calhar, no último disco que fiz [Luís Severo, 2017] em que são basicamente os Capitão Fausto que tocam quase tudo, mais o Diogo, e a Violeta a tocar flauta, e mais o coro, a Bia e o Manelito, etc., essa linguagem folk só eu é que tinha, que eles não têm tanto, portanto, acho que foi um conjunto de coisas que se reuniram e que possibilitaram que este disco fosse mais assim.

 

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Tomás e André - E tu, a fazer este álbum, estiveste nos Açores. Isso teve alguma influência na mudança de que falamos?

 

LS - Sim, estive lá a compor. Houve a possibilidade de eu fazer residência no Centro de Artes Contemporâneo Arquipélago, que é um espaço muito fixe. É em São Miguel, e na verdade foi lá que eu comecei a fechar canções e a fechar composições. O que aconteceu foi: entre 2017 e 2018, o ano a seguir a ter acabado o segundo disco, o que fiz foi estar simplesmente muitos dias a apontar letras, ideias para letras, apontar riffs de guitarra, mas soltos, sem estar a compor canções, ou seja, estive, no fundo, quase um ano só a ter ideias mas nunca a concluir nada. Nunca conclui nada porque queria precisamente tentar, de uma forma livre e não muito pensada, entender sítios diferentes a que podia ir, entender coisas novas. E depois, ao fim de um ano, em janeiro de 2018, que é quando vou para os Açores, é quando começo a compor músicas novas, a fechá-las. Acho que estar lá não decidiu completamente o rumo que o disco ia ter, porque como já tinha tanta coisa feita antes, muito do rumo já estava feito, mas possivelmente acentuou, e ter estado lá só reforçou ainda mais esse lado contemplativo que eu sabia que o disco ia ter de ter.

 

Tomás - É que até pela natureza do disco, ser mais rústico, mais pastoral, parece que estamos num ambiente mais açoriano, mais aberto, com as vaquinhas…

 

LS - Sim, há mais vacas do que pessoas lá… (risos). Se formos a ver bem, eu em 2018 tive para aí 50 datas [concertos] ao vivo, foi bué da Para um músico da minha dimensão em Portugal, ter 50/60 datas num ano é muito. Também porque eu faço tudo, gosto de tocar em todo o tipo de sítios. E, portanto, acabei tanto a tocar em festivais como a fazer clubes, como pequenos teatros, aldeias, bares… e, se eu for a ver bem, no fim de contas passei muito pouco tempo em Lisboa. O tempo que estive em Lisboa foi quase todo passado em casa, que era quando estava a descansar. Sendo que casa é casa, não é nenhuma cidade. Portanto, na verdade, essa ausência da cidade e de Lisboa surge como natural porque eu também passei cá muito pouco tempo durante o ano.

 

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Tomás - Eu acho que dá para ver essa ausência, até porque no teu segundo álbum vais falando da Alameda, Penha de França, Santa Apolónia. Neste apenas falas no Campo de Santana, portanto não dá aquela presença de Lisboa.

 

LS - Não dá, e eu acho que é fruto disto mesmo. Até porque quando eu pego para escrever – eu fiz muita estrada de comboio, autocarro… e, muitas vezes, era quando aproveitava e pegava no bloco e começava a apontar coisas, e fiz muitas letras nesses contextos. Portanto, sim. Mais uma razão para ter essa ausência lisboeta. Depois, o tempo que estive em Lisboa [para além de estar em casa] também foi passado no estúdio a fazer o disco.

 

Tomás - Agora entrando mesmo no álbum, abandonando este esoterismo: ao longo do álbum vais falando de diferentes estações do ano, sendo que a Primavera é omnipresente. Falas também do Inverno, do Verão, mas não falas do Outono. Tenho curiosidade de saber o porquê.

 

LS - Ora bem, na verdade acho que o Outono é a estação do ano que menos me interessa – e com isto não quero ser polémico, não quero ofender os outonais.

 

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André – Vai ser o título desta entrevista: “Luís Severo odeia o Outono.”

 

LS – (Risos). Na verdade, acho que, antes de tudo, a Primavera surge como símbolo de renascimento, como um símbolo de vida nova e de recomeçar, que é uma ideia que está também bastante no disco: recomeço e vida a seguir à morte. O disco tem um lado um bocadinho mais negro – e esse lado tens de associar à partida, ao Inverno, e depois tens também o Verão como a estação que se segue à Primavera, quando já houve o renascimento, quando já há uma vida nova e quando começas finalmente a viver uma vida nova. E eu acho que essa ideia, para mim, é muito importante. Nesse sentido, não menciono muito o Outono porque não se liga à Primavera de forma nenhuma. É a antítese, e não tem nenhuma ligação temporal. Mesmo O Sol Voltou remete para uma coisa escura, “estiveste muito tempo numa coisa escura, num Inverno, e finalmente O Sol Voltou”, ou seja, O Sol Voltou diz que o sol nem sempre esteve cá.

 

Tomás - É, então, um álbum otimista?

 

LS - É, acho que é otimista, apesar de ser um pouco denso. Não acho que seja um disco só feliz; acho que tem algumas camadas, mas sim, no fim de contas, é um disco otimista.

 

André - Mencionas na canção Primavera “agora canto a liberdade”. Queria perguntar se achas que a Primavera é, de facto, a estação que traz liberdade?

 

Tomás - É a estação de Abril…

 

LS - É. Não só mesmo abril como maio são meses muito políticos e são meses muito vivos. Maio é um mês muito vivo: é, há muitos séculos, o mês em que mais pessoas se casam, por exemplo – é um dado interessante. Para além disso tiveste o Maio de ’68, politicamente, que teve uma dimensão… [enorme]. Porque eu acho que é uma fase em que as pessoas acreditam, é uma altura em que a liberdade fala mais alto. E essa canção é sobre a liberdade, e eu acho que resume, um pouco, o disco. Por isso é que é, também, a canção que o abre, porque apresenta bastante bem o disco que vais ouvir. Nesse sentido, acho que é uma boa canção inicial.

 

Tomás - Até mesmo, depois, na canção Maio, que é logo a terceira do álbum… eu tenho uma questão em específico sobre esta canção: tu dizes “e a sonhar já se fez maio”, e eu queria perguntar se maio é mais uma ideia, uma representação, em vez de um mês. Para dar um exemplo: o Tyler, the Creator tem uma canção que se chama November, e ele diz “my november was the summer of ‘06” – é uma representação de outro momento, e não de um novembro, necessariamente.

 

LS - Para mim acho que é o mesmo. Obviamente que a minha canção tem a ver com o mês de maio, porque é, talvez, o meu mês favorito. É um mês mesmo fixe. E que historicamente está associado a tanta coisa, tanta vida, e a uma ideia de alguma esperança. Tanto política, como amorosa, como familiar, como mesmo temporal. É maio como uma ideia, mas não afastando da ligação ao mês.

 

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Tomás - Já falámos da primeira e da terceira canções, não falámos ainda da segunda. A Acácia parece algo dark. Porque é que escolheste esse nome?

 

LS - A acácia é uma árvore que simboliza, mesmo, a morte e depois a vida. E a Acácia, enquanto canção, fala sobre a morte e, nesse sentido, sendo uma canção sobre a morte e pretendendo ter um final feliz, achei que Acácia seria um bom símbolo.

 

Tomás - Há alguma ligação pessoal?

 

LS - Não. Apenas gostei do simbolismo e acho que é uma flor bonita. E acho uma palavra bonita, também – e isso também conta. E, na verdade, decidi pô-la como segunda canção porque, depois de ter explicado o lado mais luminoso daquele disco [com a canção Primavera], achei que, logo a seguir, era fixe explicar o lado menos luminoso e mais dark [com a canção Acácia].

 

Tomás - Temos uma pergunta sobre a canção Domingo: como cantas “o tédio trouxe a paz” e parece que estás numa fase mais calma da tua existência, queríamos perguntar se te sentes nostálgico nas andanças e peripécias do amor? É uma pergunta um bocado pessoal…

 

LS - Não. Sinceramente, a canção Domingo não é, sequer, sobre mim. É uma canção familiar. Na verdade, este disco é muito familiar. É um disco em que homenageei várias pessoas da minha família, e se calhar por isso é que é um disco tão romântico. Quando digo “Domingo o tédio trouxe a paz também” não é do meu ponto de vista. Até pode ser que a seguir faça um disco mais sobre… como é que disseste?

 

Tomás - “As peripécias do amor”. (Risos).

 

LS – Isso. Ou seja, neste [disco], sendo um disco sobre a minha família, seria estranho que eu falasse nisso. Seria uma família um pouco incestuosa se fosse esse o caso… enfim, é um disco familiar: a canção Joãozinho, por exemplo, é sobre o meu sobrinho. E, no fundo, a minha dificuldade com este disco, sendo sobre a minha família, foi evitar expô-los demasiado, se bem que acabo por expor, um bocadinho, naquela faixa de áudio que eu pus (é uma gravação familiar, do natal de ’94, portanto eu teria 1 ano. Eu estou , mas só mesmo a chorar. As outras pessoas são a minha avó, os meus pais, etc… Mas o choro que se ouve é meu!).

 

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Tomás - A canção Rapaz também é de alguém da tua família?

 

LS - Não. A Rapaz, por acaso, é uma canção mais de amizade. Sobre aquela cena de teres alguns amigos que depois inevitavelmente deixas de os encontrar tanto, quando a vida muda. Acho que quando entras na faculdade é um dos pontos em que isso acontece. Mas, depois, continua a acontecer noutros pontos [da vida]. E é uma canção que fala sobre, na verdade, nunca te teres chateado com uma pessoa, mas inevitavelmente terem-se afastado, e sentires falta dessa pessoa, mas também não lhe conseguires dizer isso assim tão explicitamente.

 

André - Eu tinha aqui preparada a pergunta sobre quem é o Joãozinho… [entretanto já respondida]

 

LS - É o meu sobrinho. Mas percebe-se que é uma música infantil, certo? É que eu tenho alguns amigos que têm esse nome e que pensaram que a música podia ser sobre eles!

 

Tomás - Agora uma pergunta relativamente à Última Canção: estávamos a falar há pouco sobre como sentes falta de ter alguém a mandar em ti, a mandar-te fazer trabalhos e isso… e tu cantas “se é minha riqueza não ter patrão, não vou mentir: a vida assim não é dura, não”. Isto relaciona-se?

 

LS - Sim, claro que é bom viver assim. É bastante fácil e nunca foi difícil do ponto de vista de que eu sempre gostei do que fiz. Mas tive anos em que não conseguia ter uma vida muito estável. Nestes últimos anos, obviamente, posso estar contente. Não sou uma pessoa que tenha assim muitos luxos, mas vivo bem com o que tenho, pago a minha renda de casa, e não tenho sentido muita instabilidade. Mas pensas inevitavelmente que isso é algo que não dura para sempre e que pode não ter uma continuidade, e a Última Canção fala um bocadinho sobre isso: sobre gostar muito do que faço, mas ter a consciência de que talvez não vá conseguir fazer isto para sempre. E de que, na verdade, aquilo que te faz ser uma coisa mais ou menos nova, também é algo que passa. E há de chegar, também, um ponto em que – não agora, porque estou já com uma sede louca de compor outro disco – [a inspiração e a vontade de fazer música se acalmam]. Este disco teve uma coisa muito gira, que foi: eu, quase sempre, quando acabo discos fico com uma “ressaca” de não saber se consigo voltar a fazer música, não saber o que se segue… e já falei com outros músicos que sentem a mesma coisa. Mas, na verdade, não tive isso com este disco.

 

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Tomás - E sentes alguma pressão em fazer um novo disco ou vais só pela tua vontade?

 

LS - Não, na verdade eu tenho tempo livre. (Risos). Quando não estou a tocar ao vivo ou a ensaiar, não estou a fazer nada. Ou dou entrevistas (risos). E, por isso, inevitavelmente os discos surgem. Mas nunca penso muito nisso de haver ou não pressão [de editar discos], o que é que as pessoas estão ou não à espera… Quando eu geralmente penso isso é na pior fase: quando o disco já está pronto, quando o acabo e entrego. Penso: “agora vou ficar aqui sentado, e haverá um dia em que isto cairá na net, as pessoas vão ter opiniões e eu já não terei nada a fazer”. Acho que essa é a parte que me custa mais. E, nesse sentido, detesto ter discos prontos que ainda não estão ‘cá fora’. Sendo que o tempo mínimo para que um disco saia são três semanas, mas é aconselhável mais, para trabalhar o marketing, a comunicação, e etc. Mas eu faço sempre o mínimo possível, e esse mês, quase, é o pior: ter um disco pronto prestes a vir ‘cá para fora’ e já não há nada a fazer… Tu nunca achas que está bom. Por tua vontade, ficavas sempre a fazer mais! E, portanto, nesse mês é quando eu sinto a pressão: durmo mal… (mas antes faço o disco, ‘tá-se bem…). O disco saiu a 17 de maio e eu entreguei-o por volta de dia 15 de abril – foi mesmo um mês. Depois de entregar, fui quinze dias para o campo, sem net, porque não tinha tido férias e então decidi ter nesse momento. Voltei, depois, em maio porque tinha de ensaiar para as datas [concertos]. Mas faço quase sempre isto depois de acabar um disco – ir para o campo - porque sinto aquela pressão.

 

(Continua...)

 

 

Os entrevistadores: Sara Pacheco, André Certã, Tomás Burns

Fotografias: Sara Pacheco

 

 

11
Jun19

Anónimos #8

Jur.nal

 

 

Quero abrandar o tempo

Quanto mais rápido envelhecer

Mais rápido terei um corpo estranho a mim mesma

Um corpo que nunca terás tocado

Um corpo que será a materialização de nada que importou

Como pode um ser consumir outro sem lhe tocar

O toque é somente físico

Nunca foi algo mais

O maior erro humano foi dar significado a algo tão efémero

Algo que mude e que arruíne

Não há mais nada depois

É um antes e um depois

A demonstração clássica da ausência futura

Futuro contaminado pelas barbáricas farsas

Como uma má encenação que aplaudimos por não conhecer melhor

05
Jun19

JU(NIO)R.NAL #3

Jur.nal

 

O sonho americano


O sonho americano é um ethos nacional dos Estados Unidos, uma variedade de ideais de liberdade que inclui a oportunidade para o sucesso e prosperidade, maior mobilidade social para as famílias e crianças, alcançada através de trabalho duro numa sociedade sem obstáculos. (Wikipédia).


O sonho americano não passa de um sonho, mas está na hora de mudarmos os lençóis e acordar para a vida, encarar a realidade nua e crua e tentar alourá-la.

 

Desde muito novos ficamos com uma impressão errada de que os EUA são um país a seguir, um país rico em cultura, liberdade e progressista, onde as pessoas podem ser quem são, realizar os seus sonhos e um dia, talvez, aparecer nos óscares.

 

A vida é muito mais que apenas sonhos, a vida é feita da concretização desses sonhos, ou pelo menos é feita da tentativa, mesmo que falhada.

 

“A violação é como a meteorologia, é inevitável, relaxem e aproveitem.” – Clayton Williams (Partido Republicano, Texas).


É inevitável? Será que é? Como é que uma violação se tornou nalgo tão banal como estarem 30 graus num dia de agosto?


É isto que queremos ensinar aos homens do futuro? Violar uma mulher, uma criança?


É isto que queremos ensinar às mulheres do futuro? Numa situação de risco não se tentarem defender?


O aborto é um assunto bastante controverso, mas é diferente ser contra o aborto e ser a favor de uma violação.


Falamos de igualdade de género, oportunidades, mas depois vemos a mulher a ser objetificada por uma das maiores potências mundiais, senão a maior.


Um país onde um violador passa menos tempo na cadeia do que uma mulher que não quer ter um filho porque não tem condições/foi abusada/etc… é um país que não pode ser de sonho.

 

Imaginem a dor e o sofrimento daquelas mulheres, a predisposição quase suicida, o sentimento de impotência, ter as mãos agarradas numa sociedade patriarcal. É um país que precisa de vozes que falem, que gritem, que reivindiquem os seus direitos.


Não vou usar o argumento “e se fosse sua filha?” porque não faz de todo sentido… não podemos pensar nas situações quando só nos afetam a nós. Temos de pensar num todo, temos de pensar que qualquer ser humano é digno. Por vezes faz falta um véu de ignorância… Queremos que os rapazes de hoje (ou raparigas, porque não são só homens que violam), sejam os violadores de amanhã ou queremos mais liberdade, proteção de vítimas, soluções e justiça? Como é que podemos viver num mundo onde não há justiça? Hoje somos uma pessoa perfeitamente normal, amanhã podemos ser uma vítima.

 

Em que mundo vivemos? Porque é que existe tanto ódio? Porque é que não somos capazes de respeitar o corpo dos outros? Pensava que estávamos a caminhar para uma evolução, mas quanto mais corremos, mais longe estamos da meta.

 

Não é só nos Estados Unidos que existe opressão, ódio e injustiça, mas quando nem os “grandes” dão o exemplo é complicado para os mais “novos” aprenderem. Quero acordar e ver que o sonho americano não é apenas um sonho, que tudo isto não passou de um pesadelo de 10 minutos que já dura há anos.

 

Milene Luz

 

01
Jun19

Anónimos #7

Jur.nal

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Há muito que já não escrevo.

Também já há muito que não sinto o que sentia ao escrever. Hoje todos escrevem e poucos consomem.

Hoje todos escrevem o que lhes apetece, deixando de dar valor àquilo que as palavras verdadeiramente fornecem a um bom leitor. É rara a pessoa que sente o que escreve e hoje já nem eu o sinto.

Por tantos textos que por aqui passam, tenho medo que o meu seja só mais um - claro que não é, mas vocês lá o sabem.

Os poucos que leem leem mal, pois leem com olhos de quem já só escreve.

Que a mão caia aos falsos poetas.

A mim já caiu a vontade e a capacidade para entender o que por aí escrevem “banalmente” semana a semana.

14
Mai19

Anónimos #5

Jur.nal

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Estava no comboio quando vi uma senhora de chinelos e me deparei com uma questão. Porque é que usamos sapatos? Para proteger os pés? Para ter um maior conforto a andar? Para escondê-los? Mas escondê-los de quê? Devemos ter vergonha dos nossos pés?


Eu realmente tenho, mas isso sou eu, que os acho uma das partes mais horripilantes do meu corpo. São estranhos e totalmente anormais, parecem batatas. Mas não é por eu querer esconder os meus pés que os outros também têm de o fazer. E se realmente não o fizerem, eu não tenho de os julgar por isso.


Eu, realmente, penso: “Porque é que as pessoas usam chinelos? Expõem tanto os pés!”, mas quem tem o problema com a exposição sou eu, não eles.

 

Eu olhava para aquela senhora no comboio e só pensava que sou incapaz de usar chinelos em público, exceto se o panorama circunstancial enquadrar uma praia. Digo, desde já, que eu não vou à praia.


Sinceramente, tenho uma certa aversão a olhar para os pés dos outros. Especialmente quando se trata daqueles pedúnculos com unhas totalmente maltratadas e nada apelativas à vista. Novamente, não são as minhas e não tenho nada que julgar as unhas dos outros, mas não deixa de ser desagradável.

 

Adidas, por favor para de fazer chinelos de último modelo para as pessoas terem ainda mais vontade de andar de pata ao léu no meio da rua. Não vamos criar mais modas pedicuriais (espero que gostem da minha nova palavra)! E apesar de andar de meias e chinelos for uma boa maneira de tapar o pé... não é bonito. There! I said it!

 

Ah pés... como eu vos detesto. Porque é que eu nasci com coisas chatas no fundo das pernas? Podiam-me ter calhado aqueles pés bonitos, que vamos nas revistas dedicadas a tal efeito. Dessa forma até teria onde fazer dinheiro, bastava pintar as unhas. Mas os meus genes assim quiseram e eu nasci com pés assim. Ao menos tenho sobre o que escrever, caso contrário este texto não estaria aqui.

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