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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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18
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte II)

Jur.nal

Ana: Bem, nós agora queremos falar um bocado sobre o vosso processo de composição musical. Nós sabemos que algumas das músicas partem de ti [para o Sebastião].

 

João: A maioria, talvez. Pelo menos as letras.

 

Ana: Exatamente, e isso é muito incomum nas bandas, porque normalmente não é o baterista a escrever as músicas, e nós queremos saber como isso funciona e como tu começas o teu processo criativo, como é que lhes passas as músicas?

 

JG: Acho que funciona muito bem… (risos)

 

SM: Como é que é o processo criativamente… Então, há contribuição [da banda] toda, mas como normalmente a imagem parte de mim, acaba por ser um bocado conduzido por mim, não havendo assim tanta liberdade, mas tento dar a sensação que existe (risos) quando a apresento, mas basicamente o que acontece é que nós, de repente, decidimos que vamos fazer mais um disco.

 

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JG: Isto foi o caso do segundo.

 

SM: No segundo e até mesmo no primeiro temos muito pouco tempo para as coisas, porque nos ocupa [tempo], e há sempre uma tentativa de surgirem coisas em conjunto e isso, mas depois é muito disperso, e não se chega a nenhum resultado. E acho que deve ser comum a todas as bandas, alguém ter de liderar [o processo]

 

JG: É difícil compor em grupo.

 

SM: Mas pronto, nessas divagações, até surgem algumas ideias lá no meio que não sei quem é que diz ou quem é que faz, mas há sempre qualquer coisa. Se calhar imponho-me um bocado, às vezes, mas só para definir.

 

João: Mas um bocadinho em cada instrumento, ou… ?

 

SM: Sim, tenho uma ideia para uma coisa e digo “faz aí isso” ou então alguém tem uma ideia e depois adapta-se e então surge um ritmo por cima daquela ideia, e depois aquela ideia vai fora e fica o ritmo, pronto, surgem elementos, e ficam lá. E depois, as ideias da música surgem por necessidade, ou outras não faço a pensar naquilo, na maior parte, simplesmente estou sempre a ter ideias e vou gravando as ideias, não sei bem para o que é que são na altura, e depois, quando é preciso, começo a tentar concretizá-las, ou seja dar-lhes algum tipo de sentido ou estrutura ou o que seja. E há uma ou duas músicas que fiz exatamente para isto, que foram feitas exatamente a pensar com aquele estímulo de “vamos fazer uma coisa nova” porque depois por acaso lembro-me sozinho e faço uma coisa a pensar nisto. Um exemplo é aquela da “Caravela”, que foi quando surgiu a possibilidade de sequer considerar um segundo álbum e começar a pensar o que seria. Foi uma coisa que foi feita a pensar naquilo.

 

JG: Aí já tinhas a guitarra?

 

SM: Não, depois acrescentou-se.

 

JG: Estás então a falar da letra?

 

SM: Estou a dizer a canção. Mas é isso, o processo criativo é sempre um bocado fragmentado, é sempre partes, na maior parte das músicas, até aquelas que parecem ser mais contínuas, tipo fluídas, os elementos vêm de várias ideias e de vários fragmentos. E depois é a questão de, eu não estar a fazer isto para mim, estou a fazer isto para ele [para o João Graça cantar], é difícil perceber que não posso fechar muito. Se eu quisesse fazer para mim, eu sei exatamente a dimensão que eu gostaria, ou a possibilidade de haver possibilidades. Aqui, eu tenho de experimentar, tenho que perceber porque são coisas, ao início, que eu imagino que resultam mas depois não resultam e tenho que mudar, não posso estar a trancar aquilo porque se não fico lixado (risos). Então é manter as coisas um bocado em possibilidade de mudança, e eu depois vou mostrando e experimentando, sendo que algumas coisas têm de ser firmes, porque eles podem não estar a ver por não estar lá na totalidade mas eu sei que pode resultar e então insisto em algumas coisas de outra forma para chegar a esse lado. Outras coisas realmente não resultam, e eu sinto logo que não resultam e por isso têm de se mudar. É um bocado triste (risos)... não sei se respondo à tua pergunta. Cada coisa, e cada música tem um processo muito diferente. Podes perguntar “esta aqui, como fizeste?”, mas passa por juntar ideias que vão sempre surgindo. Algumas surgem só voz, outras surgem só ritmo, outras surgem só melodia de instrumental, outras surgem em todos os elementos. Já tive ideias só de instrumental que depois adiciono a voz, já tive ideias só de ritmo que depois acrescentei instrumental, tipo já surgiram ideias específicas ou definidas de toda a gama de instrumentos ou elementos.

 

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João: A Caravela cheguei a mandar ao grupo da Tuna pelo Whatsapp, para fazermos uma versão. Ninguém pegou na ideia, mas pronto (risos). É muito gira a música.

 

SM: Mas a guitarra foi do Francisco, o guitarrista. Ele tinha uma linha de guitarra e, numa pausa de ensaios, eu experimentei cantar por cima da linha e funcionou, e depois a voz da Benedita era a única que podia…

 

João: Mas nunca pensaste em cantar também?

 

SM: Na banda?

 

João: Sim. As letras que escreves.

 

SM: Neste caso em específico, não sei.

 

JG: Fazes uns acordes às vezes…

 

SM: Mas mais porque é preciso para dar força. Acho que já experimentei coisas com a minha voz e apercebi-me de que na realidade não funciona. Com esta sonoridade não resulta, na minha opinião. Ele [o João Graça] tem um alcance muito maior neste tipo de música, e a música que eu faço para ele cantar ele consegue chegar muito mais às coisas que é preciso para aquele andamento.

 

João: No primeiro álbum, também foi assim? Ou não foste tu a liderar tanto o processo criativo. Eu sei que houve a presença do Pedro de Tróia....

 

JG: Sim, o processo criativo foi bastante diferente.

 

SM: Foi, mas eu reuni-me com o Pedro, e ele tinha uma ideia para a banda, e depois as primeiras músicas nós começámos a experimentar. E depois o Pedro começou a pegar naquilo e a dar ideias para mudar o andamento do instrumental, para ficar um pouco mais como este segundo, e pronto, mudou-se algumas coisas. E depois, a partir de uma ou duas músicas que definimos, o resto do processo foi com o Pedro, eu a ir ter com o Pedro, e imagina, ele tinha um refrão e depois eu surgia com o resto da música, ou então eu surgia com a música e com algumas coisas para acabar e ele acrescentava o que faltava, ou um verso. Era basicamente isto.

 

João: E agora, falando do primeiro álbum, como é que surgiu a ideia da Lena D’Água?.

 

SM: Foi ideia do Pedro.

 

JG: A história é gira: nós tiramos uma fotografia para promover o primeiro single em que fizemos uma montagem e colocamos uma fotografia da Lena D’Água numa moldura, que é uma fotografia em que está a Lena dentro de uma banheira com umas moedas.

 

SM: Não sei se és tu que está a segurar no quadro… Já não me lembro.

 

JG: Pronto, e dentro dessa moldura está uma imagem da Lena D’Água. E não sei qual foi a abordagem dela, se foi comentar, ou se foi uma mensagem ou algo assim, mas ela disse assim “Porque é que está a usar a minha imagem sem autorização?”. E nós ficamos um bocado assustados, mas o Pedro, como um gajo criativo, teve uma boa ideia e pensou em tirar um partido positivo daquilo.

 

João: Mas ela estava mesmo chateada?

 

JG: Eu suponho que era capaz estar um bocadinho (risos).

 

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João: Mas então conseguiram dar a volta?

 

JG: Sim, basicamente o Pedro disse-lhe, a tentar tirar um partido positivo, que haviam coisas que eram verdade, como o Pedro ter sido sempre um grande admirador dela, desde miúdo, e pronto, usámos a imagem de uma forma saudosista (risos) e então acabou por correr tudo, e ela até nos convidou a ir a casa dela… Para nós, é uma história assim meio engraçada. Depois, quando estávamos a gravar o disco, o Pedro convidou-a a participar naquele single do disco, A Volta ao Mundo com a Lena D’Água, e foi giro porque eu estava a gravar e não sabia que ela ia participar, mas depois de repente começo a ouvir a voz dela… Foi uma surpresa engraçada.

 

João: A próxima pergunta é sobre a vossa mudança de estilo do primeiro para o segundo álbum, porque fui buscar uma citação da Comunidade Cultura e Arte em que se dizia a certa altura “os coros colegiais foram a certa altura substituídos por uma faceta de inquietação”. E eu comecei a lembrar-me de outras bandas com o mesmo período de existência que vocês, talvez um pouco mais, e a pensar que o percurso deles é precisamente o contrário. Eles começam mais inquietos com os riffs de guitarra mais pesados, e depois tendem a ficar mais pop, como por exemplo os Capitão Fausto…

 

JG: Pois, nós estamos a tirar as amarras, e eles estão a apertá-las… (risos). Não posso falar pelas outras bandas mas acho que este disco tem uma carga tão diferente porque as nossas vidas foram-se desenvolvendo, o Sebastião criou as músicas mas vamos beber dessa criação e também nos identificamos, porque a verdade é que as nossas amizades continuaram a crescer em conjunto, e há aqui uma resposta a isso, e se calhar é o que eles querem dizer com, como é que eles dizem?

 

João: “Os coros colegiais foram substituídos por uma faceta de inquietação”.

 

JG: Faceta de inquietação… Eu acho que tem a ver com mais tensão, não sei, se calhar mais obscuridade, mais procura de dimensões que ainda não sabemos que existem… Não sei.

 

SM: Só dizer uma coisa, acho que não há nada de obscuro naquele álbum (risos). Não sei qual é a ideia que passa de negativo…

 

João: O design do disco está mais para esse lado obscuro…

 

SM: Pois, se calhar é isso. O que ficou e o que acabou por ser obscuro é a ideia de ser real, ou seja, de ser cru. E realmente as cores iludem de uma forma, e tu não vês aquilo que é, porque estás distraído: como há demasiada informação, não vês a gênese da coisa. E era mais nesse sentido, não tanto a obscuridade.

 

João: Eu ia insistir mais um pouco nesta mudança que claramente se sente. A guitarra está mais presente e mais agressiva, mas, então, não quer dizer que foi propositado ou pensado?

 

SM: Não, isso foi tudo pensado.

 

JG: É, mas é uma libertação daquilo que não se fez ao início.

 

João: Era o que vocês queriam fazer?

 

JG: Não sei se queríamos exatamente isso ao início…

 

João: Agora?

 

JG: Ah, agora sim. Até porque há uma resposta também àquilo que nós percebemos depois de começarmos a dar concertos, porque quando gravámos o [primeiro] disco nunca tínhamos tocado ao vivo. Quado comecámos a tocar ao vivo, percebemos que as músicas tinham uns arranjos muito mais a abrir e divertiamo-nos muito mais assim. Portanto, a resposta foi essa: vamos gravar uma cena assim.

 

SM: Foi também um bocado por conhecimento das qualidades de cada um e de tirar partido das coisas boas e coisas más.

 

JG: O Francisco faz ali uma boa camada de coisas diferentes com a guitarra e queríamos tirar partido disso, daquelas coisas mais vibrantes…

 

João: Ou seja, foi menos desperdício de talento.

 

JG: Não, era uma escolha criativa e agora foi outra.

 

Maria nês: Na mesma linha da outra pergunta, quais são as diferenças que vocês sentem na música portuguesa desde que começaram até agora?

 

JG: Sinto que cresceu imenso. Nós já aparecemos numa segunda vaga, porque a primeira é tipo Amor Fúria e assim, Flor Caveira e tudo mais. E nós já aparecemos inspirados por eles, e entretanto a coisa continuou a crescer muito mais, muito especialmente por causa deles, da Flor Caveira e de Amor Fúria, foram pioneiros nesta nova onda portuguesa, e se não fossem eles provavelmente não estávamos assim aqui. Mas crescemos e acho que está num excelente caminho, está ótima, há imensa oferta. Nos anos 90 só se consumia música estrangeira, e eu acho que neste momento temos condições para ter muito mais música nacional, seja cantada em português ou inglês, tanto faz.

 

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João: Eu já quase só oiço música nacional.

 

SM: A sério?

 

Ana: Ah, mas isso é porque não percebes inglês (risos).

 

João: Tinhas que me envergonhar Ana…

 

Ana: Desculpa (risos).

 

SM: Ah mas estás a falar a sério [em relação a só ouvires música portuguesa]?

 

Ana: Ele está a falar a sério.

 

SM: Mas isso é bom pá, é excelente. Há sempre muito impedimento [em relação à música portuguesa]…

 

João: E preconceito.

 

SM: Impedimento e preconceito, porque acho que há coisas que não consegues controlar neste processo, se calhar ouves música portuguesa e se calhar as pessoas estranham… Eu não oiço muita música portuguesa, por acaso, mas acho que há aí um bom caminho. Mais por causa do público.

 

Ana: Eu queria colocar ainda uma questão, nesta linha, vocês acham que as plataformas de streaming facilitam muito a divulgação de música portuguesa?

 

JG: De forma que facilita ouvir música que se calhar não seria ouvida se não tivesse editora. É ótimo, porque é muito fácil pôr a música online.

 

Ana: E receber benefício por isso, por exemplo vocês podem por no Bandcamp uma música mas não estão a ganhar com isso.

 

JG: Sim, mas acho que há benefício….

 

Ana: Vocês são apologistas de partilhar a música para as pessoas se divertirem a ouvi-la e não tanto para o benefício próprio de fazer dinheiro com isso?

 

JG: Sim, mas quando há benefício é ótimo.

 

SM: Eu acho que a posição aqui é um bocado diferente disso, acho que o objetivo nunca é esse, nós estamos a criar um vácuo para as pessoas que vêm a seguir, porque estamos a escavar cada vez mais a possibilidade disto, mas pá, toda a gente quer dispor o seu produto e toda a gente continua a fazer. As possibilidades estão cada vez mais reduzidas para quem ainda não tem poder, porque quem tem seguidores e tem estrutura consegue tomar mais decisões dessas. Neste momento nós não temos assim tanta liberdade para tomar decisões contra nós, estás a perceber? Mas gosto disso, e uso e desfruto disso, por isso, não pensei o suficiente sobre esse tema (risos).

 

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Ana: Na boa, nós compreendemos.

 

SM: Mas é importante, e acho que conheço as opiniões de diferentes pessoas, e compreendo-as todas, por acaso.

 

Maria Inês: Se vocês pudessem fazer uma colaboração com um artista português com qual seria?

 

JG: Nós já fizemos, com a Lena D’Água (risos).

 

Ana: Tirando a Lena D’Água…

 

João: E o Pedro de Tróia também.

 

JG: Acho que o Sam the Kid… Não sei, estou a gozar (risos). Nunca pensei em mais nenhuma colaboração, pelo menos numa específica, como aconteceu com a Lena.

 

Maria Inês: E internacional?

 

JG: Internacional? Isso é muito mais difícil… Nós cantamos em português…

 

SM: Com o Quim Barreiros (risos).

 

Ana: Se calhar, ele é muito divertido portanto…

 

JG: Nós por acaso nunca pensámos nesse tipo de colaboração, mas poderia acontecer… Não sei é com quem.

 

SM: Mas há essa possibilidade?

 

JG: Não, por acaso não (risos).

 

João: E com outra malta do vosso estilo? Luís Severo, Filipe Sambado, sei lá…

 

Ana: Estás a rotular o estilo agora… Já falámos sobre isso… (risos).

 

João: Pronto, não no vosso estilo mas da vossa onda.

 

JG: Talvez… É muito mais giro misturar coisas completamente diferentes…

 

SM: E não se sabe o que iria resultar, e isso é bom. Muitas parcerias que resultaram foram tipo novo e velho, aquela do Carlos Santana no Maria Maria, são dois miúdos do soul da altura, não faz sentido…

 

JG: Não sei quem canta, sei que é música do Santana. Cenas diferentes como Manuel Cruz e o Carlão resultou muito bem.

 

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João: Ok, última pergunta. Quem faz?

 

Ana: És tu, para acabar em grande.

 

João: Então vá, eu faço metade e tu fazes a outra metade.

 

Ana: Ok, pode ser.

 

João: Qual foi o concerto que mais gostaram de dar até agora? Assim em 5 segundos.

 

JG: Deste ano?

 

João: Não, de sempre.

 

JG: Eu gostei muito do Mexefest. Foi muito fixe.

 

SM: O Bons Sons.

 

JG: Pois, o Bons Sons também foi maluco.

 

Ana: Bem, última parte da questão: qual é o concerto que falta dar?

 

JG: Faltam muitos…

 

Ana: Deste ano falta o do MusicBox não é (risos)?

 

JG: Não sei o que falta…

 

João: Tendo em conta que vocês são independentes e não mainstream, qual é aquele palco?

 

JG: Não há uma relação direta entre independente e mainstream

 

João: Agora tramaram-me.

 

JG: Há muita malta independente que é mainstream, como o Bon Iver por exemplo.

 

SM: Mas cá em Portugal?

 

João: Sim.

 

SM: Um palco em Portugal…

 

JG: Eu percebo o que queres dizer, o caminho é mais difícil, mas nunca é associado. Tem a ver com aquela cena das aventuras.

 

SM: Um dos maiores palcos em que eu já estive, foi há para aí 10 anos e não tenho ideia de ver aquilo, mas foi o do Santiago Alquimista.

 

JG: Antigamente haviam imensos concertos lá, era ao pé do Castelo São Jorge. Acho que agora foi comprado…

 

SM: Mas estás a falar de um festival, ou?

 

João: Não, o que vocês acharem melhor.

 

SM: Não sei… Graça, tu conheces palcos, andas aí a agenciar coisas…

 

João: Altice Arena?

 

Ana: Isso tem uma acústica péssima.

 

JG: Mas há sítios giros…

 

SM: O Coliseu dos Recreios pá, esse palco é incrível.

 

Ana: E tem uma boa acústica.

 

SM: Por acaso tem, é perfeito.

 

João: Fica esse (risos).

 

JG: É difícil fazer estes planos assim, tanto esse como outro qualquer. Coisas grandes.

 

SM: Portanto, segundo o Graça, tudo e nada (risos).

 

JG: Todos e nenhum. Mas falta-nos imenso ir ao sul.

 

Ana: Pois, vocês nunca tocaram no Festival F pois não?

 

JG: Não.

 

Ana: É em Faro, lembrei-me agora assim…

 

JG: Pode ser para o ano, mas mesmo sem ser em Faro, nunca fomos tocar ao sul, sem ser a Évora, foi o mais sul que fomos.

 

João: Falta essa parte.

 

JG: Sim, acho que pode ter uma caraterística cultural, o facto de ainda não termos lá ido. Acho que há menos oferta em geral, menos coisas a acontecer em geral, não é?

 

Ana: É verdade.

 

João: Tens mais centros de cultura de Lisboa para cima.

 

JG: Do que para baixo. Sim, mas falta-nos ir ao sul de Portugal.

 

João: Depois se forem ao Algarve não podem tocar os “Montes da Beira” (risos) porque ninguém vai perceber…

 

SM: Tem que ser as “planícies” (risos).

 

Os entrevistadores: Ana Machado, João Duarte, Maria Inês Opinião

Fotografias: Sara Pacheco

10
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte I)

Jur.nal

Num frio fim de tarde o JUR.NAL, pela mão dos entrevistadores João Duarte (3.º ano da Licenciatura), Maria Inês Opinião (2.º ano da Licenciatura) e Ana Machado (Mestrado em Forense e Arbitragem), com as fotografias da Sara Pacheco (3.º ano da Licenciatura) recebeu na sala 007 Sebastião Macedo e João Graça dos Ciclo Preparatório, banda independente de Lisboa que conta já com vários anos de estrada e dois álbuns (o mais recente, Se é Para Perder Que Seja de Madrugada, de 2018).

 

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Ana: Surgiu-nos uma pergunta muito profunda que é: porque é que é melhor perder de madrugada?

João Graça: Pá, realmente nunca pensei muito sobre isso…

João: Foi letra tua? [Pergunta para o Sebastião Macedo].

Sebastião Macedo: Foi. Mas não significa que saiba (risos). Mas talvez seja porque tens a noite toda a tentar não perder, ou aceitar…

João: Portanto se for para perder é melhor de madrugada porque ainda está meio escuro…

SM: É mais uma coisinha para acrescentar…

João: São aquelas coisas que surgem no processo criativo sem nenhuma razão?

JG: Não, foi simplesmente parte da ideia dele, e ficou aquela frase e usou-se para o título do disco.

João: Bem, nessa linha queríamos saber - e fez agora um ano do lançamento do vosso segundo álbum - qual o balanço que fazem da receção do álbum?

JG: Este foi preparado e promovido de maneira diferente, com menos recursos, foi uma edição de autor. O primeiro tinha sido com a Optimus Discos, depois NOS discos. Depois a coisa ficou de outra forma. Foi um investimento muito grande da parte deles na parte da promoção. E agora fomos nós que fizemos tudo, com ajuda do nosso agente e manager. Portanto, agora tivemos menos impacto. Mas acho que a quem chegou foi bem recebido. Pelo menos percebemos que sim.

 

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João: O público gostou?

JG: Sim. Exatamente.

João: E isso notou-se nos vossos concertos? Ou seja, passaram 5 anos sem voltar, e quando voltaram notou-se?

JG: Sim, sim. Especialmente em Lisboa, que tivemos a casa cheia. Mas fora também: em Coimbra e no Porto o ambiente foi bom. Depois fomos assim à Covilhã, que também foi fixe.

SM: Mas acho que a nossa perceção sobre a receção do disco passa muito por estarmos muito mais confortáveis com aquilo que nós tínhamos feito. Ou, se calhar, mais conscientes. E podemos também desfrutar mais, mas essa é só a nossa perceção. Em termos estatísticos, provavelmente, o último foi [bem-recebido]. A nossa sensação deste é que estava tudo mais sólido e estruturado, e se calhar uma próxima coisa já será mais fluída.

Maria Inês: Tenho uma pergunta específica em relação a uma das músicas, que não sei se foste tu que a escreveste, mas é a “Montes da Beira”. O que é que se está a passar (risos)? Qual é que é a ideia por detrás?

SM: O que é que tu achas, o que te parece? Tens alguma ideia? Alguma coisa que te confunda?

Maria Inês: É assim, à partida, a primeira vez que ouvi essa música fiquei a achar que era literalmente montes da Beira, tipo Beira-Baixa, mas depois fiquei a achar que podia ser um bocado relacionado com a Guerra. E isto pode ser já um stretch, mas porque vocês têm um approach próximo à realidade portuguesa, tenho estas duas teorias.

Ana: Teorias da Conspiração (risos).

SM: Não, essas coisas estão todas lá. Estão é inseridas numa realidade que motivou a fazer aquilo. Mas estão todas lá. Podes ficar com isso. Não vale a pena eu estar a estragar com algo concreto que tenha que não te vai dizer nada. Estão todas na minha ideia, só com outra cara e com mais coisas.

João: Mas qual foi essa realidade? Que motivou a escrever?

SM: Coisas mais de experiência… De vida e de história… De momentos que ficaram na cabeça. E tenho coisas muito concretas, mas a ideia geral não é assim tão concreta e, sei lá, não penso muito depois de ter feito. Lá, é muito claro, tipo sei exatamente o que quero, mas depois fecho, e se for pensar agora provavelmente vou arranjar uma justificação que não é racional e que fará mais sentido agora do que aquilo que estava a tentar dizer sobre o que pensava na altura. Mas acho que estás numa realidade perfeitamente coerente.

 

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João: Ela foi logo para a teoria da Beira Baixa porque é do Fundão…

Maria Inês: Sim.

Ana: Exato (risos).

SM: Seria Beira Alta neste caso… Mas próximo…

Ana: Bem, próxima questão: nós gostaríamos de saber se estão a preparar algum single ou álbum para breve.

JG: Temos aqui umas ideias… Mas ainda estamos a reunir os ingredientes (risos). Ainda não há assim nada concreto.

SM: Por acaso foi proposto pela agente fazermos.

JG: Estamos todos a colaborar…Mas vão haver novidades em breve, não sabemos quão em breve, mas no início do próximo ano.

João: Ou seja, não vão deixar passar tantos anos de intervalo entre projetos.

JG: Exato. Queremos mesmo continuar… Mas é complicado, sendo uma coisa altamente independente, não é tão fácil. Mas pronto, vamos continuar a tentar e com essa persistência crescer também.

João: E este intervalo de 5 anos entre os dois discos. Foi propositado?

JG: Foi um bocado feito do que foi acontecendo nas nossas vidas particulares. Alguns de nós… como o Francisco que foi estudar para fora, tivemos cursos para acabar, trabalhar também. Foram coisas que foram acontecendo, e como em simultâneo, ali naquela fase pós-primeiro disco, não pusemos mãos logo à obra, se calhar perdeu-se um bocado o timing necessário. E pronto, depois foi uma coisa que foi acontecendo e foi o recomeçar o processo, que começou no Verão de 2017. Foi um processo longo, compor e gravar, e o disco só saiu em 2018.

 

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João: Mas vocês no início, quando lançaram o [primeiro] disco tiveram bastante sucesso. Chegaram a atuar num Super Bock. Bem, não nos lembramos porque éramos demasiado novos, isto é tudo fruto de pesquisa, mas queria perguntar se vocês achavam que conseguiriam ser - não sei se é a melhor palavra - profissionais, ou pelo menos viver da banda.

JG: Pá, talvez. Eu tenho esse desejo, pessoalmente. Mas não sei se na altura, mesmo tendo sucesso, se achava que ia ser uma questão de causa-efeito tão óbvia, mas se calhar na altura tínhamos alguma esperança.

SM: Tínhamos mais ilusão que seria possível. Mas não sabíamos nada sobre o que estava entre o possível. Agora temos mais consciência sobre o que está entre o possível ou impossível, portanto com tempo se calhar conseguimos gerir as expectativas de forma mais moderada. Mas se calhar mudou-se um bocado o objetivo, quando és mais novo precipitas-te muito nos objetivos que queres e perdes-te um bocado. E, aqui, estamos a pensar numa coisa de cada vez e consoante o tempo que se arranja, porque já se percebeu que se viesse alguma vez a acontecer não seria de um dia para o outro. Temos de desenvolver outras coisas e perceber o que nos enriquece.

Maria Inês: Vamos voltar a tocar num ponto que tocámos há bocado, que é serem uma banda independente.

JG: Exato, exato.

Maria Inês: Qual é a diferença entre uma banda independente e outra que o não seja, e qual é o porquê de serem uma banda independente.

JG: Porquê? É só uma questão de oportunidade, ou se ninguém quiser dar oportunidade, pelo menos de forma independente podemos sempre construir algo.

 

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João: Mas no início?

JG: Com o primeiro disco? Sim, aí tivemos uma abordagem logo direta com a Optimus. Nós gravámos um single que na altura foi mostrado ao Henrique Amaro, da Antena 3, e ele colocou-o nos Talentos Fnac, e depois a Optimus Discos teve uma abordagem logo no sentido de financiar e editar. Na altura foi aos Pontos Negros e depois a nós, e depois não sei se continuaram a financiar ou não. Mas a grande diferença entre ser independente ou não é o suporte que há. Ter alguém que ajude a colocar o disco disponível, alguém que financie e trabalhe a promoção.

João: Mas por que não houve essa continuidade a partir do primeiro disco?

JG: É assim, nós tomamos a decisão de nem sequer tentar uma editora, porque nós podíamos escolher mostrar o disco que já estava gravado. Só com o disco pronto é que decidimos o que íamos fazer. Podíamos ter ido à Sony, ou à Warner, e se eles quisessem compravam, mas nós achámos que neste momento o melhor seria termos tudo por nossa conta. Tem que se dar muita coisa em troca quando se arranja uma editora. Há muitas decisões que não são tomadas por nós, pelo menos totalmente, portanto foi uma decisão boa porque podemos decidir tudo por nós.

João: E têm-se sentido bem assim?

JG: Sim. Agora, não sabemos se vai ser sempre assim. Até porque às vezes dava jeito outro tipo de suporte. Mas pronto…

Ana: Nós gostávamos de saber quais são as vossas inspirações portuguesas para o vosso estilo musical. Em que é que vocês se inspiram?

SM: Eu não vejo tanto como influências musicais, se calhar inspirações. Mais no sentido de influências que vejo mas não são necessariamente musicais. Mas há vários livros de autores portugueses, ou quadros portugueses…

João: No teu caso em concreto, porque escreves maioritariamente as letras.

SM: Sim, exato, mas também faço muitos instrumentais e é sempre bom essa ideia de não ser bandas, porque é sempre mais com imagens, e é isso que tento induzir-lhes quando eles estão a fazer, só para encaminhar. É mais universal do que dizer só “faz essa banda, só esta linha de guitarra, mais nada”. Se puseres uma imagem, o gajo vai até à imagem e aí encontra a sua linha musical para servir daquilo, e não há nada que vai ficar aí preso.

Ana: E se calhar também não vai ficar muito parecido com uma banda. Se vocês se inspirassem numa banda ou assim já podia ser uma coisa muito parecida.

SM: Mas é um pouco mais descontrolado. Portanto, nestas coisas há sempre alguém que conhece algo que não conheces e vai dizer que estás a copiar isto (risos) mas há mais espaço para fazer.

JG: Nós ficamos a saber mais quem são as nossas influências depois de lançarmos o nosso disco (risos) e sempre por outras pessoas!

João: Exato, são rótulos que as pessoas põem.

Ana: E o Spotify também, com os artistas parecidos (risos).

João: Já agora, posso ver quem é que aparece… Não sei se vocês têm ideia.

JG: Eu, por acaso, no Spotify, acho que é um algoritmo de o que as pessoas gostam de ouvir. Mas é assim, nós conhecemos as críticas: eram relacionadas com coisas como os Heróis do Mar, coisas assim, e acho que quando gravámos era isso que lá estava (risos).

SM: Também dizem Diabo na Cruz… Mas nenhuma dessas bandas está na nossa cabeça. Não ouvimos muito, mas gostamos todos.

João: Estava aqui a tentar encontrar… Valter Lobo, São Pedro, Samuel Úria, Luís Severo, os Pontos Negros… é o que me aparece.

SM: É um bom caminho (risos).

Ana: Próxima pergunta és tu (risos).

João: Está aqui. Era mesmo… Tinha mesmo a ver com isto, eu fui ver uma entrevista vossa ao Público, de 2013. O Público não, o P3, segmento do Público…

JG: Nós demos uma entrevista ao Público?

Ana:  Também não há muitas entrevistas vossas portanto… Chegamos lá facilmente (risos)

JG: Sim, na altura tínhamos alguém que tratava disto por nós.

João: Se calhar não é uma entrevista, é tipo uma chamada deles para o vosso álbum que tinha saído. Mas eles descrevem-vos como “grupo coral, pop especial rural chique delicodoce”.

 

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SM: Por acaso essa descrição foi ponderada (risos).

João: Ponderada como assim?

JG: Porque não foi o Público que inventou isso… Isso foi mesmo algo que partiu de nós.

SM: Quando surgiu a banda…

João: Mas, em jeito de brincadeira?

SM: Claro (risos).

Ana: Não, é muito a sério (risos)

João: Ou vocês formaram a banda e decidiram “vamos tocar música em coral pop especial delicodoce?” (risos).

JG: Não sei se vocês são do tempo de páginas de MySpace.

Ana: Sim, eu sou (risos). Sou, sou.

Inês: Eu já não.

JG: Quando era mais puto tive uma banda e nós, como todas as bandas e como erámos putos fazíamos páginas de MySpace. E, pá, é sempre a guerra de pôr o género na descrição (risos), mais perto daquilo que gostávamos que fosse, mas que não vai ser necessariamente.

 

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SM: Ou então só punhas cenas aleatórias.

JG: Mas, então, isto é uma brincadeira que suponho eu que tenha vindo um bocado nesse sentido. Uma desidentificação quase daquilo que poderá ser qualquer música.

SM: Vocês têm alguma banda?

João: Não, não. Temos a tuna (risos).

SM: Olha, fixe.

João: Acaba por ser (risos) mas então, ainda melhor: partiu de vocês esta brincadeira. Podem explicar um bocadinho? Ou é ironia completa?

Ana: Pelo menos o chique está lá.

JG: Bem, “grupo coral” porque as nossas músicas têm alguns arranjos assim de harmonias com vozes, portanto pode fazer algum sentido. “Pop” porque não é pop (risos). “Especial” porque há quem diga que sim (risos).

SM: Acho que “especial” era pela conotação negativa até (risos).

JG: “Pop especial”... Se calhar queria dizer pop espacial… (risos). Pá, eu “rural chique delicodoce” acho que já é só mesmo [invenção].

João: O rural eu vejo na “Casa da Lamarosa”.

JG: Nem mais, a imagem inicial que nós tínhamos, em que estávamos mais focados, era a nossa quinta de férias. Que, atenção, é só uma casa de família de um de nós.

João: Do José?

JG: Exato.

João: E foram lá as vindimas este ano, ou não foi na Lamarosa?

JG: Não foi lá, foi na Beira Alta.

João: Nos montes da Beira (risos).

JG: Exatamente.

João: Eu lembro-me dessa publicação… E o “delicodoce”?

JG: É a suavidade…

SM: Isso eu vejo, é que a voz do João é uma voz muito delicada e doce… (risos). Mas também porque foi sempre o objetivo haver uma espécie de contraste, era algo que era sempre comum na música que tocamos.

João: E as vozes da Benedita e da Constança também são delicodoces… Passando à próxima… Esta é uma pergunta especial (risos).

 

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Maria Inês: Nós queríamos saber o porquê do visual mais retro (risos).

JG: O nome também é retro… (risos).

SM: Em que consiste um visual retro?

Ana: Roupas dos avós (risos).

Maria Inês: Sim, basicamente. Abrimos o armário dos avós e é o que temos lá dentro…

João: E podíamos fazer aqui uma sondagem de nós os quatro para ver quem é que sabe o que era um “Ciclo Preparatório”. Sabem o que era o ciclo preparatório?

Ana: Sim… (risos).

João: Já não é do nosso tempo.

JG: Nem do nosso (risos).

Inês: É a escola primária.

João: Afinal sabemos…

JG: Sim, eu acho que era a primária. Ou será quinto e sexto [ano de escolaridade]?

Maria Inês: Pois, o preparatório se calhar era o quinto e sexto.

João: Faz mais sentido, eu acho que é.

Maria Inês: Se calhar até ia até ao 9º.

Ana: Pronto, temos uma discussão aqui…

João: Eu acho que era o atual segundo ciclo. E podemos aproveitar para fazer a pergunta clássica do porquê [do nome].

JG: Pois, porque está tudo um bocado na mesma questão, o porquê do nome e do visual. Acho que tem tudo a ver com a valorização do que era bom no passado.

João: Heróis do Mar… (risos). Mas numa época mais fácil de fazer isso… Não um pós 25 de Abril.

SM: Sem conflito… Mas essa ideia das roupas e dessa imagem toda era porque há uma grande dificuldade das bandas em surgirem. Quer dizer, hoje em dia é mais fácil fazer com que surjam, mas a imagem é sempre uma coisa que é muito igual, portanto é uma forma de destacar. Foi pensado na altura, maioritariamente não por nós… Mas hoje em dia já começa a diluir, porque a partir do momento em que começas um caminho, apesar de nós se calhar não nos identificarmos necessariamente com aquela imagem, temos coisas que usávamos, mas nunca era…

João: Não são betos (risos)?

SM: Não somos agrobetos… (risos).

JG: Agro não porque nenhum de nós é agricultor (risos).

João: Vocês são todos de Lisboa?

SM: Sim.

João: Então são só betos. Ou não são betos?

JG: É assim, isso é uma construção social (risos) meio estranha. O que é que se pode dizer…

João: Pronto, são normais.

JG: Sim, somos pessoas normais, como tantas outras.

SM: Há esta falta de definição, mesmo da nossa parte, porque achamos bem antecipar uma definição que se calhar até nos protege, porque no fundo as pessoas que estão a avaliar aquilo não estão a avaliar-nos.

João: Há uma pequena guerra num vídeo de Youtube, no “Lena Del Rey”, onde o pessoal nos comentários… Não sei se já viram.

JG: Vi no outro dia um comentário que era: “Ei tanto beto” (risos).

 

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João: Portanto isso começou uma guerra de comentários sobre se são betos ou não… Isso tem muita piada (risos).

JG: Se somos ou não, bem eu sei o que as pessoas dizem sobre o que é ser beto, agora, não acho que isso seja uma questão sequer (risos), percebem? Se a ideia é que os nossos pais têm vários irmãos e que temos muitos primos (risos) e se as nossas famílias são grandes… Se for isso então sim, qualquer um de nós vem de famílias compridas.

João: Ok, mas o pessoal comenta a personagem que vocês criam na banda, não vocês próprios, através da roupa e tudo mais.

Ana: Também porque não os conhecem, não é?

SM: Os nossos vídeos são iguais a toda a gente, não percebo… É o que quiserem (risos).

JG: Quando éramos pequeninos íamos à missa, penteadinhos com as nossas mães. Se isso é ser betinho então acabamos por ser… (risos). Crescemos assim. Mas não é o que nos define.

João: A zona de Lisboa a que vocês pertencem também influencia isso.

Maria Inês: A escola…

João: Se vocês forem de Belém…

Ana: Do Restelo…

JG: Não, nós somos ali da Estrela.

Ana: Ah também, pronto (risos).

JG: Também pode ser… Estrela, Lapa… (risos).  Mas há coisas que são mais importantes, como a forma de estar no dia-a-dia, as atitudes que se tem. Acho que isso é que importa.

 

(Continua...)

13
Nov19

Entrevistas #6 - Benjamim

Jur.nal

“(…) escritor de canções, músico e produtor. Em 2015 lançou 'Auto Rádio' e em 2017 gravou '1986', disco a meias com o músico britânico Barnaby Keen.” É o que se começa por ler na biografia da página de Facebook de Benjamim, que, de resto, deu que falar nesta entrevista. A Micaela Ribeiro e o André Certã, ambos alunos do 3.º ano da Licenciatura, partiram para a conversa com este multifacetado artista português.

 

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André - Quem é o Benjamim?

Benjamim – O Benjamim é uma personagem que eu criei para escrever canções, basicamente. Vem originalmente do Walter Benjamin, que era outra personagem que eu criei para fazer canções em inglês. Mas depois passei a escrever em português e achei que o nome já não fazia sentido e fiquei só com o ‘Benjamim’. Acaba sempre por haver uma vontade de escapar ao nome [Luís Nunes] (risos).

André – Sendo nós alunos universitários gostávamos de conhecer a tua experiência universitária.

B – Comecei por estudar Antropologia na NOVA. Fui para lá em 2004 e saí em 2008. Foi uma boa experiência, acabei o curso. Depois, tive uma experiência em Londres. Estudei Engenharia de Som. Portanto, tenho dois currículos académicos bastante diferentes.

Micaela – De onde surgiu Antropologia?

B – Honestamente, veio de não ter média para Direito (risos). Acabou por ser engraçado porque apesar de ter Direito como primeira opção nunca quis fazer Direito. Era uma obrigação moral que eu sentia pelas expectativas familiares. Mas não entrei, e ainda bem, porque se tivesse entrado não teria acabado o curso porque é demasiado exigente para um gajo como eu que passou a Faculdade a fazer música.

Micaela – Consideras que o ambiente da FCSH te ajudou a perceber que o caminho era a música?

B – Foi claramente um ambiente mais favorável porque existiam mais pessoas ligadas às artes. Há malta ligada às artes em todas as Faculdades, mas na FCSH… eu conheci o B Fachada na FCSH! Foi absolutamente determinante no início da minha carreira musical.

 

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André – Focando-nos agora na tua música, e recuperando teu último álbum: como foi gravar o 1986 com o Barnaby Keen e todo o percurso que se seguiu com ele?

B – Isso surgiu porque eu conheço o Barnaby de Inglaterra já de alguns anos. Cruzámo-nos quando estava lá a trabalhar e acabei por fazer som para a banda dele. Ele percebeu que eu era português – ele viveu no Brasil e fala português, e é fanático por música brasileira. Criámos uma amizade baseada nisso. Ele é um grande músico. Houve uma vez em que veio a Portugal e fizemos uma jam juntos e aquilo estava a soar bem. Surgiu-nos a ideia: ‘bora fazer um conjunto, e fazemos um álbum em que eu posso cantar músicas tuas e tu músicas minhas. Ele veio duas vezes a Lisboa, depois, e gravámos. Foi incrível andar com ele na estrada.

Micaela – Em relação ao teu primeiro álbum, o Auto Rádio, que pessoalmente é o meu preferido, tem a canção Exílio. De onde veio? Parece-me uma ode de agradecimento a Lisboa.

B – Não é bem um agradecimento. Surgiu numa altura em que eu estava chateado com Lisboa- Foi quando voltei para Portugal, em 2013, na altura da crise, em que toda a gente dizia “não voltes, aqui não há nada”. Nasceu um pouco de eu andar por Lisboa à noite e pensar nos prédios com centenas de anos que resistiram a crises bem piores e continuam de pé. É essa ideia de que a vida continua e teres de te agarrar à cidade como coisa constante na tua vida.

André – Com o álbum 1986, a Terra Firme tornou-se a tua canção mais famosa. Como te sentes em relação a isso: tinha-lo previsto?

B – Não (risos). Não tinha previsto nada disso. Nunca prevejo esse tipo de coisas. Imagino sempre que vai correr mal, e depois logo se vê se corre bem. Foi surpreendente, e obviamente fiquei muito feliz. Na verdade, era uma canção na qual eu acreditava bastante, e acabou por ser uma grande luta chegar a ela tal qual ficou no disco, houve até momentos em que me disseram que a devia tirar. Foi uma canção que teve um parto algo difícil e, portanto, foi surpreendente ver o quanto cresceu e o impacto que teve. Fui completamente apanhado de surpresa. É uma canção que, ao contrário de outras, eu não me farto de tocar, e, portanto, fico contente que tenha ressoado nas pessoas.

André – Mas, ao contrário de outras canções, Terra Firme tem um cariz diferente, mais político.

B – Sim. Não lhe chamaria político, mas mais humanista em consciência. Não é uma canção política nem pretendo ter intervenção política. Estava no sofá, a assistir ao que se passava no mundo (na altura, havia mais ecos do Mediterrâneo), e tinha um pouco aquele sentimento de impotência. A única coisa que podia fazer era desabafar [através da música].

André – E o resto do álbum tem alguma back story?

B – Tem referências ao mar, que eu acho que têm a ver comigo. Não foi propositado. As minhas quatro canções deste último álbum são todas diferentes. Não tentámos que as canções tivessem uma ligação entre elas, porque isso era muito difícil de fazer e talvez nem desse grande resultado. A nossa ideia foi conseguir uni-las através da nossa energia musical. Mas são histórias diferentes.

 

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Micaela – Há muitos artistas que dizem que os pontos maus das suas vidas são o que lhes dá mais criatividade. Revês-te nisso?

B – Não quero acreditar nisso, espero que não seja verdade (risos).

Micaela – Se tivesses de escolher uma das músicas de todas as que já compuseste para te caracterizar enquanto músico qual seria?

B – Neste momento, é a Terra Firme que mais me representa. É uma canção na qual me revejo muito. Se pensar na Os Teus Passos ou na Tarrafal, os meus primeiros singles, e que lançaram o projeto, são canções nas quais eu me revejo pouco, mas foram muito importantes quando comecei a tocar. Também já estou um pouco farto: fiz 200 concertos com aquelas músicas, a certa altura começas a ganhar aversão… e há canções que sobrevivem melhor [Terra Firme]. Não me chateia nada que as pessoas me conheçam só por essa canção; seria pior se só me conhecessem pela Os Teus Passos ou pela Tarrafal.

Micaela – Que artista português podes dizer que, neste momento, está na tua playlist?

B – Olha, o Luís Severo está na minha playlist, o Filipe Sambado também. O B Fachada obviamente. Mas estou a esquecer-me de nomes…

André – O B Fachada é quase um ícone. Também na entrevista ao Luís Severo se falou dele.

B – Ele foi um grande precursor. Em 2008, com a Flor Caveira, quando aparece ele, o [Samuel] Úria, essa malta toda…, o B Fachada obviamente teve muito destaque na altura, e era um gajo que ocupava um território um bocado diferente porque não era religioso. De entre aquela malta toda ele apelou a públicos um pouco diferentes. Foi um pouco mais longe, na altura, do que os outros. Não esquecendo, obviamente, o Úria que hoje tem uma grande carreira e é um gajo que eu ouço bastante. E ando a ouvir muito Sam The Kid! [Ainda sobre a pergunta anterior].

André - Recentemente, quando aconteceu o triste falecimento do Daniel Johnston, puseste um vídeo no teu instagram de uma cover tua da True Love Will Find You In the End.

B – Não é uma grande cover (risos). Senti um bocado de vergonha com essa gravação.

André – Eu, pessoalmente, gostei. E também gosto do Johnston. Ele teve alguma influência na tua música?

B – Sim, claro. Quando eu o descobri foi um pouco uma revelação. Aquele tipo de som lo-fi… eu já tenho 33, portanto sou daquela geração que bebeu muito do indie rock dos anos 90 americano (Yo La Tengo, Pixies, Nirvana, Smashing Pumpkins, …) e, obviamente, nesse pacote também há Daniel Johnston. Aquela maneira de cantar deixa-te desconfortável, tu não percebes se gostas ou se não gostas – aquele som mais cru. Mais depois acabas por te apaixonar. Eu gosto mesmo muito da música dele.

 

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André – Tu colaboras com outros músicos portugueses, nomeadamente a Lena D’Água. Donde surgiu esta colaboração, tendo em conta que se trata já de um ícone da música portuguesa?

B – Eu conheci a Lena porque a tinha posto nas minhas influências no meu perfil de Facebook, e ela, uma vez, ouviu uma música minha na rádio e foi investigar no Facebook quem era eu. Deu de caras com a minha página no Facebook e viu lá o nome dela… mandou-me mensagem e começámos a falar. Depois, veio fazer uma colaboração comigo, na última vez que toquei no CCB, há 3 anos. , e eu sempre tive a cena de querer trabalhar um dia com ela. Entretanto, mais amigos meus também andavam a namorar essa ideia e acabaram por também tocar com ela. A primeira canção que gravámos com a Lena foi no Festival da Canção, há 3 anos. Aí, fomos a banda de suporte dela e fomos nós que gravámos a canção dela. Fomos à final, ganhou o Salvador [Sobral]. Foi aí que tudo começou – estivemos 2 anos a gravar o disco dela [Desalmadamente, 2019].

André – Quanto à Joana Espadinha, têm juntos a canção Leva-me a Dançar. De onde surgiu essa tua colaboração?

B – Eu conhecia a Joana apenas de “Olá, tudo bem?”. Conhecia, na altura, o João Firmino, namorado dela, vocalista dos Cassete Pirata. Houve um dia em que ela me mandou mensagem a convidar-me para um café dizendo que gostava muito de falar comigo, e surgiu a ideia. A história é mais comprida que esta, mas basicamente foi o que aconteceu. Sendo que desde este momento até começarmos a trabalhar demorou cerca de 1 ano. Houve uma série de coisas que tivemos de harmonizar.

André – Planeias algum álbum em breve? Qual o futuro do Benjamim?

B – Eu estive 3 anos a produzir montes de discos (Joana Espadinha, Cassete Pirata, Flak, Lena D’Água, e agora João Pedro Pais, muito recentemente), foram muitas coisas e foi muito duro em termos de trabalho. Cada disco são meses em que estás focado naquilo. É um trabalho física e psicologicamente muito exigente. E agora cheguei à fase em que parei completamente de trabalhar para outros e estou só focado em fazer o meu disco e fazer canções (desde o verão de 2018). Em 2020, seguramente, terá de haver um disco. Se não, estou tramado (risos).

 

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Micaela – Vais manter a vibe dos discos anteriores ou podemos esperar algo de diferente?

B – É diferente. Não há guitarras, quase. É quase tudo ao piano, sintetizadores, caixas de ritmo, bateria, baixo… Estou um pouco a explorar o universo. Eu sempre gostei de música diferente, e odeio que a coisa fique ali sempre naquele rock. Portanto, acho que o disco vai ser bastante diferente do que foram os anteriores. Quando acabei de gravar o 1986 comecei a gravar um disco sozinho, um disco muito eletrónico, que se chama Berlengas e que já está quase todo gravado, mas ainda não está terminado. É uma espécie de disco perdido. Então, nós, no CCB [próximo concerto], também vamos tocar uma malha desse disco. No CCB acho que se vai perceber a onda do novo disco, mas não completamente (há canções que “puxam mesmo a corda” do ponto de vista sónico e que no CCB não conseguimos explorar).

André – A nível internacional, o que tens na tua playlist?

B – Eu ouço muita música, e demoro muito tempo a ouvir discos. Sou crente de que 85% das coisas que saem num ano não são assim tão boas. Hoje em dia há tanta informação, tanta música, tanta coisa apresentada como grandes projetos que é muito difícil seguir. Então, tento agarrar-me às coisas que ficam. Acho que o disco que tenho curtido mais este ano é o último da Sharon von Etten. Fiquei coladíssimo ao disco, é um dos que me marcou muito este ano. Depois, também ouço muitas coisas antigas: anos 60, 70…

André – E Benjamim consulta o Spotify… (risos).

B – Olha, tenho aqui Filipe Sambado, Elliot Smith, Purple Mountains, Glockenwise, Bob Marley, Little Joy, a All Things Must Pass do George Harrison, Capicua, Jungle, Beck, Panda Bear, Barnaby Keen, Primeira Dama, Beatles…

 

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Micaela – Houve algum momento-chave em que tu pensaste, quando eras novo, que era mesmo isto que querias fazer para a vida?

B – Foi gradual. Eu comecei por querer ser polícia, piloto de aviões, astronauta, inventor (esta foi uma cena que durou muito tempo)… A determinada altura, quando já estudava música, e quando comecei a tocar e a experimentar gravar coisas, comecei a ficar obcecado. Em 1997, tinha 11 anos, comprei uma revista de gravação numa loja de discos, que custava 990 escudos, portanto quase 5 euros. Comprei essa revista e lembro-me de ficar completamente transtornado com aquilo, no bom e no mau sentido. Lia aquilo de trás para a frente. Se calhar foi mesmo esse o momento em que percebi que queria fazer música na minha vida.

 

Os entrevistadores: André Certã, Micaela Ribeiro

Fotografias: Petra Freire

 

 

21
Jun19

Entrevistas #5 - Luís Severo (Parte II)

Jur.nal

Tomás e André - Olhando para a canção Cheguei Bem, a penúltima do álbum, tu falas de uma viagem, há uma “terra linda tão verde”. É esse campo de que falas?

 

LS - Essa canção é sobre andar na estrada. É sobre o que eu vos falava: aquele sentimento de andar na estrada e de nunca poder ficar muito tempo. Já percebi que várias pessoas vivem longe da sua terra natal, ou vivem longe do que chamam casa, e se identificam nesse sentido. É uma música de uma pessoa deslocada, mas, na verdade, não foi com esse sentido que foi composta. Mas acho interessante que as pessoas lhe deem essa aceção.

 

Tomás - Até acho que a maioria dos nossos leitores – como estamos na Faculdade – são deslocados e acabam sempre por sentir isso.

 

LS - É. E depois voltas a casa e acaba por parecer sempre pouco tempo… é uma música que fala um pouco disso. E depois tem aquela parte C que é suposto ser “quando eu já cheguei a casa”. Mas acho que isso não se percebe bem.

 

Tomás - Nós – entrevistadores – acabamos por não ser tão tocados por esta canção porque somos de Lisboa. Mas conhecemos pessoas que, realmente, têm a sua casa longe. Lisboa não é a casa deles; é apenas o sítio onde estão a estudar.

 

André - Há outro exemplo de canção que afeta um pouco os estudantes deslocados. Uma canção originalmente do António Variações, depois gravada pelos Humanos, a Adeus Que Me Vou Embora. Essa canção acaba por ter o mesmo efeito: é quase um regresso a casa.

 

LS - Sim, sendo que essa música é muito mais triste… mas é uma canção bastante bonita. É mais espontânea. Gosto muito dessa canção e o Camané canta-a muito bem. Aliás, o Camané é top.

 

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Tomás - Relativamente às canções do teu álbum, falta-nos apenas a última [Quem Me Espera]. O que é que está “à tua espera”?

 

LS - Acho que, nessa canção, se percebe que é uma espera por uma pessoa que já não está viva.

 

Sara - Qual é a tua música preferida deste álbum?

 

LS - , não sei. Boa pergunta. Acho que é com a distância que eu percebo melhor qual é. No Severo [álbum anterior], acho que a Amor e Verdade é a música melhor. As outras são piores, mas essa acho que é fixe. Depois, no Cara d’Anjo, a Cara d’Anjo, a Lábios de Vinho e a Escorpião são as melhores. São as mais bem feitas e as mais especiais. Neste disco, se calhar conseguirei responder-te melhor daqui a quatro meses. Levo tempo a perceber essas distâncias.

 

Sara - O momento em que percebes é sempre o mesmo?

 

LS - Sim, imagina: há canções que eu acho que cumprem bem a função que têm. A Boa Companhia é uma canção que cumpre bem a função de um single, mas não é a minha favorita. Acho que a pior canção do Severo é, claramente, a Lamento. É a que está mais mal feita.

 

Sara - É possivelmente a minha preferida…

 

LS - Ok… Acho que no Cara d’Anjo a pior é a Nita. ‘Tou a dar a minha opinião sendo que, depois, cada opinião é válida.

 

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Sara - Ao fazer essa avaliação consegues distanciar-te do aspeto técnico?

 

LS - É um bocado inexplicável, mas conta a sequência entre o verso e o refrão, a construção, a mensagem e tudo o que a canção é. Mas claro que são tudo opiniões.

 

Tomás - Acho que, como tens um entendimento musical superior à maioria das pessoas, acabas por ter uma visão mais técnica. Nós – grande público – tendemos a identificar-nos mais com a mensagem da canção.

 

LS - Claro. Eu quando toco ao vivo, ultimamente, tenho tocado as que mais gosto. Claro que, depois de esgotar o set list, toco as que o público me pede. Mas por minha vontade, toco só as que gosto.

 

Tomás - A última pergunta relativamente ao álbum, para fechar esta parte: voltando um pouco ao início, não obstante ser um álbum bastante pessoal – acho que pões bastante de ti neste álbum –, também dá para ver algumas influências a surgir. Um bocadinho de Fado na Acácia ou uma vibe mais Sufjan Stevens, mais folk ou eletrónica por todo o álbum… Quais são as tuas grandes referências?

 

LS - Eu já fico contente por haver referências diferentes. Durante toda a minha vida diziam [sobre os álbuns]: “Isto é Mac DeMarco e B Fachada”. E, claro, são dois músicos que eu admiro muito, e no caso do B Fachada tenho proximidade pessoal. Eles estiveram juntos uma tarde! Até há uma foto bué conhecida dos dois. Deixa ver se eu a encontro… [no telemóvel]. Enfim, fico satisfeito por falarem em novas influências. Eu sempre ouvi muito Fado e muito Sufjan Stevens, portanto fico contente. Também gosto muito, sei lá, do Bonnie "Prince" Billy; gosto da malta que nos está próxima: Ermo, Pega Monstro, [Filipe] Sambado, Samuel Úria, etc. Por acaso, o Samuel Úria sempre foi uma pessoa que me apoiou bué de uma forma muito fixe, de há muitos anos para cá, e reconheço isso nele – ele é impecável. Mas nunca foi paternalista, que é uma cena que me irrita um bocado. Sempre apoiou sem ser muito impositivo, ou seja, sem achar que estava numa posição muito alta face a mim (exceto o facto de a posição dele ser muito alta [risos]). Enfim, gosto dele e de muitos outros.

 

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André - No ano passado estiveste no Super Bock Super Rock, no Parque das Nações (duas pessoas aqui estiveram na primeira fila – abandonámos Slow J para te ver). Este ano, estás ausente, pelo menos até agora, dos grandes festivais…

 

LS - Sim, este ano não vou estar presente. Também não tinha o set-banda montado. Estamos a ensaiar banda agora, para este novo disco, e não fazia sentido ir para os festivais a solo. E também me faz bem estar um ano arredado “disso”, não vou tocar muito nem em julho nem em agosto, e depois, em setembro, vamos anunciar bué datas, de teatros, por exemplo, e vou finalmente voltar a fazer desde cidades grandes a cidades pequenas, vilas, aldeias, andar a correr Portugal, que é o que quero, e depois, eventualmente, no ano que vem, acabar a fazer festivais. Na verdade, eu não gosto assim tanto de festivais… ou seja, é fixe, claro (esse que viram no SBSR, até ‘tava um bocado chateado. Deve ter sido dos poucos concertos em que não falei), mas eu tenho alguma claustrofobia, detesto multidões, detesto sítios gigantes em que tens de ir para um sítio e andar bué. Isso põe-me ansioso. Detesto cenas em que as pessoas não são simpáticas. Detesto ritmos frenéticos. Na verdade, o que eu gosto, em festivais, é de tocar. Mas aquela azáfama faz-me mal à cabeça, cansa-me.

 

Sara - Mas isso também não acontece nos concertos normais?

 

LS - Não, é muito mais tranquilo. Chegas a um teatro para fazer o soundcheck e o técnico de som é sempre um ganda bacano, as pessoas todas muito simpáticas, o ambiente calmo. Mas, claro, não estou a criticar, porque são exigências normais de um contexto em que tens vinte bandas num sítio. E a verdade é que muitas das equipas técnicas desses eventos andam, muitas vezes, cansadas e não são as mais simpáticas. Têm uma vida precária, estão imensas horas a trabalhar, contra o sono, contra a fome, contra tudo… Há um lado intenso nesses contextos que eu gosto, mas a que não me consigo ligar muito bem.

 

Tomás - E qual é o sítio em que mais gostas de tocar? Bares, aldeias, …?

 

LS - Vou tendo fases. Gosto bastante de teatros e de clubes. Acho que se encontrar um clube sossegado é o meu sítio favorito. Sei lá, desde o B. Leza, em Coimbra o Salão… gosto disso, acho que é onde me sinto mais fixe e acho também que é onde as pessoas estão mais à vontade. Gosto de teatros, mas, na verdade, os teatros têm uma distância que, às vezes, me incomoda: a cena de não sentires o público mesmo ‘em cima de ti’, não sentires aquela proximidade, aquele intimismo. A cena que me acontece em teatro é que nunca há uma comunicação entre o público e eu, eu nunca percebo bem se as pessoas estão a gostar ou não. Tu, muitas vezes, quando tocas num teatro, não vês nada do palco porque, com as luzes, olhas em frente e só vês uma cena escura, nem percebes quantas pessoas estão [na sala]. Não há aquele lado de contacto que há em clubes. Por isso, acho que os clubes são o sítio onde me sinto melhor.

 

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André - Nós, como somos uma revista universitária, queríamos perguntar-te como foi a tua vida académica, a tua experiência universitária?

 

LS - Estudei Sociologia. Bem, entrei na faculdade em 2011, acabei em 2015. Fiquei mais um ano a fazer umas disciplinas… mas fui fazendo. Estudei na FCSH. Antes de tudo, Sociologia foi um curso que me ensinou muito e, na verdade, se não tivesse feito o curso não podia ser muito do músico que sou, porque a Sociologia é uma ciência social muito rígida e com muito método e que me ensinou, acima de tudo, isso mesmo: a ter método na vida, a saber arrumar as coisas, a saber criar etapas, a saber criar métodos. Foi muito importante para mim. Quanto à experiência na Faculdade, fui um aluno medíocre. Devo ter acabado com uma média à volta de 14 valores, o que em Sociologia é uma média fraca. Mas fiz e gostei. Mas vou confessar que, se calhar, a faculdade deu-me tempo para fazer música ao mesmo tempo, e isso foi uma riqueza boa, também. Muito do tempo em que estive na Faculdade foi feito a fazer música, tanto que o Cara d’Anjo [2015] é feito naquele ano em que estava a acabar. Já estava em estúdio a fazer o disco e ainda andava a fazer quatro disciplinas, para aí… Depois, quando acabei esse disco, foi, de facto, uma prova de fogo, foi “baza ver se isto dá qualquer coisa, se não vou ter de arranjar outra ocupação”.

 

Tomás - Como nós somos de Direito, queríamos perguntar-te sobre como vês a “malta” de Direito?

 

LS - Vou ser sincero: tinha uma grande amiga na vossa faculdade, e ela, muitas vezes, convidava-me para eu ir lá ter e eu não ia. Ah, não, não é na vossa, é na Clássica. , aquilo tinha um ambiente bué da Assustava-me imenso entrar lá, era um ambiente muito sério. Opinião sobre os estudantes não tenho; sei que há estudantes parvos com coisas académicas parvas, mas isso não é exclusivo de Direito. Eu tenho de confessar que sou bastante cético quanto a praxes e rituais académicos. As coisas que não gosto no meio académico em Portugal não têm a ver especificamente com o vosso curso. E acho até que o Direito é uma área muito importante, que não devia ser só abrangida quando se escolhe estudar Direito [na entrada para o ensino superior], mas se calhar mesmo na escola deviam dar algumas bases, porque, na verdade, vivemos muito mal informados sobre coisas que podem mesmo mudar toda a nossa vida. Acho que é um curso muito importante.

 

Sara – Voltando à música: sobre o teu processo criativo, em termos de letra, olhas para um momento e pensas “tenho de fazer uma música sobre isto”? Como é o processo de escrita?

 

LS - É apontar bué da Imagina, as minhas notas no telemóvel são só frases soltas. E depois há o dia em que monto o puzzle. Muitas vezes junto bué da frases soltas. Acho que as minhas melhores frases, as frases mais fixes, são as que me saem soltas e depois junto-as para uma música. Acho que este disco é o que tem as melhores letras, de longe, na minha análise crítica. Do ponto de vista de cada frase ser incisiva, acho que evoluí bastante. Claro que há sempre frases só de ligação que eu crio no momento, mas quase todas as frases estiveram nas minhas notas como uma coisa solta. Mas pode acontecer que fique complicado quando, como neste disco, acumulo demasiadas notas. Estava com uma coisa gigante – pior do que um Código Civil (risos) – e agora fiquei com muitas “sobras”. Sobrou-me bué da material, acho que já tinha letras para um disco novo. Claro que vou ser exigente e não vou pôr tudo [num próximo álbum], vou só, no que sobrou, tentar ver as coisas melhores.

 

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André - No natal de 2017 lançaste um pequeno álbum, o Pianinho. Pode haver uma coisa semelhante novamente?

 

LS - Uau! Porque é que me estás a perguntar isso? Ouviste algum rumor?

 

André - Não, não ouvi. Mas agora fiquei curioso!

 

LS - Não vou comentar… Mas, , acho bué da fixe teres posto essa pergunta. Na verdade, pode ser que aconteça qualquer coisa… Eu sou um gajo muito dessas coisas, gosto dessas maluquices… E gosto de álbuns ao vivo, e lançar coisas sem ninguém ‘tar à espera. Gosto disso.

 

FIM. 

 

Os entrevistadores: Sara PachecoAndré CertãTomás Burns

Fotografias: Sara Pacheco

 

15
Jun19

Entrevistas #5 - Luís Severo (Parte I)

Jur.nal
Depois da notável estreia em 2015 com o independente "Cara d'Anjo", Luís Severo juntou-se à Cuca Monga, editora pela qual lançou, com a mão da Sony Music Portugal, o seu segundo disco, o homónimo "Luís Severo", que o levou aos lugares cimeiros das listas anuais da imprensa musical e generalista e aos mais emblemáticos palcos e festivais do país. Com apenas dois álbuns editados, era já um dos nomes consensuais da escrita de canções da sua geração, mas não é por isso que deixa de surpreender. Do choque concordante entre o acústico e o electrónico, da contenda conciliante lírica e de todos os contrastes imagéticos, Luís Severo afasta-se do que já por si foi feito e, sem nunca perder o centro que o particulariza, chega assim com o seu terceiro disco, “O Sol Voltou”. (In https://www.facebook.com/pg/luisseverocantor/about/?ref=page_internal)
 
 
Numa tarde em que o Sol teimava em esconder-se, O Sol Voltou foi o mote para o JUR.NAL, pela audaz curiosidade do Tomás, da Sara e do André, conversar um pouco com o Luís Severo. Falou-se, entre outros, do novo álbum, do processo de criação e, para lá da música, do percurso académico do Luís. A primeira parte dessa agradável e descontraída conversa vê hoje as cores do mundo: 
 

 

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Tomás - Podemos começar por fazer uma apresentação: apresentas-te, explicas um pouco quem és, para quem ler isto e não souber quem é o Luís Severo. Vender o teu peixe! (Risos).

 

Luís Severo - Bem, eu sou músico, compositor, produtor. Tenho 26 anos, faço canções há 11. Comecei com 15 anos, em casa, a fazer maquetes e coisas assim muito underground, já numa altura em que existia MySpace, que é uma rede social que existiu durante muito pouco tempo e depois morreu – e eu comecei a fazer música lá. Depois houve uma fase em que muitos músicos começaram, e era uma rede social em que sentias que eram muitos músicos a fazer música na sua casa com uma placa de som de 50€ e um microfone de 20€ e cada um fazia as suas coisas. E eu comecei lá, e fui sempre evoluindo. A partir de 2015, depois de ter feito uma banda, que gosto muito e continua a existir – os Flamingos – decidi começar a editar discos a solo, em nome próprio. Fiz um disco em 2015, o Cara d’Anjo, depois fiz o Severo em 2017, e este último, O Sol Voltou, saiu em 2019. São três discos que eu acho que representam um pouco várias coisas que eu gosto, algumas coisas mais pop, algumas coisas mais lo-fi, algumas coisas mais folk. E pronto, por vezes canto e toco todos os instrumentos, outras vezes não. Este último disco fui eu que toquei tudo. Também costumo ser eu a produzir os discos e também me encarrego das questões do som. Portanto, apesar de alguma evolução no sentido profissional, hoje o que eu faço continua a ser muito aproximado ao que fazia há 11 anos no quarto, só que com mais material e mais produção, mas continua a ser muito aproximado. E pronto, acho que já fiz uma boa apresentação.

 

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Tomás - Por acaso acho piada, nos teus discos, teres estes estilos um pouco diferentes (tens o folk, tens o pop, …). Até já vi em algumas entrevistas chamarem-lhe sacro-pop. Consegues explicar isso?

 

LS - (Risos). Sim, isso foi só quando eu fiz aquele disco em 2015. Algumas pessoas disseram que tinha uma ou duas músicas que lembravam, quase, a missa e uma cena gospel. E sendo que eu, na minha vida, devo ter ido para aí duas vezes à missa (a minha família não é propriamente católica, e eu também não sou – também não tenho nada contra, mas nunca tive uma ligação muito forte ao catolicismo), achei piada – eu que nunca tive essa ligação – dizerem que as músicas tinham algo que se assemelhava à música litúrgica. E, então, eu, como piada, pus nos tags da minha página o sacro-pop. Foi só uma piada, mas depois, em mais do que uma entrevista, começaram a pôr questões sobre isso. E uma coisa que tinha sido só uma piada acabou por continuar.

 

Tomás – Mas, talvez porque a tua música pega em todos estes estilos diferentes, conseguindo ligá-los, criando uma “coisa” que eu acho bastante coesa, acho engraçado conseguires pôr tudo “por baixo” de uma matriz religiosa.

 

LS - Eu acho que apesar da música não ser religiosa, tem alguma espiritualidade, no sentido em que algumas das questões que a religião procura sempre responder são questões que mesmo quem não é religioso tem. Acho que questões do género “o que andamos para aqui a fazer”, “para onde vamos”, “o que é que nos move”, “o que é que há além de nós”, tudo isso são questões bastante espirituais e são questões pelas quais inevitavelmente as minhas letras também passam.

 

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Tomás - São questões às quais a música sempre tentou responder, e que os músicos sempre tentaram desenvolver.

 

LS - Exatamente. E tem piada como os EUA mesmo assim – e muita da música anglo-saxónica - é muito mais comum os músicos assumirem que têm fé. Não é o meu caso, não sou uma pessoa crente. Também não me consigo assumir ateu – não tenho aquela coragem de dizer “eu sou ateu” com toda a certeza deste mundo. Acho que serei aquilo a que se chama agnóstico, que é uma pessoa que é só palhaço porque não tem opinião nenhuma (risos), mas na verdade tem piada como a música e os músicos (Bob Dylan, Leonard Cohen, que são músicos que eu ouço) falam sobre Deus e sobre a ligação a Deus. E mesmo na música brasileira, muitas vezes, há uma ligação a Deus, que não é muito comum na música em Portugal. Exceto a FlorCaveira, ou mesmo o Samuel Úria e outros, que são pessoas de fé e eu vejo que não têm pudor em referir Deus e em falar sobre Deus. De uma perspetiva ateísta, por acaso.

 

Tomás - Se formos ver os EUA, e também o Brasil, e as grandes potências, têm muita influência religiosa, mesmo quase na criação do país.

 

LS - Sim, porque nos EUA, e também no Brasil, a música evangélica representa cultos em que se canta muito mais do que nos nossos. O católico tende a ser um culto em que as pessoas cantam pouco, e quando cantam são sempre coisas ‘metidas’ para dentro. Tipo aquela senhora a cantar a do “‘tá muito alto” (risos).

 

Tomás - Tens sempre o Johnny Cash, e outros, que vão tendo Deus de uma forma sempre presente…

 

LS - Sim, mas de uma forma não muito solene, mas muito pessoal. Ou seja, não é uma envolvência de Deus do ponto de vista bíblico e convencional. É muito do ponto de vista próprio e pessoal, e eu acho isso interessante. Mas pronto, na verdade, isto tudo veio da piada do sacro-pop, que foi só uma piada (risos).

 

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Tomás - Já estamos um bocadinho distantes, mas acho que é interessante.

 

André - Pegando agora no teu novo álbum, O Sol Voltou: há uma certa mudança de cenário, até da própria música e melodia. O Severo era um disco mais citadino, e O Sol Voltou traz quase uma mudança para o campo, ou, pelo menos, um ambiente mais campestre. O que é que levou a esta mudança?

 

LS - Eu acho que há aqui duas coisas: reconheço que haja um pouco disso, um pouco dessa mudança; mas também acho que há um bocadinho de exagero, ou seja, não acho que o disco que editei em 2017 fosse só sobre a cidade, acho que tinha mais mundo, e acho também que este não é só sobre o campo. Sem dúvida, este é um bocadinho mais contemplativo e reconhece mais a natureza e passa-a mais enquanto assunto, e isso não foi nada muito pensado, foi algo que simplesmente me fez sentido falar. Porque, na verdade, eu, quando acabo um disco, a minha tendência para o disco seguinte é pensar sempre: “de que é que eu não falei neste?”, “o que é que eu não fiz neste?” e “como é que eu posso ir contra o que fiz antes?”. Eu poucas vezes penso na continuidade das coisas, ou pelo menos penso quase sempre que a continuidade das coisas passa quase sempre por uma cisão, por uma rutura. E, claramente, quis que estas letras fossem diferentes das do outro disco, quis que o disco tivesse um ritmo um bocadinho mais calmo - fazia-me sentido, também porque ouço muita música folk e sentia que ainda não tinha, apesar de ouvir muita música folk e gostar muito de música folk, posto isso de forma muito vincada em nenhum disco que tinha feito, e acho que este disco já rompe mais isso, é um disco mais folk. Era uma coisa que eu queria mesmo muito, porque é algo que eu tenho dentro de mim, é algo que eu gosto muito e que ainda não tinha explorado. Para teres um disco folk, em primeiro lugar, a captação – numa questão simplesmente técnica – de instrumentos acústicos é muito mais exigente do que a de instrumentos elétricos. Tu mais facilmente com material medíocre fazes um som bacano a uma guitarra elétrica do que a uma acústica, porque uma guitarra acústica já depende da acústica da sala, já depende de que a guitarra tenha um grande som… ou seja, é muito mais difícil tu captares a realidade do que uma coisa com efeitos, com ‘maquilhagem’… e, nesse sentido, neste disco senti que já podia fazê-lo, antes de tudo porque investi algum dinheiro a comprar microfones, a comprar coisas melhores que as que tinha – e era um salto que tinha de ser dado, ou seja, ou eu ia para um estúdio e o disco não ia ser feito aqui no meu estúdio como eu faço todos (ou seja, um estúdio profissional), ou tinha de ser cá. Então investimos, e houve um investimento muito forte de todos. Os Capitão Fausto também compraram uma placa de som boa, melhor do que a que tínhamos, eu comprei microfones, e de certa forma quitámos o nosso estúdio melhor. Comprámos mais isolamento de som, tentámos que a acústica da sala fosse melhor. E, nesse sentido, ao fim de muita batalha, eu consegui ter aquele som de guitarra clássica e acústica que está no disco. Mas, para ter chegado lá, foi muito difícil porque, , é muito mais difícil [chegar àquele som]. Mas senti que com esse som a que eu tinha chegado, finalmente podia ter o meu disco folk. E depois, umas coisas puxam as outras: essa ideia do disco folk puxou um lado mais contemplativo a fazer letras; a ideia de ir contra o disco que tinha feito antes, ainda mais. O facto de neste disco ter sido eu a tocar tudo também puxou mais esse meu lado, porque é um lado que eu tenho dentro de mim e que, se calhar, no último disco que fiz [Luís Severo, 2017] em que são basicamente os Capitão Fausto que tocam quase tudo, mais o Diogo, e a Violeta a tocar flauta, e mais o coro, a Bia e o Manelito, etc., essa linguagem folk só eu é que tinha, que eles não têm tanto, portanto, acho que foi um conjunto de coisas que se reuniram e que possibilitaram que este disco fosse mais assim.

 

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Tomás e André - E tu, a fazer este álbum, estiveste nos Açores. Isso teve alguma influência na mudança de que falamos?

 

LS - Sim, estive lá a compor. Houve a possibilidade de eu fazer residência no Centro de Artes Contemporâneo Arquipélago, que é um espaço muito fixe. É em São Miguel, e na verdade foi lá que eu comecei a fechar canções e a fechar composições. O que aconteceu foi: entre 2017 e 2018, o ano a seguir a ter acabado o segundo disco, o que fiz foi estar simplesmente muitos dias a apontar letras, ideias para letras, apontar riffs de guitarra, mas soltos, sem estar a compor canções, ou seja, estive, no fundo, quase um ano só a ter ideias mas nunca a concluir nada. Nunca conclui nada porque queria precisamente tentar, de uma forma livre e não muito pensada, entender sítios diferentes a que podia ir, entender coisas novas. E depois, ao fim de um ano, em janeiro de 2018, que é quando vou para os Açores, é quando começo a compor músicas novas, a fechá-las. Acho que estar lá não decidiu completamente o rumo que o disco ia ter, porque como já tinha tanta coisa feita antes, muito do rumo já estava feito, mas possivelmente acentuou, e ter estado lá só reforçou ainda mais esse lado contemplativo que eu sabia que o disco ia ter de ter.

 

Tomás - É que até pela natureza do disco, ser mais rústico, mais pastoral, parece que estamos num ambiente mais açoriano, mais aberto, com as vaquinhas…

 

LS - Sim, há mais vacas do que pessoas lá… (risos). Se formos a ver bem, eu em 2018 tive para aí 50 datas [concertos] ao vivo, foi bué da Para um músico da minha dimensão em Portugal, ter 50/60 datas num ano é muito. Também porque eu faço tudo, gosto de tocar em todo o tipo de sítios. E, portanto, acabei tanto a tocar em festivais como a fazer clubes, como pequenos teatros, aldeias, bares… e, se eu for a ver bem, no fim de contas passei muito pouco tempo em Lisboa. O tempo que estive em Lisboa foi quase todo passado em casa, que era quando estava a descansar. Sendo que casa é casa, não é nenhuma cidade. Portanto, na verdade, essa ausência da cidade e de Lisboa surge como natural porque eu também passei cá muito pouco tempo durante o ano.

 

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Tomás - Eu acho que dá para ver essa ausência, até porque no teu segundo álbum vais falando da Alameda, Penha de França, Santa Apolónia. Neste apenas falas no Campo de Santana, portanto não dá aquela presença de Lisboa.

 

LS - Não dá, e eu acho que é fruto disto mesmo. Até porque quando eu pego para escrever – eu fiz muita estrada de comboio, autocarro… e, muitas vezes, era quando aproveitava e pegava no bloco e começava a apontar coisas, e fiz muitas letras nesses contextos. Portanto, sim. Mais uma razão para ter essa ausência lisboeta. Depois, o tempo que estive em Lisboa [para além de estar em casa] também foi passado no estúdio a fazer o disco.

 

Tomás - Agora entrando mesmo no álbum, abandonando este esoterismo: ao longo do álbum vais falando de diferentes estações do ano, sendo que a Primavera é omnipresente. Falas também do Inverno, do Verão, mas não falas do Outono. Tenho curiosidade de saber o porquê.

 

LS - Ora bem, na verdade acho que o Outono é a estação do ano que menos me interessa – e com isto não quero ser polémico, não quero ofender os outonais.

 

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André – Vai ser o título desta entrevista: “Luís Severo odeia o Outono.”

 

LS – (Risos). Na verdade, acho que, antes de tudo, a Primavera surge como símbolo de renascimento, como um símbolo de vida nova e de recomeçar, que é uma ideia que está também bastante no disco: recomeço e vida a seguir à morte. O disco tem um lado um bocadinho mais negro – e esse lado tens de associar à partida, ao Inverno, e depois tens também o Verão como a estação que se segue à Primavera, quando já houve o renascimento, quando já há uma vida nova e quando começas finalmente a viver uma vida nova. E eu acho que essa ideia, para mim, é muito importante. Nesse sentido, não menciono muito o Outono porque não se liga à Primavera de forma nenhuma. É a antítese, e não tem nenhuma ligação temporal. Mesmo O Sol Voltou remete para uma coisa escura, “estiveste muito tempo numa coisa escura, num Inverno, e finalmente O Sol Voltou”, ou seja, O Sol Voltou diz que o sol nem sempre esteve cá.

 

Tomás - É, então, um álbum otimista?

 

LS - É, acho que é otimista, apesar de ser um pouco denso. Não acho que seja um disco só feliz; acho que tem algumas camadas, mas sim, no fim de contas, é um disco otimista.

 

André - Mencionas na canção Primavera “agora canto a liberdade”. Queria perguntar se achas que a Primavera é, de facto, a estação que traz liberdade?

 

Tomás - É a estação de Abril…

 

LS - É. Não só mesmo abril como maio são meses muito políticos e são meses muito vivos. Maio é um mês muito vivo: é, há muitos séculos, o mês em que mais pessoas se casam, por exemplo – é um dado interessante. Para além disso tiveste o Maio de ’68, politicamente, que teve uma dimensão… [enorme]. Porque eu acho que é uma fase em que as pessoas acreditam, é uma altura em que a liberdade fala mais alto. E essa canção é sobre a liberdade, e eu acho que resume, um pouco, o disco. Por isso é que é, também, a canção que o abre, porque apresenta bastante bem o disco que vais ouvir. Nesse sentido, acho que é uma boa canção inicial.

 

Tomás - Até mesmo, depois, na canção Maio, que é logo a terceira do álbum… eu tenho uma questão em específico sobre esta canção: tu dizes “e a sonhar já se fez maio”, e eu queria perguntar se maio é mais uma ideia, uma representação, em vez de um mês. Para dar um exemplo: o Tyler, the Creator tem uma canção que se chama November, e ele diz “my november was the summer of ‘06” – é uma representação de outro momento, e não de um novembro, necessariamente.

 

LS - Para mim acho que é o mesmo. Obviamente que a minha canção tem a ver com o mês de maio, porque é, talvez, o meu mês favorito. É um mês mesmo fixe. E que historicamente está associado a tanta coisa, tanta vida, e a uma ideia de alguma esperança. Tanto política, como amorosa, como familiar, como mesmo temporal. É maio como uma ideia, mas não afastando da ligação ao mês.

 

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Tomás - Já falámos da primeira e da terceira canções, não falámos ainda da segunda. A Acácia parece algo dark. Porque é que escolheste esse nome?

 

LS - A acácia é uma árvore que simboliza, mesmo, a morte e depois a vida. E a Acácia, enquanto canção, fala sobre a morte e, nesse sentido, sendo uma canção sobre a morte e pretendendo ter um final feliz, achei que Acácia seria um bom símbolo.

 

Tomás - Há alguma ligação pessoal?

 

LS - Não. Apenas gostei do simbolismo e acho que é uma flor bonita. E acho uma palavra bonita, também – e isso também conta. E, na verdade, decidi pô-la como segunda canção porque, depois de ter explicado o lado mais luminoso daquele disco [com a canção Primavera], achei que, logo a seguir, era fixe explicar o lado menos luminoso e mais dark [com a canção Acácia].

 

Tomás - Temos uma pergunta sobre a canção Domingo: como cantas “o tédio trouxe a paz” e parece que estás numa fase mais calma da tua existência, queríamos perguntar se te sentes nostálgico nas andanças e peripécias do amor? É uma pergunta um bocado pessoal…

 

LS - Não. Sinceramente, a canção Domingo não é, sequer, sobre mim. É uma canção familiar. Na verdade, este disco é muito familiar. É um disco em que homenageei várias pessoas da minha família, e se calhar por isso é que é um disco tão romântico. Quando digo “Domingo o tédio trouxe a paz também” não é do meu ponto de vista. Até pode ser que a seguir faça um disco mais sobre… como é que disseste?

 

Tomás - “As peripécias do amor”. (Risos).

 

LS – Isso. Ou seja, neste [disco], sendo um disco sobre a minha família, seria estranho que eu falasse nisso. Seria uma família um pouco incestuosa se fosse esse o caso… enfim, é um disco familiar: a canção Joãozinho, por exemplo, é sobre o meu sobrinho. E, no fundo, a minha dificuldade com este disco, sendo sobre a minha família, foi evitar expô-los demasiado, se bem que acabo por expor, um bocadinho, naquela faixa de áudio que eu pus (é uma gravação familiar, do natal de ’94, portanto eu teria 1 ano. Eu estou , mas só mesmo a chorar. As outras pessoas são a minha avó, os meus pais, etc… Mas o choro que se ouve é meu!).

 

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Tomás - A canção Rapaz também é de alguém da tua família?

 

LS - Não. A Rapaz, por acaso, é uma canção mais de amizade. Sobre aquela cena de teres alguns amigos que depois inevitavelmente deixas de os encontrar tanto, quando a vida muda. Acho que quando entras na faculdade é um dos pontos em que isso acontece. Mas, depois, continua a acontecer noutros pontos [da vida]. E é uma canção que fala sobre, na verdade, nunca te teres chateado com uma pessoa, mas inevitavelmente terem-se afastado, e sentires falta dessa pessoa, mas também não lhe conseguires dizer isso assim tão explicitamente.

 

André - Eu tinha aqui preparada a pergunta sobre quem é o Joãozinho… [entretanto já respondida]

 

LS - É o meu sobrinho. Mas percebe-se que é uma música infantil, certo? É que eu tenho alguns amigos que têm esse nome e que pensaram que a música podia ser sobre eles!

 

Tomás - Agora uma pergunta relativamente à Última Canção: estávamos a falar há pouco sobre como sentes falta de ter alguém a mandar em ti, a mandar-te fazer trabalhos e isso… e tu cantas “se é minha riqueza não ter patrão, não vou mentir: a vida assim não é dura, não”. Isto relaciona-se?

 

LS - Sim, claro que é bom viver assim. É bastante fácil e nunca foi difícil do ponto de vista de que eu sempre gostei do que fiz. Mas tive anos em que não conseguia ter uma vida muito estável. Nestes últimos anos, obviamente, posso estar contente. Não sou uma pessoa que tenha assim muitos luxos, mas vivo bem com o que tenho, pago a minha renda de casa, e não tenho sentido muita instabilidade. Mas pensas inevitavelmente que isso é algo que não dura para sempre e que pode não ter uma continuidade, e a Última Canção fala um bocadinho sobre isso: sobre gostar muito do que faço, mas ter a consciência de que talvez não vá conseguir fazer isto para sempre. E de que, na verdade, aquilo que te faz ser uma coisa mais ou menos nova, também é algo que passa. E há de chegar, também, um ponto em que – não agora, porque estou já com uma sede louca de compor outro disco – [a inspiração e a vontade de fazer música se acalmam]. Este disco teve uma coisa muito gira, que foi: eu, quase sempre, quando acabo discos fico com uma “ressaca” de não saber se consigo voltar a fazer música, não saber o que se segue… e já falei com outros músicos que sentem a mesma coisa. Mas, na verdade, não tive isso com este disco.

 

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Tomás - E sentes alguma pressão em fazer um novo disco ou vais só pela tua vontade?

 

LS - Não, na verdade eu tenho tempo livre. (Risos). Quando não estou a tocar ao vivo ou a ensaiar, não estou a fazer nada. Ou dou entrevistas (risos). E, por isso, inevitavelmente os discos surgem. Mas nunca penso muito nisso de haver ou não pressão [de editar discos], o que é que as pessoas estão ou não à espera… Quando eu geralmente penso isso é na pior fase: quando o disco já está pronto, quando o acabo e entrego. Penso: “agora vou ficar aqui sentado, e haverá um dia em que isto cairá na net, as pessoas vão ter opiniões e eu já não terei nada a fazer”. Acho que essa é a parte que me custa mais. E, nesse sentido, detesto ter discos prontos que ainda não estão ‘cá fora’. Sendo que o tempo mínimo para que um disco saia são três semanas, mas é aconselhável mais, para trabalhar o marketing, a comunicação, e etc. Mas eu faço sempre o mínimo possível, e esse mês, quase, é o pior: ter um disco pronto prestes a vir ‘cá para fora’ e já não há nada a fazer… Tu nunca achas que está bom. Por tua vontade, ficavas sempre a fazer mais! E, portanto, nesse mês é quando eu sinto a pressão: durmo mal… (mas antes faço o disco, ‘tá-se bem…). O disco saiu a 17 de maio e eu entreguei-o por volta de dia 15 de abril – foi mesmo um mês. Depois de entregar, fui quinze dias para o campo, sem net, porque não tinha tido férias e então decidi ter nesse momento. Voltei, depois, em maio porque tinha de ensaiar para as datas [concertos]. Mas faço quase sempre isto depois de acabar um disco – ir para o campo - porque sinto aquela pressão.

 

(Continua...)

 

 

Os entrevistadores: Sara Pacheco, André Certã, Tomás Burns

Fotografias: Sara Pacheco

 

 

11
Mai19

Entrevistas #4 - Paula Sousa

Jur.nal

A nossa querida Paulinha (D. Paula para quem é mais tímido) é a última convidada do segmento Entrevistas do JUR.NAL deste semestre. Vemo-la todos os dias mas pouco conhecemos dela. 15 minutos de conversa numa tarde amena, lá para os lados da esplanada do bar, e eis que entramos na vida desta bonita senhora que alegra os nossos dias, aqui, no Campus de Campolide! 

 

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Conhecemo-la todos por D. Paula. Queremos, finalmente, saber: qual é o seu apelido?

- Sousa. Paula Sousa.

 

Pois. Quem a segue no Instagram sabe. Quem não a segue, não sabe… (risos). E há quanto tempo é a “D. Paula do Bar”? Há quantos anos é que trabalha aqui?

- Vai fazer quatro anos no dia 19 de Setembro.  

 

Já que trabalha aqui há alguns anos, queríamos, então, saber se quando se levanta da cama de manhã pensa: “lá vou eu ter de os aturar [aos alunos] mais um dia…” ou levanta-se e fica alegre porque nos vai ver?

- Trabalho na ICA há 32 anos, e de há 4 anos para cá que acordo bem-disposta, sem problemas, sem stress e gosto de vir para cá. 

 

E dorme bem, não tem pesadelos connosco, então?

- Não tenho pesadelos (risos).  

 

Muito bem. Pegando nisso, queríamos saber se a sua boa-disposição e à-vontade connosco é algo propositado para que o dia corra bem connosco, e para nos “suportar”, ou é algo que é inerente à sua personalidade?

- A minha personalidade é estar sempre a brincar, sempre bem-disposta. Mas, claro, neste trabalho eu consigo ser aquilo que sou de verdadeNos outros trabalhos em que estive, tinha de ser mais séria.  

 

Onde é que já trabalhou?

- Já trabalhei na Presidência da República… 

 

A sério?

- Sim. Também trabalhei na Rover – nos jipes -, na Beiersdorf em Queluz, na fábrica da Sumol… sempre em refeitório. E quando estamos numa fábrica onde, por exemplo, há muitos homens, temos de ter outra postura. Aqui [no Bar da FDUNL], não. Eu posso brincar, posso mandar bocas, posso fazer o que quero porque vocês [alunos] também me dão asas para tal.  

 

A verdadeira Paula é, então, aquela que brinca?

- Sim. Sou naturalmente bem-disposta.  

 

Voltando à Presidência da República: quer dizer que já serviu Presidentes da República?

- Já. Jorge Sampaio, Cavaco Silva e ainda ‘apanhei’ seis meses com o Marcelo.  

 

E privou com eles?

- O Jorge Sampaio almoçava com a mulher no refeitório e muitas vezes sentava-se à mesa connosco [empregados]. Já o Cavaco Silva, só estávamos ou falávamos com ele nas festas de natal, porque haviam sempre festas de natal e nós [empregados do refeitório] éramos convidados e íamos. Era muito simpático, mas mais fechado. Quanto ao Marcelo, não ia almoçar, aliás ele não almoça; come uma sandes e bebe um sumol de ananás. Mas falava-nos quando se cruzava connosco nos jardins ou nos corredores.  

 

Muito bem. Gosta da sua profissão, de servir as pessoas? Ou apenas teve de ser?

- Também teve de ser… porque eu cheguei ao 9º ano, comecei a namorar e não quis continuar os estudos. Casei-me cedo (juntei-me com 17 anos) e comecei a trabalhar logo na empresa… Mas gosto daquilo que faço porque atendo ao público. Gosto. De conversar, de brincar.  

 

E atender os mais novos…

- É o que digo. 5 estrelas. Mas chego a casa cansada… porque falo muito. O meu marido nota que eu, desde que vim para aqui, sou mais calada. (Risos). Porque converso, brinco, rio-me e, então, chego a casa mais cansada.  

 

Mas, mesmo assim, consegue acordar bem-disposta…

- Acordo, e acordo às 4:45 horas da manhã! Às 6:15 horas já estou aqui a trabalhar. 

 

Ainda dorme, então, menos que o Presidente Marcelo…? 

- (Risos). Não, porque deito-me cedo. Às 22:30 horas já estou a dormir.  

 

Agora em relação a nós, alunos, já estando a D. Paula aqui há quatro anos, queríamos saber se nota a evolução que vamos tendo, mesmo a nível físico, mas também nas relações consigo e com os outros?

- Noto diferença em alguns. No primeiro ano são muito fechados e tímidos; no segundo ano já conseguem manter uma conversa… e gosto de tudo o que vocês têm: as festas, o convívio. Eu não tinha ideia do que era uma Universidade. Para mim era virem aqui e terem aulas. Portanto, isso tudo para mim é giro e eu gosto.  

 

Uma questão mais difícil: têm circulado uns ‘zunzuns’ de que a D. Paula sevai embora num futuro próximo. É verdade? Pode falar disso?

- Posso falar. Eu trabalho para uma empresa. Se a empresa não renovar o meu contrato com a Universidade, vai embora e é normal que eu vá com eles. O que não quer dizer que a empresa que venha para aqui, ou as pessoas que venham tomar conta do bar não me convidem. Se me convidarem, eu fico. Porque não quero ir com a ICA.  

 

Isso envolveria ter de mudar de empresa…?

- Mas os contractos de refeitórios são iguais – eu continuaria com os 32 anos de serviço. O meu contrato passaria para a empresa que viesse para cá. Portanto, se me convidarem, eu aceito, porque quero ficar aqui; se não me convidarem, sou obrigada a ir com eles [com a empresa].  

 

E se for, vai com saudade…

- Vou. No dia 29 de março, até, éramos para ir já embora e eu pedi à empresa que me despedisse e que me desse a carta para o fundo de desemprego, porque já não tenho vontade… 

 

Se não estiver aqui, não quer estar em mais nenhum sítio, é isso? 

- Sim. Com a ICA, não. E queria ficar aqui. Gosto disto. Nestes quatro anos tive problemas na minha vida, de que vocês não se aperceberam, e estive sempre bem porque vocês também me ajudam a que eu vá estando bem. (Vocês ainda chegam a ser mais novos que a minha filha, que tem 26 anos…) É o que eu digo aqui, quando as minhas colegas novas chegam: temos de lhes facilitar porque eles ajudam-nos; ao fim e ao cabo, não nos ‘chateiam’. Temos de ser amigas deles porque eles são nossos amigos. E, muitas vezes, em relação a dinheiros eu tenho de dizer que há pessoas honestas, estando nós a falar de miúdos de 19 anos. Eu cheguei a dar troco e virem ter comigo ao fim de uma ou duas horas a dizer: D. Paula, deu-me dinheiro a mais.  

 

Isso também terá a ver com o facto de a D. Paula cultivar a relação de proximidade connosco. Se acontecesse com outra empregada, talvez o desfecho não fosse o mesmo… 

- Não sei. Mas os miúdos – para mim são miúdos - são mesmo honestos. Não estão aqui para fazer mal. Estão aqui para estudar, para ‘curtir’ os anos de Faculdade e não para prejudicar alguém.  

 

Voltando ao seu contrato, tinha dito que ia acabar a 29 de março…? 

- Sim, o contrato acabou mas conseguimos ficar até dezembroMas não mais do que isso.  

 

Muito bem. Já falámos dos alunos, queríamos agora saber da sua relação com os Professores e funcionários (risos). Talvez tivesse a ideia, quando veio, de que os Professores universitários são muito sérios. Confirma-se?

- Sim. Há Professores que são sérios, mas também há outros (que eu não sei o nome) …  

 

Pode-nos falar em geral (risos).

- Sim, porque não sei os nomes. Há uns que são simpáticos. Mas há um ou outro que são mais arrogantes, mesmo. Enfim, em geral são mais os antipáticos do que os simpáticos… 

 

E os funcionários do outro lado [da Faculdade]?

- É normal. Uns chatos, outros menos chatos. Umas pessoas mais conflituosas, outras menos conflituosas. Mas eu gosto de estar aqui [a trabalhar no Bar] pelos alunos, não pelos Professores nem por mais ninguém. 

 

[momento em que alguém abre a porta que dá acesso à esplanada] E esta porta daqui, incomoda-a ou nem por isso? Sempre a bater… e quando está frio, deixam a porta aberta…

- A mim não me faz confusão nenhuma… só estou à espera do momento em que ela parta (risos).  

 

Para acabar, uma pergunta para encaminhar para a última: qual é a sua idade? 

- Tenho 48 anos.  

 

Muito bem. E agora vamos colocar-lhe a pergunta que já combinámos, para acabar da melhor forma: como é o sexo depois dos 40? (Risos).

- Depois dos 40, a coisa tem de ser com mais calma, mais trabalhada. Principalmente se for a mulher, que se tiver 48 anos já está na menopausa, já tem dores na coluna, já tem dores nas pernas… Portanto é tudo com mais calma e mais carinho. Não pode ser aquelas ‘rapidinhas’ que vocês dão na vossa idade… 

 

Para terminar - e agora sim – pedimos-lhe uma mensagem para nós, alunos. 

- Divirtam-se, gozem bem a vida, não façam muitas asneiras – tabacoaquele que faz rir, as bebidas alcoólicas – riam-se, brinquem, porque vão ter uma vida muito difícil pela frente. Vão ter muitos obstáculos, vão ter de engolir muitos ‘sapos’ na vida, dissabores, dias maus. Portanto, aproveitem estes anos de Universidade que eu gostava de ter vivido e não vivi…  

 

11
Abr19

Entrevistas #3 - Ana Sofia Mendes (Presidente da AE)

Jur.nal

Ana Sofia Mendes, Presidente da nossa Associação de Estudantes (AEFDUNL), fala ao JUR.NAL sobre si, a Associação de Estudantes e o mandato que têm pela frente!

 

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Estavas já no Departamento Pedagógico, no anterior mandato. Agora és Presidente da AE. Era algo que sempre tiveste em mente, ou acabou, apenas, por acontecer?

 

Ana Sofia Mendes - Acho que não há nada que aconteça apenas por acontecer. O associativismo juvenil faz parte da minha vida desde os meus 16 anos. Desde cedo que trabalho na sensibilização dos jovens estudantes para a incrementação da sua participação na vida em sociedade. Quem me conhece sabe que esta é uma causa que me move. Na nossa Associação de Estudantes, colaborei com o Departamento de Estágios e Saídas Profissionais, assumi a coordenação do Departamento Pedagógico e sou atualmente Presidente de Direção. Não olho para este percurso como um plano ou um sonho, mas sim como um percurso natural, fruto de trabalho e dedicação.  

 

Vês-te a enveredar por caminhos deste tipo – liderança - na tua vida profissional, em níveis mais elevados (política, designadamente)? Tendo em conta que fazes parte da JS, como sabemos.

 

ASM - Claro que sim. O sucesso profissional é algo que todos ambicionamos. Quero, evidentemente, que o meu percurso profissional atinja um patamar de excelência, seja ele como advogada, consultora ou juíza. A minha militância na Juventude Socialista e no Partido Socialista, que é do conhecimento geral, porque nunca o escondi, nem tenho motivos para tal, também faz de mim quem sou hoje. Já dizia Aristóteles que “o homem é, por natureza, um animal político”. Somos todos políticos, em casa, na escola, no trabalho, pois todos defendemos causas e procuramos transformar a sociedade que nos rodeia. No entanto, sempre deixei claro, desde o primeiro minuto, que esta é uma candidatura totalmente apartidária, não obstante de integrar vários elementos que têm intervenção partidária nos vários quadrantes políticos.

 

Recuemos às eleições: 138 alunos foram às urnas eleger a Direção. 99 votos a favor. 39 nulos/brancos. O que a lista eleita disse oficialmente: “Cabe ainda um caloroso agradecimento endereçado a todos os alunos, os que votaram favoravelmente, bem como os que o fizeram desfavoravelmente e mesmo os que o não fizeram. É nossa obrigação representar todos de forma incondicional, não obstante o sentido de voto, posições favoráveis ou contrárias, interesses ou manifestações de cada um.” Tendo em conta a elevadíssima abstenção e os bastantes votos nulos e brancos, proporcionalmente, como reages aos resultados eleitorais? Achas que afeta a legitimidade da AE, uma vez eleita por uma parte pequena da comunidade de alunos?

 

ASM - No meu discurso da Tomada de Posse dos Órgãos Sociais da AEFDUNL tive oportunidade de manifestar a minha profunda tristeza relativamente à taxa de abstenção sentida neste ato eleitoral, ainda que tenha diminuído face ao ano anterior. Ora, cabe-nos refletir sobre os motivos e fundamentos que podem estar na origem deste panorama, para que assim possamos agir. Mais do que pôr em causa a legitimidade da eleição da Associação, estes resultados são um reflexo da nossa sociedade, não fosse Portugal um dos países da União Europeia com maior taxa de abstenção da população jovem nos atos eleitorais. A ida às urnas é, sem dúvida, determinante para manifestarmos o caminho que queremos para a nossa comunidade. Este foi um direito que custou muito a conquistar e é um facto de cuja importância muitos de nós, jovens, não temos consciência. Voltando às nossas eleições, é claro que este resultado denota um afastamento dos alunos relativamente à eleição dos seus representantes, talvez por não terem consciência da importância do seu voto. Esta é, sem dúvida alguma, uma das nossas maiores preocupações: tornar a NOVA Direito uma comunidade académica una e próxima, que se sinta devidamente representada. Mais a mais, nesta fase, e devido à nossa ação de maior proximidade junto dos nossos estudantes, sentimos já um envolvimento muito mais positivo de toda a comunidade estudantil, bem como de maior reconhecimento do trabalho desenvolvido pela Associação de Estudantes.

 

Consideras que os alunos da faculdade perdem em ter sistematicamente apenas uma lista candidata?

 

ASM - Inevitavelmente, a existência de duas listas em qualquer ato eleitoral promove muito mais o debate, a troca de ideias, o aperfeiçoamento de propostas e, consequentemente, o melhoramento de projetos. Temos que ter em conta, no entanto, que, para além de a NOVA Direito ser um meio (quantitativamente) pequeno em termos de estudantes, a abstenção que se tem verificado significa que há uma percentagem já por si pequena de alunos com interesse em participar na vida associativa. Um argumento importa salientar: a elevada abstenção poderia sempre significar uma forma de protesto perante constantes candidaturas únicas e perante a alegada inatividade de Direções anteriores. Mas o facto de dessa abstenção nunca ter saído uma única lista alternativa, com ideias ditas diferentes, apenas denota que há uma total falta de interesse em participar e não uma revolta ou uma insatisfação expressas, como se tende a afirmar. Para além do mais, o facto de sermos lista única não nos pode a nós ser imputado; mais a mais, nunca este facto nos levou a um estado de comodidade ou falta de empenho eleitoral, tendo inclusive sido promovido, na campanha, uma sessão para que o público (os nossos alunos) encarassem a lista candidata e a interpelassem diretamente, tendo a possibilidade de acrescentar as suas próprias ideias ao nosso projeto e, assim, integrarem o próprio projeto da forma que mais lhes conviesse.

 

Em relação à tua equipa, à equipa que nos representa: são 42 pessoas. É difícil formar uma equipa? Como é o processo? Podes descrever-nos? E qual o critério para escolher cada elemento para cada posto?

 

ASM - Em rigor, falamos de uma equipa de 44 pessoas, entre as quais três integram a Mesa da Assembleia Geral e outras três o Conselho Fiscal. Para mim, a chave para o sucesso está na equipa que nos acompanha. Parece uma frase feita, mas ao fim de alguns anos no mundo do associativismo este é para mim um dado adquirido que aplico em toda a minha vida. Isto porque a equipa, além de ser a base de suporte e de apoio, é também uma fonte de aprendizagem. Para ser sincera, o processo de formação da lista não é fácil. Quando tomei a iniciativa de avançar com esta candidatura não imaginava que era uma tarefa tão complicada, isto porque aquilo que se pretende é, acima de tudo, que haja uma total adequação dos alunos candidatos ao cargo a que são propostos. Para a “máquina” funcionar, a equipa tem de funcionar. Este é um projeto de alunos, para alunos, que se pauta pela integração e inclusão. Numa primeira fase, foi criado aquele que pode ser considerado o núcleo duro da lista, que é hoje a Presidência da AE. Depois, num segundo momento, foram escolhidos, em conjunto, os Coordenadores (ou Vogais de Direção), e de seguida a restante equipa, formada pelos colaboradores.

 

Na questão dos orçamentos, podes explicar-nos como funciona o sistema de financiamento da AEFDUNL? De onde vem o dinheiro que é utilizado?

 

ASM - Conforme previsto no nosso Orçamento, aprovado em sede de Assembleia Geral de Alunos do dia 27 de fevereiro, o financiamento da AEFDUNL é feito através das quotas dos nossos Associados, das inscrições de certas atividades que realizamos, bem como de verbas dos nossos patrocinadores. Ora, falo do financiamento do Instituto Português do Desporto e da Juventude, no âmbito do Programa de Apoio Estudantil, que procura apoiar o desenvolvimento de atividades de Associações de Estudantes, do Ensino Básico, Secundário e Superior, do financiamento que é concedido pela nossa Faculdade e daquele que era atribuído pela Caixa Geral de Depósitos, até ao ano passado.

 

Relativamente ao plano de actividades dos vários departamentos, apresentado recentemente em Assembleia Geral, estão lá descritas todas as actividades ou existem ainda outra pensadas?

 

ASM - O Plano de Atividades é elaborado para um ano de mandato, dois semestres letivos, pelo que pode acontecer que, por motivos logísticos ou de outrem ordem, seja necessário proceder a algumas alterações. Para além destas circunstâncias, o Plano de Atividades aprovado é a base de trabalho para o nosso mandato, que nos vinculámos a cumprir, desde o momento da apresentação da candidatura, o que é notório pelo facto de nele terem sido incluídas, todas as propostas que apresentámos na nossa candidatura em novembro. Evidentemente que, ao longo do ano, podem surgir outras atividades que não foram previstas no Plano de Atividades previamente elaborado, nomeadamente fruto das nossas parcerias. Por exemplo, recordo-me de um evento recente que organizámos em conjunto com a nossa Faculdade, as primeiras Jornadas da Juventude Nova Direito “Reflexões Sobre Lideranças no Feminino”, a propósito do Dia da Mulher. São oportunidades que surgem e que agarramos por considerarmos serem benéficas para toda a comunidade académica.

 

Quão exigente é “montar” um plano de actividades para dois semestres? Muitas ideias acabam por ser abandonadas?

 

ASM - Não é uma tarefa fácil. Primeiro que tudo, a nossa Associação tem como fim último servir os seus alunos, e garantir que todos, sem exceção, tenham um percurso académico dinâmico, consistente e de elevada qualidade. Quer isto dizer que, para além de todas as atividades que realizamos, há um trabalho contínuo e diário que não se resume a “atividades”. A nível de calendarização é muito difícil de gerir, pelo que, muitas vezes, temos de fazer opções e até mesmo abandonar ideias e projetos muito promissores. Apesar de o mandato ter a duração de um ano, de dezembro a dezembro, não há muito tempo. As ideias são muitas, a vontade também, e o tempo corre contra nós. Ainda “ontem” tomámos posse e já passaram quase quatro meses de mandato. Fazendo um balanço destes meses, é notória a nossa vontade de querer fazer diferente: existe um permanente acompanhamento das nossas equipas, de futsal masculino e vólei feminino, uma revolução ao nível das redes sociais, uma preocupação com a oferta formativa e de recrutamento (nomeadamente na Feira de Mestrados), uma dinâmica de ação e responsabilidade social com uma dimensão que mesmo a nós nos ultrapassa (com o exemplo da Palestra Sê + Verde), a oferta de cursos do Departamento Pedagógico sobre ramos do Direito menos convencionais, entre muitos outros.

 

Para além das actividades que se propõem a realizar para os alunos, em relação à ação da AE perante a Direção da Faculdade, o que têm em mente? Existirá alguma acção ao nível, por exemplo, da correção de exames, do estatuto trabalhador-estudante, da biblioteca?

 

ASM - Hoje, mais do que nunca, vemos que existe uma relação muito proveitosa e de estreita cooperação entre a Associação e a nossa Faculdade. Agradeço, na pessoa da Senhora Diretora, Professora Mariana França Gouveia, a possibilidade que nos é dada de protagonizar uma defesa conjunta dos nossos alunos, prosseguindo os seus interesses, investindo na sua formação curricular e extracurricular. Assim, procurámos, desde o primeiro momento, fazer notar algumas daquelas que são as nossas maiores preocupações: as alterações do plano curricular do 1º ciclo, a reforma dos Mestrados, bem como o consequente aumento de preço, os horários letivos dos vários ciclos, a implementação de uma política sustentável e responsável com o Projeto Sê + Verde. Ora, paralelamente existe um trabalho que está a ser desenvolvido pelo Departamento de Apoio ao Estudante em conjunto com o Conselho Pedagógico, a quem compete pronunciar-se, junto da Faculdade, sobre as orientações pedagógicas, os métodos de ensino, calendário de exames, horários, entre outras competências. Não é, nem nunca será, a intenção da Associação de Estudantes substituir-se a este órgão, mas sim cooperar e cumprir a nossa missão: servir os nossos alunos. Neste sentido, foram abordados os temas relativos à correção dos exames (nomeadamente sobre o tempo de correção e a possibilidade de revisão de notas), as corregências das unidades curriculares, a perspetivação do surgimento de uma formação em Legal English, a criação de um mecanismo de defesa dos alunos em caso de perda do seu exame, o estatuto trabalhador-estudante, entre outros. Estes temas estão a ser discutidos com os órgãos competentes da própria Faculdade.

 

Neste ano têm ressurgido dois núcleos autónomos da AEFDUNL. Com que olhos vê a Presidente da Associação de Estudantes estas iniciativas?

 

ASM - Sem dúvida alguma que me deixa muito feliz ver renascer o Grupo de Retórica e a Tuna, pelo contributo que trazem a toda a comunidade académica. Temos atualmente quatro Núcleos Autónomos da AEFDUNL, com Jur.nal e a Comissão de Praxe, a funcionar ativamente e que constituem uma marca distintiva da nossa Faculdade. Estamos perante uma viragem da página da Nova Direito, de reforma, de iniciativa e proatividade, quer ao nível da Faculdade, da Associação e dos seus Núcleos Autónomos. Se ainda há pouco mencionava que no momento da nossa eleição sentia um afastamento entre a comunidade académica e o associativismo, hoje a realidade é outra. Estamos e estaremos sempre cá para apoiar os nossos alunos.

 

Alguma mensagem que queiras passar, à tua equipa e/ou aos alunos, através do JUR.NAL?

 

ASM - Rigor. Profissionalismo. Presença. Inovação. Ambição. Equipa. Empenho. Dedicação. Proximidade. Transparência. Franqueza. É este o nosso mote. Esta não é uma candidatura minha ou da minha equipa, é uma candidatura nossa, de todos os alunos. É, assim, indispensável a participação de todos, pois cabe aos nossos estudantes demonstrar o interesse e vontade de participar, a determinação por investirem neles próprios, por se tornarem indivíduos interessados e proactivos. Que sejamos capazes de unir as nossas causas. A vontade de mudar, de reivindicar e de fazer diferente é o apelo que deixo.

 

 

05
Abr19

Entrevistas #2 - Pedro Lourtie

Jur.nal

O diplomata Pedro Lourtie é atualmente representante permanente adjunto de Portugal junto da União Europeia, desempenhando funções no COREPER I. Ao longo da sua carreira foi, entre outros, Secretário de Estado dos Assuntos Europeus (no XVIII Governo Constitucional), Embaixador na Tunísia e Cônsul-Geral em Paris.

O JUR.NAL quis saber mais sobre o cargo que hoje ocupa a nível europeu.  

 

(Imagem: Observador)

 

Atualmente, desempenha funções como representante permanente adjunto de Portugal no COREPER I. Desde quando desempenha essas funções e de que modo foi nomeado?  

 

Pedro Lourtie - Desempenho estas funções desde 6 de outubro de 2016, para as quais fui nomeado por despacho do Ministro dos Negócios Estrangeiros. 

 

Qual a periodicidade das reuniões do COREPER? E onde são realizadas?  

 

PL - Começo por esclarecer que o COREPER – o Comité dos Representantes Permanentes – é um Comité previsto no artigo 240º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), e que tem como principal responsabilidade a preparação dos trabalhos do Conselho da União Europeia.  

 

Este Comité reúne em duas formações distintas, o COREPER I e o COREPER II, porque, devido à quantidade de matérias e de questões que aí são abordadas, seria impossível tratar de tudo se o COREPER apenas tivesse uma formação. 

 

Tanto o COREPER I (onde têm assento os representantes permanentes adjuntos junto da UE de cada Estado Membro) como o COREPER II (onde têm assento os representantes permanentes, que chefiam as representações permanentes em Bruxelas, conhecidas como REPER) reúnem normalmente duas vezes por semana e as reuniões são realizadas nos edifícios do Conselho da União Europeia, em Bruxelas.  

 

Penso ser interessante notar, ainda, que, de um modo geral, a matérias chegam ao COREPER depois de terem sido tratadas nos outros comités e grupos de trabalho do Conselho (que são mais de uma centena) onde se reúnem os peritos das várias áreas de atuação da UE – por exemplo, Grupo de Trabalho Ambiente, Grupo de Trabalho Investigação, Grupo de Trabalho Energia ou Comité Especial da Agricultura. Cabe ao COREPER dar orientação e fazer a supervisão desses grupos de trabalho, bem como debater as matérias, incluindo do ponto de vista técnico, onde não foi possível chegar a acordo ao nível dos grupos de trabalho. 

 

Que tipo de questões são debatidas no Comité? Qual a duração média de uma reunião? 

 

PL - Como referi, o COREPER tem duas formações. No COREPER I, onde atualmente represento o nosso país, são tratadas as matérias do âmbito da competitividade, mercado interno e indústria, do ambiente, do emprego, política social, saúde e consumidores, dos transportes, telecomunicações e energia, das pescas, questões agrícolas, veterinárias e fitossanitárias, e da educação, juventude, cultura e desporto.  

 

No COREPER II são tratadas as questões financeiras, orçamentais e de política macroeconómica, de política externa e de desenvolvimento, de comércio, de justiça e assuntos internos, e também as questões horizontais, como é o caso das negociações de alargamento da UE ou, mais recentemente, as negociações do Brexit.   

 

A duração das reuniões é muito variável e depende fundamentalmente do número de matérias a tratar numa determinada reunião e, obviamente, da complexidade dos temas, em especial da dificuldade em chegar a acordo sobre os dossiês na agenda. Já estive em reuniões do COREPER que se iniciaram às 9h da manhã e que terminaram de madrugada, como também já estive noutras que acabam por durar apenas uma manhã. 

 

As decisões que toma advêm das posições veiculadas pelo Governo português ou, diferentemente, tem em seu poder alguma margem para decisões autónomas? 

 

PL - Como o próprio Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia indica, o COREPER é composto por representantes permanentes dos governos dos Estados membros. Ou seja, todas as posições aí defendidas são as posições dos respetivos governos. Trabalhamos sempre com base nas orientações ‘da capital’, como normalmente se diz na gíria diplomática.  

 

De forma simples, diria que são esperadas de nós, no seio do COREPER, duas coisas fundamentais: por um lado, a melhor defesa possível das posições portuguesas, em diálogo com os representantes dos restantes Estados Membros e da Comissão Europeia e, por outro lado, a recolha de informação que possa ajudar à formação da posição nacional e a sua transmissão às autoridades portuguesas, muitas vezes acompanhada pelo nosso parecer sobre as matérias em causa.   

 

Em que medida o trabalho do COREPER I influencia a vida dos cidadãos do espaço da União? 

 

PL - O que me parece importante perceber é que um Estado Membro da UE tem, para além dos vários níveis de governação tradicionais – o nível local, regional e nacional – também um nível europeu de governação, que se reflete nas políticas e nas decisões que são adotadas em comum ao nível da União Europeia. 

 

Existem, assim, políticas que são decididas, total ou parcialmente, em comum no seio da União Europeia. Por exemplo, a política comercial ou a política aduaneira são decididas exclusivamente a nível europeu. É normal que assim seja, pois delas depende o funcionamento do mercado interno europeu. 

 

Outras políticas são decididas parcialmente no nível europeu. Por exemplo, a política ambiental. Muito recentemente foi adotada legislação europeia para proibir e restringir os plásticos de uso único. Também aqui faz sentido que tenha sido a nível europeu. Por um lado, porque o lixo provocado pelos plásticos descartáveis é um problema global e europeu, e não apenas de um país. Por outro lado, porque apenas uma ação em comum pode ser verdadeiramente eficaz neste domínio. Uma decisão de apenas alguns países poderia ser contornada através dos Estados Membros onde não se aplicassem essas regras. Seria, por isso, ineficaz. 

 

Depois da aprovação do Tratado de Lisboa, em vigor há quase 10 anos, a generalidade da legislação europeia é aprovada através do chamado processo legislativo ordinário, também conhecido como co-decisão. Neste processo intervêm, com idênticos poderes, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia, as duas instituições europeias co-legisladoras. Simplificando, a Comissão Europeia – que tem o monopólio da iniciativa legislativa – apresenta uma proposta legislativa diretamente ao Parlamento Europeu e ao Conselho. Cada instituição adota uma posição respetiva sobre a legislação proposta e, nessa base, encetam-se conversações entre as duas instituições para se chegar ao acordo final, que é adotado formalmente pelas duas instituições como legislação da UE. 

 

O COREPER desempenha a sua função no âmbito do Conselho da UE. É uma função importante porque faz a ponte entre o nível técnico, dos grupos de trabalho especializados, e o nível político, do Conselho de Ministros da União Europeia, que se reúne em diversas formações, dependendo do tema. Mais uma vez volto ao exemplo dos plásticos descartáveis: a proposta começou por ser debatida no Grupo de Trabalho Ambiente, passou depois para o COREPER I para debater os pontos mais difíceis, e foi finalmente debatida e adotada pelo Conselho de Ministros do Ambiente da UE. 

 

Quando está nas reuniões sente o peso da representação do nosso país no exterior, ou não coloca esse tipo de paixões no seu trabalho diário? 

 

PL - A responsabilidade da representação externa do nosso país deve estar sempre presente no trabalho de um diplomata. Enquanto diplomata, estou sempre ciente de que estou a exercer uma função de representação do nosso país.   

 

De que forma influi o processo do Brexit no dia-a-dia das instituições da União, designadamente no Comité de Representantes Permanentes? 

 

PL - A União continuou o seu trabalho, apesar do Brexit. Foi criada, no seio da Comissão Europeia, uma equipa negocial para o Brexit, chefiada por Michel Barnier e mandatada pelo Conselho da UE. O Conselho também se organizou para essas negociações com a criação de uma fileira autónoma onde estão presentes os 27 Estados Membros, ou seja, sem o Reino Unido. Esta fileira inclui um grupo de trabalho especial e temporário para acompanhar as negociações, que reporta ao COREPER II e ao Conselho de Ministros da UE. 

 

Esta organização permitiu separar o trabalho normal da União, em que o Reino Unido ainda participa enquanto for membro, do trabalho das negociações do Brexit. Eu diria, por isso, que o Brexit não afetou o normal desenrolar do trabalho da UE. No entanto, é evidente que o acompanhamento das negociações do Brexit trouxe trabalho adicional, nomeadamente para o COREPER II.  

 

Muitos utilizam o termo burocrata para se referirem aos cidadãos com funções semelhantes às suas no seio da União, aludindo, eminentemente, ao facto de possuírem cargos de relevo sem terem sido eleitos directamente. Pode ser essa uma possível explicação para a descrença, que sabemos ser real, de uma parte relevante dos europeus na UE e nas suas instituições?  

 

PL - A União Europeia tem duas instituições co-legisladoras: o Parlamento Europeu, cujos membros são eleitos por sufrágio direto e universal (aliás, as eleições europeias terão lugar em breve, no próximo dia 26 de maio), e o Conselho da União Europeia, onde têm assento os governos eleitos democraticamente em cada um dos Estados Membros.  

 

Não se deve confundir as competências de uma instância preparatória do Conselho, como é o caso do COREPER, com a instância de tomada de decisão. A decisão, nomeadamente sobre as matérias legislativas, é política e é tomada, no Conselho, pelos governos dentro das condicionantes constitucionais que se lhes aplicam em cada país e, no Parlamento Europeu, pelos deputados eleitos.  

 

Quanto ao papel das administrações, não conheço nenhuma democracia que funcione bem sem uma administração sólida e competente e sem que as matérias sejam acompanhadas e tratadas também por peritos ou por profissionais nas áreas em causa, sem prejuízo das decisões deverem ser tomadas por quem tem a legitimidade para as tomar.   

 

Esta não é a sua primeira função de relevo na sociedade, tendo já desempenhado funções como Embaixador na Tunísia e Cônsul-Geral em Paris. Qual o trabalho que, até agora, mais desafios lhe colocou, profissional e pessoalmente, e qual o que mais gosto lhe proporcionou desempenhar? 

 

PL - A minha carreira já me propiciou funções muito diversas dentro da diplomacia e desempenhei-as todas com muito entusiamo. Tenho a sorte de fazer algo de que gosto muito. 

 

28
Fev19

Entrevistas #1 - Francisco "Xico" Cruz

Jur.nal

Xico, como é conhecido, é um dos jogadores portugueses de League of Legends com mais sucesso atualmente e foi dos primeiros a jogar fora de Portugal, jogando agora na liga espanhola (G2 Heretics) e tendo começado na liga portuguesa (LPLOL), passando por ligas bastante conhecidas como a TCL (Turquia). Depois de um ano não tão bom, o mid laner é agora um dos jogadores mais promissores e reconhecidos na liga em que joga, ajudando a sua equipa a obter um total de 6 vitórias e 3 derrotas que os deixa provisoriamente em primeiro lugar.

 

 

 

Q: Estás neste momento a jogar na liga espanhola, sendo que também já jogaste noutras ligas com bastante visibilidade como a liga turca. Como é que lidas com a pressão e o stress dos jogos e, especialmente neste momento, de manter o primeiro lugar sabendo que és provavelmente um dos jogadores centrais da equipa?

 

A: Não tenho muita pressão porque já estou habituado e já ando nesta vida há cerca de 2 anos, mas antes dos jogos sinto sempre um pouco de ansiedade. No entanto, a partir do momento que o jogo começa, foco-me a 100%, faço o que tenho a fazer e a ansiedade acaba por se tornar em foco, pelo que até me ajuda de vez em quando!

 

Q: Ultimamente a vossa equipa tem ganho bastante, mas nem todos os jogos são perfeitos e já sofreram 3 derrotas. Como é que lidas com essas derrotas e te preparas para os jogos seguintes?

 

A: Temos sempre uma grande preparação por trás de cada jogo, no entanto cada vez que perco fico muito abalado, mesmo que só durante as primeiras horas uma vez que odeio perder e que especialmente este ano quero focar-me ao máximo e dar o meu melhor para ser dos melhores jogadores possíveis. As derrotas fazem parte e tenho que aprender com elas, por isso nem tudo é negativo quando se perde.

 

Q: Sabemos que o LOL é algo de que gostas bastante, mas não deixa de ser um trabalho para ti. Sentes que por ser algo de que gostas é sempre fácil?

 

A: Não, como qualquer outra coisa, na minha opinião tudo o que seja trabalho ou obrigatório às vezes torna-se chato ou demasiado. No entanto, tirando os treinos com a equipa, quando não sinto que os jogos vão ser produtivos para aprender, tento distrair-me com coisas relacionadas com o LOL e ter vontade para jogar outra vez!

 

Q: Neste momento estás a viver em Espanha com a tua equipa e já não é a primeira vez que vives fora de Portugal. Sentes que estar longe da tua família e amigos torna as coisas mais complicadas ou a adaptação é relativamente fácil?

 

A: Depende de como te sentes, ao final de umas semanas sentes sempre saudades da tua família/amigos, mas se não existirem distrações emocionais eu acho que é fácil. Quando falo de distrações emocionais falo de problemas de saúde com familiares ou amigos, ou mesmo de situações em que se tiver uma namorada as discussões podem causar um transtorno emocional, mas tem que ver com ser adulto e pôr certas coisas de lado para focar no trabalho!

 

Q: Sentes mais responsabilidade ou que há mais expetativas relativamente a ti agora que estás em Espanha ou em Portugal sentias o mesmo? Se sim, porquê? Sentes que isso afeta a forma como jogas?

 

A: Sinto relativamente o mesmo, mas obviamente que em Espanha existem um pouco mais de responsabilidade e expetativas porque toda a gente me está a observar e em Portugal já todos me conhecem. Por outro lado, obviamente a competição é muito melhor em Espanha! No entanto nada disto afeta a minha forma de jogar porque dou o meu máximo em qualquer situação.

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