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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

09
Set20

Encore

Jur.nal

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The actor walks across

Tight familiar hallways

There’s an echo:

An ever distant audience,

The door closes, silence.

 

Robes reach the floor,

The mirror gazes the body,

There’s a slight smirk,

An almost maniacal stare,

Amazingly hideous, beautiful bruises

Are laid bare

There he lingers indefinitely

Heavenly heavily, have we…

BANG! BANG!

A sudden knock: impending doom,

Pulls down the body in the room,

The door creaks and screams,

A siren’s call in full control,

Louder and louder as he closes in,

Towards his own perdition, sin,

Déjà vu, the door he must open,

One last breath before damnation!

But hell is empty and well spent,

Its embrace only a mere second

And for him it no longer beckoned.

So a sigh set aside, grief and relief,

And the return of the actor

Made the mirror shatter.

 

André Farias Carmona

(Diretor do Jur.nal)

04
Set20

Dó sem Ré nem Mi

Jur.nal

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Era uma vez uma menina de vestido azul que estava sentada numa grande pedra debaixo de um velho sobreiro a olhar um prado, seco. E onde nós víamos um campo inóspito, a menina via um burro e um galo, aliás, via um galinheiro inteiro! E papoilas e corvos e legumes e espantalhos. E onde ela via tudo isto, nós não víamos nada.

Será que em tempos também tínhamos sido assim? Teríamos também sentido a prosperidade da imaginação sem sequer notar? Talvez sim, mas agora não. Agora só resta o desejo que a menina seja diferente e que carregue para o resto da sua vida toda a inocência e felicidade que couber num bolsinho muito pertinho ao coração.

Sabemos que vai crescer, mas isso ela também sabe, até já disse que queria ser pintora. Só não sabe que nem tudo vão ser suaves pinceladas de arco-íris e que vão haver bicos e tesouras e agulhas que vão tentar descoser aquele bolsinho de amor de perto do coração. Ah, que ela seja forte! E que sejamos nós também, mesmo depois de gastos os pincéis.

Talvez seja mesmo esta a beleza da vida. Crescemos, aprendemos e, pelo meio, tornamo-nos mais sábios das nossas escolhas, percebemos que o sol nem sempre brilha, mas está sempre lá.

A menina, já crescida, aprendeu que por mais apertinhos que a sua barriga tenha sentido, vale mais a pena comer a maçã trinca a trinca. Mais vale pensar na gente do que falar da gente. Mais vale a pena estender a mão do que a esconder.

 Aprendamos com quem já tudo viveu e disse: “podia-se fruir, podia-se criar durante toda esta breve vida, mas canta-se sempre e apenas uma canção de cada vez, nunca se ouve a sinfonia plena e completa, com as vozes e instrumentos em simultâneo” (Hermann Hesse).

 

Leonor Gambôa Machado

(Aluna do 4.º ano da Licenciatura e Diretora-Adjunta do Jur.nal)

30
Ago20

Cultura, I guess

Jur.nal

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Este texto é publicado na revista oficial dos estudantes de uma Faculdade de Direito. O conteúdo mais comum, aparte opiniões sociais e políticas, são álbuns, filmes e livros preferidos. O porquê de os termos consumido e porque é que os outros também o deveriam fazer. Todos nós lhes reconhecemos o valor enquanto escapatória do mundo da lei, caso contrário não teríamos uma tuna ativa, tal como o Grupo de Retórica e o Jur.Nal.

Enquanto colectivo, reconhecemos o valor dos artistas e das suas criações. Todos temos playlists no Spotify para as viagens grandes, enchemos cinemas, compramos o candeeiro novo porque é muito mais bonito do que o que já lá está em casa. No entanto, não reconhecemos as suas ambições. Todos os anos centenas de alunos ouvem que não vão ter emprego se seguirem certo caminho. Felizmente, ignoram.

Negar que existe um problema com a arte em Portugal é viver numa ilusão obscena. Negar que o mesmo se relaciona com motivos socio-económicos é um branqueamento profundo da realidade portuguesa.

Considero que crescer na Beira Interior é uma existência feliz. Não teria escolhido qualquer outro sítio. Ir e voltar é nostálgico: a nova realidade da nossa cidade pequenina, não reconhecer os miúdos – a frase que mais vezes repito quando cá estou é, sem qualquer sombra de dúvidas, “estou velha”; não é que o esteja, a mudança é que simplesmente não é confortável. O Luís Severo, na sua Cheguei Bem, expôs perfeitamente o que sinto desde setembro de 2018: “cheguei bem, mas já vou embora”. Sinto-o, mesmo que o Luís se esteja a referir a Lisboa. A arte tem a vantagem dos vários significados, de ser um conforto na situação concreta.

Crescer na Beira Interior é, também, um sentimento agridoce. É ir ao cinema ficar perante blockbusters e animação infantil, raros concertos – normalmente não a meu gosto ou que desconhecia (e que mais tarde me arrependia) – por sorte, sempre frequentei o teatro que, infelizmente, é algo atípico no interior. Os grandes concertos em Lisboa ou no Porto que falhei porque ia ter que faltar à escola. Comecei a ir no meu 11º ano, a escola ia continuar, os concertos nem por isso.

O interior apresenta um custo de vida muito inferior ao da capital. Na minha cidade arrendam-se casas a metade do preço de quartos em Lisboa. Entristece-me saber que alguns dos meus colegas ficaram a estudar por cá não por escolha, mas por necessidade. Um artista beirão está limitado pelo estigma com que é visto e pelas circunstâncias familiares. Alguns lá desistem e ingressam num trabalho mais convencional.

Em Lisboa encontrei um novo cenário. Havia tanto para fazer que nem sabia bem o que escolher. Somos bombardeados constantemente por todo o tipo de atividades culturais. Mesmo não me alongando, desta vez, em convicções pessoais, não posso deixar de reparar que a cultura parece mais apelativa aos mais abastados. Desengane-se quem acredita que é por falta de gosto. É falta de tempo, falta de posses, falta de vontade de ser olhado de lado. Mais uma vez, algo não bate certo. Como é que a cultura é para os ricos, mas os artistas são pobres?

O Orçamento de Estado para 2020 aumentou em 16,7% o que destina à cultura. Ficou aquém do 1% do OE pedido pelo setor. É urgente que a cultura comece a ser reconhecida. No mundo da cultura, um artista bem sucedido é aquele que na pandemia não precisou de ajuda. Nos teatros, aumentam-se os preços para não sucumbirem. Os artistas merecem, como qualquer outro, reconhecimento pelo seu trabalho. A arte é mais do que um passatempo, mais do que um entretenimento de outrem. Precisa de ser vista como algo essencial, que o é.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 3.º ano da Licenciatura)

25
Ago20

Canção Simples

Jur.nal

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Toco-te na mão. Dá-se uma espécie de vazio, há uma pausa. E nesse compasso de espera, aguardo que o Toque volte, e traga a resposta.

Ouço-te sussurrar qualquer coisa ao Toque e espero que ele desça por ti e suba por mim. O Toque, alcança-me o dedo e por ele caminha, atravessa-me o dorso da mão, segue pelo meu braço, trepa-me o ombro, corre-me contra o pescoço e sussurra-me ao ouvido. E eu penso e sussurro ao toque, que se afasta, descendo o ombro, caindo pelo braço, atravessando o dorso da mão e caminhando sobre o meu dedo para te ir sussurrar nova mensagem. A operação vai-se repetindo, e de cada vez que o toque vem, volta mais rápido porque nós já não pensamos tanto, já não demoramos tanto tempo a descodificar as mensagens um do outro. Compreendemos que partilhamos o mensageiro, o toque é meu e teu e compenetra-nos. E de cada vez que o faz, leva um bocadinho meu e traz um bocadinho teu. E a cada impressão, torna-se menos claro o seu emissor, e tanto eu como tu, já não sabemos quanto tu tens de mim e quanto eu tenho de ti. Chegados ao limite do limite, ele não faz mais sentido e a ideia de duas máquinas de sentir cai por terra, tornando-se relevante só o mensageiro e consequentemente a mensagem, que já não é minha ou tua mas resultado indivisível dos dois. Percebemos que já não conversamos, que já não precisamos de ouvir o que cada um tem a dizer para responder ao outro, os toques ganham ritmo, e embalados ao som das nossas próprias percussões, dançamos. O movimento excita-se a si próprio e estamos rubros. E o toque, que começou toque e virou conversa, torna-se toque outra vez, porque estamos rubros.

 

Maria Manuel de Sena

Aluna do 3.º ano da Licenciatura

 

22
Ago20

Sexualidade Agressiva ou Agressão Sexualizada?

Jur.nal

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Existem poucos pontos de comparação para a sensação causada pelas generalizações grosseiras que os homens fazem sobre a sexualidade feminina – unhas a arranhar um quadro de giz ou uma jante de metal a arrastar-se sob uma superfície de vidro são duas que me ocorrem, ambas pela mesma razão: são irritantes, desnecessárias e colocam-me imediatamente em estado de alerta. Foi o que aconteceu recentemente quando ouvi alguém a constatar que ‘a maioria das mulheres deseja secretamente ser magoada durante o sexo’ e que ‘existe um certo tom afrodisíaco em contrariá-la’. Pondo de parte aquilo que soa a uma desculpabilização de comportamentos sexualmente transgressores e, até certo ponto, uma defesa da violação, dei por mim a deliberar sobre o assunto e a questionar até que ponto é que essa sexualização da violência não é uma construção sociocultural que temos simplesmente vindo a aceitar acriticamente.

Desde a subtileza da literatura ao excesso da pornografia, a mulher é frequentemente retratada como um ser frágil, ingénuo e virginal, sempre ansiosa por ser dominada. No entanto, talvez a maior ofensa venha do cinema – não pelo meio em si, mas por ser aquele que tem o maior impacto cultural no nosso quotidiano. É pouco frequente ouvir discussões em escolas ou gabinetes acerca do último livro a chegar às prateleiras, e menos frequente ainda debates sobre o porno do momento. No entanto, filmes, séries, atores e realizadores discutem-se com frequência; discutem-se prémios e cerimónias e numa espécie de inversão de papéis com aquilo que anteriormente seria imediatamente classificado como o cromo dos filmes, é cada vez mais importante ter opiniões acerca dos filmes sob o risco de ser socialmente canibalizado. “Não viste o Joker?”, “Adorei a crítica aos ricos do Parasitas”, “O Marriage Story não representa bem o processo de divórcio”… As opiniões não têm de ser elaboradas ou consistentes ou contextualizadas adequadamente; não há problema nenhum que uma pessoa de 19 anos que nunca tenha namorado mais de 6 meses ou que tenha estado em contacto com qualquer tipo divórcio tenha fortíssimas opiniões acerca do mesmo; não há problema que esta pessoa seja ou não consciente das suas limitações perante determinadas temáticas – o importante é que ela tenha uma opinião.

Isto para dizer que o cinema importa e os seus efeitos na cultura são palpáveis, principalmente quando abordam a sexualidade. Ajudam a elaborar a ideia da mulher desejável e os seus padrões: as curvas, a cara, o cabelo, as ancas, o comportamento, a personalidade, a inteligência, o sentido de humor – a mulher sensual, a mulher que as outras invejam e que todos os homens cobiçam. Claro que o reverso também é válido relativamente a padrões altíssimos para os homens, mas esse não é o tema deste artigo.

São muitos os filmes que colocam inconscientemente a mulher numa posição de subserviência sexual e o facto dessa não ser a intenção do realizador mostra que se trata de reflexo de uma cultura que sexualiza a violência e não uma decisão artística consciente.  Retratada como excêntrica mas ingénua, Leeloo, protagonista do filme The Fifth Element, é excessivamente sexualizada apesar de ser completamente inocente relativamente à sua sexualidade. Apesar de ser adulta, é utilizada como objeto de admiração por parte do protagonista, e como objeto de gratificação da violência, sexualizada não só na sua indumentária, mas também nos seus movimentos de combate, pautados por piruetas e maioritariamente dependentes da exposição das suas pernas e rabo, algo que não acontece com os personagens masculinos.

Até nos clássicos, como é o caso da saga de James Bond, o macho alfa acaba sempre por dominar sexualmente a relação com um pouco de violência gratuita à mistura. Uma das cenas mais chocantes acontece em Goldfinger, onde uma cena de sexo, supostamente consensual (num estábulo, já agora), nos apresenta uma mulher a resistir aos avanços sexuais de Bond. Apesar da natureza forçada do seu encontro sexual, James Bond é considerado o herói e esta cena é glorificada e vista como sensual. Uma situação similar está presente em Blade Runner, só que recorrendo à violência para consumar um beijo e não a penetração.

Estes são o tipo de cenários em que o parecer coletivo é de que a mulher “está a fazer-se de difícil”, que funciona como uma espécie de apelo pervertido que nos diz “Convence-a”. Mas e se ela não quiser ser convencida? O que é que nos levou a crer que um “não” é sinónimo de “convence-me”? O que é que nos levou a crer que todos gostam de sexo agressivo e que a violência só traz uma intensidade positiva à relação?

É compreensível que ao fim de muito tempo a consumir este tipo de conteúdo acabemos por adequar as nossas expectativas nas relações a este padrão. No entanto, até que ponto é que esta construção social justifica determinados atos e comportamentos?

A Justiça portuguesa tem sido alvo de fortes críticas devido a certas decisões consideradas sexistas e misóginas terem feito rondas nos jornais. Vários colunistas, jornalistas e grupos activistas condenaram decisões judiciais pelo seu tom discriminatório e violento. Uma decisão muito popular e relativamente recente que gerou uma onda de indignação nacional e desencadeou manifestações em várias cidades foi a decisão do juiz Neto Moura que ficou apelidado como o “juiz das mulheres adúlteras”. Este senhor concluiu que uma traição justifica agressões extremamente violentas – em pratos limpos, a violência doméstica é válida sob determinadas circunstâncias. Lê-se nesse acórdão que “o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”. Um outro caso que esteve também na berra tratava uma violação, ocorrida uma discoteca, de uma rapariga por parte de dois homens, funcionários desse mesmo estabelecimento. A rapariga estava inconsciente e não pôde resistir. O tribunal decidiu que houve um ambiente de “sedução mútua” e que não existiu violência. Se até na justiça que nos rege as agressões são sexualizadas e as decisões são tomadas com base numa cultura que ainda acha que a mulher deve ser convencida, como é escapamos deste paradigma tóxico?

Segundo as estatísticas da APAV, entre 2013 e 2018 foram registados em Portugal 5.228 crimes sexuais, o que correspondeu a um aumento de 130% ao longo desses 6 anos. 92% dessas vítimas são mulheres e 75% são meninas entre os 11 e os 17 anos. Um momento, vamos ler novamente: 75% são meninas entre os 11 e os 17 anos. Peço desculpa, vamos rever: 0.75 x 5.228 = 3.921. Três mil novecentas e vinte e uma crianças abusadas sexualmente em cinco anos. Estamos a dizer que, em Portugal, em média, duas raparigas entre os 11 e os 17 anos são abusadas diariamente.

Pronto, podemos prosseguir – o que é que estes números representam? Representam a sexualização abusiva de menores? Ou representam, de uma forma mais rebuscada, a infantilização das mulheres por parte da cultura?

Definida pela sua inocência e inexperiência especialmente quando se trata de sexo ou romance, a mulher é também muitas vezes representada desta forma pelo cinema. Numa veia similar ao já mencionado The Fifth Element, o filme Tron: Legacy traz estas características novamente para as luzes da ribalta: estamos a falar de um corpo feminino já formado e maduro com a mente de uma criança ingénua. A personagem principal é descrita exatamente dessa forma: "Profoundly naive and unimaginably wise”. O que une todas estas personagens femininas é o facto de nenhuma delas ter consciência do seu sex appeal e, ainda assim, admirarem loucamente os heróis masculinos. Os heróis masculinos apaixonam-se pelas mulheres pela sua inocência e não apesar dela, o que acaba por representar uma constante obsessão pela superioridade, uma obsessão por exercer poder sobre uma menina inocente e desprotegida. Creio que instintivamente sabemos que há algo de errado com este tipo de dinâmica sexual – o subtexto praticamente pedófilo é algo demasiado profundo e repugnante para ignorar – e temos uma responsabilidade para com as mulheres, principalmente as mais suscetíveis de se encontrarem neste tipo de armadilhas (as mais novas): a de lhes explicar que estas ‘relações’ não são saudáveis e que as colocam numa posição de infantilização constante que as impede de amadurecer emocionalmente e sexualmente. Este tipo de situações não está confinado à cultura ocidental, sendo provavelmente o maior infrator o anime japonês, onde a prevalência de mentes de crianças em corpos de mulheres é algo comum a muitas séries ao ponto de já se ter tornado um ponto de referência cultural – vão a qualquer fórum da internet e inevitavelmente vão deparar-se com, entre outros, o termo waifu. Da mesma forma que os americanos dispõem de explosões, metralhadoras e bandeiras no seu cinema comercial, os japoneses utilizam vozes femininas infantis em personagens submissas dentro corpos completamente desproporcionais em diversas séries de anime – na verdade, não é raro encontrar discussões online sobre os méritos deste tipo de personagens, apelidados de lolis. Sim, lolis. De Lolikon. De Lolita. Exato.

É completamente possível que esta representação do sexo feminino se deva ao medo de perder a vantagem intelectual sob as mulheres e se trate de uma fantasia masculina para escapar à humilhação dos seus próprios defeitos. Filmes que representam a mulher desta forma são tipicamente filmes escritos por homens e para homens até porque normalmente o inverso não é representado da mesma forma. É raro que mulheres confiantes e determinadas se apaixonem e vejam como sensual a ingenuidade e falta de jeito de um homem; nestes casos, surge quase sempre um homem ainda mais confiante e ainda mais determinado pelo qual a mulher sente uma certa submissão e uma certa vontade de ser vulnerável. Existe, de facto, uma violência sexual subentendida nos media e é muito difícil abstrair-nos deste tipo de cultura por ser tão pervasiva e dar azo a debates e discussões em que as emoções acabam por tomar as rédeas.

É frequente associar violência sexual unicamente a violações, mas a verdade é que existem muitas outras formas de violência que abrangem todas as formas de contacto sexual indesejado – afinal de contas, o ser humano já pratica a violência há milhares de anos; seria chocante que esta não fosse um dos nossos maiores talentos enquanto espécie.  

Violência sexualizada é um termo vasto usado para descrever qualquer agressão, física ou psicológica, praticada por meios sexuais ou referindo-se à sexualidade, explícita ou implicitamente. A verdade é que vivemos numa época em que é difícil fazer sempre uma triagem de conteúdo e é ainda mais difícil fugir a um padrão que nos é imposto de forma inconsciente. Acima de tudo, é cansativo. É cansativo analisar todos os casos ponderadamente e com o tempo que eles merecem sob o risco de fazer julgamentos sumários sem dispor de todos os factos e ferramentas de análise, principalmente quando o planeta está a arder, a derreter, a afundar e a abarrotar simultaneamente. É difícil focarmo-nos nos padrões de discurso sexual, social, romântico, cultural, económico, político, tecnológico, moral, ético e filosófico e ainda sobrar tempo para comer e para dormir. Existem imensos estímulos aos quais temos que responder todos os dias. Ainda assim, devemos questionar-nos continuamente se os nossos comportamentos, ideais e expectativas dignificam não só os outros, mas também a nós próprios. Não podemos imediatamente assumir que se trata de uma sexualidade agressiva, quando é inteiramente possível que se trate de uma agressão sexualizada.

 

Ana Sofia Alcaide

Aluna do 2.º ano da Licenciatura

15
Ago20

This is America: Uma Música, Um Movimento

Jur.nal

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Lançado em 2018, o single do rapper Childish Gambino foi desenhado com o intuito de espelhar a problemática da cultura afro-americana e da violência nos Estados Unidos da América.

Entre contrastes na melodia, onde vigoram tons alegres das vozes de um coro, e batidas, iniciadas pelo som dos disparos das armas, que refletem o peso da violência naquele país, e representações peculiares visíveis no videoclipe, que remetem para um conjunto imenso de metáforas sociais, Childish Gambino procurou sensibilizar os ouvintes para uma realidade que há muito é vivida, num país em que a escravatura ajudou a erguer os pilares da democracia e a raça negra continua a ressentir as influências do passado.  

De facto, os recentes movimentos de contestação contra o racismo e abusos policiais nos EUA (o principal, conhecido por «Black Lives Matter»), que tiveram como ponto de partida a morte por asfixia de um cidadão afro-americano, George Floyd, provocada por um grupo de agentes da polícia de Minneapolis, Minnesota, que agiram de forma desproporcional perante o crime provocado por aquele, traduzem um grito de revolta de indivíduos de cultura negra, que se sentem ameaçados e discriminados, por serem tratados de uma forma diferente relativamente aos restantes, em toda ou em certas circunstâncias. É neste sentido que, imbuídos pelo cansaço a que estão constantemente sujeitos, a arte musical surge, em defesa daqueles que não são ouvidos de uma outra forma. Durante o movimento “#BlackOutTuesday”, ocorrido a 2 de junho de 2020, o single de Childish Gambino foi uma das músicas mais ouvidas no serviço de streaming Spotify naquele país, atingindo o pódio nesse mesmo dia. Pelo facto de estar carregada de enorme simbologia e por se focar, essencialmente, na comunidade negra e na violência a esta associada, a canção serviu de apoio a um número elevado de manifestantes, como forma de protesto contra a violência policial e ao racismo ressentido nos EUA, e, acima de tudo, de meio para transmitir a mensagem que lhe subjaz, com o intuito de provocar mudanças no tratamento social e de consciencializar aqueles que defendem a superioridade racial.

This is America reflete uma infeliz realidade, que perdura há muitos anos. O estereótipo criado do indivíduo afro-americano impede que, numa primeira instância, se aceitem mudanças nos padrões sociais, na medida em que os cânones sociais comportam ainda este caráter de diferenciação os indivíduos de raça branca e negra. Tal como ainda é demonstrado no videoclipe, a violência e o ódio quanto a estes é outro fator que faz mobilizar milhões, atualmente. Num dos seus momentos, Childish Gambino aparece empossando uma arma automática, disparando contra um coro afro-americano, retratando o massacre da igreja de Charleston, EUA, em 2015, provocado por um terrorista defensor da supremacia branca. Este é apenas um dos muitos exemplos de crimes de ódio a que parte da sociedade norte-americana está sujeita. Ainda assim, é de salientar que houve repercussões por todo o mundo, relativamente aos recentes eventos de abusos policiais, violência e racismo vividos nos Estados Unidos da América. Com esta disseminação, conduzida pelos ventos da globalização, procura-se erradicar aqueles atos e tornar a «aldeia global» mais igualitária e consciente, evitando o seguimento de uma tendência, que deve ficar relegada à História.  

 

Rúben Cirilo

Aluno do 2.º ano da Licenciatura

09
Ago20

Phantasus

Jur.nal

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Sou a chuva que não cai

E o sol que não doira,

A nuvem que nunca aparece

E o relâmpago que jamais estoira.

 

Sou o vento silencioso e infindável

Que vagueia errante,

Um protótipo de nada que fadado foi

A existir numa deambulação constante.

 

No vazio do preto e branco intrínseco

Vai crescendo uma glamorosa flor,

Uma rosa vermelha coberta de letras

Que me permite vislumbrar uma ínfima cor.

 

Um vislumbro ténue e desfocado,

Paradoxalmente doloroso e colorido,

Um vislumbro quimérico e distante,

Mas luminoso e portador de sentido.

 

Do sentido que naquela tarde de inverno

Com lágrimas se desvaneceu,

Do sentido que outrora julguei perdido,

Mas que avistei hoje ao contemplar o céu.

 

O céu pintou o reflexo desta rosa

Que com as vísceras rego diariamente,

Que seja ela por ti um dia arrancada

Para que o destino possa dizer que não mente.

 

Até que os deuses façam esse momento florescer

De um mero almejo não passarei,

Tudo o que julgo ser esculpido está nesta rosa,

Pelo que se a tua alma a não ler nada eu serei.

 

Esta espera é uma lâmina que me fere

O peito sem misericórdia nem pudor…

O encarnado vivo do sangue que me faz derramar

Transparece a vida do perene amor.

 

É essa vida que me suscita um desmensurado desejo de viver,

Ainda que por ora somente vivida seja através da dor…

Que venhas depressa e ilumines as minhas sombras,

Que me faças ser um trovador inebriado pela paixão e pela cor.

 

Quero contemplar o brilho da rosa escrita no teu olhar

E perceber que sentes o que jamais deixei de sentir,

Quero fechar os olhos para nos poder ver

E enfim a sensação da tua mão no meu peito conseguir.

 

André Neves

Aluno do 3.º ano da Licenciatura

29
Mar20

Uncut Gems (2019) - Crime para Outra Geração

Jur.nal

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Em Good Time (2017), Josh e Benny Safdie agradeceram especialmente a Martin Scorsese. O agradecimento é justíssimo – em Good Time ressoa, entre outras coisas, o pouco reconhecido After Hours (1985) – e o realizador regressou aos créditos do trabalho dos nova-iorquinos como produtor. Curiosamente, li há pouco tempo alguém que lembrava uma comparação do novo filme da dupla com Goodfellas (1990), o magnum opus de Scorsese, alegando que Uncut Gems seria para esta geração o que os bons rapazes foram para a sua. Arriscada como é, arrastando a força que, inevitavelmente, arrasta, talvez esta ideia diga muito sobre o que a última sensação dos irmãos Safdie significa para o cinema.


A internet já se encheu de imagens de Adam Sandler, de óculos escuros, os dentes grandes e branquíssimos, a legenda, This is me, this is how I win, pelo que não há muito que valha a pena dizer: está, sim, extraordinário; é, sim, uma atuação que reforça a força da transição da comédia para o drama – como com Jim Carrey ou Steve Carell; era, com certeza, performance para mais nomeações. Posto isto, Sandler é Howard Ratner, um negociador carismático, proprietário de uma loja de joias, que se envolve em vários negócios à volta de um novo e especial artigo: uma opala negra.


Neste circuito de negócios, Uncut Gems cansa. Propositadamente. A entrada no filme funciona como um salto de altitude, um mergulho na confusão sem a qual o mundo de Ratner não existiria. Trivial como possa parecer, este é um exercício particularmente difícil de executar: aos irmãos Safdie não interessava a suspensão da envolvência, ou o foco sobre determinado aspeto da ação, o que é estruturalmente constituinte do cinema com esta exposição. Uncut Gems é um filme lotado, é a cidade de Nova Iorque espremida na pequena loja de Howard Ratner, é a confusão de um homem soterrado pela rede de negócios que montou. A câmara flutua freneticamente ou amplia progressivamente, as luzes são saturadas, as cores dão uma dimensão de artificial àquela realidade, aquele mundo. E é justamente isso que isto é: é o dinheiro que vai e vem, as trocas desmesuradas, as apostas irreais, é um fugazi, é o poder de uma joia.


Essa dimensão de artificialidade é constante ao longo do filme e os irmãos Safdie trabalham-na primorosamente: na sua construção e na sua destruição. Uncut Gems é um cinema frenético, de sobreposição, de confusão, que cria, que gera, que cresce e que, finalmente, derrama. E derrama com estrondo e com estilo: para isto muito ajuda a fotografia do eclético Darius Khondji, numa aproximação (diria que melhorada) ao estilo visual do Good Time. Na verdade, a fotografia da longa é prodigiosa na configuração do ambiente. No que ao peso do filme concerne, por ser tão meândrico, tão enleado, tão convulso, Uncut Gems torna-se claustrofóbico; e, para isso, não servem apenas as vozes que se sobrepõem constantemente, os diálogos que se perdem na multidão ou as portas defeituosas – a câmara sabe sempre onde estar, de que forma se mexer, quando e como aproveitar o desfoque. Seja na forma como capta o posicionamento de Howard nas massas nova-iorquinas, no toque quase documental, no aproveitamento do espaço ou, e isto vale a pena ser frisado, na extraordinária última cena (e num plano particularmente bom).

Evidentemente, o protagonismo de Sandler não é aleatório. Uncut Gems funciona como um estudo de personagem, inserido num meio que lhe é, em medidas avulsas, ao mesmo tempo conhecido e estranho, a que pertence e não pertence, que o aceita e o parece querer expulsar. A atmosfera ilusória que os irmãos Safdie criam, atraídos pelo errado, pela mentira, pelo transcendental – os zoom-in que falam do passado, da origem, da essência -, é  o próprio interior das personagens, profundamente americanas, perfeitamente mediadas pelo meio. Tudo funciona, porque tudo está na mesma página, do mesmo lado: o trabalho de câmara, a fotografia, as luzes dispersas são tão psicológicos e tão psicologizantes como o diálogo, o olhar, a postura; são tão criadores de atmosfera como a música ou o silêncio e tão essenciais para o que o filme significa como Howard é para a opala e a opala para Kevin Garnett. Como um ciclo de significados, como um interior acessível por uma objetiva, e como um exterior inquieto, turbulento, opaco. As personagens dos irmãos Safdie não são só consequências dos seus ambientes, são o próprio ambiente, são as histórias com que cresceram e que tiveram acesso. Por isso são tão reais, tão pesadas; por isso a aproximação ao visual do documentário. São personagens imperfeitas, que existem ali, naquele mundo ilusório, destrutivo, imparável; homens repartidos como o reflexo de um corpo morto num espelho dividido em vários.

Uncut Gems é isso: é frenético, é tenso, é claustrofóbico. O efeito que produz no espectador é do mesmo espírito do slogan do anterior filme dos realizadores, que perguntava are you ready to have a good time? Aqui, as regras da longa-metragem de 2017 crescem, como que sob o efeito de uma levedura, não necessariamente em termos de dimensão, mas de amadurecimento, de qualidade. Uncut Gems é menos sobre a sua história – embora seja uma bela história – e sobre o seu guião – embora esteja muito bem escrito -, do que é sobre ritmo, criação de ambiente, desenvolvimento de tensão. E não há nada de errado nisto: é uma experiência válida, é um good time, é uma forma de ser de uma geração que quer contar outras histórias, de outras formas. E há algo fascinante na forma de contar histórias destes dois irmãos: talvez a sedução da confusão, da saturação, de outros e novos perigos. O facto é que o que Goodfellas fez pelas narrativas de crime dos anos 80 e 90, Uncut Gems poderá fazer pelas de hoje. O tempo das histórias dos gangsters do Scorsese, da máfia do Coppola ou dos assaltos do Mann, ainda que inqualificáveis e, inevitavelmente, insubstituíveis, já não ressoa na geração do hip-hop, das redes sociais, do The Weeknd. Não é que não possam fazer nada por ela; é que há algo de espiritual no cinema de cada geração que, por mais recuperável que possa ser, na lembrança, no Criterion Collection, nos ciclos, nasce e morre nessa geração. Os bons rapazes vivem até hoje e viverão muito mais, mas esta já não é a geração dos molhos de tomate com alho cortado com lâminas de barbear ou do Somewhere Beyond The Sea; é uma geração profundamente diferente – convalescente, frenética, imediata, onde o crime, os protagonistas e o seu espírito são outros.

 

Francisco Fernandes

(Aluno do 2º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na FCSH)

22
Mar20

Melhores Álbuns da Década - Opinião de Miguel Horta e de Zé Pedro Paiva

Jur.nal

Tal como qualquer outra carta de amor, todas as listas de melhores álbuns são ridículas. 

Tomando esta verdade inevitável como ponto de partida, propusemo-nos a criar, em primeira mão e exclusivamente para o Jur.nal, a lista mais próxima possível do que achamos terem sido os álbuns mais relevantes dos últimos 10 anos. 

Para tal, foram usados, como critérios, o impacto que cada um teve na indústria, no público, mas, principalmente, no gosto pessoal de ambos. Este último critério foi, sem dúvida, o mais difícil de conjugar, e talvez essa seja uma das primordiais razões pelas quais este texto não está a ser lido nos primeiros dias de janeiro (procrastinações à parte). 

Resta-nos agradecer ao Jur.nal, e desejar que muitos de vós discordem veemente das nossas escolhas. Se assim for o caso, sintam-se no direito (deixamos ao critério do leitor o escrutínio de a piada ser propositada ou mero acaso linguístico) de nos insultarem na caixa de comentários abaixo, de preferência, defendendo aquelas que seriam as vossas escolhas que, desde já informamos, estariam erradas, porque só as nossas é que interessam.

Ora, vamos lá.

20. A Tribe Called Quest - We Got it from Here, Thank You 4 Your Service (2016)

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Dificilmente se poderia prever, no início da década, que uma lista como esta abriria com um álbum de A Tribe Called Quest. Separados desde 1998, o coletivo de Queens, liderado por Q-Tip - uma das mais singulares vozes da história do hip-hop - reuniu-se em 2015 para gravar aquele que viria a ser o último álbum  do grupo, após a prematura morte de Phife Dawg, que faleceu durante as gravações do álbum.

Os Tribe de 2016 são diferentes dos Tribe do início da década de 90. A lírica, anteriormente pautada por letras bem-dispostas, descontraídas, de auto-vangloriação, mas sempre autoconscientes e marcadamente tongue-in-cheek, é agora forçada a confrontar os problemas socio-raciais que definiram a sociedade e a cultura americana nos últimos anos. Não se limita, porém, a isso: há também tempo para recuperar temas antigos, para falar de amor, mas, principalmente, para recordar Phife, o Five-Foot Assassin que era, verdadeiramente, a cola deste grupo. Sobre a produção, há pouco a dizer: Q-Tip é, como sempre foi, dos produtores mais interessantes, progressivos e idiossincráticos da música urbana dos Estados Unidos, e We Got it From Here é só o último reduto disso mesmo.

Uma verdadeira passagem de testemunho - oiça-se Dis Generation, veja-se a lista de convidados do álbum - daquele que fica na história como um dos melhores e mais importantes grupos da história do hip-hop.

19. Lorde - Melodrama (2017)

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Quanta da melhor música que ouvimos podemos agradecer a corações partidos?

Em Melodrama, Lorde encontra, no final de uma relação, a tempestade perfeita para fazer uma introspeção bildungsroman-iana acerca daquela agitada e confusa fase a que chamamos ser um jovem adulto. A solidão é pintada em tons de cinza, com Lorde a deixar claro o sofrimento que esta lhe causa, mas a reconhecê-la como uma boa amiga que faz parte do seu crescimento pessoal. É um álbum que explora, com mestria e elegância, as desilusões, as incertezas e os arrependimentos pelos quais todos passamos, e um que é brilhantemente produzido por Jack Antonoff: um produtor e compositor virado para paletas sonoras modernas e frescas, que, com perícia singular, serpenteia por entre sintetizadores dançáveis, silêncios que valem como instrumentos, e baladas de piano que não soam fora do lugar num álbum dominado por uma sonoridade synthpop. 

Lorde, juntamente com Antonoff, constrói um álbum transversalmente emotivo e exuberante, um coming-of-age musical que é simultaneamente dançável e melancólico, e que é, sem margem para dúvidas, uma das obras pop mais interessantes e progressivas da década.

18. Arctic Monkeys - AM (2013)

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É evidente que, antes de 2013, os rapazes de Sheffield não eram propriamente desconhecidos do grande público. No entanto, foi com AM que os Arctic Monkeys conquistaram aquilo que só está ao alcance da mais restrita elite da música britânica: o mercado americano.

Não muito longe iam os dias em que Alex Turner e companhia soavam ao que de mais britânico há, acompanhando a linhas de voz a roçar o spoken word com guitarras descuidadas e sapatos de vela. Contudo, e talvez devido ao pouco sucesso do seu antecessor Suck It and See (2011), os Arctic Monkeys decidiram adotar uma abordagem diferente em AM. A mudança começou, desde logo, pela mudança de paisagem, deixando Inglaterra para trás, e mudando-se para Los Angeles.

O resultado é uma produção bastante mais cuidada do que o habitual, em que as guitarras barulhentas deram lugar a riffs precisos, de uma sensualidade notável, e onde  a bateria acelerada de Matt Helders passou a ser mais direta e frequentemente alinhada com a linha de baixo. É audível a influência de Josh Homme dos Queens of the Stone Age neste disco, mas não só. O hip-hop, e a própria Califórnia, também são presenças assíduas no álbum. Não é por acaso que muitos apontam os Arctic Monkeys como estando entre os responsáveis por manter o rock vivo e popular nos últimos 10 anos.

17. Joanna Newsom - Divers (2015)

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É altamente discutível - e, provavelmente, até será mais fácil argumentar em sentido contrário - se Divers é, sequer, o melhor álbum de Joanna Newsom desta década, porque Have One On Me é uma extensa e brilhante obra da harpista, tendo sido lançada no início da década.

Permitam-nos a defesa de Divers. O álbum de 2015 é um trabalho particularmente focado e coeso, sem abdicar de singularidade musical em cada uma das 11 músicas do mesmo. Newsom é uma compositora mais originais e completas da cena musical alternativa, incorporando, com mestria, elementos e arranjos clássicos em composições tipicamente folk, construindo, ao mesmo tempo, aquela que é, provavelmente, a sua obra mais acessível até hoje.

A acompanhar a incrível instrumentalização, as letras de Joanna Newsom, sempre carregadas de referências obscuras e influenciadas por poesia barroca, constroem uma temática que culmina em ‘Time, As a Symptom’, brilhante closing track que traz clareza a todo o álbum e à mensagem que Newsom quer passar. 

Newsom é, sem dúvida, uma das mais singulares artistas da música contemporânea, e Divers só vem ajudar a consolidar esse estatuto, revelando a sua capacidade de, sem pôr de lado a veia barroca e grandemente ornamentada da sua música, construir um álbum conciso, que condensa todas as suas qualidades enquanto compositora e intérprete nuns deslumbrantes 50 minutos.

16. Kamasi Washington - The Epic (2013)

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Por muito que tenha gostado do La La Land, não consigo concordar com o Sebastian: o jazz não está a morrer! Muito pelo contrário. Com a ascensão do novo movimento de jazz londrino, já é possível encontrar este gênero em muitos dos maiores festivais de música em Portugal. Outro excelente exemplo de que o jazz está vivo e recomenda-se são os jovens canadianos BADBADNOTGOOD que também têm particular afinidade por subir aos palcos lusos, o que voltarão a fazer já na próxima edição do Vodafone Paredes de Coura.

No entanto, não parece haver como fugir a 2015 e a este disco - para ser mais exato, a estes três discos. No mesmo ano em que emprestou o seu saxofone a Kendrick Lamar, em To Pimp a Butterfly, Washington surpreende tudo e todos com o lançamento de um disco triplo que ficaria para a história do jazz. O disco é tocado por uma banda de volume surpreendente, duas baterias, o pai de Kamasi, parecendo haver espaço para tudo, e para todos. O que é certo é que o disco não só é uma carta de amor aos nomes mais conceituados da história da música afro-americana como vai um pouco mais longe e amplia horizontes sonoros muito próximos do jazz de fusão. É difícil de descrever. Ouça-se!

O saxofonista americano trouxe toda a sua banda (que mal cabia em palco) a Lisboa em 2016, e voltou a terras lusitanas em 2019. Continuamos com saudades.

15. Car Seat Headrest - Teens of Denial (2016)

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Will Toledo gravou oito dos seus álbuns, enquanto Car Seat Headrest, de forma, convenhamos, pouco ortodoxa. Toledo singrou na cena DIY e lo-fi, e desde cedo soube tornar a sua limitação de recursos naquela que foi, durante muito tempo, o seu principal apelo: música pouco convencional, experimental, praticamente incompreensível em certos momentos, altamente biográfica, direta, honesta, crua, sem grandes adornos, mas sempre carregada de emoções e sentimentos com os quais já todos nos pudemos relacionar.

Teens of Denial abdica do pouco convencional, do experimental e do incompreensível, e faz excelente uso de todos os recursos que Will e a sua rapaziada tem agora ao seu dispor. Optando por um estilo de composição muito mais straightforward, sem renunciar às composições mais longas que sempre caracterizaram a sua música (à parte de ‘Joe Goes to School’, todas as músicas correm por pelo menos 4 minutos), Toledo brinda-nos com um álbum rock moderno, polido, e que, sem esconder as suas influências, soa a algo verdadeiramente original.

Não houve, sequer, renúncia ao caráter biográfico e emotivo da música de Toledo. Teens of Denial é uma obra de auto-depreciação, de histórias embaraçosas, de constrangimentos sociais, de confissões cantáveis, de refrões orelhudos que fazem - talvez demasiado - sentido para os nossos seres deambulantes e sem rota definida. Quiçá, nós, tal como Toledo, também não saibamos como é que é suposto dirigirmos este navio; e, quiçá, o melhor que ainda temos é sabermos que não somos os únicos.

14. Solange - A Seat At The Table (2016)

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Apesar de não ser o seu primeiro lançamento, foi com este disco que Solange se libertou do rótulo de “irmã mais nova de Beyoncé” aos olhos da crítica, o que não vemos como uma grande surpresa. Não que os outros discos sejam maus, mas a A Seat At The Table é o mais refrescante que a artista lançou, e serviu de início a uma sonoridade que viria a cunhar como sua, transportando-a para o seu seguinte disco, When I Get Home, de 2019.

Com faixas como ‘Don’t Touch My Hair’, fica bastante claro que o disco é dominado pela tensão racial sentida os Estados Unidos da América. Este tema proliferou pela indústria discográfica dos últimos 10 anos e, consequentemente, é também uma incontornável presença nesta lista. 

Solange surpreende neste álbum com uma produção que, apesar de muito mais trabalhada, é também concisa e coerente, o que dá espaço às suas linhas de voz para crescerem e ficarem no ouvido. Este disco ilustra também uma das grandes tendências da música popular dos 10’s, a fusão e mistura com outras sonoridades fora do espectro da Pop.

13. Radiohead - A Moon Shaped Pool (2016)

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Servirá de parca surpresa a todos os que minimamente conhecem estes que aqui vos escrevem que A Moon Shaped Pool tenha encontrado uma forma de estar nesta lista.

Depois de um álbum menos bem conseguido em 2011, os gigantes britânicos regressam cinco anos depois para lançar aquele que, provavelmente, ficará para a história como o seu mais belo e emocionalmente arrasador álbum de sempre. Não se deixem enganar pela energia de ‘Burn the Witch’: A Moon Shaped Pool é uma bomba cujo rastilho arde lentamente, um turbilhão de emoções que soará bonito ao ouvinte mais desatento, mas que arrebatará aquele que preste atenção às palavras de Yorke. Nele, encontramos algumas das composições mais suaves e contemplativas dos Radiohead (‘Daydreaming’ e ‘Glass Eyes’ vêm à mente, ornamentadas com os seus melancólicos arranjos de cordas); uma sonoridade orientada para o rock mais artístico e ambiente, e ainda algumas sonoridades totalmente inovadoras na sua sonoridade (‘Present Tense’ é uma fantástica balada com elementos de bossa nova).

No fim, encontramos ‘True Love Waits’, e, aí, o nosso coração parte-se. Yorke, que se havia separado da sua mulher, com a qual mantinha um relacionamento há mais de 20 anos, antes da gravação do álbum, escolhe este momento para, finalmente, gravar a música que havia escrito em meados dos anos 90. Não, esta não é uma decisão infundada. E é isso que faz com que os versos finais doam tanto.

12. Fleet Foxes - Helplessness Blues (2011)

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Questionem-se connosco: como é que um álbum gravado de forma a soar imperfeito pode soar tão...perfeito?

O álbum de 2011 de Pecknold e companhia expande tudo o que havia sido feito bem na sua estreia, sem comprometer, por momento algum, a sonoridade que lhes é tão típica. Com Helplessness Blues, os Fleet Foxes entregam-nos uma obra de folk progressivo que não se abstém de ser, também, desavergonhadamente pop.

É, contudo, nas suas letras que Helplessness Blues mais se distancia do seu antecessor. Ao longo de todo o álbum, Pecknold procura uma forma de lidar com as mudanças que ocorrem ao longo da sua vida, de lidar com um mundo que não é estático, que desafia o nosso conforto e as nossas perceções sobre o mesmo. É um álbum sobre crescer, só para nos apercebermos que, afinal, e contrariamente ao que sempre nos disseram, somos só mais um “snowflake among snowflakes”; sobre estarmos presos nesta confusa idade - os malditos 20s - em que já não somos jovens, sem sermos já adultos. E o que fazer disto? 

Pecknold não sabe, mas, em ‘Grown Ocean’, faz-nos uma promessa:  “I know someday the smoke will all burn off/All these voices I’ll someday have turned off/I will see you someday when I’ve woken/I’ll be so happy just to have spoken/I’ll have so much to tell you about it.” E esperamos estar cá para ouvir o que terá para nos contar.

11. Tame Impala - Lonerism (2012)

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Talvez o aspeto mais curioso sobre Lonerism seja o facto de que o álbum é, na realidade, a desavergonhada confissão de que Kevin Parker ama pop foleira. Sem problema, Kevin, nós também.

Em Lonerism, Parker define a sonoridade psicadélica-rock-prog-pop (esta mania de rotular música torna-se chata, não é?), que viria a ficar conhecida como o som dos Tame Impala: músicas relativamente diretas, com uma instrumentalização rica e uma produção altamente criativa, sem cinismo, sem pretensiosismos. Guitarras carregadas de reverb, baixos carregados de groove e uma bateria carregada de punch, os vocais agudos de Parker e os seus sintetizadores reluzentes criam uma atmosfera psicadélica e relaxada que viria a ser emulada por tantos outros que a utilizaram como benguela antes de construírem a sua própria sonoridade. 

É um verdadeiro testemunho à criatividade de Parker que o som de Lonerism tenha estado em todo o lado ao mesmo tempo, sem nunca soar tão bem e único como soa aqui.

10. Kids See Ghosts - Kids See Ghosts (2018)

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Kids See Ghosts são 24 minutos praticamente perfeitos de hip-hop confessional, com coragem de abordar temáticas sensíveis e atípicas ao género, mantendo o nível de produção a que, quer Cudi, quer West, sempre nos habituaram. Cada música é célere, direta e eficaz, e serve o seu propósito numa narrativa que é transversal a todo o álbum. É o projeto mais focado que alguma vez ouvimos de qualquer um dos membros do duo, e, tal como seria de antever pelas suas colaborações passadas, a química e compatibilidade criativa de Kanye e Kid Cudi criam um dos mais interessantes e diversos álbuns de hip-hop dos últimos tempos.

E, claro, é um álbum terapêutico, de exorcismo de demónios, que despe os rappers de qualquer inibição e lhes dá liberdade para confessarem os seus problemas e pensamentos, abrindo-lhes ainda espaço para refletirem sobre o seu passado, sobre o seu sucesso, e sobre a relação de ambos.

Um álbum central à carreira dos dois artistas, e que exorciza os demónios de ambos da melhor forma possível: dando-nos um dos mais criativos e entusiasmantes álbuns que alguma vez saiu das mãos de West ou Cudi.

9. Death Grips - The Money Store (2010)

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The Money Store não é um álbum para todos. Aliás, Death Grips não é para todos, nem para todos os dias. Leia-se isto da forma mais despretensiosa possível: a música de Zach Hill (principal força criativa do coletivo), de Andy Morin e MC Ride é pouco convencional, barulhenta, agressiva, por vezes desconfortável.

Mas não há como negar que estamos perante uma das obras mais criativas e expansivas da história do hip-hop. Com a sua produção altamente distorcida e comprimida, os vocais inconfundíveis (e incompreensíveis) de MC Ride, as suas caóticas e vulgares odes a personagens neuróticas e violentas - que, só por vezes, são contadas na primeira pessoa -, e com as suas percussões latejantes, The Money Store é um álbum construído sobre uma sonoridade industrial que, apesar de não ser isenta de precedente no hip-hop, veio ditar muita da paleta musical que viríamos encontrar nas vertentes mais glitchy e alternativas do hip-hop da década. 

Muitos tentaram replicar o que os Death Grips criaram aqui; ainda estamos à espera de uma tentativa bem-sucedida.

8. Daft Punk - Random Access Memories (2013)

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É certo que o facto de, no final do verão de 2013, a canção Get Lucky continuar em loop em todas estações de rádio poderá ter afastado muita gente das restantes faixas do álbum da dupla francesa. No entanto, com este disco, os Daft Punk ensinaram-nos que ainda se pode (e deve) fazer música de dança recorrendo ao analógico.

É fascinante ver como, em vez de mascararem as suas influências, com este álbum, os Daft Punk vestem orgulhosamente a camisola da música disco. Exemplos desta celebração da música dançável é a participação Nile Rodgers, mítico guitarrista do Chic, na elaboração de várias linhas de guitarra, incluindo a icônica Get Lucky. No entanto, a participação de figuras icônicas não se fica por aí: o álbum dedica uma faixa a Giorgio Moroder, o grande pioneiro da utilização do sintetizador neste gênero musical, sonoridade essa que viria a marcar a disco como género. 

7. Tyler The Creator - Igor (2019)

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Personas e personagens não serão estranhas a quem já estiver familiarizado com o universo de Tyler the Creator, mas a de Igor talvez tenha sido a mais relevante de toda da sua carreira até hoje. Com este disco, Tyler foi o primeiro rapper a solo a ter um álbum totalmente produzido por si no número 1 da Billboard, o que poderá ter sido um dos primeiros passos para ganhar o Grammy de Melhor Álbum de Rap na cerimónia de 2020.

Igor tem uma estrutura narrativa bastante simples e direta. É um álbum conceptual em que cada faixa cumpre a sua função para a história que Tyler nos quer contar. Depois da introdução (‘IGOR’S THEME’) nos dá o tom daquilo nos espera, o disco tem duas metades que se distinguem facilmente, não só pela sonoridade, mas também pela temática. 

Na primeira metade (‘EARFQUAKE’ - ‘A BOY IS A GUN’), Tyler ilustra uma paixão desmedida que se transforma progressivamente em dependência. Em seguida, entramos na segunda metade do disco (‘PUPPET’ - ‘I DON’T LOVE YOU ANYMORE’). Após uma pequena colaboração vocal Kanye West a personagem principal “recupera os sentidos” e desperta Igor, uma personificação do seu ego que o acompanha na superação da paixão não concretizada. O disco acaba com a pergunta retórica e desoladora: “Are we still friends?” 

Nota curiosa: a última sequência de acordes do disco é interrompida a meio, e só vem ser concluída com o primeiro acorde do disco, se o voltarmos a ouvir de seguida. Alguns críticos apontam que o álbum, tal como os degostos amorosos, é cíclico, construindo um loop perfeito em volta de si.

6. LCD Soundsystem - This is Happening (2010)

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Não é fácil encontrar uma estrela rock menos cliché do que James Murphy; e garantimos-vos que ele sabe disso.

Murphy iniciou o projeto que o fez saltar para a ribalta com 32 anos, aquela que foi, de forma quase demasiado adequada, apelidada de ‘Losing My Edge’. Em 2007, com 37 anos, lança Sound of Silver, obra que define e estabelece os standards de toda a cena dance-punk, da qual é figura central.

Aos 40, lança This is Happening - e, pasme-se, isso nota-se. Não que a sua música não soe tão moderna e forward-thinking como sempre soou. É só que, se a premissa de Losing My Edge se verificou, então, em This is Happening, Murphy já não está muito preocupado com isso; e nós também não.

Em 2010, o nova-iorquino soa a Bowie; soa a David Byne; soa a Iggy Pop; e já não quer saber. This is Happening é mais homenagem e “wearing your influences on your sleaves” do que puro e duro pastiche. É um álbum despreocupado, livre, provocador (‘You Wanted a Hit’, senhoras e senhores), criado por um artista repleto de confiança e na posse das suas plenas capacidades musicais, que, sem abdicar de ser um pateta adorável, continua a conseguir, seja essa a sua vontade, tocar - e encantar - os nossos corações. 

E se o forem ouvir, não se esqueçam: cuidado com o volume em ‘Dance Yrself Clean’.

5. Sufjan Stevens - Carrie & Lowell (2015)

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Não há palavras suficientemente adequadas para se falar sobre Carrie & Lowell. A música de Sufjan Stevens sempre foi bela, mas só por vezes a beleza das suas melodias se tornava assombrosa e carregada de pesar. Aqui, tudo é assombroso, tudo é carregado de pesar, tudo é remorso, arrependimento, mágoa, saudade.

Carrie & Lowell é o luto de Sufjan. Após a morte da sua mãe, em 2012, Sufjan encontra, na sua música, uma forma de lidar com a sua perda, e o resultado é incrivelmente belo. A música, aqui, é frágil; a música de Sufjan, que anteriormente era altamente instrumentalizada - oiça-se Illnois para tornar isto claro - cinge-se, aqui, a pouco mais que uma guitarra, um piano, um banjo. A sua voz é, também ela, pouco mais que um sussurro ao nosso ouvido, um suspiro carregado de dor e munido de honestidade, que nos transporta pela sua infância, que nos fala sobre a sua mãe, sobre a sua morte, e, sobretudo, sobre o que isto despoletou na vida do cantor.

É esta simplicidade que torna Carrie & Lowell um dos mais bonitos discos desta década (e, aqui, talvez estejamos a criar uma injusta baliza temporal). É um disco de silêncios, de pausas, de contemplação, de recordação, um que nos transporta a momentos que não vivemos, e que, ainda assim, nos faz sentir na pele o que nos é contado. Sufjan fala-nos de uma forma pessoal, com letras confessionais e com uma crueza poética que expõe os seus sentimentos mais profundos e reflete sobre a relação com a sua mãe, com o seu padrasto, com a perda de alguém próximo, com a religião - esta última, temática central ao longo da sua carreira - e, principalmente, sobre a sua relação consigo mesmo, 

A troco de tudo isto, Sufjan pede-nos, apenas, que carreguemos um pouco da sua dor, e que o escutemos enquanto ele reflete sobre esta. Por nós, é um preço justo a pagar por podermos ouvir, e viver, as histórias de Lowell, Carrie, e do pequeno Subaru. 

4. David Bowie - Blackstar (2016)

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Blackstar foi, e bem, uma das obras musicais mais dissecadas da década passada, embora o tenha sido, principalmente, por ter sido o álbum com que David Bowie encerra não só a sua carreira, como a sua vida.

É simultaneamente arrebatador e fascinante que Bowie tenha escrito, composto e gravado Blackstar enquanto padecia da doença que lhe viria, mais tarde, tirar a vida. Arrebatador, porque Bowie não foge da fugacidade com que a sua saúde de dissipa no álbum: ‘Lazarus’, peça nuclear do álbum, é um assumido e digno adeus, que não cai em facilidades melodramáticas, e que nos mostra Bowie a receber a morte de braços abertos, como uma velha amiga que escolheu ser esta a sua hora para aparecer. Fascinante, por perante o cenário mórbido que é o final da sua vida, Bowie opta por deixar uma obra virada para um futuro que não vai viver, com composições experimentais e energéticas, recheada de rasgos de jazz, e que se afasta largamente das tendências pop que marcaram grande parte da sua carreira.

São cerca de quarenta os minutos que constituem o “canto do cisne” de um dos maiores artistas da história da música, uma obra que serve como lúgubre despedida, mas que perdurará pelo tempo, imortalizando um artista que sempre foi, verdadeiramente, maior que a própria vida.

3. Frank Ocean - Blond(e) (2016)

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Blond, ou Blonde de Frank Ocean é um dos nossos álbuns favoritos. Está nesta lista por essa razão, mas não só. Objectivamente,  este é um álbum extremamente relevante para a indústria discográfica, tendo sido um dos grandes marcos da evolução dos lançamentos independentes que dominou esta década. Após uma laborada manobra para se ver livre das suas obrigações para com a editora Def Jam, Frank Ocean lança Blond(e), de forma completamente independente, um dia após concluir o seu contrato. 

Quanto à obra propriamente dita, se com Channel Orange o artista se apresentava ao mundo como uma das maiores promessas da nova geração do R&B,  com o segundo longa-duração fica claro que Frank Ocean é bem mais do que uma promessa. Poucos discos têm um poder nostálgico tão imediato como Blond(e), que nos transporta sem pedir licença para os verões perdidos da nossa infância. Verões esses que, tal como o artista canta em Skyline To, já não são tão longos como costumavam ser e que provavelmente nunca mais voltaram a ser. 

É difícil explicar o grau de intimidade que o músico atingiu com este disco, mas é mais que certo que Blond(e) são 60 minutos aos quais vamos recorrer frequentemente na próxima década. Recomendamos que façam o mesmo.

2. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

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Poucos álbuns foram mais dissecados na passada década do que My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Falar sobre este de um ponto de vista puramente objetivo é não trazer nada de novo à discussão, é dizer palavras e expressar ideias que outros, provavelmente por outra ordem sintática, já disseram e já exprimiram; é ser, no fundo, redundante - um bocado como esta enumeração.

Cometendo, de plena consciência, o pecado da tautologia crítica, tentemos ser objetivos.

Em MBDTF, Kanye pega em todo o seu passado - musical, e não só - e pinta um quadro em que tudo parece maior, mais vibrante, mais detalhado; um quadro que retrata o luxo e a extravagância com as quais Kanye não sabe viver sem, mas também não sabe viver com.

São os conflitos internos e as incongruências que definem o rapper de Chicago que trilham o caminho que percorremos ao longo destes quase 70 minutos. Nas suas letras, encontramos o seu ego ferido, mas também o seu ego em esteroides, em devaneios megalómanos que já anteviam Yeezus, lançado três anos depois. Contrastando estes, encontramos West fragilizado e emocionalmente vulnerável; Runaway e Blame Game são exemplos claros de um Kanye pós-relacionamento que, sem pedir perdão, confessa não só a sua arrogância, como também as suas inseguranças, conjugando estes dois elementos antagónicos e dando-nos um vislumbre do caos emocional que o define. 

Contudo, é, maioritariamente, a sua relação conflituante com a fama, e, em particular, com a decadência que vê como um inevitável decurso da vida debaixo dos holofotes que estabelece a tónica lírica que nos acompanha quase durante toda a duração do álbum. Kanye sempre quis esta vida, e desde sempre o tornou bem claro - oiça-se, por exemplo, Last Call, do álbum de estreia de West, para este efeito - mas aquilo para que o miúdo prepotente de Chicago não estava pronto era para estar na boca do mundo apenas seis anos após o lançamento de The College Dropout. E as letras de MBDTF são, precisamente, um espelho disto: de alguém que estava, e está, a viver o seu sonho, só para se aperceber que este sonho é uma fantasia que, embora bela, é, também, negra e perversa.

Há muito mais a dizer sobre MBDTF. Kanye pega na sonoridade electropop de Graduation e 808s & Heartbreaks, na soulfulness de The College Dropout e na grandiosidade sinfónica que abrilhanta Late Registration e evoluí para o maximalismo que encontramos aqui, em beats que vão beber ao que foi feito de bem atrás, só para darem um passo grande à frente, sendo mais ricos, mais variados e mais extravagantes.

Quase 10 anos depois, mantenho todo o deslumbre e fascínio por My Beautiful Dark Twisted Fantasy; afinal de contas, foi este o álbum que me expandiu horizontes na tenra idade em que o ouvi pela primeira vez. Sim, há momentos, e frases, intrinsecamente foleiras aqui (olá, Chris Rock,). Eu perdoo, porque se Kanye pinta aqui um quadro, ele pinta um autorretrato: o de alguém altamente imperfeito, que sabe ser altamente imperfeito, mas que vê perfeição nas suas imperfeições, e por isso, nos graceja com todo o seu caótico esplendor.

1. Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

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Selecionar e ordenar os álbuns que constituem esta lista foi uma tarefa ingrata e árdua e que asseguramos ter gerado bastante discórdia entre os seus autores. No entanto, desde o primeiro momento que mantivemos uma conceção unânime e quase dogmática: To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, iria estar na primeira posição. 

O rapper, originário de Compton, na Califórnia, era apenas uma promessa da cena alternativa aquando do início da década e, nos dias que correm, é já uma presença assídua nas listas de melhores rappers da história. Muito desse reconhecimento deve-se ao seu álbum de 2015.

Após o sucesso do inteiramente autobiográfico Good Kid, M.A.A.D City, Kendrick Lamar lança o seu terceiro álbum de estúdio, e com este abraça toda uma nova sonoridade. A lista de instrumentistas convidados é ínfima - a destacar nomes como Thundercat, Flying Lotus ou Kamasi Washington - que contribuem para o ambiente ‘jazzístico’ que caracteriza e pauta todo o disco. TPAB trata-se de um álbum conceptual, no qual Kendrick recita, progressivamente, um poema entre as faixas que o compõem. Após última faixa, fica claro que a leitura é dirigida a um dos maiores ícones da música afro-americana, com quem Lamar encerra o disco a debater o futuro da sua comunidade, numa espécie de premonição do seu próprio futuro.

Dificilmente poderíamos ter escolhido uma obra com mais impacto nesta década, algo que se pode sentir desde a receção por parte da crítica e no impacto social. O tema ‘Alright’ tornou-se o hino do movimento “Black lives matter”, protagonizando a grande parte dos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos da América. 

Quanto ao reconhecimento por parte da crítica, a obra recebeu uma aclamação geral, encabeçando a maior parte dos tops do ano, tendo sido nomeado para 11 Grammys. 

Um álbum que vale a pena experimentar ou simplesmente recordar. Para uma melhor compreensão do seu conteúdo, recomendamos o podcast de análise musical Dissect, que dedica a sua primeira temporada integralmente a To Pimp a Butterfly, o nosso álbum da década. 

 

José Pedro Paiva

(Estudante de Mestrado em Direito e Tecnologia)

Miguel Horta

(Estudante de Mestrado em Direito e Gestão)

21
Mar20

Melhores Álbuns Portugueses da Década - Opinião de João Duarte

Jur.nal

Se a arte e o engenho eram já escassos, a tarefa é também ela árdua: se, por um lado, a década ainda não se cumpriu na íntegra (eu sou daqueles perfecionistazinhos que dizem que é preciso ter calma, que a década de 20 só se inicia em 2021 – tal como o século XXI só começou em 2001), por outro, o gosto é, como se sabe, intrinsecamente subjetivo (não se discute, sequer, a qualidade – essa é, por todas as vias, indiscutível: se tempos houve em que a música nacional, cantada em português, andava adormecida, a década de 10 do século XXI veio mostrar que onde há juventude também há talento e capacidade de manobrar a língua portuguesa e de reinventar os acordes e as batidas de sempre – tantos outros, que ficaram de fora, poderiam entrar para esta contagem). Propor uma lista dos melhores álbuns nacionais desta década é, então, inevitavelmente inglório. O meu gosto é forjado pelo que me habituo a ouvir, daí que este top-15 seja, em rigor, um top dos álbuns que mais tenho ouvido. 

 

P.S. Não pode haver outra ordem que não a alfabética para dispor todos estes álbuns: depois de uma seleção de somente 15 de entre um oceano de álbuns, todos estes mereceriam o primeiro lugar... 

1. Capitão Fausto – A Invenção do Dia Claro (2019) 

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Incluir nesta lista Capitão Fausto e não despejar aqui todos os quatro álbuns da banda pode parecer contraditório. Todos teriam qualidade para aqui figurar. Mas este é especial – este significou o dobrar da juventude, com tudo o que de bom isso traz: um som apurado e uma história inspiradora, para o bem ou para o mal (ou nos dá para correr atrás do nosso amor de sempre, ou para chorar por não podermos viver o mesmo Final deste álbum – estas duas situações podem ser cumulativas). Cinco jovens adultos que não são mais diamantes em bruto. 

2.Capitão Fausto – Pesar o Sol (2014)

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Aqui ainda tínhamos pedras preciosas por lapidar. E ainda bem. No auge da juventude e da ingenuidade, cinco jovens que faziam música exuberante, não tão imediata quanto a de Gazela, mas aliando instrumentais viajantes a letras que interrogam o mundo (próprio, aliás, de jovens que se prezem), o resultado foi algo que em muito superou os experimentos do primeiro disco – e, a meu ver, todos os restantes. Ouvir este disco é tocar no peito e sentir o coração a querer saltitar cá para fora, sentir na boca o sabor a sangue como quem termina de dar infinitas voltas à pista na aula de Educação Física. A referência não é displicente – estávamos no já longínquo ano de 2014, andava eu no 9.º ano... 

Pesar o Sol é mesmo a melhor metáfora para aquilo que deve representar a vida de um jovem. 

3. Ciclo Preparatório – As Viúvas Não Temem a Morte (2013)

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Este é o grupo coral pop especial rural-chique delicodoce (assim se descreveram estes jovens ao jornal Publico no já longínquo ano de 2013) que descobri somente há cerca de um ano. Foi, porém, o suficiente para me apaixonar. Há aqui algo de Heróis do Mar, seja nas letras, nas roupas ou no próprio nome da banda. Um quê de portugalidade latente, forte e indiscutível. Agrada-me bastante. Combinam ritmos frenéticos com canções contemplativas e até nostálgicas. Algo que não perderam no mais recente álbum, o segundo, que tardou (2018) – mas a espera compensou. 

Exulto ao som de Lena del Rey, mergulho sobre mim mesmo ao escutar a Casa da Lamarosa. Se esta antítese de sensações é possível de conter num só álbum, temos de contar com os Ciclo Preparatório. 

Tive a fantástica oportunidade de entrevistar, aqui para o JUR.NAL (leiam!), o baterista e o vocalista desta incrível banda. 

4. Diabo na Cruz – Lebre (2018)

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Estes são os homens corretos para falar de portugalidade.

Que dizer de Diabo na Cruz. Novamente, podia ter incluído todos os álbuns da banda. Tomai, todos, e bebei: este é o rock tradicional português dos Diabo. Quis o destino que Lebre fosse o último trabalho da banda. E acabou em grande: guitarras e letras marcantes. Ao leme o inquieto Jorge Cruz, que logo em Forte se descreve de forma tão certeira: “Não troco desespero por agravo, nem perigo por um bom lugar marcado”. 

Procissão (a fazer lembrar, com aquele poderoso riff inicial, a Roadhouse Blues dos The Doors) e Malhão 3.0 (a transportar-nos para as quentes noites de verão mesmo se estivermos a viver o mais profundo dos invernos) são canções vibrantes. Pelo meio, Terra Ardida acorda-nos cruamente para o fenómeno dos incêndios que vastas vezes tem dizimado a nossa pátria. No geral, é um belo retrato (ou resumo, se quisermos) do que é ser português. É mesmo por aí que finda o álbum: Portugal. Inicia-se com ritmos mais tradicionais e é paulatinamente substituído pela dominância da guitarra: “Vagueei por Portugal, com assombro ancestral. Quando chegue a minha hora, seja terra em Portugal.”

Diabo na Cruz não se pode explicar. Tem de ouvir-se. 

5. Filipe Sambado – Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo (2018)

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Se em Diabo na Cruz encontramos o cru rock balançado com os ritmos tradicionais portugueses, Filipe Sambado é, por entre as minhas viagens acompanhado do Spotify, a lufada de ar fresco a que recorro amiúde. Os ritmos mais frenéticos da guitarra, por vezes, também cansam. Filipe Sambado oferece-nos sonoridades arrojadas e letras por vezes atrevidas. O resultado final é um caldo bastante aprazível.

Deixem Lá foi sem dúvida uma das canções que mais ouvi em 2019. 

2020 trouxe-nos novidades quanto a Filipe Sambado (Revezo). Mantenho-me, ainda assim, firme nas minhas preferências: Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo é um belo álbum, porque constante. Mexido e agradável do início ao fim.  

6. Ganso – Costela Ofendida (2016)

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Esta será uma das escolhas menos óbvias. Trata-se de um EP de uma das bandas “satélite” dos Capitão Fausto. A banda tem já dois álbuns, mas não há volta a dar: esta é a minha produção de eleição. Psicadelismo, algum non-sense, letras despreocupadas mas com sentido bastante para serem uma letra de uma música. Nos Ganso – pelo menos neste Ganso - há loucura e razão em doses certas. 

Os tempos mais recentes são de Não Tarda (2019), algo menos apetecível - há que dizer. Habituei-me aos tempos iniciais de Ganso, mas as bandas transformam-se – é uma inevitabilidade. 

Sinto saudades daqueles tempos em que se comemorava Idalina, e investia-se na Idalina ingenuamente, sem pensar no que viria depois. 

7. Lena D’Água – Desalmadamente (2019)

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Lena D’Água tinha de estar presente. Foram três décadas sem editar. Desde os anos 80, em que era a namoradinha de Portugal. Nem já os meus pais têm idade para se lembrarem dos tempos em que a Lena “explodiu” na ribalta, mas eu gosto de Lena D’Água. Talvez porque nos últimos anos tem colaborado com vários artistas nacionais emergentes (dos quais os Ciclo Preparatório são exemplo), o que me deu a oportunidade de me cruzar com ela, e explorá-la. 

E o privilégio que foi poder passar dos intemporais Demagogia, Vigaro Cá, Vigaro Lá ou Sempre Que o Amor me Quiser para canções das quais sou contemporâneo: Opá, Grande Festa ou Hipocampo surgiram carinhosamente no meu dia-a-dia, ao bom estilo da Lena. Recebi-as com gosto e a elas regresso de quando em vez. 

8. Linda Martini – Linda Martini (2018)

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Linda Martini é para aqueles fins de tarde em que o céu se reveste de tons alaranjados. A alma aquece e só apetece ouvir esta banda fantástica. Em específico, este álbum efusivo e ao mesmo tempo reflexivo. Para que a alma aqueça ainda mais.

Foi este álbum que marcou o início da minha aventura em torno dos Linda Martini. Foi um amor à primeira vista. É uma aventura que está para durar. 

9. Luís Severo – Luís Severo (2017)

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Este rapaz com um ar tímido revela todo o talento que vive dentro de si quando pega na guitarra ou se senta ao piano. Das suas mãos e da sua voz saem canções fantásticas, e este álbum é um perfeito exemplo disso - todo ele muito bem conseguido. 

Hoje, ao cabo de três álbuns, pode dizer-se que Luís Severo construiu uma sonoridade que é marca sua. E eu aprecio-a bastante. 

Há momentos em que sinto que o que há a fazer é somente encostar-me nas costas da cadeira do comboio e escutar Luís Severo. De entre essas vezes, o que a minha cabeça maioritariamente me pede é o álbum que aqui menciono. 

Amor e Verdade é uma obra de arte. Nela se encontra a quadra que descreve o estranho momento que, enquanto aprendiz de adulto, vivo:

“Deixaste a mocidade à espera
Fumo a desaparecer
E só voltou a primavera
P'ra trabalhar até morrer”

10. Os Pontos Negros – Soba Lobi (2013)

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O triunfo da juventude, nu e crua. Estes mantiveram-se, até ao seu fim (este foi o último álbum da banda), iguais a si próprios. Talvez tenha apreciado em maior dose o Magnífico Material Inútil (2008), cuja canção homónima é, de facto, a minha favorita dos Pontos Negros. 

Mas não se percam: este Soba Lobi é de qualidade superior. Corrido, agressivo e assertivo. 

“Se tudo neste mundo é imprestável

Se não sou sal nem sou luz

Não há insipidez que esconda a nudez

De não carregar uma cruz”

Senna

E pensar que em 2012 o Festival NOVA Música (que anualmente se realizava no nosso campus) contou com Pontos Negros, Ciclo Preparatório e Capitão Fausto...

11. Salvador Sobral – Paris, Lisboa (2019)

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Não nego: conheci Salvador Sobral somente depois do Festival RTP da Canção de 2017. Mas o que ouvi deveras me agradou. E este Paris, Lisboa foi a confirmação dessa minha opinião. 

Não há muito mais que se possa dizer a propósito de Salvador Sobral. O que faz com a sua voz é, a todos os níveis, incrível. 

Ouço-o para me sentir bem, ainda que não com a regularidade que talvez merecesse este génio. 

12. Tara Perdida – Dono do Mundo (2013)

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Este é o último álbum de Tara Perdida com João Ribas, o bastião da cultura e mentalidade punk no nosso país. Também ele, ao seu jeito, um génio, que se foi demasiado cedo. 

Deste álbum fazem parte os hinos O Que é Que Eu Faço Aqui e o eterno Lisboa (com o Tim). 

Tara Perdida é, quer queiramos quer não, uma das bandas marcantes (talvez de culto) nacionais. E com eles não há surpresas: vão diretos ao assunto. Entregam à sua legião momentos para descarregar a adrenalina. 

“Hei de um dia ser alguém
Não a qualquer preço
Estás cá tu para lembrar
Tudo o que me esqueço”

O Que é Que Eu Faço Aqui

13. Tiago Bettencourt – Do Princípio (2014)

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Sou por tendência, uma pessoa calma, reflexiva e algo apática. Nessa medida, Tiago Bettencourt leva-me a constantes reflexões melancólicas sobre a vida e as aventuras que esta me oferece. Maria, Aquilo Que eu Não Fiz e Sara são, para mim, bom exemplo disso. A qualidade não deve sequer ser discutida. Merece, sem dúvida, este top. 

14. Xutos & Pontapés – O Cerco Continua (2012)

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Quem me conhece não estranhará esta “nomeação”. Pois é, talvez sejam os Xutos a minha banda de eleição. O Cerco Continua é um álbum carregado de significado. É uma reedição (com nova produção) do Cerco (1985). A verdade é que, 27 anos depois, as letras do Tim continuavam, e continuaram, atuais. Só o tipo de cerco era distinto: em 1985, o cerco era da banda, por não conseguirem encontrar uma editora que quisesse produzir as suas canções; em 2012, era a Troika e a crise quem cercava o país.

“Eu vou para longe, para muito longe
Fazer-me ao mar. Num dia negro
Vou embarcar. Num barco grego
Falta-me o ar, falta-me emprego
Para cá ficar.”

Barcos Gregos

A estas canções juntaram-se mais duas originais e uma terceira, Vossa Excelência, da banda brasileira Titãs, na voz do Tim e ainda na guitarra do Zé Pedro. Uma canção com uma letra agressiva, diretamente dirigida à classe política e aos titulares dos órgãos soberanos do Estado. 

Por entre todas estas letras de intervenção (uma marca indelével dos Xutos & Pontapés e um estilo que eu tanto aprecio), haveria ainda espaço para relembrar hinos como o Homem do Leme ou Conta-me Histórias

15. Zarco – Zarcotráfico (2017)

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À semelhança dos Ganso, Zarco, com um EP. Como em Filipe Sambado, há ritmos arrojados, acelerados, e letras que não me deixam indiferente. Em suma, tudo o que, por norma, me cativa numa banda. 

A referência à Tava Num Bar (de um disco posterior a este que menciono) na canção Sempre Bem dos Capitão Fausto foi o mote para conhecer esta maravilhosa banda. Não me arrependi. Recomendo-a a todos, caso ainda não a tenham ouvido. 

 

João Duarte

(Aluno do 3º ano da Licenciatura)

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