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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

30
Ago20

Cultura, I guess

Jur.nal

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Este texto é publicado na revista oficial dos estudantes de uma Faculdade de Direito. O conteúdo mais comum, aparte opiniões sociais e políticas, são álbuns, filmes e livros preferidos. O porquê de os termos consumido e porque é que os outros também o deveriam fazer. Todos nós lhes reconhecemos o valor enquanto escapatória do mundo da lei, caso contrário não teríamos uma tuna ativa, tal como o Grupo de Retórica e o Jur.Nal.

Enquanto colectivo, reconhecemos o valor dos artistas e das suas criações. Todos temos playlists no Spotify para as viagens grandes, enchemos cinemas, compramos o candeeiro novo porque é muito mais bonito do que o que já lá está em casa. No entanto, não reconhecemos as suas ambições. Todos os anos centenas de alunos ouvem que não vão ter emprego se seguirem certo caminho. Felizmente, ignoram.

Negar que existe um problema com a arte em Portugal é viver numa ilusão obscena. Negar que o mesmo se relaciona com motivos socio-económicos é um branqueamento profundo da realidade portuguesa.

Considero que crescer na Beira Interior é uma existência feliz. Não teria escolhido qualquer outro sítio. Ir e voltar é nostálgico: a nova realidade da nossa cidade pequenina, não reconhecer os miúdos – a frase que mais vezes repito quando cá estou é, sem qualquer sombra de dúvidas, “estou velha”; não é que o esteja, a mudança é que simplesmente não é confortável. O Luís Severo, na sua Cheguei Bem, expôs perfeitamente o que sinto desde setembro de 2018: “cheguei bem, mas já vou embora”. Sinto-o, mesmo que o Luís se esteja a referir a Lisboa. A arte tem a vantagem dos vários significados, de ser um conforto na situação concreta.

Crescer na Beira Interior é, também, um sentimento agridoce. É ir ao cinema ficar perante blockbusters e animação infantil, raros concertos – normalmente não a meu gosto ou que desconhecia (e que mais tarde me arrependia) – por sorte, sempre frequentei o teatro que, infelizmente, é algo atípico no interior. Os grandes concertos em Lisboa ou no Porto que falhei porque ia ter que faltar à escola. Comecei a ir no meu 11º ano, a escola ia continuar, os concertos nem por isso.

O interior apresenta um custo de vida muito inferior ao da capital. Na minha cidade arrendam-se casas a metade do preço de quartos em Lisboa. Entristece-me saber que alguns dos meus colegas ficaram a estudar por cá não por escolha, mas por necessidade. Um artista beirão está limitado pelo estigma com que é visto e pelas circunstâncias familiares. Alguns lá desistem e ingressam num trabalho mais convencional.

Em Lisboa encontrei um novo cenário. Havia tanto para fazer que nem sabia bem o que escolher. Somos bombardeados constantemente por todo o tipo de atividades culturais. Mesmo não me alongando, desta vez, em convicções pessoais, não posso deixar de reparar que a cultura parece mais apelativa aos mais abastados. Desengane-se quem acredita que é por falta de gosto. É falta de tempo, falta de posses, falta de vontade de ser olhado de lado. Mais uma vez, algo não bate certo. Como é que a cultura é para os ricos, mas os artistas são pobres?

O Orçamento de Estado para 2020 aumentou em 16,7% o que destina à cultura. Ficou aquém do 1% do OE pedido pelo setor. É urgente que a cultura comece a ser reconhecida. No mundo da cultura, um artista bem sucedido é aquele que na pandemia não precisou de ajuda. Nos teatros, aumentam-se os preços para não sucumbirem. Os artistas merecem, como qualquer outro, reconhecimento pelo seu trabalho. A arte é mais do que um passatempo, mais do que um entretenimento de outrem. Precisa de ser vista como algo essencial, que o é.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 3.º ano da Licenciatura)

22
Ago20

Sexualidade Agressiva ou Agressão Sexualizada?

Jur.nal

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Existem poucos pontos de comparação para a sensação causada pelas generalizações grosseiras que os homens fazem sobre a sexualidade feminina – unhas a arranhar um quadro de giz ou uma jante de metal a arrastar-se sob uma superfície de vidro são duas que me ocorrem, ambas pela mesma razão: são irritantes, desnecessárias e colocam-me imediatamente em estado de alerta. Foi o que aconteceu recentemente quando ouvi alguém a constatar que ‘a maioria das mulheres deseja secretamente ser magoada durante o sexo’ e que ‘existe um certo tom afrodisíaco em contrariá-la’. Pondo de parte aquilo que soa a uma desculpabilização de comportamentos sexualmente transgressores e, até certo ponto, uma defesa da violação, dei por mim a deliberar sobre o assunto e a questionar até que ponto é que essa sexualização da violência não é uma construção sociocultural que temos simplesmente vindo a aceitar acriticamente.

Desde a subtileza da literatura ao excesso da pornografia, a mulher é frequentemente retratada como um ser frágil, ingénuo e virginal, sempre ansiosa por ser dominada. No entanto, talvez a maior ofensa venha do cinema – não pelo meio em si, mas por ser aquele que tem o maior impacto cultural no nosso quotidiano. É pouco frequente ouvir discussões em escolas ou gabinetes acerca do último livro a chegar às prateleiras, e menos frequente ainda debates sobre o porno do momento. No entanto, filmes, séries, atores e realizadores discutem-se com frequência; discutem-se prémios e cerimónias e numa espécie de inversão de papéis com aquilo que anteriormente seria imediatamente classificado como o cromo dos filmes, é cada vez mais importante ter opiniões acerca dos filmes sob o risco de ser socialmente canibalizado. “Não viste o Joker?”, “Adorei a crítica aos ricos do Parasitas”, “O Marriage Story não representa bem o processo de divórcio”… As opiniões não têm de ser elaboradas ou consistentes ou contextualizadas adequadamente; não há problema nenhum que uma pessoa de 19 anos que nunca tenha namorado mais de 6 meses ou que tenha estado em contacto com qualquer tipo divórcio tenha fortíssimas opiniões acerca do mesmo; não há problema que esta pessoa seja ou não consciente das suas limitações perante determinadas temáticas – o importante é que ela tenha uma opinião.

Isto para dizer que o cinema importa e os seus efeitos na cultura são palpáveis, principalmente quando abordam a sexualidade. Ajudam a elaborar a ideia da mulher desejável e os seus padrões: as curvas, a cara, o cabelo, as ancas, o comportamento, a personalidade, a inteligência, o sentido de humor – a mulher sensual, a mulher que as outras invejam e que todos os homens cobiçam. Claro que o reverso também é válido relativamente a padrões altíssimos para os homens, mas esse não é o tema deste artigo.

São muitos os filmes que colocam inconscientemente a mulher numa posição de subserviência sexual e o facto dessa não ser a intenção do realizador mostra que se trata de reflexo de uma cultura que sexualiza a violência e não uma decisão artística consciente.  Retratada como excêntrica mas ingénua, Leeloo, protagonista do filme The Fifth Element, é excessivamente sexualizada apesar de ser completamente inocente relativamente à sua sexualidade. Apesar de ser adulta, é utilizada como objeto de admiração por parte do protagonista, e como objeto de gratificação da violência, sexualizada não só na sua indumentária, mas também nos seus movimentos de combate, pautados por piruetas e maioritariamente dependentes da exposição das suas pernas e rabo, algo que não acontece com os personagens masculinos.

Até nos clássicos, como é o caso da saga de James Bond, o macho alfa acaba sempre por dominar sexualmente a relação com um pouco de violência gratuita à mistura. Uma das cenas mais chocantes acontece em Goldfinger, onde uma cena de sexo, supostamente consensual (num estábulo, já agora), nos apresenta uma mulher a resistir aos avanços sexuais de Bond. Apesar da natureza forçada do seu encontro sexual, James Bond é considerado o herói e esta cena é glorificada e vista como sensual. Uma situação similar está presente em Blade Runner, só que recorrendo à violência para consumar um beijo e não a penetração.

Estes são o tipo de cenários em que o parecer coletivo é de que a mulher “está a fazer-se de difícil”, que funciona como uma espécie de apelo pervertido que nos diz “Convence-a”. Mas e se ela não quiser ser convencida? O que é que nos levou a crer que um “não” é sinónimo de “convence-me”? O que é que nos levou a crer que todos gostam de sexo agressivo e que a violência só traz uma intensidade positiva à relação?

É compreensível que ao fim de muito tempo a consumir este tipo de conteúdo acabemos por adequar as nossas expectativas nas relações a este padrão. No entanto, até que ponto é que esta construção social justifica determinados atos e comportamentos?

A Justiça portuguesa tem sido alvo de fortes críticas devido a certas decisões consideradas sexistas e misóginas terem feito rondas nos jornais. Vários colunistas, jornalistas e grupos activistas condenaram decisões judiciais pelo seu tom discriminatório e violento. Uma decisão muito popular e relativamente recente que gerou uma onda de indignação nacional e desencadeou manifestações em várias cidades foi a decisão do juiz Neto Moura que ficou apelidado como o “juiz das mulheres adúlteras”. Este senhor concluiu que uma traição justifica agressões extremamente violentas – em pratos limpos, a violência doméstica é válida sob determinadas circunstâncias. Lê-se nesse acórdão que “o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”. Um outro caso que esteve também na berra tratava uma violação, ocorrida uma discoteca, de uma rapariga por parte de dois homens, funcionários desse mesmo estabelecimento. A rapariga estava inconsciente e não pôde resistir. O tribunal decidiu que houve um ambiente de “sedução mútua” e que não existiu violência. Se até na justiça que nos rege as agressões são sexualizadas e as decisões são tomadas com base numa cultura que ainda acha que a mulher deve ser convencida, como é escapamos deste paradigma tóxico?

Segundo as estatísticas da APAV, entre 2013 e 2018 foram registados em Portugal 5.228 crimes sexuais, o que correspondeu a um aumento de 130% ao longo desses 6 anos. 92% dessas vítimas são mulheres e 75% são meninas entre os 11 e os 17 anos. Um momento, vamos ler novamente: 75% são meninas entre os 11 e os 17 anos. Peço desculpa, vamos rever: 0.75 x 5.228 = 3.921. Três mil novecentas e vinte e uma crianças abusadas sexualmente em cinco anos. Estamos a dizer que, em Portugal, em média, duas raparigas entre os 11 e os 17 anos são abusadas diariamente.

Pronto, podemos prosseguir – o que é que estes números representam? Representam a sexualização abusiva de menores? Ou representam, de uma forma mais rebuscada, a infantilização das mulheres por parte da cultura?

Definida pela sua inocência e inexperiência especialmente quando se trata de sexo ou romance, a mulher é também muitas vezes representada desta forma pelo cinema. Numa veia similar ao já mencionado The Fifth Element, o filme Tron: Legacy traz estas características novamente para as luzes da ribalta: estamos a falar de um corpo feminino já formado e maduro com a mente de uma criança ingénua. A personagem principal é descrita exatamente dessa forma: "Profoundly naive and unimaginably wise”. O que une todas estas personagens femininas é o facto de nenhuma delas ter consciência do seu sex appeal e, ainda assim, admirarem loucamente os heróis masculinos. Os heróis masculinos apaixonam-se pelas mulheres pela sua inocência e não apesar dela, o que acaba por representar uma constante obsessão pela superioridade, uma obsessão por exercer poder sobre uma menina inocente e desprotegida. Creio que instintivamente sabemos que há algo de errado com este tipo de dinâmica sexual – o subtexto praticamente pedófilo é algo demasiado profundo e repugnante para ignorar – e temos uma responsabilidade para com as mulheres, principalmente as mais suscetíveis de se encontrarem neste tipo de armadilhas (as mais novas): a de lhes explicar que estas ‘relações’ não são saudáveis e que as colocam numa posição de infantilização constante que as impede de amadurecer emocionalmente e sexualmente. Este tipo de situações não está confinado à cultura ocidental, sendo provavelmente o maior infrator o anime japonês, onde a prevalência de mentes de crianças em corpos de mulheres é algo comum a muitas séries ao ponto de já se ter tornado um ponto de referência cultural – vão a qualquer fórum da internet e inevitavelmente vão deparar-se com, entre outros, o termo waifu. Da mesma forma que os americanos dispõem de explosões, metralhadoras e bandeiras no seu cinema comercial, os japoneses utilizam vozes femininas infantis em personagens submissas dentro corpos completamente desproporcionais em diversas séries de anime – na verdade, não é raro encontrar discussões online sobre os méritos deste tipo de personagens, apelidados de lolis. Sim, lolis. De Lolikon. De Lolita. Exato.

É completamente possível que esta representação do sexo feminino se deva ao medo de perder a vantagem intelectual sob as mulheres e se trate de uma fantasia masculina para escapar à humilhação dos seus próprios defeitos. Filmes que representam a mulher desta forma são tipicamente filmes escritos por homens e para homens até porque normalmente o inverso não é representado da mesma forma. É raro que mulheres confiantes e determinadas se apaixonem e vejam como sensual a ingenuidade e falta de jeito de um homem; nestes casos, surge quase sempre um homem ainda mais confiante e ainda mais determinado pelo qual a mulher sente uma certa submissão e uma certa vontade de ser vulnerável. Existe, de facto, uma violência sexual subentendida nos media e é muito difícil abstrair-nos deste tipo de cultura por ser tão pervasiva e dar azo a debates e discussões em que as emoções acabam por tomar as rédeas.

É frequente associar violência sexual unicamente a violações, mas a verdade é que existem muitas outras formas de violência que abrangem todas as formas de contacto sexual indesejado – afinal de contas, o ser humano já pratica a violência há milhares de anos; seria chocante que esta não fosse um dos nossos maiores talentos enquanto espécie.  

Violência sexualizada é um termo vasto usado para descrever qualquer agressão, física ou psicológica, praticada por meios sexuais ou referindo-se à sexualidade, explícita ou implicitamente. A verdade é que vivemos numa época em que é difícil fazer sempre uma triagem de conteúdo e é ainda mais difícil fugir a um padrão que nos é imposto de forma inconsciente. Acima de tudo, é cansativo. É cansativo analisar todos os casos ponderadamente e com o tempo que eles merecem sob o risco de fazer julgamentos sumários sem dispor de todos os factos e ferramentas de análise, principalmente quando o planeta está a arder, a derreter, a afundar e a abarrotar simultaneamente. É difícil focarmo-nos nos padrões de discurso sexual, social, romântico, cultural, económico, político, tecnológico, moral, ético e filosófico e ainda sobrar tempo para comer e para dormir. Existem imensos estímulos aos quais temos que responder todos os dias. Ainda assim, devemos questionar-nos continuamente se os nossos comportamentos, ideais e expectativas dignificam não só os outros, mas também a nós próprios. Não podemos imediatamente assumir que se trata de uma sexualidade agressiva, quando é inteiramente possível que se trate de uma agressão sexualizada.

 

Ana Sofia Alcaide

Aluna do 2.º ano da Licenciatura

29
Mar20

Uncut Gems (2019) - Crime para Outra Geração

Jur.nal

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Em Good Time (2017), Josh e Benny Safdie agradeceram especialmente a Martin Scorsese. O agradecimento é justíssimo – em Good Time ressoa, entre outras coisas, o pouco reconhecido After Hours (1985) – e o realizador regressou aos créditos do trabalho dos nova-iorquinos como produtor. Curiosamente, li há pouco tempo alguém que lembrava uma comparação do novo filme da dupla com Goodfellas (1990), o magnum opus de Scorsese, alegando que Uncut Gems seria para esta geração o que os bons rapazes foram para a sua. Arriscada como é, arrastando a força que, inevitavelmente, arrasta, talvez esta ideia diga muito sobre o que a última sensação dos irmãos Safdie significa para o cinema.


A internet já se encheu de imagens de Adam Sandler, de óculos escuros, os dentes grandes e branquíssimos, a legenda, This is me, this is how I win, pelo que não há muito que valha a pena dizer: está, sim, extraordinário; é, sim, uma atuação que reforça a força da transição da comédia para o drama – como com Jim Carrey ou Steve Carell; era, com certeza, performance para mais nomeações. Posto isto, Sandler é Howard Ratner, um negociador carismático, proprietário de uma loja de joias, que se envolve em vários negócios à volta de um novo e especial artigo: uma opala negra.


Neste circuito de negócios, Uncut Gems cansa. Propositadamente. A entrada no filme funciona como um salto de altitude, um mergulho na confusão sem a qual o mundo de Ratner não existiria. Trivial como possa parecer, este é um exercício particularmente difícil de executar: aos irmãos Safdie não interessava a suspensão da envolvência, ou o foco sobre determinado aspeto da ação, o que é estruturalmente constituinte do cinema com esta exposição. Uncut Gems é um filme lotado, é a cidade de Nova Iorque espremida na pequena loja de Howard Ratner, é a confusão de um homem soterrado pela rede de negócios que montou. A câmara flutua freneticamente ou amplia progressivamente, as luzes são saturadas, as cores dão uma dimensão de artificial àquela realidade, aquele mundo. E é justamente isso que isto é: é o dinheiro que vai e vem, as trocas desmesuradas, as apostas irreais, é um fugazi, é o poder de uma joia.


Essa dimensão de artificialidade é constante ao longo do filme e os irmãos Safdie trabalham-na primorosamente: na sua construção e na sua destruição. Uncut Gems é um cinema frenético, de sobreposição, de confusão, que cria, que gera, que cresce e que, finalmente, derrama. E derrama com estrondo e com estilo: para isto muito ajuda a fotografia do eclético Darius Khondji, numa aproximação (diria que melhorada) ao estilo visual do Good Time. Na verdade, a fotografia da longa é prodigiosa na configuração do ambiente. No que ao peso do filme concerne, por ser tão meândrico, tão enleado, tão convulso, Uncut Gems torna-se claustrofóbico; e, para isso, não servem apenas as vozes que se sobrepõem constantemente, os diálogos que se perdem na multidão ou as portas defeituosas – a câmara sabe sempre onde estar, de que forma se mexer, quando e como aproveitar o desfoque. Seja na forma como capta o posicionamento de Howard nas massas nova-iorquinas, no toque quase documental, no aproveitamento do espaço ou, e isto vale a pena ser frisado, na extraordinária última cena (e num plano particularmente bom).

Evidentemente, o protagonismo de Sandler não é aleatório. Uncut Gems funciona como um estudo de personagem, inserido num meio que lhe é, em medidas avulsas, ao mesmo tempo conhecido e estranho, a que pertence e não pertence, que o aceita e o parece querer expulsar. A atmosfera ilusória que os irmãos Safdie criam, atraídos pelo errado, pela mentira, pelo transcendental – os zoom-in que falam do passado, da origem, da essência -, é  o próprio interior das personagens, profundamente americanas, perfeitamente mediadas pelo meio. Tudo funciona, porque tudo está na mesma página, do mesmo lado: o trabalho de câmara, a fotografia, as luzes dispersas são tão psicológicos e tão psicologizantes como o diálogo, o olhar, a postura; são tão criadores de atmosfera como a música ou o silêncio e tão essenciais para o que o filme significa como Howard é para a opala e a opala para Kevin Garnett. Como um ciclo de significados, como um interior acessível por uma objetiva, e como um exterior inquieto, turbulento, opaco. As personagens dos irmãos Safdie não são só consequências dos seus ambientes, são o próprio ambiente, são as histórias com que cresceram e que tiveram acesso. Por isso são tão reais, tão pesadas; por isso a aproximação ao visual do documentário. São personagens imperfeitas, que existem ali, naquele mundo ilusório, destrutivo, imparável; homens repartidos como o reflexo de um corpo morto num espelho dividido em vários.

Uncut Gems é isso: é frenético, é tenso, é claustrofóbico. O efeito que produz no espectador é do mesmo espírito do slogan do anterior filme dos realizadores, que perguntava are you ready to have a good time? Aqui, as regras da longa-metragem de 2017 crescem, como que sob o efeito de uma levedura, não necessariamente em termos de dimensão, mas de amadurecimento, de qualidade. Uncut Gems é menos sobre a sua história – embora seja uma bela história – e sobre o seu guião – embora esteja muito bem escrito -, do que é sobre ritmo, criação de ambiente, desenvolvimento de tensão. E não há nada de errado nisto: é uma experiência válida, é um good time, é uma forma de ser de uma geração que quer contar outras histórias, de outras formas. E há algo fascinante na forma de contar histórias destes dois irmãos: talvez a sedução da confusão, da saturação, de outros e novos perigos. O facto é que o que Goodfellas fez pelas narrativas de crime dos anos 80 e 90, Uncut Gems poderá fazer pelas de hoje. O tempo das histórias dos gangsters do Scorsese, da máfia do Coppola ou dos assaltos do Mann, ainda que inqualificáveis e, inevitavelmente, insubstituíveis, já não ressoa na geração do hip-hop, das redes sociais, do The Weeknd. Não é que não possam fazer nada por ela; é que há algo de espiritual no cinema de cada geração que, por mais recuperável que possa ser, na lembrança, no Criterion Collection, nos ciclos, nasce e morre nessa geração. Os bons rapazes vivem até hoje e viverão muito mais, mas esta já não é a geração dos molhos de tomate com alho cortado com lâminas de barbear ou do Somewhere Beyond The Sea; é uma geração profundamente diferente – convalescente, frenética, imediata, onde o crime, os protagonistas e o seu espírito são outros.

 

Francisco Fernandes

(Aluno do 2º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na FCSH)

18
Mar20

Melhores Filmes da Década - Escolhidos por Maria Inês Opinião

Jur.nal

Porque a arte não é só música (e porque temos bastante tempo livre para ficar em frente da televisão), a nossa colaboradora Maria Inês Opinião traz-nos a sua lista de melhores filmes da década (um por ano). Através de cada imagem podem aceder ao trailer, e uma grande parte dos escolhidos estão disponíveis na Netflix, estando indicados quais. 


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2010 – Shutter Island, de Martin Scorsese
O Marshall Teddy Daniels, volvido recentemente da 2º Guerra Mundial, investiga o desaparecimento de uma paciente num hospital psiquiátrico. Como seria expectável através da premissa, é uma viagem pela sanidade. Com ótimas prestações, já habituais, de Mark Ruffalo e, especialmente, Leonardo DiCaprio, é-nos apresentado um filme que, apesar das características habituais de thriller, como a atmosfera arrepiante bem sucedida, fruto de uma aliança entre a imagem e o som, escolho não o ver como tal. De modo a evitar spoilers, não me alongo nesta ideia; acredito que quem já o viu saberá ao que me estou a referir. As cenas finais são difíceis de apagar da memória, quer pela sua harmonia, quer pelas suas implicações. (Disponível na Netflix)

 

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2011 – Hugo, de Martin Scorsese
A primeira vez que me deparei com a Invenção de Hugo Cabret foi no cinema. Gostei sem saber ao certo o porquê. Ao longo dos anos revi-o, muitas vezes, tal como fiz com o livro de Brian Selznick, no qual se baseia. Lá aprendi que tinha sido realizado por um dos cineastas mais reconhecidos da atualidade, que retratava uma realidade temporalmente menos distante do que achava e o que isso significava. Trato este filme como um abraço: sei que passe o tempo que passar vou sempre encontrar a mesma história que me encanta que é também uma ode ao cinema enquanto arte, não sendo perfeito em qualquer dos seus aspetos demonstra carinho pelo cinema de um modo infantil e genuíno. Georges Méliès, a personagem, quase no término do filme, pede à audiência para sonhar com ele; é apenas uma verbalização daquilo que o filme, em si, nos pede para fazer. (Disponível na Netflix)

 

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2012 – Amour, de Michael Haneke
Georges e Anne, casal octogenário de classe média-alta, ultrapassam, juntos, as consequências do AVC de Anne. Amour é um dos filmes mais angustiantes que já vi. É, também, um dos mais bonitos. Em apenas uma localização, Georges realiza uma viagem nostálgica por todas as décadas que passaram juntos. É personalização de um medo, profundo amor e sacrifício num só filme.

 

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2013 – Her, de Spike Jonze
Não tenho muitos filmes de 2013 no meu espólio. Assim, a história do escritor solitário, Theodore, que desenvolve uma relação amorosa com um sistema informático que tem como objetivo satisfazer todas as necessidades do utilizador, encontra-se no topo. Jonze apresenta-nos uma história que se tem mantido e irá manter relevante de forma honesta, pura – algo que não é assim tão comum. Esteticamente agradável, com um elenco imaculável (Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Amy Adams) e uma realização impecável. Her distancia-se das histórias de amor e das ficções científicas às quais estamos habituados e é, sem dúvida, uma das melhores conseguidas. Volto ao filme de tempo em tempo.

 

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2014 – Birdman or (the unexpected virtue of ignorance), de Alejandro G. Iñárritu
Tenho a memória particularmente viva de assistir a este filme em meados de 2017, felizmente, pois caso o tivesse feito aos 14 anos provavelmente achá-lo-ia simplesmente estranho, possivelmente nem o iria terminar. A história do ator em decadência, Riggan, unicamente conhecido pela interpretação de um super-herói, que tenta reerguer a sua carreira atuando numa peça da Broadway. Presos no limbo entre a realidade e o imaginário, acompanhamos Riggan e a suas relações marcadamente difíceis entre o próprio e aqueles que o rodeiam, com problemas quotidianos mais ou menos peculiares. A inclusão de atores participantes em filmes de super-heróis – Michael Keaton e Emma Stone – torna-se especialmente irónica na crítica da obsessão das massas, que agravou com os anos, com o género. A aparente realização de um único take excecional, uma soundtrack muito específica de jazz percussionista, porém adequada, e um final que me deixou completamente em êxtase tornam este filme num dos primeiros que adorei adorar, sabendo que é fruto de mais do que atores e enredo. (Disponível na Netflix)

 

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2015 – The Lobster, de Yorgos Lanthimos
2015 é, infelizmente, um ano que não nos presenteou com filmes de particular destaque. Tal não impediu Yorgos Lanthimos de apresentar uma sátira visualmente deslumbrante – algo a que já nos habituou – que retrata de forma peculiar e forçada o desenvolvimento de relações amorosas através de personagens monocórdicas e diálogo invulgar, com especial ênfase na importância da existência de semelhanças entre duas pessoas que se relacionam. A ruptura evidente define e divide somente a história, os juízos críticos acerca do filme continuam a colocá-lo num pedestal; pessoalmente, prefiro, sem desdenhar o restante, o início. O elenco, que conta com Colin Farrel, Rachel Weisz, Olivia Colman e Léa Seydoux, faz um trabalho incrível num filme que, até hoje, continua a surpreender e a deixar sem qualquer tipo de indiferença qualquer um que o veja.

 

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2016 – Arrival, de Denis Villeneuve
Louise Banks, linguista, é contratada pelo exército americano de modo a interpretar o modo de linguagem utilizado por alienígenas. Villenueve cria, então, um filme de ficção científica que ultrapassa as barreiras do género para se focar nas da linguagem e do tempo. Arrival é um filme ao qual não aponto falhas. Presenteia-nos com um elenco incrível, em especial a performance fenomenal de Amy Adams (que não foi devidamente premiada), banda sonora e cinematografia excepcionais, e um guião único. Ainda assim, o filme poderia não se destacar. Felizmente, pelo contrário, é inesquecível, tratando assuntos complexos de modo delicado.

 

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2017 – Three Billboards outside Ebbing, Missouri; de Martin McDonagh
Mildred (Frances McDormand), 7 meses depois do homicídio da sua filha, desafia pessoalmente a polícia a encontrar o culpado, ao colocar 3 outdoors vermelhos à porta da cidade. Num filme repleto pela imprevisibilidade, é complicado descrevê-lo sem incorrer em detalhes indesejados. Os pontos altos do filme são as prestações surpreendentes de McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, tal como o guião impecável. Three Billboards outside Ebbing, Missouri, no seu âmago, não se trata necessariamente de uma história de vingança. No entanto, e reitero, não devo detalhar: deve ser uma experiência pessoal.

 

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2018 – Roma, de Alfonso Cuarón
Roma é um filme simples. Apresenta-nos uma família e as suas empregadas domésticas nos anos 70, na Cidade do México. É, no entanto, um filme ambicioso. As prestações, especialmente de Yalitza Aparicio, são impecáveis, não deixando qualquer margem de dúvida no realismo das personagens – algo de louvar, especialmente considerando que muitas destas são crianças. A cinematografia, exclusivamente a preto e branco, é encantadora. Não deixa qualquer margem para um desejo de cor. Contudo, o fator mais surpreendente é o som. Um ladrar à distância, o motor de um carro, músicos ao fundo da rua e até o vento tornam a experiência completamente imersiva (não é por acaso que cada vez que menciono o filme aconselho também um bom sistema de som). Todas as cenas são impressionantes e devastadoras à sua maneira. (Disponível na Netflix)

 

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2019 – Parasite, de Bong Joon-ho
Bong Joon-ho é o homem do momento. Não só rompeu com o hábito da Academia de não premiar filmes estrangeiros com o prémio de “Melhor Filme”, como tal foi totalmente justificado. A realidade sul-coreana é-nos exposta através de um enredo insólito, colmatado pela crítica social daquele que, como diz o próprio realizador, é o país da humanidade – o capitalismo. Performances impecáveis, uma direção tão harmoniosa que seja a ser musical, um equilíbrio perfeito entre comédia, drama e emoção. Parasite é o início da valorização comum do cinema internacional.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

20
Fev20

Joker: Um Filme que a nossa Sociedade não estava pronta para receber

Jur.nal

 

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Não pretendendo incorrer em qualquer tipo de desentendimento factual fui, como todos os outros, vítima de todo o hype à volta do Joker. Estamos, afinal, a falar de um dos filmes mais esperados do ano. Vi-o no Alvaláxia, numa sala tão cheia que eu e os meus amigos tivemos que ficar separados, apenas trocando considerações no intervalo e no fim do filme. Lembro-me de já no intervalo saber quais os aspetos que me estavam a surpreender: a soundtrack e o quão desconfortável poderia o filme ter sido em algumas cenas caso não tivesse sido bem dirigido. Pela altura dos créditos finais estava feliz, era pois um bom filme que tinha correspondido às expectativas.


No entanto, estava destinado ao infortúnio de ter sido lançado em 2019. Assim sendo, a internet procedeu a arruinar o filme. Tal como no enredo, as reações dos espectadores em relação às ações do Joker revelam-se acidentalmente caóticas e anárquicas. Não levam, todavia, a gritos de morte aos mais ricos, mas materializam-se na tragédia da década de 2010: a criação de um meme.

Nesta versão, o célebre vilão não se forma a partir de uma queda para um barril de químicos enquanto se esquiva do seu Némesis, nem numa história trágica de abuso infantil. Aqui, Joker, solteiro e mal amado, sofre de um distúrbio psicológico. Arthur Fleck é um homem profundamente perturbado que, quando falha enquanto comediante, acaba por se revoltar contra a sociedade na qual se inclui que, não obstante pertencer ao universo fictício de Gotham, se assemelha à nossa por, muitas vezes, negligenciar ou até caricaturar quem não se encontra de acordo com os habituais padrões de “sanidade”.


Em primeiro lugar, estou a meio do processo de me perdoar por não ter previsto o que ia acontecer. Achava estar já habituada a ver os sinais. Mesmo assim, quando começaram a sair as primeiras notícias, ainda antes da première do filme, nas quais se estabelecia uma relação entre o caráter violento do mesmo e atitudes impetuosas de quem o pudesse ver - também recorrente em videojogos e enquadramentos factuais de Moot Courts de Direito da União Europeia – ignorei. Apelidei-as de “lixo jornalístico”, como é meu habitual. E, afinal, eu tinha razão. O filme acerca de uma das personagens que me faz tolerar e ainda dar oportunidades ao universo dos super-heróis era acerca de um doente mental. Respirei de alívio e falhei ao desconsiderar as consequências daquilo que os media iniciaram.


Todo o mediatismo que cercava o filme levou-o a uma explosão na bilheteira, movendo um público completamente heterogéneo ao cinema. Honestamente, só consigo pensar num aglomerado tão aleatório de pessoas em dia de eleições.


Com esperanças de não chocar ninguém com a minha próxima afirmação (que não contém qualquer tipo de julgamento, pois cada um sabe da sua vida): aliar uma plateia habituada a comédias românticas e trágicas histórias de amor que roçam levemente temas popularmente considerados “mais pesados” a um filme como este é uma receita para o desastre. Não tardou até frases marcantes como “The worst part of having a mental illness is people expect you to behave as if you don’t” e “What do you get when you cross a mentally-ill loner with a society that abandons him and treats him like trash?” fossem totalmente retiradas do contexto e utilizadas em chamadas de atenção para o problema real que é a fragilidade da mente humana. Não só simpatizam com as atitudes de um vilão, como problematizam quem sofre.


Ora, retirar do contexto as aflições de Arthur e unindo-as com dicas, awareness threads no Twitter e opiniões mal fundamentadas acerca do que é um distúrbio mental elevam o filme ao ridículo. Para tal compactuam as relações forçadas entre a dança do personagem e a sua “libertação pessoal”. A massificação destes comportamentos fundem-se num fenómeno típico da nossa geração: o meme.


Arthur Fleck nunca quis ser um símbolo de uma revolução, de uma luta de classes. Queria somente que ele, e todas as pessoas que sofrem de distúrbios psicológicos fossem incluídas e tratadas, ao invés de desvalorizadas e enviadas para hospitais. Joker, o filme, nunca quis ser um grito de revolta dos oprimidos. Peço, então, que não o tornem num. Há outros tipos de entretenimento que o pretendem fazer, apoiem-nos. Não sobrecarreguem a obra de Todd Phillips, que nunca quis ou tem capacidade para ser mais do que um filme acerca de um vilão.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

 

11
Nov19

Parasite

Jur.nal

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Parasite (Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019

Direção: Bong Joon Ho

Guião: Bong Joon Ho, Jin Won Han

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park

Duração: 132 min.

 

Num ano repleto de obras-primas cinematográficas, de entre as quais podemos destacar Joker (dirigido por Todd Phillips) e Midsmommar (dirigido por Ari Aster), eis que surge o filme mais ousado de Bong Joon Ho – Parasite. Muitos poderão conhecê-lo pelo filme Snowpiercer, baseado no romance gráfico Le Transperceneige, ou até de Okja, mas atrevo-me a dizer que Parasite é talvez “o filme” da sua carreira, tendo sido galardoado com a Palma de Ouro no festival de Cannes deste ano.

 

As obras de Bong Joon Ho exibem traços de crítica e sátira sociais, imbuídas por um tom cómico, com alguns cenários de violência, que demonstram o domínio do meio social na construção dos comportamentos e vivências das personagens. O filme Parasite não é exceção e constitui um grande exemplo dessas características.

 

Parasite possui uma narrativa bastante cativante, repleta de surpresas – das gargalhadas ao incómodo, é um filme que inquieta o público, mas que transmite uma mensagem bastante profunda sobre as discrepâncias sociais, concretamente na Coreia do Sul, contudo, é uma mensagem bastante abrangente que se pode aplicar a qualquer tipo de sociedade.

 

O filme retrata o quotidiano de uma família pobre, apresentando a perspetiva daqueles que sobrevivem numa sociedade que apresenta cada vez mais desigualdades. Estes “parasitas” – forma como são considerados pelos membros das classes mais elevadas - fantasiam com vidas envoltas em luxo, aspeto que analisado ao pormenor revela um profundo desejo de alguma segurança social e financeira. A família de Ki Woo (família pobre que protagoniza o filme) vive numa cave minúscula, sem quaisquer condições ou segurança, tendo inclusive de roubar a wifi dos vizinhos – confesso que soltei uma longa gargalhada enquanto assistia ao filme, por causa deste anedótico pormenor.

 

Inicialmente conseguimos perceber que todos os membros da família se encontram desempregados, vivendo tempos muito difíceis, e ganhando algum dinheiro a dobrar caixas de pizza. Entretanto surge a oportunidade de Ki woo dar aulas particulares de inglês a Da-hye, filha mais velha da família Park (família esta bastante abastada). À medida que o filme avança surge uma problemática muito pouco conhecida – a pobreza na periferia das grandes cidades da Coreia do Sul, engrossando o abismo social. É possível verificar o contraste entre os espaços físicos: por um lado temos a cave onde mora a família de ki woo, composta por quatro membros e, por outro, temos a casa da família Park, uma casa majestosa, demasiado grande para a família Park. Esta discrepância entre espaços físicos é intensificada pelos tons de lente utilizados em cada cena: enquanto que na zona de residência da família mais pobre são utilizados tons mais escuros, que transpõem um enorme negativismo, e gerando alguma repulsa no público, nas cenas em que surge a moradia da família mais rica são utilizados tons muito mais claros, com muita luz, sendo este o ambiente mais agradável presente no filme.

 

Como não pretendo “arruinar” com spoilers a eventual experiência dos leitores, abstenho-me de prolongar a minha exposição sobre Parasite. Resta-me dizer que este é, de facto, um dos melhores filmes de 2019, difícil de classificar em termos de género, com um enredo nada expectável e um final que deixa alguma abertura para o surgimento de teorias (e quem sabe, uma possível continuação).

 

Ana Machado

(Aluna de Mestrado em Forense e Arbitragem) 

 

01
Nov19

Joker: tudo menos uma piada

Jur.nal

 

Esta é, provavelmente, apenas mais uma das milhares de críticas — ou meras opiniões — que vão ler acerca do novo filme de Todd Phillips, Joker. Todos os dias têm sido publicadas dezenas delas online. Os mais apaixonados pela arte que é a excelência do cinema demoram a processar aquilo que viram nos olhos de Coringa.

 

Arthur Fleck é feliz quase sempre — excepto quando sorri. Tanto o entende que o deseja a todos: que sorriam. Para que, no rasgão ensanguentado, possam sentir a sua dor.

 

JokerJokerJoker!”

 

É tudo menos uma piada. É o relato de um artista de stand-up comedy cujo sonho a realidade de outros levou ao fracasso. É a linha ténue que separa a esperança da compreensão da sua desistência. É o testemunho de um ser humano levado à loucura pela sociedade desgastante que o envolve. É o bullying perpetuado pela violência. É uma comunidade que segrega quem ousa a diferença. É o medo de uma profundidade que não se vê da superfície. É a maldade de gente que não suporta sorrisos maiores do que os seus.

 

Não há como não criar empatia por Arthur Fleck. Sentimos tudo o que ele sente. Vivemos a mesma raiva, a mesma dor, o mesmo cansaço, a mesma frustração e a mesma inevitabilidade de enlouquecer. Não só o compreendemos como o desculpamos. O que censuramos é o sistema corrosivo que se alastra em Gotham, cidade permeável à violência que, aos poucos e poucos, o suga para os becos mais refundidos da sua brutalidade, fazendo surgir Coringa.

 

JokerJokerJoker!”

 

É a solidão aliada à frieza. É a condição da pobreza que cheira ao vício do tabaco. É a repercussão do engano e da mentira. É a certeza de que o acaso é reduzido quando existe abuso. É o constante menosprezo das doenças psicológicas. É o ignorar das ansiedades e das depressões. É a sensação de cansaço derivada da incapacidade de lidar com mais sofrimento. É a conotação da infelicidade enquanto fraqueza. É a transformação do ser humano no criminoso. É a fuga ao pensamento tal é o medo da compreensão (porque somos mais felizes quando ignoramos, quando não sabemos, quando não compreendemos e quando nem tentamos).

 

Estamos perante uma obra-prima que trouxe consigo o desconforto da realidade. Incomoda porque é verdadeiro, porque é transparente, porque é puro e duro na representação da sociedade em que vivemos. Nada na elevação desta sublime criação é inocente. Tudo é rigorosamente pensado para o impacto.

 

Que qualidade cinematográfica, da frieza da imagem à sonoridade calorosa. A escolha das analogias. A profundidade dos paradoxos. O pormenor de cada perspectiva. O detalhe da mensagem de cada cena. A representação subliminar de uma poesia. Cada enquadramento traz consigo uma tradução perturbadora da realidade.

 

Este é o reflexo de todos nós, encarnado por um actor de outro calibre cuja interpretação é soberba. Joaquin Phoenix abraçou Joker de uma forma tão intensa que nos fez querer abraçá-lo do início ao fim da sua história. Trouxe à vida a personagem sob a pele mais humana em que alguma vez o vimos e, com a mesma ousadia com que se largou a si próprio, numa transição única abandonou Arthur Fleck.

 

Vejam, revejam e voltem a ver. Vale imensamente a pena. No final, guardem o sorriso ensanguentado desfeito por uma lágrima de tinta — e não se esqueçam de sair “dançando”.

 

Catarina Teles de Menezes

(Licenciada pela NOVA Direito. Antiga redatora do JUR.NAL)

 

19
Jun19

Pedido público de desculpas ao Sr. Jackie Chan e à sua mãe

Jur.nal

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Bem sei que os sonhos não interessam senão a quem os tem. Nas palavras de Dennis, personagem da comédia It’s Always Sunny In Philadelphia: «I hate listening to people's dreams. It is like flipping through a stack of photographs. If I'm not in any of them and nobody is having sex, I just don't care.” Porém, o mesmo não se passa com os erros alheios, e, bem, eu cometi um grave erro ontem.

Tudo começou ao encontrar o Jackie Chan e a sua mãe, algo que para os sonhadores mais atentos levantaria suspeitas, uma vez que a pobre senhora já não está connosco. Reagi como reajo ao avistar qualquer celebridade: curioso, mas sem querer chatear. No entanto, e para meu espanto, o célebre ator, com toda a amabilidade a que nos habituou nos grandes ecrãs, convidou-me a ficar. De seguida, um pouco melancólico, como que numa subtil crise de meia idade, elogiou a minha jovialidade. Em poucos segundos, éramos já praticamente amigos e, por isso, senti-me não só à vontade para pedir à pobre mãe que nos tirasse uma foto, como também que o fizesse com o seu próprio telemóvel, pois a câmara do meu não estaria à altura – o que corresponde, infelizmente, à realidade, desde que fui furtado.

A senhora estranhou e eu também - como é que era suposto eu ficar com as fotos? – mas lá o fez. Posto isto, eu e o Jackie começámos a festejar juntamente com os seus dez amigos asiáticos aparecidos do nada. Isto tudo numa mistura de um centro comercial com um armazém, importada diretamente de um dos seus vários filmes. Tudo me corria de feição, mas tal como Icarus, voava demasiado perto do Sol. Rodeado de asiáticos, não consegui conter a necessidade de demonstrar toda a minha perícia linguística, proferindo um orgulhoso arigato, que como todos sabemos, é japonês para obrigado.

Ora, o Sr. Jackie e a sua família são chineses. E misturar as duas nacionalidades é um grave erro. Imaginem, talvez, a rivalidade portuguesa e espanhola, com um bocadinho (enorme eufemismo!) de genocídio e horríveis atrocidades, relativamente recentes, à mistura.

O Jackie e os seus amigos, para meu alívio, permaneceram na sua inexplicável festa. Mas, a senhora... A senhora Lee-Lee Chan olhou-me com desdém e fez a cara mais azeda que alguma vez vi, sonho ou realidade.

Felizmente acordei pouco de seguida, um pouco como quem encontra a morte nos seus sonhos. Agarrei no telemóvel e confirmei o meu desastre. Pedi, mentalmente, desculpa à senhora e dei graças por se tratar apenas de um sonho de que nunca ninguém iria saber.

 

André Carmona

 

24
Fev19

Óscares 2019

Jur.nal

A cerimónia dos Óscares, já o sabemos, vai pela noite dentro. Para quem tem mais que fazer (nomeadamente dormir para estar a horas nas aulas, porque sabemos que sois alunos empenhados!), a redação do JUR.NAL, com a participação especial de dois convidados, não quis deixar de escrever uma ou outra linha sobre os filmes nomeados para a categoria de Melhor Filme. 

 

Ora vê! 

 

Imagem: www.cbc.ca

 

Juliana Senra (redação)

The Favourite (Yorgos Lanthimos)

Lanthimos sai pela primeira vez da sua zona de conforto e, não abandonando a característica forma de narrar por golpes brutos, súbitos vislumbres da complexa e muitas vezes negra natureza humana, consegue com o seu primeiro filme de época criar algo de refrescante e profundo. Trazendo às grandes audiências um achado arqueológico das relações homossexuais entre mulheres (pois está efetivamente documentada a relação entre a rainha Anne e as primas Sarah e Abigail), interliga-o com uma sarcástica exploração dos modos como as mulheres logravam historicamente atingir o poder na esfera política e privada (tão bem interligadas na narrativa). Consegue assim humanizar um drama histórico através de três personagens femininas complexas, interessantes e tornadas vivas pela representação perfecionista. Há no filme algum excesso das fórmulas de Lanthimos - o simbolismo rebuscado que precisa às vezes de socorrer-se dos cânones interpretativos com que separa os episódios da trama, um exagerado desconforto como meio nem sempre eficaz de provocar uma reação do público. Ainda assim, e porque a fórmula de Lanthimos, mesmo mais previsível com o tempo, tem atingido bons resultados, não é ainda cansativa e muito sumo se pode retirar deste filme.

 

Roma (Alfonso Cuarón)

Como aviso prévio inevitável, há que admitir que o filme é, socorrendo-me da simplicidade, muito bonito e incrivelmente bem filmado. Para lá desse formalismo exaustivo, pouco resta. As personagens são sofrivelmente incaracterísticas, querendo Cuarón forçar de tal modo uma crítica social (ademais dispersa, dividindo-se entre raça, género e classe social sem que o faça de forma coerente ou inteligente) que as transformou em puros símbolos desprovidos de existência real. É difícil assim ligar-me a esta história, e muito menos aceitar as suas conclusões. O exagero da malícia no comportamento dos homens - como quando Fermín rejeita imediata e violentamente a conversa com Cleo sobre o seu filho por nascer, ou quando um dos homens na festa de ano novo imediatamente insulta Sofia quando ela recusa a sua sedução - não faz de Roma um filme mais feminista, sabotando na verdade esse propósito. A vontade de doutrinar o espectador em Roma deixa-nos com uma sensação de claustrofobia ideológica e sem um real entendimento sobre aquilo que Cuarón quer transmitir. É sem dúvida um filme que vale a pena ver, esteticamente irrepreensível, mas que se banaliza a si mesmo, não merecendo o Óscar.

 

Francisco Fernandes (convidado, ex-aluno de licenciatura)

The Favourite (Yorgos Lanthimos)

Marshall McLuhan argumentou, já no século XX, que a política seria eventualmente substituída pela imagem — porque a imagem de um político é muito mais poderosa do que ele poderia eventualmente ser. Foi neste mundo de imagens que surgiram as figuras distantes da realeza, e é nele que nos é permitido entendê-las. Ana é Rainha da Grã-Bretanha, mas a sua fragilidade — essa que a imagem exclui — abre espaço a intrigas e jogos de poder pela influência na Corte e pelo futuro da governação. A The Favourite subjaz uma trama de poder interessantíssima, mas fundamentalmente comum. Yorgos Lanthimos encontra o seu filme no capítulo da imagem: na forma como desconstrói esse retrato de uma realeza cuja força e natureza nasceram da representação, uma realeza que não se vê como a veem, e que como é vista nunca existiu. A interpretação notável de Olivia Colman e a belíssima cinematografia permitem a The Favourite pintar um longo retrato de uma outra sociedade que podemos imaginar, de figuras frágeis e tortuosas, de tudo o que é possível à imagem construir.

 

Vice (Adam McKay)

Vice começa por confessar que fez o seu melhor em contar a história de Dick Cheney, um insider político que cresceu em Washington D.C., pela descoberta de um mundo sinuoso que vai até ao gabinete mais importante do Ocidente. Adam McKay volta a contar, depois de The Big Short (2015), uma história sobre a dimensão desse fenómeno transformador que é o poder.

Vice não é um estudo sobre o poder, sobre a forma como ele se movimenta ou sobre as decisões que dele saem: é a definitiva consequência deste. Repetindo a fórmula de The Big Short, McKay usa a criatividade visual para criar um estilo documental falso, com liberdade de interpretação que serve, principalmente, para questionar o mundo deste poder, o mundo em que crescemos. O mundo do petróleo e da doutrina Bush; o mundo de Colin Powell, do combatente inimigo, de Nixon e de Trump; o mundo em que se invade o Iraque e se bombardeia o Camboja, o mundo em que «ainda ontem se derrubavam muralhas e hoje se desmoronam cidades», o mundo de Dick Cheney. Porque Cheney é uma das figuras que mudaram tanto o mundo que o mundo não pode mais ser pensado sem elas — e Vice, ao tentar contar a sua história e, sobretudo, ao tentar entendê-la, torna-se algo importantíssimo: torna-se um filme de que necessitamos.

 

Jefferson Fernandes (redação)

Roma (Alfonso Cuarón)

Roma leva-nos à Cidade do México, anos 70 e, surpreendentemente, vejo-me hoje na mesma cidade. Roma – aqui o seu nome será muito mencionado – é um filme que foge a tudo aquilo que conhecemos. Não aqui incidindo sobre as técnicas de produção e execução (as quais a fotografia e o jogo de paralelos entre as cenas), Roma leva-nos ao melhor do cinema. Não é um filme que nos mantém ligados à história como “Os Vingadores”, ou “Her”, ou qualquer outro. Roma merece pausas para que assimilemos tudo o que vimos e, melhor, sentimos. Roma leva-nos a sentir as cores que pautam a dor sem sequer ter cores, Roma leva-nos ao inconsciente, onde, por sorte, detemos alguma arte – nem que seja a de apreciar a arte dos outros. Roma ama-nos e nós, por mais que custe, amamos Roma.
Não merece um Óscar, isso é para os que se veem num dia somente. Roma não.

 

David Ramos (convidado, aluno de 2º ano de licenciatura)

Vice (Adam McKay)

Nesta biografia comovente de Adam McKay, Dick Cheney é revelado no seu lado mais humano: ao cumprir a promessa que fez à sua futura esposa de ser alguém na vida e de não ser abusivo como fora o seu pai; ao sacrificar a presidência republicana por amor à filha lésbica; e ao auxiliar, como Vice-Presidente, George W. Bush a guiar os Estados Unidos nos anos conturbados que se seguiram à queda das Torres Gémeas.

Este filme ensina-nos como até uma carreira burocrática pode ser uma enorme honra, a não desistir perante os obstáculos que a vida nos coloca (Cheney sofre de problemas cardíacos) e o verdadeiro valor da amizade (a de Cheney e o seu mentor Donald Rumsfeld). Aplaudido pela crítica, nomeado para inúmeros Óscares, recomendo este filme delicioso e atual.

Elenco: Dick Cheney (Christopher Bale), Lynne Cheney (Amy Adams), Donald Rumsfeld (Steve Carell), George W. Bush (Sam Rockwell). Realização e Guião: Adam McKay.

 

Green Book (Peter Farrelly)

Don Shriley, um pianista que prefere Chopin a Little Richard, contrata o preconceituoso e algo rude Tony Vallelonga como guarda-costas para uma digressão ao Sul de Jim Crow.

Hollywood elogia o filme como “relevante”, numa “época em que antigos preconceitos ressurgem”... Ora, a multidão de bons cidadãos, a que vê filmes porque estes são sobre problemas atuais ou porque os “sensibiliza” para alguma “realidade”, não deve ser incomodada. Se a Academia americana aplaude boas intenções, pouco nos deve interessar. O problema surge quando começam a acusar quem cobre o tédio com a palma da mão de ser insensível, de ser inimigo das suas causas, de ser “conservador”.

Porém, o tipo de “conservadores” e “progressistas” desejosos de prostituir a Arte às suas causas são fundamentalmente iguais: um quer livros “patrióticos” e histórias que ensinem o valor da tradição, o outro cinema “feminista” e histórias sobre a necessidade de mudança, etc. Tomemos o exemplo de Green Book e comecemos por ridicularizar quem rotula Chopin como música de branco ou Little Richard como música de preto.

 

Catarina Miranda (redação)

The Favourite (Yorgos Lanthimos)

The Favourite é um dos filmes com mais nomeações para os Óscares este ano e, apesar de concordar que o desempenho das atrizes nomeadas (Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz) merece sem qualquer dúvida tais nomeações, o roteiro e o filme deixam bastante a desejar na minha opinião.

O roteiro acaba por ser uma mistura entre biografia, drama e comédia que, na minha opinião, não deixa espaço para as personagens respirarem e se desenvolverem ao máximo do seu potencial, pelo que sinto que algumas oportunidades foram perdidas. No geral, este é um filme que deixa quem está a ver um pouco sem ar e confuso devido aos constantes saltos no tempo e às rápidas interações entre personagens, que acabam por fazer com que se perca a maioria da ação secundária (as discussões do parlamento e a guerra que Inglaterra se encontra a travar). É claro que este não é um filme que tem como finalidade focar tal ação secundária, no entanto, ao não o fazer, quase deixa por desenvolver um dos principais traços de personalidade e motivações de Lady Sarah, o amor ao seu país e a sua perícia política (algo que o filme realça apenas em algumas cenas em que acaba por ficar excessivamente encoberto pelo drama das três personagens centrais). Se este é realmente um filme que tem como foco principal três das mais poderosas mulheres na corte da altura, porque não retratar os seus méritos e motivações individuais, preferindo deixar que Lady Sarah e Abigail se tornem personagens semelhantes, guiadas pelo mesmo drama mesquinho?

Apesar de tudo isto, este filme tem também alguns aspetos positivos. Como já referi, o desempenho da três atrizes é notável e salva o filme de ser um desastre completo, a representação da rainha está até bastante bem feita e os figurinos e locais de gravação conferem a esta produção a credibilidade de que qualquer biografia histórica carece.

Assim, apesar de não considerar que o filme mereça muitas das suas nomeações, especialmente as de “Melhor Filme” e “Melhor Roteiro Original”, penso que é uma excelente escolha noutras, nomeadamente as de “Melhor Atriz”, “Melhor Atriz Coadjuvante” (aqui diria que Rachel Weisz é quem mais a merece) e “Melhor Figurino”.

 

Tomás Burns (redação)

BlacKkKlansman (Spike Lee)

O racismo, enquanto um dos temas polémicos e “sempre-em-voga” da nossa atualidade, já foi bem retratado e mal retratado. Já foi muito bem dissecado e horrivelmente analisado. Como exemplo da primeira, 2017 ofereceu-nos “Get Out” de Jordan Peele, que expõe de forma brilhante o racismo de hoje, sintetizando e unindo o casual racism do atualmente com o racismo de outrora, violento e orgulhosamente confederado, culminando num thriller emocionante que não tem medo de cruzar as fronteiras de filme de terror e de filme de comédia. Ora, Jordan Peele produziu “BlacKkKlansman”, portanto seria de esperar que este filme igualasse, ou melhorasse, o que “Get Out” acabou por ser. Infelizmente não é o caso. Regressando à minha dicotomia inicial, “BlacKkKlansman” enquadra-se no meio. Não é brilhante nem inovador, e não é horrível nem entediante. A premissa é incrivelmente interessante e, se o filme tivesse um objetivo puramente histórico, seria bem conseguido. Aliás, acho que existe pouco mais interessante que a história de um homem afro-americano capaz de se infiltrar no Ku Klux Klan. No entanto, o filme é mais ambicioso e peca por isso, até porque, mesmo após uma exposição a fundo dos males raciais da América, acaba por culminar num desfecho otimista e feliz que em quase tudo contraria a realidade racial que, como todos sabemos, pouco melhorou. A análise do tema, em grande parte por ser um filme histórico, acaba por ser pouco inovadora e nada surpreendente. Por outro lado, as personagens estavam muito bem conseguidas e os papéis foram muito bem representados, sendo que a cinematografia estava igualmente interessante. Mesmo assim, estes fatores não conseguem salvar um filme tão apegado à sua mensagem. Não é um mau filme, é simplesmente um filme que já vimos muitas vezes, que traz pouco de novo para a discussão e para o cinema. 6/10

 

Black Panther (Ryan Coogler)

“Black Panther” é um filme de super-heróis e, por isso, é constantemente rebaixado e criticado, especialmente após a sua nomeação para os óscares. No entanto, esta flagelação intelectual dirigida a “Black Panther” apenas me parece ser um elitismo pouco fundamentado e puramente reacionário, semelhante às pedras lançadas a Conan Osiris no mundo da música ou às declarações de “Isto não é arte!” (desculpa, David) atiradas a Andy Warhol no mundo da arte. “Black Panther é kitsch”. “Black Panther é um filme para crianças”. “Por favor, Black Panther é um filme da Marvel!”. Bem, para mim, “Black Panther” é um filme fantástico, um filme que ultrapassa as barreiras auto-impostas de filme de ação e enfrenta grandes questões de uma forma divertida e emocionante, nomeadamente a dialética entre progressismo e tradicionalismo (uma questão que já explorei aqui no nosso jur.nal em resposta a um revolucionário da estirpe vermelha), mas também o colonialismo, o racismo e o nacionalismo (enfim, uma carrada de “-ismos”). Para além disso, tudo o resto está bem feito, desde a cinematografia (que em pouco se distancia do que é normal em filmes da Marvel, mas não deixa de ser bem feita) até à música (que combina o hip-hop de artistas como Kendrick Lamar e Travis Scott com uma composição fiel às raízes africanas, feita por Ludwig Goransson e Baaba Maal). A representação, os sets e até mesmo a roupa foram concretizadas de forma cuidada e adequada, de forma a fornecer uma aesthetic tão moderna quanto é tradicional, tão futurista quanto é artesanal. “Black Panther” alterou a forma como o mundo via os filmes de super-heróis e esmerou-se ao provar que este tipo de filmes tem muito mais potencial (e aqui falo de um potencial intelectual e criativo, não o já alcançado monetário) do que os peritos de sofá dizem que tem. 8/10

A Star is Born (Bradley Cooper)

O A Star is Born, a estreia de Bradley Cooper como realizador, e um clichê. É um filme quase
feito de plástico, um exemplo de kitsch de Hollywood que já vimos várias vezes e sempre nos
desiludiu. No entanto, surpreendentemente, A Star is Born é muito melhor que parece e, na minha
opinião, excede todas as expectativas, tanto as minhas como as da “indústria”. É um filme muito
focado nas personagens, e tudo o que aqui se desenvolve surge a partir de Jackson Maine, um
cantautor de country rock estereótipo, não muito distante de um qualquer alcoólico deprimido que
saiba cantar e que use um Stetson orgulhosamente na cabeça, e de Ally Campana, uma jovem cantora ambiciosa e forte, habituada a fazer com que os outros a oiçam, e do romance acidental que os dois vão construindo ao longo do filme e ao longo da escalada para o sucesso de Ally e da queda para a infâmia de Jackson. Os dois apresentam-se como opostos e como iguais, e criam uma relação abalada pelos problemas da fama mas vitoriosa perante estes. É uma história quase que clássica no cinema americano, mas sobressai pelas performances de Bradley Cooper e, especialmente, de Lady Gaga, ideal para o papel que representou, pela forma humilde e genuína que Cooper retrata a história e também pelos jogos de cores e pela cinematografia em geral. Em termos de música, o filme não
desilude e fornece melodias sólidas que, embora pouco interessantes, servem como coluna para ação, e adequam-se perfeitamente ao contexto da história e ao romance entre Jackson e Ally. É um filme trágico, mas também comico. E o exemplo de um clichê bem executado. Em suma, é um filme que supera todas as expectativas que se poderiam ter relativas a ele. 8/10

 

João Duarte (redação)

Disclaimer: serei, talvez, o proprietário das críticas mais vazias de conteúdo que irão ler hoje aqui. Depois não digam que não vos avisei.

 

Bohemian Rapsody (Bryan Singer)

Sou dos que tem menos legitimidade para escrever sobre cinema. Estão a ver aqueles clássicos que toda a gente viu e de que todos se servem, mais tarde ou mais cedo, aqui ou ali, em conversas de café? Passei ao lado de muitos, da maioria. Mas tive de ver este porque, como muitos de nós, tenho um fascínio pela música, pelos Queen e por Freddie Mercury. De produção não percebo nada, mas posso afiançar que é um filme agradável (e isto é a coisa mais próxima de uma crítica que vão poder ler nestes comentários), um bom motivo para se fazer pausas no estudo durante a época de exames. Ora, ele há de ser bom, caso contrário não o teria mencionado em aula o professor Jorge Bacelar Gouveia – e logo na segunda aula, que ainda pertence àquelas em que se procura motivar os alunos para aquilo que vão ouvir durante o resto do semestre. Enfim, a recriação do Live Aid põe-me invejoso de ter nascido só em 1999, e Rami Malek consegue arrebatar clientes para Freddie Mercury, mesmo os mais homofóbicos.

 

A Star is Born (Bradley Cooper)

Já tive a oportunidade de dizer a alguns dos que – espero – irão ler isto, que este filme me serviu para perceber de uma vez por todas que nem sempre um cabelo loiro favorece uma mulher (no caso de Lady Gaga: loiro, amarelo, azul, vermelho, roxo, …). Nesse sentido, ao ver esta película, veio-me à memória a frase daquele célebre filósofo português, Salvador Sobral: music is not fireworks. Pois bem, Lady Gaga não é apenas fogo de artifício, nem maquilhagem, nem cabelos esquisitos. Gaga também sabe ser surpreendentemente normal e, pasme-se leitor, surpreendentemente gira. Arrebatou-me a mim tanto quanto ao Bradley. Quanto ao filme, vi-o a uma hora já adiantada. Talvez por isso as minhas pálpebras tenham cedido à pesada força do sono em vários momentos da obra. No essencial, estava acordado – o que me permite defender que, apesar de filme cliché, apesar de uma história de amor, é uma electrizante história de amor, irresistível por isso, mas que nos serve num prato gelado o bolo cru que é a vida de uma estrela de música e os labirintos de quem quer entrar nela. E com esta última frase sinto que não devo voltar a escrever sobre filmes. Prometo que sou melhor noutras áreas. 

 

 

25
Jan19

O Melhor de 2018 - Cinema

Jur.nal

(Imagem: JUR.NAL)

Ontem música, hoje, a sétima arte!

 

𝐌𝐞𝐥𝐡𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐅𝐢𝐥𝐦𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟏𝟖 por 𝐉𝐮𝐥𝐢𝐚𝐧𝐚 𝐒𝐞𝐧𝐫𝐚

𝟏. 𝐂𝐨𝐥𝐝 𝐖𝐚𝐫 (𝐏𝐚𝐰𝐞𝐥 𝐏𝐚𝐰𝐥𝐢𝐤𝐨𝐰𝐬𝐤𝐢)
O presente de uma decisão e o seu prolongamento no tempo respondem a ponderações absolutamente diferentes. Quantas vezes não foi fútil, com o passar dos dias, meses e anos, a ação que tomámos, quando era, no momento, absolutamente necessária? O amor é viver dentro deste paradoxo, criado pela invasão do mais íntimo núcleo interior, tanto desejada como temida, o choque entre o simples idealismo do desejo e o complexo ser. Cold War retrata perfeitamente esses avanços e retrocessos, baseados numa certeza do amor que tende a consumir-se a si própria com a ignição da dúvida mundana. Tão real quanto platónico, este filme de estética perfeccionista e vozes sublimes chama o choro da beleza pura.

𝟐. 𝐒𝐡𝐨𝐩𝐥𝐢𝐟𝐭𝐞𝐫𝐬 (𝐊𝐨𝐫𝐞-𝐄𝐝𝐚)
O melhor de Shoplifters é que não é, absolutamente, um filme moralista. Mostra-nos uma visão alternativa da família e das convenções sociais sem que a apresente como imaculada crítica ao sistema vigente, expondo-a, no fundo, como real, incongruente e complexa, como não podia deixar de ser. Legal e moralmente, não ficamos confortáveis com as ações dos membros da família, mas a sua base é um nítido afeto inomeável que tanto nos confunde pela incapacidade de ser categorizado como nos conquista pela sua força e imperatividade. E as crianças são adoráveis... No fundo, é bom porque as crianças são adoráveis.

𝟑. 𝐇𝐚𝐩𝐩𝐲 𝐚𝐬 𝐋𝐚𝐳𝐚𝐫𝐮𝐬 (𝐀𝐥𝐢𝐜𝐞 𝐑𝐨𝐡𝐫𝐰𝐚𝐜𝐡𝐞𝐫)
𝘐𝘭 𝘨𝘳𝘢𝘯𝘥𝘦 𝘪𝘯𝘨𝘢𝘯𝘯𝘰. A expressão é deliciosa e traduz uma promessa de salvamento em que tenuemente acreditamos também – o desmascarar das opressões diárias, da mecanicidade e frustração aquietadas da nossa vida moderna, alienada, orientada pelo dinheiro. Não é uma revolução, só um gracejo trocista face às nossas certezas diárias, sem que seja um apelo à pobreza ou à “simplicidade” tão perigosamente idealizadas. Apenas mostra que o contrário da simplicidade pode ser, ele próprio, um grande engano. Deixo-vos, como o filme, com poucas conclusões e muitas dúvidas, e este grande sentimento de viver uma farsa e de, não conhecendo alternativa, aceitá-la.

𝐌𝐞𝐧𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐇𝐨𝐧𝐫𝐨𝐬𝐚
Um carinho especial ainda para a serie televisiva portuguesa “3 Mulheres” (Fernando Vendrell), que, com um elenco jovem e vigoroso, retrata a resistência cultural e política clandestina no Portugal de Salazar, cumprindo desde logo a meritosa missão de nos reavivar a memória e de nos mostrar o direito, os julgamentos e as detenções que mantinham o regime sobre a aparência da legalidade e da ordem, e as deliciosas fugas a todos estes mecanismos estatais. Ao concretizar como pessoas reais com uma história, por vezes trágica, de intervenção e amor à cultura personalidades como Natália Correia, Sttau Monteiro, Mário Cesariny, e ao ensinar-nos sobre aquelas que tínhamos coletivamente esquecido, como o inesperado Fernando Ribeiro de Mello, é, para além de pedagógica, um grande gosto.

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