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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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21
Mar20

Melhores Álbuns Portugueses da Década - Opinião de João Duarte

Jur.nal

Se a arte e o engenho eram já escassos, a tarefa é também ela árdua: se, por um lado, a década ainda não se cumpriu na íntegra (eu sou daqueles perfecionistazinhos que dizem que é preciso ter calma, que a década de 20 só se inicia em 2021 – tal como o século XXI só começou em 2001), por outro, o gosto é, como se sabe, intrinsecamente subjetivo (não se discute, sequer, a qualidade – essa é, por todas as vias, indiscutível: se tempos houve em que a música nacional, cantada em português, andava adormecida, a década de 10 do século XXI veio mostrar que onde há juventude também há talento e capacidade de manobrar a língua portuguesa e de reinventar os acordes e as batidas de sempre – tantos outros, que ficaram de fora, poderiam entrar para esta contagem). Propor uma lista dos melhores álbuns nacionais desta década é, então, inevitavelmente inglório. O meu gosto é forjado pelo que me habituo a ouvir, daí que este top-15 seja, em rigor, um top dos álbuns que mais tenho ouvido. 

 

P.S. Não pode haver outra ordem que não a alfabética para dispor todos estes álbuns: depois de uma seleção de somente 15 de entre um oceano de álbuns, todos estes mereceriam o primeiro lugar... 

1. Capitão Fausto – A Invenção do Dia Claro (2019) 

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Incluir nesta lista Capitão Fausto e não despejar aqui todos os quatro álbuns da banda pode parecer contraditório. Todos teriam qualidade para aqui figurar. Mas este é especial – este significou o dobrar da juventude, com tudo o que de bom isso traz: um som apurado e uma história inspiradora, para o bem ou para o mal (ou nos dá para correr atrás do nosso amor de sempre, ou para chorar por não podermos viver o mesmo Final deste álbum – estas duas situações podem ser cumulativas). Cinco jovens adultos que não são mais diamantes em bruto. 

2.Capitão Fausto – Pesar o Sol (2014)

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Aqui ainda tínhamos pedras preciosas por lapidar. E ainda bem. No auge da juventude e da ingenuidade, cinco jovens que faziam música exuberante, não tão imediata quanto a de Gazela, mas aliando instrumentais viajantes a letras que interrogam o mundo (próprio, aliás, de jovens que se prezem), o resultado foi algo que em muito superou os experimentos do primeiro disco – e, a meu ver, todos os restantes. Ouvir este disco é tocar no peito e sentir o coração a querer saltitar cá para fora, sentir na boca o sabor a sangue como quem termina de dar infinitas voltas à pista na aula de Educação Física. A referência não é displicente – estávamos no já longínquo ano de 2014, andava eu no 9.º ano... 

Pesar o Sol é mesmo a melhor metáfora para aquilo que deve representar a vida de um jovem. 

3. Ciclo Preparatório – As Viúvas Não Temem a Morte (2013)

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Este é o grupo coral pop especial rural-chique delicodoce (assim se descreveram estes jovens ao jornal Publico no já longínquo ano de 2013) que descobri somente há cerca de um ano. Foi, porém, o suficiente para me apaixonar. Há aqui algo de Heróis do Mar, seja nas letras, nas roupas ou no próprio nome da banda. Um quê de portugalidade latente, forte e indiscutível. Agrada-me bastante. Combinam ritmos frenéticos com canções contemplativas e até nostálgicas. Algo que não perderam no mais recente álbum, o segundo, que tardou (2018) – mas a espera compensou. 

Exulto ao som de Lena del Rey, mergulho sobre mim mesmo ao escutar a Casa da Lamarosa. Se esta antítese de sensações é possível de conter num só álbum, temos de contar com os Ciclo Preparatório. 

Tive a fantástica oportunidade de entrevistar, aqui para o JUR.NAL (leiam!), o baterista e o vocalista desta incrível banda. 

4. Diabo na Cruz – Lebre (2018)

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Estes são os homens corretos para falar de portugalidade.

Que dizer de Diabo na Cruz. Novamente, podia ter incluído todos os álbuns da banda. Tomai, todos, e bebei: este é o rock tradicional português dos Diabo. Quis o destino que Lebre fosse o último trabalho da banda. E acabou em grande: guitarras e letras marcantes. Ao leme o inquieto Jorge Cruz, que logo em Forte se descreve de forma tão certeira: “Não troco desespero por agravo, nem perigo por um bom lugar marcado”. 

Procissão (a fazer lembrar, com aquele poderoso riff inicial, a Roadhouse Blues dos The Doors) e Malhão 3.0 (a transportar-nos para as quentes noites de verão mesmo se estivermos a viver o mais profundo dos invernos) são canções vibrantes. Pelo meio, Terra Ardida acorda-nos cruamente para o fenómeno dos incêndios que vastas vezes tem dizimado a nossa pátria. No geral, é um belo retrato (ou resumo, se quisermos) do que é ser português. É mesmo por aí que finda o álbum: Portugal. Inicia-se com ritmos mais tradicionais e é paulatinamente substituído pela dominância da guitarra: “Vagueei por Portugal, com assombro ancestral. Quando chegue a minha hora, seja terra em Portugal.”

Diabo na Cruz não se pode explicar. Tem de ouvir-se. 

5. Filipe Sambado – Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo (2018)

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Se em Diabo na Cruz encontramos o cru rock balançado com os ritmos tradicionais portugueses, Filipe Sambado é, por entre as minhas viagens acompanhado do Spotify, a lufada de ar fresco a que recorro amiúde. Os ritmos mais frenéticos da guitarra, por vezes, também cansam. Filipe Sambado oferece-nos sonoridades arrojadas e letras por vezes atrevidas. O resultado final é um caldo bastante aprazível.

Deixem Lá foi sem dúvida uma das canções que mais ouvi em 2019. 

2020 trouxe-nos novidades quanto a Filipe Sambado (Revezo). Mantenho-me, ainda assim, firme nas minhas preferências: Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo é um belo álbum, porque constante. Mexido e agradável do início ao fim.  

6. Ganso – Costela Ofendida (2016)

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Esta será uma das escolhas menos óbvias. Trata-se de um EP de uma das bandas “satélite” dos Capitão Fausto. A banda tem já dois álbuns, mas não há volta a dar: esta é a minha produção de eleição. Psicadelismo, algum non-sense, letras despreocupadas mas com sentido bastante para serem uma letra de uma música. Nos Ganso – pelo menos neste Ganso - há loucura e razão em doses certas. 

Os tempos mais recentes são de Não Tarda (2019), algo menos apetecível - há que dizer. Habituei-me aos tempos iniciais de Ganso, mas as bandas transformam-se – é uma inevitabilidade. 

Sinto saudades daqueles tempos em que se comemorava Idalina, e investia-se na Idalina ingenuamente, sem pensar no que viria depois. 

7. Lena D’Água – Desalmadamente (2019)

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Lena D’Água tinha de estar presente. Foram três décadas sem editar. Desde os anos 80, em que era a namoradinha de Portugal. Nem já os meus pais têm idade para se lembrarem dos tempos em que a Lena “explodiu” na ribalta, mas eu gosto de Lena D’Água. Talvez porque nos últimos anos tem colaborado com vários artistas nacionais emergentes (dos quais os Ciclo Preparatório são exemplo), o que me deu a oportunidade de me cruzar com ela, e explorá-la. 

E o privilégio que foi poder passar dos intemporais Demagogia, Vigaro Cá, Vigaro Lá ou Sempre Que o Amor me Quiser para canções das quais sou contemporâneo: Opá, Grande Festa ou Hipocampo surgiram carinhosamente no meu dia-a-dia, ao bom estilo da Lena. Recebi-as com gosto e a elas regresso de quando em vez. 

8. Linda Martini – Linda Martini (2018)

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Linda Martini é para aqueles fins de tarde em que o céu se reveste de tons alaranjados. A alma aquece e só apetece ouvir esta banda fantástica. Em específico, este álbum efusivo e ao mesmo tempo reflexivo. Para que a alma aqueça ainda mais.

Foi este álbum que marcou o início da minha aventura em torno dos Linda Martini. Foi um amor à primeira vista. É uma aventura que está para durar. 

9. Luís Severo – Luís Severo (2017)

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Este rapaz com um ar tímido revela todo o talento que vive dentro de si quando pega na guitarra ou se senta ao piano. Das suas mãos e da sua voz saem canções fantásticas, e este álbum é um perfeito exemplo disso - todo ele muito bem conseguido. 

Hoje, ao cabo de três álbuns, pode dizer-se que Luís Severo construiu uma sonoridade que é marca sua. E eu aprecio-a bastante. 

Há momentos em que sinto que o que há a fazer é somente encostar-me nas costas da cadeira do comboio e escutar Luís Severo. De entre essas vezes, o que a minha cabeça maioritariamente me pede é o álbum que aqui menciono. 

Amor e Verdade é uma obra de arte. Nela se encontra a quadra que descreve o estranho momento que, enquanto aprendiz de adulto, vivo:

“Deixaste a mocidade à espera
Fumo a desaparecer
E só voltou a primavera
P'ra trabalhar até morrer”

10. Os Pontos Negros – Soba Lobi (2013)

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O triunfo da juventude, nu e crua. Estes mantiveram-se, até ao seu fim (este foi o último álbum da banda), iguais a si próprios. Talvez tenha apreciado em maior dose o Magnífico Material Inútil (2008), cuja canção homónima é, de facto, a minha favorita dos Pontos Negros. 

Mas não se percam: este Soba Lobi é de qualidade superior. Corrido, agressivo e assertivo. 

“Se tudo neste mundo é imprestável

Se não sou sal nem sou luz

Não há insipidez que esconda a nudez

De não carregar uma cruz”

Senna

E pensar que em 2012 o Festival NOVA Música (que anualmente se realizava no nosso campus) contou com Pontos Negros, Ciclo Preparatório e Capitão Fausto...

11. Salvador Sobral – Paris, Lisboa (2019)

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Não nego: conheci Salvador Sobral somente depois do Festival RTP da Canção de 2017. Mas o que ouvi deveras me agradou. E este Paris, Lisboa foi a confirmação dessa minha opinião. 

Não há muito mais que se possa dizer a propósito de Salvador Sobral. O que faz com a sua voz é, a todos os níveis, incrível. 

Ouço-o para me sentir bem, ainda que não com a regularidade que talvez merecesse este génio. 

12. Tara Perdida – Dono do Mundo (2013)

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Este é o último álbum de Tara Perdida com João Ribas, o bastião da cultura e mentalidade punk no nosso país. Também ele, ao seu jeito, um génio, que se foi demasiado cedo. 

Deste álbum fazem parte os hinos O Que é Que Eu Faço Aqui e o eterno Lisboa (com o Tim). 

Tara Perdida é, quer queiramos quer não, uma das bandas marcantes (talvez de culto) nacionais. E com eles não há surpresas: vão diretos ao assunto. Entregam à sua legião momentos para descarregar a adrenalina. 

“Hei de um dia ser alguém
Não a qualquer preço
Estás cá tu para lembrar
Tudo o que me esqueço”

O Que é Que Eu Faço Aqui

13. Tiago Bettencourt – Do Princípio (2014)

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Sou por tendência, uma pessoa calma, reflexiva e algo apática. Nessa medida, Tiago Bettencourt leva-me a constantes reflexões melancólicas sobre a vida e as aventuras que esta me oferece. Maria, Aquilo Que eu Não Fiz e Sara são, para mim, bom exemplo disso. A qualidade não deve sequer ser discutida. Merece, sem dúvida, este top. 

14. Xutos & Pontapés – O Cerco Continua (2012)

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Quem me conhece não estranhará esta “nomeação”. Pois é, talvez sejam os Xutos a minha banda de eleição. O Cerco Continua é um álbum carregado de significado. É uma reedição (com nova produção) do Cerco (1985). A verdade é que, 27 anos depois, as letras do Tim continuavam, e continuaram, atuais. Só o tipo de cerco era distinto: em 1985, o cerco era da banda, por não conseguirem encontrar uma editora que quisesse produzir as suas canções; em 2012, era a Troika e a crise quem cercava o país.

“Eu vou para longe, para muito longe
Fazer-me ao mar. Num dia negro
Vou embarcar. Num barco grego
Falta-me o ar, falta-me emprego
Para cá ficar.”

Barcos Gregos

A estas canções juntaram-se mais duas originais e uma terceira, Vossa Excelência, da banda brasileira Titãs, na voz do Tim e ainda na guitarra do Zé Pedro. Uma canção com uma letra agressiva, diretamente dirigida à classe política e aos titulares dos órgãos soberanos do Estado. 

Por entre todas estas letras de intervenção (uma marca indelével dos Xutos & Pontapés e um estilo que eu tanto aprecio), haveria ainda espaço para relembrar hinos como o Homem do Leme ou Conta-me Histórias

15. Zarco – Zarcotráfico (2017)

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À semelhança dos Ganso, Zarco, com um EP. Como em Filipe Sambado, há ritmos arrojados, acelerados, e letras que não me deixam indiferente. Em suma, tudo o que, por norma, me cativa numa banda. 

A referência à Tava Num Bar (de um disco posterior a este que menciono) na canção Sempre Bem dos Capitão Fausto foi o mote para conhecer esta maravilhosa banda. Não me arrependi. Recomendo-a a todos, caso ainda não a tenham ouvido. 

 

João Duarte

(Aluno do 3º ano da Licenciatura)

18
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte II)

Jur.nal

Ana: Bem, nós agora queremos falar um bocado sobre o vosso processo de composição musical. Nós sabemos que algumas das músicas partem de ti [para o Sebastião].

 

João: A maioria, talvez. Pelo menos as letras.

 

Ana: Exatamente, e isso é muito incomum nas bandas, porque normalmente não é o baterista a escrever as músicas, e nós queremos saber como isso funciona e como tu começas o teu processo criativo, como é que lhes passas as músicas?

 

JG: Acho que funciona muito bem… (risos)

 

SM: Como é que é o processo criativamente… Então, há contribuição [da banda] toda, mas como normalmente a imagem parte de mim, acaba por ser um bocado conduzido por mim, não havendo assim tanta liberdade, mas tento dar a sensação que existe (risos) quando a apresento, mas basicamente o que acontece é que nós, de repente, decidimos que vamos fazer mais um disco.

 

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JG: Isto foi o caso do segundo.

 

SM: No segundo e até mesmo no primeiro temos muito pouco tempo para as coisas, porque nos ocupa [tempo], e há sempre uma tentativa de surgirem coisas em conjunto e isso, mas depois é muito disperso, e não se chega a nenhum resultado. E acho que deve ser comum a todas as bandas, alguém ter de liderar [o processo]

 

JG: É difícil compor em grupo.

 

SM: Mas pronto, nessas divagações, até surgem algumas ideias lá no meio que não sei quem é que diz ou quem é que faz, mas há sempre qualquer coisa. Se calhar imponho-me um bocado, às vezes, mas só para definir.

 

João: Mas um bocadinho em cada instrumento, ou… ?

 

SM: Sim, tenho uma ideia para uma coisa e digo “faz aí isso” ou então alguém tem uma ideia e depois adapta-se e então surge um ritmo por cima daquela ideia, e depois aquela ideia vai fora e fica o ritmo, pronto, surgem elementos, e ficam lá. E depois, as ideias da música surgem por necessidade, ou outras não faço a pensar naquilo, na maior parte, simplesmente estou sempre a ter ideias e vou gravando as ideias, não sei bem para o que é que são na altura, e depois, quando é preciso, começo a tentar concretizá-las, ou seja dar-lhes algum tipo de sentido ou estrutura ou o que seja. E há uma ou duas músicas que fiz exatamente para isto, que foram feitas exatamente a pensar com aquele estímulo de “vamos fazer uma coisa nova” porque depois por acaso lembro-me sozinho e faço uma coisa a pensar nisto. Um exemplo é aquela da “Caravela”, que foi quando surgiu a possibilidade de sequer considerar um segundo álbum e começar a pensar o que seria. Foi uma coisa que foi feita a pensar naquilo.

 

JG: Aí já tinhas a guitarra?

 

SM: Não, depois acrescentou-se.

 

JG: Estás então a falar da letra?

 

SM: Estou a dizer a canção. Mas é isso, o processo criativo é sempre um bocado fragmentado, é sempre partes, na maior parte das músicas, até aquelas que parecem ser mais contínuas, tipo fluídas, os elementos vêm de várias ideias e de vários fragmentos. E depois é a questão de, eu não estar a fazer isto para mim, estou a fazer isto para ele [para o João Graça cantar], é difícil perceber que não posso fechar muito. Se eu quisesse fazer para mim, eu sei exatamente a dimensão que eu gostaria, ou a possibilidade de haver possibilidades. Aqui, eu tenho de experimentar, tenho que perceber porque são coisas, ao início, que eu imagino que resultam mas depois não resultam e tenho que mudar, não posso estar a trancar aquilo porque se não fico lixado (risos). Então é manter as coisas um bocado em possibilidade de mudança, e eu depois vou mostrando e experimentando, sendo que algumas coisas têm de ser firmes, porque eles podem não estar a ver por não estar lá na totalidade mas eu sei que pode resultar e então insisto em algumas coisas de outra forma para chegar a esse lado. Outras coisas realmente não resultam, e eu sinto logo que não resultam e por isso têm de se mudar. É um bocado triste (risos)... não sei se respondo à tua pergunta. Cada coisa, e cada música tem um processo muito diferente. Podes perguntar “esta aqui, como fizeste?”, mas passa por juntar ideias que vão sempre surgindo. Algumas surgem só voz, outras surgem só ritmo, outras surgem só melodia de instrumental, outras surgem em todos os elementos. Já tive ideias só de instrumental que depois adiciono a voz, já tive ideias só de ritmo que depois acrescentei instrumental, tipo já surgiram ideias específicas ou definidas de toda a gama de instrumentos ou elementos.

 

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João: A Caravela cheguei a mandar ao grupo da Tuna pelo Whatsapp, para fazermos uma versão. Ninguém pegou na ideia, mas pronto (risos). É muito gira a música.

 

SM: Mas a guitarra foi do Francisco, o guitarrista. Ele tinha uma linha de guitarra e, numa pausa de ensaios, eu experimentei cantar por cima da linha e funcionou, e depois a voz da Benedita era a única que podia…

 

João: Mas nunca pensaste em cantar também?

 

SM: Na banda?

 

João: Sim. As letras que escreves.

 

SM: Neste caso em específico, não sei.

 

JG: Fazes uns acordes às vezes…

 

SM: Mas mais porque é preciso para dar força. Acho que já experimentei coisas com a minha voz e apercebi-me de que na realidade não funciona. Com esta sonoridade não resulta, na minha opinião. Ele [o João Graça] tem um alcance muito maior neste tipo de música, e a música que eu faço para ele cantar ele consegue chegar muito mais às coisas que é preciso para aquele andamento.

 

João: No primeiro álbum, também foi assim? Ou não foste tu a liderar tanto o processo criativo. Eu sei que houve a presença do Pedro de Tróia....

 

JG: Sim, o processo criativo foi bastante diferente.

 

SM: Foi, mas eu reuni-me com o Pedro, e ele tinha uma ideia para a banda, e depois as primeiras músicas nós começámos a experimentar. E depois o Pedro começou a pegar naquilo e a dar ideias para mudar o andamento do instrumental, para ficar um pouco mais como este segundo, e pronto, mudou-se algumas coisas. E depois, a partir de uma ou duas músicas que definimos, o resto do processo foi com o Pedro, eu a ir ter com o Pedro, e imagina, ele tinha um refrão e depois eu surgia com o resto da música, ou então eu surgia com a música e com algumas coisas para acabar e ele acrescentava o que faltava, ou um verso. Era basicamente isto.

 

João: E agora, falando do primeiro álbum, como é que surgiu a ideia da Lena D’Água?.

 

SM: Foi ideia do Pedro.

 

JG: A história é gira: nós tiramos uma fotografia para promover o primeiro single em que fizemos uma montagem e colocamos uma fotografia da Lena D’Água numa moldura, que é uma fotografia em que está a Lena dentro de uma banheira com umas moedas.

 

SM: Não sei se és tu que está a segurar no quadro… Já não me lembro.

 

JG: Pronto, e dentro dessa moldura está uma imagem da Lena D’Água. E não sei qual foi a abordagem dela, se foi comentar, ou se foi uma mensagem ou algo assim, mas ela disse assim “Porque é que está a usar a minha imagem sem autorização?”. E nós ficamos um bocado assustados, mas o Pedro, como um gajo criativo, teve uma boa ideia e pensou em tirar um partido positivo daquilo.

 

João: Mas ela estava mesmo chateada?

 

JG: Eu suponho que era capaz estar um bocadinho (risos).

 

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João: Mas então conseguiram dar a volta?

 

JG: Sim, basicamente o Pedro disse-lhe, a tentar tirar um partido positivo, que haviam coisas que eram verdade, como o Pedro ter sido sempre um grande admirador dela, desde miúdo, e pronto, usámos a imagem de uma forma saudosista (risos) e então acabou por correr tudo, e ela até nos convidou a ir a casa dela… Para nós, é uma história assim meio engraçada. Depois, quando estávamos a gravar o disco, o Pedro convidou-a a participar naquele single do disco, A Volta ao Mundo com a Lena D’Água, e foi giro porque eu estava a gravar e não sabia que ela ia participar, mas depois de repente começo a ouvir a voz dela… Foi uma surpresa engraçada.

 

João: A próxima pergunta é sobre a vossa mudança de estilo do primeiro para o segundo álbum, porque fui buscar uma citação da Comunidade Cultura e Arte em que se dizia a certa altura “os coros colegiais foram a certa altura substituídos por uma faceta de inquietação”. E eu comecei a lembrar-me de outras bandas com o mesmo período de existência que vocês, talvez um pouco mais, e a pensar que o percurso deles é precisamente o contrário. Eles começam mais inquietos com os riffs de guitarra mais pesados, e depois tendem a ficar mais pop, como por exemplo os Capitão Fausto…

 

JG: Pois, nós estamos a tirar as amarras, e eles estão a apertá-las… (risos). Não posso falar pelas outras bandas mas acho que este disco tem uma carga tão diferente porque as nossas vidas foram-se desenvolvendo, o Sebastião criou as músicas mas vamos beber dessa criação e também nos identificamos, porque a verdade é que as nossas amizades continuaram a crescer em conjunto, e há aqui uma resposta a isso, e se calhar é o que eles querem dizer com, como é que eles dizem?

 

João: “Os coros colegiais foram substituídos por uma faceta de inquietação”.

 

JG: Faceta de inquietação… Eu acho que tem a ver com mais tensão, não sei, se calhar mais obscuridade, mais procura de dimensões que ainda não sabemos que existem… Não sei.

 

SM: Só dizer uma coisa, acho que não há nada de obscuro naquele álbum (risos). Não sei qual é a ideia que passa de negativo…

 

João: O design do disco está mais para esse lado obscuro…

 

SM: Pois, se calhar é isso. O que ficou e o que acabou por ser obscuro é a ideia de ser real, ou seja, de ser cru. E realmente as cores iludem de uma forma, e tu não vês aquilo que é, porque estás distraído: como há demasiada informação, não vês a gênese da coisa. E era mais nesse sentido, não tanto a obscuridade.

 

João: Eu ia insistir mais um pouco nesta mudança que claramente se sente. A guitarra está mais presente e mais agressiva, mas, então, não quer dizer que foi propositado ou pensado?

 

SM: Não, isso foi tudo pensado.

 

JG: É, mas é uma libertação daquilo que não se fez ao início.

 

João: Era o que vocês queriam fazer?

 

JG: Não sei se queríamos exatamente isso ao início…

 

João: Agora?

 

JG: Ah, agora sim. Até porque há uma resposta também àquilo que nós percebemos depois de começarmos a dar concertos, porque quando gravámos o [primeiro] disco nunca tínhamos tocado ao vivo. Quado comecámos a tocar ao vivo, percebemos que as músicas tinham uns arranjos muito mais a abrir e divertiamo-nos muito mais assim. Portanto, a resposta foi essa: vamos gravar uma cena assim.

 

SM: Foi também um bocado por conhecimento das qualidades de cada um e de tirar partido das coisas boas e coisas más.

 

JG: O Francisco faz ali uma boa camada de coisas diferentes com a guitarra e queríamos tirar partido disso, daquelas coisas mais vibrantes…

 

João: Ou seja, foi menos desperdício de talento.

 

JG: Não, era uma escolha criativa e agora foi outra.

 

Maria nês: Na mesma linha da outra pergunta, quais são as diferenças que vocês sentem na música portuguesa desde que começaram até agora?

 

JG: Sinto que cresceu imenso. Nós já aparecemos numa segunda vaga, porque a primeira é tipo Amor Fúria e assim, Flor Caveira e tudo mais. E nós já aparecemos inspirados por eles, e entretanto a coisa continuou a crescer muito mais, muito especialmente por causa deles, da Flor Caveira e de Amor Fúria, foram pioneiros nesta nova onda portuguesa, e se não fossem eles provavelmente não estávamos assim aqui. Mas crescemos e acho que está num excelente caminho, está ótima, há imensa oferta. Nos anos 90 só se consumia música estrangeira, e eu acho que neste momento temos condições para ter muito mais música nacional, seja cantada em português ou inglês, tanto faz.

 

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João: Eu já quase só oiço música nacional.

 

SM: A sério?

 

Ana: Ah, mas isso é porque não percebes inglês (risos).

 

João: Tinhas que me envergonhar Ana…

 

Ana: Desculpa (risos).

 

SM: Ah mas estás a falar a sério [em relação a só ouvires música portuguesa]?

 

Ana: Ele está a falar a sério.

 

SM: Mas isso é bom pá, é excelente. Há sempre muito impedimento [em relação à música portuguesa]…

 

João: E preconceito.

 

SM: Impedimento e preconceito, porque acho que há coisas que não consegues controlar neste processo, se calhar ouves música portuguesa e se calhar as pessoas estranham… Eu não oiço muita música portuguesa, por acaso, mas acho que há aí um bom caminho. Mais por causa do público.

 

Ana: Eu queria colocar ainda uma questão, nesta linha, vocês acham que as plataformas de streaming facilitam muito a divulgação de música portuguesa?

 

JG: De forma que facilita ouvir música que se calhar não seria ouvida se não tivesse editora. É ótimo, porque é muito fácil pôr a música online.

 

Ana: E receber benefício por isso, por exemplo vocês podem por no Bandcamp uma música mas não estão a ganhar com isso.

 

JG: Sim, mas acho que há benefício….

 

Ana: Vocês são apologistas de partilhar a música para as pessoas se divertirem a ouvi-la e não tanto para o benefício próprio de fazer dinheiro com isso?

 

JG: Sim, mas quando há benefício é ótimo.

 

SM: Eu acho que a posição aqui é um bocado diferente disso, acho que o objetivo nunca é esse, nós estamos a criar um vácuo para as pessoas que vêm a seguir, porque estamos a escavar cada vez mais a possibilidade disto, mas pá, toda a gente quer dispor o seu produto e toda a gente continua a fazer. As possibilidades estão cada vez mais reduzidas para quem ainda não tem poder, porque quem tem seguidores e tem estrutura consegue tomar mais decisões dessas. Neste momento nós não temos assim tanta liberdade para tomar decisões contra nós, estás a perceber? Mas gosto disso, e uso e desfruto disso, por isso, não pensei o suficiente sobre esse tema (risos).

 

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Ana: Na boa, nós compreendemos.

 

SM: Mas é importante, e acho que conheço as opiniões de diferentes pessoas, e compreendo-as todas, por acaso.

 

Maria Inês: Se vocês pudessem fazer uma colaboração com um artista português com qual seria?

 

JG: Nós já fizemos, com a Lena D’Água (risos).

 

Ana: Tirando a Lena D’Água…

 

João: E o Pedro de Tróia também.

 

JG: Acho que o Sam the Kid… Não sei, estou a gozar (risos). Nunca pensei em mais nenhuma colaboração, pelo menos numa específica, como aconteceu com a Lena.

 

Maria Inês: E internacional?

 

JG: Internacional? Isso é muito mais difícil… Nós cantamos em português…

 

SM: Com o Quim Barreiros (risos).

 

Ana: Se calhar, ele é muito divertido portanto…

 

JG: Nós por acaso nunca pensámos nesse tipo de colaboração, mas poderia acontecer… Não sei é com quem.

 

SM: Mas há essa possibilidade?

 

JG: Não, por acaso não (risos).

 

João: E com outra malta do vosso estilo? Luís Severo, Filipe Sambado, sei lá…

 

Ana: Estás a rotular o estilo agora… Já falámos sobre isso… (risos).

 

João: Pronto, não no vosso estilo mas da vossa onda.

 

JG: Talvez… É muito mais giro misturar coisas completamente diferentes…

 

SM: E não se sabe o que iria resultar, e isso é bom. Muitas parcerias que resultaram foram tipo novo e velho, aquela do Carlos Santana no Maria Maria, são dois miúdos do soul da altura, não faz sentido…

 

JG: Não sei quem canta, sei que é música do Santana. Cenas diferentes como Manuel Cruz e o Carlão resultou muito bem.

 

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João: Ok, última pergunta. Quem faz?

 

Ana: És tu, para acabar em grande.

 

João: Então vá, eu faço metade e tu fazes a outra metade.

 

Ana: Ok, pode ser.

 

João: Qual foi o concerto que mais gostaram de dar até agora? Assim em 5 segundos.

 

JG: Deste ano?

 

João: Não, de sempre.

 

JG: Eu gostei muito do Mexefest. Foi muito fixe.

 

SM: O Bons Sons.

 

JG: Pois, o Bons Sons também foi maluco.

 

Ana: Bem, última parte da questão: qual é o concerto que falta dar?

 

JG: Faltam muitos…

 

Ana: Deste ano falta o do MusicBox não é (risos)?

 

JG: Não sei o que falta…

 

João: Tendo em conta que vocês são independentes e não mainstream, qual é aquele palco?

 

JG: Não há uma relação direta entre independente e mainstream

 

João: Agora tramaram-me.

 

JG: Há muita malta independente que é mainstream, como o Bon Iver por exemplo.

 

SM: Mas cá em Portugal?

 

João: Sim.

 

SM: Um palco em Portugal…

 

JG: Eu percebo o que queres dizer, o caminho é mais difícil, mas nunca é associado. Tem a ver com aquela cena das aventuras.

 

SM: Um dos maiores palcos em que eu já estive, foi há para aí 10 anos e não tenho ideia de ver aquilo, mas foi o do Santiago Alquimista.

 

JG: Antigamente haviam imensos concertos lá, era ao pé do Castelo São Jorge. Acho que agora foi comprado…

 

SM: Mas estás a falar de um festival, ou?

 

João: Não, o que vocês acharem melhor.

 

SM: Não sei… Graça, tu conheces palcos, andas aí a agenciar coisas…

 

João: Altice Arena?

 

Ana: Isso tem uma acústica péssima.

 

JG: Mas há sítios giros…

 

SM: O Coliseu dos Recreios pá, esse palco é incrível.

 

Ana: E tem uma boa acústica.

 

SM: Por acaso tem, é perfeito.

 

João: Fica esse (risos).

 

JG: É difícil fazer estes planos assim, tanto esse como outro qualquer. Coisas grandes.

 

SM: Portanto, segundo o Graça, tudo e nada (risos).

 

JG: Todos e nenhum. Mas falta-nos imenso ir ao sul.

 

Ana: Pois, vocês nunca tocaram no Festival F pois não?

 

JG: Não.

 

Ana: É em Faro, lembrei-me agora assim…

 

JG: Pode ser para o ano, mas mesmo sem ser em Faro, nunca fomos tocar ao sul, sem ser a Évora, foi o mais sul que fomos.

 

João: Falta essa parte.

 

JG: Sim, acho que pode ter uma caraterística cultural, o facto de ainda não termos lá ido. Acho que há menos oferta em geral, menos coisas a acontecer em geral, não é?

 

Ana: É verdade.

 

João: Tens mais centros de cultura de Lisboa para cima.

 

JG: Do que para baixo. Sim, mas falta-nos ir ao sul de Portugal.

 

João: Depois se forem ao Algarve não podem tocar os “Montes da Beira” (risos) porque ninguém vai perceber…

 

SM: Tem que ser as “planícies” (risos).

 

Os entrevistadores: Ana Machado, João Duarte, Maria Inês Opinião

Fotografias: Sara Pacheco

10
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte I)

Jur.nal

Num frio fim de tarde o JUR.NAL, pela mão dos entrevistadores João Duarte (3.º ano da Licenciatura), Maria Inês Opinião (2.º ano da Licenciatura) e Ana Machado (Mestrado em Forense e Arbitragem), com as fotografias da Sara Pacheco (3.º ano da Licenciatura) recebeu na sala 007 Sebastião Macedo e João Graça dos Ciclo Preparatório, banda independente de Lisboa que conta já com vários anos de estrada e dois álbuns (o mais recente, Se é Para Perder Que Seja de Madrugada, de 2018).

 

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Ana: Surgiu-nos uma pergunta muito profunda que é: porque é que é melhor perder de madrugada?

João Graça: Pá, realmente nunca pensei muito sobre isso…

João: Foi letra tua? [Pergunta para o Sebastião Macedo].

Sebastião Macedo: Foi. Mas não significa que saiba (risos). Mas talvez seja porque tens a noite toda a tentar não perder, ou aceitar…

João: Portanto se for para perder é melhor de madrugada porque ainda está meio escuro…

SM: É mais uma coisinha para acrescentar…

João: São aquelas coisas que surgem no processo criativo sem nenhuma razão?

JG: Não, foi simplesmente parte da ideia dele, e ficou aquela frase e usou-se para o título do disco.

João: Bem, nessa linha queríamos saber - e fez agora um ano do lançamento do vosso segundo álbum - qual o balanço que fazem da receção do álbum?

JG: Este foi preparado e promovido de maneira diferente, com menos recursos, foi uma edição de autor. O primeiro tinha sido com a Optimus Discos, depois NOS discos. Depois a coisa ficou de outra forma. Foi um investimento muito grande da parte deles na parte da promoção. E agora fomos nós que fizemos tudo, com ajuda do nosso agente e manager. Portanto, agora tivemos menos impacto. Mas acho que a quem chegou foi bem recebido. Pelo menos percebemos que sim.

 

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João: O público gostou?

JG: Sim. Exatamente.

João: E isso notou-se nos vossos concertos? Ou seja, passaram 5 anos sem voltar, e quando voltaram notou-se?

JG: Sim, sim. Especialmente em Lisboa, que tivemos a casa cheia. Mas fora também: em Coimbra e no Porto o ambiente foi bom. Depois fomos assim à Covilhã, que também foi fixe.

SM: Mas acho que a nossa perceção sobre a receção do disco passa muito por estarmos muito mais confortáveis com aquilo que nós tínhamos feito. Ou, se calhar, mais conscientes. E podemos também desfrutar mais, mas essa é só a nossa perceção. Em termos estatísticos, provavelmente, o último foi [bem-recebido]. A nossa sensação deste é que estava tudo mais sólido e estruturado, e se calhar uma próxima coisa já será mais fluída.

Maria Inês: Tenho uma pergunta específica em relação a uma das músicas, que não sei se foste tu que a escreveste, mas é a “Montes da Beira”. O que é que se está a passar (risos)? Qual é que é a ideia por detrás?

SM: O que é que tu achas, o que te parece? Tens alguma ideia? Alguma coisa que te confunda?

Maria Inês: É assim, à partida, a primeira vez que ouvi essa música fiquei a achar que era literalmente montes da Beira, tipo Beira-Baixa, mas depois fiquei a achar que podia ser um bocado relacionado com a Guerra. E isto pode ser já um stretch, mas porque vocês têm um approach próximo à realidade portuguesa, tenho estas duas teorias.

Ana: Teorias da Conspiração (risos).

SM: Não, essas coisas estão todas lá. Estão é inseridas numa realidade que motivou a fazer aquilo. Mas estão todas lá. Podes ficar com isso. Não vale a pena eu estar a estragar com algo concreto que tenha que não te vai dizer nada. Estão todas na minha ideia, só com outra cara e com mais coisas.

João: Mas qual foi essa realidade? Que motivou a escrever?

SM: Coisas mais de experiência… De vida e de história… De momentos que ficaram na cabeça. E tenho coisas muito concretas, mas a ideia geral não é assim tão concreta e, sei lá, não penso muito depois de ter feito. Lá, é muito claro, tipo sei exatamente o que quero, mas depois fecho, e se for pensar agora provavelmente vou arranjar uma justificação que não é racional e que fará mais sentido agora do que aquilo que estava a tentar dizer sobre o que pensava na altura. Mas acho que estás numa realidade perfeitamente coerente.

 

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João: Ela foi logo para a teoria da Beira Baixa porque é do Fundão…

Maria Inês: Sim.

Ana: Exato (risos).

SM: Seria Beira Alta neste caso… Mas próximo…

Ana: Bem, próxima questão: nós gostaríamos de saber se estão a preparar algum single ou álbum para breve.

JG: Temos aqui umas ideias… Mas ainda estamos a reunir os ingredientes (risos). Ainda não há assim nada concreto.

SM: Por acaso foi proposto pela agente fazermos.

JG: Estamos todos a colaborar…Mas vão haver novidades em breve, não sabemos quão em breve, mas no início do próximo ano.

João: Ou seja, não vão deixar passar tantos anos de intervalo entre projetos.

JG: Exato. Queremos mesmo continuar… Mas é complicado, sendo uma coisa altamente independente, não é tão fácil. Mas pronto, vamos continuar a tentar e com essa persistência crescer também.

João: E este intervalo de 5 anos entre os dois discos. Foi propositado?

JG: Foi um bocado feito do que foi acontecendo nas nossas vidas particulares. Alguns de nós… como o Francisco que foi estudar para fora, tivemos cursos para acabar, trabalhar também. Foram coisas que foram acontecendo, e como em simultâneo, ali naquela fase pós-primeiro disco, não pusemos mãos logo à obra, se calhar perdeu-se um bocado o timing necessário. E pronto, depois foi uma coisa que foi acontecendo e foi o recomeçar o processo, que começou no Verão de 2017. Foi um processo longo, compor e gravar, e o disco só saiu em 2018.

 

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João: Mas vocês no início, quando lançaram o [primeiro] disco tiveram bastante sucesso. Chegaram a atuar num Super Bock. Bem, não nos lembramos porque éramos demasiado novos, isto é tudo fruto de pesquisa, mas queria perguntar se vocês achavam que conseguiriam ser - não sei se é a melhor palavra - profissionais, ou pelo menos viver da banda.

JG: Pá, talvez. Eu tenho esse desejo, pessoalmente. Mas não sei se na altura, mesmo tendo sucesso, se achava que ia ser uma questão de causa-efeito tão óbvia, mas se calhar na altura tínhamos alguma esperança.

SM: Tínhamos mais ilusão que seria possível. Mas não sabíamos nada sobre o que estava entre o possível. Agora temos mais consciência sobre o que está entre o possível ou impossível, portanto com tempo se calhar conseguimos gerir as expectativas de forma mais moderada. Mas se calhar mudou-se um bocado o objetivo, quando és mais novo precipitas-te muito nos objetivos que queres e perdes-te um bocado. E, aqui, estamos a pensar numa coisa de cada vez e consoante o tempo que se arranja, porque já se percebeu que se viesse alguma vez a acontecer não seria de um dia para o outro. Temos de desenvolver outras coisas e perceber o que nos enriquece.

Maria Inês: Vamos voltar a tocar num ponto que tocámos há bocado, que é serem uma banda independente.

JG: Exato, exato.

Maria Inês: Qual é a diferença entre uma banda independente e outra que o não seja, e qual é o porquê de serem uma banda independente.

JG: Porquê? É só uma questão de oportunidade, ou se ninguém quiser dar oportunidade, pelo menos de forma independente podemos sempre construir algo.

 

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João: Mas no início?

JG: Com o primeiro disco? Sim, aí tivemos uma abordagem logo direta com a Optimus. Nós gravámos um single que na altura foi mostrado ao Henrique Amaro, da Antena 3, e ele colocou-o nos Talentos Fnac, e depois a Optimus Discos teve uma abordagem logo no sentido de financiar e editar. Na altura foi aos Pontos Negros e depois a nós, e depois não sei se continuaram a financiar ou não. Mas a grande diferença entre ser independente ou não é o suporte que há. Ter alguém que ajude a colocar o disco disponível, alguém que financie e trabalhe a promoção.

João: Mas por que não houve essa continuidade a partir do primeiro disco?

JG: É assim, nós tomamos a decisão de nem sequer tentar uma editora, porque nós podíamos escolher mostrar o disco que já estava gravado. Só com o disco pronto é que decidimos o que íamos fazer. Podíamos ter ido à Sony, ou à Warner, e se eles quisessem compravam, mas nós achámos que neste momento o melhor seria termos tudo por nossa conta. Tem que se dar muita coisa em troca quando se arranja uma editora. Há muitas decisões que não são tomadas por nós, pelo menos totalmente, portanto foi uma decisão boa porque podemos decidir tudo por nós.

João: E têm-se sentido bem assim?

JG: Sim. Agora, não sabemos se vai ser sempre assim. Até porque às vezes dava jeito outro tipo de suporte. Mas pronto…

Ana: Nós gostávamos de saber quais são as vossas inspirações portuguesas para o vosso estilo musical. Em que é que vocês se inspiram?

SM: Eu não vejo tanto como influências musicais, se calhar inspirações. Mais no sentido de influências que vejo mas não são necessariamente musicais. Mas há vários livros de autores portugueses, ou quadros portugueses…

João: No teu caso em concreto, porque escreves maioritariamente as letras.

SM: Sim, exato, mas também faço muitos instrumentais e é sempre bom essa ideia de não ser bandas, porque é sempre mais com imagens, e é isso que tento induzir-lhes quando eles estão a fazer, só para encaminhar. É mais universal do que dizer só “faz essa banda, só esta linha de guitarra, mais nada”. Se puseres uma imagem, o gajo vai até à imagem e aí encontra a sua linha musical para servir daquilo, e não há nada que vai ficar aí preso.

Ana: E se calhar também não vai ficar muito parecido com uma banda. Se vocês se inspirassem numa banda ou assim já podia ser uma coisa muito parecida.

SM: Mas é um pouco mais descontrolado. Portanto, nestas coisas há sempre alguém que conhece algo que não conheces e vai dizer que estás a copiar isto (risos) mas há mais espaço para fazer.

JG: Nós ficamos a saber mais quem são as nossas influências depois de lançarmos o nosso disco (risos) e sempre por outras pessoas!

João: Exato, são rótulos que as pessoas põem.

Ana: E o Spotify também, com os artistas parecidos (risos).

João: Já agora, posso ver quem é que aparece… Não sei se vocês têm ideia.

JG: Eu, por acaso, no Spotify, acho que é um algoritmo de o que as pessoas gostam de ouvir. Mas é assim, nós conhecemos as críticas: eram relacionadas com coisas como os Heróis do Mar, coisas assim, e acho que quando gravámos era isso que lá estava (risos).

SM: Também dizem Diabo na Cruz… Mas nenhuma dessas bandas está na nossa cabeça. Não ouvimos muito, mas gostamos todos.

João: Estava aqui a tentar encontrar… Valter Lobo, São Pedro, Samuel Úria, Luís Severo, os Pontos Negros… é o que me aparece.

SM: É um bom caminho (risos).

Ana: Próxima pergunta és tu (risos).

João: Está aqui. Era mesmo… Tinha mesmo a ver com isto, eu fui ver uma entrevista vossa ao Público, de 2013. O Público não, o P3, segmento do Público…

JG: Nós demos uma entrevista ao Público?

Ana:  Também não há muitas entrevistas vossas portanto… Chegamos lá facilmente (risos)

JG: Sim, na altura tínhamos alguém que tratava disto por nós.

João: Se calhar não é uma entrevista, é tipo uma chamada deles para o vosso álbum que tinha saído. Mas eles descrevem-vos como “grupo coral, pop especial rural chique delicodoce”.

 

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SM: Por acaso essa descrição foi ponderada (risos).

João: Ponderada como assim?

JG: Porque não foi o Público que inventou isso… Isso foi mesmo algo que partiu de nós.

SM: Quando surgiu a banda…

João: Mas, em jeito de brincadeira?

SM: Claro (risos).

Ana: Não, é muito a sério (risos)

João: Ou vocês formaram a banda e decidiram “vamos tocar música em coral pop especial delicodoce?” (risos).

JG: Não sei se vocês são do tempo de páginas de MySpace.

Ana: Sim, eu sou (risos). Sou, sou.

Inês: Eu já não.

JG: Quando era mais puto tive uma banda e nós, como todas as bandas e como erámos putos fazíamos páginas de MySpace. E, pá, é sempre a guerra de pôr o género na descrição (risos), mais perto daquilo que gostávamos que fosse, mas que não vai ser necessariamente.

 

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SM: Ou então só punhas cenas aleatórias.

JG: Mas, então, isto é uma brincadeira que suponho eu que tenha vindo um bocado nesse sentido. Uma desidentificação quase daquilo que poderá ser qualquer música.

SM: Vocês têm alguma banda?

João: Não, não. Temos a tuna (risos).

SM: Olha, fixe.

João: Acaba por ser (risos) mas então, ainda melhor: partiu de vocês esta brincadeira. Podem explicar um bocadinho? Ou é ironia completa?

Ana: Pelo menos o chique está lá.

JG: Bem, “grupo coral” porque as nossas músicas têm alguns arranjos assim de harmonias com vozes, portanto pode fazer algum sentido. “Pop” porque não é pop (risos). “Especial” porque há quem diga que sim (risos).

SM: Acho que “especial” era pela conotação negativa até (risos).

JG: “Pop especial”... Se calhar queria dizer pop espacial… (risos). Pá, eu “rural chique delicodoce” acho que já é só mesmo [invenção].

João: O rural eu vejo na “Casa da Lamarosa”.

JG: Nem mais, a imagem inicial que nós tínhamos, em que estávamos mais focados, era a nossa quinta de férias. Que, atenção, é só uma casa de família de um de nós.

João: Do José?

JG: Exato.

João: E foram lá as vindimas este ano, ou não foi na Lamarosa?

JG: Não foi lá, foi na Beira Alta.

João: Nos montes da Beira (risos).

JG: Exatamente.

João: Eu lembro-me dessa publicação… E o “delicodoce”?

JG: É a suavidade…

SM: Isso eu vejo, é que a voz do João é uma voz muito delicada e doce… (risos). Mas também porque foi sempre o objetivo haver uma espécie de contraste, era algo que era sempre comum na música que tocamos.

João: E as vozes da Benedita e da Constança também são delicodoces… Passando à próxima… Esta é uma pergunta especial (risos).

 

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Maria Inês: Nós queríamos saber o porquê do visual mais retro (risos).

JG: O nome também é retro… (risos).

SM: Em que consiste um visual retro?

Ana: Roupas dos avós (risos).

Maria Inês: Sim, basicamente. Abrimos o armário dos avós e é o que temos lá dentro…

João: E podíamos fazer aqui uma sondagem de nós os quatro para ver quem é que sabe o que era um “Ciclo Preparatório”. Sabem o que era o ciclo preparatório?

Ana: Sim… (risos).

João: Já não é do nosso tempo.

JG: Nem do nosso (risos).

Inês: É a escola primária.

João: Afinal sabemos…

JG: Sim, eu acho que era a primária. Ou será quinto e sexto [ano de escolaridade]?

Maria Inês: Pois, o preparatório se calhar era o quinto e sexto.

João: Faz mais sentido, eu acho que é.

Maria Inês: Se calhar até ia até ao 9º.

Ana: Pronto, temos uma discussão aqui…

João: Eu acho que era o atual segundo ciclo. E podemos aproveitar para fazer a pergunta clássica do porquê [do nome].

JG: Pois, porque está tudo um bocado na mesma questão, o porquê do nome e do visual. Acho que tem tudo a ver com a valorização do que era bom no passado.

João: Heróis do Mar… (risos). Mas numa época mais fácil de fazer isso… Não um pós 25 de Abril.

SM: Sem conflito… Mas essa ideia das roupas e dessa imagem toda era porque há uma grande dificuldade das bandas em surgirem. Quer dizer, hoje em dia é mais fácil fazer com que surjam, mas a imagem é sempre uma coisa que é muito igual, portanto é uma forma de destacar. Foi pensado na altura, maioritariamente não por nós… Mas hoje em dia já começa a diluir, porque a partir do momento em que começas um caminho, apesar de nós se calhar não nos identificarmos necessariamente com aquela imagem, temos coisas que usávamos, mas nunca era…

João: Não são betos (risos)?

SM: Não somos agrobetos… (risos).

JG: Agro não porque nenhum de nós é agricultor (risos).

João: Vocês são todos de Lisboa?

SM: Sim.

João: Então são só betos. Ou não são betos?

JG: É assim, isso é uma construção social (risos) meio estranha. O que é que se pode dizer…

João: Pronto, são normais.

JG: Sim, somos pessoas normais, como tantas outras.

SM: Há esta falta de definição, mesmo da nossa parte, porque achamos bem antecipar uma definição que se calhar até nos protege, porque no fundo as pessoas que estão a avaliar aquilo não estão a avaliar-nos.

João: Há uma pequena guerra num vídeo de Youtube, no “Lena Del Rey”, onde o pessoal nos comentários… Não sei se já viram.

JG: Vi no outro dia um comentário que era: “Ei tanto beto” (risos).

 

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João: Portanto isso começou uma guerra de comentários sobre se são betos ou não… Isso tem muita piada (risos).

JG: Se somos ou não, bem eu sei o que as pessoas dizem sobre o que é ser beto, agora, não acho que isso seja uma questão sequer (risos), percebem? Se a ideia é que os nossos pais têm vários irmãos e que temos muitos primos (risos) e se as nossas famílias são grandes… Se for isso então sim, qualquer um de nós vem de famílias compridas.

João: Ok, mas o pessoal comenta a personagem que vocês criam na banda, não vocês próprios, através da roupa e tudo mais.

Ana: Também porque não os conhecem, não é?

SM: Os nossos vídeos são iguais a toda a gente, não percebo… É o que quiserem (risos).

JG: Quando éramos pequeninos íamos à missa, penteadinhos com as nossas mães. Se isso é ser betinho então acabamos por ser… (risos). Crescemos assim. Mas não é o que nos define.

João: A zona de Lisboa a que vocês pertencem também influencia isso.

Maria Inês: A escola…

João: Se vocês forem de Belém…

Ana: Do Restelo…

JG: Não, nós somos ali da Estrela.

Ana: Ah também, pronto (risos).

JG: Também pode ser… Estrela, Lapa… (risos).  Mas há coisas que são mais importantes, como a forma de estar no dia-a-dia, as atitudes que se tem. Acho que isso é que importa.

 

(Continua...)

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