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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

16
Dez19

Manifestantes e governo de Hong Kong em rota de colisão

Jur.nal

 

 

O 25 de novembro de 2019 foi um dia significativo na história de HK. O bloco pró-democracia conseguiu, pela primeira vez, vencer as eleições distritais duma forma esmagadora e obter a maioria em 17 das 18 assembleias locais. O número dos lugares ganhos por este era 389 enquanto que os obtidos pela força pró-governo eram apenas 59, contrariando todas as expetativas de Pequim. Muitos consideram tal vitória inédita da oposição “uma bofetada ressonante” face às medidas repressivas tomadas pelo governo chinês no decurso dos últimos 9 meses em virtude das manifestações contra a alteração da Lei de Extradição.  

 

A fim de entender melhor o contexto deste assunto que tem atraído os holofotes internacionais, convém relembrar-nos dsua origem, um homicídio cometido por um jovem de Hong Kong durante uma viagem a Taiwan no dia 17 de fevereiro de 2018. Depois de ter morto e desmembrado sadicamente a namorada grávida, o homem fugiu para a terra natal no próprio dia. O crime foi descoberto no imediato, porém, a autoridade taiwanesa não conseguiu fazer nada. Enviou por três vezes pedidos de colaboração à região autónoma chinesa, os quais foram negligenciados por esta última devido à ausência de acordo de extradiçãopara além das subjacentes relações esfriadas entre a China e Taiwan após o Partido Democrático Progressistao qual rejeitoo princípio de “uma só China”, ter chegado ao poder na ilha Formosa em 2016. 

 

Em contrapartidao tribunal de HK não pôde incriminar o homicida, apesar de este já ter admitido o crime, visto que sistema jurídico da ex-colónia britânica adere ao princípio da territorialidade e não exerce tutela em relação aos crimes cometidos fora da sua fronteira.  

 

Neste contexto, a Chefe Executiva de Hong Kong Carrie Lam propôs a alteração da Lei de Extradição um ano depois, dando luz verde à transferência de fugitivos para outras partes da China, inclusive Macau, e Taiwan, que o governo chinês sempre considerou uma província sua mesmo que já se tenha separado dela desde o que o Partido Comunista conquistou o país em 1949Não obstante, surgiram suspeitas de que tal proposta tivesse sido orientada pelo governo central ou fosse elaborada para o agradar, fazendo com que este tome o leme na área jurídica da cidade autónoma e possa extraditar pessoas que fossem por si condenadas.  

 

A proposta gerou logo no primeiro momento contestações do tecido empresarial e da comunidade estrangeira desse centro financeiro mundial que é HK, o qual serve de trampolim para investimento no mercado mais populoso do mundo. O primeiro receou que fosse perseguido pelo governo em virtude das suas atividades na China continental, tendo em conta o seu pecado de origem, nomeadamente a inevitabilidade de pagar luvas aos funcionários públicos do alto nível em troca de obras e de recursos no âmbito do national capitalism chinês. E a segunda teve pavor de ser objeto de represália judicial em virtude da detenção da diretora financeira da Huawei pelo Canadá, na altura a pedido dtribunal norte-americano.    

 

Concomitantemente, o público em geral também não aclamou a proposta, tendo receio da manipulação do sector judicial pelo Partido Comunista chinês e das condições desumanas do sistema prisionalUm dos rostos na fase inicial da oposição foi Lam Wing-kee, um docincos protagonistas do misterioso caso Causeway Bay Booksque foram alegadamente raptados pelos agentes secretos chineses em Hong Kong por terem publicado e vendido livros dizendo respeito a temas censurados, inclusive rumores sobre a vida privada do Presidente da RepúblicaTendo sido encarcerado no continente chinês durante mais de 7 meses, o livreiro que ainda é fugitivo procurado pela autoridade nacional, autoexilou-se em Taiwan logo depois de a proposta ter dado entrada no Conselho Legislativo de Hong Kong, temendo a sua extradição para a China sob acusação de “operação do negócio ilegal”.   

 

Tampouco os profissionais jurídicos em Hong Kong se satisfizeram por essa alteração. A Ordem de Barristers de Hong Kong considerou que proposta negligenciava a diferença entre os sistemas jurídicos da China continental e Hong Kong e os registos do governo chinês na área dos direitos humanos. Manifestou ainda preocupações relativas ao excesso do poder discricionário da parte executiva em relação aos casos de extradição, segundo a proposta.  

 

De modo expectável, Taiwan, denominado oficialmente como República da China, impugnou a proposta por esta a considerar uma parte da República Popular da China com a capital em Pequim, rebaixando, assim, a sua soberania, apesar de não ser amplamente reconhecida pela comunidade internacional, devido à objeção de Pequim. Tsai Ing-wen, a presidente do país insular, alegou que não colaborava com Hong Kong no âmbito da nova lei, mesmo que esta fosse aprovada pela assembleia da região autónoma chinesa.  

 

Apesar de tudo, a situação manteve-se relativamente controlável até junho deste ano, altura em que a proposta foi sujeita à sua primeira leitura na assembleia. A fim de impedir a sua segunda leitura, mais de um milhão das pessoas saíram à rua no dia 12. Apesar do protesto ser genericamente pacífico, ocorreram vários conflitos entre a polícia e manifestantes mais radicais, que inclusive usaram cocktail molotov. O número dos manifestantes foi chocante tendo em conta que a população total da região se fixa por volta dos sete milhões e quatro centos mil habitantesNo entanto, perante tal manifestação inédita, a primeira reação do governo foi acusar a manifestação de motimnão pretendendo fazer nenhuma cedência em relação à propostaA seguir, teve lugar uma outra manifestação ainda maior três dias depois com cerca de 2 milhões de participantes. Desta vez, Carrie Lam pediu desculpa ao público e o governo reagiu com a suspensão da proposta, embora rejeitando as cinco revindicações da oposição, a saber: retirada definitiva da proposta; libertação incondicional dos manifestantes detidos; estabelecimento de uma comissão independente da investigação sobre as violências entre a policia e os manifestantes; retratação da caracterização de motim” em relação à manifestação ocorrida no dia 12 de junho; realização de sufrágio universal para as eleições do Conselho Legislativo e do Chefe Executivo. Neste contexto, o governo de HK e os manifestantes encontram-se em rota de colisão  

 

Durante o protesto ocorrido no dia 1 de julho, centenas de manifestantes invadiram o Palácio da assembleia regional, pondo graffitis no emblema nacional chinês colocando, até, durante poucos minutos, a bandeira britânica em frente do hemicicloEsse comportamento herético foi visto pelo governo chinês como flagrante blasfémia e traição contra a dignidade soberana e as emoções nacionais, tendo em conta a amargura histórica resultante da anexação de Hong Kong pelo Império Britânico em que o sol nunca se põeduma maneira faseada, na sequência das Guerras do Ópio e da Aliança das Oito Nações no século XIX e no início do século XX.   

 

O antagonismo ainda se agravou mais no final do mês em virtude do ataque de Yuen Long, no decurso do qual um grupo mafioso vestido de camisolas brancas atacou indiscriminadamente os passageiros à volta da estação de metro Yuen Long, entre os quais muito manifestantes vestidos dpreto. Os rumores de que este ataque foi conspirado pelas forças pró-Pequim alimentaram-se devido aos factos de que a polícia só chegou ao local meia hora depois de ser contactada. Também Junius Ho, deputado pró-Pequim, apertou as mãos dos atacantes, elogiando-os como “heróis”, logo a seguir à violência. Posteriormente, a atitude da força pró-governo em geral foi ambígua, mostrando certas reticências em condenar o ataque.  

 

A partir daí, algumas ruas da cidade transformaram-se em quase trincheiras de guerra na medida em que nos meses seguintes se observou o desencadear de uma chuva de protestos. seu auge foi cerco da Universidade Politécnica de Hong Kong pela polícia em novembro. Após ter entrado num jogo do gato e do rato com a polícia, omanifestantes mais radicais deslocaram-se à Universidade, destruindo os equipamentos do túnel Cross-Harbour e bloqueando a estrada com vista a paralisar o transito urbano, que deu razão para a polícia cercar o campus universitário durante mais de 2 semanas, terminando apenas 2 dias depois das eleições, depois dos alegados manifestantes, que totalizaram 1.377 pessoas, se terem entregado àautoridades.   

 

Além dos confrontos no mundo realtambém os houve no espaço virtualOs mesmos não só aconteceram entre forças contra e a favor do governo, mas igualmente entre residentes locais e os de fora, e até entre gerações mais velhas e as mais novasSendo a Internet um outro campo de batalha, cada lado tenciona compartilhar as informações mais favoráveis a si próprio como se houvesse dois universos em paralelo. Enquanto os simpatizantes da oposição põem gosto em imagens em que se evidencia o abuso da força pela polícia contra os estudantes indefesos, os apoiantes da autoridade, entretanto, fazem circular um vídeo composto por cenas de agressões a um senhor idoso por manifestantes jovens devido à discrepância das opiniões. Enquanto os alunos do continente chinês levaram tareias dos de Hong Kong nas várias universidades australianas simplesmente por estes últimos terem protestado contra a lei da extradição, os estudantes chineses em Hong Kong retiraram-se para o continente devido à hostilidade dos manifestantes radicais. É lastimável que as pessoas só se interessem por verdades das quais correspondem as suas convicções e as suas opiniões não se adquirirem a partir da análise dos factos, mas pela mera inferência da ideologia forjada. 

 

A vitória do bloco pró-democracia foi conquistada no meio dessas divisões insanáveisTanto o governo como a oposição ficaram boquiabertos perante os resultadosdado que por mais audaciosa que fosse a previsão, não teria antecipado uma derrota tão humilhante para a força pró-Pequim. Com efeito, essa disparidade entre os dois em termo de lugares vencidos nas assembleias distritais também se deveu ao sistema uninominal maioritário. Se se considerar só as percentagens dos votos ganhos, a vantagem do pró-democracia não era tão esmagadora face ao seu adversário, tendo obtido 57 por cento dos votos o primeiro e 41 por cento o segundo. Ademais, alguns acreditam que o governo central chinês estivera convencidoaté ao último minuto antes da apuração dos votos, de uma vitória dos seus aliados, dado as informações sempre agradáveis proporcionadas pelo Gabinete de Ligação do Governo Central da China em Hong Kong, através do qual Pequim consegue impor a sua diretriz na administração da região. Caso contrário, não teria permitido a realização imediata das eleições.  

 

Embora o túnel adjacente da universidade politécnica tenha voltado a funcionar logo a seguir à intervenção policialainda estamos muito longe de ver luz ao fundo do túnel em relação à saída do impasse relativo aos conflitos.  

 

Receando que uma concessão em qualquer solicitação da oposição resultasse em mais apelo à democracia pela esta última e um efeito cascata nas outras regiões que sofrem problemas congéneres tais como o Tibete e Xinjiang, Partido Comunista chinês manterá firmeza acerca da sua atitude com os manifestantes, independentemente dos resultados das eleições e da chuva de críticas. Por conseguinte, seria inadmissível para este renunciar às rédeas do poder na questão do sufrágio universal a curto prazo.  

 

Por outro lado, não acredito também que os manifestantes, maioritariamente jovens na casa dos vinte anos, desistiam do seu apelo à democracia facilmente. Influenciados profundamente pelos valores liberais do ocidente, os jovens de Hong Kong insistentes nas suas causas seriam rebeldes demais para serem domesticados pelos dogmas obsoletos do comunismo maoísta e pelos valores tradicionais chineses.  

 

Por conseguinte, o futuro de Hong Kong jamais será otimista. O governo e os manifestantes continuarão a encontrarem-se em rota de colisão e o preço disto é a estabilidade e a prosperidade da cidade serem inevitavelmente postos em causa.  

 

Xavier de Macau

 

15
Nov19

Marraquexe I

Jur.nal

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Uma das memórias mais vívidas que tenho de Marraquexe é a viagem feita do aeroporto até ao hostel em que iríamos ficar hospedados, que nos aterrorizou na altura, mas é hoje motivo de galhofa.


Ora, estávamos nós acabados de chegar a Marrocos, com a cabeça feita de hesitação e prudência por aqueles que deixámos em Portugal – cujo receio habitava, por vezes, no limiar da xenofobia – quando enfrentámos o primeiro teste: apanhar o transfere pré combinado que nos levaria ao hostel.

Para este efeito, lá procurámos o nosso chauffeur privé marroquino, que nos pareceu simpático, bem, pelo menos um pouco mais do que a viatura em que tivemos de entrar...


De cinto posto, colocámos o GPS para controlar a viagem e fomos trocando algumas palavras em francês e inglês. As estradas pareciam normais e o panorama não assim tão diferente... isto é, até ao momento em que encostámos o carro ao pé de uma rua estreita e escura, saída de uma mistura entre um filme de guerra e um de terror.


“Ah, vai só mostrar-nos aquele monumento ali! Não vai entrar por aqui, é impossível...”
E de facto mostrou. Porém de seguida, entrou pela tal rua a dentro e, aí, troquei um olhar com os meus companheiros que dizia tudo.


“Bem. Já fomos."


As casas acomulavam-se umas após as outras e as passagens encolhiam cada vez mais. As luzes do carro eram as únicas naquele labirinto sombrio. Na rua, vivalma excepto um marroquino aqui e ali, que naquele contexto, pareciam fazer jus ao que nos haviam dito.


Paramos no meio do nada. De repente, motas.


“É agora. Preparem-se para ser assaltados e/ou raptados.”

Mas não foi. E não fomos. E o hostel era fantástico.

 

André Carmona

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura; Diretor do JUR.NAL)

 

13
Nov19

Entrevistas #6 - Benjamim

Jur.nal

“(…) escritor de canções, músico e produtor. Em 2015 lançou 'Auto Rádio' e em 2017 gravou '1986', disco a meias com o músico britânico Barnaby Keen.” É o que se começa por ler na biografia da página de Facebook de Benjamim, que, de resto, deu que falar nesta entrevista. A Micaela Ribeiro e o André Certã, ambos alunos do 3.º ano da Licenciatura, partiram para a conversa com este multifacetado artista português.

 

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André - Quem é o Benjamim?

Benjamim – O Benjamim é uma personagem que eu criei para escrever canções, basicamente. Vem originalmente do Walter Benjamin, que era outra personagem que eu criei para fazer canções em inglês. Mas depois passei a escrever em português e achei que o nome já não fazia sentido e fiquei só com o ‘Benjamim’. Acaba sempre por haver uma vontade de escapar ao nome [Luís Nunes] (risos).

André – Sendo nós alunos universitários gostávamos de conhecer a tua experiência universitária.

B – Comecei por estudar Antropologia na NOVA. Fui para lá em 2004 e saí em 2008. Foi uma boa experiência, acabei o curso. Depois, tive uma experiência em Londres. Estudei Engenharia de Som. Portanto, tenho dois currículos académicos bastante diferentes.

Micaela – De onde surgiu Antropologia?

B – Honestamente, veio de não ter média para Direito (risos). Acabou por ser engraçado porque apesar de ter Direito como primeira opção nunca quis fazer Direito. Era uma obrigação moral que eu sentia pelas expectativas familiares. Mas não entrei, e ainda bem, porque se tivesse entrado não teria acabado o curso porque é demasiado exigente para um gajo como eu que passou a Faculdade a fazer música.

Micaela – Consideras que o ambiente da FCSH te ajudou a perceber que o caminho era a música?

B – Foi claramente um ambiente mais favorável porque existiam mais pessoas ligadas às artes. Há malta ligada às artes em todas as Faculdades, mas na FCSH… eu conheci o B Fachada na FCSH! Foi absolutamente determinante no início da minha carreira musical.

 

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André – Focando-nos agora na tua música, e recuperando teu último álbum: como foi gravar o 1986 com o Barnaby Keen e todo o percurso que se seguiu com ele?

B – Isso surgiu porque eu conheço o Barnaby de Inglaterra já de alguns anos. Cruzámo-nos quando estava lá a trabalhar e acabei por fazer som para a banda dele. Ele percebeu que eu era português – ele viveu no Brasil e fala português, e é fanático por música brasileira. Criámos uma amizade baseada nisso. Ele é um grande músico. Houve uma vez em que veio a Portugal e fizemos uma jam juntos e aquilo estava a soar bem. Surgiu-nos a ideia: ‘bora fazer um conjunto, e fazemos um álbum em que eu posso cantar músicas tuas e tu músicas minhas. Ele veio duas vezes a Lisboa, depois, e gravámos. Foi incrível andar com ele na estrada.

Micaela – Em relação ao teu primeiro álbum, o Auto Rádio, que pessoalmente é o meu preferido, tem a canção Exílio. De onde veio? Parece-me uma ode de agradecimento a Lisboa.

B – Não é bem um agradecimento. Surgiu numa altura em que eu estava chateado com Lisboa- Foi quando voltei para Portugal, em 2013, na altura da crise, em que toda a gente dizia “não voltes, aqui não há nada”. Nasceu um pouco de eu andar por Lisboa à noite e pensar nos prédios com centenas de anos que resistiram a crises bem piores e continuam de pé. É essa ideia de que a vida continua e teres de te agarrar à cidade como coisa constante na tua vida.

André – Com o álbum 1986, a Terra Firme tornou-se a tua canção mais famosa. Como te sentes em relação a isso: tinha-lo previsto?

B – Não (risos). Não tinha previsto nada disso. Nunca prevejo esse tipo de coisas. Imagino sempre que vai correr mal, e depois logo se vê se corre bem. Foi surpreendente, e obviamente fiquei muito feliz. Na verdade, era uma canção na qual eu acreditava bastante, e acabou por ser uma grande luta chegar a ela tal qual ficou no disco, houve até momentos em que me disseram que a devia tirar. Foi uma canção que teve um parto algo difícil e, portanto, foi surpreendente ver o quanto cresceu e o impacto que teve. Fui completamente apanhado de surpresa. É uma canção que, ao contrário de outras, eu não me farto de tocar, e, portanto, fico contente que tenha ressoado nas pessoas.

André – Mas, ao contrário de outras canções, Terra Firme tem um cariz diferente, mais político.

B – Sim. Não lhe chamaria político, mas mais humanista em consciência. Não é uma canção política nem pretendo ter intervenção política. Estava no sofá, a assistir ao que se passava no mundo (na altura, havia mais ecos do Mediterrâneo), e tinha um pouco aquele sentimento de impotência. A única coisa que podia fazer era desabafar [através da música].

André – E o resto do álbum tem alguma back story?

B – Tem referências ao mar, que eu acho que têm a ver comigo. Não foi propositado. As minhas quatro canções deste último álbum são todas diferentes. Não tentámos que as canções tivessem uma ligação entre elas, porque isso era muito difícil de fazer e talvez nem desse grande resultado. A nossa ideia foi conseguir uni-las através da nossa energia musical. Mas são histórias diferentes.

 

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Micaela – Há muitos artistas que dizem que os pontos maus das suas vidas são o que lhes dá mais criatividade. Revês-te nisso?

B – Não quero acreditar nisso, espero que não seja verdade (risos).

Micaela – Se tivesses de escolher uma das músicas de todas as que já compuseste para te caracterizar enquanto músico qual seria?

B – Neste momento, é a Terra Firme que mais me representa. É uma canção na qual me revejo muito. Se pensar na Os Teus Passos ou na Tarrafal, os meus primeiros singles, e que lançaram o projeto, são canções nas quais eu me revejo pouco, mas foram muito importantes quando comecei a tocar. Também já estou um pouco farto: fiz 200 concertos com aquelas músicas, a certa altura começas a ganhar aversão… e há canções que sobrevivem melhor [Terra Firme]. Não me chateia nada que as pessoas me conheçam só por essa canção; seria pior se só me conhecessem pela Os Teus Passos ou pela Tarrafal.

Micaela – Que artista português podes dizer que, neste momento, está na tua playlist?

B – Olha, o Luís Severo está na minha playlist, o Filipe Sambado também. O B Fachada obviamente. Mas estou a esquecer-me de nomes…

André – O B Fachada é quase um ícone. Também na entrevista ao Luís Severo se falou dele.

B – Ele foi um grande precursor. Em 2008, com a Flor Caveira, quando aparece ele, o [Samuel] Úria, essa malta toda…, o B Fachada obviamente teve muito destaque na altura, e era um gajo que ocupava um território um bocado diferente porque não era religioso. De entre aquela malta toda ele apelou a públicos um pouco diferentes. Foi um pouco mais longe, na altura, do que os outros. Não esquecendo, obviamente, o Úria que hoje tem uma grande carreira e é um gajo que eu ouço bastante. E ando a ouvir muito Sam The Kid! [Ainda sobre a pergunta anterior].

André - Recentemente, quando aconteceu o triste falecimento do Daniel Johnston, puseste um vídeo no teu instagram de uma cover tua da True Love Will Find You In the End.

B – Não é uma grande cover (risos). Senti um bocado de vergonha com essa gravação.

André – Eu, pessoalmente, gostei. E também gosto do Johnston. Ele teve alguma influência na tua música?

B – Sim, claro. Quando eu o descobri foi um pouco uma revelação. Aquele tipo de som lo-fi… eu já tenho 33, portanto sou daquela geração que bebeu muito do indie rock dos anos 90 americano (Yo La Tengo, Pixies, Nirvana, Smashing Pumpkins, …) e, obviamente, nesse pacote também há Daniel Johnston. Aquela maneira de cantar deixa-te desconfortável, tu não percebes se gostas ou se não gostas – aquele som mais cru. Mais depois acabas por te apaixonar. Eu gosto mesmo muito da música dele.

 

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André – Tu colaboras com outros músicos portugueses, nomeadamente a Lena D’Água. Donde surgiu esta colaboração, tendo em conta que se trata já de um ícone da música portuguesa?

B – Eu conheci a Lena porque a tinha posto nas minhas influências no meu perfil de Facebook, e ela, uma vez, ouviu uma música minha na rádio e foi investigar no Facebook quem era eu. Deu de caras com a minha página no Facebook e viu lá o nome dela… mandou-me mensagem e começámos a falar. Depois, veio fazer uma colaboração comigo, na última vez que toquei no CCB, há 3 anos. , e eu sempre tive a cena de querer trabalhar um dia com ela. Entretanto, mais amigos meus também andavam a namorar essa ideia e acabaram por também tocar com ela. A primeira canção que gravámos com a Lena foi no Festival da Canção, há 3 anos. Aí, fomos a banda de suporte dela e fomos nós que gravámos a canção dela. Fomos à final, ganhou o Salvador [Sobral]. Foi aí que tudo começou – estivemos 2 anos a gravar o disco dela [Desalmadamente, 2019].

André – Quanto à Joana Espadinha, têm juntos a canção Leva-me a Dançar. De onde surgiu essa tua colaboração?

B – Eu conhecia a Joana apenas de “Olá, tudo bem?”. Conhecia, na altura, o João Firmino, namorado dela, vocalista dos Cassete Pirata. Houve um dia em que ela me mandou mensagem a convidar-me para um café dizendo que gostava muito de falar comigo, e surgiu a ideia. A história é mais comprida que esta, mas basicamente foi o que aconteceu. Sendo que desde este momento até começarmos a trabalhar demorou cerca de 1 ano. Houve uma série de coisas que tivemos de harmonizar.

André – Planeias algum álbum em breve? Qual o futuro do Benjamim?

B – Eu estive 3 anos a produzir montes de discos (Joana Espadinha, Cassete Pirata, Flak, Lena D’Água, e agora João Pedro Pais, muito recentemente), foram muitas coisas e foi muito duro em termos de trabalho. Cada disco são meses em que estás focado naquilo. É um trabalho física e psicologicamente muito exigente. E agora cheguei à fase em que parei completamente de trabalhar para outros e estou só focado em fazer o meu disco e fazer canções (desde o verão de 2018). Em 2020, seguramente, terá de haver um disco. Se não, estou tramado (risos).

 

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Micaela – Vais manter a vibe dos discos anteriores ou podemos esperar algo de diferente?

B – É diferente. Não há guitarras, quase. É quase tudo ao piano, sintetizadores, caixas de ritmo, bateria, baixo… Estou um pouco a explorar o universo. Eu sempre gostei de música diferente, e odeio que a coisa fique ali sempre naquele rock. Portanto, acho que o disco vai ser bastante diferente do que foram os anteriores. Quando acabei de gravar o 1986 comecei a gravar um disco sozinho, um disco muito eletrónico, que se chama Berlengas e que já está quase todo gravado, mas ainda não está terminado. É uma espécie de disco perdido. Então, nós, no CCB [próximo concerto], também vamos tocar uma malha desse disco. No CCB acho que se vai perceber a onda do novo disco, mas não completamente (há canções que “puxam mesmo a corda” do ponto de vista sónico e que no CCB não conseguimos explorar).

André – A nível internacional, o que tens na tua playlist?

B – Eu ouço muita música, e demoro muito tempo a ouvir discos. Sou crente de que 85% das coisas que saem num ano não são assim tão boas. Hoje em dia há tanta informação, tanta música, tanta coisa apresentada como grandes projetos que é muito difícil seguir. Então, tento agarrar-me às coisas que ficam. Acho que o disco que tenho curtido mais este ano é o último da Sharon von Etten. Fiquei coladíssimo ao disco, é um dos que me marcou muito este ano. Depois, também ouço muitas coisas antigas: anos 60, 70…

André – E Benjamim consulta o Spotify… (risos).

B – Olha, tenho aqui Filipe Sambado, Elliot Smith, Purple Mountains, Glockenwise, Bob Marley, Little Joy, a All Things Must Pass do George Harrison, Capicua, Jungle, Beck, Panda Bear, Barnaby Keen, Primeira Dama, Beatles…

 

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Micaela – Houve algum momento-chave em que tu pensaste, quando eras novo, que era mesmo isto que querias fazer para a vida?

B – Foi gradual. Eu comecei por querer ser polícia, piloto de aviões, astronauta, inventor (esta foi uma cena que durou muito tempo)… A determinada altura, quando já estudava música, e quando comecei a tocar e a experimentar gravar coisas, comecei a ficar obcecado. Em 1997, tinha 11 anos, comprei uma revista de gravação numa loja de discos, que custava 990 escudos, portanto quase 5 euros. Comprei essa revista e lembro-me de ficar completamente transtornado com aquilo, no bom e no mau sentido. Lia aquilo de trás para a frente. Se calhar foi mesmo esse o momento em que percebi que queria fazer música na minha vida.

 

Os entrevistadores: André Certã, Micaela Ribeiro

Fotografias: Petra Freire

 

 

11
Nov19

Parasite

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Parasite (Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019

Direção: Bong Joon Ho

Guião: Bong Joon Ho, Jin Won Han

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park

Duração: 132 min.

 

Num ano repleto de obras-primas cinematográficas, de entre as quais podemos destacar Joker (dirigido por Todd Phillips) e Midsmommar (dirigido por Ari Aster), eis que surge o filme mais ousado de Bong Joon Ho – Parasite. Muitos poderão conhecê-lo pelo filme Snowpiercer, baseado no romance gráfico Le Transperceneige, ou até de Okja, mas atrevo-me a dizer que Parasite é talvez “o filme” da sua carreira, tendo sido galardoado com a Palma de Ouro no festival de Cannes deste ano.

 

As obras de Bong Joon Ho exibem traços de crítica e sátira sociais, imbuídas por um tom cómico, com alguns cenários de violência, que demonstram o domínio do meio social na construção dos comportamentos e vivências das personagens. O filme Parasite não é exceção e constitui um grande exemplo dessas características.

 

Parasite possui uma narrativa bastante cativante, repleta de surpresas – das gargalhadas ao incómodo, é um filme que inquieta o público, mas que transmite uma mensagem bastante profunda sobre as discrepâncias sociais, concretamente na Coreia do Sul, contudo, é uma mensagem bastante abrangente que se pode aplicar a qualquer tipo de sociedade.

 

O filme retrata o quotidiano de uma família pobre, apresentando a perspetiva daqueles que sobrevivem numa sociedade que apresenta cada vez mais desigualdades. Estes “parasitas” – forma como são considerados pelos membros das classes mais elevadas - fantasiam com vidas envoltas em luxo, aspeto que analisado ao pormenor revela um profundo desejo de alguma segurança social e financeira. A família de Ki Woo (família pobre que protagoniza o filme) vive numa cave minúscula, sem quaisquer condições ou segurança, tendo inclusive de roubar a wifi dos vizinhos – confesso que soltei uma longa gargalhada enquanto assistia ao filme, por causa deste anedótico pormenor.

 

Inicialmente conseguimos perceber que todos os membros da família se encontram desempregados, vivendo tempos muito difíceis, e ganhando algum dinheiro a dobrar caixas de pizza. Entretanto surge a oportunidade de Ki woo dar aulas particulares de inglês a Da-hye, filha mais velha da família Park (família esta bastante abastada). À medida que o filme avança surge uma problemática muito pouco conhecida – a pobreza na periferia das grandes cidades da Coreia do Sul, engrossando o abismo social. É possível verificar o contraste entre os espaços físicos: por um lado temos a cave onde mora a família de ki woo, composta por quatro membros e, por outro, temos a casa da família Park, uma casa majestosa, demasiado grande para a família Park. Esta discrepância entre espaços físicos é intensificada pelos tons de lente utilizados em cada cena: enquanto que na zona de residência da família mais pobre são utilizados tons mais escuros, que transpõem um enorme negativismo, e gerando alguma repulsa no público, nas cenas em que surge a moradia da família mais rica são utilizados tons muito mais claros, com muita luz, sendo este o ambiente mais agradável presente no filme.

 

Como não pretendo “arruinar” com spoilers a eventual experiência dos leitores, abstenho-me de prolongar a minha exposição sobre Parasite. Resta-me dizer que este é, de facto, um dos melhores filmes de 2019, difícil de classificar em termos de género, com um enredo nada expectável e um final que deixa alguma abertura para o surgimento de teorias (e quem sabe, uma possível continuação).

 

Ana Machado

(Aluna de Mestrado em Forense e Arbitragem) 

 

08
Nov19

Humorista no séc. XXI

Jur.nal

(Imagem: NiT)

 

Vivemos numa altura em que a sociedade critica os jovens por tudo e por nada. Vêem-nos como seres impessoais, que já não se apaixonam da mesma maneira, que estão constantemente agarrados a um ecrã demasiado ocupados com a opinião dos outros para levantar a cabeça e ver o que o mundo tem para oferecer. Face a esta ideia distorcida da nossa geração, personalidades como o Pedro Teixeira da Mota vêm provar que nós conseguimos estar 1 hora sem sequer pensar em ir ao telemóvel.

 

É um humorista que sabe o que faz. Criou, através do podcast e do Instagram, uma relação extremamente forte com os seus ouvintes e seguidores e isso sente-se nos seus espetáculos ao vivo. Ainda que possa haver muitas opiniões diferentes sobre o tema, penso que a proximidade de idades entre ele e os seus ouvintes ajuda também a fazer do próprio o fenómeno que é. Podemos contar pelos dedos das mãos as pessoas que comparecem ao espetáculo dele que não fazem parte da sua faixa etária porque a verdade é que, ainda que seja um jovem cheio de talento para o que faz, o tipo de humor que apresenta não é para todos e certamente não é para pessoas mais velhas, mas ele não parece muito preocupado com isso.

 

É aqui que voltamos ao ponto inicial. Ora, se a sociedade nos critica por estarmos constantemente atentos ao que se passa na vida dos outros e não na nossa então, quem melhor para gozar com a nossa geração do que nós? E o Pedro Teixeira da Mota sabe fazer isso melhor que ninguém. No seu espetáculo de stand-up denominado de Caramel Macchiato, o humorista consegue gozar com todo o tipo de personalidade, desde o João Gabriel à Rita Ferro Rodrigues, e todo o tipo de situação, desde ir morar sozinho a uma rapariga do Porto que observava nuvens, sem nunca se preocupar em ferir suscetibilidades e, ora aí está, outro grande ponto a seu favor. O facto de ser jovem e estar no ramo da comédia há pouco tempo faz com que seja totalmente verdadeiro e transparente nos seus comentários e críticas, a maior parte delas tudo menos construtivas mas, na verdade, é isso que se espera e se quer dele pois foi essa a reputação e imagem que criou ao longo dos anos.

 

A plateia não parou de rir o espetáculo todo, muito provavelmente porque qualquer pessoa ali se conseguia identificar com ele e com os temas falados. Ouviram-se aplausos durante todo o tempo e até isso foi razão de gargalhada.

 

Beatriz Pires

(Aluna do 1.º ano da Licenciatura)

 

07
Nov19

Novos Sons #8 - Jesus is King

Jur.nal

Kanye West - Jesus is King (outubro)

 

 

Admito que desde o Yeezus, sexto álbum do Kanye lançado em 2013, cada vez levava menos a sério o seu trabalho ou mesmo a sua dedicação à reputação que tanto lutou para conquistar. Versos imortais como Prince William's ain't do it right if you ask me 'Cause if I was him, I would have married Kate and Ashley, fizeram-se substituir por videoclips de orgias com a Taylor Swift e tweets controversos em apoio à presidência de Donald Trump.


Para ser sincero, até ao lançamento do Kids See Ghosts, uma mixtape lançada com o seu protegido Kid Cudi em 2018, a única coisa relevante que o Ye tinha lançado foram as Yeezy Boost 350 V2.


2018 trouxe-nos ainda Ye, um álbum e uma promessa. Um álbum paupérrimo de conteúdo, mas com boas colaborações e uma promessa de que um dia, algures no ano de 2019, talvez com 3 ou 4 adiamentos, lançarei o meu primeiro álbum de Gospel.


Das orgias ao Gospel era um salto enorme. Maior do que a perna, diriam alguns. Mesmo assim, e tendo perdido a minha confiança neste homem em 2013, eu sabia que se houvesse alguém a fazer um álbum de Gospel, quente o suficiente para chegar a #1 no Billboard 200, era ele.


 O projeto foi-nos primeiramente apresentado como Yandhi, a fusão entre Ye (um dos muitos nomes pelo qual é conhecido o rapper americano) e Gandhi (sim, o próprio!). Um sucessão de Leaks fez com que o projeto fosse várias vezes adiado, tendo mesmo sofrido uma alteração de nome para Jesus Is King.


Jesus is King é um projeto ousado. Sente-se uma clara maturação no som do Kanye, uma seleção mais correta das colaborações e um uso excecional do seu grupo coral de Calabasas, criado juntamente com o seu novo mais recente projeto comunitário, o Sunday Service.


O rapper mostra-se com preocupações diferentes, como a marca que deixará no mundo, sempre dum ponto de vista muito intimista e familiar. Debate também sobre como descobrir Deus influenciou a sua vida e descoberta por um som coeso.


A sua música foi sempre marcada por instrumentais quase que cinemáticos, futuristas e mesmo peculiares. Foram sempre contra a corrente de tudo aquilo que estava trending. Agora, 12 anos depois de Graduation e 808 & Heartbreak, sinto que finalmente estamos a chegar ao End Game do verdadeiro som do Kanye.


Ele não é um trapper a falar de codeína com 7UP, não é um J Cole ou um Kendrick prontos para mudar a sociedade com os seus versos woke, muito menos é o Bryson Tiller ft.Chris Brown & Drake a fazerem a música preferida da tua namorada. Ele é senhor das suas convicções, que em 2019 nos trouxe o rap que ele acha que o Senhor gosta. O rap consciente e o de fusão, duas características fundamentais deste artista, estão a voltar a ser relevantes depois de 6 anos de pura dominância do trap e algum rap vazio, em conteúdos relevantes. Com este álbum, veio só mais uma vez mostrar que está dois passos à frente de quem quer fazer-se de diferente numa indústria onde já ninguém sabe ser diferente e coerente.


Não sou o maior fã do tema do álbum, acho até que tanto Jesus no álbum o pode tornar enfadonho para quem não está pronto para ver a bigger picture.


Em suma, é um álbum que vale a pena ouvir, não com a esperança de ouvir trap de discoteca ou o mesmo flow do Zara G em todas as músicas da Wet Bed Gang. Para quem aprecia boa música, este álbum é necessário.

 

Hugo Buque

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

01
Nov19

Joker: tudo menos uma piada

Jur.nal

 

Esta é, provavelmente, apenas mais uma das milhares de críticas — ou meras opiniões — que vão ler acerca do novo filme de Todd Phillips, Joker. Todos os dias têm sido publicadas dezenas delas online. Os mais apaixonados pela arte que é a excelência do cinema demoram a processar aquilo que viram nos olhos de Coringa.

 

Arthur Fleck é feliz quase sempre — excepto quando sorri. Tanto o entende que o deseja a todos: que sorriam. Para que, no rasgão ensanguentado, possam sentir a sua dor.

 

JokerJokerJoker!”

 

É tudo menos uma piada. É o relato de um artista de stand-up comedy cujo sonho a realidade de outros levou ao fracasso. É a linha ténue que separa a esperança da compreensão da sua desistência. É o testemunho de um ser humano levado à loucura pela sociedade desgastante que o envolve. É o bullying perpetuado pela violência. É uma comunidade que segrega quem ousa a diferença. É o medo de uma profundidade que não se vê da superfície. É a maldade de gente que não suporta sorrisos maiores do que os seus.

 

Não há como não criar empatia por Arthur Fleck. Sentimos tudo o que ele sente. Vivemos a mesma raiva, a mesma dor, o mesmo cansaço, a mesma frustração e a mesma inevitabilidade de enlouquecer. Não só o compreendemos como o desculpamos. O que censuramos é o sistema corrosivo que se alastra em Gotham, cidade permeável à violência que, aos poucos e poucos, o suga para os becos mais refundidos da sua brutalidade, fazendo surgir Coringa.

 

JokerJokerJoker!”

 

É a solidão aliada à frieza. É a condição da pobreza que cheira ao vício do tabaco. É a repercussão do engano e da mentira. É a certeza de que o acaso é reduzido quando existe abuso. É o constante menosprezo das doenças psicológicas. É o ignorar das ansiedades e das depressões. É a sensação de cansaço derivada da incapacidade de lidar com mais sofrimento. É a conotação da infelicidade enquanto fraqueza. É a transformação do ser humano no criminoso. É a fuga ao pensamento tal é o medo da compreensão (porque somos mais felizes quando ignoramos, quando não sabemos, quando não compreendemos e quando nem tentamos).

 

Estamos perante uma obra-prima que trouxe consigo o desconforto da realidade. Incomoda porque é verdadeiro, porque é transparente, porque é puro e duro na representação da sociedade em que vivemos. Nada na elevação desta sublime criação é inocente. Tudo é rigorosamente pensado para o impacto.

 

Que qualidade cinematográfica, da frieza da imagem à sonoridade calorosa. A escolha das analogias. A profundidade dos paradoxos. O pormenor de cada perspectiva. O detalhe da mensagem de cada cena. A representação subliminar de uma poesia. Cada enquadramento traz consigo uma tradução perturbadora da realidade.

 

Este é o reflexo de todos nós, encarnado por um actor de outro calibre cuja interpretação é soberba. Joaquin Phoenix abraçou Joker de uma forma tão intensa que nos fez querer abraçá-lo do início ao fim da sua história. Trouxe à vida a personagem sob a pele mais humana em que alguma vez o vimos e, com a mesma ousadia com que se largou a si próprio, numa transição única abandonou Arthur Fleck.

 

Vejam, revejam e voltem a ver. Vale imensamente a pena. No final, guardem o sorriso ensanguentado desfeito por uma lágrima de tinta — e não se esqueçam de sair “dançando”.

 

Catarina Teles de Menezes

(Licenciada pela NOVA Direito. Antiga redatora do JUR.NAL)

 

30
Out19

IN MEMORIAM - Diogo Freitas do Amaral [1941 — 2019]

Jur.nal

No passado dia 3 de Outubro de 2019, deixou-nos o Senhor Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral. Tendo-me sido pedido, pelos estudantes da Nova Direito, um testemunho na qualidade de ex-aluno e de ex-colaborador, presto-o sem hesitar, embora não sem contida emoção.

 

Vem, desde logo, à memória a aura carismática do grand Seigneur Professor-Pedagogo. Inteira e apaixonadamente doado à tarefa da renovação do estudo do Direito, as suas aulas ao 1.º ano do curso jurídico da Nova, mais problemáticas do que dogmáticas, produziam vivíssima impressão nos estudantes: relembro, por exemplo, envolventes discussões sobre a questão da existência de um «estado de natureza», com o Professor a desafiar os alunos a terçarem armas sob as antagónicas bandeiras da dupla Aristóteles e S. Tomás ou dos modernos Hobbes, Locke e Rousseau, com as suas distintas antropologias; ou vibrantes desenvolvimentos doutrinais acerca dos elementos essenciais do conceito de Direito, designadamente sobre o lugar aí da coacção; ou a apologia, não sem uma sugestiva invocação de Antígona, da necessidade de um direito anterior e superior ao direito posto, i.é., do Direito Natural.

 

Recordo ainda o académico que, sem cessar, procurou fazer compreender, a um amplo público, a essência do fenómeno político e os grandes momentos, figuras, ideias e ideais do pensamento político ocidental (Introdução à Política – 2014; História do Pensamento Político Ocidental – 2012). E que quis legar à posteridade um trabalho reflexivo sobre a sua concreta existência de homem político, de pai-fundador de um novo Regime, que queria mais inclusivo do que as ordens políticas nacionais que supostamente o prefiguraram ou do que as hipotéticas alternativas de pendor não democrático-ocidental (ver memórias políticas em três volumes). Trabalho esse acompanhado pela consideração e ponderação da(s) experiência(s) de homens políticos seus contemporâneos (Glória e Tragédia de Gorbatchov – 2012).

 

Penso também no seu continuado e persistente esforço de edificação, em perspetiva jurídico-política e jurídico-pública, de um olhar sobre o percurso histórico da comunidade política portuguesa e as marcas nele deixadas pelos «grandes homens de Estado», designadamente os que entendeu terem contribuído para elevar Portugal aos mais altos patamares de civilização e de desenvolvimento integral. O que deu origem à emergência de um notável corpus de estudos – Em que Momento se Tornou Portugal um País Independente (1996); D. Afonso Henriques: uma biografia (2000 - 1.ª edição); D. Manuel I e a Construção do Estado Moderno em Portugal (2003), Do Absolutismo ao Liberalismo: as Reformas de Mouzinho da Silveira (2008); D. Afonso III: um grande homem de Estado (2015). Enfim, todo um trajecto que terá culminado num dos seus últimos livros, contendo uma leitura abrangente da História Pátria: Da Lusitânia a Portugal (2017).

 

Agora, não mais será possível continuar o (meta-)diálogo sobre o sentido e a viabilidade de Portugal na Europa e no Mundo, o qual tem acompanhado a contemporaneidade portuguesa (Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, António Sérgio, Franco Nogueira…), sem considerar a visão do saudoso Professor. Destacaria, muito em especial, uma lição contida nas derradeiras páginas de Da Lusitânia a Portugal: o Portugal pós-imperial será viável enquanto País independente («independência possível na interdependência necessária», citando o seu bem conhecido Giscard d'Estaing), se, para além da radicação europeia, buscar também apoio num pilar extra-europeu «de segurança e contrapeso».

 

Os referidos interesses histórico-políticos terão, em parte, justificado a última etapa do ensino de Freitas do Amaral, agora fortemente dedicada à história das instituições, à história das instituições portuguesas e à história do Estado e do Direito Público (no Direito Administrativo Especial, centralidade do estudo dos tipos históricos de Estado). Foi um privilégio tê-lo presenciado de perto: a forma intelectual não havia sido fundamentalmente beliscada pelo tempo.

 

«Last, but not least» (num tour de phrase característico de Diogo Freitas do Amaral), porque o saudoso Mestre não escondia mas, pelo contrário, sempre queria tornar transparente a “opção fundamental” que o guiava, não poderia, ainda, deixar de evocar aqui o Cristão que, na vida pessoal e na vida pública, sempre procurou – e confessou – inspirar-se «na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo». Requiescat in pace.

 

Pedro Velez

(Professor na NOVA Direito. Aluno, orientando e co-regente de várias disciplinas com o Prof. Diogo Freitas do Amaral)

 

29
Out19

Novos Sons #7 - 2020

Jur.nal

Richard Dawson - 2020 (outubro)

Nota: O Artigo começou a ser escrito dia 21 de Outubro de 2019 e acabou de ser escrito dia 29 de Outubro de 2019.

 


2020. É 2019 e faltam 73 dias para 2020. Mas, antes, ainda temos o dia 31 de outubro, “the end of the world”, como descreveu Timothy Endicott, o Professor de Oxford que foi acolhido pela nossa faculdade para dar uma palestra sobre o Brexit. Faltam então 10 dias para o fim do mundo. 10 dias para o dia da revelação. 10 dias para o dia do apocalipse. E, 20 dias antes da babilonização do Reino Unido, Richard Dawson publica o que aparenta ser um grito final do povo inglês, um sumário de tudo o que os britânicos passaram e sofreram nestes lentos anos de dor, angústia e sofrimento. É, por um lado, um choro existencial, angustiado com uma sociedade que pouco quer saber dos seus cidadãos e, por outro, um suspiro de alívio. É um ensaio sobre um país moribundo, sobre um governo que pouco quer saber de quem realmente importa e sobre um povo cada vez mais desligado da sua própria realidade, e uma homage ao inglês, seja lá quem for, que entrega o seu corpo à escravatura assalariada, num ato de inocência e dor que Dawson tão bem representa na sua pintura avant-folk do Reino Unido de 2019.


Em primeiro lugar, há que dizer que Dawson não é conhecido, mas devia sê-lo. Em vez de preferir a fama, Dawson esconde-se na penumbra do mundo musical, até mesmo do mundo folk, preferindo a coragem do experimentalismo à segurança da simplicidade, com álbuns com desde quatro tracks de dezasseis minutos a curtas baladas acústicas, Newcastle-upon-tyne a Seattle ou qualquer outra grande capital de folk, e até mesmo música mística islâmica, o tal Qawwali, a uma sonoridade mais típica do genre. As suas letras invocam um detalhe e uma atenção aos pormenores do dia-a-dia semelhante a Sun Kil Moon, mas com um pessimismo marcadamente inglês e irónico, não tão americano nem tão sombrio, rindo-se do caos, da dor e da desgraça, enquanto que a sua música invoca uma sensibilidade folk que não tem medo de quebrar as barreiras e fronteiras tão bem definidas há séculos pelo estilo (tanto que alguns até o poderiam chamar de Judas, como ele próprio já o fez no seu álbum Nothing Important).


Antes de entrar em 2020, há que referir que o álbum não viria a nascer se não fosse pelo seu antepassado, o Peasant de 2017. Em Peasant, como se fosse uma pintura de Brueghel ou de um dos mestres da Alta Idade Média, vemos um retrato de uma sociedade medieval, pintada por um som campestre e pastoral simbólico de uma era há muito ultrapassada e cuja beleza é superada pelos detalhes sombrios ou hilariantes das personagens por Dawson retratadas, da prostituta ao mendigo ou do ogre ao pai que vende os filhos para ter o que comer. Mas, se Peasant é os Netherlandish Proverbs, 2020 é uma fotografia tirada a drone sobre qualquer cidade contemporânea. Aqui, as personagens são pessoas que conhecemos, não pormenores de um quadro num museu. São o funcionário público, o dono de um bar na terrinha, o trabalhador precário da Amazon e o renegado social, o hikikomori. 2020 é os Netherlandish Proverbs de agora, o retrato de uma sociedade a ruir e das vidas ignorantes desse facto mas arrastadas à mesma.


2020 abre com uma erupção de som, uma guitarra distorcida ao ponto de soar como um martelo numa linha de montagem, um grito industrial digno de Ode Triunfal que nos puxa para a vida de um funcionário público cuja rotina é mais próxima do Fordismo do que de uma vida minimamente saudável. Dawson grita as instruções como um patrão a um megafone: “Open your eyes, time to wake up, shit, shower, brush your teeth, drain your cup, wolf down a bowl of ready-brek, fasten a tie around your neck”. Terminado o processo de construção, e seguramente preso por uma gravata, o funcionário público é lançado para o seu mundo juntamente com os outros milhões de prisioneiros da rotina, que por toda a cidade se levantam para um trabalho que odeiam. O funcionário público, que na verdade pode ser qualquer um, odeia a sua vida, odeia o seu emprego, odeia os seus colegas, odeia o público em geral, mas sente-se impotente perante a gigante e kafkaesque máquina burocrática que o esmaga e que o que força a notificar pessoas com deficiências para que os seus benefícios sociais sejam cortados. Ele é apenas mais uma engrenagem no sistema que ele tanto detesta, mas pouco pode fazer para o mudar. E ele está farto. Fica sentado no seu escritório a enfardar batatas e a sonhar com a morte violenta dos seus colegas coscuvilheiros. Mas, num ato de rebelião extrema, digno de um conto de Camus, o funcionário público liga ao seu patrão para o avisar que está doente, e passa o dia a jogar Call of Duty em casa. Com isto, Civil Servant torna-se na história de um servo preso na máquina capitalista e neofeudalista do sistema social e hiper-burocrático do Reino Unido que se vira contra a máquina que o paga e alimenta, e Dawson conta-a para mostrar a importância de todas as revoluções, mesmo as mais pequenas e “insignificantes”.


Depois dos apetrechos eletrónicos e da força industrial de Civil Servant, The Queen’s Head abre com um dedilhar de guitarra acústica de mão dada com um baixo levezinho, puxando a orientação do álbum para uma soundscape mais indie folk e mais calmo, ao mesmo tempo que Dawson nos tira do mundo urbano e nos leva para o mundo rural. No entanto, Dawson cedo levanta a voz e introduz uma bateria que inunda os nossos ouvidos tal como como as margens do Humber inundam a vila arquetípica da vivência britânica que Dawson cria nesta canção. As cheias são mais comuns do que parece no Reino Unido, e as personagens principais desta história apressam-se para salvar o seu negócio para não ser arrasado pelas águas imundas do rio. Percorrendo esta nova atlântida dos Midlands, a família depara-se com pessoas que perderam tudo, pessoas que culpam o governo ou os imigrantes por tudo e pessoas a ajudarem os outros. Apercebem-se do quão pequenos são ao enfrentarem a gigante força da natureza, mas encontram conforto numa comunidade que, indiferente à sua pequenez, faz tudo para ajudar os seus vizinhos. É uma história representativa da força que a comunidade tem perante o mundo moderno, e da derrota do individualismo perante a natureza, sendo assim um apelo à reconstrução dos laços de solidariedade e vizinhança num mundo cada vez mais desconexo e hostil.


The Queen’s Head passa a bola para Two Halves, uma canção que nos lança para um campo de futebol indeterminado, contando uma história intemporal e expondo uma relação entre pai e filho que, quando joga à bola, parece tudo menos saudável. O futebol é um desporto feito de metades, basta olhar para a linha do meio-campo ou considerar as duas partes de 45 minutos cada, excetuando tempos de compensação. Temos também duas metades na figura do pai e do filho, cada um revendo-se no outro, um gritando para motivar e outro esforçando-se para causar orgulho. Enquanto a derrota do filho se torna cada vez mais provável, o pai perde progressivamente a cabeça, e os seus gritos tornam-se tão altos que ocupam o estádio inteiro, criando a ilusão de uma multidão a guinchar: “Man on!”. No final do jogo, o filho apercebe-se da desilusão que criou no pai, que este tenta esconder para não perder uma única pinga de masculinidade. O pai diz ao filho para ser persistente, e agora se focar no próximo jogo, mas é evidente que está desiludido, não só com o filho mas consigo próprio. O filho e o pai são fragilmente retratados por Dawson numa caracterização sublime, mas animada por um som próprio do estádio, que procura representar um pai desiludido com o filho e consigo próprio, um filho triste por desiludir o pai, e ainda uma geração ciente das suas falhas mas crítica das sucessoras, e uma outra geração condenada a enfrentar um mundo que poderá vir a ser a sua desgraça. São estas as duas faces da história que Two Halves quer contar.


O tom acelera e o volume aumenta enquanto Dawson entra de rompante na quarta canção, Jogging, numa correria característica do tema que decide representar e da ansiedade que escolheu enfrentar. Jogging é sobre saúde mental, ansiedade social e auto-piedade, e Dawson dispara logo a rematar com estes temas, sem se conter. Jogging conta a história de um homem assustado pelo mundo exterior ao ponto de não conseguir sair de casa, ao ponto de ficar imediatamente contraído pelos olhares flutuantes no autocarro, e ao ponto de ter abandonado o seu posto como conselheiro académico por um trabalho freelance, preferindo o conforto e a hibernação à realização pessoal que alcançava ao trabalhar com crianças. Jogging conta um conto que já ouvimos vezes sem conta, a minimização do indivíduo pela tecnologia, pela economia e por uma sociedade hiperavançada, cada vez mais atomizada, fracionada e especializada. A guitarra distorcida, constante pelo álbum, marcha de mão dada com as letras, evocando uma montagem à anos 80, enquanto que o bridge robótico nos aproxima ainda mais da distopia que Dawson vai construindo ao longo do álbum através das sua personagens. Aqui, o herói de Dawson encontra um escape no jogging, apercebendo-se lentamente da apatia, da indiferença e da intolerância (representada pelo crime de ódio contra uma família curda que Dawson descreve no quarto verso) cada vez mais prevalente no seu país, mas apercebe-se do quão imponente é perante estas atrocidades do dia-a-dia, culpando a sua paranóia. No entanto, Dawson conclui a canção ao retratar mais uma vez o heroísmo do cidadão normal, sendo que a canção termina com o sujeito a angariar fundos para a Cruz Vermelha e a ganhar a coragem precisa para participar na Maratona de Londres.

 

Após a correria de Jogging, entramos no tom mais calminho mas certamente mais aterrador de Heart Emoji, uma tragédia amorosa digna de século XXI, onde um marido e pai descobre que a sua esposa o tem andado a trair através de um emoji de coração avistado pelo canto do olho durante a noite. É uma canção triste, com um falsetto choramingão a molhar a história de amor e de desamor incrivelmente pouco romântica que Dawson nos conta. Conheceram-se no emprego, trabalhavam os dois num bar a servir Guinness’s para pagar as propinas, e eventualmente casaram-se, e tiveram uma filha.Toda uma história (deprimente, sim, mas uma história de qualquer das formas), uma vida juntos, a terminar com um emoji. Em duas palavras, e no que será o ponto mais deprimente do álbum, Dawson resume a mensagem do seu álbum. O coração, a paixão, a história de cada um dos seus personagens contrastado com o emoji, a tecnologia, a sociedade moderna do mundo onde eles habitam. Heart Emoji é a quinta canção do álbum, situando-se mesmo a meio, e reduz tudo o que Dawson quer dizer a uma dialética: futuro contra passado, felicidade contra tristeza, empatia contra apatia, indivíduo contra sociedade. São as two halves de 2020, um álbum que só com uma das suas metades condena por completo a nossa atualidade, e que com uma tragédia intemporal de amor não-correspondido e traição expõe o nossa proximidade tecnológica, responsável pelo nosso afastamento emocional cada vez mais profundo.


Black Triangle surge em imediato e óbvio seguimento a Heart Emoji, com um som aterrador, arrepiante e curiosamente vintage, evocando Stranger Things ou uma qualquer relíquia da moda, e aparece para nos contar a história de um avistamento de Ovni, reparado por dois jovens assumidamente não-bêbados no parque de estacionamento de um Aldi. Um dedilhar folk é acompanhado por uma guitarra elétrica, fornecendo um choque de culturas enquanto duas civilizações chocam também. O Ovni muda a vida dos dois jovens: um torna-se num engenheiro mecânico com uma família e relação estável e uma quinta convertida em casa; e o outro torna-se na personagem trágica que Dawson já expôs em Heart Emoji (pelo menos é o que parece), que se torna num vendedor de teorias de conspiração a la Alex Jones no Youtube. O Triângulo Negro (salientando aqui a forma da nave, um triângulo negro) avistado pelo protagonista da canção acaba por se tornar num ponto de ligação entre este e a sua filha, e os dois aproveitam o fim de semana juntos a acampar na natureza, um escape da tensão que permaneceu após o divórcio. Isto é, até serem raptadas pelo mesmo triângulo. Um fim certamente irónico, mas que de certo modo traz conforto e que nos faz considerar que se calhar o melhor é mesmo ser levados deste mundo para outro, talvez melhor.


Chegamos ao Fulfilment Center representativa da distopia que Dawson demorou um álbum a criar (ou a imitar), ao mais adequado símbolo de uma sociedade hipercapitalista e hiperatomizada, e à história dos trabalhadores forçados a embrulhar tudo, de Playstations a máquinas de café, de cartas de tarot a legos, por um mísero salário, durante horas intermináveis que nem o Natal consegue interromper. O protagonista de Fulfilment Center é tudo menos protagonista no seu dia-a-dia tendo, como qualquer um, sonhos (como ter o seu próprio café), rotinas (como apanhar o comboio na madrugada) e pessoas que ama (como a família que não o terá presente no jantar de Natal), e tendo um trabalho escravizador e aterrorizador, que tira a energia aos novos, a saúde mental aos velhos e a vontade de viver a qualquer um. No seu dia-a-dia, vê pessoas a desmaiar, a ter ataques de pânico e a convulsionar no chão, enquanto é obrigado a trabalhar horas a fio e sem intervalos de casa de banho (explicitamente explica que tem de urinar para uma garrafa de plástico para não perder tempo) para corresponder às quotas que lhe são impostas. Tudo isto enquanto uma voz robótica e distorcida o esmaga com instruções ou, ainda mais medonhas, mensagens de motivação por um altifalante distante. É um Modern Times que é certamente moderno e adequado ao nosso tempo, mas certamente que não é cómico. Tem 10 minutos de duração. É, enfim, um épico para a nossa época. Mas não serve para enaltecer um país. Serve para enaltecer o povo descontente e moribundo face à máquina capitalista e burocrática de empresas-Estado como a Amazon, adamastores que engolem tudo o que pode ser comprado, de pessoas a outras empresas. É, também, um momento apoteótico para Dawson. É, por falta de melhores palavras, o seu suplício por mudança. Por empatia. E por um mundo melhor.


Aterramos de Fulfilment Center em Fresher’s Ball, uma gentil balada folk, ao ritmo de lindos arranjos eletrónicos, sobre um pai a deixar a filha na universidade, em Leeds, a várias milhas de distância da casa onde cresceu e onde o pai vai agora morar sozinho. A paternidade volta a surgir como tema, e a canção torna-se no momento mais íntimo e bonito do álbum, onde a voz ríspida mas calmante de Dawson nos embala ao contar esta história de amor, saudade e despedida. Serve para nos mostrar que mesmo num mundo de fulfilment centers, traições, ovnis arrepiantes e depressão financeira há sempre algo que nos faz correr pelo labirinto, fugindo do minotauro que nos quer devorar. É um abraço antes do fim do mundo. Uma gentil festinha na cabeça antes de tudo acabar. É um adeus, mas um adeus terno e suave, porque o caminho até ao adeus certamente não o foi. É saber que o fim está a chegar, mas saber também que tivemos muito por viver, ganhámos muitas histórias para contar e que, afinal, a longa e enrolada estrada até ao nosso adeus valeu toda a pena.


Antes de nos largar na última canção, Dawson repete o que fez em Peasant e deixa um breve interlúdio de poucos segundos no penúltimo track do álbum, sempre apelidada de No-One. Aqui, ouvimos um cão a gemer e a ranger com o frio, audível pelo vento forte que ressoa como um vulto por detrás do suplício do cão. E, com este omen, entramos em Dead Dog in an Alleyway. Retorna o som pesado e eletrónico para um final digno de acabar com um álbum destes. É-nos contada a história de um sem-abrigo que se depara com um cão morto na neve. Ao longe, no “labirinto de neón”, ouve-se o fim do mundo. Gritos, vómito, sirenes, uma cidade a derreter. No Nando’s local, música, talheres e risos de criança quase faz parecer que está tudo bem. No entanto, no beco escondido por detrás do restaurante, o nosso protagonista sabe que o fim está por chegar. Gritos pulsam dos pulmões de Dawson para nos mostrar a agonia do seu sujeito, que foi tratado como lixo a vida todo, e cujos suplícios de ajuda serão sempre não-correspondidos. Ele sabe que vale tanto como o cão morto no beco. Curiosamente, é a canção mais animada e pop-friendly do álbum. É um fim contrastante, mas representativo de o que Dawson quis retratar desde do início.

 

2020 é uma daquelas obras de arte raras que transforma um período histórico na sua tela, explorando-o exaustivamente e detalhadamente, embrulhando-o de uma forma cativante e fácil de compreender para futuros historiadores e curiosos olharem para trás e aperceberem-se que tudo melhorou. Certamente não é único, a desgraça do Reino Unido já foi contada mil e uma vezes, basta olhar para os filmes de Danny Boyle (Trainspotting, 1996) ou de Ken Loach (I, Daniel Blake, 2016), no entanto, a exposição de Dawson é muito diferente. É sublime, é bonita, é arrepiante, é subtil, é in-your-face e é honesta e humilde. Dawson revê-se em todas as suas personagens, talvez seja por isso que têm tanto em comum umas com as outras, e revê-se num povo acima de tudo desiludido, mas também esperançoso. No dia em que acabo este artigo, o Brexit é adiado para 2020. A data do fim do mundo é claramente flexível, e até 2020 chegar, muito pode mudar.

 

Tomás Burns

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

24
Out19

As Nações não se forjam nos Tribunais

Jur.nal

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O início da passada semana ficou marcado, no país vizinho, pela condenação de nove líderes catalães. A necessidade de tais penas, bem como os tumultos que sucessivamente vêm ornando o território Catalão ilustram bem o carácter ilusório da nação que a Constituição de Espanha chama de indissoluble e española[1].

 

Bem sei que muitos daqueles que têm discutido tal problemática se têm centrado no panorama jurídico. É ou não o referendo legal? Pode ou não ser referendada a independência? Foram ou não os independentistas bem condenados? Esta é uma discussão tão válida quanto estéril caindo numa petição de princípio. Será legal tudo o que for conforme à lei. A discussão terá que dar um passo atrás e atender à legitimidade

 

É na sociedade, e não já num direito acrítico, que a legitimidade do Estado se encontra e onde se funda a legitimidade da Constituição. Deste contexto, não pode deixar de resultar como óbvio que o normativo não deve esquecer a realidade social que lhe subjaz e de onde resulta a sua vigência, tornando-se, caso contrário, numa mera ficção jurídica.

 

É pois neste ponto que a discussão se complica, já que entram em confronto a sociedade e o direito, o sentimento nacional catalão e a unidade do Estado espanhol, a maioria espanhola e a minoria catalã. Aqui, o certo e o errado só poderá ser escrutinado pela filosofia política e, portanto, aparto-me de tal questão.

 

Tendo localizado o problema, importa agora compreender a realidade plurinacional em que vive o país irmão que, sendo indubitavelmente um Estado unitário, nunca poderá honestamente ser qualificado como nação. De resto, os séculos de integração espanhola não nos podem fazer esquecer que, até ao século XV, a Catalunha era um principado independente dentro da Coroa de Aragão usufruindo de instituições próprias, língua própria e de uma cultura de oposição às vizinhas França e Castela que, em parte, ainda mantém.

 

A verdade é que, longe de constituírem uma união pacífica, Madrid e Barcelona têm-se encontrado, por diversas vezes, em posições opostas nas maiores crises de Espanha.

 

Veja-se, a este propósito, a Guerra dos Segadores, em que o povo catalão (tal como o português, de resto) se insurgiu contra o centralismo de Filipe IV, ou a Guerra da Sucessão espanhola em que a Catalunha tomou partido contra aquele que viria a ser Filipe V de Espanha (cuja vitória condenou a pouca autonomia de que esta região ainda usufruía e gerou uma extensa repressão contra qualquer demonstração de cultura catalã). Observe-se, ainda, mais recentemente, a oposição da maioria republicana na Catalunha à ascensão de Franco que, saindo vitorioso, aboliu a autonomia da região e perseguiu qualquer amostra de nacionalismo catalão.

 

Neste contexto de afastamento, seria, curiosamente, a tentativa de aproximação do governo de Zapattero, com a reforma do estatuto de autonomia, atribuindo maior liberdade à região na sua gestão política e financeira, que despertou a crise actual.

 

Assim, a oposição da direita espanhola, bem como o chumbo pelo Tribunal Constitucional de catorze artigos instrumentais para as pretensões catalãs vieram imprimir neste povo o sentimento de que não conseguiriam mais autonomia sem suprimir os laços ao Estado espanhol.

 

Para além disto, a crise económica e financeira e os sacrifícios exigidos aos catalães precipitaram o conflito. Agora, a pertença a Espanha também doía no bolso! De resto, são as transferências fiscais de Barcelona para Madrid que originam a primeira consulta popular sobre a independência em 2014 e, posteriormente, o referendo de 2017.

 

Perante tal panorama, a História não pode voltar atrás. A Espanha enfrentará nos anos vindouros o derradeiro desafio à sua unidade e sistema político.

 

No que respeita à unidade da soberania, a evolução actual de partilha dos poderes do Estado, quer a nível interestadual quer a nível infra-estadual, levará, nas próximas décadas, e não só em Espanha, à diminuição da importância do Estado central. Estando, neste caso, a sua legitimidade já diminuída, a comunidade política de Espanha será mais cedo ou mais tarde forçada a alargar o leque de poderes das comunidades autónomas.

 

Porém, não se pode duvidar que, afastado o sentimentalismo, o impulso e o populismo, a maioria dos catalães prefere a estabilidade e o cosmopolitismo de Espanha à incerteza e isolamento de uma independência. Cabe, porém, ao governo de Madrid mostrar que a Espanha não é uma entidade externa e opressora mas sim a comunidade dentro da qual a nação catalã se poderá desenvolver e prosperar.

 

Neste sentido, os partidos espanhóis não poderão ter medo de apoiar as nacionalidades. Só com uma política de tolerância e negociação se poderão afastar os preconceitos nacionalistas (de ambos os lados) e salvar a unidade e o sistema político espanhol. A incerteza neste quadro político acabará por deixar o protagonismo ao VOX que, com o seu nacionalismo espanholista, ameaça não só a saúde da democracia espanhola como a própria paz entre os espanhóis (de diferentes nações, mas também de diferentes classes sociais, géneros e orientações sexuais).

 

Para além disto, não é despicienda a questão da chefia de Estado. Não se pode ignorar que a Catalunha é maioritariamente republicana. Contudo, como Chefe de Estado numa monarquia constitucional, Filipe VI tem a oportunidade de agir como conciliador e colocar-se acima das tricas partidárias. A monarquia poderá, se bem utilizada, ser uma vantagem a favor da união tal como, após a morte de Franco, o foi na transição da ditadura para a Democracia.               

 

Claro que a reconversão que se impõe a Espanha não será um processo fácil, nem se poderá esperar que este seja rápido. Contudo, se conseguirem reunir sobre uma só bandeira várias nacionalidades num contexto de cooperação e solidariedade, a Espanha poderá vir a ser o balão de ensaio para a futura Federação Europeia. De facto, não é tempo de divisões, mas de união!  

 

 

[1] A Constituição Espanhola refere, no seu artigo 2º: “A Constituição baseia-se na unidade indissolúvel da Nação Espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis e reconhece e garante o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que a integram e a solidariedade entre eles.”

 

João Carrilho

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

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