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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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25
Ago20

Canção Simples

Jur.nal

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Toco-te na mão. Dá-se uma espécie de vazio, há uma pausa. E nesse compasso de espera, aguardo que o Toque volte, e traga a resposta.

Ouço-te sussurrar qualquer coisa ao Toque e espero que ele desça por ti e suba por mim. O Toque, alcança-me o dedo e por ele caminha, atravessa-me o dorso da mão, segue pelo meu braço, trepa-me o ombro, corre-me contra o pescoço e sussurra-me ao ouvido. E eu penso e sussurro ao toque, que se afasta, descendo o ombro, caindo pelo braço, atravessando o dorso da mão e caminhando sobre o meu dedo para te ir sussurrar nova mensagem. A operação vai-se repetindo, e de cada vez que o toque vem, volta mais rápido porque nós já não pensamos tanto, já não demoramos tanto tempo a descodificar as mensagens um do outro. Compreendemos que partilhamos o mensageiro, o toque é meu e teu e compenetra-nos. E de cada vez que o faz, leva um bocadinho meu e traz um bocadinho teu. E a cada impressão, torna-se menos claro o seu emissor, e tanto eu como tu, já não sabemos quanto tu tens de mim e quanto eu tenho de ti. Chegados ao limite do limite, ele não faz mais sentido e a ideia de duas máquinas de sentir cai por terra, tornando-se relevante só o mensageiro e consequentemente a mensagem, que já não é minha ou tua mas resultado indivisível dos dois. Percebemos que já não conversamos, que já não precisamos de ouvir o que cada um tem a dizer para responder ao outro, os toques ganham ritmo, e embalados ao som das nossas próprias percussões, dançamos. O movimento excita-se a si próprio e estamos rubros. E o toque, que começou toque e virou conversa, torna-se toque outra vez, porque estamos rubros.

 

Maria Manuel de Sena

Aluna do 3.º ano da Licenciatura

 

09
Ago20

Phantasus

Jur.nal

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Sou a chuva que não cai

E o sol que não doira,

A nuvem que nunca aparece

E o relâmpago que jamais estoira.

 

Sou o vento silencioso e infindável

Que vagueia errante,

Um protótipo de nada que fadado foi

A existir numa deambulação constante.

 

No vazio do preto e branco intrínseco

Vai crescendo uma glamorosa flor,

Uma rosa vermelha coberta de letras

Que me permite vislumbrar uma ínfima cor.

 

Um vislumbro ténue e desfocado,

Paradoxalmente doloroso e colorido,

Um vislumbro quimérico e distante,

Mas luminoso e portador de sentido.

 

Do sentido que naquela tarde de inverno

Com lágrimas se desvaneceu,

Do sentido que outrora julguei perdido,

Mas que avistei hoje ao contemplar o céu.

 

O céu pintou o reflexo desta rosa

Que com as vísceras rego diariamente,

Que seja ela por ti um dia arrancada

Para que o destino possa dizer que não mente.

 

Até que os deuses façam esse momento florescer

De um mero almejo não passarei,

Tudo o que julgo ser esculpido está nesta rosa,

Pelo que se a tua alma a não ler nada eu serei.

 

Esta espera é uma lâmina que me fere

O peito sem misericórdia nem pudor…

O encarnado vivo do sangue que me faz derramar

Transparece a vida do perene amor.

 

É essa vida que me suscita um desmensurado desejo de viver,

Ainda que por ora somente vivida seja através da dor…

Que venhas depressa e ilumines as minhas sombras,

Que me faças ser um trovador inebriado pela paixão e pela cor.

 

Quero contemplar o brilho da rosa escrita no teu olhar

E perceber que sentes o que jamais deixei de sentir,

Quero fechar os olhos para nos poder ver

E enfim a sensação da tua mão no meu peito conseguir.

 

André Neves

Aluno do 3.º ano da Licenciatura

22
Out19

Anónimos #10

Jur.nal

imagem anonimo 10.jpg

 

Nada. É o que eu sinto ao olhar nos olhos de quem me passa à frente.

Vazio. É aquilo que me consome a alma, que aos poucos deixa o meu corpo.

Zero. É o esforço que sinto da tua parte para me tentares acalmar estes pensamentos que só me levam à destruição.

Há quem diga que o amor basta para fazer andar uma relação. Eu nunca fui muito de concordar com essa opinião.

É suposto eu conformar-me com o facto de estarmos no mesmo patamar em que isto começou?

É suposto eu dar o litro sem cair, sem estremecer, por uma carruagem que nem andou?

Não consigo. Não sou capaz. Nunca fui de me sentar à espera, a ver se o tempo traz solução a uma situação que já vem de trás.

Posso falar em códigos, às vezes - alguns difíceis de decifrar. Mas noutras vezes sou bastante explícita e cuidadosa nas palavras que escolho proferir. Se não percebes, é porque realmente para ti nada está mal. Se assim é, isto não pode continuar.

Eu tentei. Acredita em mim quando digo que tentei. Tu sabes que tentei. É por isso que saio pela porta de consciência tranquila: eu fiz tudo o que pude por nós.

Lamento. E adeus.

 

27
Mai19

Anónimos #6

Jur.nal

Uma linha desnecessariamente necessária  

Escrevo por ela não me poder dar o que compus  

Passados desordenados 

Futuros inaptos 

Talvez me tenha tornado inevitavelmente sentimental 

Por não querer que destruas todas as passagens temporárias 

Foi por tão pouco que perdia o comboio  

Sobrando palavras por dizer 

Palavras perdidas em tempos fantasiosos  

No escuro ainda esbarro naqueles versos que não soubeste declamar 

O mais fácil desprezado... 

Esperarei por ti à beira do comboio 

Basta olhares e pernoito  

Um gesto simples inconcebível por duas almas moribundas  

Digo-te por fim que 

Desta vez espero eu que percas o comboio. 

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