Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

09
Nov19

O Evangelho segundo Kanye West: Reflexões sobre Jesus is King

Jur.nal

“Christ is essentially the exemplar, that is we are to resemble Him, not mere profit from Him.”

 

kanye.jpeg

 

Assim dizia o filósofo existencialista e cristão Søren Kierkegaard, ainda no século XIX, anos antes de Kanye West, o grande pensador da era contemporânea, lançar o seu álbum mais divisivo e controverso até agora: Jesus is King. Embora costume fazer críticas acerca do álbum propriamente dito, decidi explorar o que será o ponto focal do álbum, a relação de Kanye West com Jesus Cristo, através de um prisma cultural, filosófico e essencialmente teológico. Porquê? Porque Jesus is King é, talvez, o álbum mais importante deste ano, do ponto de vista cultural, e porque Kanye West, para o bem ou para mal, é o artista cristão mais importante da atualidade, e está aqui para ficar.

 

Jesus is King é tudo menos um álbum linear e consistente, variando entre exaltações eufóricas e flexs ou piadas comuns por toda a discografia de Kanye (e algumas delas muito más: “Closed on Sunday, you’re my Chick-fil-a”?). Tal como o álbum varia em conteúdo (ou pelo menos em forma de apresentar o conteúdo), as opiniões regurgitadas pelos inúmeros críticos de sofá (eu incluído) pelo planeta variam também. A malta religiosa parece estar toda em êxtase com Jesus is King, e com razão: afinal, podem ver a redenção de um homem outrora muito perdido ao vivo e a cores. Entretanto, a malta menos religiosa mostra-se cética, como é costume, questionando a integridade e o caminho que Kanye fez até agora, as letras esotéricas e “extremistas” da sua nova música e as decisões que o rapper/produtor assumiu durante o processo criativo, tal como a abstinência de todos os criativos envolvidos, os sunday services que roçam no cultismo e as pesadas referências bíblicas incluídas no álbum (para além da contratação de Kenny G, que acabou por ser a revelação surpresa de Jesus is King, diria eu). Entretanto, os stans vão cegamente segui-lo e os haters vão cegamente odiá-lo e deles não retiro nada. Retiro, no entanto, dois grandes pontos de cada um dos lados do debate que primeiro expus, e decidi adicionar um terceiro meu, tal como o padre da minha paróquia costuma fazer.

 

Em primeiro lugar, é inegável constatar uma verdadeira evolução a nível pessoal neste álbum. Kanye West apresenta-se mais focado e mais comprometido que nunca, inteiramente dedicado a esta nova direção que apenas recentemente assumiu, mas que sempre esteve presente no seu trabalho. Desde Jesus Walks, e passando por Life of Pablo, que Kanye tem uma relação muito próxima com Deus, sendo que nem sempre essa relação fora a mais saudável. No entanto, em Selah, de longe a melhor canção do álbum, digna de ser tocada numa Catedral, com um coro gregoriano a acompanhar, vemos essa relação a atingir o seu expoente máximo, com Kanye a invocar João 8:33-36 para anunciar que o Homem apenas será livre quando abandonar o pecado e se entregar inteiramente a Deus. Kanye sente-se finalmente livre e vê como o seu principal objetivo levar esta salvação aos outros, de modo a libertar o que ele vê como o seu povo escravizado. Chegamos ao fim da canção com uma clara referência a Lucas 10:27, à golden rule e ao mandamento de amar Deus e de amar o nosso vizinho. Ver Kanye, um homem tão consumido por uma cultura tóxica e obcecada com dinheiro, sexo e poder, a ajoelhar-se assim perante o Rei dos Reis, passa uma mensagem de esperança, que por sua vez só magnifica a sua salvação, levando-a a todos os outros. Relembra-me de Zaqueu (Lucas 19:1-10), um homem viciado pelo seu poder e odiado por todos, e que, para o choque de todos, recebeu Jesus em sua casa e rendeu-se perante a sua presença. Tal como Zaqueu, Kanye desceu da sua “àrvore”, do conforto da sua fama, para criar um álbum destruidor de barreiras e de preconceitos da indústria, como é costume dele e da sua personalidade abrasiva e controversa, mas desta vez orientado para Deus. Follow God reafirma esta orientação, sendo que esta canção foca-se mais nos problemas e conflitos que surgem na sua relação com Deus, fazendo Kanye passar-se por um autêntico Jacob (Genesis 32:24-32), com medo de se submeter à autoridade divina e ao caminho de Cristo. A canção On God, e basicamente todas as outras canções do álbum ecoam este sentimento, algumas de melhor forma que outras, e o álbum acaba com um coro Gospel a cantar que todos os joelhos se dobrarão e todas as línguas se confessarão perante o nome de Deus, claramente extraído da carta de S. Paulo aos Filipenses 2:10-11. Em Use This Gospel, vemos a primeira “evangelização” do álbum com os irmãos Pusha T e No Malice, os antigos Clipse, a discutirem as suas vivências praticamente opostas, num diálogo que acaba por aproximar os dois de Deus. Jesus is King termina e torna-se, na sua mente, no mensageiro escolhido para espalhar a Palavra e, mesmo tendo em conta toda a sua personalidade e todas as suas ridicularidades, há que aceitar o inegável progresso de Kanye a nível religioso e pessoal, e admitir a autenticidade da sua dedicação para com Deus.

 

Não obstante, a clara evolução de Kanye contrasta com a sua experiência de vida, com a sua atitude abertamente controversa e com a sua constante auto-promoção. É curioso ver a quantidade de ateus ou agnósticos não só a criticar Kanye pelo conteúdo do álbum, mas também pela sua hipocrisia, acusando-o de não ser “bom cristão”. Embora não seja uma situação tão a preto-e-branco como estas críticas a pintam, há letras no álbum e atitudes na produção que devem levantar algumas sobrancelhas. As auto-comparações com Noé em Selah, acompanhadas por uma invocação das “víboras” que João Batista expõe em Mateus 3:7 em Closed on Sunday, sendo que os fariseus dificilmente podem ser comparados à indústria do hip-hop e muito menos aos críticos de Kanye, são claramente desadequadas, e até mesmo um pouco heréticas. Em Hands On, outra canção problemática do álbum, Kanye foca a sua mira nos cristãos, acusando-o de puritanismo e de o criticar por não ser um bom-cristão. Para além de serem claramente injustas, estas críticas revelam que Kanye olha para a escritura através de uma visão própria muito fechada, e que se faz vítima em vez de tentar varrer as contradições na sua fé. Kanye obviamente está determinado a evoluir e a melhorar-se e, para isso, precisa de receber certas críticas construtivas para o fazer, e não apenas fazer um álbum gospel que nem tem muito de gospel. Um grande problema de Kanye que nós cristãos (e não só) podemos apontar é a sua falta de humildade, bem como a sua excentricidade excessiva e por vezes nociva. Não é raro Kanye comparar-se com Sócrates, Shakespeare, ou até mesmo Jesus Cristo, e não é raro Kanye lucrar com esta atitude, tornando-se numa das pessoas mais ricas da indústria no processo, bem como uma das mais arrogantes. Estes comportamentos e esta arrogância são refletidas no álbum, que reflete também a indústria do prosperity gospel, que lucra com a fé dos seus crentes e seguidores. Kanye assemelha-se mais a um pastor evangélico de uma mega-igreja do que a Jesus Cristo propriamente dito, e talvez essa semelhança até seja uma ambição do cantor. Resumidamente, falta-lhe humildade na sua mensagem e na sua pessoa. Tal como invoquei Zaqueu, invoco a figura do jovem rico, que em Mateus 19:16 pergunta a Jesus Cristo o que é que tem de fazer para alcançar os portões sagrados e entrar na vida eterna (em Selah, Kanye admite achar que já tem entrada garantida, como se tratasse de uma discoteca e não da Cidade de Deus), dizendo-lhe que tinha cumprido todos os mandamentos fielmente. Jesus responde-lhe de uma forma bastante simples e direta: “Vai, e dá tudo o que tens aos pobres”. Aqui, Jesus Cristo afirma claramente que a liberdade perfeita só vem com uma libertação completa da cobiça terrestre e de um amor ao próprio vizinho radical, uma ideia exposta na encíclica Veritatis Splendor, do Papa João Paulo II, uma reflexão sobre a doutrina moral da Igreja e o problema do Bem e do Mal, que afirma: “O diálogo de Jesus com o jovem ajuda-nos a identificar as condições necessárias para o crescimento moral do homem chamado à perfeição: o jovem, que observou todos os mandamentos, mostra-se incapaz de, unicamente com as suas forças, dar o passo seguinte. Para o conseguir, são precisos uma liberdade humana amadurecida: «Se queres», e o dom divino da graça: «Vem, e segue-Me»”. Kanye quer ser livre e sente-se libertado e salvo pela palavra de Deus mas não pode ainda afirmar-se como perfeito. Aliás, como afirma Santo Agostinho, citado na mesma encíclica, esta liberdade perfeita e plena só é alcançada na eternidade, “uma vez que ficou em nós alguma fraqueza” e “na medida em que servimos a Deus somos livres, mas somos escravos na medida em que seguimos a lei do pecado”. Surpreendentemente, como podemos ver em Selah, Kanye parece estar ciente desta escravidão do pecado e sinceramente parece querer ser libertado desta, e este álbum é um excelente primeiro passo.

 

Antes de terminar, dirijo um ponto para os críticos de Kanye e não para o homem em si, de modo a responder a algumas injustiças ou permissões excessivas e pouco construtivas, não só para o homem, como para a nossa cultura em geral. Em primeiro lugar, dirigindo-me aos cristãos apologistas de um Kanye evangelizador, tenham cuidado com quem cegamente seguem. Kanye está num bom caminho, e ninguém o pode negar, mas não pode ser visto como um profeta, como o próprio se vê, muito menos como o salvador da nossa cultura. No fim do dia, Kanye é um homem com muitas falhas, como tantos outros, com uma dedicação e adoração a Deus fora do comum e, para além disso tudo, não tenho dúvidas de que a sua intenção é boa e que ele é “boa árvore, que dá boa fruta”. No entanto, Mateus 15:20 não enaltece apenas estas boas árvores, avisa também dos “falsos profetas” e, por vezes, a falsidade destes profetas não é essencial destes mas jaz na nossa percepção deles. Tenhamos cuidado com a forma com que vemos Kanye, pois este tem muito por onde caminhar.

 

Em segundo lugar, dirigindo-me aos céticos duvidosos da religiosidade do álbum e do próprio Ye, tenham cuidado com quem cegamente opõem. Para alguns, a religião é imediatamente motivo de repúdio e até mesmo de risos, causando assim uma cascata de acusações de falta de profundidade e de hipocrisias. Há poucas coisas mais profundas que a relação de um homem com Deus, e um álbum dedicado à adoração deste Deus, de uma forma completamente nova e pessoal é um dos maiores exemplos de dedicação religiosa dos últimos tempos. É corajoso um artista, tão famoso e tão controverso como Kanye, ou como Bob Dylan, que também lançou álbuns a anunciar a sua fé, assumir esta relação, e ninguém o pode negar. E, para adicionar insulto à injúria, estas acusações de hipocrisia são no mínimo desadequadas e no máximo hipócritas também. Lembremo-nos de um dos ensinamentos mais conhecidos da Bíblia: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra (obviamente não referindo-se a Kanye, mas a uma mulher adúltera que ia ser condenada ao apedrejamento pelos fariseus). João 8:7 diz-nos, quando o trazemos para esta discussão, que antes de atacar Kanye pela pessoa que foi ou é, devemos olhar para nós próprios primeiro e, talvez, no processo dessa reflexão, iremos perceber que tal como ele temos muito por onde evoluir, e que se calhar o melhor que podemos retirar de Jesus is King é uma lição de vida.

 

Voltemos à frase que usei para abrir o texto. Kanye, ao longo do seu álbum, mostra a sua evolução religiosa, a sua dedicação ardente para com Deus e o quão bem esta relação o fez. No entanto, não vemos Kanye a falar de um Cristo exemplar, mas sim de um Cristo a adorar, uma visão necessária, mas incompleta. Para além de o adorar, Kanye precisa de o seguir e o imitar, o que significará mudar a sua personalidade para se tornar mais plácido e próximo de Deus. Jesus is King é um primeiro passo para esta mudança e, como podemos ver, não só por Selah como também pela sua mais recente entrevista com Zane Lowe, onde West proclamou Roma como a “Silicon Valley da Humanidade”, está certamente mais focado e sereno, não só melhorando a sua relação com Deus como também a sua relação consigo próprio e com a sua bipolaridade, foco do álbum Ye do ano passado. Mesmo assim, falta neste álbum e na sua pessoa um simples aspeto: humildade. Como nos diz o gigante literário G.K. Chesterton: “It has been often said, very truly, that religion is the thing that makes the ordinary man feel extraordinary; it is an equally important truth that religion is the thing that makes the extraordinary man feel ordinary”. Kanye certamente se sente extraordinário, aliás, sempre se sentiu. No entanto, estará disposto a sentir-se ordinário? Está no caminho certo, mas estará em risco de se perder? Enfim, teremos de esperar por um novo álbum. Felizmente, parece que este virá ainda este ano, se Kanye resolver também o seu eterno problema com o cumprimento de prazos. Como diz o padre da minha paróquia, o caminho faz-se caminhando, e mesmo estando longe de o acabar, Kanye, com Jesus is King, já começou a caminhar.

 

Tomás Burns

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

07
Nov19

Novos Sons #8 - Jesus is King

Jur.nal

Kanye West - Jesus is King (outubro)

 

 

Admito que desde o Yeezus, sexto álbum do Kanye lançado em 2013, cada vez levava menos a sério o seu trabalho ou mesmo a sua dedicação à reputação que tanto lutou para conquistar. Versos imortais como Prince William's ain't do it right if you ask me 'Cause if I was him, I would have married Kate and Ashley, fizeram-se substituir por videoclips de orgias com a Taylor Swift e tweets controversos em apoio à presidência de Donald Trump.


Para ser sincero, até ao lançamento do Kids See Ghosts, uma mixtape lançada com o seu protegido Kid Cudi em 2018, a única coisa relevante que o Ye tinha lançado foram as Yeezy Boost 350 V2.


2018 trouxe-nos ainda Ye, um álbum e uma promessa. Um álbum paupérrimo de conteúdo, mas com boas colaborações e uma promessa de que um dia, algures no ano de 2019, talvez com 3 ou 4 adiamentos, lançarei o meu primeiro álbum de Gospel.


Das orgias ao Gospel era um salto enorme. Maior do que a perna, diriam alguns. Mesmo assim, e tendo perdido a minha confiança neste homem em 2013, eu sabia que se houvesse alguém a fazer um álbum de Gospel, quente o suficiente para chegar a #1 no Billboard 200, era ele.


 O projeto foi-nos primeiramente apresentado como Yandhi, a fusão entre Ye (um dos muitos nomes pelo qual é conhecido o rapper americano) e Gandhi (sim, o próprio!). Um sucessão de Leaks fez com que o projeto fosse várias vezes adiado, tendo mesmo sofrido uma alteração de nome para Jesus Is King.


Jesus is King é um projeto ousado. Sente-se uma clara maturação no som do Kanye, uma seleção mais correta das colaborações e um uso excecional do seu grupo coral de Calabasas, criado juntamente com o seu novo mais recente projeto comunitário, o Sunday Service.


O rapper mostra-se com preocupações diferentes, como a marca que deixará no mundo, sempre dum ponto de vista muito intimista e familiar. Debate também sobre como descobrir Deus influenciou a sua vida e descoberta por um som coeso.


A sua música foi sempre marcada por instrumentais quase que cinemáticos, futuristas e mesmo peculiares. Foram sempre contra a corrente de tudo aquilo que estava trending. Agora, 12 anos depois de Graduation e 808 & Heartbreak, sinto que finalmente estamos a chegar ao End Game do verdadeiro som do Kanye.


Ele não é um trapper a falar de codeína com 7UP, não é um J Cole ou um Kendrick prontos para mudar a sociedade com os seus versos woke, muito menos é o Bryson Tiller ft.Chris Brown & Drake a fazerem a música preferida da tua namorada. Ele é senhor das suas convicções, que em 2019 nos trouxe o rap que ele acha que o Senhor gosta. O rap consciente e o de fusão, duas características fundamentais deste artista, estão a voltar a ser relevantes depois de 6 anos de pura dominância do trap e algum rap vazio, em conteúdos relevantes. Com este álbum, veio só mais uma vez mostrar que está dois passos à frente de quem quer fazer-se de diferente numa indústria onde já ninguém sabe ser diferente e coerente.


Não sou o maior fã do tema do álbum, acho até que tanto Jesus no álbum o pode tornar enfadonho para quem não está pronto para ver a bigger picture.


Em suma, é um álbum que vale a pena ouvir, não com a esperança de ouvir trap de discoteca ou o mesmo flow do Zara G em todas as músicas da Wet Bed Gang. Para quem aprecia boa música, este álbum é necessário.

 

Hugo Buque

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

29
Out19

Novos Sons #7 - 2020

Jur.nal

Richard Dawson - 2020 (outubro)

Nota: O Artigo começou a ser escrito dia 21 de Outubro de 2019 e acabou de ser escrito dia 29 de Outubro de 2019.

 


2020. É 2019 e faltam 73 dias para 2020. Mas, antes, ainda temos o dia 31 de outubro, “the end of the world”, como descreveu Timothy Endicott, o Professor de Oxford que foi acolhido pela nossa faculdade para dar uma palestra sobre o Brexit. Faltam então 10 dias para o fim do mundo. 10 dias para o dia da revelação. 10 dias para o dia do apocalipse. E, 20 dias antes da babilonização do Reino Unido, Richard Dawson publica o que aparenta ser um grito final do povo inglês, um sumário de tudo o que os britânicos passaram e sofreram nestes lentos anos de dor, angústia e sofrimento. É, por um lado, um choro existencial, angustiado com uma sociedade que pouco quer saber dos seus cidadãos e, por outro, um suspiro de alívio. É um ensaio sobre um país moribundo, sobre um governo que pouco quer saber de quem realmente importa e sobre um povo cada vez mais desligado da sua própria realidade, e uma homage ao inglês, seja lá quem for, que entrega o seu corpo à escravatura assalariada, num ato de inocência e dor que Dawson tão bem representa na sua pintura avant-folk do Reino Unido de 2019.


Em primeiro lugar, há que dizer que Dawson não é conhecido, mas devia sê-lo. Em vez de preferir a fama, Dawson esconde-se na penumbra do mundo musical, até mesmo do mundo folk, preferindo a coragem do experimentalismo à segurança da simplicidade, com álbuns com desde quatro tracks de dezasseis minutos a curtas baladas acústicas, Newcastle-upon-tyne a Seattle ou qualquer outra grande capital de folk, e até mesmo música mística islâmica, o tal Qawwali, a uma sonoridade mais típica do genre. As suas letras invocam um detalhe e uma atenção aos pormenores do dia-a-dia semelhante a Sun Kil Moon, mas com um pessimismo marcadamente inglês e irónico, não tão americano nem tão sombrio, rindo-se do caos, da dor e da desgraça, enquanto que a sua música invoca uma sensibilidade folk que não tem medo de quebrar as barreiras e fronteiras tão bem definidas há séculos pelo estilo (tanto que alguns até o poderiam chamar de Judas, como ele próprio já o fez no seu álbum Nothing Important).


Antes de entrar em 2020, há que referir que o álbum não viria a nascer se não fosse pelo seu antepassado, o Peasant de 2017. Em Peasant, como se fosse uma pintura de Brueghel ou de um dos mestres da Alta Idade Média, vemos um retrato de uma sociedade medieval, pintada por um som campestre e pastoral simbólico de uma era há muito ultrapassada e cuja beleza é superada pelos detalhes sombrios ou hilariantes das personagens por Dawson retratadas, da prostituta ao mendigo ou do ogre ao pai que vende os filhos para ter o que comer. Mas, se Peasant é os Netherlandish Proverbs, 2020 é uma fotografia tirada a drone sobre qualquer cidade contemporânea. Aqui, as personagens são pessoas que conhecemos, não pormenores de um quadro num museu. São o funcionário público, o dono de um bar na terrinha, o trabalhador precário da Amazon e o renegado social, o hikikomori. 2020 é os Netherlandish Proverbs de agora, o retrato de uma sociedade a ruir e das vidas ignorantes desse facto mas arrastadas à mesma.


2020 abre com uma erupção de som, uma guitarra distorcida ao ponto de soar como um martelo numa linha de montagem, um grito industrial digno de Ode Triunfal que nos puxa para a vida de um funcionário público cuja rotina é mais próxima do Fordismo do que de uma vida minimamente saudável. Dawson grita as instruções como um patrão a um megafone: “Open your eyes, time to wake up, shit, shower, brush your teeth, drain your cup, wolf down a bowl of ready-brek, fasten a tie around your neck”. Terminado o processo de construção, e seguramente preso por uma gravata, o funcionário público é lançado para o seu mundo juntamente com os outros milhões de prisioneiros da rotina, que por toda a cidade se levantam para um trabalho que odeiam. O funcionário público, que na verdade pode ser qualquer um, odeia a sua vida, odeia o seu emprego, odeia os seus colegas, odeia o público em geral, mas sente-se impotente perante a gigante e kafkaesque máquina burocrática que o esmaga e que o que força a notificar pessoas com deficiências para que os seus benefícios sociais sejam cortados. Ele é apenas mais uma engrenagem no sistema que ele tanto detesta, mas pouco pode fazer para o mudar. E ele está farto. Fica sentado no seu escritório a enfardar batatas e a sonhar com a morte violenta dos seus colegas coscuvilheiros. Mas, num ato de rebelião extrema, digno de um conto de Camus, o funcionário público liga ao seu patrão para o avisar que está doente, e passa o dia a jogar Call of Duty em casa. Com isto, Civil Servant torna-se na história de um servo preso na máquina capitalista e neofeudalista do sistema social e hiper-burocrático do Reino Unido que se vira contra a máquina que o paga e alimenta, e Dawson conta-a para mostrar a importância de todas as revoluções, mesmo as mais pequenas e “insignificantes”.


Depois dos apetrechos eletrónicos e da força industrial de Civil Servant, The Queen’s Head abre com um dedilhar de guitarra acústica de mão dada com um baixo levezinho, puxando a orientação do álbum para uma soundscape mais indie folk e mais calmo, ao mesmo tempo que Dawson nos tira do mundo urbano e nos leva para o mundo rural. No entanto, Dawson cedo levanta a voz e introduz uma bateria que inunda os nossos ouvidos tal como como as margens do Humber inundam a vila arquetípica da vivência britânica que Dawson cria nesta canção. As cheias são mais comuns do que parece no Reino Unido, e as personagens principais desta história apressam-se para salvar o seu negócio para não ser arrasado pelas águas imundas do rio. Percorrendo esta nova atlântida dos Midlands, a família depara-se com pessoas que perderam tudo, pessoas que culpam o governo ou os imigrantes por tudo e pessoas a ajudarem os outros. Apercebem-se do quão pequenos são ao enfrentarem a gigante força da natureza, mas encontram conforto numa comunidade que, indiferente à sua pequenez, faz tudo para ajudar os seus vizinhos. É uma história representativa da força que a comunidade tem perante o mundo moderno, e da derrota do individualismo perante a natureza, sendo assim um apelo à reconstrução dos laços de solidariedade e vizinhança num mundo cada vez mais desconexo e hostil.


The Queen’s Head passa a bola para Two Halves, uma canção que nos lança para um campo de futebol indeterminado, contando uma história intemporal e expondo uma relação entre pai e filho que, quando joga à bola, parece tudo menos saudável. O futebol é um desporto feito de metades, basta olhar para a linha do meio-campo ou considerar as duas partes de 45 minutos cada, excetuando tempos de compensação. Temos também duas metades na figura do pai e do filho, cada um revendo-se no outro, um gritando para motivar e outro esforçando-se para causar orgulho. Enquanto a derrota do filho se torna cada vez mais provável, o pai perde progressivamente a cabeça, e os seus gritos tornam-se tão altos que ocupam o estádio inteiro, criando a ilusão de uma multidão a guinchar: “Man on!”. No final do jogo, o filho apercebe-se da desilusão que criou no pai, que este tenta esconder para não perder uma única pinga de masculinidade. O pai diz ao filho para ser persistente, e agora se focar no próximo jogo, mas é evidente que está desiludido, não só com o filho mas consigo próprio. O filho e o pai são fragilmente retratados por Dawson numa caracterização sublime, mas animada por um som próprio do estádio, que procura representar um pai desiludido com o filho e consigo próprio, um filho triste por desiludir o pai, e ainda uma geração ciente das suas falhas mas crítica das sucessoras, e uma outra geração condenada a enfrentar um mundo que poderá vir a ser a sua desgraça. São estas as duas faces da história que Two Halves quer contar.


O tom acelera e o volume aumenta enquanto Dawson entra de rompante na quarta canção, Jogging, numa correria característica do tema que decide representar e da ansiedade que escolheu enfrentar. Jogging é sobre saúde mental, ansiedade social e auto-piedade, e Dawson dispara logo a rematar com estes temas, sem se conter. Jogging conta a história de um homem assustado pelo mundo exterior ao ponto de não conseguir sair de casa, ao ponto de ficar imediatamente contraído pelos olhares flutuantes no autocarro, e ao ponto de ter abandonado o seu posto como conselheiro académico por um trabalho freelance, preferindo o conforto e a hibernação à realização pessoal que alcançava ao trabalhar com crianças. Jogging conta um conto que já ouvimos vezes sem conta, a minimização do indivíduo pela tecnologia, pela economia e por uma sociedade hiperavançada, cada vez mais atomizada, fracionada e especializada. A guitarra distorcida, constante pelo álbum, marcha de mão dada com as letras, evocando uma montagem à anos 80, enquanto que o bridge robótico nos aproxima ainda mais da distopia que Dawson vai construindo ao longo do álbum através das sua personagens. Aqui, o herói de Dawson encontra um escape no jogging, apercebendo-se lentamente da apatia, da indiferença e da intolerância (representada pelo crime de ódio contra uma família curda que Dawson descreve no quarto verso) cada vez mais prevalente no seu país, mas apercebe-se do quão imponente é perante estas atrocidades do dia-a-dia, culpando a sua paranóia. No entanto, Dawson conclui a canção ao retratar mais uma vez o heroísmo do cidadão normal, sendo que a canção termina com o sujeito a angariar fundos para a Cruz Vermelha e a ganhar a coragem precisa para participar na Maratona de Londres.

 

Após a correria de Jogging, entramos no tom mais calminho mas certamente mais aterrador de Heart Emoji, uma tragédia amorosa digna de século XXI, onde um marido e pai descobre que a sua esposa o tem andado a trair através de um emoji de coração avistado pelo canto do olho durante a noite. É uma canção triste, com um falsetto choramingão a molhar a história de amor e de desamor incrivelmente pouco romântica que Dawson nos conta. Conheceram-se no emprego, trabalhavam os dois num bar a servir Guinness’s para pagar as propinas, e eventualmente casaram-se, e tiveram uma filha.Toda uma história (deprimente, sim, mas uma história de qualquer das formas), uma vida juntos, a terminar com um emoji. Em duas palavras, e no que será o ponto mais deprimente do álbum, Dawson resume a mensagem do seu álbum. O coração, a paixão, a história de cada um dos seus personagens contrastado com o emoji, a tecnologia, a sociedade moderna do mundo onde eles habitam. Heart Emoji é a quinta canção do álbum, situando-se mesmo a meio, e reduz tudo o que Dawson quer dizer a uma dialética: futuro contra passado, felicidade contra tristeza, empatia contra apatia, indivíduo contra sociedade. São as two halves de 2020, um álbum que só com uma das suas metades condena por completo a nossa atualidade, e que com uma tragédia intemporal de amor não-correspondido e traição expõe o nossa proximidade tecnológica, responsável pelo nosso afastamento emocional cada vez mais profundo.


Black Triangle surge em imediato e óbvio seguimento a Heart Emoji, com um som aterrador, arrepiante e curiosamente vintage, evocando Stranger Things ou uma qualquer relíquia da moda, e aparece para nos contar a história de um avistamento de Ovni, reparado por dois jovens assumidamente não-bêbados no parque de estacionamento de um Aldi. Um dedilhar folk é acompanhado por uma guitarra elétrica, fornecendo um choque de culturas enquanto duas civilizações chocam também. O Ovni muda a vida dos dois jovens: um torna-se num engenheiro mecânico com uma família e relação estável e uma quinta convertida em casa; e o outro torna-se na personagem trágica que Dawson já expôs em Heart Emoji (pelo menos é o que parece), que se torna num vendedor de teorias de conspiração a la Alex Jones no Youtube. O Triângulo Negro (salientando aqui a forma da nave, um triângulo negro) avistado pelo protagonista da canção acaba por se tornar num ponto de ligação entre este e a sua filha, e os dois aproveitam o fim de semana juntos a acampar na natureza, um escape da tensão que permaneceu após o divórcio. Isto é, até serem raptadas pelo mesmo triângulo. Um fim certamente irónico, mas que de certo modo traz conforto e que nos faz considerar que se calhar o melhor é mesmo ser levados deste mundo para outro, talvez melhor.


Chegamos ao Fulfilment Center representativa da distopia que Dawson demorou um álbum a criar (ou a imitar), ao mais adequado símbolo de uma sociedade hipercapitalista e hiperatomizada, e à história dos trabalhadores forçados a embrulhar tudo, de Playstations a máquinas de café, de cartas de tarot a legos, por um mísero salário, durante horas intermináveis que nem o Natal consegue interromper. O protagonista de Fulfilment Center é tudo menos protagonista no seu dia-a-dia tendo, como qualquer um, sonhos (como ter o seu próprio café), rotinas (como apanhar o comboio na madrugada) e pessoas que ama (como a família que não o terá presente no jantar de Natal), e tendo um trabalho escravizador e aterrorizador, que tira a energia aos novos, a saúde mental aos velhos e a vontade de viver a qualquer um. No seu dia-a-dia, vê pessoas a desmaiar, a ter ataques de pânico e a convulsionar no chão, enquanto é obrigado a trabalhar horas a fio e sem intervalos de casa de banho (explicitamente explica que tem de urinar para uma garrafa de plástico para não perder tempo) para corresponder às quotas que lhe são impostas. Tudo isto enquanto uma voz robótica e distorcida o esmaga com instruções ou, ainda mais medonhas, mensagens de motivação por um altifalante distante. É um Modern Times que é certamente moderno e adequado ao nosso tempo, mas certamente que não é cómico. Tem 10 minutos de duração. É, enfim, um épico para a nossa época. Mas não serve para enaltecer um país. Serve para enaltecer o povo descontente e moribundo face à máquina capitalista e burocrática de empresas-Estado como a Amazon, adamastores que engolem tudo o que pode ser comprado, de pessoas a outras empresas. É, também, um momento apoteótico para Dawson. É, por falta de melhores palavras, o seu suplício por mudança. Por empatia. E por um mundo melhor.


Aterramos de Fulfilment Center em Fresher’s Ball, uma gentil balada folk, ao ritmo de lindos arranjos eletrónicos, sobre um pai a deixar a filha na universidade, em Leeds, a várias milhas de distância da casa onde cresceu e onde o pai vai agora morar sozinho. A paternidade volta a surgir como tema, e a canção torna-se no momento mais íntimo e bonito do álbum, onde a voz ríspida mas calmante de Dawson nos embala ao contar esta história de amor, saudade e despedida. Serve para nos mostrar que mesmo num mundo de fulfilment centers, traições, ovnis arrepiantes e depressão financeira há sempre algo que nos faz correr pelo labirinto, fugindo do minotauro que nos quer devorar. É um abraço antes do fim do mundo. Uma gentil festinha na cabeça antes de tudo acabar. É um adeus, mas um adeus terno e suave, porque o caminho até ao adeus certamente não o foi. É saber que o fim está a chegar, mas saber também que tivemos muito por viver, ganhámos muitas histórias para contar e que, afinal, a longa e enrolada estrada até ao nosso adeus valeu toda a pena.


Antes de nos largar na última canção, Dawson repete o que fez em Peasant e deixa um breve interlúdio de poucos segundos no penúltimo track do álbum, sempre apelidada de No-One. Aqui, ouvimos um cão a gemer e a ranger com o frio, audível pelo vento forte que ressoa como um vulto por detrás do suplício do cão. E, com este omen, entramos em Dead Dog in an Alleyway. Retorna o som pesado e eletrónico para um final digno de acabar com um álbum destes. É-nos contada a história de um sem-abrigo que se depara com um cão morto na neve. Ao longe, no “labirinto de neón”, ouve-se o fim do mundo. Gritos, vómito, sirenes, uma cidade a derreter. No Nando’s local, música, talheres e risos de criança quase faz parecer que está tudo bem. No entanto, no beco escondido por detrás do restaurante, o nosso protagonista sabe que o fim está por chegar. Gritos pulsam dos pulmões de Dawson para nos mostrar a agonia do seu sujeito, que foi tratado como lixo a vida todo, e cujos suplícios de ajuda serão sempre não-correspondidos. Ele sabe que vale tanto como o cão morto no beco. Curiosamente, é a canção mais animada e pop-friendly do álbum. É um fim contrastante, mas representativo de o que Dawson quis retratar desde do início.

 

2020 é uma daquelas obras de arte raras que transforma um período histórico na sua tela, explorando-o exaustivamente e detalhadamente, embrulhando-o de uma forma cativante e fácil de compreender para futuros historiadores e curiosos olharem para trás e aperceberem-se que tudo melhorou. Certamente não é único, a desgraça do Reino Unido já foi contada mil e uma vezes, basta olhar para os filmes de Danny Boyle (Trainspotting, 1996) ou de Ken Loach (I, Daniel Blake, 2016), no entanto, a exposição de Dawson é muito diferente. É sublime, é bonita, é arrepiante, é subtil, é in-your-face e é honesta e humilde. Dawson revê-se em todas as suas personagens, talvez seja por isso que têm tanto em comum umas com as outras, e revê-se num povo acima de tudo desiludido, mas também esperançoso. No dia em que acabo este artigo, o Brexit é adiado para 2020. A data do fim do mundo é claramente flexível, e até 2020 chegar, muito pode mudar.

 

Tomás Burns

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

25
Set19

Novos Sons #6 - You Are Forgiven

Jur.nal

you are forgiven.jpg

 

João Batista Coelho apresenta-se à tuga como Slow J em 2015 ao lançar The Free Food Tape. Apesar de nascido e criado em Setúbal até os 8 anos, é nos 12 anos seguintes que João Coelho muda de casa 10 vezes, passando por lugares como Cascais, Carcavelos, etc..., acabando por ir parar a Londres, onde estudou Engenharia de Som.

 

Se há artista que mereça qualquer tipo de hype é este senhor, pois em 2017 lança The Art of Slowing Down, sendo considerado um dos melhores trabalhos realizados em Portugal.

 

O estilo poucos sabem ao certo, é uma mistura entre todos. Sendo que: seja qual for… é bem produzido.

 

Hits como Cristalina, Às vezes e Pagar as Contas cercaram o país, e nada mais podíamos fazer senão ouvir. As harmonias contagiantes e os espaços silenciosos bem preenchidos, faziam com que nos apegássemos ao botão do repeat.

 

21/9/2019

 

O dia é de chuva. Abro o Twitter e num dos primeiros tweets que leio vejo algo do género: “Obrigado Slow”. O coração vai batendo cada vez mais forte, abro o YouTube e lá está, outro álbum. Sem qualquer aviso prévio ou publicidade, lá está ele: “You Are Forgiven”, um dos melhores álbuns que já vi passar pela frente.

 

Slow J não aparece muito, entre os poucos concertos e aparições em público vai mantendo a sua pessoa fora dos holofotes. Mas no que toca à sua música, cada batida é escutada longe.

 

Também Sonhar,

“Eu queria ser melhor pai que o meu pai
Ele trabalhava demais e agora eu trabalho por todas as horas que ele trabalhou sem amar o que faz”

 

É nada mais do que a primeira faixa do álbum e já tenho os olhos pesados. Acompanhando o trabalho do artista apercebemo-nos que os agradecimentos à família são espontâneos e que é por eles e para eles que o mesmo é tudo o que é. A sua arte reveste a alegria que sente em hoje poder fazer o que gosta, tendo possivelmente este sonho sobrevivido às custas daqueles que sonharam também em si.

 

“Bem-vindo ao topo
Topo do quê?
Topo p'ra quem?
Qual é o teu sonho?
Protege-o bem
Pra não esquecer”

 

A fama surge, o ano é 2017 e só se ouve falar em Slow J, se o seu sonho era ser famoso, crê-se que o haja alcançado, mas será apenas isso?

 

Um álbum com 9 faixas que culmina com a música “Silêncio”, onde João, possivelmente, revela um dos seus maiores sonhos:

“Eu queria ser a cria que ia libertar o mundo
A lâmpada que acende e te guiar no escuro
Há tanta máquina que tende a incentivar o fumo”

 

Toda a letra e métrica de João é confusa, por mais subjetivo que seja ao dizê-lo, acredito que as suas músicas se sentem mais ao serem ouvidas do que lidas. A letra em si - embora complexa - vê-se vazia longe de toda a produção musical. Sem contar que a voz do Slow dá todo um voo ao sentimento depositado nas suas canções.

 

A música é “Só Queria Sorrir”, e a cada faixa sinto-me preso a este álbum.

 

Já o repeti, num espaço de 3 dias, umas 10 vezes, inclusive enquanto tirava uma sesta domingo à tarde.

 

Nesta canção observamos uma luta consigo próprio. Possivelmente uma das canções mais fortes do álbum, onde Slow J luta contra si mesmo, perguntando-se o que leva a que os outros se levantem e ele não. Uma certa culpa direcionada ao quotidiano suburbano onde o tempo voa e o sair da cama é apenas mais um passo a dar diariamente, apenas mais uma etapa. É aqui que João Batista revela que uma das suas motivações - para que possivelmente se dedicasse à sua paixão pela música - seja o poder levantar e não se sentir deprimido, como outrora.

 

“Primeira motivação pa' me tornar quem eu quiser ser
Pa' sair da cama mas nunca viver com pressa
Eu só queria sorrir e nunca mais viver depressin'”

 

Não quero ser exaustivo e isto é de facto muito pequeno. Mas é um álbum em que há tão pouco que se diga. Das poucas coisas que digo é que, a meu ver, You Are Forgiven revela-se como o melhor álbum da década em Portugal e possivelmente um dos melhores da história portuguesa. O espaço que o artista nos deixa para que os nossos sentimentos e pensamentos corram pelos corredores é algo soberbo.

 

A música é: “Onde é que estás?”; e pouco se tira da mesma. Um confronto e uma sequência de perguntas sobre o seu estado, sobre o seu paradeiro:

“Johnny boy onde é que estás agora?
Tu só querias ser feliz
Tanta coisa que tu tens agora
Diz ao mundo se estás triste
Deixa o mundo saber”

 

Slow tenta alcançar a “verdade nua e crua”, justificando que todas as etapas já passadas não o tornam mais Slow do que o costume. Refere que hoje tem tudo, mas que continua como antigamente, tendo sempre tudo e todos ao seu redor.

 

You Are Forgiven é um pedido de desculpas de Slow J a João.

 

Jefferson A. Fernandes

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

 

Nós

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Powered by