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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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28
Dez20

Savior Complex: Turismo de Voluntariado

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Anualmente deslocam-se milhares de jovens europeus e americanos em busca de uma experiência única, normalmente com crianças desfavorecidas do Sudoeste Asiático, África ou América Latina, que duram não mais que dois meses. O benefício pessoal destes é imensurável: o contacto com aqueles de vida mais simples, com condições que acreditamos não existir no nosso país tolda-nos a perspectiva, a nossa hierarquização de prioridades muda para sempre. Mas qual o impacto no local que permanece?

Não pondo em causa quaisquer motivações do voluntário, que crê que as suas ações transformam tanto a sua vida como aquelas em que toca. Turismo de voluntariado, ou “voluntourism”, é altamente prejudicial para as comunidades locais.

Depois de alguma pesquisa em organizações de voluntariado - que, obviamente, me rechearam as redes sociais de publicidade às mesmas - noto que o mais recorrente é o ensino da língua inglesa, cobrindo as idades que, em Portugal, compõem a escolaridade obrigatória. Os voluntários, também eles jovens, dedicam-se ao ensino introdutório da língua, já que no secundário tiveram bom aproveitamento na disciplina e entretanto a certificaram. Durante 6-8 semanas esforçam-se e as crianças aprendem facilmente. Nas 6-8 semanas seguintes são-lhes apresentados novos voluntários e aprendem exatamente o mesmo. Ora, uma repetição constante dos mesmos conteúdos nunca será benéfica. Um ensino de qualidade é marcado por uma sequência evolutiva de conteúdos, a educação destas crianças é, então, altamente condicionada e prejudicada pelo trabalho dos voluntários. Para ensinar as nossas crianças exigimos um professor qualificado, tanto em ensino como na temática, sendo que ficamos aborrecidos quando o mesmo tem que se ausentar. Porque é que não impomos os mesmos requisitos para todas as crianças?

Voluntariado em orfanatos é, também, extremamente apelativo. Historicamente, orfanatos acolhiam não só crianças órfãs como outras cujas famílias não apresentavam condições para as educar. Ora, ao longo das décadas, os orfanatos têm vindo a ser desencorajados em prol no investimento em programas familiares que ajudam as crianças a reunir-se com parentes mais afastados e, no caso das restantes, trabalhar com as famílias de modo a que o ambiente se torne propício ao crescimento. A criação de orfanatos e as doações fazem com que seja lucrativo encaminhar crianças para estas instituições. De facto, em 2018, a Save The Children relatou que cerca de 80 a 90% das crianças em orfanatos têm, pelo menos, um progenitor vivo. Os voluntários, quer invistam o seu dinheiro ou o seu tempo, estão a fundamentar a separação de famílias.

Em ambos os casos, apesar de marcadamente mais presente no dos orfanatos, verificam-se consequências psicológicas nas crianças. Muitas acabam a desenvolver problemas comportamentais, perturbando a maneira como se criam laços afectivos, pois habituam-se a apegarem-se aos voluntários que mais tarde regressam à sua vida, criando um sentimento de abandono recorrente.

Turismo de voluntariado cria também um problema de empregabilidade, dado que os locais não conseguem exercer principalmente profissões escolares. Para além disto, está patente um White Savior Complex, que se caracteriza por uma necessidade neo-colonialista de ajudar a desenvolver outras comunidades às expectativas da sociedade ocidental. Quer a educação, quer a mão-de-obra, seja para construir poços ou escolas, branca espalha a concepção de que as comunidades de cor não conseguem melhorar as suas próprias condições. Na verdade, muitas dessas construções encontram-se inutilizadas por falta de fundos ou falta de necessidade.

Assim, não pretendo desencorajar qualquer tipo de propensão de voluntariado. Há, no entanto, maneiras éticas de o fazer, até na nossa própria comunidade. A pobreza existe no seio do nosso país, não é ao ignorá-la que desaparece. Se realmente pretendem prosseguir com uma viagem que inclui voluntariado, excluam as crianças da lista.

 

Maria Inês Opinião (Aluna do 3.º Ano da Licenciatura)

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