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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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18
Mar21

Pedaços de Liberdade

Jur.nal

 

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Fotografia de Stephanie Alpizar

 

Apanho o último comboio da noite para casa. Os vidros das janelas estão sujos e tudo o que refletem é a escuridão da noite casualmente iluminada pelas luzes do interior da carruagem. Ao fim de 3h rumo ao Algarve, as duas máscaras que levo postas começam a irritar a minha pele e sinto-me saturada pelo excesso de viagens intercidades que tive de fazer nos últimos dez meses. Dou por mim a imaginar como seria a minha vida de académica se tudo o que eu imaginei há 2 anos se tivesse cumprido sem uma catástrofe mundial pelo meio.

Talvez não estivesse hoje neste comboio e talvez continuasse em Lisboa a aproveitar os poucos dias de descanso que tenho dos últimos cinco meses de trabalho. Férias limitadas aos metros quadrados de uma casa sabem a pouco. Já começa a ser difícil lembrar como era estar numa festa lotada, ou reunir com todos os meus amigos numa típica quinta-feira académica. As memórias dos primeiros meses de faculdade sem pandemia parecem um sonho febril. 

Tenho saudades de sentir que toda a liberdade do mundo me pertencia e que podia estar em qualquer lugar por inteiro, tenho saudades de sentir o chão vibrar com a música de cada concerto, e tenho muitas saudades de abraçar com força as pessoas de quem gosto. A minha saudade de abraços leva-me a concluir que já lá vão quatro meses desde a última vez em que abracei os meus avós, o que me entristece ainda mais. Entristece-me saber que o tempo passa por eles a correr cada vez mais depressa, mas que, ainda assim e por precaução, não o podem aproveitar da forma que merecem, na esperança de prolongar um pouco mais a sua estadia na Terra.

Tantos meses se passaram desde o início oficial desta pandemia, mas só agora sinto o peso do preço a pagar pelo cumprimento do dever de ser uma cidadã responsável. Nunca a cor das minhas paredes me cansou tanto, nunca questionei tanto o meu reflexo no espelho, e nunca me senti tão pequena dentro de mim. 

Olho à minha volta na carruagem praticamente vazia e verifico que apenas viajam comigo jovens, provavelmente da minha idade, e provavelmente a voltar das aulas. Quase todos estão sozinhos e há um silêncio ensurdecedor entre nós. Questiono-me se sentimos todos  um pouco do mesmo?

O confinamento torna-se mais difícil quando uma pessoa de rua é forçada a tornar-se numa pessoa de casa, quando uma adolescente que sonhou durante anos poder provar um pouco da liberdade que é viver sozinha na maior cidade do país, se vê obrigada a abdicar de tudo e voltar para casa dos pais. Os convívios são reduzidos a uma chamada de Zoom em que ninguém sabe ao certo o que dizer, as atividades ao ar livre mais entusiasmantes passam a ser levar o cão à rua e o maior pedaço de liberdade que se tem torna-se num catálogo infinito de filmes pirateados. Parece quase não restar espaço para o amor, também ele preso nas quatro paredes do quarto.

Dou por mim a travar batalhas comigo mesma: quero ser produtiva, mas não quero privar-me de sentir a tristeza que é ter a vida em standby; quero poder queixar-me e libertar a minha frustração, mas não quero ser ingrata porque tanto eu como a minha família estamos bem; quero entrar em contacto com todas as pessoas de quem me afastei desde o primeiro confinamento, mas não quero sentir que estou a fazer um frete; quero aproveitar o tempo para pôr em dia todos os livros e filmes parados na prateleira, mas não quero passar nem mais um segundo sentada; quero conversar com os meus amigos, mas não tenho coragem para formular uma única frase.

Pode dizer-se que há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo: desde a situação de calamidade nos hospitais públicos, à ascensão da extrema direita num país que tanto lutou pelos cravos vermelhos. E é difícil mantermo-nos a par de tudo o que se passa à nossa volta quando esse tudo remete para uma negatividade que agrava o sentimento de desconsolo. É difícil manter a esperança e o positivismo quando continuamos a ver pessoas que desrespeitam o sofrimento de um país, de famílias inteiras e de profissionais de saúde que dão o corpo e a alma para garantir que quem entra nas urgências de um hospital, consegue sair pelo próprio pé. É difícil acreditar nas pessoas quando as vemos a apoiar publicamente alguém que não respeita a democracia e insiste em limitar a liberdade de quem só quer viver em paz.

Encostada à janela do comboio, sinto-me ainda mais pequena e incapaz. Sinto-me cada vez mais longe do que sou, ou pelo menos, do que acreditava ser. O sentimento de ansiedade agrava-se à medida que me aproximo da minha paragem final: quero voltar para casa, mas essa volta passa agora a implicar uma estadia por tempo indeterminado. 

Penso em todo o peso que perdi nos últimos meses de estudo, no cabelo que vi cair no chão do meu quarto e das vezes em que julguei não ser capaz de concluir o que quer que fosse. Lembro-me de todos os dias em que faltei às aulas porque não tinha força para me levantar, ou das vezes em que me arrastei da cama para o sofá na esperança de estudar um pouco. Do número de vezes em que encomendei comida porque não conseguia arranjar coragem para cozinhar, ou das vezes em que chorei sozinha depois de desligar uma chamada com os meus pais. De todas as vezes em que quis sair para espairecer, mas me senti egoísta por não evitar fazê-lo.

Quando chego à estação final, a minha mãe já lá está à espera. Consigo vê-la a sorrir através da máscara. Entro no carro e no caminho para casa ela conta-me como a situação na nossa cidade está cada vez pior – “o número de infetados não para de aumentar” – diz, - “e fico preocupada pelo teu pai.”. O desconforto aumenta quando o problema está cada vez mais perto de nós e deixa de haver um lugar seguro para respirar. Estou muito grata por, até à data, e vários testes do Covid-19 depois, ninguém da minha família mais próxima ter sofrido com a infeção, mas não consigo ignorar as marcas invisíveis que esta pandemia continua a provocar – de repente somos todos personagens secundárias da nossa própria vida.

Gostava de conseguir imaginar o dia em que se vai poder celebrar novamente um dia de sol brilhante com um passeio na praia, gostava de conseguir imaginar o sentimento de liberdade quando se puder ouvir um concerto abraçado a um desconhecido, gostava de conseguir sentir o que vou sentir quando puder, finalmente, colocar os meus pés em solo estrangeiro e gostava, acima de tudo, de saber quando é que vou poder dar um beijão de felicidade aos meus avós e amigos. Infelizmente, e para já, só consigo saber o que é viver o momento mais grave da história do mundo nos últimos anos, e só consigo sentir o peso das cicatrizes invisíveis que esse momento trouxe consigo. 

Viagem concluída. Quando chego a casa, vou diretamente para o meu quarto. Pouso a mala cheia de nada e sento-me na cama. Já que a minha vida era agora noutra cidade, o quarto está praticamente vazio e representa perfeitamente o meu estado de espírito. Solto um pesado suspiro de conformação. 

Estas foram as minhas quatro paredes preferidas durante dezoito anos. Talvez consiga suportá-las durante mais uns meses.

 

Ana Sofia Alcaide (Aluna Do 2.º Ano Da Licenciatura)

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