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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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15
Mar21

O Peso da Responsabilidade

Jur.nal

 

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Fotografia do Autor

 

Este tema não me veio à cabeça num momento forte de inspiração. Incomoda-me um pouco todos os dias. Mas, ironicamente falando, o seu título surgiu enquanto conduzia em pura deambulação e de forma pouco focada pela cidade. Creio que o faço para me abstrair de refletir sobre isto. Em todo o caso, não me sinto propriamente mal por cair neste tipo de circunstâncias. É do meu conhecimento que muitos mais o fazem. Em bom tom e fazendo uso da gíria, a volta dos tristes.

Há coisas complicadas. Uma delas seja talvez pensar no que queremos para o aqui e o agora. O Futuro soa a Felicidade adiada e tantas vezes parece que essa Felicidade tarda e não vem. Fazemos planos. E há tantos planos que podemos fazer. Mas, enquanto os fazemos, o Tempo passa. O Tempo é um desses tantos que não esperam por nós. Talvez daqui a uns anos, se voltar a ler este texto, ria e banalize a situação. Por enquanto, não estando ainda em posição de o poder fazer, sinto-me confusa. E talvez confusa não seja o termo mais adequado ou o correto de se aplicar, porque eu (acho que) sei o que quero.

A situação que me condena – e que deve condenar tantos outros (pelo menos assim me parece pelas conversas que vou estabelecendo) – é que quero o que é de amanhã para ontem. Há tempos lia, e sem grande interesse no momento, um artigo sobre o modo como o cérebro humano desenvolve diversas metas, como as procura atingir e o modo como reage quer ao prazer pelo sucesso, quer à frustração pela falha. Bem, ao fim e ao cabo, revi-me em certos aspetos daquilo que lia, mas, por falta de empatia para com as palavras, que em simultâneo me consolavam e atacavam, o meu neocórtex guardou o episódio para reflexão futura. 

Fazendo jus às palavras de António Variações, “é para amanhã, bem podias fazer hoje”, em certos aspetos e como mecanismo de defesa, como qualquer Ser Humano, tenho uma estranha e forte atração pela Tese do Adiamento. A vulgar e conhecida procrastinação. Acontece que me sinto confortavelmente desconfortável por saber que não é só a mim que a dita afeta. E que inconsciente é que me sinta relaxada quando outros me relatam que fazem exatamente as mesmas coisas estúpidas que eu. 

Porém, há materializações sobre as quais eu não me questiono, ou evito questionar, para permanecer milimetricamente mais feliz. O que sei, ou pelo menos aquilo que sinto, é que, apesar de ainda ter toda uma vida pela frente (como tantas vezes me dizem), é que o Tempo está a apertar – como tantas vezes antes já apertou. E que há escolhas que temos de fazer aqui e agora. Se não as fizermos, corremos o risco de ficar parados na linha temporal e creio – nunca o senti em pessoa – que a sensação deve ser igual à do metafórico atropelamento em linha de comboio. 

Neste contexto, eu - que não sou grande espingarda a economia – questiono-me sobre qual o preço a pagar. Nunca percebi muito de contas, mas parece-me que há aqui dois lados. Ambos são perigosos. Podemos arriscar e tudo vir efetivamente a dar certo ou podemos chorar enquanto vemos o circo a arder. Num e noutro caso, uns chamar-lhe-ão de mérito e dedicação ou incapacidade e falta de trabalho, outros de sorte ou azar. Não tenho opinião fundada. E não o tenho porque não estou em posição de ser júri. Ainda agora comecei a ser concorrente e, como em qualquer jogo, a vantagem e a desvantagem nem sempre estão dependentes da capacidade interna que carregamos. Expressão infeliz, destruidora de sonhos talvez. 

A vida é assim e não creio que haja qualquer problema nisso. Se não existisse qualquer dificuldade, por mais que seja ela existencial, a nossa vivência seria aborrecida, perderia o sentido. Contudo, se nos prendermos às amarras que nos tomam, ao peso do que esperam ou do que esperamos de nós, se fizermos isso forçada e inquebravelmente, tornamo-nos pesados. Não creio plenamente que a sorte exista, mas também não a nego. E acredito, como diria Exupéry, que nos tornamos eternamente responsáveis por tudo aquilo que cativamos. O sucesso – e não sei ainda muito bem o que quer isso dizer – é algo que se procura, algo que sozinho nunca virá ter connosco. E vai doer. Se calhar muito mais do que queremos, muito mais do que merecemos, muito mais do que esperamos. 

 

Sofia Estopa (Aluna do 4.º Ano da Licenciatura e Diretora do Jur.nal)

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