Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

14
Abr19

Novos Sons #5 - My Finest Work Yet

Jur.nal

Andrew Bird - My Finest Work Yet (março) - 8/10

 

foto review Bird.jpg

 

“Sisyphus peered into the mist

A stone's throw from the precipice, paused

Did he jump or did he fall as he gazed into the maw of the morning mist?

Did he raise both fists and say, "To hell with this" and just let the rock roll?”

 

Assim começa a primeira canção do novo álbum de Andrew Bird, My Finest Work Yet, um álbum que o próprio cantor assume ser o pináculo da sua carreira no título, a sua magnum opus. E muito o cantautor fez para levantar as expectativas, desde o lançamento de um single cinco estrelas sob a forma de Bloodless (a segunda canção do álbum e que foi, para mim, o melhor single de 2018), a uma forte campanha de publicidade, bem como um tour internacional (que, muito infelizmente, não passará por Paredes de Coura). Até agora, Bird tem estado a voar de uma forma um pouco perdida. Lançamentos inconsistentes e borderline estranhos e esotéricos, tal como uma série de gravações instrumentais efetuadas ao ar livre (Echolocations: Canyon e Echolocations: River, de 2015 e 2017, respetivamente), um álbum de covers da banda folk The Handsome Family (Things are Really Great Around Here, Sort of, de 2014) e até mesmo um EP de 7 epílogos, prólogos e extensões de uma só canção (I Want to See Pulaski At Night, de 2013), tratando o projeto como se fosse a soundtrack de um filme, desorientaram Bird. Entretanto, os seus projetos ditos “normais”, como o seu último LP Are You Serious, pecam por um excesso de experimentalismo e por uma falta de consistência que parece perseguir Bird. Já lá vão os tempos de The Mysterious Production of Eggs (2005), Armchair Apocrypha (2007) e Noble Beast (2009), mas desde a infusão caribe e do lirismo suave de Break it Yourself (2012) que Bird não lança um álbum com pés e cabeça. Todavia, contento-me em dizer que este ano tudo mudou. Mesmo que este álbum não seja a finest work dele, é certamente his finest work in a long while. Agora, como é que ele conseguiu? Simples. Deu um passo atrás.

 

Vamos também dar um passo atrás e voltar à quadra inicial e à canção onde se insere, a turbulenta e upbeat Sisyphus, que evoca o clássico mito grego e a filosofia construída a partir deste. Como espero que todos saibam, Sísifo é uma figura mitológica da Grécia Antiga que foi condenada a empurrar um rochedo gigante numa encosta para o resto da eternidade. O rochedo, encantado por Zeus, irá sempre cair pela montanha abaixo, no momento em que Sísifo está prestes a alcançar o cume. Portanto, o esforço será sempre fútil. Mas foi esta futilidade que fascinou filósofos como Albert Camus, que apontou no seu ensaio de 1942, O Mito de Sísifo:

“But Sisyphus teaches the higher fidelity that negates the gods and raises rocks. He too concludes that all is well. This universe henceforth without a master seems to him neither sterile nor futile. Each atom of that stone, each mineral flake of that night-filled mountain, in itself, forms a world. The struggle itself toward the heights is enough to fill a man's heart. One must imagine Sisyphus happy.”

 

Curiosamente, Bird contraria esta “rebelião complacente” de Camus e prefere largar o rochedo, destruindo tudo o que deixa para trás, desde casas a cidades, argumentando que é preferível falhar como um mortal que sofrer como um Deus. Agora, se estes versos são mitologicamente consistentes é outra história, mas a letra encaixa perfeitamente no ambiente que Bird constrói, através de guitarras agressivas e cheias de paixão, assobios fortíssimos e uma voz extremamente optimista, quase que alegre. Isto tudo acompanhado por um delicado violino e piano, como é costume dele, e por vários joguinhos de palavra, sendo o enredo linguístico também uma pedra basilar da aesthetic de Bird.

 

Depois da optimista e incandescente entrada no álbum, descemos a montanha a rebolar e aterramos numa cidade vazia, assombrada por um tom mais pessimista e muito mais frio. Chegamos a Bloodless, um exercício cosmopolita de consciência política, acompanhado apenas por um piano, uma bateria e o ocasional dedilhar do violino, a personal brand de Bird. Entre assobios e alusões à Guerra Civil Espanhola, o cantautor expõe as suas preocupações quanto ao ambiente político dos Estados Unidos, alertando que isto está bloodless, mas só por agora. Enquanto “os poetas”, ou seja, quem diz a verdade, são reprimidos e a aristocracia se ocupa a beber Moet Chandon, torna-se necessário escolher um lado. Aliás, já em Sisyphus, Bird ecoava este seu repúdio da moderação, sempre presente no refrão de Bloodless, que é constituído por uma readaptação do Salmo 37 da Bíblia, especificamente dos versos 1 e 6: “Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade (...) E ele fará sobressair a tua justiça como a luz, e o teu juízo como o meio-dia.”. Esta canção torna-se no marco definitivo do álbum, mas também no seu ponto mais desanimado e esotérico, como cedo veremos.

 

Em Olympians, a terceira track, vemos um retorno à energia e à força de Sisyphus, o que estraga o ambiente tão cuidadosamente criado por Bloodless. É estranho passar de uma canção tão jazzy e até mesmo retro para algo mais pop. No entanto, se há pop bem feito, é o pop de Andrew Bird, que começa a canção com carícias ao seu violino e com a primeira guitarra elétrica do álbum. A repetitividade dos refrões, os hooks conduzidos pelas guitarras e a bateria muito mais divertida que o costume tornam Olympians num cut impressionante e surpreendente, capaz de misturar sensibilidade pop com o folk do violino que Bird normalmente expõe. Também é capaz de esconder um lirismo menos marcante, mas estranhamente triste, lidando com os problemas de vício da mulher de Bird, as crises existenciais do cantor e as anathemas, as pragas, que os dois atiram um ao outro na sua relação, quase como se existisse uma olimpíada de miséria entre marido e mulher, descrevendo as suas discussões como nocturnal dances. É um contraste curioso, e certamente pouco saudável.

 

Chegamos agora a Cracking Codes, que se torna numa linda adição ao álbum, servindo como o perfeito seguimento da eclética Olympians, através da sua lenta, poderosa e simples beleza. Direta e curta, esta balada sobressai por ser um dos raros exemplos de uma canção de Andrew Bird onde este não entra por enredos e trocadilhos linguísticos, reconhecendo até a facilidade com que começa a falar em tongues. Pela sua posição no álbum, podemos assumir que é destinada à mulher de Bird, que mantém uma presença considerável por toda a discografia deste. Ao contrário de nós, ela não precisa de decifrar códigos para perceber o que Bird quer dizer. Embora seja uma relação evidentemente atribulada, como dá para ver em Olympians, os dois mantêm este entendimento genuíno. Funciona como um belo exercício de humildade que, acompanhado por uma voz feminina e um assobio triste, coloca Bird na posição mais humana que alguma vez vimos no seu trabalho.

 

Depois da emoção e da fragilidade que Bird expôs em Cracking Codes, seria de esperar que a canção seguinte fosse, no mínimo, pouco parva. Infelizmente, Fallorun surge como a mistura entre os erros anteriores de Bird e uma quantidade de erros novos que nem sabíamos que ele conseguia fazer. A canção começa com uma distorção elétrica acompanhada de sound effects informáticos que me leva automaticamente a pensar na True Affection de Father John Misty e no desastre que essa canção é. Depois param, e a minha esperança volta a erguer-se, mas é seguida pelo que parece ser umas cordas orientais, antes de entrar num dedilhar de violino e numa canção pop ao estilo de Olympians. A verdadeira decepção encontra-se nas letras que, para além de confusas, exageram com as suas metáforas, alusões e neologismos (como o próprio título, Fallorun), explorando o que parece ser o ressentimento que Bird tem para com alguém que não quis ficar com ele dada a turbulência na sua vida, preferindo “cabedal” (sim, estranho) ao “inferno” que é estar com Bird, e sente-se frustrado por ter tido uma relação que parece ter sido destinada a falir, tal como qualquer canção pop que necessita de notas de rodapé está, também, destinada a falir. O mais estranho desta track é a sua posição no álbum, após duas canções, uma mais íntima que outra, sobre a sua relação atual. Depois de ouvir Fallorun, um poderá facilmente questionar a fragilidade exposta em Cracking Codes.

 

Regressamos agora à política e ao estilo de Bloodless, com a canção Archipelago, um dos momentos mais escondidos do álbum, mas também mais fáceis de apreciar. A confiança política de Bird, nunca antes vista até Bloodless, volta a ser exumada após um longo período de canções mais pessoais, através de um som viçoso, mas delicado e rústico. Faz lembrar o trabalho antigo de Bird, especialmente em Noble Beast, mas com uma confiança e uma assertividade nova, que não tem medo de se soltar das cordas da simbologia e da confusão linguística para expressar o que Bird realmente pensa. Claro que encontramos as já clássicas metáforas e referências obscuras (nomeadamente uma ao antigo diretor do FBI e outra a Sci-Fi japonês) típicas dele, mas encontramos também duas mensagens muito claras: nós só podemos ser definidos por nós próprios, não pela nossa sociedade, e muito menos por aqueles que nos querem destruir, e os nossos problemas só serão resolvidos pela empatia, não pela isolação num “remoto arquipélago”.

 

Somos depois travados por Proxy War, uma canção eclética e curiosa, mas que, para mim, é um enigma. É um enigma porque vemos muita semelhança com canções como Bloodless e Archipelago (aliás, pelo nome, podíamos assumir que se ia tratar de uma track política), mas também muita semelhança com o trabalho anterior de Bird, regressando a um simbolismo excessivo, pouco claro e que nos deixa um pouco perdidos. Mesmo assim, os violinos mantêm-se otimistas e as letras de Bird continuam a tentar dar-nos uma lição de vida. Do que percebi, esta canção parece ser sobre como as memórias nos podem influenciar e até mesmo como nos podem amaldiçoar, estragando o nosso dia ao lembrarmo-nos do quão boas, ou más, eram as coisas no passado (se calhar não gosto desta canção porque me traz flashbacks da composição do exame de Português, sendo que admitir isso seria provar que Bird tem toda a razão). Uma proxy war travada por alguém, através das nossas memórias. Como podem ver, algo confuso.

 

Somos introduzidos a Manifest por uma guitarra acústica, criando o ambiente folk que irá ficar presente até ao fecho do ponto alto do álbum. Introduzindo violino, piano, bateria e assobios característicos de Bird, e sem uma pitada de distorção elétrica, a canção torna-se num return to form instrumental para Bird (apanho muitas vibes de Break it Yourself, de 2012, aqui), mas inova pela sua letra concisa, consistente e curiosamente pop. A canção conta a história que todos nós habitantes da terra conhecemos: nascemos, evoluímos, morremos e voltamos a evoluir, desta vez para matéria fóssil, que eventualmente será dissipada na atmosfera. Olhando de forma vazia para um desfiladeiro, Bird questiona o sentido disto tudo, mas especialmente o sentido de conquistarmos a terra se acabaremos como gás a escalar a estratosfera, este manifest destiny (historicamente, o direito divino à conquista do seu continente que os americanos acreditavam ter nos primeiros anos de vida do seu país). A canção tem também uma veia política ao fazer-nos questionar se a queima de recursos fósseis (que, ao contrário da China, é a verdadeira causa do aquecimento global) será algo positivo, e se a conquista da terra é mais importante que a sua preservação. Até porque, ao contrário da humanidade, o planeta terra até devia ter uma distante data de validade.

 

Don The Struggle entra nos nossos ouvidos através de batidas de marcha, acompanhadas por um dedilhar de violino que faz lembrar Are You Serious? . Começa-se a bater o pé, mas sentimos que estamos a tropeçar, enquanto Bird repete: “We’re all just stumbling down/ In an unnamed struggling town”. Depois, quase que subitamente, palmas começam a bater, Bird começa a assobiar e a canção começa a acelerar com uma energia com poucos paralelos na discografia de Bird. A mensagem aqui é clara e muito semelhante à de Archipelago e de Bloodless: temos de parar de assumir que temos respostas para tudo, porque na realidade estamos todos a cambalear, sem respostas, apenas com orgulho no que nós achamos ter realizado. É fútil viver assim, já em Sysiphus fomos avisados, a solução encontra-se na empatia e na consonância, mesmo que isso signifique enfrentar quem realmente somos e “vestir as nossas lutas”, não os nossos resultados. Bird dá-nos ainda um magnífico solo de violino para colmatar a mensagem, quase como forma de refletirmos sobre o tanto que ele nos deu.

 

O álbum conclui com Bellevue Bridge Club, uma track com um título tão específico que até parece estranho num álbum tão geral como My Finest Work Yet, até porque Bird não hesita em fazer um name-dropping dedicado a seis pessoas diferentes, mencionadas apenas pelo primeiro nome. No entanto, não encontramos nada que se limite à experiência de Bird. Bellevue é o nome de um famoso hospital na cidade de New York conhecido pela sua ala psiquiátrica, mencionada diretamente na canção, e os seis nomes tanto podem ser de alguém importante como podem ser inventados. A meu ver, Bird enfrenta aqui a sua subconsciência, explorando a sua psique num exercício de autoconhecimento fulcral para a criação de um álbum tão consciente e tão moralizador. É a colisão do artista com a sua consciência, com o seu Jiminy Cricket escravizado e deturpado para servir as suas vontades musicais. No entanto, Bird entende o quão perigosa esta utilização do seu subconsciente pode ser, percebendo, curiosamente na bridge da track, que tal escavação metal pode conduzi-lo à loucura, e acabará por ser internado em Bellevue, onde passará o resto dos seus dias a jogar bridge com os restantes pacientes. A guitarra elétrica e o otimismo expressado pelo seu violino contradizem a mensagem, mas faz-nos pensar se este esforço todo foi igualmente contraditório. Será que Bird sabe o que está a fazer? Será que a arte compensa a exaustão mental que o artista suporta?

 

Na capa do álbum, encontramos a cara de Andrew Bird estampada no quadro A Morte de Marat, de Jacques-Louis David. Marat, jornalista e revolucionário líder dos Montagnards durante o período do Terror da revolução francesa, foi morto por uma aristocrata apoiante dos Girondinos, Charlotte Corday. É claro que Bird se vê como um Marat, um revolucionário que não tem medo de dizer o que pensa e que recusa a moderação, mas não é óbvio quem é assassino. Será a sua esposa? Dado que Charlotte Corday também é uma mulher, e dado os problemas no casamento de Bird, tal teoria poderia fazer sentido, mas seria sugestiva o suficiente para acabar com a relação que Bird tenta tanto salvar. Será a aristocracia, que bebe Moet Chandon em Bloodless? Também duvido, acho que estão demasiado ocupados. Serão os moderados? Duvido ainda mais, até porque Bird passou 45 minutos a tentar convencê-los. Na minha opinião, especialmente tendo em conta a última canção do álbum, Bird tem medo de si próprio, tem medo que a sua própria arte o venha a destruir. É por isso que My Finest Work Yet é tão importante para Bird. Aqui, o violinista/cantautor/assobiador deitou fora os perfecionismos e os experimentalistos que tanto ameaçavam a sua carreira. Perante a sua música anterior, Bird decidiu simplesmente deixar o “rochedo rolar”, como diz logo nos primeiros versos Sisyphus, declarar as suas opiniões e afirmar o que sempre pensou mas nunca teve a coragem de soltar sem ser de forma oculta. My Finest Work Yet é, por isso, um álbum corajoso, e o que perde em qualidade ganha em autenticidade, honestidade e optimismo.

 

Tomás Burns

 

Nós

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Powered by