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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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04
Mar21

Eu, Um Mundo Sem Ar, E As Pessoas Do Amanhã

Jur.nal

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Fotografia de Sofia Estopa

 

Há meses que permaneço enclausurado num mundo

No qual jamais havia passado mais do que algumas horas.

A tempestade que trancou a porta cumprimentou-me,

Não com um relâmpago lancinante nem com um vento brutal,

Mas com o sorriso amargo de quem não vai matar de uma só vez.

 

Já parti a janela do meu quarto sete vezes e ninguém ouviu,

Reconstrói-se da noite para o dia à medida que a outra luz se desvanece,

E reconstrói-se sempre, sempre, sempre…

Não há dia que não vá à janela para ver o que está do outro lado,

E não há dia que não me desiluda com a falta de cor

Do mundo que tantas vezes me anestesiou do meu.

 

Soube desde o início que o problema não era a lente,

Mas nem por isso deixei de tentar destruí-la.

Não sou presunçoso ao ponto de dizer que sou diferente da maioria:

Às vezes prefiro não ver do que ver algo que me doa, e ponto final.

Seja como for, não a parto mais, e não porque seja corajoso,

Mas porque me dói perceber que ela se reconstrói.

 

A janela grita cada vez que o mundo lá fora sangra,

Os meus olhos arregalam-se, as minhas mãos tremem, e falta-me o ar.

Não há um joelho que me pressione o pescoço

Nem a ausência de um ventilador que me possa salvar a vida,

Mas os gemidos do mundo lá fora não me permitem a paz, penetram-me a alma

E os meus olhos arregalam-se, as minhas mãos tremem, e o falta-me o ar…

 

O fogo do inferno que está longe não passa pelos ecrãs,

Pode até tornar o ambiente menos fresco, mas não chega a queimar.

Contudo, desta vez o Diabo encheu o peito de ar e soprou…

E soprou com tamanha brutalidade que até alguns dos mais fidalgos

Do ocidente deixaram de conseguir respirar.

Não sei se neles me deva incluir, mas que me falta o ar, falta…

 

Estou preso num mundo que, com a ajuda do outro, me despiu,

E despiu-me com uma facilidade tal que me faz sentir ridículo,

Completamente ridículo…

Os temores que amiúde intentam pintar de negro as paredes deste quarto,

(Que é o meu cérebro), tornam-se mais pequenos quando salto pela janela,

Mas agora eu não posso saltar...

 

Estou trancado no mesmo quarto que os problemas que aqui nasceram,

Problemas corriqueiros germinados numa mente como qualquer outra,

Problemas que outrora me gelavam de medo,

Que me convenciam que me tiravam o ar,

Que me ameaçavam que poderiam acabar com dois mundos…

Mentirosos…

 

O choque da tempestade que me trancou a porta

Não teve força bastante para os matar de uma vez.

Mas, ao impedir-me de fugir do meu mundo para o outro,

Obrigando-me a assistir pela janela a um filme que sai do ecrã,

Fez-me sentir toda a dor de um mundo sem ar,

De um mundo que tem problemas muito maiores do que os meus.

 

Os problemas que não me permitem o sono

Já não podem ser adormecidos por meio de um mero salto,

Permanecem agora sempre acordados, mas afiguram-se menos pungentes.

Sou hoje dilacerado por um mundo que não é só meu,

Por um mundo que desde sempre chora e hoje me comoveu,

E por isso julgo estar mais perto de me tornar num homem.

 

Não é verdade que a dor partilhada não me tenha já antes feito chorar,

Fê-lo provavelmente tantas vezes quantas fez ao mais comum dos homens.

Mas hoje sinto-a como sendo mais do que uma dor que faz nascer lágrimas,

Sinto-a com uma intensidade tal que o ar parece não querer entrar…

As mãos e os joelhos do mundo lá fora trespassam a janela e pressionam-me,

E pressionam-me o peito e o pescoço com tamanha violência

Que os problemas do meu mundo cedem lugar a uma simples vontade de respirar.

 

Os meus temores ridículos ainda existem, mas é como se não existissem.

Há algo bem maior do que eu e do que qualquer outro alguém,

Há algo bem maior do que a soma de todos os mundos individuais…

Sempre houve e sempre haverá, eu sempre o soube e sempre o saberei.

Mas foi hoje, foi hoje que o grito da Humanidade me fez querer ter força

Para gritar bem alto, para gritar bem alto por qualquer coisa que não sei bem o quê…

Só quero que o mundo volte a respirar...

 

Mas não há ventilador que valha a este mundo doente…

Quando passar a tempestade que agora estoira

Muitas outras continuarão, e outras tantas surgirão.

É certo que se o inferno não chegar perto muitos voltarão a respirar,

Mas o mundo… O mundo não!

O mundo não respirará enquanto bombas estoirarem,

Enquanto houver quem tenha fome,

Enquanto houver quem morra por falta de assistência…

O mundo não respirará enquanto muitos dos mundos individuais

Tiverem a pretensão de parecer maiores do que a Humanidade.

 

O amanhã não oferecerá ao mundo a sorte de uma respiração tranquila,

Nem o amanhã nem o depois de amanhã.

Mas estou certo de que o hoje, de que o ontem e de que o anteontem

Tiraram a respiração a muitos daqueles que se viam no centro de tudo,

E que agora, depois de voltarem a encher meio peito de ar,

Olharão pela janela vendo o mundo lá fora como algo maior

Do que um meio de encontrar alimento para os seus próprios mundos.

 

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que o mundo só permitirá a existência do “Eu”

Enquanto os “Eus” tiverem força bastante para evitar a sua destruição.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que só em comunidade podemos intentar vencer os grandes males

Que atentam contra toda e qualquer individualidade.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que muitos dos seus problemas corriqueiros não são nada

Quando comparados com a revolta de um mundo conspurcado.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que o sentimento daqueles que fogem do seu país por conta da guerra

É semelhante ao sentimento daqueles que voltam ao seu país por conta da pandemia.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que aquilo que naturalmente nos une como habitantes de um mundo global

É muito maior do que aquilo que eventualmente nos possa artificialmente separar.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que morrer com falta de ar é de uma brutalidade tão cruel

Que já basta que a natureza ofereça esse fado a alguns.

Algumas pessoas do amanhã não conseguirão encher o peito de ar

Ainda que o inferno continue apenas lá longe.

E eu espero que todos os que leram o poema até aqui

Façam parte destas “algumas pessoas do amanhã”.

 

Não sei o que será o amanhã, mas quero saber.

Não quero tapar mais os olhos, quero ver.

Sinto-me agora mais pequeno e mais homem

Do que quando iniciei o poema,

E por isso não terminarei com um “Eu”.

Uma coisa é certa:

O amanhã será tanto melhor quantas mais

Forem aquelas “algumas pessoas do amanhã”.

 

André Neves (Aluno Do 3.º Ano Da Licenciatura)

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