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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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22
Abr21

Estocolmo

Jur.nal

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https://unsplash.com/photos/i8u5gz-ZeIc

 

Três e meia da manhã não eram boas horas para estar parado num semáforo vermelho com o rádio avariado. No que me dizia respeito, não era altura apropriada para fazer o que quer que fosse a não ser dormir; e, na verdade, era para aí que deslizava quando a luz verde se dignou a acender, e pude por fim arrancar. O motor enferrujado do meu velhinho Citroën AX protestou ruidosamente enquanto o forçava a acelerar, mudança puxa mudança, pelas ruas desertas da madrugada lisboeta - até ao semáforo seguinte, claro está. Ainda que o meu carro discordasse com rugiente veemência, conduzir àquelas horas era incrivelmente relaxante, e sem dúvida a melhor parte do turno da noite. Confesso que nunca gostei por aí além de me pôr atrás do volante, mas, há coisa de ano e meio, quando aceitei o meu atual trabalho noturno como empregado num hotel de luxo, percebi que o meu problema residia menos no ato em si e mais nas carradas infindáveis de idiotas chapados com que uma pessoa se via obrigada a partilhar a estrada durante o dia.

 

Dois quarteirões adiante, avistei os armazéns que procurava, com o seu inconfundível letreiro luminoso amarelo sobre um fundo azul, os mesmos onde gastara umas boas horas uns anos atrás a escolher a mobília para o meu apartamento. Fiz o pisca para a direita e enveredei pelo caminho privativo que levava ao parque de estacionamento. Escusado será dizer que estava praticamente vazio, e encontrar um lugar não foi problema. A questão agora era descobrir o meu amigo Márcio e, pelo caminho, explicar que não andava a urdir qualquer espécie de plano sinistro ao segurança que naquele momento fazia a ronda pelas bandas da entrada principal. Que pretendia tão-só falar com o meu grande amigo dos tempos do liceu, quando jogávamos PlayStation pela noite dentro, antes de os pais lhe morrerem num acidente e ele ter desatado a tomar, primeiro, e a vender, depois, coisas que se calhar não devia; e a quem acabara de localizar graças a um telefonema inesperado, dois anos após o ter visitado pela última vez na prisão. Senti o olhar desconfiado do guarda através do porque mal iluminado e comecei a duvidar do sucesso da missão; mas, num ápice, o homem introduziu-se na aventesma

 

arquitetónica que era aquele enorme bloco de betão, esgueirando-se pela porta de serviço, e logo emergiu de novo acompanhado de dois outros vultos. O trio plantou- se à minha espera, todos de mãos nos bolsos. Depois de verificar que trancara o carro, fui ao encontro do comité de receção, e bastaram-me alguns passos para identificar o par recém-chegado: um era um segundo segurança, já de cabelo grisalho, e o outro era Márcio. Aliviado, constatei que já tinham sido avisados da minha vinda, e, concluídas sumariamente as apresentações, o guarda mais velho abriu-me, solícito, a porta. No interior da loja, a luminosidade era tal que não tive remédio senão levar a mão esquerda aos olhos e piscá-los por uns instantes. Entretanto, Márcio pareceu ler o que me ia na cabeça e apressou-se a responder à minha inquirição antes de eu a haver sequer formulado.

 

-São porreiros, não me perguntes como os conheci, mas dou-me bem com eles. Tenho dormido sempre aqui ultimamente.

 

Com a visão por fim habituada à luz, sondei o meu velho companheiro de alto a baixo. Envergava uma camisa branca esplendidamente engomada por baixo de um casaco Tommy Hilfiger azul claro, umas calças cáqui e uns elegantes sapatos de vela da mesma cor. Aos trinta e dois anos, ostentava um penteado impecável e trazia a barba feita, ao contrário do que era seu hábito no liceu. Era, sem sombra de dúvida, o mais bem vestido sem-abrigo em que alguma vez pusera a vista em cima.

 

-O que foi? - perguntou-me, sorrindo.

 

-Nada - respondi, incapaz de conter uma pequena risada - é só que, tecnicamente, és um sem-abrigo.

 

-Permite-me descordar disso.

 

Como um anfitrião afável a convidar o hóspede para um tour da casa, Márcio esboçou um gesto indicando “vem daí”. Prontamente acedi, seguindo-o pelos corredores atulhados até ao tutano de tralhas minimalistas - o que não deixava de carregar consigo a sua dose de ironia, pensei. À minha volta toda a espécie de cadeiras, mesas, estantes, cómodas, camas, divãs, pufes das mais variadas pigmentações, mais uma profusão de milhentas outras parafernálias caseiras que,

 

temo, o meu limitado vocabulário não me permite nomear, ladeavam cada corredor, numa cordilheira claustrofóbica e hipnotizante. Os exóticos nomes suecos espicaçavam a curiosidade: velas aromáticas Flärdfull, colchões Tjöme, cadeiras de madeira maciça Ingolf, torneiras Hovskär, miniarmários Knös. Uma abundante procissão de superfluidades minimais desenhadas no frio da Escandinávia e fabricadas a um continente de distância, maravilhosas comodidades produzidas em série e que, a julgar pelos preços alumiados pelos potentes focos a incidir desde o teto, poderiam tornar-se minhas a troco apenas de uma reduzida porção do meu modesto salário. Uma oferta tentadora.

 

O meu cicerone conduziu-me à zona dos quartos de dormir, a uma mis-en- scène composta por um jogo de cama de casal com um edredão esverdeado, uma mesa de cabeceira simples de madeira clara e um tapete alvo.

 

-Nada mau, hem?

 

-Podes crer - respondi-lhe - mas eles deixam-te mesmo dormir

 

aqui?

 

-De noite isto é uma cidade fantasma - declarou, sentando-se na cama feita - e sempre vou ajudando a vigiar.

 

-Hmm.

 

-A sério, é o meu emprego.

 

-Ah é? Quanto te pagam?

 

-Alguns trocos, sei lá, às vezes comida da máquina e cenas assim.

 

- Estou a ver.

 

Reparei na sóbria cómoda, também de cor branca, que completava o cenário. Sobre ela estavam expostos um gira-discos estilo faux retro, com meia dúzia de LP empilhados a condizer, e um televisor LCD ultrafino.

 

-Com que então, apreciador de The Strokes - comentei, remexendo no álbum vermelho escuro pousado no topo da pilha.

 

-Nada disso, está tudo vazio. São só para decoração - esclareceu o meu amigo

- queres ver televisão um bocado?

 

Não havia nada muito melhor para fazer, pois não? Estava a começar o noticiário das quatro. Senhores telespetadores, recebemos a informação de que um tiroteio na América derramou uma quantidade suficiente de litros de sangue para o noticiarmos; infelizmente não fez tantas vítimas nem tão próximas como desejávamos, mas é o que de mais satisfatório se arranjou hoje em matéria de carnificina. O locutor não o disse por estas palavras. Contudo, disse-o na mesma, qual Lou Bloom em Nightcrawler. Depois passou uma reportagem sobre um regime comunista despótico para as bandas da Ásia, levando-me a pensar para comigo que o bonito acervo de inutilidades que me rodeava talvez não fosse, afinal, tão mau assim. No intervalo publicitário que se seguiu, um homem chato ia elogiando numa voz suave os méritos do novo topo de gama de uma construtora alemã de automóveis. Estava prestes a cair nos braços de Morfeu quando estremeci de supetão ao escutar as derradeiras frases do anúncio. Se se cruzasse com o seu eu mais jovem, o que diria ele de si? Do automóvel que conduz? Subitamente desperto, apercebi-me de que se fazia tarde. Infelizmente para os importadores da dita marca, não saí disparado rumo ao stand mais à mão substituir o meu fiel Citroën; antes dei duas palmadinhas amigáveis nas costas de Márcio e pus-me a caminho de casa, despedindo-me com a promessa de o visitar mais vezes. À porta, ainda perguntei:

 

-Tens a certeza de que não queres passar uns tempos em minha casa? Posso ajudar-te até arranjares um sítio.

 

Olhou para mim como se lhe tivesse perguntado algo de indecente. E tinha, em boa verdade. Pensando melhor, a sua vida não era assim tão diferente da minha.

 

Pedro Miguel Silva (Aluno do 1.º Ano de Mestrado)

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