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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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13
Nov19

Entrevistas #6 - Benjamim

Jur.nal

“(…) escritor de canções, músico e produtor. Em 2015 lançou 'Auto Rádio' e em 2017 gravou '1986', disco a meias com o músico britânico Barnaby Keen.” É o que se começa por ler na biografia da página de Facebook de Benjamim, que, de resto, deu que falar nesta entrevista. A Micaela Ribeiro e o André Certã, ambos alunos do 3.º ano da Licenciatura, partiram para a conversa com este multifacetado artista português.

 

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André - Quem é o Benjamim?

Benjamim – O Benjamim é uma personagem que eu criei para escrever canções, basicamente. Vem originalmente do Walter Benjamin, que era outra personagem que eu criei para fazer canções em inglês. Mas depois passei a escrever em português e achei que o nome já não fazia sentido e fiquei só com o ‘Benjamim’. Acaba sempre por haver uma vontade de escapar ao nome [Luís Nunes] (risos).

André – Sendo nós alunos universitários gostávamos de conhecer a tua experiência universitária.

B – Comecei por estudar Antropologia na NOVA. Fui para lá em 2004 e saí em 2008. Foi uma boa experiência, acabei o curso. Depois, tive uma experiência em Londres. Estudei Engenharia de Som. Portanto, tenho dois currículos académicos bastante diferentes.

Micaela – De onde surgiu Antropologia?

B – Honestamente, veio de não ter média para Direito (risos). Acabou por ser engraçado porque apesar de ter Direito como primeira opção nunca quis fazer Direito. Era uma obrigação moral que eu sentia pelas expectativas familiares. Mas não entrei, e ainda bem, porque se tivesse entrado não teria acabado o curso porque é demasiado exigente para um gajo como eu que passou a Faculdade a fazer música.

Micaela – Consideras que o ambiente da FCSH te ajudou a perceber que o caminho era a música?

B – Foi claramente um ambiente mais favorável porque existiam mais pessoas ligadas às artes. Há malta ligada às artes em todas as Faculdades, mas na FCSH… eu conheci o B Fachada na FCSH! Foi absolutamente determinante no início da minha carreira musical.

 

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André – Focando-nos agora na tua música, e recuperando teu último álbum: como foi gravar o 1986 com o Barnaby Keen e todo o percurso que se seguiu com ele?

B – Isso surgiu porque eu conheço o Barnaby de Inglaterra já de alguns anos. Cruzámo-nos quando estava lá a trabalhar e acabei por fazer som para a banda dele. Ele percebeu que eu era português – ele viveu no Brasil e fala português, e é fanático por música brasileira. Criámos uma amizade baseada nisso. Ele é um grande músico. Houve uma vez em que veio a Portugal e fizemos uma jam juntos e aquilo estava a soar bem. Surgiu-nos a ideia: ‘bora fazer um conjunto, e fazemos um álbum em que eu posso cantar músicas tuas e tu músicas minhas. Ele veio duas vezes a Lisboa, depois, e gravámos. Foi incrível andar com ele na estrada.

Micaela – Em relação ao teu primeiro álbum, o Auto Rádio, que pessoalmente é o meu preferido, tem a canção Exílio. De onde veio? Parece-me uma ode de agradecimento a Lisboa.

B – Não é bem um agradecimento. Surgiu numa altura em que eu estava chateado com Lisboa- Foi quando voltei para Portugal, em 2013, na altura da crise, em que toda a gente dizia “não voltes, aqui não há nada”. Nasceu um pouco de eu andar por Lisboa à noite e pensar nos prédios com centenas de anos que resistiram a crises bem piores e continuam de pé. É essa ideia de que a vida continua e teres de te agarrar à cidade como coisa constante na tua vida.

André – Com o álbum 1986, a Terra Firme tornou-se a tua canção mais famosa. Como te sentes em relação a isso: tinha-lo previsto?

B – Não (risos). Não tinha previsto nada disso. Nunca prevejo esse tipo de coisas. Imagino sempre que vai correr mal, e depois logo se vê se corre bem. Foi surpreendente, e obviamente fiquei muito feliz. Na verdade, era uma canção na qual eu acreditava bastante, e acabou por ser uma grande luta chegar a ela tal qual ficou no disco, houve até momentos em que me disseram que a devia tirar. Foi uma canção que teve um parto algo difícil e, portanto, foi surpreendente ver o quanto cresceu e o impacto que teve. Fui completamente apanhado de surpresa. É uma canção que, ao contrário de outras, eu não me farto de tocar, e, portanto, fico contente que tenha ressoado nas pessoas.

André – Mas, ao contrário de outras canções, Terra Firme tem um cariz diferente, mais político.

B – Sim. Não lhe chamaria político, mas mais humanista em consciência. Não é uma canção política nem pretendo ter intervenção política. Estava no sofá, a assistir ao que se passava no mundo (na altura, havia mais ecos do Mediterrâneo), e tinha um pouco aquele sentimento de impotência. A única coisa que podia fazer era desabafar [através da música].

André – E o resto do álbum tem alguma back story?

B – Tem referências ao mar, que eu acho que têm a ver comigo. Não foi propositado. As minhas quatro canções deste último álbum são todas diferentes. Não tentámos que as canções tivessem uma ligação entre elas, porque isso era muito difícil de fazer e talvez nem desse grande resultado. A nossa ideia foi conseguir uni-las através da nossa energia musical. Mas são histórias diferentes.

 

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Micaela – Há muitos artistas que dizem que os pontos maus das suas vidas são o que lhes dá mais criatividade. Revês-te nisso?

B – Não quero acreditar nisso, espero que não seja verdade (risos).

Micaela – Se tivesses de escolher uma das músicas de todas as que já compuseste para te caracterizar enquanto músico qual seria?

B – Neste momento, é a Terra Firme que mais me representa. É uma canção na qual me revejo muito. Se pensar na Os Teus Passos ou na Tarrafal, os meus primeiros singles, e que lançaram o projeto, são canções nas quais eu me revejo pouco, mas foram muito importantes quando comecei a tocar. Também já estou um pouco farto: fiz 200 concertos com aquelas músicas, a certa altura começas a ganhar aversão… e há canções que sobrevivem melhor [Terra Firme]. Não me chateia nada que as pessoas me conheçam só por essa canção; seria pior se só me conhecessem pela Os Teus Passos ou pela Tarrafal.

Micaela – Que artista português podes dizer que, neste momento, está na tua playlist?

B – Olha, o Luís Severo está na minha playlist, o Filipe Sambado também. O B Fachada obviamente. Mas estou a esquecer-me de nomes…

André – O B Fachada é quase um ícone. Também na entrevista ao Luís Severo se falou dele.

B – Ele foi um grande precursor. Em 2008, com a Flor Caveira, quando aparece ele, o [Samuel] Úria, essa malta toda…, o B Fachada obviamente teve muito destaque na altura, e era um gajo que ocupava um território um bocado diferente porque não era religioso. De entre aquela malta toda ele apelou a públicos um pouco diferentes. Foi um pouco mais longe, na altura, do que os outros. Não esquecendo, obviamente, o Úria que hoje tem uma grande carreira e é um gajo que eu ouço bastante. E ando a ouvir muito Sam The Kid! [Ainda sobre a pergunta anterior].

André - Recentemente, quando aconteceu o triste falecimento do Daniel Johnston, puseste um vídeo no teu instagram de uma cover tua da True Love Will Find You In the End.

B – Não é uma grande cover (risos). Senti um bocado de vergonha com essa gravação.

André – Eu, pessoalmente, gostei. E também gosto do Johnston. Ele teve alguma influência na tua música?

B – Sim, claro. Quando eu o descobri foi um pouco uma revelação. Aquele tipo de som lo-fi… eu já tenho 33, portanto sou daquela geração que bebeu muito do indie rock dos anos 90 americano (Yo La Tengo, Pixies, Nirvana, Smashing Pumpkins, …) e, obviamente, nesse pacote também há Daniel Johnston. Aquela maneira de cantar deixa-te desconfortável, tu não percebes se gostas ou se não gostas – aquele som mais cru. Mais depois acabas por te apaixonar. Eu gosto mesmo muito da música dele.

 

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André – Tu colaboras com outros músicos portugueses, nomeadamente a Lena D’Água. Donde surgiu esta colaboração, tendo em conta que se trata já de um ícone da música portuguesa?

B – Eu conheci a Lena porque a tinha posto nas minhas influências no meu perfil de Facebook, e ela, uma vez, ouviu uma música minha na rádio e foi investigar no Facebook quem era eu. Deu de caras com a minha página no Facebook e viu lá o nome dela… mandou-me mensagem e começámos a falar. Depois, veio fazer uma colaboração comigo, na última vez que toquei no CCB, há 3 anos. , e eu sempre tive a cena de querer trabalhar um dia com ela. Entretanto, mais amigos meus também andavam a namorar essa ideia e acabaram por também tocar com ela. A primeira canção que gravámos com a Lena foi no Festival da Canção, há 3 anos. Aí, fomos a banda de suporte dela e fomos nós que gravámos a canção dela. Fomos à final, ganhou o Salvador [Sobral]. Foi aí que tudo começou – estivemos 2 anos a gravar o disco dela [Desalmadamente, 2019].

André – Quanto à Joana Espadinha, têm juntos a canção Leva-me a Dançar. De onde surgiu essa tua colaboração?

B – Eu conhecia a Joana apenas de “Olá, tudo bem?”. Conhecia, na altura, o João Firmino, namorado dela, vocalista dos Cassete Pirata. Houve um dia em que ela me mandou mensagem a convidar-me para um café dizendo que gostava muito de falar comigo, e surgiu a ideia. A história é mais comprida que esta, mas basicamente foi o que aconteceu. Sendo que desde este momento até começarmos a trabalhar demorou cerca de 1 ano. Houve uma série de coisas que tivemos de harmonizar.

André – Planeias algum álbum em breve? Qual o futuro do Benjamim?

B – Eu estive 3 anos a produzir montes de discos (Joana Espadinha, Cassete Pirata, Flak, Lena D’Água, e agora João Pedro Pais, muito recentemente), foram muitas coisas e foi muito duro em termos de trabalho. Cada disco são meses em que estás focado naquilo. É um trabalho física e psicologicamente muito exigente. E agora cheguei à fase em que parei completamente de trabalhar para outros e estou só focado em fazer o meu disco e fazer canções (desde o verão de 2018). Em 2020, seguramente, terá de haver um disco. Se não, estou tramado (risos).

 

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Micaela – Vais manter a vibe dos discos anteriores ou podemos esperar algo de diferente?

B – É diferente. Não há guitarras, quase. É quase tudo ao piano, sintetizadores, caixas de ritmo, bateria, baixo… Estou um pouco a explorar o universo. Eu sempre gostei de música diferente, e odeio que a coisa fique ali sempre naquele rock. Portanto, acho que o disco vai ser bastante diferente do que foram os anteriores. Quando acabei de gravar o 1986 comecei a gravar um disco sozinho, um disco muito eletrónico, que se chama Berlengas e que já está quase todo gravado, mas ainda não está terminado. É uma espécie de disco perdido. Então, nós, no CCB [próximo concerto], também vamos tocar uma malha desse disco. No CCB acho que se vai perceber a onda do novo disco, mas não completamente (há canções que “puxam mesmo a corda” do ponto de vista sónico e que no CCB não conseguimos explorar).

André – A nível internacional, o que tens na tua playlist?

B – Eu ouço muita música, e demoro muito tempo a ouvir discos. Sou crente de que 85% das coisas que saem num ano não são assim tão boas. Hoje em dia há tanta informação, tanta música, tanta coisa apresentada como grandes projetos que é muito difícil seguir. Então, tento agarrar-me às coisas que ficam. Acho que o disco que tenho curtido mais este ano é o último da Sharon von Etten. Fiquei coladíssimo ao disco, é um dos que me marcou muito este ano. Depois, também ouço muitas coisas antigas: anos 60, 70…

André – E Benjamim consulta o Spotify… (risos).

B – Olha, tenho aqui Filipe Sambado, Elliot Smith, Purple Mountains, Glockenwise, Bob Marley, Little Joy, a All Things Must Pass do George Harrison, Capicua, Jungle, Beck, Panda Bear, Barnaby Keen, Primeira Dama, Beatles…

 

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Micaela – Houve algum momento-chave em que tu pensaste, quando eras novo, que era mesmo isto que querias fazer para a vida?

B – Foi gradual. Eu comecei por querer ser polícia, piloto de aviões, astronauta, inventor (esta foi uma cena que durou muito tempo)… A determinada altura, quando já estudava música, e quando comecei a tocar e a experimentar gravar coisas, comecei a ficar obcecado. Em 1997, tinha 11 anos, comprei uma revista de gravação numa loja de discos, que custava 990 escudos, portanto quase 5 euros. Comprei essa revista e lembro-me de ficar completamente transtornado com aquilo, no bom e no mau sentido. Lia aquilo de trás para a frente. Se calhar foi mesmo esse o momento em que percebi que queria fazer música na minha vida.

 

Os entrevistadores: André Certã, Micaela Ribeiro

Fotografias: Petra Freire

 

 

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