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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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29
Mar21

Contágio

Jur.nal

Contagion_Poster.jpg

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cont%C3%A1gio_(filme)#/media/Ficheiro:Contagion_Poster.jpg

 

Há cerca de um ano, a OMS declarou que a Covid-19 se tinha tornado pandémica; a partir daí a vida das pessoas foi profundamente alterada. Já sei que há leitores que estão prestes a abandonar esta crónica porque não aguentam mais nenhuma informação, ou relato sobre a pandemia. Vou desde já descansá-los, visto que não é esse o propósito deste curto texto.
Nesta pandemia, para além dos infetados, e das mortes presentes em qualquer doença transmissível grave, vimo-nos obrigados a ficar confinados em casa durantes longos períodos. Foi neste contexto que, durante o primeiro confinamento, em Portugal e no resto do mundo, livros e filmes que abordavam a temática das epidemias voltaram a estar no topo das vendas, como, por exemplo, A Peste de Albert Camus, ou o filme Contágio.
Dentro do universo dos filmes sobre quarentenas e epidemias que vi, o que mais me surpreendeu foi precisamente o filme de Steven Soderbergh, Contágio. Neste filme, estão presentes muitas situações que se assemelham à atual pandemia. Muito sumariamente, o filme mostra o evoluir de uma epidemia, que primeiro apenas afeta uma comunidade nos EUA, mas rapidamente se torna pandémica.
As semelhanças entre a pandemia ficcionada no filme e a pandemia atual são inúmeras. Desde logo, no filme, o vírus provém da China, e é o resultado da destruição de habitats e do contacto dos seres humanos com a vida selvagem, tendo a doença, ao que tudo indica, surgido por zoonose (de um morcego para um porco, e deste para os humanos). Mas as semelhanças não ficam por aqui, há transmissão do vírus em locais fechados e com concentração de pessoas, como nos transportes públicos; vemos casos de corrupção; a proliferação de teorias da conspiração; cercas sanitárias; medo do outro. A desconfiança em relação a terceiros é bastante clara, por exemplo, numa cena bem conseguida, em que um dos personagens principais, interpretado por Matt Damon, não deixa que a sua filha se aproxime do seu namorado por temer um potencial risco de infeção.
Apesar disso, existem também diferenças substanciais, nomeadamente a taxa de letalidade do vírus do filme anda na ordem dos 25% a 30%, enquanto, em Portugal, no mês de março, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova, a Covid-19 apresentava uma taxa de cerca de 2%.
Depois de ter visto o filme, a minha primeira impressão foi que se tratava de um filme premonitório, que acertava com grande exatidão num (péssimo) cenário futuro (isto é, o presente). No entanto, depois de alguma reflexão, apercebi-me que estava completamente enganado. Os argumentistas, e outros criativos envolvidos na sua produção, apenas se socorreram de informações e previsões elaboradas pela comunidade científica. Não foram assistidos por providência divina para conhecer o futuro, bastou-lhes procurar o auxílio do conhecimento científico de especialistas.
Se os estúdios de Hollywood conheciam esta realidade, então não há desculpa para os decisores políticos, que escolheram desvalorizar as opiniões de especialistas, e até diminuir o financiamento de agências e entidades que lidam com estas matérias; como aconteceu com a diminuição do financiamento da OMS ou, nos EUA, da CDC. Deviam ter tido em conta o conhecimento das pessoas que sabem do que falam.
Ao escolher deliberadamente ignorar os avisos da comunidade científica, a comunidade internacional, com uma clara responsabilidade acrescida dos ditos países desenvolvidos, permitiu o surgimento do “novo coronavírus”, como os órgãos de comunicação social gostam de se lhe referir. Também não compreendo por que motivo insistem em chamar “novo” ao vírus, ainda hoje, como sendo algo novo, quando já passou mais de um ano desde o seu surgimento.
Portanto, este filme merce ser visto não pela sua qualidade enquanto grande objeto artístico, mas por nos lembrar que a atual pandemia poderia ter sido evitada ou, pelo menos, os seus efeitos poderiam ter sido mitigados. Por um lado, serve para nos relembrar a importância da ciência nas decisões políticas de longo prazo. E serve principalmente para nos lembrar que os políticos devem ser responsabilizados pelas suas decisões que podem desencadear consequências extremamente negativas para toda a humanidade. Por outro lado, mostra um cenário que pode realmente ocorrer no futuro. Numa muito possível futura pandemia, com uma taxa de mortalidade similar à do filme, as instituições democráticas, os hospitais, não resistiriam. Haveria tumultos, motins, violência. Cabe à sociedade civil pressionar a classe política para garantir que tal cenário distópico é apenas matéria para o cinema catástrofe de Hollywood e não um cenário de um futuro próximo.

 

Pedro Serra (Aluno Do 2.º Ano Da Licenciatura)

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