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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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03
Mai21

Cansaço

Jur.nal

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Fonte da imagem: Unsplash 

 

Martim desligou o despertador três vezes. Ia acumulando os toques de quinze em quinze minutos. Cada vez lhe custava mais levantar-se. A sua mulher estava de pé desde as oito da manhã, em teletrabalho. O Martim olhou para o telemóvel e viu as horas. Dez e um quarto. Valerá a pena levantar-me?, pensou. Pensou isto todas as vezes enquanto o despertador tocava. Havia alguma necessidade de se levantar?
Sentia-se cansado por tudo, como se culpasse o mundo por todos os seus cansaços, anteriores e por vir. Estava envolvido nos lençóis de verão, ainda que fosse inverno. Eralhe mais confortável porque dormia despido. O corpo sob o toque leve de um único lençol, semelhante a água que escorria numa velocidade constante sobre a sua pele. Água morna, nunca demasiado quente, nunca demasiado fria. Desde os ombros até à ponta dos pés.
— Não te vais levantar, Martim?
Para quê?, pensou responder. Mas permaneceu calado para que ela pensasse que dormia. Devia comprar tabaco, já tenho pouco mais de meia dúzia de cigarros, volveu aos pensamentos. Enquanto batalhava para se erguer ou despertar novamente dali a quinze minutos, pegou no telemóvel. Não tinha notificações relevantes. Sem nenhum email, nem gostos nas redes sociais, ou até pedidos de novos contactos. Qualquer dia apago isto tudo, pensava. A necessidade das redes socais e até do telemóvel ia-se reduzindo de dia para dia. Cada vez passava lá menos tempo.
— Martim, anda comer qualquer coisa.
Não tenho fome, continuava a pensar em responder, mas não chegava a responder. A luz matinal já entrava pelo quarto a dentro como um romper demasiado alegre. Acho que vou parar de fumar, se decidir parar não o tenho de ir comprar e só faço bem à saúde; e até posso dormir mais quinze minutos. Pensou novamente para com ele. Estava decidido a parar de fumar. Não queria passar pelo incómodo de cumprimentar pessoas. Detestava pessoas, sejam elas quais forem. Sentia a vontade emergente de se livrar do telemóvel por isso mesmo – cansaço social. Olhou à sua volta e viu o par de chinelos velhos de inverno, rotos na sola da parte interior. Eram demasiado quentes. Tudo para o Martim era demasiado quente. Não suportava a ideia da sua pele estar aquecida com mantos superficiais ou próteses artificiais. Somente a água podia ser quente. Um bom banho de água a ferver, é disso que eu preciso, pensou. Mas quando sair de lá de dentro vou ter calor, que porcaria.
— Martim, hoje não há trabalho?
Há sempre trabalho, se me levantar já tenho trabalho. Mas continuou sem se levantar, a olhar cinicamente para o par de chinelos velhos hipoteticamente quente. Virouse para o outro lado da cama. Encarava a parede. Porra, apetecia-me mesmo um cigarro e um café. Mas são quentes. Não gosto de café frio, e também acho que não gosto dele quente. Debatia-se ainda contra a parede.
— Olha o carteiro, Martim – chamou a esposa. Quis levantar-se num golpe para socorrer a campainha daquele infernal toque, aquela vibração estúpida que o fazia sentir com uma enorme náusea. As pernas não responderam ao impulso. Deixou de sentir as pernas. Adormeceram antes de mim, riu-se interiormente.
Se não fosse ele a colmatar aquele toque metálico, eventualmente a sua mulher iria descer as escadas para receber a sua encomenda pensando que Martim ainda dorme. Com isto ele podia viver. Podia descansar e adormecer novamente. Como é que as pernas adormeceram tão rápido se segundos antes elas se volveram para o lado da parede? Será uma cãibra? Mas não podia ser isso porque não sentia dor, aliás, não sentia nada. Vou massajar as pernas. E quando ia descia as mãos, os braços não lhe responderam. O que é que se passa?
— Porra, Martim. Tens aqui a porcaria da tua encomenda e vê se te levantas. Eu não sou tua mãe e tenho trabalho para fazer. E tenho quase a certeza que tu também. Martim já não escutava as advertências da mulher. Tentava antes decifrar o que é que estava a acontecer. Como tudo aquilo era estranho. As pernas e as mãos estavam lá. Lembrava-se de como elas se mexeram há poucos segundos atrás. Virou-se de lado. Vireime, não virei? Questionou-se cada vez mais alertado. Tentou manter a calma. De seguida foram as mãos que suspenderam as atividades e sensibilidade.

JOANA, pensou em gritar. Gritou: JOANA, mas a voz não lhe saiu para além de um curto suspiro. Os olhos arregalaram-se em espanto e medo. O que é que se passa? Repetiu. Começou a rodar um enorme filme na pequena compartição da sua mente, como uma sala de cinema vazia, com uma cadeira ocupada por ele próprio. Viu a sua vida, sem se mexer, sem falar, e até quiçá, sem ver. O que era irónico porque se estava a ver naquele momento. Meu Deus, pensou, isto é ótimo! Não teria de interagir com mais ninguém. Poderia viver finalmente em paz, dormir o tempo que quisesse e assim que acabasse de dormir, voltaria a dormir. Era livre, livre por natureza, por uma condição natural, para
dormir! Dormir até não poder dormir mais e aí voltaria a dormir mais. Depois a sala escureceu um pouco mais e os pensamentos penderam para o lado obscuro. A Joana eventualmente deixá-lo-ia. Nem sei como é que ainda está comigo, pensou. Era uma mulher feroz, enquanto Martim era um cão muito velho que já não dava passeios. Retomou a fita do filme e reparou que os seus pais não viveriam muito mais tempo para o ajudar. O seu emprego não lhe garantira uma conta poupança que lhe permitisse uma vida num lar a ser cuidado. Não há ninguém para cuidar de mim, para onde vou agora? Pensou, dramaticamente.
O despertador voltou a tocar. Não se calava. Tocava repetidamente. Quase três minutos depois ainda vibrava pelo ar do apartamento. A Joana cansou-se daquilo e foi ter com Martim ao quarto.
— Desliga esta merd*, Martim – e pegou-lhe no telemóvel, desligando o despertador. – Já é mais que horas de te levantares.
O Martim não lhe respondeu.
— Levanta-te, pá – tentou abaná-lo com as duas mãos.
Martim sabia que se descesse as pálpebras provavelmente não as voltaria a abrir. Teve a decisão de optar por as manter abertas até Joana o rodar e vê-la uma última vez. Mas pensou o quão cansado também estava dela e preferiu que a parede fosse a última coisa que visse. Desceu as pálpebras e tal como previa, não as conseguiu erguer mais. A Joana rodou-o sobre si mesmo.

— Martim?
O Martim não respondeu.
— Martim?! – Joana começou a ficar assustada.
O Martim já não respirava. Ela pegou-lhe o pulso e sentiu-lhe a pulsação. Não havia pulsação. Martim morrera, e tanto quanto ele poderia ter imaginado, morrera de cansaço. Não percebia de onde é que vinha tanto cansaço, mas sentiu que era bom, poupava-lhe a trabalheira de um suicídio.

 

Marcío Luís Lima (Convidado do Jur.nal)

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