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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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12
Abr19

Acordada sinto-me a dormir

Jur.nal

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Estou de olhos fechados, mas vejo tanta luz. Estarei a morrer? É esta a luz de que tanto falam? É isto que vemos quando a natureza inevitável da vida chega e não temos como escapar? Terá chegado a minha hora? Mas ainda me sinto. Esta manta é tão áspera. Quando morremos continuamos a sentir? Mas estou a mexer-me. Sem saber se desejava conseguir abrir os olhos ou não, tentei fazê-lo lentamente. Ah, afinal estou vivo. Insisto sempre em esquecer-me que esta janela não tem cortinas. Queria tanto umas cortinas. Mexo-me na cama e tento aconchegar-me para aproveitar os últimos minutos antes de o despertador tocar. Esta luz é tão forte e esta manta é tão áspera. Desisto. Não há nada nesta cama e neste quarto que me aconchegue. Haverá algo em algum lado que o faça? O despertador toca. Sempre o mesmo som, à mesma hora, mas que me apanha sempre de surpresa. É tão forte e ensurdecedor que todos os dias tenho a sensação de que é acompanhado de um pequeno tremor da Terra. Que mal fiz eu para merecer isto? Ah, já sei…

 

A rotina repete-se como se não tivesse escolha, como se o meu dia tivesse sido planeado por terceiro, desprovido de conexão direta a mim, controlando todos os meus passos. Chego à cozinha. Como tudo na minha vida, sempre o mesmo, com o mesmo sabor, a mesma textura, a mesma sensação, o mesmo aspeto, o mesmo sem jeito caracterizador de mim mesmo. Sigo o caminho já previamente percorrido e definido. Água, café, pão. Hoje não há manteiga. Uma alteração. Boa ou má? Boa por ser o que é(,): uma alteração. Má porque gosto de manteiga e hoje não a como. Que diferença faz? Não há manteiga e não há nada que possa fazer agora para alterar esse facto. Sento-me (escuso de dizer que no mesmo lugar de sempre). Água, café, pão. Até as quantidades parecem pré-definidas de forma tão imaculada que formam a sequência perfeita. Água, café, pão. E acaba. Ainda tenho uns minutos. É tão repetitivo que o faço sem pensar, já me sobram sempre uns minutos. Aproveito para olhar à minha volta à procura de uma mudança, à espera que o mundo exterior a mim mude. Julgo incessantemente que o problema sou eu. A rotina está em mim e na minha predisposição para o hábito. O que é constante não sobressalta, não desassossega. Esforço-me, assim, por encontrar mudanças no exterior. Algo confirmativo de que o costume é definido por mim, aí nascendo e morrendo. Tenho poder sobre ele. Mas nem isso consigo fazer. Todos os dias analiso todos os pormenores do que me rodeia e nada. Nenhuma mudança. É quase como se de uma fotografia se tratasse. Mas será tudo uma permanente rotina? Viverão todos enclausurados no recorrente e usual? Ou serei só eu? Com o tempo deixei de conseguir percecionar se isso me deixa confortável ou se me inquieta. É o normal. É o que foi ontem e o que será amanhã. Que importa o que me faz sentir…

 

Mariana Almeida

 

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