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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

20
Mai21

E Hoje Caminho Sozinha Nessa Rua Que Era Nossa

Jur.nal

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Fotografia pelo autor

 

Estas linhas que descrevo

São tão profundas quanto o vagão

De metro no qual entrei

Para seguir rumo ao abismo

Daquilo que me era (des)conhecido.

Sabia que era errado

E, ainda assim, saí e fui até ti.

Não posso dizer que não sabia

Ao que ia, porque o sabia.

Saí da estação, coração petrificado,

Espero cerca de 10/15 minutos.

Do outro lado do passeio,

Vulto negro, luz quente.

Atravessas a rua,

Estendo-te a minha mão.

Tomas a minha face,

Dás-me um beijo.

Caminhamos lado a lado.

Sinto-me confortavelmente desconfortável.

Sentamo-nos, bebes do meu copo.

Ficamos juntos por algum tempo.

Meses passados, retorno

A essa mesma linha de metro

E hoje caminho sozinha

Nessa rua que era nossa.

 
Sofia Estopa (Aluna do 4.º Ano Da Licenciatura e Diretora do Jur.nal)
17
Mai21

Legalização Da Prostituição: Da Teoria Aos Factos

Jur.nal

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Fonte: https://www.google.com/searchq=red+light+district+amsterdam&sxsrf=ALeKk020ZJVodA5gepiZMBYwHYTKu6YRJA:1621284376783&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwjLou76ytHwhWryoUKHeUHDBgQ_AUoAXoECAEQAw#imgrc=1IrlgW-WFYZKGM

 

Há teorias populares que ouvimos desde sempre, como aquela que nos diz que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo. Mas será mesmo? Será que pode sequer ser considerada uma profissão?

Há muita gente que considera que a prostituição se trata, em todas as circunstâncias, de uma escolha pessoal. No entanto, há também quem defenda que entrar no mundo da prostituição é tal e qual como tudo na vida: até sentirmos as consequências na pele, é apenas isso…uma escolha.

Segundo um estudo da fundação francesa Scelles, mais de 40 milhões de pessoas no mundo prostituem-se, sendo que a esmagadora maioria são mulheres entre os 13 e os 25 anos, representando 75% da totalidade. Não vou hoje abordar o porquê destes números, mas, devido à grande percentagem de mulheres nesta situação, existem mais estudos, investigações e depoimentos destas e, precisamente por isso, focarei este artigo no sexo feminino.

Entre pessoas que se prostituem e sobreviventes, são várias as testemunhas que relatam que o mais apelativo da atividade é o dinheiro rápido, mas que isso não o torna necessariamente fácil. Todas as humilhações envolvidas na prostituição são intercaladas com a contrapartida de fazer dinheiro rápido, o que acaba por facilitar o perdão de certas situações – exatamente como numa relação abusiva.

Mas, afinal, o que leva alguém a decidir vender o corpo a troco de algum dinheiro? Bastam uns cliques no Google para rapidamente descobrir que a maioria das prostitutas são oriundas de meios sociais muito pobres, o que acaba por justificar a grande atração pelo dinheiro fácil. Na generalidade, todas elas sofreram algum tipo de abuso ou negligência, ou até mesmo foram obrigadas a sobreviver em situações de pobreza extrema sem qualquer possibilidade de escapatória. Perante este cenário, questiono-me: até que ponto é eticamente correto falar-se numa escolha livre quando existem tantas condicionantes no momento de escolher? Será que se pode falar em verdadeira liberdade quando a escolha é entre viver ou morrer de fome?

A conceção de que prostituição é corolário da liberdade sexual é uma ideia criada pelo capitalismo patriarcal: trata-se apenas de uma forma de violação da mulher e não de empoderamento da mesma. Ver a prostituição como um serviço, torna o corpo da mulher num objeto a ser usado, a mercadoria a ser tratada, a carne - desligada de qualquer personalidade e vontade - a ser consumida.

Atualmente, este continua a ser um tema que divide pessoas e opiniões até dentro da mesma fação do espetro político. Ainda que haja quem invoque o argumento da liberdade sexual, não faz sentido incluir prostitutas nessa luta, já que liberdade sexual é sobre uma escolha que diz respeito à sexualidade pessoal e, como já referi, a prostituição não é uma escolha livre de constrangimentos.

Pessoalmente, e sendo eu uma mulher, nunca me cruzei com alguém cuja sexualidade pessoal a levasse a relacionar-se com inúmeros estranhos, cedendo aos desejos mais profundos destes, enquanto lutam para manter precauções mínimas de segurança e higiene - ficar menos doridas, menos inchadas, com menos infeções, e menos humilhadas.

Importa, antes de mais, referir que, uma investigação publicada no SAGE Journals, revela que entre 89% a 92% das pessoas prostituídas gostaria de sair da prostituição, da violência física, sexual e psicológica que esse mundo traz consigo.

No que diz respeito à pergunta, “mas se querem tanto sair, porque é que simplesmente não saem?”, a resposta é mais complexa do que deveria ser: as consequências físicas e psicológicas da prostituição são equiparáveis às da violação, só que, no caso da prostituição, existe a necessidade absoluta do (pouco) dinheiro que esta gera. O dinheiro é necessário para fazer mais dinheiro, para pagar o aluguer do quarto, para pagar a comida, para pagar a droga (que de repente se torna essencial para conseguir lidar com a realidade da repetição infinita e indefinida do trauma que é viver um abuso sexual constante), muitas vezes até para pagar a escola e condições mínima de sobrevivência de filhos ou familiares dependentes da mulher em questão.

Por norma, as sobreviventes da prostituição não apoiam um modelo de legalização da atividade: consideram que a regulamentação torna o Estado economicamente interessado na prostituição e isso não permite uma efetiva e eficaz criação de políticas que amparem e ajudem as mulheres a sair do meio. A regulamentação acaba por ser apenas uma forma de dar poder legal a proxenetas e não às verdadeiras vítimas, é aceitar que o corpo da mulher pode ser comprado, e que o consentimento sexual de um ser humano é passível de ser adquirido a troco de pouco mais do que bens essenciais para a sobrevivência. Se a nossa sociedade ainda vê a oferta de sexo livre como moralmente reprovável, porque é que a sua compra há de ser tida como normal?

Para tentar perceber melhor como funciona a descriminalização ou legalização da prostituição, olhei para países onde esta é regulamentada: estima-se que na Alemanha, o “bordel da Europa”, todos os dias, cerca de 1.2 milhões de homens visitam uma casa de prostituição. Desde 2002 que é legal ser dono de um bordel ou proxeneta, sendo que este último só é legalmente penalizado se explorar as prostitutas, isto é, se retirar mais de 50% do lucro da profissional.

Apenas em 2017 entrou em vigor na Alemanha uma lei que exige que os donos de bordéis tenham uma licença para tal. As prostitutas precisam de se registar e é necessário acompanhamento médico. Para além disso, passou a ser obrigatório para os compradores, o uso de preservativo, podendo estes enfrentar graves multas caso não cumpram a lei.

Num testemunho pessoal, Huschke Mau, sobrevivente da prostituição legal da Alemanha, afirma que esta legislação vem apenas atirar areia para os olhos, e que o Estado parece estar somente interessado em lucrar o máximo possível com a prostituição, já que a lei resulta num investimento real e efetivo em ajuda para escapar desse meio: as autoridades municipais nem sequer têm recursos suficientes para garantir todas os requisitos da atividade. Nestes termos, a descriminalização ou legalização vem industrializar a prostituição e permitir que homens (que representam a esmagadora maioria dos proxenetas) aumentem o seu capital à custa da dignidade da mulher.

Publicado no site Taylor & Francis Online, a investigação “Prostitution and Trafficking in Nine Countries” revela que 71% das pessoas que se prostituem já sofreram violência física, 63% foram violadas, 68% apresentaram sintomas de PTSD, que os problemas residem de igual forma dentro dos bordeis, e não só na rua, que é falso que a maioria das pessoas prostituídas consentem o sexo, que a maioria das pessoas não está na prostituição por causa da toxicodependência, que a prostituição está intrinsecamente ligada ao tráfico sexual de mulheres, e que é falso que a mera criminalização, legalização ou descriminalização reduzam, por si, só problemas associados à prática.

Nos últimos anos, a Holanda e a Alemanha têm vindo a enfrentar graves ascensões de redes de tráfico humano: mulheres e meninas são trazidas dos seus países de origem sem qualquer documentação legal a seu favor, e são infiltradas em redes de prostituição ilegal. São abusadas, negligenciadas e deixadas à mercê daqueles que lucram e exploram o turismo do sexo. Neste sentido, e tendo em conta as graves consequências que a legalização da prostituição trouxe, estes países ponderam recuar na sua regulamentação, de forma a evitar que se torne numa verdadeira epidemia. Em 1999, antes da regulação ser introduzida, havia na Holanda cerca de 20 mil pessoas na prostituição, atualmente, existem mais de 25 mil ativas e legais na indústria – este é também um dos motivos que está a fazer o país recuar nas suas políticas liberais – o objetivo da lei era diminuir o número de pessoas prostituídas e não incentivar o seu aumento.

No que diz respeito à prostituição de luxo, ou seja, de mulheres que realmente ganham bastante dinheiro, e muitas vezes até vivem com excelentes condições económicas e sociais, esta é a exceção. Em Espanha, Itália e França, 90% das prostitutas são imigrantes e encontram-se em situações socioeconomicamente precárias. Estes noventa porcento representam o mundo real – a prostituição como ela realmente é. E a prostituição é racista, é feita de mulheres pobres, marginalizadas, abandonadas, coagidas e frágeis. Estas mulheres não podem ser vistas como a exceção, porque são a regra.

Muito se fala das vantagens económicas que a legalização da prostituição traz para estas mulheres, mas em países que o fizeram, como a Dinamarca, as prostitutas não têm direito a qualquer benefício fiscal, nem sequer a subsídio de desemprego.

Na Holanda, se por um lado são dados alguns benefícios fiscais a quem se prostitui (como é o caso de uma pensão de velhice), por outro, a lei desresponsabiliza-se da relação entre proxenetas e prostitutas: os primeiros não são empregadores e por isso não têm quaisquer deveres laborais associados. Na prática, os donos dos bordeis apenas pagam taxas pelos imóveis e alugam quartos a prostitutas, o que acaba por ser uma forma legal de extorsão do pouco dinheiro que estas pessoas ganham.

Karin Werkman, ativista pela abolição da prostituição, revela que o modelo fiscal holandês prevê que as prostitutas declarem quanto ganham, e que paguem impostos como se fossem trabalhadoras independentes ou empresárias individuais, no entanto, a atividade é exercida num bordel e há outras pessoas a lucrar diretamente com ela, quer através do aluguer dos quartos, quer através da suposta providencia de segurança. As vantagens continuam a ser poucas - descontam para a Segurança Social, pagam seguro de saúde, mas não têm direito a subsídio de desemprego ou baixa médica.

Um estudo comparativo publicado no PubMed® estima que uma mulher que se prostitui chega a correr 60 a 100 vezes mais risco de ser assassinada em relação a uma mulher que não se prostitui. Isto significa que a longevidade de estas é manifestamente inferior, e significa também que, estatisticamente, a probabilidade de uma prostituta vir a gozar de uma pensão de velhice legítima, é quase mínima. Esta análise leva-me a constatar que as medidas de proteção de uma pessoa que se prostitui têm de ser pensadas para uma realidade presente, e não só para um futuro que pode nunca vir a chegar.

Hoje em dia, na Europa, há uma abordagem em ascensão no que diz respeito à prostituição: o modelo sueco. É sabido que a Suécia é um dos países europeus mais desenvolvidos em termos socioculturais, um pioneiro nas políticas feministas e, provavelmente, o que mais medidas implementa no sentido de distribuir a riqueza.

Neste âmbito, a Suécia está a desenvolver um modelo (já a vigorar), que criminaliza proxenetas e clientes de prostitutas no sentido de repudiar e dificultar a procura desse “serviço”. É de notar que este modelo não penaliza quem se prostitui, aliás, pretende facilitar alternativas mais seguras, estáveis e vantajosas para as vítimas. Por outras palavras, sem procura, deixa de haver oferta. O grande objetivo deste modelo é agir no sentido de abolir, ou pelo menos diminuir, as taxas de prostituição.

De facto, desde que entrou em vigor em 1999, a lei tem funcionado bem: a diretora da unidade de combate ao tráfico humano da polícia sueca, Wahlberg, garante que 10 anos depois da entrada em vigor da lei, a procura por prostitutas diminuir de 13,6% para menos de 8%, o que contribuiu bastante no sentido de reduzir o interesse de organizações criminosas em estabelecer atividades de tráfico na Suécia. Desde a adoção das medidas, 6600 homens (salvo raras exceções), foram detidos por comprar ou tentar comprar sexo. Destes, e até 2015, mais de metade foram condenados.

Na Holanda, todos os anos há prostitutas assassinadas, enquanto na Suécia, investigadores (Kajsa Ekis Ekman) confirmam que desde 1986 que nenhuma prostituta é morta, revelando o impacto positivo que a adoção de políticas de igualdade de género, e o desenvolvimento do modelo abolicionista da prostituição têm tido na sociedade sueca. Esta política mostra-se tão promissora que, entretanto, já são vários os países que optaram por adotá-la: Canadá, Islândia, Singapura, África do Sul, Coreia do Sul, Irlanda do Norte e, mais recentemente, França.

Devo ressalvar que o modelo não é perfeito, requer um verdadeiro investimento nos serviços sociais e administrativos, requer formação policial que permita aos profissionais lidar com situações delicadas, entre outros mecanismos que permitam a redistribuição da riqueza de forma a possibilitar a redução das desigualdades económicas – o grande fator que atira pessoas para a prostituição. No entanto, apesar de não ser perfeito, é um bom primeiro passo para reintegrar e acompanhar estas pessoas que se viram reduzidas a uma única opção: a sobrevivência.

Até há relativamente pouco tempo, defendi a legalização da prostituição por achar que protegia as pessoas prostituídas e, no fundo, por falta de conhecimento estatístico e social daquilo que realmente acontece nos países em que a atividade é regulamentada. Entretanto fui confrontada com evidências reais e abandonei essa opinião. Isto para dizer que não há problema em admitirmos que não sabemos o suficiente sobre um assunto para formular uma opinião, ou que temos de ficar vinculados à mesma quando nos deparamos com nova informação – há que olhar para o que nos rodeia com sensibilidade humana, sentido crítico e dados reais.

Quero concluir esta reflexão apelando ao verdadeiro feminismo: feminismo não é só sobre igualdade entre homens e mulheres, mas também sobre igualdade entre as próprias mulheres. É absolutamente essencial não nos deixarmos corromper nem pelo patriarcado, nem pelo capitalismo, já que estes dois andam de braço dado – não podemos aceitar que para existirem pessoas livres, têm de existir pessoas submissas. A prostituição não é uma profissão normal que carece de regulamentação ou sindicalização, é uma manifestação muito pura das consequências de uma sociedade machista e patriarcal.

A prostituição não pode ser sinónimo de liberdade, autonomia ou empoderamento, porque pessoas empoderadas não têm necessidade de vender o seu corpo para sobreviver.

Da próxima vez que ouvirmos “a prostituição é a profissão mais antiga do mundo”, respondamos “sim, quase tão antiga quanto o sistema patriarcal.”.

 

Ana Sofia Alcaide (Aluna Do 2.º Da Licenciatura)

14
Mai21

Olhos

Jur.nal

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Fotografia pelo Autor

 

Bebe a água pura
Da fonte honestidade
Os olhos são pedaços...
Do poente bondade
Luta em êxtase, sem cansaço
A razão são pétalas
Verdade do sentimento
A força, o fluxo e refluxo
A coragem desponta
Do pensamento
O sonho emerge...
Na luz da vontade
Os destinos erguem-se
O trabalho floresce!

floresce!

floresce!

 

João Maria Botelho (Aluno Do 1.º Ano Da Licenciatura)

10
Mai21

O Grande “Dilema” Das Redes Sociais

Jur.nal

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A década de 2000  ficou marcada pela emersão das redes sociais na internet, como o Twitter, o Facebook , o Tumblr, o Linkedin, o Instagram e entre outras redes. As redes sociais são estruturas sociais constituídas por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários tipos de relações, que compartilham valores e objetivos comuns. Permitem-nos contactar com amigos e desconhecidos, ver vídeos engraçados, “seguir” as celebridades que gostamos, ampliar a nossa networking , e muitas mais funcionalidades que essas redes apresentam.

A social media aparenta ser a melhor invenção da internet pelas suas “magnificas” funcionalidades. Essas surgiram com o intuito de tornar as pessoas mais “próximas” uma das outras, ainda que estejam em regiões diferentes. No entanto, não têm sido tão benéficas como gostaríamos que fossem. Elas têm causado problemas a várias pessoas da minha geração e não só, pois, muitas pessoas sentem-se inferiorizadas, entristecidas e abatidas pelos conteúdos que consomem. Essa situação ocorre pelo facto de existir a ideia de que tudo é perfeito. Nelas encontramos alguns bens materiais que almejamos ter, o carro dos nossos sonhos, a modelo com o corpo perfeito, o resort nas Maldivas que gostaríamos de visitar ou relógio que almejamos ter.

Esta é a conceção de vida “perfeita” que a mídia mostra, que todo mundo está melhor do que nós; alguns compram likes e até seguidores para terem uma “aceitação” social. Por culpa desta ideia de vida tem existido cada vez mais pessoas com problemas psicológicos, com baixa auto estima, suicídios e depressões. Todos esses problemas surgem do elevado consumo das redes sociais, à medida que consomem os conteúdos o sentimento de inferioridade vai crescendo, porque algumas pessoas acreditam que redes sociais é vida real. Umas das dúvidas que sempre se manteve acesa no meu cérebro, é como é que as grandes empresas da tecnologia como Google, o Facebook e o Instagram eram as mais ricas, uma vez que não pagávamos pelos seus serviços, não pagamos para pesquisar no Google, por exemplo. Neste sentido, pude concluir que não pagamos pelos produtos que usamos, os demais publicitários pagam os produtos que usamos. Os publicitários são os clientes, ou seja, somos a coisa que é vendida. Sendo que existe um ditado clássico: “Se não pagas pelo produto, és o produto”.

Por vezes, esquecemo-nos que existe uma vida fora das redes sociais,  por detrás de uma publicação continua a existir um ser humano semelhante a nós, com sentimentos, angústias, desejos e frustrações. Portanto, é necessário ter mais consciência quando invejamos a vida dos outros nas redes sociais, pois nós não sabemos o que está por detrás de uma publicação, algumas vezes as pessoas que tanto invejamos  estão “piores” do que nós. Os seres humanos passaram a dar mais importância as redes sociais do que as suas próprias vidas, encontram refúgios e abrigos nelas para poderem escapar da sua realidade. A falta de regulação nas redes sociais é um dos problemas que tem construído para a toxicidade das redes sociais. O crescimento de atos desprezíveis por via de comentários e publicações ofensivas, perpetua a  impunidade dos autores pela carência de regulação. Apesar de existirem situações em que as redes sociais, suspendem ou bloqueiam as contas dos utilizadores mas permanece a imunidade para o lado dos autores. Esses comentários e publicações ofensivas estão no epicentro de alguns problemas que foram mencionados.

A Internet não apresenta a segurança que deveria ter, qualquer hacker pode criar uma conta e, facilmente ,aceder aos nossos dados pessoais, cartões, documentos  e por aí fora. Se forem adotadas medidas de seguranças mais restritivas a possibilidade identificar as pessoas que cometem esse crimes é maior. Persiste outro problema mais preocupante o enriquecimento das empresas no que diz respeito aos nossos dados pessoais. Mal nos cadastramos numa rede social pasamos a ser controlados e até mesmo “hipnotizados” por pessoas que não conseguimos ver. As empresas têm acesso a tudo o que nós teclámos, pesquisamos, conversamos, ouvimos, e, deste modo, elas gerem o nosso feed de acordo com as nossas ações. Por este motivo, eclode ,constantemente, no nosso feed as coisas de que mais gostamos ou temos interesse em ver, e, consequentemente, passamos mais tempo à frente do ecrã.

O Google é apenas uma caixa de pesquisa e o Facebook um sítio para conversar com os amigos, é a ideia que alguns têm sobre essas redes sociais. Mas o que muitos não percebem é que competem pela nossa atenção, o modelo de negócios de empresas como estas é manter as pessoas à frente do ecrã. Quantos de nós já entrou para o Instragam ou Facebook com intuito de ficar apenas 5 minutos, e esse tempo prolongou-se até 30 ou 45 minutos. Nos dias de hoje, os nosso dados são o nosso bem mais precioso.

Existem diversos documentários que evidenciam o modo como essas redes sociais nos manipulam, inclusive, um dos casos mais sonantes sobre a questão da análise de dados é o das eleições de 2016, entre Donald Tump e Hilary Clinton, que a Cambridge Analytica combinou os dados dos eleitores americanos. Contudo, é importante termos em atenção ao modo como utilizamos   as nossas redes sociais e os seus fins ,pois nem tudo é tão bonito e divertido como parece. Este é um apelo para os jovens da atualidade, que têm sido manipulados continuamente pelas redes sociais.

 

Tiago Varo Kaputo (Aluno Do 2.º Ano Da Licenciatura)

06
Mai21

Saree Azul

Jur.nal

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Fonte: https://www.businesstoday.in/latest/trends/saree-as-formal-wear-world-famous-tailor-says-indian-attire-formidable-at-boardroom/story/420421.html

 

Por detrás da janela empoeirada, uma mãe de traços complacentes aperta as suas duas pequenas filhas junto ao seu corpo tenro e quente. Não se sabe onde começa uma manta colorida e onde acaba uma peça de roupa gasta. O bailado de cores garridas e padrões festivos que rodopia ao som de Hindustani em volta dos corpos húmidos, contrasta com as faces cinzentas e monótonas de miséria e desespero. No rosto daquela figura maternal cintilam pequenos diamantes salgados que rolam delicadamente. É o espectro de uma criatura feita de luz. Os olhos das crianças, brilhando ânsias e temores, procuram o olhar protetor da sua mãe. Mãozinhas frágeis enrijecem como mármore em torno de um saree azul. De repente, a fotografia quebra-se num filme ruidoso. Um autómato carregado de verdade e beleza tossiu e espirrou vapores nauseentos, resmungando um forte piano. A carcaça metálica, coberta por pobreza e carência chocou a rua, que olhou e comentou ruborizada.  Um homem moreno com uma robustez em decadência surgiu como que por magia no plano principal. O seu coração clamava cantigas de revolta e de luta, mas a sua boca sussurrava palavras de conformidade. Que mais poderia ele fazer? Com uma agilidade quase felina, daquelas que só os invisíveis da nossa sociedade possuem, entrou na carrinha e partiu, levando consigo a sua injustiça e todas as questões por responder.

 

Beatriz Moniz (Aluna Do 3.º Ano Da Licenciatura)

03
Mai21

Cansaço

Jur.nal

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Fonte da imagem: Unsplash 

 

Martim desligou o despertador três vezes. Ia acumulando os toques de quinze em quinze minutos. Cada vez lhe custava mais levantar-se. A sua mulher estava de pé desde as oito da manhã, em teletrabalho. O Martim olhou para o telemóvel e viu as horas. Dez e um quarto. Valerá a pena levantar-me?, pensou. Pensou isto todas as vezes enquanto o despertador tocava. Havia alguma necessidade de se levantar?
Sentia-se cansado por tudo, como se culpasse o mundo por todos os seus cansaços, anteriores e por vir. Estava envolvido nos lençóis de verão, ainda que fosse inverno. Eralhe mais confortável porque dormia despido. O corpo sob o toque leve de um único lençol, semelhante a água que escorria numa velocidade constante sobre a sua pele. Água morna, nunca demasiado quente, nunca demasiado fria. Desde os ombros até à ponta dos pés.
— Não te vais levantar, Martim?
Para quê?, pensou responder. Mas permaneceu calado para que ela pensasse que dormia. Devia comprar tabaco, já tenho pouco mais de meia dúzia de cigarros, volveu aos pensamentos. Enquanto batalhava para se erguer ou despertar novamente dali a quinze minutos, pegou no telemóvel. Não tinha notificações relevantes. Sem nenhum email, nem gostos nas redes sociais, ou até pedidos de novos contactos. Qualquer dia apago isto tudo, pensava. A necessidade das redes socais e até do telemóvel ia-se reduzindo de dia para dia. Cada vez passava lá menos tempo.
— Martim, anda comer qualquer coisa.
Não tenho fome, continuava a pensar em responder, mas não chegava a responder. A luz matinal já entrava pelo quarto a dentro como um romper demasiado alegre. Acho que vou parar de fumar, se decidir parar não o tenho de ir comprar e só faço bem à saúde; e até posso dormir mais quinze minutos. Pensou novamente para com ele. Estava decidido a parar de fumar. Não queria passar pelo incómodo de cumprimentar pessoas. Detestava pessoas, sejam elas quais forem. Sentia a vontade emergente de se livrar do telemóvel por isso mesmo – cansaço social. Olhou à sua volta e viu o par de chinelos velhos de inverno, rotos na sola da parte interior. Eram demasiado quentes. Tudo para o Martim era demasiado quente. Não suportava a ideia da sua pele estar aquecida com mantos superficiais ou próteses artificiais. Somente a água podia ser quente. Um bom banho de água a ferver, é disso que eu preciso, pensou. Mas quando sair de lá de dentro vou ter calor, que porcaria.
— Martim, hoje não há trabalho?
Há sempre trabalho, se me levantar já tenho trabalho. Mas continuou sem se levantar, a olhar cinicamente para o par de chinelos velhos hipoteticamente quente. Virouse para o outro lado da cama. Encarava a parede. Porra, apetecia-me mesmo um cigarro e um café. Mas são quentes. Não gosto de café frio, e também acho que não gosto dele quente. Debatia-se ainda contra a parede.
— Olha o carteiro, Martim – chamou a esposa. Quis levantar-se num golpe para socorrer a campainha daquele infernal toque, aquela vibração estúpida que o fazia sentir com uma enorme náusea. As pernas não responderam ao impulso. Deixou de sentir as pernas. Adormeceram antes de mim, riu-se interiormente.
Se não fosse ele a colmatar aquele toque metálico, eventualmente a sua mulher iria descer as escadas para receber a sua encomenda pensando que Martim ainda dorme. Com isto ele podia viver. Podia descansar e adormecer novamente. Como é que as pernas adormeceram tão rápido se segundos antes elas se volveram para o lado da parede? Será uma cãibra? Mas não podia ser isso porque não sentia dor, aliás, não sentia nada. Vou massajar as pernas. E quando ia descia as mãos, os braços não lhe responderam. O que é que se passa?
— Porra, Martim. Tens aqui a porcaria da tua encomenda e vê se te levantas. Eu não sou tua mãe e tenho trabalho para fazer. E tenho quase a certeza que tu também. Martim já não escutava as advertências da mulher. Tentava antes decifrar o que é que estava a acontecer. Como tudo aquilo era estranho. As pernas e as mãos estavam lá. Lembrava-se de como elas se mexeram há poucos segundos atrás. Virou-se de lado. Vireime, não virei? Questionou-se cada vez mais alertado. Tentou manter a calma. De seguida foram as mãos que suspenderam as atividades e sensibilidade.

JOANA, pensou em gritar. Gritou: JOANA, mas a voz não lhe saiu para além de um curto suspiro. Os olhos arregalaram-se em espanto e medo. O que é que se passa? Repetiu. Começou a rodar um enorme filme na pequena compartição da sua mente, como uma sala de cinema vazia, com uma cadeira ocupada por ele próprio. Viu a sua vida, sem se mexer, sem falar, e até quiçá, sem ver. O que era irónico porque se estava a ver naquele momento. Meu Deus, pensou, isto é ótimo! Não teria de interagir com mais ninguém. Poderia viver finalmente em paz, dormir o tempo que quisesse e assim que acabasse de dormir, voltaria a dormir. Era livre, livre por natureza, por uma condição natural, para
dormir! Dormir até não poder dormir mais e aí voltaria a dormir mais. Depois a sala escureceu um pouco mais e os pensamentos penderam para o lado obscuro. A Joana eventualmente deixá-lo-ia. Nem sei como é que ainda está comigo, pensou. Era uma mulher feroz, enquanto Martim era um cão muito velho que já não dava passeios. Retomou a fita do filme e reparou que os seus pais não viveriam muito mais tempo para o ajudar. O seu emprego não lhe garantira uma conta poupança que lhe permitisse uma vida num lar a ser cuidado. Não há ninguém para cuidar de mim, para onde vou agora? Pensou, dramaticamente.
O despertador voltou a tocar. Não se calava. Tocava repetidamente. Quase três minutos depois ainda vibrava pelo ar do apartamento. A Joana cansou-se daquilo e foi ter com Martim ao quarto.
— Desliga esta merd*, Martim – e pegou-lhe no telemóvel, desligando o despertador. – Já é mais que horas de te levantares.
O Martim não lhe respondeu.
— Levanta-te, pá – tentou abaná-lo com as duas mãos.
Martim sabia que se descesse as pálpebras provavelmente não as voltaria a abrir. Teve a decisão de optar por as manter abertas até Joana o rodar e vê-la uma última vez. Mas pensou o quão cansado também estava dela e preferiu que a parede fosse a última coisa que visse. Desceu as pálpebras e tal como previa, não as conseguiu erguer mais. A Joana rodou-o sobre si mesmo.

— Martim?
O Martim não respondeu.
— Martim?! – Joana começou a ficar assustada.
O Martim já não respirava. Ela pegou-lhe o pulso e sentiu-lhe a pulsação. Não havia pulsação. Martim morrera, e tanto quanto ele poderia ter imaginado, morrera de cansaço. Não percebia de onde é que vinha tanto cansaço, mas sentiu que era bom, poupava-lhe a trabalheira de um suicídio.

 

Marcío Luís Lima (Convidado do Jur.nal)

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