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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

29
Abr21

Carta De Arrependimento

Jur.nal

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Fotografia pelo Autor

 

Querida!

A ti escrevo - que tens tantos nomes - esperando que, te encontres bem claro, e que ao leres esta carta, que te chega via postal, possas sentir, como a chuva a cair-te na cabeça, como as lágrimas que te posso ter feito chorar a cair pelo rosto, o arrependimento com que escrevo. Tu que provavelmente choraste longe de mim para não mostrares parte fraca. Tu que choraste à minha frente com a dor, raiva ou nervosismo, muito mais do que pela tristeza mas também por ela.
Envio isto porque não te tratei bem...
Assentei as ideias e tem coisas pelas quais não me orgulho muito. Merecias mais, mais atitude e respeito, mais consideração e, acima de tudo, mais Amor. Em retrospectiva, eu nem fui muito mau, há tantos piores que eu, mas de certa forma, tomei-te como garantida para depois ficar com alguma angústia por tu ires embora, e das vezes que eu fui embora. Se calhar sou fraco. Fraco Homem que não te soube tratar como Mulher!
Eu poderia dizer que sou muito ocupado e por essa razão só à noite ambicionei a tua companhia, mas isso seriam maioritariamente merdas , balelas da boca para fora. Ou que quis muito ter mais, e quis, quando faltava um tal toque do Cupido, ou qualquer deus de amor de mitologias antigas ou das recentes. Talvez será preciso que inventem um deus para aquilo que sinto, inventem uma nova religião só para mim. Poderá ser que tudo isso justifique as acções conscientes de quem as praticou a pensar que só isso poderia fazer.
Quero que saibas que fiz esforços, nunca foi em vão que quis a tua companhia e nunca foi em vão querer o teu toque pois sempre sentia uma réstia de carinho. Sempre senti que tu, de alguma forma, me davas algo que me completava, nem que fosse momentâneo. Mesmo que eu fosse muito para ti sem ser correspondido, e te magoei com isso, quero que saibas que te agradeço. Acrescentas-te algo em mim, o que quer que isso tenha sido.
Desculpa-me a frieza das acções e principalmente das palavras. Não te as sei explicar... Não quis ser frio mas não posso controlar os sentimentos que tenho pelas pessoas. Já te disse que, em tantas, cheguei a querer ser mais. Se calhar é mais fácil manipular os sentimentos que os outros sentem por nós, mas se há algo que sei que nunca fui contigo foi ser mentiroso. Sempre te disse a verdade, nua e crua contigo vestida ou nua. Nunca tentei nem inconscientemente te manipulei, é a única coisa que não me podes atirar à cara. De resto chama-me o que quiseres e eu só te poderei pedir desculpa.
À minha maneira gostei de ti, e se calhar até amei. Não um amor convencional, se é que existe tal coisa. O melhor Amor até é o que não é convencional, e o nosso não o foi, mas procuro algo que não o seja mas nele vá buscar as bases e os clichés dos quais não dá para fugir. Tudo o resto eu fujo porque quero aquele Amor que não é igual a mais nenhum. Não aquele amor de "chuchus" e de "cháchás". Que seja amar não daqui até à Lua mas que não se meça , aquele Amor que não está nas entre-linhas por que nem foi escrito, aquele Amor de loucura que não há, aquele Amor de Arte que não pode ser representado. Procuro aquele Amor que já nem seja o de "Romeu e Julieta" nem do "Diário da nossa Paixão". Alguém a quem dar a conhecer o mais íntimo, toda a escritura negra e mostrar a minha alma negra. Procuro aquele Amor! A Arte de Amar com Arte sem que se veja. Ser o "A" do abecedário mas que venha depois do "Z".  Até lá não tenho Amor para dar a não ser só amar com amor que se tem pelos outros.
Arrependo-me de todos os erros que contigo cometi, os conscientes e os inconscientes. Arrependo-me de não te amar porque não o soube, não o consegui e o que não quis. Tu vales mais e valorizas-te, eu sei que sim, mesmo que eu não o tenha feito, e mereces mesmo um Amor que não seja o meu amor, e eu mereço o meu Amor que não conheço mas vou inventar sem inventar a amada e sem planear que isso venha. Arrependo-me mas não o posso controlar. Se o pudesse não estaria a escrever esta carta pois estaria contigo a viver no Amor e não uma tal vida já feita. E se forçasse o sentimento viveria contigo qualquer coisa que seria fraco e sem Vida, e tu não mereces isso. Eu já passei por isso, eu já passei por tanto também. Amei sem ser amado e amei quem manipulou o amor por mim. Deveria, portanto, aprender com isso e sobretudo aprender a não o fazer com os outros, se é que já o tenha feito ou venha a fazer, mas sou só humano.
A nossa mão nunca encaixou verdadeiramente uma na outra, o nosso abraço não encaixou verdadeiramente e os nosso lábios não encaixaram verdadeiramente um no outro. Tudo encaixou entre os espaços físicos sem sequer perceber dos espaços transcendentes. Tenho plena noção que, ao dizer isto, corro de novo o risco de parecer frio mas esta é a correta forma de o ser, a frieza da honestidade, aqui tangível, para que seja possível um ponto final, "having a clouser", para que haja toda a liberdade emocional de partir e procurar outro alguém, que não seja só um corpo, e no Amor ou lá o que seja, ser feliz.
Então vai, sê feliz que eu serei qualquer coisa e até chegarei a ser feliz no amor mas nunca infeliz sem ele! Dou-te com esta carta um beijo na testa, com carinho minha amiga, deste que, apesar de tudo, será sempre uma memória e um amigo mesmo que no passado das nossas Vidas.

Com algum amor, um beijo e um abraço do teu alguém de algo!

 

Fábio Costa (Colaborador do Jur.nal)

26
Abr21

Igualdade De Género Ou Igualdade Social De Género?

Jur.nal

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Fotografia pelo Autor

 

Simone de Beauvoir. “ Não se nasce mulher, torna-se mulher .”

 

Simone de Beauvoir não se referia, certamente, à questão anatómica/fisiológica quando o afirmou, mas sim à influência da sociedade sobre o sexo feminino.

Passados anos, a questão da diferenciação entre os dois sexos continua a ser amplamente discutida pelos “filósofos e outros pensadores”, que do alto da sua sabedoria continuam a arrumar os seres humanos em duas categorias: homens e mulheres. Não sou a melhor pessoa para tratar este tema porque, para mim, é um NÃO assunto. Na verdade nunca considerei existir qualquer diferença social entre homem e mulher, nem mesmo no ambiente familiar quanto á repartição de tarefas domésticas.

 

Não existe igualdade de género!

 

A humanidade é constituída por duas espécies de seres que se completam e são diferentes anatómica, fisológica e psicológicamente, como as faces duma mesma moeda, com funções distintas e indespensáveis à continuidade da espécie humana (desconsidero, aqui, os “desvios” psicológicos ou fisiológicos de homosexuais e transsexuais, por mero exemplo, que hoje são aceites pacificamente na sociedade ocidental). Por outro lado, todos sabemos que a sociedade tudo faz para estabelecer que as mulheres são inferiores aos homens, havendo até desigualdades nos salários em muitas profissões, pagando-se menos às mulheres que executam o mesmo trabalho que os homens. E não só. A sociedade, com a cumplicidade das próprias mulheres, estabelece tabus para o comportamento das mulheres, que são os mesmos em todas as épocas e o aplauso dos diferentes credos religiosos. E não sou a pessoa mais adequada para escrever sobre igualdade de género porque tive o privilégio de nascer numa família de mulheres de fortíssima personalidade, que sempre geriram os seus bens, poucos ou muitos, e nunca prestaram vassalagem aos homens.

 

Respeito mútuo!

 

Morreram quase todas centenárias, mulheres sem lágrimas ou fraquezas, sem deuses e sem lutos. Nunca se moldaram aos ditames moralistas da sociedade em que viveram, onde aos homens sempre eram permitidos comportamentos que estavam proibidos às mulheres; nunca houve temas permitidos apenas aos homens ou às mulheres. Os meus avós paternos tiveram sete filhos, quatro raparigas e três rapazes, mas à sua vasta mesa a conversa abrangia a opinião de todos, desde a religião à política passando por todos os temas sociais.

Por tudo isto, questiono a expressão redutora “ igualdade de género ”. Existe, sim, a igualdade (ou a sua falta) social de género. A Constituição da República Portuguesa consagra no seu art. 13º a proibição da distinção ilegítima da pessoa humana em função do sexo,raça, língua, religião situação económica ou social ou orientação sexual.

 

Existem, portanto, direitos que se conquistam, que se exigem!

 

Fernando Santos Calçada

22
Abr21

Estocolmo

Jur.nal

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https://unsplash.com/photos/i8u5gz-ZeIc

 

Três e meia da manhã não eram boas horas para estar parado num semáforo vermelho com o rádio avariado. No que me dizia respeito, não era altura apropriada para fazer o que quer que fosse a não ser dormir; e, na verdade, era para aí que deslizava quando a luz verde se dignou a acender, e pude por fim arrancar. O motor enferrujado do meu velhinho Citroën AX protestou ruidosamente enquanto o forçava a acelerar, mudança puxa mudança, pelas ruas desertas da madrugada lisboeta - até ao semáforo seguinte, claro está. Ainda que o meu carro discordasse com rugiente veemência, conduzir àquelas horas era incrivelmente relaxante, e sem dúvida a melhor parte do turno da noite. Confesso que nunca gostei por aí além de me pôr atrás do volante, mas, há coisa de ano e meio, quando aceitei o meu atual trabalho noturno como empregado num hotel de luxo, percebi que o meu problema residia menos no ato em si e mais nas carradas infindáveis de idiotas chapados com que uma pessoa se via obrigada a partilhar a estrada durante o dia.

 

Dois quarteirões adiante, avistei os armazéns que procurava, com o seu inconfundível letreiro luminoso amarelo sobre um fundo azul, os mesmos onde gastara umas boas horas uns anos atrás a escolher a mobília para o meu apartamento. Fiz o pisca para a direita e enveredei pelo caminho privativo que levava ao parque de estacionamento. Escusado será dizer que estava praticamente vazio, e encontrar um lugar não foi problema. A questão agora era descobrir o meu amigo Márcio e, pelo caminho, explicar que não andava a urdir qualquer espécie de plano sinistro ao segurança que naquele momento fazia a ronda pelas bandas da entrada principal. Que pretendia tão-só falar com o meu grande amigo dos tempos do liceu, quando jogávamos PlayStation pela noite dentro, antes de os pais lhe morrerem num acidente e ele ter desatado a tomar, primeiro, e a vender, depois, coisas que se calhar não devia; e a quem acabara de localizar graças a um telefonema inesperado, dois anos após o ter visitado pela última vez na prisão. Senti o olhar desconfiado do guarda através do porque mal iluminado e comecei a duvidar do sucesso da missão; mas, num ápice, o homem introduziu-se na aventesma

 

arquitetónica que era aquele enorme bloco de betão, esgueirando-se pela porta de serviço, e logo emergiu de novo acompanhado de dois outros vultos. O trio plantou- se à minha espera, todos de mãos nos bolsos. Depois de verificar que trancara o carro, fui ao encontro do comité de receção, e bastaram-me alguns passos para identificar o par recém-chegado: um era um segundo segurança, já de cabelo grisalho, e o outro era Márcio. Aliviado, constatei que já tinham sido avisados da minha vinda, e, concluídas sumariamente as apresentações, o guarda mais velho abriu-me, solícito, a porta. No interior da loja, a luminosidade era tal que não tive remédio senão levar a mão esquerda aos olhos e piscá-los por uns instantes. Entretanto, Márcio pareceu ler o que me ia na cabeça e apressou-se a responder à minha inquirição antes de eu a haver sequer formulado.

 

-São porreiros, não me perguntes como os conheci, mas dou-me bem com eles. Tenho dormido sempre aqui ultimamente.

 

Com a visão por fim habituada à luz, sondei o meu velho companheiro de alto a baixo. Envergava uma camisa branca esplendidamente engomada por baixo de um casaco Tommy Hilfiger azul claro, umas calças cáqui e uns elegantes sapatos de vela da mesma cor. Aos trinta e dois anos, ostentava um penteado impecável e trazia a barba feita, ao contrário do que era seu hábito no liceu. Era, sem sombra de dúvida, o mais bem vestido sem-abrigo em que alguma vez pusera a vista em cima.

 

-O que foi? - perguntou-me, sorrindo.

 

-Nada - respondi, incapaz de conter uma pequena risada - é só que, tecnicamente, és um sem-abrigo.

 

-Permite-me descordar disso.

 

Como um anfitrião afável a convidar o hóspede para um tour da casa, Márcio esboçou um gesto indicando “vem daí”. Prontamente acedi, seguindo-o pelos corredores atulhados até ao tutano de tralhas minimalistas - o que não deixava de carregar consigo a sua dose de ironia, pensei. À minha volta toda a espécie de cadeiras, mesas, estantes, cómodas, camas, divãs, pufes das mais variadas pigmentações, mais uma profusão de milhentas outras parafernálias caseiras que,

 

temo, o meu limitado vocabulário não me permite nomear, ladeavam cada corredor, numa cordilheira claustrofóbica e hipnotizante. Os exóticos nomes suecos espicaçavam a curiosidade: velas aromáticas Flärdfull, colchões Tjöme, cadeiras de madeira maciça Ingolf, torneiras Hovskär, miniarmários Knös. Uma abundante procissão de superfluidades minimais desenhadas no frio da Escandinávia e fabricadas a um continente de distância, maravilhosas comodidades produzidas em série e que, a julgar pelos preços alumiados pelos potentes focos a incidir desde o teto, poderiam tornar-se minhas a troco apenas de uma reduzida porção do meu modesto salário. Uma oferta tentadora.

 

O meu cicerone conduziu-me à zona dos quartos de dormir, a uma mis-en- scène composta por um jogo de cama de casal com um edredão esverdeado, uma mesa de cabeceira simples de madeira clara e um tapete alvo.

 

-Nada mau, hem?

 

-Podes crer - respondi-lhe - mas eles deixam-te mesmo dormir

 

aqui?

 

-De noite isto é uma cidade fantasma - declarou, sentando-se na cama feita - e sempre vou ajudando a vigiar.

 

-Hmm.

 

-A sério, é o meu emprego.

 

-Ah é? Quanto te pagam?

 

-Alguns trocos, sei lá, às vezes comida da máquina e cenas assim.

 

- Estou a ver.

 

Reparei na sóbria cómoda, também de cor branca, que completava o cenário. Sobre ela estavam expostos um gira-discos estilo faux retro, com meia dúzia de LP empilhados a condizer, e um televisor LCD ultrafino.

 

-Com que então, apreciador de The Strokes - comentei, remexendo no álbum vermelho escuro pousado no topo da pilha.

 

-Nada disso, está tudo vazio. São só para decoração - esclareceu o meu amigo

- queres ver televisão um bocado?

 

Não havia nada muito melhor para fazer, pois não? Estava a começar o noticiário das quatro. Senhores telespetadores, recebemos a informação de que um tiroteio na América derramou uma quantidade suficiente de litros de sangue para o noticiarmos; infelizmente não fez tantas vítimas nem tão próximas como desejávamos, mas é o que de mais satisfatório se arranjou hoje em matéria de carnificina. O locutor não o disse por estas palavras. Contudo, disse-o na mesma, qual Lou Bloom em Nightcrawler. Depois passou uma reportagem sobre um regime comunista despótico para as bandas da Ásia, levando-me a pensar para comigo que o bonito acervo de inutilidades que me rodeava talvez não fosse, afinal, tão mau assim. No intervalo publicitário que se seguiu, um homem chato ia elogiando numa voz suave os méritos do novo topo de gama de uma construtora alemã de automóveis. Estava prestes a cair nos braços de Morfeu quando estremeci de supetão ao escutar as derradeiras frases do anúncio. Se se cruzasse com o seu eu mais jovem, o que diria ele de si? Do automóvel que conduz? Subitamente desperto, apercebi-me de que se fazia tarde. Infelizmente para os importadores da dita marca, não saí disparado rumo ao stand mais à mão substituir o meu fiel Citroën; antes dei duas palmadinhas amigáveis nas costas de Márcio e pus-me a caminho de casa, despedindo-me com a promessa de o visitar mais vezes. À porta, ainda perguntei:

 

-Tens a certeza de que não queres passar uns tempos em minha casa? Posso ajudar-te até arranjares um sítio.

 

Olhou para mim como se lhe tivesse perguntado algo de indecente. E tinha, em boa verdade. Pensando melhor, a sua vida não era assim tão diferente da minha.

 

Pedro Miguel Silva (Aluno do 1.º Ano de Mestrado)

20
Abr21

Conjuga, Hipotetiza, Relativiza

Jur.nal

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Fonte: https://weheartit.com/entry/347422813

 

Todos os dias acordamos e o primeiro pensamento que nos surge é: "tenho de me arranjar". Como se naquele momento estivéssemos algo de outro mundo, algo assustador e terrível. Pensamos, no que vamos utilizar, conjugando as cores, os tecidos e os cortes, todos entre si. Pensamos nos acessórios que vamos utilizar. Mais ou menos? Demasiado ou demasiado simples? Pensamos em vários pormenores, até ao momento em que saímos da porta do nosso quarto. Agora sim, é um momento crucial- há três hipóteses para o momento que se segue... A indiferença, que leva a uma seca troca de "Bom dia" entre todos; a arrogância que leva a um "O que tens hoje...?" ou, por fim... O deslumbre, que leva a um "Uau, mas que bem!".

Todo este ritual matinal da conjugação, do pensamento, do esforço para pormos a melhor máscara possível, na verdade, só tem uma razão- nós, todos os dias, a tentar ser a melhor versão possível de nós próprios. Todos os dias vivemos com a ânsia de nos superarmos, exigindo mais e mais, a todas as 24 horas que passam. Mas... E se a melhor versão de nós for a que não se está constantemente a criticar e a exigir perfeição? E se a melhor versão de nós, for a pior? E, e, e... O que me leva a outro problema... A constante hipoteticidade em que vivemos.

Todos os "se's" e "mas e...", tudo o que nos leva a pensar e repensar se devemos mesmo fazer algo. Se devemos seguir esse rumo ou se os "se's" vão ser demasiado maus e destrutivos. Tudo o que leva a este pensamento constante e exaustivo que nos vai consumindo. Era mais simples se tudo fosse simples, se não tivesse toda esta racionalidade adjacente. Mas não é assim, temos de lidar. O que, mais uma vez, me leva a outra questão.

"Relativiza", "Não é assim tão importante!", "Aprende a lidar...", etc, etc... Nada é plenamente válido, tem sempre de haver algo que tem de ser ignorado, relativizado ou mesmo empurrado para os recantos dos nossos pensamentos. Não podemos simplesmente falar sem as agressivas balas relativizadoras nos atingirem, porque, no fundo, nada nos pode atingir. Nada nos pode pôr a pensar, nada pode ser válido a esse ponto nos olhos de outrem. Porque, na verdade, toda a gente espera que produzamos como robôs, vivamos como pessoas, e ajamos como ambos. Mas o problema, é que isso é... Uma hipoteticidade, mais uma para juntar à lista das que já temos.

 

Leonor Mak (Aluna Do 1.º Ano Da Licenciatura)

15
Abr21

Comboio

Jur.nal

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Fotografia de Tetyana Pry

 

Sinto que estou no caminho certo

Mas a deixar tanta coisa para trás

 

Vejo as paisagens verdes a passar

 

Campos e lagos

Casas e pássaros

 

Tudo ao mesmo ritmo

Mas eu no ritmo contrário

 

Tudo anda para trás

E eu continuo para a frente

 

Então até que ponto é este o caminho certo?

 

Diana Pry (Aluna do 1.º Ano Da Licenciatura)

12
Abr21

Violência Doméstica - O Estatuto De Vítima Para As Crianças

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Fonte: https://www.google.pt/amp/www.cvi-rio.org.br/site/confianca-base-do-relacionamento-para-criancas-com-tea/amp/

 

As crianças não têm uma tutela jurídica tão eficiente, quanto acho justa. Não é apenas a mulher/ homem a vítima de violência doméstica, as crianças também são vítimas, seja direta ou indiretamente.

É o nosso sistema que durante anos lhes pede que convivam com o agressor por decisão dos tribunais, negligenciando o seu medo.

Neste sentido, é relevante também verificar devidamente a entrega dos poderes de guarda e visita aos pais/mães.

Vejamos, a criança é mandada de visita à casa do pai agressor durante o fim de semana. Se não fosse esta a decisão do tribunal, não seria de todo esta a opção da criança. Correto?

A alteração legislativa proposta versa sobre o artigo 67º-A do Código Processo Penal que prevê que crianças ou jovens com idade inferior a 18 anos que sofram de maus-tratos possam ser ouvidas no processo que os afeta.

Aliás, o nosso artigo 128º diz-nos que a testemunha é inquirida sobre factos de que possua conhecimento direto e que constituam objeto de prova.

E, o artigo 131º vem reforçar a ideia de que a pessoa que não sofra de anomalia psíquica tem capacidade para ser testemunha.

De todo, nada obsta a que as crianças tenham de forma inequívoca o estatuto de vítima, possam participar ativamente no processo, que o juiz possa garantir a proibição de contactos dos filhos ao agressor e o afastamento do último da casa de morada de família.

É sobre isto que os partidos PSD e PS propuseram uma maior clareza na interpretação. Mas, o PSD acrescentou que não deve haver limites de idade para estas crianças testemunharem.

A petição assinada por quase 50mil pessoas para conferir estatuto de testemunha às crianças em caso de violência doméstica foi entregue e a discussão de dia 8 de abril veio incompreensivelmente tarde. Apesar do chumbo, em comissão, o BE leva o diploma a votação no plenário. Aliás, a UNICEF Portugal manifestou-se em torno deste tema. Reforçou a necessidade de investimento na formação e capacitação dos pais e cuidadores.

Espero que os próximos dias de discussão sejam reflexo da justiça!

Adriana Rodrigues Vieira (Colaboradora do Jur.nal e Alumna NOVA School of Law)

08
Abr21

Liberdade

Jur.nal

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Fotografia pelo autor

 

Liberdade,

Há muito
Que isto já não parece a vida
Parece um conto
E que somos personagens que alguém desenhou
E desdenhou

Somos livres
Mas não podemos dizer tudo
Somos escravos de nós próprios
E da própria imagem que almejamos ter
Do que queremos ser

Mesmo que não se diga
Pensamos
E ao pensar já nos perdemos na liberdade

Quanto mais cresço
Mais vejo que viver é só uma tentativa
De alcançar o topo da montanha

Corremos descalços para que a única sensação
Seja os pés já calejados a pedir que paremos
Mas não paramos
Queremos viver mais
Queremos mais.

Queremos ser livres
Mas não o livre que falam
Queremos ser o que queremos
Mesmo que isso implique calçar uns sapatos

Jefferson A. Fernandes (Aluno Do 4.º Ano Da Licenciatura)

05
Abr21

No Que Creio Eu

Jur.nal

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Fotografia pelo autor

 

Quando a ciência provocou uma descrença religiosa, o vazio que esta deixou foi preenchido por correntes como o niilismo e o existencialismo. Nascendo numa cidade exausta de ser católica, Braga, a igreja está morta para a maioria dos jovens. Sinto que grande parte da minha geração se resigna à mera indignação com esta sociedade obsoleta, sem saber como integrá-la. O elefante gigante da mentalidade moderna globalizada é a descrença em quase tudo, o que conduz a uma falta de propósito ou busca de propósitos frustrados. Crescemos tendencialmente com maior liberdade de escolha do que as gerações anteriores. Porém, lamento verificar que, na maioria das vezes não sabemos valorizar os nossos privilégios, e ainda os tomamos por garantidos. Na indecisão a tomar, perdemos oportunidades, por não estarmos prontos para tamanha responsabilidade.

Em contextos mais conservadores e retrógrados, talvez fosse mais fácil decidir(?) Pelo menos, o destino que nos seria encaminhado era um ponto de partida. Talvez, a vontade de revolta contra aquilo que seria esperado, seja uma motivação suficiente para criar um sentido de propósito. Sem justificação para a própria existência, o ser humano não tem motivações para ter uma convivência pacífica, para ser altruísta, ou para procurar algo de bem, para além dos prazeres imediatos.

Durante séculos, a religião era um dogma social. A fé dá um certo conforto e sentido à vida da maioria, pelo menos é um referencial e motiva a fazer o considerado correto. Quer seja uma ilusão ou não, a verdade é que a crença de que somos vigiados de forma omnipresente, por uma entidade paranormal omnipotente, polícia um pouco o comportamento humano.

Apesar de respeitar e frequentar alguns costumes católicos, a crença em alguma religião nunca me foi imposta. De forma contraditória, só após a morte de uma avó, que me tentou ensinar a rezar, ganhei interesse na religião. Por sua causa, prometi que iria fazer a primeira comunhão, como ela queria. Confessei-me a primeira vez e o meu pecado era a falta de fé. Não passaram muitos anos até que me tenha deixado de identificar com as instituições religiosas, com exceção talvez com o seu contributo para a caridade dos mais necessitados.

Penso que não seja necessário fazer apologia à religião para incutir valores. Pode-se impor que devemos fazer sempre o que sentimos como certo, como um imperativo da nossa consciência, naturalmente entranhado. Obviamente, como ser humano, erro constantemente, mas tento ser resiliente na tentativa de melhorar. Se nos comportarmos de forma errada uma vez, pragmaticamente perde-se a confiança. O problema é que no caso de pessoas sem empatia, talvez se possa moldá-las, mas a sua essência não lhes permite absorver valores, tornando-as potencialmente perigosas.

Quando saímos do ninho familiar onde é suposto nos sentirmos seguros, daí para a frente, estamos sozinhos no mundo. Na realidade, tenho uma admiração pelas pessoas que cresceram sem esse porto seguro, inspiro-me nelas. Também sinto gratidão pelo amor com que tive a sorte de ser protegida. Na alquimia das relações interpessoais descobri que que há um certo equilíbrio entre uma pessoa que raramente consegue confiar em alguém, e outra que gosta que confiem em si. Na realidade, a alquimia de duas pessoas criarem um sistema de confiança, é sempre bela. Ter, dar e sentir confiança em relação a alguém é uma fragilidade e um poder. Se nada se entregarmos também não teremos troco e partilha.

Dou por mim numa visão moralista, impondo a minha visão do mundo aos outros, depositando injustificadas expectativas, por coisas que não seriam da sua responsabilidade. Comecei a procurar aceitar o livre arbítrio do outro, de pensar e tomar decisões diferentes das minhas. Tenho a sensação de que o mundo necessita de todo o tipo de pessoas e que somos peças diferentes do mesmo puzzle. Por vezes, a decisão que um sente como certa é diferente da do outro, outras vezes a pessoa também tem o direito de escolher tomar a decisão “errada” e arcar com as suas consequências. Quando a partilha de perspetivas é diversa, a empatia entre os intervenientes é mais rica. Se sempre assim fosse, a maioria dos conflitos do mundo não teriam motivo de existir.

Não consigo deixar de achar que deveríamos caminhar para uma sociedade mais civilizada com um maior sentido de unidade. Metaforicamente, organismos como o ser humano são uma “galáxia ambulante” de sistemas celulares. Do átomo à molécula, da célula ao organismo, do planeta às galáxias, no universo tudo nasceu no Big-Bang, tudo é pó de estrelas e uma imensa energia que nos une.

Reconheço e noto que, em qualquer área de convivência, enquanto não houver um sentido de comunidade intrínseco, é apenas possível motivar o ser humano a contribuir através da premiação ou sanção. A meritocracia através de um sistema de avaliação não consegue ser verdadeiramente justa. De forma arbitrária, fomos logo beneficiados ou prejudicados, consoante a distribuição, na lotaria natural, dos diferentes contextos em que nascemos e crescemos. Por outro lado, pergunto-me se, sem essa motivação, a moralidade seria suficiente para garantir um comportamento ético por parte de todos.

Criamos sistemas institucionais para que o mundo pareça mais justo e seguro, como resposta à natureza do ser humano. O erro começa quando criamos regras para as contornar, sendo quase antinatural cumpri-las. A corrupção está entranhada em toda interação humana, quer nas nossas relações interpessoais, como no meio profissional, e mesmo nas relações internacionais...

A justiça está inundada e não é possível ser eficientemente escrutinada. A descrença no sistema de justiça é tal que, uns saem impunes, outros são julgados na praça pública, o ilibado apenas não foi provado culpado. Quantas vezes a opinião publica faz um julgamento maior e menos escrutinado. Mesmo se fizermos sempre o que achamos mais correto, não somos impunes de ter dedos apontados. Reconheço que é melhor um sistema de justiça deficiente do que a ausência do mesmo. Não consigo deixar de me revoltar com o sistema de justiça, comparando o que eu estudei com o mundo real.

Um dos exemplos, em sistemas como nos Estados Unidos da América é a delação premiada, isto é, quando um criminoso negoceia beneficamente a sua pena, por denunciar os seus cúmplices no crime. A mentalidade é de que os meios justificam os fins, premiando o comportamento de fazer “rat out” aos parceiros, como se isso fosse merecedor de uma menor pena. Não consigo ver em que medida é justo diminuir a medida de penalização de um delito, algo que obviamente lesou toda a sociedade, por algo que não demonstra diminuição da culpa ou mesmo sinais de arrependimento.

É de conhecimento geral, a polémica do pagamento de subornos que garantissem a admissão nas melhores universidades dos Estados Unidos. Consigo pôr-me no lugar dos pais que quiseram dar o máximo de oportunidades aos seus filhos, por mais que de forma imoral. Estes, já foram beneficiados ao longo de toda a sua vida, e ainda assim fazem batota, perpetuando um sistema elitista. Tenho pena da sua fraqueza de espírito, deve ser humilhante sentir que não têm mérito próprio. Sei que não tenho como comprovar este juízo de moral, no entanto, o fantasma de terem sido beneficiados deverá deixar algum complexo de inferioridade.

Na sociedade, é frequente que as características erradas sejam premiadas como qualidades. A forma como as metas são glorificadas leva a uma desenfreada busca pelas mesmas, muitas vezes de forma ilegítima, pagando seja de que forma for para passar "à frente". Muitos desses comportamentos subtis, no limbo do moralmente duvidáveis, nem são considerados ilegais, outros são fáceis de encobrir, outros são feitos por alguém com muito poder. Considero que o preço a pagar por uma troca suja é sempre maior do que a troca direta; que há sempre um custo entranhado na nossa consciência; e que esse caminho esta destinado ao fracasso. Ora, enquanto se está na obsessão de atingir o fim, não se é feliz, quando se atinge o mesmo, a felicidade é temporária, e acabamos sugados pelas metas, em vez de ser motivados a melhorar.

No mundo animal, o livre arbítrio de tomar a decisão certa ou errada não existe, apenas o instinto de sobrevivência de forma incondicional. Assim, de forma colaborativa absoluta funcionam as células do corpo humano, veja-se a zero tolerância no sistema imunitário contra as células “egoístas” dos tumores. No entanto, na nossa sociedade é premiado o egoísmo, na medida em que ser solidário é uma qualidade menor do que ser ambicioso, quando poderiam ser paralelamente estimuladas

Deixa-me incrédula como, constantemente, me fazem sentir: como se eu é que estivesse errada por tomar a decisão que sinta como certa; como se fosse ingénua e idealista por procurar o que é melhor para todos. Por outro lado, penso que se não impuser os meus limites e forem negligenciados, também não deveria culpar e cobrar ilegitimamente quem os atravessar. Respeitando o espaço dos outros, devemos impor o que é nosso a quem o quiser invadir. No fundo, temos a responsabilidade de tomarmos as melhores decisões para nós próprios.

Antes de mais nada, penso que se é mais feliz se primeiro se tentar sentir grato pelo que já se tem. Ainda, pelo existencialismo, é importante que se crie um projeto de vida, uma vocação onde investir. Em qualquer dos casos, acreditar que o trabalho, mais tarde ou mais cedo, será recompensado. Pelo caminho, ter orgulho nas pequenas batalhas ganhas e resiliência na procura de ser um ser cada vez melhor. O sorriso interno de reconhecimento duma vitória que provem do próprio suor, é também gratificante para a autoestima. Criando um ciclo de pensamento positivo, os frutos surgem, há motivação para ser mais produtivo, e os objetivos acabam por ser naturalmente cumpridos, continuamente atraindo coisas melhores.

Sem um sistema de crenças de base sólido, admito que a minha busca de respostas na espiritualidade foi semeada em solo fértil. Gosto de ter fé no que pragmaticamente for preciso para me fazer acreditar que fazer o certo compensa, assim como no poder da minha vontade.

Respeito quaisquer tipos de crenças ou descrenças. Acredito que o mito tem o poder de semear a realidade, na medida em que, acreditar, já é um passo mais perto de ser. Ninguém tem o poder de julgar o nosso sistema de crenças, são muletas que podem ser ferramentas potentíssimas. Ter rituais de sorte ou superstições pode parecer ridículo, mas cria uma memória cognitiva mecânica associada a uma rotina de foco num objetivo. A meta é encontrar um sentido para viver pacificamente, os ateus e agnósticos que conseguem tal naturalmente, não têm necessidade de recorrer à espiritualidade para justificar o mundo.

Concluo, notando que a resposta está no equilíbrio. A fé deverá ser usada para o bem, nunca de forma obcecada ou fanática, como a História já mostrou ser perigoso.

 

Ana Madalena Cunha (Aluna Do Mestrado e Vice-Diretora Do Jur.nal)

01
Abr21

Delatório

Jur.nal

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PAISAGEM - MARTINS RN BRASIL

 

Descrevo sentimentos que antes
Eu não sabia existentes.
Esqueço amigos de infância,
Velo os inimigos de hoje.
Revelo amores antigos,
Publico segredos de polichinelo.
Planto tempestades.
Ponho-me, me exponho, me oponho.
Atropelo o ritmo,
Brigo com a métrica.
Da rima, me intrigo.
Nas palavras busco abrigo
E me traio.
A poesia é a delatora do poeta!

 

Júnior Damasceno (Professor de Filosofia e Convidado do Jur.nal)

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