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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

29
Mar21

Contágio

Jur.nal

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Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cont%C3%A1gio_(filme)#/media/Ficheiro:Contagion_Poster.jpg

 

Há cerca de um ano, a OMS declarou que a Covid-19 se tinha tornado pandémica; a partir daí a vida das pessoas foi profundamente alterada. Já sei que há leitores que estão prestes a abandonar esta crónica porque não aguentam mais nenhuma informação, ou relato sobre a pandemia. Vou desde já descansá-los, visto que não é esse o propósito deste curto texto.
Nesta pandemia, para além dos infetados, e das mortes presentes em qualquer doença transmissível grave, vimo-nos obrigados a ficar confinados em casa durantes longos períodos. Foi neste contexto que, durante o primeiro confinamento, em Portugal e no resto do mundo, livros e filmes que abordavam a temática das epidemias voltaram a estar no topo das vendas, como, por exemplo, A Peste de Albert Camus, ou o filme Contágio.
Dentro do universo dos filmes sobre quarentenas e epidemias que vi, o que mais me surpreendeu foi precisamente o filme de Steven Soderbergh, Contágio. Neste filme, estão presentes muitas situações que se assemelham à atual pandemia. Muito sumariamente, o filme mostra o evoluir de uma epidemia, que primeiro apenas afeta uma comunidade nos EUA, mas rapidamente se torna pandémica.
As semelhanças entre a pandemia ficcionada no filme e a pandemia atual são inúmeras. Desde logo, no filme, o vírus provém da China, e é o resultado da destruição de habitats e do contacto dos seres humanos com a vida selvagem, tendo a doença, ao que tudo indica, surgido por zoonose (de um morcego para um porco, e deste para os humanos). Mas as semelhanças não ficam por aqui, há transmissão do vírus em locais fechados e com concentração de pessoas, como nos transportes públicos; vemos casos de corrupção; a proliferação de teorias da conspiração; cercas sanitárias; medo do outro. A desconfiança em relação a terceiros é bastante clara, por exemplo, numa cena bem conseguida, em que um dos personagens principais, interpretado por Matt Damon, não deixa que a sua filha se aproxime do seu namorado por temer um potencial risco de infeção.
Apesar disso, existem também diferenças substanciais, nomeadamente a taxa de letalidade do vírus do filme anda na ordem dos 25% a 30%, enquanto, em Portugal, no mês de março, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova, a Covid-19 apresentava uma taxa de cerca de 2%.
Depois de ter visto o filme, a minha primeira impressão foi que se tratava de um filme premonitório, que acertava com grande exatidão num (péssimo) cenário futuro (isto é, o presente). No entanto, depois de alguma reflexão, apercebi-me que estava completamente enganado. Os argumentistas, e outros criativos envolvidos na sua produção, apenas se socorreram de informações e previsões elaboradas pela comunidade científica. Não foram assistidos por providência divina para conhecer o futuro, bastou-lhes procurar o auxílio do conhecimento científico de especialistas.
Se os estúdios de Hollywood conheciam esta realidade, então não há desculpa para os decisores políticos, que escolheram desvalorizar as opiniões de especialistas, e até diminuir o financiamento de agências e entidades que lidam com estas matérias; como aconteceu com a diminuição do financiamento da OMS ou, nos EUA, da CDC. Deviam ter tido em conta o conhecimento das pessoas que sabem do que falam.
Ao escolher deliberadamente ignorar os avisos da comunidade científica, a comunidade internacional, com uma clara responsabilidade acrescida dos ditos países desenvolvidos, permitiu o surgimento do “novo coronavírus”, como os órgãos de comunicação social gostam de se lhe referir. Também não compreendo por que motivo insistem em chamar “novo” ao vírus, ainda hoje, como sendo algo novo, quando já passou mais de um ano desde o seu surgimento.
Portanto, este filme merce ser visto não pela sua qualidade enquanto grande objeto artístico, mas por nos lembrar que a atual pandemia poderia ter sido evitada ou, pelo menos, os seus efeitos poderiam ter sido mitigados. Por um lado, serve para nos relembrar a importância da ciência nas decisões políticas de longo prazo. E serve principalmente para nos lembrar que os políticos devem ser responsabilizados pelas suas decisões que podem desencadear consequências extremamente negativas para toda a humanidade. Por outro lado, mostra um cenário que pode realmente ocorrer no futuro. Numa muito possível futura pandemia, com uma taxa de mortalidade similar à do filme, as instituições democráticas, os hospitais, não resistiriam. Haveria tumultos, motins, violência. Cabe à sociedade civil pressionar a classe política para garantir que tal cenário distópico é apenas matéria para o cinema catástrofe de Hollywood e não um cenário de um futuro próximo.

 

Pedro Serra (Aluno Do 2.º Ano Da Licenciatura)

25
Mar21

A Menina Das Cores

Jur.nal

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"Diary of Discoveries", Vladimir Kush

 

Imóvel, consumida por uma inércia total, como que inanimada,

Estava eu, num quarto envolto por um silêncio ensurdecedor,

Apenas eu e a minha mente inquieta, em ebulição,

Que pensa em tudo e em nada,

Que acolhe pensamentos, breves sussurros passageiros.

 

Entre um destes intrusos pensamentos, surge uma estimada memória, de tempos remotos:

Eu, em menina, diante de uma folha em branco,

Entediada, sem lápis de cor para pintar, não me deixei desanimar,

Imaginei um abundante mar, de um azul vibrante, um sol que me abraçava calorosamente, o tímido quebrar de uma onda,

E deixou de ser preciso lápis de cor,

A folha permanecia em branco, mas a menina habitava num mundo de cor.

 

Desejava, por vezes, que essa menina ainda existisse,

Menina, esta, que me levasse a mundos coloridos, como que numa viagem pelos céus,

Um desejo mal guardado.

 

De rompante, fecha-se a porta do apático quarto, fechando-se também a porta da imaginação,

Apercebi-me que o pensamento me havia levado longe demais, até às nuvens,

Alguns até diriam que não é correto um ser terrestre voar tão alto,

Porém, com esta viagem, apercebi-me, com grande alívio, de algo:

Talvez esta menina, que outrora fora, ainda habite dentro de mim.

Afinal, não deixei de imaginar mares só por não ter lápis de cor.

 

Sara Cardoso (Aluna Do 3º Ano Da Licenciatura)

22
Mar21

O Efeito Musk

Jur.nal

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Fonte: https://finance.yahoo.com/news/elon-musk-alive-well-planning-113206722.html

 

Elon Musk, conhecido empreendedor, é o fundador, CEO e CTO da SpaceX; CEO da Tesla Motors; vice-presidente da OpenAI; fundador e CEO da Neuralink; co-fundador e presidente da SolarCity; fundador da The Boring Company; e responsável pelo projeto Starlink. Em 7 de janeiro de 2021, com um património pessoal estimado em cerca de 188,5 mil milhões de dólares, é uma das pessoas mais ricas do mundo. No ranking da Forbes, Musk ocupa o segundo lugar.

Ao longo dos anos, Elon Musk conseguiu construir, para além de todas as suas empresas, um aglomerado de consumidores/seguidores leais que compram todos os produtos que o filantropo lança, bem como dirigem os seus investimentos em ações das suas empresas cotadas na bolsa (por exemplo, a Tesla Motors) – “Os donos de carros da Tesla querem, genuinamente, que a empresa alcance o melhor sucesso possível” –Revista Forbes numa entrevista ao gestor de serviços da empresa.

A lealdade que os consumidores têm por cada serviço que Elon Musk disponibiliza, em cada uma das suas empresas, data de 2009, quando criou a sua conta no Twitter. Desde aí, Elon Musk publica tweets honestos, entusiasmantes e algo esquisitos… O que por sua vez não é mau, pelo contrário. Acho que é esta transparência e humanidade que Musk revela com os seus tweets que permitem aos seus seguidores/consumidores criarem uma ligação mais próxima com ele, e por consequência, com os seus produtos.

Podem se encontrar os primeiros traços que levaram à construção do respetivo efeito, a que vamos chamar de “O Efeito Musk”, com o lançamento exclusivo e limitado do seu lança-chamas, ao qual o mesmo, com a sua equipa de marketing, deu o nome de “Not a Flamethrower” revelando a natureza humorística do empreendedor, numa tentativa de contornar o impedimento do envio do produto devido a barreiras alfandegárias, uma vez que se trata de uma arma de fogo. Estes lança-chamas venderam-se num instante, tendo sido adquiridos cerca de 20000 lança-chamas a um preço fixo de 500$, gerando 10 milhões de dólares de receita para o crescimento/desenvolvimento da startup “The Boring Company”.

Este fenómeno continuou a crescer, cada vez mais, e em 2018 Elon Musk anunciou, como piada (para variar), o lançamento da primeira bebida alcoólica da marca “Tesla”, a fim de combater os prejuízos que a empresa estava a enfrentar na altura. Ironia do destino, este contacto tão humano, sincero, transparente e peculiar que o empresário tem com os seus seguidores leais levou a que, passados 2 anos (quando a bebida foi lançada), o stock da tequila da tesla desaparecesse em poucas horas a um preço de 210€ por garrafa.

O ponto mais alto, até agora, deste putativo efeito ocorreu este ano em 2 situações com moldes similares. A primeira situação aconteceu com o “abanar” do mercado de ações, por parte do subreddit “WallStreetBets”, onde os participantes discutem a negociação de ações e opções de compra. Elon Musk achou imensa piada e gostou tanto de como uma pequena comunidade do site reddit estava a dar aos grandes “lobos” de Wall Street água pela barba que lhe bastou publicar um tweet onde se lia “Gamestonk!!” para as ações da Gamestop aumentarem 92% nesse dia (26 Jan, às 16h08, ou seja, 8 minutos após o fecho habitual do mercado de ações americano (NYSE/Nasdaq), contudo este horário não é assim tão linear). A segunda situação, entrando no mundo da “cryptocurrency”, deu-se quando Elon Musk colocou na bio do seu twitter a palavra, acompanhada de hashtag, “#bitcoin”. Tal levou a que o preço da moeda virtual aumentasse aproximadamente 6000$ numa questão de horas. Gerando uma percentagem de retorno, para quem detinha dinheiro na moeda virtual antes do seu tweet, de 6.31%, em 30 minutos depois do tweet, crescendo para 18.99%, ao fim de 7 horas depois do mesmo.

Elon Musk é um exemplo perfeito do peso e importância que as redes sociais podem, hoje em dia, ter no sucesso de uma empresa. A rede fiel de seguidores que o empresário conseguiu acumular ao longo dos anos permite o crescimento constante das suas empresas, devido às vendas exaltantes que os produtos do filantropo asseguram em cada um dos seus lançamentos. Tal comprova que uma rede fiel de consumidores irá sempre apoiar os produtos e o crescimento de uma empresa, quando esta é liderada por alguém tão influente como Elon Musk.

 

Fábio Simão (Aluno Do 2.º Ano Da Licenciatura)

18
Mar21

Pedaços de Liberdade

Jur.nal

 

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Fotografia de Stephanie Alpizar

 

Apanho o último comboio da noite para casa. Os vidros das janelas estão sujos e tudo o que refletem é a escuridão da noite casualmente iluminada pelas luzes do interior da carruagem. Ao fim de 3h rumo ao Algarve, as duas máscaras que levo postas começam a irritar a minha pele e sinto-me saturada pelo excesso de viagens intercidades que tive de fazer nos últimos dez meses. Dou por mim a imaginar como seria a minha vida de académica se tudo o que eu imaginei há 2 anos se tivesse cumprido sem uma catástrofe mundial pelo meio.

Talvez não estivesse hoje neste comboio e talvez continuasse em Lisboa a aproveitar os poucos dias de descanso que tenho dos últimos cinco meses de trabalho. Férias limitadas aos metros quadrados de uma casa sabem a pouco. Já começa a ser difícil lembrar como era estar numa festa lotada, ou reunir com todos os meus amigos numa típica quinta-feira académica. As memórias dos primeiros meses de faculdade sem pandemia parecem um sonho febril. 

Tenho saudades de sentir que toda a liberdade do mundo me pertencia e que podia estar em qualquer lugar por inteiro, tenho saudades de sentir o chão vibrar com a música de cada concerto, e tenho muitas saudades de abraçar com força as pessoas de quem gosto. A minha saudade de abraços leva-me a concluir que já lá vão quatro meses desde a última vez em que abracei os meus avós, o que me entristece ainda mais. Entristece-me saber que o tempo passa por eles a correr cada vez mais depressa, mas que, ainda assim e por precaução, não o podem aproveitar da forma que merecem, na esperança de prolongar um pouco mais a sua estadia na Terra.

Tantos meses se passaram desde o início oficial desta pandemia, mas só agora sinto o peso do preço a pagar pelo cumprimento do dever de ser uma cidadã responsável. Nunca a cor das minhas paredes me cansou tanto, nunca questionei tanto o meu reflexo no espelho, e nunca me senti tão pequena dentro de mim. 

Olho à minha volta na carruagem praticamente vazia e verifico que apenas viajam comigo jovens, provavelmente da minha idade, e provavelmente a voltar das aulas. Quase todos estão sozinhos e há um silêncio ensurdecedor entre nós. Questiono-me se sentimos todos  um pouco do mesmo?

O confinamento torna-se mais difícil quando uma pessoa de rua é forçada a tornar-se numa pessoa de casa, quando uma adolescente que sonhou durante anos poder provar um pouco da liberdade que é viver sozinha na maior cidade do país, se vê obrigada a abdicar de tudo e voltar para casa dos pais. Os convívios são reduzidos a uma chamada de Zoom em que ninguém sabe ao certo o que dizer, as atividades ao ar livre mais entusiasmantes passam a ser levar o cão à rua e o maior pedaço de liberdade que se tem torna-se num catálogo infinito de filmes pirateados. Parece quase não restar espaço para o amor, também ele preso nas quatro paredes do quarto.

Dou por mim a travar batalhas comigo mesma: quero ser produtiva, mas não quero privar-me de sentir a tristeza que é ter a vida em standby; quero poder queixar-me e libertar a minha frustração, mas não quero ser ingrata porque tanto eu como a minha família estamos bem; quero entrar em contacto com todas as pessoas de quem me afastei desde o primeiro confinamento, mas não quero sentir que estou a fazer um frete; quero aproveitar o tempo para pôr em dia todos os livros e filmes parados na prateleira, mas não quero passar nem mais um segundo sentada; quero conversar com os meus amigos, mas não tenho coragem para formular uma única frase.

Pode dizer-se que há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo: desde a situação de calamidade nos hospitais públicos, à ascensão da extrema direita num país que tanto lutou pelos cravos vermelhos. E é difícil mantermo-nos a par de tudo o que se passa à nossa volta quando esse tudo remete para uma negatividade que agrava o sentimento de desconsolo. É difícil manter a esperança e o positivismo quando continuamos a ver pessoas que desrespeitam o sofrimento de um país, de famílias inteiras e de profissionais de saúde que dão o corpo e a alma para garantir que quem entra nas urgências de um hospital, consegue sair pelo próprio pé. É difícil acreditar nas pessoas quando as vemos a apoiar publicamente alguém que não respeita a democracia e insiste em limitar a liberdade de quem só quer viver em paz.

Encostada à janela do comboio, sinto-me ainda mais pequena e incapaz. Sinto-me cada vez mais longe do que sou, ou pelo menos, do que acreditava ser. O sentimento de ansiedade agrava-se à medida que me aproximo da minha paragem final: quero voltar para casa, mas essa volta passa agora a implicar uma estadia por tempo indeterminado. 

Penso em todo o peso que perdi nos últimos meses de estudo, no cabelo que vi cair no chão do meu quarto e das vezes em que julguei não ser capaz de concluir o que quer que fosse. Lembro-me de todos os dias em que faltei às aulas porque não tinha força para me levantar, ou das vezes em que me arrastei da cama para o sofá na esperança de estudar um pouco. Do número de vezes em que encomendei comida porque não conseguia arranjar coragem para cozinhar, ou das vezes em que chorei sozinha depois de desligar uma chamada com os meus pais. De todas as vezes em que quis sair para espairecer, mas me senti egoísta por não evitar fazê-lo.

Quando chego à estação final, a minha mãe já lá está à espera. Consigo vê-la a sorrir através da máscara. Entro no carro e no caminho para casa ela conta-me como a situação na nossa cidade está cada vez pior – “o número de infetados não para de aumentar” – diz, - “e fico preocupada pelo teu pai.”. O desconforto aumenta quando o problema está cada vez mais perto de nós e deixa de haver um lugar seguro para respirar. Estou muito grata por, até à data, e vários testes do Covid-19 depois, ninguém da minha família mais próxima ter sofrido com a infeção, mas não consigo ignorar as marcas invisíveis que esta pandemia continua a provocar – de repente somos todos personagens secundárias da nossa própria vida.

Gostava de conseguir imaginar o dia em que se vai poder celebrar novamente um dia de sol brilhante com um passeio na praia, gostava de conseguir imaginar o sentimento de liberdade quando se puder ouvir um concerto abraçado a um desconhecido, gostava de conseguir sentir o que vou sentir quando puder, finalmente, colocar os meus pés em solo estrangeiro e gostava, acima de tudo, de saber quando é que vou poder dar um beijão de felicidade aos meus avós e amigos. Infelizmente, e para já, só consigo saber o que é viver o momento mais grave da história do mundo nos últimos anos, e só consigo sentir o peso das cicatrizes invisíveis que esse momento trouxe consigo. 

Viagem concluída. Quando chego a casa, vou diretamente para o meu quarto. Pouso a mala cheia de nada e sento-me na cama. Já que a minha vida era agora noutra cidade, o quarto está praticamente vazio e representa perfeitamente o meu estado de espírito. Solto um pesado suspiro de conformação. 

Estas foram as minhas quatro paredes preferidas durante dezoito anos. Talvez consiga suportá-las durante mais uns meses.

 

Ana Sofia Alcaide (Aluna Do 2.º Ano Da Licenciatura)

15
Mar21

O Peso da Responsabilidade

Jur.nal

 

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Fotografia do Autor

 

Este tema não me veio à cabeça num momento forte de inspiração. Incomoda-me um pouco todos os dias. Mas, ironicamente falando, o seu título surgiu enquanto conduzia em pura deambulação e de forma pouco focada pela cidade. Creio que o faço para me abstrair de refletir sobre isto. Em todo o caso, não me sinto propriamente mal por cair neste tipo de circunstâncias. É do meu conhecimento que muitos mais o fazem. Em bom tom e fazendo uso da gíria, a volta dos tristes.

Há coisas complicadas. Uma delas seja talvez pensar no que queremos para o aqui e o agora. O Futuro soa a Felicidade adiada e tantas vezes parece que essa Felicidade tarda e não vem. Fazemos planos. E há tantos planos que podemos fazer. Mas, enquanto os fazemos, o Tempo passa. O Tempo é um desses tantos que não esperam por nós. Talvez daqui a uns anos, se voltar a ler este texto, ria e banalize a situação. Por enquanto, não estando ainda em posição de o poder fazer, sinto-me confusa. E talvez confusa não seja o termo mais adequado ou o correto de se aplicar, porque eu (acho que) sei o que quero.

A situação que me condena – e que deve condenar tantos outros (pelo menos assim me parece pelas conversas que vou estabelecendo) – é que quero o que é de amanhã para ontem. Há tempos lia, e sem grande interesse no momento, um artigo sobre o modo como o cérebro humano desenvolve diversas metas, como as procura atingir e o modo como reage quer ao prazer pelo sucesso, quer à frustração pela falha. Bem, ao fim e ao cabo, revi-me em certos aspetos daquilo que lia, mas, por falta de empatia para com as palavras, que em simultâneo me consolavam e atacavam, o meu neocórtex guardou o episódio para reflexão futura. 

Fazendo jus às palavras de António Variações, “é para amanhã, bem podias fazer hoje”, em certos aspetos e como mecanismo de defesa, como qualquer Ser Humano, tenho uma estranha e forte atração pela Tese do Adiamento. A vulgar e conhecida procrastinação. Acontece que me sinto confortavelmente desconfortável por saber que não é só a mim que a dita afeta. E que inconsciente é que me sinta relaxada quando outros me relatam que fazem exatamente as mesmas coisas estúpidas que eu. 

Porém, há materializações sobre as quais eu não me questiono, ou evito questionar, para permanecer milimetricamente mais feliz. O que sei, ou pelo menos aquilo que sinto, é que, apesar de ainda ter toda uma vida pela frente (como tantas vezes me dizem), é que o Tempo está a apertar – como tantas vezes antes já apertou. E que há escolhas que temos de fazer aqui e agora. Se não as fizermos, corremos o risco de ficar parados na linha temporal e creio – nunca o senti em pessoa – que a sensação deve ser igual à do metafórico atropelamento em linha de comboio. 

Neste contexto, eu - que não sou grande espingarda a economia – questiono-me sobre qual o preço a pagar. Nunca percebi muito de contas, mas parece-me que há aqui dois lados. Ambos são perigosos. Podemos arriscar e tudo vir efetivamente a dar certo ou podemos chorar enquanto vemos o circo a arder. Num e noutro caso, uns chamar-lhe-ão de mérito e dedicação ou incapacidade e falta de trabalho, outros de sorte ou azar. Não tenho opinião fundada. E não o tenho porque não estou em posição de ser júri. Ainda agora comecei a ser concorrente e, como em qualquer jogo, a vantagem e a desvantagem nem sempre estão dependentes da capacidade interna que carregamos. Expressão infeliz, destruidora de sonhos talvez. 

A vida é assim e não creio que haja qualquer problema nisso. Se não existisse qualquer dificuldade, por mais que seja ela existencial, a nossa vivência seria aborrecida, perderia o sentido. Contudo, se nos prendermos às amarras que nos tomam, ao peso do que esperam ou do que esperamos de nós, se fizermos isso forçada e inquebravelmente, tornamo-nos pesados. Não creio plenamente que a sorte exista, mas também não a nego. E acredito, como diria Exupéry, que nos tornamos eternamente responsáveis por tudo aquilo que cativamos. O sucesso – e não sei ainda muito bem o que quer isso dizer – é algo que se procura, algo que sozinho nunca virá ter connosco. E vai doer. Se calhar muito mais do que queremos, muito mais do que merecemos, muito mais do que esperamos. 

 

Sofia Estopa (Aluna do 4.º Ano da Licenciatura e Diretora do Jur.nal)

11
Mar21

Caminhar De Novo

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Jovem, és Primavera 

No mundo que não é jardim 

Teus sonhos e quimeras 

Geram esperanças sem fim.

 

Caminha, jovem, caminha

Constrói o tempo futuro 

Se o caminho for duro 

De trevas a percorrer

Não temas a solidão 

Tem humildade de aprender

Com o coração a doer

Da vida a sua lição.

 

Caminha, jovem, caminha

 Encarnando a natureza

Generosa beleza

A florir em botão.

 

Caminha, jovem, caminha

Mesmo com os pés sangrando

E no deserto de ti

 Te tornar mais rejeitado

Se a dor da rejeição

Sentirás o Deus — amor 

Infinito de perdão

Segurar a tua mão 

Para caminhares de novo…

 

João Maria Botelho (Aluno Do 1.º Ano Da Licenciatura)

08
Mar21

As Incoerências Humanas

Jur.nal

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Tarkovsky's 'Mirror' (1975)

 

Bem que Sartre disse que o inferno eram os outros. E já Bukowski nos tinha tentado avisar de que o amor era um cão dos diabos. Mas quisemos ouvir? Um era estrábico, o outro alcoólico. Um era filósofo existencialista, o outro génio da marginalidade literária. Poderíamos advogar que os ignorámos a ambos, pontualmente, por divergências pessoais mas a verdade é que esta nossa teimosia é bastante universal. 

A raça humana é daquelas que se contradiz e, quando não o faz, é porque está "mentindo", diz-nos o ditado brasileiro. Não só os brasileiros falaram das incoerências, também os portugueses sobre elas escreveram: o último diálogo dos Maias, no Passeio Final, é de uma ironia assertiva. 

Ega, decadente, afirma que se estivesse a coroa imperial de Carlos V à sua espera, se ele para ela corresse, que (ainda assim) não apressaria o passo - que todos os esforços são inúteis e que nenhuma ambição ou esperança nos deve iludir.

Porém, passa o comboio e Ega põe-se a correr com Carlos, contrariando o seu próprio estimado fatalismo: "Lá vem um americano, ainda o apanhamos!" 

Lembro-me de ler este diálogo no secundário e de o ter achado o mais fascinante da obra inteira. 

Quantas vezes não fomos Ega? Quantas vezes, frustrados de alguma expectativa, não dissemos não valer a pena a ambição? Quantas vezes, na agonia de uma ressaca, não prometemos nunca mais beber um licor que fosse? Quantas vezes, na amargura de um desgosto de amor, jurámos não voltar a amar? 

Mas sempre voltamos a tentar embora juremos que não valha a pena. Mas sempre voltamos a erguer o copo, uma ressaca nunca é a última embora juremos que o é. E, invariavelmente, voltamos a beijar novos lábios pois um amor na juventude nunca é o último embora juremos que o é. 

Estas infinitas contraditoriedades nossas, tão miseráveis quanto admiráveis, não são mais do que a nossa teimosia em viver. 

 

Cláudia Paulo (Aluna do 4.º Ano da Licenciatura e Vice-Diretora do Jur.nal)

04
Mar21

Eu, Um Mundo Sem Ar, E As Pessoas Do Amanhã

Jur.nal

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Fotografia de Sofia Estopa

 

Há meses que permaneço enclausurado num mundo

No qual jamais havia passado mais do que algumas horas.

A tempestade que trancou a porta cumprimentou-me,

Não com um relâmpago lancinante nem com um vento brutal,

Mas com o sorriso amargo de quem não vai matar de uma só vez.

 

Já parti a janela do meu quarto sete vezes e ninguém ouviu,

Reconstrói-se da noite para o dia à medida que a outra luz se desvanece,

E reconstrói-se sempre, sempre, sempre…

Não há dia que não vá à janela para ver o que está do outro lado,

E não há dia que não me desiluda com a falta de cor

Do mundo que tantas vezes me anestesiou do meu.

 

Soube desde o início que o problema não era a lente,

Mas nem por isso deixei de tentar destruí-la.

Não sou presunçoso ao ponto de dizer que sou diferente da maioria:

Às vezes prefiro não ver do que ver algo que me doa, e ponto final.

Seja como for, não a parto mais, e não porque seja corajoso,

Mas porque me dói perceber que ela se reconstrói.

 

A janela grita cada vez que o mundo lá fora sangra,

Os meus olhos arregalam-se, as minhas mãos tremem, e falta-me o ar.

Não há um joelho que me pressione o pescoço

Nem a ausência de um ventilador que me possa salvar a vida,

Mas os gemidos do mundo lá fora não me permitem a paz, penetram-me a alma

E os meus olhos arregalam-se, as minhas mãos tremem, e o falta-me o ar…

 

O fogo do inferno que está longe não passa pelos ecrãs,

Pode até tornar o ambiente menos fresco, mas não chega a queimar.

Contudo, desta vez o Diabo encheu o peito de ar e soprou…

E soprou com tamanha brutalidade que até alguns dos mais fidalgos

Do ocidente deixaram de conseguir respirar.

Não sei se neles me deva incluir, mas que me falta o ar, falta…

 

Estou preso num mundo que, com a ajuda do outro, me despiu,

E despiu-me com uma facilidade tal que me faz sentir ridículo,

Completamente ridículo…

Os temores que amiúde intentam pintar de negro as paredes deste quarto,

(Que é o meu cérebro), tornam-se mais pequenos quando salto pela janela,

Mas agora eu não posso saltar...

 

Estou trancado no mesmo quarto que os problemas que aqui nasceram,

Problemas corriqueiros germinados numa mente como qualquer outra,

Problemas que outrora me gelavam de medo,

Que me convenciam que me tiravam o ar,

Que me ameaçavam que poderiam acabar com dois mundos…

Mentirosos…

 

O choque da tempestade que me trancou a porta

Não teve força bastante para os matar de uma vez.

Mas, ao impedir-me de fugir do meu mundo para o outro,

Obrigando-me a assistir pela janela a um filme que sai do ecrã,

Fez-me sentir toda a dor de um mundo sem ar,

De um mundo que tem problemas muito maiores do que os meus.

 

Os problemas que não me permitem o sono

Já não podem ser adormecidos por meio de um mero salto,

Permanecem agora sempre acordados, mas afiguram-se menos pungentes.

Sou hoje dilacerado por um mundo que não é só meu,

Por um mundo que desde sempre chora e hoje me comoveu,

E por isso julgo estar mais perto de me tornar num homem.

 

Não é verdade que a dor partilhada não me tenha já antes feito chorar,

Fê-lo provavelmente tantas vezes quantas fez ao mais comum dos homens.

Mas hoje sinto-a como sendo mais do que uma dor que faz nascer lágrimas,

Sinto-a com uma intensidade tal que o ar parece não querer entrar…

As mãos e os joelhos do mundo lá fora trespassam a janela e pressionam-me,

E pressionam-me o peito e o pescoço com tamanha violência

Que os problemas do meu mundo cedem lugar a uma simples vontade de respirar.

 

Os meus temores ridículos ainda existem, mas é como se não existissem.

Há algo bem maior do que eu e do que qualquer outro alguém,

Há algo bem maior do que a soma de todos os mundos individuais…

Sempre houve e sempre haverá, eu sempre o soube e sempre o saberei.

Mas foi hoje, foi hoje que o grito da Humanidade me fez querer ter força

Para gritar bem alto, para gritar bem alto por qualquer coisa que não sei bem o quê…

Só quero que o mundo volte a respirar...

 

Mas não há ventilador que valha a este mundo doente…

Quando passar a tempestade que agora estoira

Muitas outras continuarão, e outras tantas surgirão.

É certo que se o inferno não chegar perto muitos voltarão a respirar,

Mas o mundo… O mundo não!

O mundo não respirará enquanto bombas estoirarem,

Enquanto houver quem tenha fome,

Enquanto houver quem morra por falta de assistência…

O mundo não respirará enquanto muitos dos mundos individuais

Tiverem a pretensão de parecer maiores do que a Humanidade.

 

O amanhã não oferecerá ao mundo a sorte de uma respiração tranquila,

Nem o amanhã nem o depois de amanhã.

Mas estou certo de que o hoje, de que o ontem e de que o anteontem

Tiraram a respiração a muitos daqueles que se viam no centro de tudo,

E que agora, depois de voltarem a encher meio peito de ar,

Olharão pela janela vendo o mundo lá fora como algo maior

Do que um meio de encontrar alimento para os seus próprios mundos.

 

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que o mundo só permitirá a existência do “Eu”

Enquanto os “Eus” tiverem força bastante para evitar a sua destruição.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que só em comunidade podemos intentar vencer os grandes males

Que atentam contra toda e qualquer individualidade.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que muitos dos seus problemas corriqueiros não são nada

Quando comparados com a revolta de um mundo conspurcado.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que o sentimento daqueles que fogem do seu país por conta da guerra

É semelhante ao sentimento daqueles que voltam ao seu país por conta da pandemia.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que aquilo que naturalmente nos une como habitantes de um mundo global

É muito maior do que aquilo que eventualmente nos possa artificialmente separar.

Algumas pessoas do amanhã serão mais conscientes

De que morrer com falta de ar é de uma brutalidade tão cruel

Que já basta que a natureza ofereça esse fado a alguns.

Algumas pessoas do amanhã não conseguirão encher o peito de ar

Ainda que o inferno continue apenas lá longe.

E eu espero que todos os que leram o poema até aqui

Façam parte destas “algumas pessoas do amanhã”.

 

Não sei o que será o amanhã, mas quero saber.

Não quero tapar mais os olhos, quero ver.

Sinto-me agora mais pequeno e mais homem

Do que quando iniciei o poema,

E por isso não terminarei com um “Eu”.

Uma coisa é certa:

O amanhã será tanto melhor quantas mais

Forem aquelas “algumas pessoas do amanhã”.

 

André Neves (Aluno Do 3.º Ano Da Licenciatura)

01
Mar21

Títulos

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Hoje em dia, somos categorizados em Títulos, os que temos, e os que não temos mas que pretendemos ter, os que deveríamos ter, e aqueles que nos são roubados. Todos nós temos Títulos pelos quais somos representados.

Título de Amigos, de Namorados, de Casados, de Pais e Mães e de Doutores. Todos estes Títulos fazem com que nós tenhamos a necessidade de chamar a alguém, algo mais do que o próprio Nome, que também foi um Título que nos foi dado à nascença. Talvez, pela necessidade de nos associar à inclusão da sociedade, que com urgência nos exige que sejamos alguém antes de o ser.

Os Títulos são só Títulos quando são vividos, quando são presenciados, quando passam a uma existência real. O amigo deixa de ser amigo quando o Título cai e não resta mais nada, senão o vazio de algo que já se esgotou e os namorados têm Títulos efémeros, que caiem quando existe uma ponte muito longa entre as duas ilhas.

Com os Títulos há sempre a apropriação de uma identidade, que pode revelar-se tão vazia, como a folha de papel em branco que tinha antes de começar a escrever. Continuadamente, ouvem-se apresentações; “ Esta é a minha mulher”, “ Este é o meu marido”, “ Este é o meu pai”, ou “Esta é a minha mãe”. Minhas ou Meus! Não se vendem ou se compram Títulos, e quem os têm não pode exercer o domínio sobre os mesmos.

Temos também os Doutores. Aqueles que acham que são, e aqueles que o são efectivamente. Muitos são os que usam o Título de Doutor, sem que ao mesmo pertençam. Contrariamente, os que efectivamente se incluem no Título de Doutor, por vezes não os querem usar, por não sentirem vínculo ao Título em si.

Depois vem a sociedade dizer e referenciar novamente, que pertences a um pai, ou que pertences a uma mãe. Mesmo que para ti, outras pessoas que não as biológicas, possam representar esse Título, as mesmas nunca serão reconhecidas na sociedade devido à ausência de Título. A sociedade não pensa fora da área traçada no chão, em que está minuciosamente inserida, e mantêm uma comunicação articulada e mecânica. Se retiramos uma frase ao seu diálogo, tudo deixará de fazer sentido.

A hipocrisia dos Títulos e das respectivas categorias, gritam a necessidade de serem notórios e superiores, mesmo que existem só em; documentos, cartões, diplomas ou mesmo cartas. Ironicamente, muitas vezes, esses Títulos não ganham, o direito de lá estar.

Esta hipocrisia dos Títulos tira a autenticidade, a serenidade emocional, a liberdade de podermos ser só aquilo que sentimos que devemos ser. O Título será vazio senão for vivido, saboreado, salpicado de cores escuras e coloridas. Assim é a vida na sua unicidade.

Não ganhas os Títulos, porque os tens pendurado numa parede, ora porque os escreveste em papel, ou porque simplesmente o disseste a alguém. Os Títulos não são teus, até que tu os mereças tê-los. Não serás completo até que as tuas acções se encaminhem na direcção dos Títulos, e quando lá chegares verás que eles só terão valor se forem continuadamente vividos, de forma a passar várias vezes pelo ponto de partida e de chegada. Os Títulos não te moldam, mas tu podes e deves moldá-los.

 

Tânia Azevedo (Aluna Do 4.º Ano Da Licenciatura e Vice-diretora do Jur.nal)

 

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