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Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

28
Dez20

Savior Complex: Turismo de Voluntariado

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

 

Anualmente deslocam-se milhares de jovens europeus e americanos em busca de uma experiência única, normalmente com crianças desfavorecidas do Sudoeste Asiático, África ou América Latina, que duram não mais que dois meses. O benefício pessoal destes é imensurável: o contacto com aqueles de vida mais simples, com condições que acreditamos não existir no nosso país tolda-nos a perspectiva, a nossa hierarquização de prioridades muda para sempre. Mas qual o impacto no local que permanece?

Não pondo em causa quaisquer motivações do voluntário, que crê que as suas ações transformam tanto a sua vida como aquelas em que toca. Turismo de voluntariado, ou “voluntourism”, é altamente prejudicial para as comunidades locais.

Depois de alguma pesquisa em organizações de voluntariado - que, obviamente, me rechearam as redes sociais de publicidade às mesmas - noto que o mais recorrente é o ensino da língua inglesa, cobrindo as idades que, em Portugal, compõem a escolaridade obrigatória. Os voluntários, também eles jovens, dedicam-se ao ensino introdutório da língua, já que no secundário tiveram bom aproveitamento na disciplina e entretanto a certificaram. Durante 6-8 semanas esforçam-se e as crianças aprendem facilmente. Nas 6-8 semanas seguintes são-lhes apresentados novos voluntários e aprendem exatamente o mesmo. Ora, uma repetição constante dos mesmos conteúdos nunca será benéfica. Um ensino de qualidade é marcado por uma sequência evolutiva de conteúdos, a educação destas crianças é, então, altamente condicionada e prejudicada pelo trabalho dos voluntários. Para ensinar as nossas crianças exigimos um professor qualificado, tanto em ensino como na temática, sendo que ficamos aborrecidos quando o mesmo tem que se ausentar. Porque é que não impomos os mesmos requisitos para todas as crianças?

Voluntariado em orfanatos é, também, extremamente apelativo. Historicamente, orfanatos acolhiam não só crianças órfãs como outras cujas famílias não apresentavam condições para as educar. Ora, ao longo das décadas, os orfanatos têm vindo a ser desencorajados em prol no investimento em programas familiares que ajudam as crianças a reunir-se com parentes mais afastados e, no caso das restantes, trabalhar com as famílias de modo a que o ambiente se torne propício ao crescimento. A criação de orfanatos e as doações fazem com que seja lucrativo encaminhar crianças para estas instituições. De facto, em 2018, a Save The Children relatou que cerca de 80 a 90% das crianças em orfanatos têm, pelo menos, um progenitor vivo. Os voluntários, quer invistam o seu dinheiro ou o seu tempo, estão a fundamentar a separação de famílias.

Em ambos os casos, apesar de marcadamente mais presente no dos orfanatos, verificam-se consequências psicológicas nas crianças. Muitas acabam a desenvolver problemas comportamentais, perturbando a maneira como se criam laços afectivos, pois habituam-se a apegarem-se aos voluntários que mais tarde regressam à sua vida, criando um sentimento de abandono recorrente.

Turismo de voluntariado cria também um problema de empregabilidade, dado que os locais não conseguem exercer principalmente profissões escolares. Para além disto, está patente um White Savior Complex, que se caracteriza por uma necessidade neo-colonialista de ajudar a desenvolver outras comunidades às expectativas da sociedade ocidental. Quer a educação, quer a mão-de-obra, seja para construir poços ou escolas, branca espalha a concepção de que as comunidades de cor não conseguem melhorar as suas próprias condições. Na verdade, muitas dessas construções encontram-se inutilizadas por falta de fundos ou falta de necessidade.

Assim, não pretendo desencorajar qualquer tipo de propensão de voluntariado. Há, no entanto, maneiras éticas de o fazer, até na nossa própria comunidade. A pobreza existe no seio do nosso país, não é ao ignorá-la que desaparece. Se realmente pretendem prosseguir com uma viagem que inclui voluntariado, excluam as crianças da lista.

 

Maria Inês Opinião (Aluna do 3.º Ano da Licenciatura)

23
Dez20

Cravos

Jur.nal

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Sylvia Plath

 

Deitado sobre o sofá levigado,

Num negrume que se difunde desde o tapete rugoso ao quadro a maresia;

O silêncio é farto e o pigmentado vazo,

O frio anestesiante e a imutabilidade uma ordem,

A minha pele quebra o ciclo, pede pelo sangue quente das veias.

 

Fixo, vigilante, no raio luminoso que incide sobre o enclausurado,

Reduzido, mas sagaz, penetra no aparente disforme,

Cravos são o alvo iluminado, um molho de cravos,

O seu vermelho pede pela minha atenção, mas não quero ver,

Grita pelo meu nome, não me deixa na dormência.

 

Não me consigo alienar, não me consigo concentrar sem escuridão,

Deixo o frio e aqueço, os cravos continuam a exigir da minha dedicação,

O meu coração deixou a moleza do nada e bombeia do mesmo líquido vermelho que os cravos,

Não quero sentir, mas os cravos imperam sobre o espaço, puxam por mim,

Surgem sons alheios, oiço vozes na escadaria, passam veículos no além.

 

A luz amplia-se e difunde-se, o pigmentado torna-se soberbo,

A respiração torna-se ofegante, o suor escorre,

Precipito-me sobre a janela, e explode a bomba luminosa,

A realidade escandaliza-me, é a vida a gritar,

“Acorda, Acorda, Acorda!”

 

Bruno Lopes (Aluno do 3.º Ano Da Licenciatura)

21
Dez20

Serão Estas As Irreversíveis Manias?

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Tenho-me apercebido que prego aos peixes, tal Santo António (figura recentemente posta em causa), já que me parece que as palavras que profiro batem numa parede do “a minha bolha”. Oiço-me e penso no que irei dizer, não quero impor ideias, nem pensamentos, quero, se conseguir, falar da tolerância. Falar da ideia de que o outro pode ser o outro, e que podemos respeitar o outro na sua condição, desde que, o outro não seja intolerante, como Popper já ensinava (na verdade, pensamentos baseiam-se de maneira bastante inclinada para outros pensamentos).

Esta crença da pregação inútil, não do seu começo, mas do seu alcance, tem-me perseguido desde que denotei que, há algumas pessoas, que aparecem com as mãos nas orelhas, e que não podem ouvir falar dos mistérios da tolerância. Que não acreditam na possibilidade de existir um mundo em que a tolerância opera. No fundo, acho que deve ser mais fácil o ódio, a discriminação. Diria que a bondade parece inserir-se menos abruptamente no coração geral, apesar de entrar com toda a força em várias individualidades. Já o ódio, a desconfiança e a amargura parecem bater à porta com tanta força que entram sempre, mesmo que não sei queira.

Não falo de mim como um ser espiritualmente elevado que não sente ódio e que só entende a bondade e a fraternidade. Também eu por vezes vou de orelhas fechadas ter com alguém que me quer conversar sobre algo que eu já entendi que me é intolerável, (a tal teoria de Popper), também eu pratico o desprezo, se lhe assim podemos chamar, por certas figuras de poder.

E atenção, não falo da sociedade como estando à beira do declínio, generalizações não são especialmente a minha praia, mas inevitavelmente acabo, por vezes, por mergulhar nelas. A sociedade é uma multiplicidade de indivíduos, e reduzi-la a estigmas fáceis de compreensão, como esquerda e direita, ou culto ou inculto, sempre pareceu ser o modo mais fácil de viver. É como o ódio.

E se deixarmos de estar constantemente no fácil? Se dermos um passo maior que a nossa perna, cairmos, nos magoarmos e entendermos que a dor é chata, mas que o passo foi incrível? Porque é que não reconstruímos o nosso próprio paradigma, e deixamos de desculpar os outros como “Ah, deixa lá, ele não vai mudar de ideias”.

Acabo por falar na mesma, mesmo que os ouvidos estejam tapados, e as respostas que saem das pequenas bocas sejam ríspidas. É tão urgente cultivar o amor, inclusive nas relações pessoais, deixar de lado a constante luta contra o que é natural. É urgente que nos respeitemos e que saibamos aceitar o lugar de cada um, mesmo que esse lugar, seja lugar nenhum. Tentemos também pôr-nos no lugar do outro, e no nosso, quando não somos convidados a entrar. Que os nossos pés não incomodem o chão que é pisado com cuidado pelos sofredores, que saibamos primeiramente ouvir e só depois reagir. Que possamos ter em conta o outro, antes de ter em conta a nossa conta de raiva.

Bem sei que as desavenças vão acontecer, que há efetivamente pessoas que não conseguimos simpatizar por muito que tentemos. Não tem mal, não é suposto, nem devemos obrigar o nosso ser a suportar o insuportável, mas não deixa de ser urgente o respeito.

Estamos numa fase difícil, considero que estamos todos minimamente loucos, se não totalmente, e não falo de modo depreciativo das doenças mentais, sou defensora e adepta da desmistificação da doença mental e da sua consideração como algo real. O mundo colapsou um pouco, levámos um abanão, ainda estamos a levar, e vamos levar com muitos mais. O abanão foi como um terramoto, teve réplicas na democracia, na economia, na sociedade, na cultura e não estávamos, nem estamos preparados. Mas, se pudermos tolerar, com distanciamento (por enquanto) social, que o façamos. Mais do que sermos nós mesmos, que temos de cuidar com todo o carinho, também somos os outros, e os outros estão em nós.

Sonho que um dia possamos ser melhores, que um dia possamos ser um pouco maiores do que o vício do ódio, e que os sorrisos proliferem.

 

Sara Félix (Aluna do 2.º Ano do Mestrado)

17
Dez20

A Mentira Da Arte

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Vagueio errantemente pela cidade nesta glamorosa tarde de verão. Os pequenos pardais cantam jubilosamente, enquanto o brilho alaranjado do sol começa a dar mostras do seu vigor. O céu pinta o rio com um tom tão resplandecente que não há ave que se prive de, no seu dorso, refletir o brilho azulado da água cristalina. A placidez do ambiente contrasta com o frenesim no qual se encontram todas as pessoas que por mim passam, assemelhando-se a marionetas ambulantes, comandadas por um sujeito constituído por números e ponteiros. A natureza derrama uma lágrima sempre que os relógios não nos permitem admirar a sua beleza, nem que seja por breves instantes. O tic-tac dos relógios transforma os homens em máquinas com momentos específicos para sentir e, quando deixam estes de sentir porque soou um tic-tac a mais, deixam de ser homens. Entre a calçada moída e os sapatos transeuntes, reparo num pedaço de jornal sujo e rasgado. Prontamente o apanho, e nele leio que uma companhia de teatro procura atores para representar Hamlet. Ainda ontem à noite fui o príncipe Hamlet sobre o banco onde costumo pernoitar. O sangue da arte não pode ser menos do que pó das estrelas, é essa a única explicação para que um sem-abrigo se sinta um príncipe através de meras palavras. Caminho até à morada indicada pelo jornal e chego sem dificuldade ao meu destino. A porta está entreaberta. Entro cautelosamente e insiro-me na fila, nem grande nem pequena, que porventura me separa da oportunidade de comer nos próximos dias. Um calor abrasador, motivado tanto pelo clima próprio da época quanto pela aglomeração de gente num espaço exíguo, mancha-me de suor a camisa já amarelada. Chega, enfim, a minha vez. Tento disfarçar o tremor que me percorre as pernas ao contemplar a sumptuosidade do jurado – alto, espadaúdo, de semblante fino e cabelo grisalho. Tem a aparência de um nobre, tanto pela postura altiva como pelo refinado traje, e ainda pelo seu típico e arcaico anel aristocrático. Julga que vou observar a sua investida, pergunta, olhando-me de soslaio. Porque não, retruco, fitando-o. Porque descreio em criaturas míseras, vocifera altivamente, balançando a cabeça para trás num jeito efeminado. Como pode o senhor conjeturar que me incluo nessa categoria, pergunto. Até um olho míope o perceberia, responde com desdém, O menino não passa de um sandeu! Apresentar-se perante mim de pele imunda e vestes esfarrapadas… Pelo amor de Deus! Sabe porventura quem foi o senhor meu avô? Que verme petulante me saiu este plebeu horroroso! Saia-me da frente, não impurifique este chão com os seus pés encardidos! Uma dor surda entranha-se-me no corpo. Sinto-a enraivecida, fitando-me tão intensamente que me despe. Contempla-me sombriamente a alma, penetrando-a de seguida como quem com uma farpa penetra um toiro, afogando-me num tempestuoso inferno. Olho para paredes sujas e rachadas vendo-me. Sinto que cadeiras coxas têm as minhas pernas. Sou uma porta cansada de bater infindavelmente, obrigada por um vento inacabado. Um desespero enlouquecido em mim cresce, no entorpecido e no grotesco me faz ver, me faz sentir. Doente me torna a consciência de que este ódio lancinante me transforma a nobre alma em plebeia. Que consciência tão aterrorizadora quanto as trevas da cave do demónio! Ah, consciência que me tornas fétido! Morre! Morre e contigo leva aquele fidalgo pretensioso! Morre!

Saio e percorro o caminho inverso ao que trilhei para aqui chegar. Por vezes na vida há que voltar atrás, já com a consciência de que uma das frentes é mais retrógrada do que o ponto inicial, e depois intentar percorrer uma trajetória divergente, na esperança de que o destino de tal rumo seja mais clemente. A tarde vai-se metamorfoseando em noite e o céu torna-se ainda mais belo, tal como o ledo cantarolar dos passarocos que esvoaçam dançando à volta do velho banco onde me aconchego, do meu velho banco. Talvez somente granjeie ser o príncipe Hamlet em cima de ti, penso alto. Arrefece de repente, e apenas me mantenho minimamente aquecido porque não me esqueci de trazer as mantas da casa de onde me despojaram. Um homem perde o pai e a herança e já não é ninguém. O seu nome era Jorge, um pequeno comerciante de gado. Trabalhávamos e vivíamos juntos. Era um bonito homem, tanto de pele quanto de caráter, mas tinha um temperamento eminentemente prático. Em fevereiro, a doença que o levou começou a fazer-se sentir cada vez mais intensamente, até que a sua vitalidade declinou por completo e, em poucos meses, morreu. Tentei salvar o que era nosso, mas não fui bem-sucedido. Ao meu inexistente jeito para negócios se uniu uma terrível praga que nos colheu mais de três quartos do gado, e o nosso património foi sepultado. Jamais esquecerei o seu rosto, marcado pela mágoa e encharcado em lágrimas. Viu o seu único filho perder, em quatro meses, o que construíra numa vida. E, ainda assim, entre o estado febril e a agigantada angústia, teve tenacidade bastante para me dizer que não me preocupasse, que iria correr tudo bem porque ainda tinha os meus poemas e o hipotético sustento que eles me trariam. Depois de terem estas palavras saído dos seus lábios, adormeceu para não mais acordar – foi como se contrariasse toda a teoria por si defendida em vida antes do suspiro que o conduziu à morte. Em tempos mostrei-lhe a minha poesia, mas, segundo ele, o trabalho só é trabalho quando dá dinheiro. Provavelmente as suas últimas palavras resultaram de um delírio proveniente da febre que lhe assolou o juízo nos últimos dias, ou então de uma visão divina entre a passagem da tirania dos vivos para a democracia dos mortos – um local maravilhoso e plácido, utópico, visto por Ivan Ilitch, em que cada ser é tão valorizado que o simples vislumbro da sua proximidade dá a um cego vista. Gosto de pensar que as suas palavras foram o efeito dessa contemplação luminosa, mas não creio em ideias quiméricas. Enfim, já vai sendo tarde. Não será fácil que o sono tenha mais força do que a dor, pois embora a insensibilidade do meu pai me magoasse, ele era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo. E eu não gosto de muita gente.

 

André Neves (Aluno do 3.º Ano da Licenciatura)

14
Dez20

Escritores Por Minutos

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Quando era pequena – nesse fascínio de se ser tão pequeno e tudo à nossa volta ser tão grande - questionava-me sobre o como e o porquê de existirem tantos livros e muitos deles tão grandes. Uma recordação interessante da minha infância permanece ainda algures pela casa dos meus pais, um livro com 365 histórias - fábulas mais concretamente, exatamente uma para cada dia do ano. Sempre que tinha oportunidade de o fazer, o meu pai aconchegava os lençóis da minha cama e proferia a história. Eu ouvia atentamente e, pontualmente, fazia algumas questões típicas da idade. Passámos alguns anos nestas leituras e, sem saber bem o porquê, aquela que eu mais gostava de ouvir era A Raposa e o Corvo, de La Fontaine. Desconhecia eu o poder e a mensagem de tais composições literárias. Recordando isto, talvez comece aqui a ser explanada a nostalgia, mas também a saudade, e a forma como eu penso que tudo começou.

Uma imaginação efervescente, horas passadas no chão do quarto a criar histórias com dois ou três brinquedos na minha mão. Não era um ato consciente, mas sei que o fazia com o maior dos prazeres e a máxima satisfação. Acontece que na idade da ingenuidade se é incapaz de escrever uma história com base de lápis e papel e eu, hoje não mais criança, sinto ter dado o meu coração à Literatura e a tudo o que dela advém. Recordo-me de, por volta dos meus 4 ou 5 anos, numas férias em Espanha, ter feito um pedido aos meus pais para comprar uma Banda Desenhada escrita na língua nativa do país. Talvez por teimosia, porque eu não sabia ler. A memória não é clara e pode ela estar a ser deturpada pela necessidade de querer fazer com que tudo pareça bonito, mas tenho vaga ideia de ter aberto o livro e ter imaginado cenários diversos. Sei que o li várias vezes ao longo de vários anos sempre nestas circunstâncias, porque somente anos mais tarde vim a ter clara facilidade na língua de “nuestros hermanos”. Os anos foram passando e, para mal dos meus pecados, hoje já não sou essa criança que criava com avidez e inconsciência um Mundo paralelo no chão do quarto. Existo e tenho consciência disso, é esse o meu peso. Já não me posso deixar fascinar de forma tão leviana sobre o como e o porquê de existirem tantos livros e muitos deles tão grandes. Agora compreendo. As tardes passadas a imaginar cenários diversos existem num passado longínquo que já não posso revisitar, somente deixá-lo materializado através de relatos que vou deixando por aí algures.

Não posso dizer que comecei a escrever com 8 ou 9 anos. Não obstante, posso confirmar que, na escola, nunca tive interesse por matemática, sempre fui terrível com os números e, em separação clara do dia para a noite, caso se tratasse de um livro selecionado pelo Plano Nacional de Leitura, o peso na consciência por não terminar cada uma das suas folhas era nefasto. Tenho uma bonita imagem a pairar no meu pensamento quando recordo a leitura, no meu 2.º ano, d' A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen, ou até mesmo Uma Aventura no Palácio da Pena, de Isabel Alçada, no 4.º ano. No que a este segundo livro respeita, terminada a leitura e o estudo da obra, a minha escola organizou uma visita de estudo ao Palácio e que trágico acontecimento foi, nada daqueles cenários era como eu tinha imaginado. Terminei pontualmente desiludida, mas, ainda assim, apaixonada. Hoje compreendo, a função de um escritor também é a de enaltecer e romantizar os espaços. O escritor cria a história como melhor lhe aprouver, quanto a isso não há possível discussão. Já o leitor, pelo ato que realiza, é coagido pelas linhas e dominado pelo seu próprio pensamento. Tudo isto me deixa com um sorriso desconcertante, mas positivo, no rosto.

Quando comecei a trabalhar nas minhas primeiras linhas mais palpáveis, a súmula foi uma catástrofe e, por consequência, uma desilusão. Aquilo a que vulgarmente se chama de composição. Acontece que não sabia propriamente escrever. Quiçá não tivesse interesse em saber como escrever. Creio já saber como o sentir, mas não havia ainda direta ligação para o exterior. As minhas mãos não tinham ainda encontrado a satisfação do toque da caneta no papel. Evoco que, no meu 5.º ano, decorreu entre turmas uma espécie de desafio de escrita. Nisto, o que de início me pareceu de entusiasmo fácil rapidamente se tornou num pesadelo e numa imensa frustração. O trabalho consistia em observar uma imagem projetada na tela e, a partir dela, desenvolver um breve conto. Até hoje guardo essa gravura em mente. Um velho homem, sentado à lareira, numa casa igualmente velha. No seu todo, o quadro emanava solidão, mas eu estava longe de conhecer o peso da solidão. Nunca tinha sequer ponderado sobre a minha existência – como haveria eu de pensar na de um outro alguém? Lembro-me de ter desperdiçado grande parte do meu tempo a observar o retrato. Nada me parecia sair, tinha um turbilhão de emoções a dominar o meu pensamento, não muito mais do que isso. Que imagem horrível, pensei. Não estava convicta sobre o que deveria ou sobre o poderia escrever. Tive vergonha. No fundo, eu não sabia como escrever, porque estava a racionalizar aquilo que jamais deve ser racionalizado, os sentimentos. Não consegui ser livre.

Era um facto, todo o conjunto do cenário, a personagem, o cão deitado, as achas a arder na fogueira, o rosto e as mãos calejadas pela passagem do tempo e o ambiente em tons de cinza, somente poderiam transmitir ao meu coração uma reação, o melodrama da tristeza. Desconhecia ainda o que poderia vir a ser para mim o melodrama da tristeza. Era nova demais para entender. Quis pintar uma janela consagrada pelo sol e um relógio a apontar a meia-noite, tudo isto na mesma tela. Asneira, óbvio. Insatisfação da professora que tanto queria que os alunos investissem naquele trabalho. Até hoje questiono-me como se pode, um ser adulto, iludir tanto ou mais do que uma criança. Apresentei um texto meio atabalhoado de quem não sabe o que deve sentir, não porque não o sinta, mas antes por ter medo de ser excomungado. Sem comentários de acréscimo, na época, redimi-me procurando esquecer a situação. Anos passados, o que antigamente me sabia a memória desgostosa é agora um ótimo conforto à minha alma. Falhei e é necessário saber falhar. Naquela altura eu não conhecia o prazer conferido pelo ato de escrever. Limitei-me a fazer o que me havia sido ordenado em sala de aula, não tive grande liberdade de escolha. Era isso ou “porta da rua serventia da casa”, como tanto os professores gostavam de enfatizar. Aceitei como isso. Atualmente e ainda muito longe da perfeição, sinto a caneta como um abraço de conforto nas noites vazias, o papel como alguém que me escuta sem juízo de censura e sem devidas cobranças. Gosto de o fazer, tenho necessidade de o fazer, mas ainda bem que existem outros tantos que o fazem tal como eu.

Ao contrário do que se possa pensar, nunca fui, no Ensino Básico, aquilo que se considera realmente um bom aluno. Estava demasiado ocupada a ser rebelde. Somente recém-chegada ao Ensino Secundário me deparei com aquilo que considero ser o bom da Vida. Nele, ingressei em Línguas e Humanidades. Pareceu-me finalmente ter encontrado o campo de repouso para a minha alma e, sem contestação possível, assumi ter um grande defeito. Somente me consigo dedicar de corpo e alma àquilo pelo qual sou realmente apaixonada, o resto deixo para um outro alguém. História, Filosofia, Português e Literatura, estava no céu! Lembro-me, à parte as apresentações orais de Português que eu vivia na base do amor-ódio, que no meu 11.º ano, foi criado um Diário Literário na disciplina de Literatura Portuguesa e eu prontamente enchi cada folha daquele caderno com o tanto que a minha mão me permitiu escrever. Confesso que, para tão pouco tempo e para tal objetivo, talvez tenha escrito demais, mas quando iniciava o ato de escrever tornava-se difícil parar. Entretinha-me, agora com justificação aparente, a conceber short stories e reflexões. Ainda guardo esse caderno de anotações que se tornou numa parte de mim e, por vezes, sou tentada a ler aquilo que escrevi por volta dos meus 15 ou 16 anos somente para confirmar que o tempo passa e que somos efémeros, tudo isto mesmo dentro de nós mesmos. Uma anotação nele contida, à qual eu na altura não soube responder, «Tu, amiga, tens "pinta" de escritora. Agora é continuar.». A esse comentário muitos mais se seguiram de formas e de pessoas diversas. Confesso que precisei de alguma aprovação exterior para ter coragem para escrever de forma mais ousada e casuística. Se nunca ninguém tivesse proferido algumas destas palavras, talvez eu não teria continuado. Talvez ter-me-ia amarrado a correntes que agora me ancorariam a um fundo por mim criado, mas acontece que ainda preciso delas. Se não houver um leitor, alguém que nos aprecie, também não há um escritor. É um facto.

Hoje em dia dedico-me a escrever numa vertente mais oficial, se assim lhe pudermos chamar. Um blog online que conta com um número considerável de leitores, alguns artigos e escritos que me são solicitados e a designação que muito aprecio, mas da qual não me acho ainda merecedora, de Poeta. O primeiro caderno ao qual atribuí um nome específico contém mais de 200 páginas e consiste em breves anotações de quotidiano, uma espécie de diário filosófico-literário. As Crónicas De Um Apelo À Desgraça são a compilação de cerca de 3 anos de vivências com uma abrupta paragem pelo meio. Acontece que durante cerca de 1 ano e uns quantos dias me recusei a escrever. Por vezes penso se não estarei demasiado absorta no Mundo Literário, presa a uma visão utópica e excessivamente romântica da Vida, mas creio não saber viver de outra forma. Corra, talvez, em demasia à procura de um sentido. Como se vê e é de perspetivar, as paixões são, e muito, perigosas. Como diria Charles Bukowski, escritor da Literatura Marginal que eu muito aprecio, “encontra o que mais amas e deixa que isso te mate”. O preço que se paga por se querer viver no limite é alto, mas, em certo modo, compensa. Digo satiricamente, mas de coração cheio, que não é justo que certas passagens me fiquem a ecoar na mente, durante tanto tempo, o tempo todo.

Os livros são corpos disponíveis a serem usados a céu aberto. Não há juízo de censura aparente se qualquer um de nós lhes quiser tocar. De todos os livros pelos quais os meus dedos passaram, sinto um vazio por não poder habitar dentro de alguns deles. Há livros que nos sabem a casa, são eles companheiros que confortam quando o Mundo desaba e caímos por terra prontos para ser sepultados. Sucumbindo à resposta para as questões que mais detesto, quando me interrogam sobre o meu escritor e livro prediletos, não hesito na resposta, mas nego-me a justificações. Fernando Pessoa e o Livro do Desassossego. Um encontro perigoso que não adianta esmiuçar.  Não sei ao certo quando começou tal paixão, mas acredito que Pessoa me roubou o coração, somente não nos cruzámos. E digo-o enfaticamente, mas sempre num tom de troça, porque não deixa de ser verdade, mas também não deixa de ser mentira. Não sei se me identifico com ele ou se quero, por ventura, ser como ele. Talvez me incline mais para a segunda opção, ressalvando, porém, que quero a glória sem me estender ao necessário sacrifício. Das constatações que tenho feito, os grandes sempre têm uma vida pesada e eu não sei bem se quero ser assim. Entre um “Para ser grande, sê inteiro” e um “Dá-me mais vinho, porque a vida é nada”, fico-me por um “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, enquanto “Escrevo triste no meu quarto quieto”.

Voltando ao ponto de partida, mas romanticamente falando, o dia-a-dia de alguém que escreve, resume-se ao ato de abrir o caderno, pegar na caneta e desatar a escrever. Não tenhamos ilusões, o quotidiano de alguém que escreve começa, como o de qualquer outro mortal comum, com o ato de acordar. Nele, há um conteúdo muito idêntico ao de todos os outros seres. Sempre que me perguntam qual é o segredo para escrever bem, não tenho uma fórmula concreta. Não há propriamente um segredo para escrever bem, mas diria que observar os detalhes é já um bom começo. Em seguida, arriscaria dizer que sair da zona de conforto, apesar de perigoso e doloroso, pode ser, em certo modo, útil. Pensar é necessário e, por vezes, pensar dói. E se doer, não tenhamos vergonha de o assumir. Falo espontaneamente e partilho com gente diversa que os melhores escritos que tenho até hoje são fruto dos períodos mais complicados que me foram surgindo em vida. Não é necessário entrar no campo do sadomasoquismo, é uma questão de gestão e aproveitamento de bens. Se a dor veio e se instalou, porque não tentar fazer algo de bonito com ela? Em modesta opinião, é assim que se diferencia um mortal comum de um Poeta. E o que é um Poeta? Sorrio e não vou responder.

Um bom escritor, tal como muitos defendem, é também um bom leitor. Pessoalmente, estou absolutamente de acordo. Por gentileza, afirmo que de nada servirá, após receber tal informação, ir desenfreadamente ler todos os livros que se encontrem na prateleira. Um livro deve ser lido com prazer e por prazer. Da Literatura que mais aprecio e também aquela que melhor domino, não acredito que existam maus livros, há sim maus leitores. Há de tudo e para tudo. Se há má Literatura, isso é já outra questão. Contra mim falo, já selecionei livros em completa êxtase e ao fim de 20 páginas estava cansada e dominada por um aborrecimento extremo. Assim fiz, arrumei tudo a um canto, deixei muitos livros parados por alguns anos. Confesso e sou sincera, alguns deles ainda lá continuam, mas outros tantos souberam-me tão bem depois de os terminar. Há males que vêm por bem, não era a altura certa. Neste seguimento, de todos os livros que terminei, não posso dizer - e mentiria se o fizesse - que todos eles me tenham deixado ávida memória. Há livros que se espetam como facas no peito, doem ao se ler, outros são como que uma carícia na face e nas costas, outros um pouco indiferentes, um tanto faz. Temos de tudo. No fundo e ponderando bem, os livros são um pouco como as pessoas. Tenho preferência por livros que exacerbam a paixão pela Vida – ainda que o seja de forma dolorosa - e aqueles que mais me dão satisfação são os que termino com um sorriso parvo no rosto. Mais acrescento que um livro sem anotações e sem um único sublinhado não é verdadeiramente um livro usado.

Em relato próprio, confirmo que os escritores são fruto da Noite. Somente não sei o que nasceu primeiro, se a Noite para os Poetas, se os Poetas para a Noite. Em todo o caso, o clichê de uma sala escura somente a meia-luz, um cigarro e um copo sobre a secretária, criam para mim esse Homem fruto de uma outra Humanidade. O cenário idílico e perfeito onde se encaixa o clímax. Como tudo o que tem um lado bom tem também um lado mau, o ato de escrever é um ato solitário, bastante solitário em boa verdade. Passo muitas horas sozinha, deve ser por isso que escrevo tanto e sempre que digo isto junto-lhe um riso nervoso à mistura. É uma dissonância entre aquilo que eu quero que seja, aquilo que é e aquilo que deveria ser. Não sei bem explicar onde e como se enraizou essa minha necessidade de escrita. Não tenho agenda nem calendário. De quando em vez, algo me chama e perco uns minutos ou umas horas para escrever. Não dou pelo tempo a passar. Não vou dizer que tudo é fruto de inspiração divina, seria tola se o fizesse. As coisas acontecem e eu relato-as mais ou menos adulteradas consoante a minha capacidade de brincar com as palavras nesse dia. Talvez seja isso, brincar com as palavras... Mas tudo o que fazemos tem o seu retorno e sou eu também vítima delas. Talvez muito mais do que o contrário. E isto acontece porque há uma subdimensão onde eu passo de relatar ou refletir o que se passou para imaginar e escrever o como poderia ter sido.

Não é nem nunca foi uma escolha, mas também nunca me esforcei o suficiente para o contrariar. Escrever é uma forma de criar a realidade, reinventá-la, tornar o Mundo num lugar mais tolerável. Um Homem sem questões estará sempre mais longe de se autoconhecer do que um Homem que se questiona. A súmula, no fim, é, no entanto, a mesma, nunca nos conheceremos a nós mesmos, mas, nessa busca, podemos sempre deixar algo de aprazível para memória póstuma. Escrevo essencialmente por mim e para mim, partilho publicamente talvez menos da metade de 1/4 daquilo que escrevo. Não é assim tanto, não criemos grandes expetativas ou ilusões. Para poder escrever temos também que ter espaço para viver. Nunca o contrário e isto porque a Vida é muito mais fácil quando não é encenada. Há tempos atrás, encontrei em anotações antigas e deixo para terminar, Escreve o que vives, não vivas o que escreves. É surreal como aquilo que fomos nem sempre condiz com aquilo que seremos. Interessante. Deixo-vos, agora, tentar.

 

Sofia Estopa (Aluna do 4.º Ano da Licenciatura e Diretora do Jur.nal)

10
Dez20

Bebi Para Te Tirar Da Cabeça. Agora, Restam Garrafas Vazias E Tu, Ainda Cá Estás

Jur.nal

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"Alone", de Edmund Dulac

 

Tenho por companhia,

Nas horas infinitas,

Canções de amor,

Trágicas mas bonitas.

Versos de ódio, raiva, dor e traição

Assim vou bebendo

Deste cocktail de depressão.

Talvez um dia faça uma festa,

Com os desconhecidos que me são mais chegados

Cantamos e dançamos,

Até cair de embriagados.

De manhã,

De novo sozinho,

Mal abro os olhos.

Maldito ultimo copo de vinho.

Bebi para te tirar da cabeça

Agora, restam garrafas vazias,

E tu, ainda cá estás,

Mas talvez um dia isso aconteça.

 

Daniel Seabra (Convidado do Jur.nal)

07
Dez20

Sobre A Identidade Marítima Portuguesa

Jur.nal

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Navio-escola Sagres

 

O conceito de identidade marítima, ou o cada vez mais divulgado conceito de maritimidade, não se afiguram de fácil circunscrição. Talvez se possa, no entanto, assinalar, mobilizando vários saberes (desde a teoria geral do Estado à antropologia cultural, passando pela geopolítica), que as referidas noções são suscetíveis de nos remeter para a eventual centralidade ou importância do mar em distintas “dimensões” da existência humana:

i) No chamado elemento territorial da comunidade política (no qual o nexo entre o direito e o mar é especialmente visível, em sede de definição jurídica da projeção jurisdicional espacial do Estado).

ii) Na forma de vida ou no modo de vida, no plano da cultura ou das configurações culturais, em termos de manifestações materiais ou imateriais.

iii) Num de plano de autoconsciência comunitária (eminentemente ou superlativamente) reflexiva.

De um ângulo holístico, dir-se-ia, colhendo inspiração no pensamento do famoso jurista alemão Carl Schmitt (designadamente num conhecido livro de 1942 – Terra e Mar), que a ordem humana se determina fundamentalmente ou por uma intencionalidade terrestre ou por uma intencionalidade marítima; tendo as ordens concretas de relevância histórico-mundial sido ordens de vocação terrestre ou ordens de vocação marítima.

Chamando à colação os mencionados vetores analíticos, a multissecular vida social e política portuguesa aparecer-nos-á como eivada ou mesmo saturada de maritimidade. Sublinhemos apenas alguns dos aspetos mais notórios.

i) Ao processo de fundação e edificação do Estado português esteve, desde logo, subjacente um dinamismo atlântico [de que foram partes e parcelas: a dinâmica centrípeta ao redor de Lisboa; a montagem de uma marinha e adoção de tecnologias marítimas – também jurídicas (seguros); o estabelecimento de ligações a Inglaterra e ao Norte da Europa (e também a Aragão, um Estado com vocação marítima).

ii) À especifica posição geopolítica portuguesa, «onde a terra se acaba e o mar começa» (como se lê nos Lusíadas), e sua interiorização pelas elites, não foi estranho o “natural” movimento de expansão extraeuropeia que acompanhou a consolidação da independência («cá nós de uma parte nos cerca do mar e da outra temos muro no Reino de Castela», parafraseando Gomes Eanes de Zurara).

iii) O (primeiro) Império luso definiu-se como Império Marítimo, replicando a estrutura seminal da talassocracia fenícia [como tem sido recentemente sustentado (José Manuel Marques).

Juntamente com os espanhóis, os portugueses chegariam inclusivamente a ousar definir o Nomos do mundo por uma fronteira no mar (a tal que – como foi celebremente assinalado – se não encontrava anunciada no testamento de Adão).

iv) As posteriores territorializações imperiais (Goa, Brasil, o último império africano) constituíram territorializações de derivação marítima (a partir do litoral e nele baseadas); mantendo ainda hoje os Estados lusófonos uma tal matriz.

v) Na/da expansão imperial, emergiram culturas (sincréticas) focadas no mar: em Goa, nas ilhas atlânticas, em Macau, em Timor…(de tais particularidades se mostram hoje bastante conscientes as reflexões sobre certas identidades nacionais lusófonas – v.g., a cabo-verdiana – ou autonómicas lusas – a açoriana, por ex.).

vi) O mar permeou sempre o imaginário, designadamente literário, e as práticas culturais dos portugueses (desde as cantigas de amigo, passando por Luís de Camões, até Pessoa e Sofia de Mello Breyner). E a sua presença foi e é também visível no plano dos símbolos do corpo político – desde os brasões de armas (esfera armilar, do Venturoso à República, passando pelo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e pelo Império Brasileiro) a acabar no hino.

A referência ao mar tem sido, claramente, uma constante e uma linha de força na construção e na identificação da comunidade portuguesa.

Olhando para o presente e tentando vislumbrar o futuro, o (“nosso”) mar parece revelar-se fator de reconstrução estatal e nacional numa/para uma nova fase pós-imperial.

O advento da III.ª República significou, é certo, um processo de «desmaritimização» (o voltar de costas ao mar salientado por vários autores). A estrutura profunda da comunidade, porém, resistiu e reafirmar-se-ia: daí uma certa «remaritimização» em curso nas últimas décadas (O sugestivo par «desmaritimização»/«remaritimização», que aqui reproduzo, foi inventado em aula, em cadeira sobre estas temáticas que me foi dado reger, por um ex-aluno - Gonçalo Pereira). Um processo que vem ganhando ímpeto – embora nem sempre a devida efetivação – desde que a expo 98 rememorou a abertura da «Era Gâmica» (a qual terá forjado o regime de globalização que, em várias versões, passou a ordenar ou desordenar o planeta).

Seja como for, a expansão do “território” marítimo português (cristalização da zona económica exclusiva – ZEE – e potencial alargamento da plataforma continental) contribuirá, desejavelmente, para reforçar a viabilidade material e geopolítica de uma vida política independente. Para além disso, poderá vir a ser fator de “desconfinamento” mental e ponto de apoio para uma reelaboração identitária representando Portugal como grande país euro-atlântico e, nisso e por isso, ator global.

Será, porventura, em termos da partilha de uma similar configuração marítima, de uma comum maritimidade (todos os países lusófonos sendo países marítimos), que se há de consolidar a Irmandade de/entre Povos que o português forjou.

 

 Pedro Velez (Convidado do Jur.nal)

 

03
Dez20

Solidão Musa

Jur.nal

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Foto: Sasha Freemind

 

Faço da arte a minha musa

Pronto, para mais uma vez ficar sem ela

Não sei sair desta fase. Mas qual frase? É só balela.

Estou artilhado de fatos!

Enquanto o corpo queima, queima a tela

Sinto o espírito putrefato

Arde chama, arde nela.

Já esqueci o teu tato

Perdi o teu contacto

Felicidade, onde andas?

Volta pra fazer de mim parvo.

Faz de mim bardo e renasce o meu coração parado

Parte a minha guitarra

Rasga o meu contrato.

E em todo lado onde eu passo

Máscaras caracterizadas sem seres humanos

A vitalidade chama-me vírus, a virilidade já foi aos anos.

E agora perco-me

Com o meu reflexo no fundo do copo

Pálido com olheiras de vampiro

Cada vez me sinto mais louco

Talvez sim, talvez são

Quem sabe? Eu não

Chega o fim e ainda não sinto

Cheiro as cinzas que penumbram na solidão.

Vejo os vultos, vejo tudo

Tenho Omni-impotência como decoração

A minha árvore de Natal é morta

E brota, uma última semente de salvação.

Não!

 

O Poeta Depressivo, Pseudónimo de Igor Oliveira (Convidado do Jur.nal)

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