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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

30
Nov20

Falsa Solidariedade

Jur.nal

Fonte: News.bitcoin.com

 

O surgimento das redes sociais permitiu às empresas aproximarem-se não só dos seus clientes como também de todos os consumidores e do público em geral. As técnicas de marketing foram evoluindo e adaptando-se a esta nova realidade que se tornou indispensável para as empresas, revelando uma forte aposta no meio digital em detrimento das campanhas publicitárias mais triviais: os cartazes deram lugar a vídeos no Youtube, os anúncios na rádio deram lugar a campanhas interativas no Instagram, os folhetos dos hipermercados deram lugar a campanhas interativas no Facebook, e por aí adiante.

É nesta realidade que surge a falsa solidariedade: marketing disfarçado de responsabilidade social das empresas. Este tipo de marketing surge com o objetivo de espalhar a sua imagem, marca e produtos através de uma mensagem de solidariedade, aproveitando o sentimento de descontentamento social ou de repulsa face a uma situação objetivamente injusta ou desagradável. Estas mensagens são muitas vezes classificadas como “ativismo de marca” por se tornar cada vez mais frequente as marcas fazerem declarações políticas, sociais e ambientais quando esse assunto tem mediatismo, mesmo quando não colocam em prática aquilo que elas próprias estão a defender. São vários os exemplos e várias as situações em que isto acontece. Em maio de 2019, com a morte de George Floyd às mãos da polícia de Minneapolis, foram várias as empresas que demonstraram falsa solidariedade: a Target (uma das maiores cadeias de hipermercados) “jura enfrentar a dor da discriminação”, quando vários ex-empregados processam a empresa por terem sido despedidos com base neste mesmo tipo de discriminação; a L’Oreal fez várias publicações nas redes sociais a dizer que “falar alto vale a pena” quando em 2017 retirou a modelo Munroe Bergdorf de uma campanha publicitária por expor situações de racismo e supremacia branca; a Microsoft criticou o racismo sistémico e a falta de oportunidades laborais dadas a pessoas negras quando estas representam menos de 4,4% de todos os trabalhadores da empresa. Muito recentemente uma empresa lançou uma campanha no Instagram em que publicou um vídeo emocional sobre bebés prematuros. Nesse vídeo refere que, por cada partilha, efetua uma doação de 1€ a uma IPSS de bebés prematuros, até um máximo de 10.000€. À primeira vista parece uma ótima iniciativa que não tem nada de criticável, mas que rapidamente se torna questionável quando se faz uma análise crítica. Aquilo que a empresa em questão procura é estar nas bocas das pessoas: ter partilhas, pôr toda a gente a falar sobre o assunto e mostrar que é uma empresa que se preocupa com as causas sociais ao doar um determinado valor monetário. Esta falsa boa vontade torna-se óbvia quando se percebe que a doação tem um valor limite, valor este que fora calculado anteriormente com o objetivo de ser um número que teria impacto nos sentimentos das pessoas e que ainda assim ficasse mais barato do que se fosse gasto em campanhas de marketing e publicidade para atingir o mesmo número de pessoas. Ora, se esta campanha não fosse um sucesso, as perdas seriam reduzidas pois o número de partilhas seria pequeno. Sendo um sucesso, atingiria um grande número de pessoas com um custo reduzido. Será que esta campanha terá sido feita com o objetivo de realmente ajudar uma instituição ou foi feita para pôr as pessoas a falar disso? Poderá dizer-se que não houve interesses económicos quando existe um limite ao valor da doação? Até quando é que vamos continuar a bater palmas a empresas que não fazem mais do que cumprir a sua “responsabilidade social”? Independentemente da doação em si ser bom e louvável, é tudo aquilo que está por trás disso e o puro interesse económico que torna essa atitude criticável.

Enquanto consumidores e enquanto cidadãos não nos devemos deixar manipular pela falsa solidariedade das campanhas de marketing feitas por empresas como esta, que faz uma doação de 10 mil euros e é amplamente aplaudida, ao mesmo tempo que faz parte de um grupo económico que tem um valor estimado em 230 mil milhões de euros, que, para contexto, é maior que o PIB do Luxemburgo, Costa Rica, Sérvia e Azerbaijão juntos.

 

Eduardo Matos (Aluno do 1.º Ano do Mestrado)

26
Nov20

Lágrimas Escarlate

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Nem todas as mulheres menstruam, nem todas podem gerar uma vida, mas lá por uma mulher não ter menstruação não significa que não sinta dor. As mulheres trans - como eu - sentem a dor de outra forma, uma dor na essência da sua alma por não poderem sangrar. Fui inspirada por parte de uma grande amiga que trabalha muito em torno do sangue feminino criando pensos reutilizáveis e amigos do ambiente a escrever este poema, pois nem todas as mulheres sangram, mas não será por isso que deixam de ser mulheres.

 

Sou uma mulher que pode sonhar,

Contudo uma mulher que não pode menstruar.

Meu sangue é prisioneiro de uma vontade desconhecida,

Jamais pode sair a não ser por uma ferida.

Meu corpo não é a lua que muda a cada fase,

Está sempre estagnado à espera que o tempo passe.

Apesar de tudo ainda assim possui luz,

Mesmo sem útero meu sangue é de Vénus.

 

Sou uma mulher sem rosas no seu interior,

Que não verte lágrimas escarlate com dor.

Meu sangue não escorre mas serei sempre mulher,

Embora sem âmago para preencher.

Por vezes sinto o pesar desta contradição,

Por não poder gerar um novo coração.

Mesmo não tendo útero minha alma chora,

Pela vontade de viver sem ser como espectadora.

 

 Venus Aura, Pseudónimo de Filipa Leonor (Convidada do Jur.nal)

23
Nov20

O Aporismo De Hollywood

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

O Homem evoluiu, de tal forma, que é o ser mais mais avançado no Mundo. De certa forma… As características animalescas que anos de evolução poderiam apagar, ficaram apenas reprimidas, e a Humanidade, volta e meia, vê que elas se revelam em certos indivíduos manifestando choque no rosto dos restantes. Até que isto não é um problema, ou sendo, não é um que faça mossa global, a não ser quando são várias pequenas acções que juntas põe em causa a saúde do Mundo e quando há uma maioria de indivíduos que se comporta como se desconhecessem o significado de sociedade. E o que é uma sociedade? Segundo uma amiga socióloga, pode ser definida como “um conjunto de indivíduos, sujeitos a uma organização social, regras e leis, favorecendo a relação e interação mútua”. Porém isto é na teoria, porque na prática o individualismo e o facilitismo são mais observáveis. Até poderia também entrar pela falta de respeito, civismo e valores morais que imperam na sociedade, mas isso tem muito pano para mangas e não está na essência deste texto essa contextualização.

Na maioria, as pessoas tendem (e contra mim falo) a preferir cultivarem-se com coisas sem utilidade. Ou melhor, a não se cultivarem, porque na verdade, espremendo a laranja saem no máximo um par de gotas de sumo… No fim, sobram a casca e restos da polpa e sementes nem vê-las! Quando ando de transportes públicos, mais rapidamente salta à vista uma mulher agarrada a um livro, um caderno, um instrumento ou uma máquina fotográfica, do que uma mulher de minissaia com telemóvel nas mãos ou a tirar selfies. Não há propósito na maioria das coisas que nos interessam a não ser um entretenimento básico e fútil, sem Cultura, sem Arte, sem Visão, sem utilidade futura, sem benefício para a Humanidade. É a banalidade da Vida feita pela Humanidade cada vez mais banal. Enquanto poderíamos pegar num livro para ler pegamos no comando para entretermo-nos. Da mesma forma nos entretêm as redes sociais - ainda agora estava eu perdido sobre efeitos da procrastinação, agarrado ao telemóvel quando o decidi deixar para acabar este texto já começado há mais de uma semana sobre o mesmo efeito que ressoa há mais de uma semana… - pela sua banalidade e futilidade, o facilitismo de ter e estar. Mentiria se dissesse que não sou fã das mesmas, acredito que sejam uma boa ferramenta de informação e como entretenimento breve, o mal está quando não é breve e ficamos expostos a informação que não é boa e expostos a quem nessas redes só demonstra a sua futilidade, falta de valores e falhas suas, de inteligência e de informação, porque “eu bem sei como é!”

Para todos os que consomem filmes, séries, animes ou outro qualquer tipo de entretenimento do grande ou dos pequenos ecrãs, uma crise como aquela que atravessa a Humanidade vem com um toque de déjà vu. Envolve-nos uma sensação familiar mas nunca vivida. É nos tão familiar as catástrofes e desgraças que se abatem sobre o ser humano que, ao ver algo similar na vida real, faz com que venha à superfície o pânico de que tome as proporções que vimos daquele filme num domingo à tarde, em que o mundo ia acabar, e nos descansados no sofá com uma manta sobre o corpo. Resultado, uma corrida para obtenção de bens essenciais na premissa do “antes eles que eu”. Essas pessoas pensam só no seu umbigo e no dos que lhes são queridos. “Antes que acabe a comida para os outros do que a mim”, ao invés de pensar que, numa racionalização dos bens, todos sofremos mas todos sobrevivemos (ou pelo menos a maioria), sem gerar conflitos desnecessários. É pensar que numa escala de destruição da Humanidade, é preferível que seja cada um por si, muitas vezes, em luta contra aqueles que em tempos chamamos de amigos ou até familiares… Não o ponho de lado, há seres humanos que podem ir bem longe… Reverter isto e este pensamento? Mudar essas mentalidades? É um problema quiçá sem solução… Já fomos tão expostos a uma realidade do imaginário, que tê-la aqui tão perto, faz agir em conformidade com o geral daquela população. A televisão é perigosa no seu entretenimento, para tanto em que nos ajuda tem uma parte maior que nos molda com formas que não deveriam ser naturais.

Somos bombardeados por informação que não conseguimos processar. Quando não a processamos, interpretamos ou sobre a mesma não procuramos informação complementar, acabamos por erroneamente transmiti-la a outros, surgindo um grupo de pessoas com factos trocados e informação errada a achar que aquilo que lhes foi pregado é o correcto. Há tanta facilidade de obter informação, inclusive pelas redes sociais, e a Humanidade tende a ficar menos informada, inteligente e curiosa… Aquilo que tantos lêem nas redes sociais e tomam como certo, partilhando com outros, leva a uma desinformação numa escala maior, e claro está, aqueles que não fazem por querer saber mais ou que não estudaram sobre os factos tomam-nos como certos. Pior nisto são os que vivem numa bolha, criada por si com a informação que lhes foi dada (por vezes em anos de escolaridade ou sabedoria popular (a qual não estou a criticar e dela retiro muito), e quando surgem novas ideias ou provas de que essa informação foi lhes mesmo dada erroneamente, ficam na sua bolha, tomando aquelas verdades como definitivas porque foi isso que lhes foi dito, como se a obtenção de informação nova com provas claras, pesquisas pela Internet ou leitura de livros, dissertações ou teses fosse a desaprendizagem. “Mudam-se os tempos mudam-se as verdades”, a Humanidade evolui, com os tempos teorias são construídas, reconstruidas e até destruídas e isso só tem de positivo por ser aprendizagem que nos molda. Constante moldagem, dos tempos, da Humanidade e nossa pessoalmente advém do estudo pela obtenção de informação, depois o seu processamento para conclusões plausíveis. 

A realidade que vivemos todos os dias é a mesma realidade para todos, havendo realidades diferentes na vivência dela. Contudo, quando a mesma realidade que nos é mútua é vivida e interpretada sem conhecimento, ou dela quando é fruto de desinformação, venha ela de onde vier, é notória a ignorância que teima em existir na Humanidade. O conhecimento empírico, o estudo, a Arte e a Cultura, até alguma sabedoria popular e aprendida são imperativos para o sucesso e é delas que aprendemos. Aprendizagem leva a uma evolução, mas a exposição aos males descritos, com o consumo único do que nos ecrãs é mostrado e pelo que Hollywood ficcionou, impulsiona-nos para uma mútua realidade humana desumana.

 

Fábio Costa (Colaborador do Jur.nal)

19
Nov20

Amor

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

Amor,

Belo é belo,

Alguém o será mais.

Narizes lindos e dentes perfeitos

Superar-se-ão uns aos outros;

Em mil e um incríveis rostos.

 

Amor,

Sexo é sexo, e é certo,

Que ambos o iremos fazer.

Melhor ou pior, hoje ou depois.

Não haverá sensação de prazer

Eternamente exclusiva aos dois.

 

Amor,

Tempo é só tempo,

Mais ou menos meses.

Uma mera sucessão de vezes,

Que decidimos ir contando.

De nada nos valerá esgotando.

 

Amor,

Memórias são memórias,

Falíveis e finitas histórias.

Morto quem as vivia,

O seu registo é simples,

Taxidermia.

 

Amor,

Palavras são só palavras.

Não foram por nós inventadas.

Mesmo quando, formando bonitos poemas,

No fim, serão sempre e apenas:

Esquecidas passagens de nada.

 

Amor,

Amor é amor e pouco mais.

 

Talvez...um entendimento mútuo n'algo inteiramente indecifrável.

 

André Carmona (Colaborador do Jur.nal e Alumnus da Nova School of Law)

16
Nov20

Uma Vitória Pírrica

Jur.nal
125431088_640951743267898_5730365392621452015_n.jpAndrew Harnik/Associated Press

 

Há uns tempos, escrevi para o Jur.nal sobre a eleição nos Estados Unidos da América, retratando ambos os candidatos de uma forma negativa, embora por diferentes razões. Ao conquistar os tão desejados 20 votos eleitorais do estado da Pennsylvania, após quatro dias de antecipação e de resultados renhidos, Joe Biden mostrou-se vitorioso e será, em princípio, o 46º Presidente dos Estados Unidos da América.

As celebrações foram muitas e as redes sociais não foram poupadas de exaltações ao novo líder do mundo livre, que graciosamente apelou à paciência e à calma dos seus apoiantes enquanto os resultados ainda não eram definitivos. Em contraste com Donald Trump, que declarou a vitória poucas horas depois da contagem dos votos ter começado, Biden mostrou-se confiante e sereno, com cara de quem nasceu para ser Presidente.

A verdade é que Biden sempre conseguiu amenizar e tranquilizar as ansiedades do povo norte-americano. Já em 2008, serviu como contrapeso à imagem de Barack Obama, de forma a preservar um voto democrata mais conservador e menos entusiasmado com as mudanças que o primeiro Presidente afro-americano apregoava e que, infelizmente, não concretizou.

Agora, Biden é quem vai estar à frente do país e os democratas não podiam estar mais radiantes. E quem é que os pode culpar? Nos últimos 4 anos, os Estados Unidos da América foram governados por um homem que em tudo representava a antítese da sua visão de um líder. Um homem que vendia mentiras, agia infantilmente e comportava-se como um javardo. E que, ainda por mais, tinha um orgulho infindável em si mesmo, não tendo vergonha de mostrar quem realmente era. Talvez era essa honestidade, superficial e quase acidental (por vezes muito bem orquestrada), que os democratas mais invejavam.

Biden não tem essa qualidade. Aliás, muito poucos políticos a têm, pois passam a vida a construir uma imagem cuidadosamente elaborada. Para todos os efeitos, Biden é um político muito bem construído, representando o papel de moderado à risca, escondendo os esqueletos do seu passado por detrás da sua máscara. Por sua vez, Trump não tinha vergonha dos seus esqueletos. Aliás, muitas vezes os passeava na praça pública, o que era refrescante à primeira vista, se bem que perturbador a um segundo olhar.

No entanto, não são os esqueletos que me interessam, até porque já falei deles no meu último artigo. O que me interessa é a máscara: a decência. O ponto comum de todas as celebrações que tenho visto é a ideia de que a decência regressou, o que é totalmente justo. Trump era orgulhosamente indecente. Por isso, não admira que o retorno desta qualidade tão insonsa acabasse por ser um sinal de alívio. Finalmente podemos todos dormir melhor sabendo que o Presidente dos Estados Unidos da América é, pelo menos, decente.

Mas será Biden verdadeiramente decente? Tenho as minhas dúvidas. É inegável que se apresenta de forma decente. Mas será que um historial de contacto sexual a roçar no abuso sexual é decente? Será que o apoio a guerras intermináveis é decente? Será que uma longa carreira política a defender o status quo na justiça criminal é decente?  Cabe aos seus apoiantes responder.

Para muitos, a resposta será sim. Todos os políticos são assombrados por ossadas do seu passado e a decência é apenas um mínimo de compostura. Até costuma-se ouvir que sim, Biden fez isto tudo, mas pelo menos foi decente a fazê-lo. Pelo menos comportou-se bem. Pelo menos não foi, nem será, Donald Trump.

Na realidade, este apelo à decência não passa de um conformismo. Olhando para o seu currículo, não há muita coisa de bom que se possa dizer de Biden para além de que é um homem decente. Ao fim do dia, é uma forma dos seus apoiantes se sentirem bem com um Presidente que sabem ser uma má escolha. A escolha do conformismo político.

Este conformismo é evidente na sua agenda política. É um plano pouco concreto, pouco ambicioso e pouco inovador, mantendo-se nas linhas moderadas de um partido vazio e sem-rumo, com cada vez mais divisão interna. E, mesmo sendo verdade que conseguiu o apoio de uma Vice-Presidente que se mostra mais aberta à ala progressiva do Partido Democrata, Kamala Harris também tem uma longa história com bastantes esqueletos difíceis de esconder, como as vítimas da sua carreira controversa como Procuradora da Justiça.

É por causa deste conformismo que esta vitória é, no mínimo, pírrica. Sim, Trump saiu e nem vou dignificar a suas tentativas de reclamar a eleição através de alegações absurdas com um comentário (apenas digo que é muito on brand da sua parte). No entanto, não há muito mais para celebrar. Joe Biden não é um bom candidato e não será um bom Presidente.

Aliás, tal é visível nos próprios resultados das eleições. No ano em que concorria com o Presidente menos popular e mais controverso da história recente dos Estados Unidos da América, Biden nem conseguiu alcançar um mandato particularmente forte, perdendo em estados onde tinha grande manobra para ganhar. Até me atrevo a dizer que esta vitória nem foi uma derrota para os republicanos, que deverão manter o Senado e que ficam com o Supremo Tribunal mais conservador da história.

Com um Congresso entalado e com um poder judicial estacionado à direita, Biden fica com as mãos atadas, sendo possível que a sua visão antiquada e poeirenta para o país nem se venha a concretizar. Sei que uma das qualidades do Presidente-eleito é a sua capacidade para construir pontes entre os republicanos e os democratas, mas será que estas pontes são desejáveis? Especialmente com o partido Republicano impertinente, controlador e sem escrúpulos de Mitch McConnell?

Podem não ser desejáveis, mas serão essenciais para uma recuperação económica que, com um Congresso dividido, dificilmente será conseguida sem enormes sacrifícios políticos. E, embora não tenha dúvidas de que Biden está mais apto do que Trump para liderar em plena crise COVID-19, estou cético quanto à sua capacidade de se manter firme perante o partido Republicano dos cortes na Saúde e da hands-off approach à contenção da epidemia.

Estou igualmente cético quanto ao seu governo que, lendo as previsões, parece que vai ser composto de pessoal reciclado da antiga administração Obama, com uns republicanos misturados para manter o Senado feliz. Tendo em conta a sua veia bipartidária, Biden até os misturará de bom agrado e os seus apoiantes aplaudirão a “ponte” construída.

Enfim, pode-se dizer que tenho bastantes dúvidas quanto à presidência de Biden que, muito provavelmente, será uma desilusão. Uma desilusão que apenas servirá de transição para uma presidência de Kamala Harris ou de um republicano qualquer que consiga galvanizar o eleitorado em 2024 (o que, face a uma administração Biden, não deverá ser muito desafiante).

Tudo considerado, estamos perante uma vitória pírrica. Trump saiu da Casa Branca, mas a que custo? O custo é Biden. O custo é uma presidência que será um curto fiasco com consequências duradouras. Agora, será que os Estados Unidos consegue suportar esse custo? Ainda estamos para ver. Uma coisa é certa: a decência voltou à Casa Branca, valha o que valer.

13
Nov20

O Velho Louco

Jur.nal

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"Homeless veteran" de Craig Nelson (2017)

 

Daquela boca imunda e seca com dentes corroídos e pintados de tons amarelos e castanhos saiam graves e altas gargalhadas. O velho tinha um brilho louco e pervertido nos seus olhos azuis que cintilavam sempre que ele se ria. As gargalhadas eram doentias e soavam em simultâneo com o ressaltar e repique metálico que as moedas de um, dois e cinco cêntimos faziam. Ele abria agora outro saquinho de plástico sujo cheio das mesmas moedas que atirava sozinhas, aos pares e aos trios para a caixa. A funcionária contorcia o nariz com repugnância do velho louco e das suas moedas. Quanto mais elas ecoavam o seu som metálico pelo supermercado, mais o homem se ria com a cara contorcida em desprezo e dor. As suas roupas emanavam o cheiro da miséria e da doença e os seus cabelos e barba eram tão longos quanto sujos e oleosos. Ninguém ousava olhar diretamente para ele. As pessoas na fila contavam os segundos e minutos enquanto a funcionária fazia o seu melhor esforço para pegar e contar as moedas. Para os olhos que testemunharam, este foi talvez um momento de loucura, de desconforto, de maldade. Mas talvez, para aquele velho louco foi um momento de vitória, a sua maior vingança. Talvez não tenha sido a rua, a miséria, a doença ou o álcool que o fizeram louco. Foi, talvez, o repicar insuportável das moedas que o miserável ouve sempre que uma mão sem alma lhe dá esmola. A sua salvação e a sua humilhação.

 

Beatriz Moniz (Aluna do 3.º Ano da Licenciatura)

09
Nov20

A Nobreza Do Sacrifício

Jur.nal

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O Mito de Sísifo

 

Certamente que, pelo menos uma vez na vida, já toda a gente se deparou com as perguntas “O que queres ser quando fores grande?” ou “Qual é o teu trabalho de sonho?”. Há 10 anos respondi que queria ser astronauta e explorar o espaço, há 5 decidi que queria ser cantora e percorrer o mundo, hoje, aos 19, o conceito de “trabalho de sonho” deixa-me depressiva.

A ideia de que a nossa ocupação é o nosso único propósito não é recente e já há muito tempo que se romantiza a ideia de trabalhar. Desde sempre que oiço os meus avós a perguntar: mas, ó Ana, afinal o que é que queres ser?

O que é que eu quero ser? Eu quero ser muitas coisas, e obviamente que, ainda que correndo o risco de cair no ordinário, a primeira coisa que me vem à cabeça, é que quero ser, acima de tudo, feliz. Depois penso duas vezes na intenção da questão e percebo que eles não estão a perguntar o que é que eu quero ser, eles estão a perguntar o que é que eu quero fazer, e a assumir que são uma e a mesma coisa - aquilo que eu quero ser e fazer são indissociáveis.

Tendo em conta o contexto histórico e cultural em que os meus avós cresceram, eu consigo compreender porque é que eles creem que a minha ocupação vai ser o meu principal traço de personalidade. Consigo compreender que muitos anos a viver numa ditadura e uma pouca escolarização (derivada do facto de pertencerem a uma classe baixa) os fez acreditar que, para conseguirem condições mínimas e dignas para viver, devem dar o corpo ao manifesto e abdicar de todos os prazeres e “luxos” que os satisfaçam, a fim de poderem dedicar todo o seu tempo, energia e disponibilidade mental ao trabalho. Consigo compreender que eles um dia foram o seu trabalho.

Depois dos meus avós, vieram os meus pais, com o dobro das oportunidades. Era expectável que trabalhar já não fosse visto como um sonho e que houvesse agora lugar para as pequenas coisas da vida que os satisfizessem a curto prazo, como ir ao cinema ou jantar fora de vez em quando. Mas uma das histórias que mais oiço a minha mãe contar sempre que se fala em investir no futuro, é sobre quando ela se licenciou e começou a trabalhar aos 21 anos mas, como queria muito comprar uma casa, abdicou de comprar roupa durante pelo menos 2 anos. Não escolheu deixar de comprar roupa porque não precisava dela, ou simplesmente porque quis deixar de o fazer de livre vontade, escolheu deixar de comprar roupa porque precisava de um teto para viver. Proporcional, portanto. Apesar de ser surreal, na altura ela olhava para aquilo como um sacrifício absolutamente necessário para chegar mais longe e foi muito elogiada pelo investimento. Atualmente, quando lhe pergunto se o que poupou fez uma grande diferença no momento de pagar a casa, encolhe os ombros e diz que se deixou levar pela romantização do trabalho e do sacrifício.

Gostava de poder dizer que hoje em dia a minha geração já não acredita nestas premissas falaciosas que levam a conclusões absolutamente falíveis, mas estaria a mentir. Neste século XXI, e ficando cada vez mais popular, temos o conceito de life coach. Um coach é alguém que treina outro alguém para atingir os seus objetivos, ajuda as pessoas a abrir horizontes, e a investir em si e no futuro. Mas, claro, que o primeiro passo para investir no futuro, é investir num coach.

São esses mesmos coaches que continuam a perpetuar ideias erradas e antiquadas, ideias que já não se justificam nos dias de hoje. Tu pagas a um coach para que ele te diga que não deves deixar que o prazer a curto prazo seja maior que o bem-estar a longo prazo, que deves priorizar e perspetivar a tua vida, e que deves dedicar muito tempo e esforço em desenvolver uma melhor versão de ti, deves trabalhar em ti e por ti. Trabalhar.

Mais uma vez, é te vendida a ideia de que deves colocar de lado os prazeres e “luxos” (que na realidade não são luxos, são simplesmente coisas que implicam que invistas mais do que o habitual) da tua vida, para poderes trabalhar na construção de um bem-estar a longo prazo, para poderes alcançar uma realização pessoal que, na minha perspetiva, nunca vais atingir, nunca vai ser suficiente exatamente pelo princípio a que te agarras. A ideia de que, quanto mais abdicares, quanto mais sofreres, quanto mais te privares das coisas boas da vida que te proporcionam bons momentos efémeros, mais tempo terás para investir no conceito de  “produtividade”, maior será a oportunidade de completar e ocupar o teu horário com dezenas de coisas que te devem trazer uma realização pessoal, que te devem preencher com uma concretização, um falso bem-estar.

 O objetivo principal – que coincidentemente é também o mais vendido – acaba por ser sempre o de atingir o poder. Um estatuto que te diferencia das outras pessoas, meros e comuns mortais que optaram por uma saída de sábado à noite em vez de, tal com tu, terem ficado a adiantar o trabalho de segunda feira. Tu, que vives na esperança de um dia vir a ser recompensado e reconhecido pelo tamanho sacrifico, esforço, empenho e dedicação que colocaste no seu trabalho durante tanto tempo, sem teres uma incontornável necessidade de o fazer. Porque no fim das contas, é isso, não é? O sonho é o trabalho, a tua vida é o trabalho.  De repente toda a gente deve amar o que faz, toda a gente deve encontrar a realização pessoal na sua ocupação.

Então e se eu não conseguir? Então e se, por mais que eu invista em mim, simplesmente não conseguir atingir um determinado patamar, seja ele físico, psicológico ou económico? A culpa é minha porque não me estou a sacrificar o suficiente? Talvez deva abdicar, não só do meu tempo livre, mas de todas as minhas outras atividades, de todos os meus hobbies, de tudo aquilo que me distrai do meu grande e volumoso objetivo único. Talvez se a minha única ocupação for a minha profissão, eu consiga finalmente retirar dela todo o prazer e gozo que retirei um dia de outras coisas.

Porque é que haveria de pagar a alguém para que me diga que se quero ter sucesso daqui a 20 anos, tenho de começar hoje? Para quê ter alguém que me diga que se quero ser bem sucedida na minha profissão, tenho de abdicar de tudo aquilo que a juventude dos 19 anos me deu, largar todas as distrações - sejam elas namorado, amigos, hobbies, saídas – e dedicar-me a cem porcento aos livros, às aulas, às notícias, aos eventos pertinentes,  na esperança de um dia vir a atingir uma coisa que nem sei bem se quero? Porque é que haveria de deixar alguém definir o meu sucesso desta forma? A ideia de abdicar do hoje para viver o amanhã, enjoa-me.

A verdade  é que esta perspetiva é uma pescadinha de rabo na boca: por muito que corras atrás de um objetivo, por muito que lutes por ele, há diversos fatores e entraves que simplesmente não podes controlar e vais sentir que voltas sempre ao mesmo sítio. Não há nada de errado em ter objetivos profissionais, académicos ou pessoais, não há nada de errado em investires o teu tempo em ti e entre teres de escolher entre um jantar com amigos ou uma ida ao ginásio. Não há nada de errado em escolher. O que é errado é a ideia de que não existe uma escolha, de que há um único caminho para o “sucesso” e que um sacrifício absurdo, por exemplo pela tua carreira, é o único caminho para uma felicidade e realização pessoal, é a única maneira de “seres”. A verdade é que as pessoas passam a vida a sacrificar-se na esperança de se sentirem completas e valorizadas por isso, mas no fundo são raras as que são reconhecidas. E a verdade é que muitas das que são reconhecidas pelo seu sacrifício, simplesmente não tiveram outra opção senão fazê-lo.

Pessoalmente não acredito em trabalhos de sonho, porque o meu sonho não é trabalhar. Os meus sonhos passam por muitas coisas, e eu acho que deixariam de ser sonhos se de repente se tornassem em trabalho. Sou apologista de que, em vez de se romantizar o sacrifício em prol do trabalho, se deve romantizar um trabalho que não exija sacrifícios muitos pessoais. Um trabalho que nos permita viver para além dele, que nos permita ter outros interesses, ter paixões e fazer escolhas proporcionais. Um trabalho que seja compatível com a vida e com o agora, não com o amanhã, por muito limitante que isso possa parecer no início.

 

Ana Sofia Alcaide (Aluna do 2.º Ano da Licenciatura)

05
Nov20

Manual Para Dançar À Chuva

Jur.nal

É na aceitação da inevitabilidade dos ciclos emocionais e deixando-os fluir que encontrei um equilíbrio na minha saúde mental, do estilo de uma matrioska que abana, mas não cai. Para manter paz interior, não só nos momentos de ascensão, mas também nos de depressão, faz parte do processo aprender a dançar à chuva. Decidi expor reflexões toscas, mas sentidas, que exteriorizam a execução do meu processo de limpeza emocional. Clarifico que nenhum dos seguintes textos são obras literárias ou pretendem sê-lo.

O primeiro texto foi escrito num dos primeiros momentos em que fui forçada a encontrar mecanismos para lidar com um luto profundo. Este passa por uma alegoria que me ajuda bastante desde então.

O segundo texto é uma realização do desleixo em cuidar da minha higiene mental, mas o que aprendi no processo iliba-me de qualquer culpa. Ao procurar autoanalisar-me, compreendi que para retomar o meu equilíbrio necessitava de parar e ouvir-me.

Numa sociedade em que vivemos constantemente entupidos e sufocados por sentimentos que não nos podemos dar ao luxo de demonstrar ou mesmo sentir, considero importante que se banalize a vulnerabilidade entre todos. Assim, me exponho:

 

INSIDE Out. Direção: Pete Docter. E.U.A. Produção: Pixar Animation Studios, 2015. Lançamento: Walt Disney Pictures

Filme INSIDE Out. Direção: Pete Docter. E.U.A. Produção: Pixar Animation Studios. Lançamento: Walt Disney Pictures. 2015

 

– O luto da tristeza - novembro 2017

Existe uma tristeza densa que não sei bem de onde vem ou a sua causa, só sei que é profunda e vem de dentro das profundezas do meu ser, como se a sentisse há milhares de anos e tivesse milhares de anos para sarar. Ela ultimamente não desaparece, está sempre lá, persegue-me. Posso me rodear de distrações, mas não passam de uma felicidade aparente até ela voltar.

Estou a tentar olhar para ela de frente e dizer “Olá, tristeza, estás bem?”, a tentar fazer dela minha amiga e tentar alear-me a ela. De início, o ego dificulta a tarefa por ela não ser muito simpática (passou por muito).

Sabes, ela não gosta de ser ignorada. Se o fizeres, ela faz queixinhas à irmã, a mágoa, que a torna mais amarga. A mágoa sabe bem como alimentá-la e quando estão as duas juntas destroem-te por dentro, pela calada. Quando levantares o tapete e voltares a olhar para ela, vai estar enorme e feia. Nesta metamorfose, nasce uma turbulência por toda a divisão em forma de raiva. Observando de perto, reconhece-la como a incorporação da tristeza, num auge de irritação espicaçada pela mágoa.

Descobri um truque, tentar puxar a tristeza à parte, dar-lhe um grande abraço e dizer-lhe “eu amo-te”. Não, não dizer só: dar-lhe muito amor; enchê-la de todo o amor que temos. E no fim, quando não tivermos mais nada, tentar voltar a respirar, de devagar. Depois, falamos com ela para ouvimos-lhe as histórias que ela tem de desabafar: perguntamos-lhe de onde vem para perceber a sua origem. Eventualmente, ela acalma-se e consegue sarar.

No final, não esperamos nada. Respira. Não te adianta esperar que se vá embora, o melhor é habituares-te a conviver com ela. Ela vai sempre com a promessa de voltar, mas quanto melhor a receberes, menos turbulenta será. Melhor, se ela for de boas relações contigo, vais começar a apreciar a sua estadia e construir uma bonita relação.

E é por tudo isso que eu hoje escrevo: porque não vou desistir de encontrar a minha felicidade, mesmo quando sou só tristeza. Escrevo para me mentalizar que a vida é feita de equilíbrios e uma pessoa só consegue encontrar a felicidade se souber como lidar com a tristeza.

 

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 – A manutenção – setembro de 2020

Estou a tentar fugir desta sensação, não a deixo fluir e bloqueio-a: estou com medo de estar sozinha. Não: Tenho medo de voltar a sentir-me sozinha. A ansiedade associada ao medo do retorno da sensação de vácuo no peito, é maior do que a própria. Não a quero sentir, a todo custo.

Este é um medo antigo, acho que o mais antigo de todos e o mais profundo. Lembro-me de que em pequena, tudo o que fosse vácuo me assustava: o silêncio, o escuro, dormir sozinha, estar sozinha em casa, o desaparecimento dos que amava, a morte, a possibilidade de não haver nada depois dela (a possibilidade de haver também).

Já tinha morado sozinha e tinha sido muito difícil, nomeadamente, adaptar-me a Lisboa e à solidão que sentia. No entanto, sempre foi com a noção de estadia temporária, por isso bastou-me arranjar atividades e mecanismos que me distraísse. A certo ponto, encontrei um nível de paz de espírito que, em época de exames, cheguei mesmo a deixar de sentir tanta necessidade de sair de casa. Posteriormente, em Braga fiz quarentena tranquilamente pois, mesmo sendo difícil, a capital tinha-me proporcionado uma certa preparação para a solidão.

Estava tão feliz da forma como estava independente e equilibrada por já ter “ultrapassado” esse medo. No entanto, considero que se me deixasse ficar assim, estática, estaria a perder a oportunidade de verdadeiramente viver. Sermos mutáveis faz parte da piada de enfrentar as adversidades, e nos superarmos. Então veio o descalabro total de todas as minhas rotinas saudáveis e de todo o meu equilíbrio.

Atualmente, o desafio é maior do que uma mera mudança de cidade, mas também de mindset, no encontro com o estereótipo do que são as responsabilidades de uma vida adulta. Somos a geração do “síndrome de Peter Pan” e crescer causa dores de crescimento. Uma ansiedade enorme no peito nasce, penso que gerada na realização de que esta andança é que vai ser “a vida”, a que eu escolhi e tenho o privilégio de ter. E então, o loop de pensamentos não me deixa: E se eu nunca me adaptar à vida adulta? E se eu nunca gostar de morar em cidades grandes? E se tudo aquilo que eu aspiro profissionalmente só me deixar infeliz? E o aperto cresce.

Gosto de tentar perceber a origem das minhas ansiedades porque sinto que as mitigam. Mas às vezes acho que exijo de mais de mim nesse sentido… Será que há sempre um motivo, mesmo? Não podias só sair de casa e distrair-te? Foi o que fiz e depois de relaxar e relativizar tudo isto, a resposta veio até mim, tão óbvia. Não fazia meditação há muito tempo e, no acto de voltar a respirar fundo, reconheci como olhar para dentro como pela primeira vez me assustava.

A ansiedade é um vai e vem. Devo me libertar da ideia de que é possível estar curada de algo que se vai curando pois, acima de tudo, é um processo contínuo. Mesmo tendo me sentido tranquila tanto tempo, nunca vai surgir uma Madalena calma e plena, eternamente. Pelo contrário, trata-se de saber como lidar comigo própria e aceitar as minhas necessidades. Principalmente, é importante aceitar as constantes flutuações emocionais, de forma a ganhar traquejo na limpeza até ao processo passar a ser natural. Atualmente, a ansiedade foi causada pelo que ficou guardado a remoer precisamente pela falta de higiene mental regular.

Se o meu corpo e a minha mente estão com medo de parar, de se sentir: se calhar é porque está mesmo na hora de o fazer… É irónico como, às vezes, chega-nos o que precisamos, mais do que o que achamos que queremos. Acima de tudo, Lisboa é a cidade que mais oportunidades me deu e que mais me fez crescer, a vários níveis.

É uma questão de respirar fundo e acreditar que o ser humano se adapta a qualquer situação. Não sinto culpa por ter oscilado um pouco. Uma pessoa com obsessão com o equilíbrio estático, vive no medo de sair da linha de rotina. Perder o equilíbrio para viver experiências faz parte na procura duma vida equilibrada, li isso em algum lado… Até porque há sempre algo a aprender.

Como a lua, é preciso esvaziar-me para conseguir preencher-me. Finalmente, consigo respirar fundo. Amanhã é outro dia, um dia melhor!

 

Ana Madalena Cunha (Aluna do 2º.ano de Mestrado e Vice-Diretora do Jur.nal)

02
Nov20

O Perigo Associado Às Fake News

Jur.nal

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Fonte: Adobe Stock Photos

 

Mergulhados num mundo pleno de informações que a Internet ajudou a construir, entre as mais absurdas que trazem à tona o ridículo, as que provocam alegrias e tristezas, e aquelas que fazem da Humanidade um tema sério, a realidade tem acabado por cair na discussão entre o verdadeiro e o falso.

As fake news, termo pelo qual ficam conhecidas as notícias que apresentam um conteúdo falso, têm contribuído negativamente para o clima instável que reina na sociedade global, trazendo constantes prejuízos e ameaças aos padrões considerados verdadeiros, sendo que o seu impacto nos dias correntes é tão perturbador, que até mesmo os mais atentos acabam por cair no engodo criado por elas. A utilização crescente das redes sociais tem ajudado a conduzir este fenómeno a um ponto que parece quase incontornável, possibilitando um aumento na difusão das fake news e, ao mesmo tempo, resultando num maior aproveitamento das mesmas em prol de benefícios próprios. Em alguns casos, chegam até a ser usadas para fins difamatórios, o que as tornam cada vez mais saturantes. Com a marcante pandemia do Covid-19, os problemas trazidos pelas fake news aumentaram, na medida em que surgiram algumas informações incorretas relativamente a certas formas de tratamento do vírus, que acabaram por colocar em risco a saúde e a integridade geral da população.

Por isso, saber lidar com este tipo de informações é fundamental para que a página possa ser virada. Estar atento não é o único requisito necessário. Como tal, verificar as fontes das notícias, as datas das publicações e consultar websites fidedignos constituem formas de encontrar os verdadeiros conteúdos e, assim, retirar peso à influência das fake news nos nossos dias. Usar o bom senso é preponderante para avaliar corretamente a informação, por forma a não haver divulgação de artigos falsos que possam colocar mais imprecisões e dúvidas. As informações que apelam preferencialmente às crenças e às emoções pessoais, preterindo os conteúdos objetivos das notícias são conhecidas como “pós-verdade”, um conceito que converge para as fake news. Desta forma, o que ganha expressão é o caráter e aquilo que cada um quer ouvir, em detrimento da matéria verdadeira, que fica relegada para um segundo plano. Quem cria as fake news tem tido em consideração estes aspetos, uma vez que o valor atribuído pelas pessoas a fatores que corroboram com as suas crenças é sempre maior, pelo que são persuadidas mais facilmente. 

Escolher a informação, analisar cada detalhe por ela transmitido, interpretar o seu conteúdo, parecem muitas etapas a percorrer para obter uma só conclusão. A verdade, e apesar dessas etapas serem cumpridas intuitivamente por quem procura saciar o conhecimento, é que nem todos a fazem da melhor forma. Muitos, são enganados pelo seu conteúdo. Saber escolher e analisar com escrutínio é meio caminho andado para compreender corretamente o espetáculo do mundo.  

 

Rúben Cirilo (Aluno do 2.º Ano da Licenciatura)

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