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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

29
Out20

A Vida A Passar

Jur.nal

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Fotografia da Autora

 

Assim passa a vida... Assim a vida passa...

Os primeiros raios de sol batem na janela e interrompem o ciclo do sono. Não há rasto das pantufas. Sem sair de cima da cama, ainda quente da noite, e munida de uma lupa invisível, inclino a cabeça e procuro vestígios delas. Ainda de cabeça para baixo, dirijo o meu olhar a outras partes do quarto. Lá ao fundo, encostada ao armário, jaz uma das pantufas. A outra encontrá-la-ei, mais tarde, atrás da porta. Puxo o estore devagarinho. Aos poucos o dia é convidado a entrar. Poucos minutos depois, a rotina instala-se na rua e a vida começa a passar.

Do outro lado da rua, Jacinta e João vêm à varanda. Também os seus estores já se abriram. Também eles, debruçados sobre a varanda, ainda de robe, vêem as cores do dia. Acenam-me e eu aceno-lhes de volta. Os seus corpos têm rugas. Muitas! Quase tão antigas como a casa onde habitam. Jacinta tem Alzheimer. Todos os dias perde mais um pouco das suas recordações. Às vezes João tem que lhe recordar quem eu sou. Nos olhos que outrora estavam cheios de energia, agora só há vazio. João aceitou, já há muito, sem lamentar, a perda de Jacinta - ainda viva. Deixou-se assim devorar pela inércia forçada, juntando-se à mente da mulher, que se despede lentamente do corpo.

Desvio o olhar para a varanda da vizinha Joana. Lá está ela, colada à janela rodeada dos seus inúmeros gatos e cães. A solidão já se apoderou dela há muitos anos. Resta-lhe as memórias de um tempo que já foi seu. Memórias essas que vão sendo trocadas pelo tempo dado dos vizinhos que param na rua para ouvi-la. De alguma forma, a existência dos seus animais reencaminha-a para a sua própria existência. Há sempre puxões de trela quando a vejo na rua, passos para a frente e passos para trás, mas assim também é o baloiçar da vida. Uma história, por um pouco de tempo - penso eu - todas as vezes que a vejo a passear os cães - ou a ser passeada por estes - e quando paro e a escuto. E sabendo que o mundo não concordou em parar o tempo, paro eu o meu relógio para ouvir uma das histórias de Joana. Acena-me da janela e eu aceno-lhe de volta.

A descer a rua vem o Joaquim de 98 anos, carregando com ele o saco multicolor que usa todas as manhãs para ir buscar o pão fresco à padaria da D. Amélia. Ainda que desdentado, esboça um sorriso na minha direcção. Viu-me na varanda, no meio da minha horta rebelde que teimosamente cresce em todas as direcções, fruto de uma realização pouco eficaz durante o período da quarentena. Joaquim grita da rua, acenando-me, que o feijão-verde já está grande e lá caminha ele em passos pequenos e pesados em direção à casa onde nasceu, levando com ele uma alma imaturamente centenária. Eu aceno-lhe.

Fecho as cortinas. Penso em como seria bom abri-las no dia seguinte, só para ver a vida a passar. Assim passa a vida, assim a vida passa.

 

Nota: A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico

Tânia Azevedo (Aluna do 4.º Ano da Licenciatura)

26
Out20

O Que Subsiste?

Jur.nal

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Fonte: ADOBE STOCK PHOTOS

 

Ponderemos nas dissimulações que usamos, nas máscaras e vestes que ostentamos, nos sorrisos inautênticos que delineamos, nos punhos que cerramos quando ninguém vê. Reflictamos sobre esta mestria do disfarce que todos já empregámos, sem excepção, pelo menos uma vez na nossa existência. Debrucemo-nos sobre esta circunstância transversal à nossa caminhada mundana…

Tiremos, por fim, aquele tapete impuro e sórdido debaixo dos nossos pés gentis e descambemos redondamente no chão! Tiremos a terna maquilhagem das nossas feições hipócritas.

O que perdura? Muito pouco do que achamos ser socialmente aceite de revelar, é certo.

Agora deixemos de parte as tendenciosas concepções moralistas! O que permanece?

Uma expressão humedecida com lágrimas?

A debilidade característica de quem nunca obteve a valorização merecida ou, pelo contrário, de quem desvalorizou sem o resguardo?

O exalar sonoro de descompressão que inunda a nossa alma de vivacidade?

 

A descompostura pelo espelhamento da realidade, pungente e cruel?

O grito de agonia da fuga dos nossos medos aprisionados no mais inacessível subconsciente?

O QUE SUBSISTE?!!

 

Filipa Sattut (Colaboradora do Jur.nal e Alumna da Nova School of Law)

22
Out20

Para Relembrar

Jur.nal

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Fotografia do Autor

 

A caneta fez-me falta, mas precisava de não saber escrever para voltar a sentir algo quando finalmente – agora – escrevesse.

Há mais de ano que não escrevo.

Somos sempre tão pouco. E se não gostarmos, de facto, daquilo que estamos a fazer, de nada nos servem os livros ou o conhecimento. O conhecimento só será prazeroso se gostarmos daquilo que sabemos, para além disso será só mais um espaço desperdiçado.

Assim como a milhares de estudantes, a quarentena demonstrou-se como um dos momentos mais significantes da minha vida.

Tive de aprender a estar comigo e só comigo. Passamos os dias sempre cheios com uma multidão de pessoas que nem sequer nos conhece, mas que passa por nós... e do nada estava só eu no meu quarto e uma pilha de livros de Direito e mais uns quantos prontos a serem postos de lado para que descansasse a minha cabeça sobre secretária.

Virei um procrastinador. Os dias pareciam ter quarenta horas e ao mesmo tempo eu não conseguia dormir. Não tinha sono nem vontade. Passava boa parte do dia deitado a olhar para o teto imiscuindo se deveria ter sido mais em algum momento.

O processo foi muito lento, aos poucos lá me fui aproximando dos livros e da música.

De algum modo, consegui que o meu chão não tivesse mais qualquer vestígio de atrito e assim foi.

Hoje escrevo só para ver se ainda sei a Língua.

Não se aflijam. Há muito mais para lá do que para cá.

 

Jefferson A. Fernandes (Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

19
Out20

O Impacto Da Covid-19 Nos Jovens

Jur.nal

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Fotografia de NURPHOTO


O final da década da tecnologia foi marcado por uma “peste” designada de SARS-CoV-2, mais conhecida como Covid-19. Esta peste pôs o Mundo à prova, alterando os planos de negócios, as viagens, a economia dos países emergentes e, acima de tudo, o desenvolvimento do capital humano.

Quando surgiram as primeiras notícias em novembro, a minha primeira reação foi ridicularizar a pandemia, cheguei a afirmar a amigos e familiares que se tratava de uma “doença de asiáticos”, a qual, o mais tardar no final do ano, já estaria erradicada... Ignorância da minha parte. Entretanto, em março, o surto irrompeu na Europa e, especificamente, em Portugal. No momento em que tal facto ocorreu, o pânico instalou-se também no meio dos jovens. Não sabíamos o que poderia acontecer nos próximos tempos e alguns dos estudantes de Direito até então não compreendiam as consequências do art.19º da Constituição da República Portuguesa, “Suspensão do exercício de direitos”. Inicialmente, muitos de nós gostaram de ficar em casa, tudo até que os “problemas” começaram a surgir. Os “problemas” a que me refiro são a falta de convívios, de festas e tradições académicas, do contacto social e das atividades extracurriculares.

Contudo, a quarentena despertou nos jovens qualidades que até então desconheciam. Alguns melhoraram as suas aptidões físicas, outros aprimoraram as suas técnicas de escrita, muitos desenvolveram as suas ideias de negócios... Estas qualidades demonstraram o quão a atual juventude é firme e resiliente, pois, perante as adversidades que estamos a enfrentar, nenhum de nós “baixou” os braços e manteve sempre a cabeça erguida. A Covid-19, inclusive, permitiu testar a força dos jovens internacionais, oriundos de países em desenvolvimento e não só, já que estão longe dos seus países e dos seus familiares. Ligados por um dispositivo móvel e a uma uma distância de mais de 7 mil quilómetros, muitos deles encontraram brio e perseverança nas metas que os levaram à diáspora.

Assim sendo, nem tudo é desgraça nestes tempos de incerteza que estamos a viver. Contudo é preciso continuarmos fortes para encararmos estre inimigo invisível, que certamente alterou a nossa forma de olhar o Mundo e nos ensinou a valorizar os aspetos mais básicos da vida, como a amizade, a saúde mental e a nossa educação.

Tiago Kaputo

(Aluno do 2.º ano da Licenciatura)

16
Out20

Alguma Coisa Assustadora

Jur.nal

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Fotografia de Minh Pham

 

Na história são abundantes, e alguns deles bem famosos, os episódios em que o inventor acabou morto pela própria invenção, de Perilo e o seu temível touro de bronze a Curie e a sua radiação ionizante.  Pois bem, o infeliz relojoeiro que um belo dia construiu o primeiro despertador de cabeceira não morreu às mãos do seu engenho; sofreu um destino consideravelmente pior. Esse destino é conhecido de todos, e, como é facilmente compreensível, não fez exatamente maravilhas por melhorar o seu humor matinal. Daí que o bom M. Antoine Redier, ao que tudo leva a presumir com o intuito de descarregar a sua frustração sobre o resto da humanidade, tenha em meados do século XIX decidido entrar pela porta do bureau de patentes de Paris para decretar por escrito e a tinta o maior castigo que aquela conhecera desde o Antigo Testamento - mas, desta vez, e apesar de tudo, sem que fosse tão merecido quanto isso para a humanidade.

Ora, gozando sem o saber, mergulhado no doce sono dos incautos, a alvura dos lençóis lavados na penumbra do quarto, imóvel esvoaçando em vertiginosa liberdade pelas maravilhas perdidas no âmago do seu próprio ser, Ernesto certamente nada fizera por merecer tal sorte. Verdade seja dita, apesar de já ter completado trinta e seis anos, pouco fazia na vida por merecer qualquer espécie de sorte, fosse ela boa ou má. Seria tentador compará-lo a um membro do reino vegetal; todavia, em princípio, uma planta dignar-se-ia a crescer para os lados da janela, dedicando-se ao menos à fotossíntese como passatempo. E, ainda assim, à mesma hora todos os dias, diligente, impertinente, estridente, o despertador de um homem como Ernesto tocava. E tocava. Até se fazer obedecer.

Naquela manhã em particular, enquanto esfregava os olhos e passava a mão pelo rosto, como que se preparando mentalmente para o que viria, escutou, sem perceber porquê, as notas melodiosas de La Vie en Rose vindas da aparelhagem, e ouviu, sem o esperar, uma voz familiar.

-Bom dia, amor.

-...hmmfgh... bom dia... és tu?

-Sou eu!

Era ela, sem dúvida. Mas...

-Amor? - perguntou a voz, timidamente.

-...

Erguendo-se de um salto, Ernesto desfez-se como um raio dos lençóis e, estendendo o braço, carregou o mais depressa que pôde no interruptor. Como era expectável, uma claridade cegante invadiu de imediato o quarto, obrigando-o a cerrar os olhos momentaneamente e a piscá-los durante uns segundos perante a expressão confusa da sua companheira, vestida com uma blusa branca e umas calças de ganga.

-Ernesto?

Não obteve resposta imediata. Ainda à espera que alguns neurónios mais teimosos acabassem de acordar e com as pupilas a meio de um ajuste pouco gracioso, Ernesto procurou a custo observar os contornos da cara da namorada. Entretanto, pegou nos óculos que estavam pousados sobre a mesa de cabeceira; raramente os usava apesar da miopia, porque, a bem dizer, nunca saía de casa. Quando por fim se habituou à luz, pôs-se a fitá-la intensamente durante o que pareceu aos dois uma eternidade. O que viu não o deixou menos desconfiado. “Un grand bonheur qui prend sa place / Des ennuis des chagrins s’effacent”, cantava Edith, mas a letra não podia ser mais desajustada ao momento. Travava-se um bizarro jogo do sério, e ademais entre dois bons jogadores. Até que ela resolveu arriscar primeiro:

-Ernesto? O que se passa?

A resposta chegou seca e sob a forma de outra pergunta:

-Que dia é hoje?

-...quinta-feira... acho eu...

“Apanhada”, pensou Ernesto. O tom de voz e os maneirismos dela passariam por completamente naturais a qualquer outra pessoa; foi, porém, nesse momento que o interruptor fez o clique também na cabeça de Ernesto. Ela era a sua namorada, sim, mas não naquele momento. Não naquele dia. Quem seria ela naquela manhã? Não podia saber ao certo ainda, mas guardava as suas suspeitas e elas iam crescendo a cada instante. Foi então que ouviu súbitas gargalhadas irromperem do outro lado da porta, logo refletidas numa visível frustração no rosto da mulher que se encontrava à sua frente, qual atriz principal cuja performance irrepreensível acabara de ser arruinada por um par de figurantes incompetentes. A música parou abruptamente, como uma rosa orgulhosa e bela surpreendida pela florista.

-Nada mau. Nada mau mesmo – elogiou-a Ernesto.

-Obrigado, suponho - agradeceu ela, sorrindo e curvando-se numa pequena vénia.

-Bela tentativa, rapazes! Podem entrar se quiserem! O que temos hoje?

Logo emergiram da porta dois cavalheiros impecavelmente enfatiotados e irrepreensivelmente penteados, com toda a probabilidade na casa dos trinta, ambos de estatura elevada - mas um, de gravata azul, mais alto do que o outro, de gravata encarnada - e estranhamente insistentes em utilizar óculos de sol a combinar, mesmo com as persianas corridas. Percorreram num ápice o quarto. Este era pequeno e de uma elegância minimalista, de uma limpeza imaculada, mas conseguia ainda assim estar dotado de uma cama com lençóis de cor púrpura, uma mesa-de-cabeceira e cómoda brancas e duas cadeiras da mesma cor, uma televisão de sessenta polegadas presa na parede, um mini-frigorífico ao lado da cómoda, uma aparelhagem de som e  ainda uma pequena estante com meia dúzia de volumes poeirentos a completarem a pintura. Nada de janelas; em compensação, o candeeiro do teto emitia uma luz branca fortíssima.

Os dois homens cumprimentaram Ernesto secamente enquanto a impostora saía em silêncio, cruzando-se com eles sem mais do que uma momentânea troca de olhares. Não vinham sozinhos; o maior empurrava a custo um carrinho transportando uma enorme e complexa geringonça, cauteloso qual moço de bagagens de hotel à cata de uma boa gorjeta, e, no entanto, com todo o aspeto de um agente dos serviços secretos a transportar uma ominosa máquina. Não, nisso não havia que enganar. Cautelosos, os dois recém-chegados levantaram juntos a monstruosidade mecânica do carrinho, atulhada com fios de várias cores, e pousaram-na devagarinho no chão, junto à cama. Ato contínuo, o Gravata Azul ligou-a à tomada enquanto o Gravata Vermelha ajudava o ainda acamado Ernesto a vestir um colete de forças.

Mais do que habituado, Ernesto não protestou, nem mesmo quando lhe foram colados, um a um, múltiplos sensores em diferentes pontos da cabeça, e ainda um par nos dedos indicadores, acoplados à máquina através de um emaranhado de cabos. Absteve-se de proferir uma palavra que fosse e esboçou tão-só uma ligeira careta aquando da colocação do décimo segundo sensor - uma operação delicada em que a função do homem da gravata vermelha consistia em manter os olhos de Ernesto bem abertos com os dedos, e a do outro em instalar neles um par de pinças metálicas para que se não pudessem fechar nas horas seguintes. Uma vez instaladas, isso significava xeque-mate para os neurónios de Ernesto responsáveis pelo ato reflexo de pestanejar, por muito que tentassem. Felizmente - ou não, dependendo do ponto de vista - estava longe de ser a primeira vez que experimentava aquilo. Um conjunto de lentes ligadas à máquina apontavam-lhe agora diretamente para as íris e uma ténue luzinha esverdeada acendeu em cada uma das pinças. Numa questão de segundos, a máquina começou a emitir barulhos incessantes que lembravam uma máquina de lavar roupa e a imprimir registos sob a forma de ondas, totalmente indecifráveis para Ernesto, mas que o Gravata Azul passou a monitorar atentamente com uma expressão grave estampada no rosto.

Entretanto, o outro foi fazendo as perguntas do costume, sendo brindado com as respostas habituais. A certa altura, parecendo fartar-se, o interrogador recostou-se na cadeira, espreguiçou-se e dirigiu-se a Ernesto num tom mais informal:

-Diz-me, aquela encenação há bocado foi boa, não foi?

Ernesto anuiu, mas preferiu mudar de assunto.

-Esse trambolho ridículo… não funciona, pois não?

-Será?

Para dizer a verdade, Ernesto não fazia a menor ideia. Talvez por mera teimosia, resolveu insistir:

-Não funciona nada.

Ao ler o papel impresso pelo polígrafo nesse preciso instante, o Gravata Vermelha desmanchou-se a rir.

-Verdadeiro, diz a nossa amiga! Parece concordar contigo. Ou talvez tenha um sentido de humor...

-Vocês são mesmo uns enormes filhos da mãe.

O Gravata Azul não hesitou em responder:

-Eu sei. Pagam-nos para isso.

O interrogatório prolongou-se pelo resto da manhã, com direito a pausa para almoço: às onze horas e quarenta minutos, o Gravata Azul saiu da sala, voltando ao meio-dia em ponto com dois pares de porções de ração universal premium. Com ele entrou também, mais uma vez, a falsa amante de Ernesto. Este continuou na cama, ligado à máquina, o que não impediu os quatro de terem uma conversa assaz edificante acerca do tempo enquanto comiam. Ao terminarem, a mulher despediu-se discretamente e voltou a sair; depois disso, a tarde foi tão aborrecida e desprovida de nexo como a manhã.

-Bem... cinco horas - constatou o Gravata Azul - direita ou esquerda?

Sem paciência para perguntas idiotas, Ernesto podia ter-se ficado pelo revirar de olhos, mas encolheu em simultâneo os ombros, com a indiferença convicta de um “tanto faz” veemente.

-Muito bem, meu caro, vou pedir-te que te mantenhas quieto só mais uns instantes - pediu o Gravata Azul, com as manápulas no olho direito do seu interlocutor a retirar com cuidado a pinça.

-Odeio terças-feiras.

-Nós também, meu caro, nós também. Acredita.

Arrumada a maquineta principal e a parafernália associada, o Gravata Azul aproximou-se de Ernesto levando consigo um tubo de creme. Deitou um pouco para a mão e passou-lho pela testa; em três segundos, onde antes havia um ligeiro princípio de ruga, passou a haver pele lisa e macia. Respondendo com um simples “de nada” ao agradecimento não menos lacónico de Ernesto, despediu-se, pegou no carrinho e dirigiu-se com o companheiro para a porta. Ao sair, tirou do bolso, amarrotou e atirou para o caixote do lixo um post-it com as palavras “terça-feira, 3 de dezembro de 2097 – estereofilme de espionagem - entretenimento obrigatório - quarto 243”.

 

*****

O Gravata Azul, já sem a gravata azul, foi o primeiro a sair, deixando a Falsa Namorada à espera à porta do vestiário enquanto o Gravata Vermelha se desengravatava também e mudava para algo menos formal. Já devia ser noite, e, a julgar pelo ruído que se podia escutar no corredor, lá fora chovia a potes.

-Entra!

Não foi preciso repetir o convite. A Falsa Namorada entrou, e, logo ao transpor a porta, desmanchou-se a rir ao ver que o outro, de gabardina vestida, tentava calçar as galochas sem se sentar.

-Feito por hoje... e amanhã é terror, acho - disse ela.

-É terror. Estiveste excelente hoje.

-Boa.

-A representar um papel dentro de um papel? Nada mau.

-Obrigada!

-Ideia minha, claro.

-Claro.

-Isto está a ficar mais difícil – constatou a Falsa Namorada, com um suspiro.

-Calçar esta porcaria? Podes crer que sim - concordou o Ex-Gravata Azul, logo após dar dois saltos desajeitados.

-Não, meu parvo - respondeu ela, sem poder conter novo ataque de riso - isto…

-Sim. Ele não é tão fácil como parece.

-Mas ainda não percebeu que os livros são só enfeite.

-Certo, mas é um risco.

-Nem sei; já não se rala. E não é que tenha muito tempo para ler livros, da forma como o entretemos. Incrível como arranja maneira de se aborrecer.

-Não, isso eu consigo perceber. Estás doida? Ele faz o mesmo todas as semanas. Tem direito a um género diferente de estereofilme por dia, mas é sempre a mesma peça à terça! E à quinta, à sexta… ao sábado…

-Por amor de deus, senta-te lá, que isso assim...

-Está quase. E… como eu estava a dizer, uma pessoa habitua-se. Mas sempre estranhei a falta de curiosidade.

-Como assim?

-Quer dizer... é incrível como nunca se pergunta por que motivo fazemos isto. Não achas?

-O quê?

Era a vez dele de responder numa palavra, ao mesmo tempo abrindo os braços num gesto dramático a indicar a sala à sua volta:

-Isto. Por que motivo é que achas que fazemos isto mesmo?

A Falsa Namorada parou para pensar, mas depressa encolheu os ombros e desistiu de responder.

-É terror amanhã, não é? - perguntou ela.

-Sim, mas nunca te interessaste por descobrir o...

Aparentemente não, visto que o ignorou e caminhou para o armário, um móvel enorme que ocupava uma parede inteira, rodou a chave, que já estava inserida na fechadura, e abriu-o. Deteve-se por um momento a passar os olhos pelos conteúdos, virou o pescoço num ângulo de quarenta e cinco graus e chamou-o:

-Para de dizer baboseiras e vê se me ajudas a encontrar alguma coisa assustadora aqui.

 

Pedro Miguel Silva

 (Aluno do 1.o ano do Mestrado)

 

 

12
Out20

Literatura E (In)sensibilidade

Jur.nal

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'Lavery Miss Auras' de John Lavery (1900)

 

O Fatalismo e o Romantismo presentes na Literatura são largamente incompreendidos pela pessoa comum, vinda da confusão, do trânsito da cidade ou da pasmaceira do interior rural, dessensibilizada pela banalidade do quotidiano. O barulho exterior, as preocupações fúteis, os grandes ecrãs, tudo é suscetível de nos afastar da imersão num livro. Eu mesma já senti dificuldade em concentrar-me numa narrativa.

Estamos tão dependentes dos estímulos visuais fornecidos pelos aparelhos eletrónicos que ler, simplesmente, nos parece um tédio, mas não creio que seja só isso. Ainda que não tivéssemos a distração tecnológica que temos, iriam continuar a existir pessoas sem querer saber das analogias de Kundera, sem entender o desespero de Madame Bovary, sem se agoniar com a trama de Dostoevsky, porque tanto a Literatura como a Poesia se fundam em emoções e dependem da sensibilidade emocional de quem lê. A melhor obra literária do Mundo não irá pasmar, não irá aquecer nem arrefecer quem não tenha capacidade de se abstrair da realidade física onde se encontra para entrar na subjetividade das personagens. Da mesma forma, Justine de Marquês de Sade nunca irá transtornar alguém que não possua consciência moral ou capacidade empática.

Por outro lado, até uma Comédia Romântica de fraca qualidade consegue colocar a lacrimejar aqueles que se identifiquem facilmente com os outros e com o que visualizam. É uma relação entre o criador da obra e o sujeito que a contempla, assiste ou lê e é muito mais do que "não gostar de ler" ou não ter paciência: é sobre não gostar de pensar ou sentir e estar anestesiado pelo pragmatismo. Se estou a ler um parágrafo a planear o que é que vou jantar, aquele parágrafo vai-me soar desnecessariamente longo e descritivo. Se eu passei o dia a realizar tarefas monótonas, quando for assistir a Romeu e Julieta irei achar um cliché trágico sem nexo ou talvez me tenha esquecido da intensidade de estar apaixonado/a e de que isso consubstancia, já em si, uma tragédia autónoma.

No fundo, a arte vinda da escrita permite uma transferência onde a nossa identidade pessoal e o nosso ego ficam a meio caminho, onde nos colocamos no lugar de outrem e vivemos experiências alheias. O Eu deixa de estar centrado em si mesmo, da forma egoística que está habitualmente, para se transformar numa recriação de outros Eus. Uma espécie de turismo para a alma. As personagens são fictícias, mas as nossas emoções não o são. A valorização da Literatura e de qualquer outra forma de expressão artística ou cultural depende, em suma, da nossa sensibilidade, tanto emotiva quanto intelectual.

Cláudia Paulo

(Aluna do 4.º ano da Licenciatura e Vice-Diretora do Jur.nal)

10
Out20

A Verdade De Um Anjo

Jur.nal

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'Stevenson Memorial' de Abbott Handerson Thayer (1903)

 

O anjo disfarçado cai do topo da montanha,
Esbarra com a bela face nas pedras e na neve,
Mas o que sai é uma máscara, e não a carne.

O anjo tenta voar, mas as asas saem com tiras de fita-cola nas pontas,
O enorme roupão branco foge do corpo, e debaixo dele há sujidade,
A pele não é de porcelana e as bochechas não são rosadas.

O anjo já não se tenta proteger da queda, agora esconde o rosto,
Saem dele lágrimas de dor, mas o que dói não é cair, mas sim mostrar,
Que afinal não é céu, mas sim da mesma terra onde todos os Homens nascem.

Finalmente o anjo encontra o fim, e a Humanidade toda o circunda,
“Perdão” - diz o anjo num desalento sem fim - “Falhei para com vocês”,
O Homem ergue-o de pé e encara-o num olhar fraterno,
“Não faz mal, meu anjo, mais pura é a dor da verdade do que uma felicidade sem ver. Agora sim, agora estamos mais perto do céu!”.

Bruno Lopes 

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

 

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