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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

30
Ago20

Cultura, I guess

Jur.nal

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Este texto é publicado na revista oficial dos estudantes de uma Faculdade de Direito. O conteúdo mais comum, aparte opiniões sociais e políticas, são álbuns, filmes e livros preferidos. O porquê de os termos consumido e porque é que os outros também o deveriam fazer. Todos nós lhes reconhecemos o valor enquanto escapatória do mundo da lei, caso contrário não teríamos uma tuna ativa, tal como o Grupo de Retórica e o Jur.Nal.

Enquanto colectivo, reconhecemos o valor dos artistas e das suas criações. Todos temos playlists no Spotify para as viagens grandes, enchemos cinemas, compramos o candeeiro novo porque é muito mais bonito do que o que já lá está em casa. No entanto, não reconhecemos as suas ambições. Todos os anos centenas de alunos ouvem que não vão ter emprego se seguirem certo caminho. Felizmente, ignoram.

Negar que existe um problema com a arte em Portugal é viver numa ilusão obscena. Negar que o mesmo se relaciona com motivos socio-económicos é um branqueamento profundo da realidade portuguesa.

Considero que crescer na Beira Interior é uma existência feliz. Não teria escolhido qualquer outro sítio. Ir e voltar é nostálgico: a nova realidade da nossa cidade pequenina, não reconhecer os miúdos – a frase que mais vezes repito quando cá estou é, sem qualquer sombra de dúvidas, “estou velha”; não é que o esteja, a mudança é que simplesmente não é confortável. O Luís Severo, na sua Cheguei Bem, expôs perfeitamente o que sinto desde setembro de 2018: “cheguei bem, mas já vou embora”. Sinto-o, mesmo que o Luís se esteja a referir a Lisboa. A arte tem a vantagem dos vários significados, de ser um conforto na situação concreta.

Crescer na Beira Interior é, também, um sentimento agridoce. É ir ao cinema ficar perante blockbusters e animação infantil, raros concertos – normalmente não a meu gosto ou que desconhecia (e que mais tarde me arrependia) – por sorte, sempre frequentei o teatro que, infelizmente, é algo atípico no interior. Os grandes concertos em Lisboa ou no Porto que falhei porque ia ter que faltar à escola. Comecei a ir no meu 11º ano, a escola ia continuar, os concertos nem por isso.

O interior apresenta um custo de vida muito inferior ao da capital. Na minha cidade arrendam-se casas a metade do preço de quartos em Lisboa. Entristece-me saber que alguns dos meus colegas ficaram a estudar por cá não por escolha, mas por necessidade. Um artista beirão está limitado pelo estigma com que é visto e pelas circunstâncias familiares. Alguns lá desistem e ingressam num trabalho mais convencional.

Em Lisboa encontrei um novo cenário. Havia tanto para fazer que nem sabia bem o que escolher. Somos bombardeados constantemente por todo o tipo de atividades culturais. Mesmo não me alongando, desta vez, em convicções pessoais, não posso deixar de reparar que a cultura parece mais apelativa aos mais abastados. Desengane-se quem acredita que é por falta de gosto. É falta de tempo, falta de posses, falta de vontade de ser olhado de lado. Mais uma vez, algo não bate certo. Como é que a cultura é para os ricos, mas os artistas são pobres?

O Orçamento de Estado para 2020 aumentou em 16,7% o que destina à cultura. Ficou aquém do 1% do OE pedido pelo setor. É urgente que a cultura comece a ser reconhecida. No mundo da cultura, um artista bem sucedido é aquele que na pandemia não precisou de ajuda. Nos teatros, aumentam-se os preços para não sucumbirem. Os artistas merecem, como qualquer outro, reconhecimento pelo seu trabalho. A arte é mais do que um passatempo, mais do que um entretenimento de outrem. Precisa de ser vista como algo essencial, que o é.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 3.º ano da Licenciatura)

25
Ago20

Canção Simples

Jur.nal

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Toco-te na mão. Dá-se uma espécie de vazio, há uma pausa. E nesse compasso de espera, aguardo que o Toque volte, e traga a resposta.

Ouço-te sussurrar qualquer coisa ao Toque e espero que ele desça por ti e suba por mim. O Toque, alcança-me o dedo e por ele caminha, atravessa-me o dorso da mão, segue pelo meu braço, trepa-me o ombro, corre-me contra o pescoço e sussurra-me ao ouvido. E eu penso e sussurro ao toque, que se afasta, descendo o ombro, caindo pelo braço, atravessando o dorso da mão e caminhando sobre o meu dedo para te ir sussurrar nova mensagem. A operação vai-se repetindo, e de cada vez que o toque vem, volta mais rápido porque nós já não pensamos tanto, já não demoramos tanto tempo a descodificar as mensagens um do outro. Compreendemos que partilhamos o mensageiro, o toque é meu e teu e compenetra-nos. E de cada vez que o faz, leva um bocadinho meu e traz um bocadinho teu. E a cada impressão, torna-se menos claro o seu emissor, e tanto eu como tu, já não sabemos quanto tu tens de mim e quanto eu tenho de ti. Chegados ao limite do limite, ele não faz mais sentido e a ideia de duas máquinas de sentir cai por terra, tornando-se relevante só o mensageiro e consequentemente a mensagem, que já não é minha ou tua mas resultado indivisível dos dois. Percebemos que já não conversamos, que já não precisamos de ouvir o que cada um tem a dizer para responder ao outro, os toques ganham ritmo, e embalados ao som das nossas próprias percussões, dançamos. O movimento excita-se a si próprio e estamos rubros. E o toque, que começou toque e virou conversa, torna-se toque outra vez, porque estamos rubros.

 

Maria Manuel de Sena

Aluna do 3.º ano da Licenciatura

 

22
Ago20

Sexualidade Agressiva ou Agressão Sexualizada?

Jur.nal

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Existem poucos pontos de comparação para a sensação causada pelas generalizações grosseiras que os homens fazem sobre a sexualidade feminina – unhas a arranhar um quadro de giz ou uma jante de metal a arrastar-se sob uma superfície de vidro são duas que me ocorrem, ambas pela mesma razão: são irritantes, desnecessárias e colocam-me imediatamente em estado de alerta. Foi o que aconteceu recentemente quando ouvi alguém a constatar que ‘a maioria das mulheres deseja secretamente ser magoada durante o sexo’ e que ‘existe um certo tom afrodisíaco em contrariá-la’. Pondo de parte aquilo que soa a uma desculpabilização de comportamentos sexualmente transgressores e, até certo ponto, uma defesa da violação, dei por mim a deliberar sobre o assunto e a questionar até que ponto é que essa sexualização da violência não é uma construção sociocultural que temos simplesmente vindo a aceitar acriticamente.

Desde a subtileza da literatura ao excesso da pornografia, a mulher é frequentemente retratada como um ser frágil, ingénuo e virginal, sempre ansiosa por ser dominada. No entanto, talvez a maior ofensa venha do cinema – não pelo meio em si, mas por ser aquele que tem o maior impacto cultural no nosso quotidiano. É pouco frequente ouvir discussões em escolas ou gabinetes acerca do último livro a chegar às prateleiras, e menos frequente ainda debates sobre o porno do momento. No entanto, filmes, séries, atores e realizadores discutem-se com frequência; discutem-se prémios e cerimónias e numa espécie de inversão de papéis com aquilo que anteriormente seria imediatamente classificado como o cromo dos filmes, é cada vez mais importante ter opiniões acerca dos filmes sob o risco de ser socialmente canibalizado. “Não viste o Joker?”, “Adorei a crítica aos ricos do Parasitas”, “O Marriage Story não representa bem o processo de divórcio”… As opiniões não têm de ser elaboradas ou consistentes ou contextualizadas adequadamente; não há problema nenhum que uma pessoa de 19 anos que nunca tenha namorado mais de 6 meses ou que tenha estado em contacto com qualquer tipo divórcio tenha fortíssimas opiniões acerca do mesmo; não há problema que esta pessoa seja ou não consciente das suas limitações perante determinadas temáticas – o importante é que ela tenha uma opinião.

Isto para dizer que o cinema importa e os seus efeitos na cultura são palpáveis, principalmente quando abordam a sexualidade. Ajudam a elaborar a ideia da mulher desejável e os seus padrões: as curvas, a cara, o cabelo, as ancas, o comportamento, a personalidade, a inteligência, o sentido de humor – a mulher sensual, a mulher que as outras invejam e que todos os homens cobiçam. Claro que o reverso também é válido relativamente a padrões altíssimos para os homens, mas esse não é o tema deste artigo.

São muitos os filmes que colocam inconscientemente a mulher numa posição de subserviência sexual e o facto dessa não ser a intenção do realizador mostra que se trata de reflexo de uma cultura que sexualiza a violência e não uma decisão artística consciente.  Retratada como excêntrica mas ingénua, Leeloo, protagonista do filme The Fifth Element, é excessivamente sexualizada apesar de ser completamente inocente relativamente à sua sexualidade. Apesar de ser adulta, é utilizada como objeto de admiração por parte do protagonista, e como objeto de gratificação da violência, sexualizada não só na sua indumentária, mas também nos seus movimentos de combate, pautados por piruetas e maioritariamente dependentes da exposição das suas pernas e rabo, algo que não acontece com os personagens masculinos.

Até nos clássicos, como é o caso da saga de James Bond, o macho alfa acaba sempre por dominar sexualmente a relação com um pouco de violência gratuita à mistura. Uma das cenas mais chocantes acontece em Goldfinger, onde uma cena de sexo, supostamente consensual (num estábulo, já agora), nos apresenta uma mulher a resistir aos avanços sexuais de Bond. Apesar da natureza forçada do seu encontro sexual, James Bond é considerado o herói e esta cena é glorificada e vista como sensual. Uma situação similar está presente em Blade Runner, só que recorrendo à violência para consumar um beijo e não a penetração.

Estes são o tipo de cenários em que o parecer coletivo é de que a mulher “está a fazer-se de difícil”, que funciona como uma espécie de apelo pervertido que nos diz “Convence-a”. Mas e se ela não quiser ser convencida? O que é que nos levou a crer que um “não” é sinónimo de “convence-me”? O que é que nos levou a crer que todos gostam de sexo agressivo e que a violência só traz uma intensidade positiva à relação?

É compreensível que ao fim de muito tempo a consumir este tipo de conteúdo acabemos por adequar as nossas expectativas nas relações a este padrão. No entanto, até que ponto é que esta construção social justifica determinados atos e comportamentos?

A Justiça portuguesa tem sido alvo de fortes críticas devido a certas decisões consideradas sexistas e misóginas terem feito rondas nos jornais. Vários colunistas, jornalistas e grupos activistas condenaram decisões judiciais pelo seu tom discriminatório e violento. Uma decisão muito popular e relativamente recente que gerou uma onda de indignação nacional e desencadeou manifestações em várias cidades foi a decisão do juiz Neto Moura que ficou apelidado como o “juiz das mulheres adúlteras”. Este senhor concluiu que uma traição justifica agressões extremamente violentas – em pratos limpos, a violência doméstica é válida sob determinadas circunstâncias. Lê-se nesse acórdão que “o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”. Um outro caso que esteve também na berra tratava uma violação, ocorrida uma discoteca, de uma rapariga por parte de dois homens, funcionários desse mesmo estabelecimento. A rapariga estava inconsciente e não pôde resistir. O tribunal decidiu que houve um ambiente de “sedução mútua” e que não existiu violência. Se até na justiça que nos rege as agressões são sexualizadas e as decisões são tomadas com base numa cultura que ainda acha que a mulher deve ser convencida, como é escapamos deste paradigma tóxico?

Segundo as estatísticas da APAV, entre 2013 e 2018 foram registados em Portugal 5.228 crimes sexuais, o que correspondeu a um aumento de 130% ao longo desses 6 anos. 92% dessas vítimas são mulheres e 75% são meninas entre os 11 e os 17 anos. Um momento, vamos ler novamente: 75% são meninas entre os 11 e os 17 anos. Peço desculpa, vamos rever: 0.75 x 5.228 = 3.921. Três mil novecentas e vinte e uma crianças abusadas sexualmente em cinco anos. Estamos a dizer que, em Portugal, em média, duas raparigas entre os 11 e os 17 anos são abusadas diariamente.

Pronto, podemos prosseguir – o que é que estes números representam? Representam a sexualização abusiva de menores? Ou representam, de uma forma mais rebuscada, a infantilização das mulheres por parte da cultura?

Definida pela sua inocência e inexperiência especialmente quando se trata de sexo ou romance, a mulher é também muitas vezes representada desta forma pelo cinema. Numa veia similar ao já mencionado The Fifth Element, o filme Tron: Legacy traz estas características novamente para as luzes da ribalta: estamos a falar de um corpo feminino já formado e maduro com a mente de uma criança ingénua. A personagem principal é descrita exatamente dessa forma: "Profoundly naive and unimaginably wise”. O que une todas estas personagens femininas é o facto de nenhuma delas ter consciência do seu sex appeal e, ainda assim, admirarem loucamente os heróis masculinos. Os heróis masculinos apaixonam-se pelas mulheres pela sua inocência e não apesar dela, o que acaba por representar uma constante obsessão pela superioridade, uma obsessão por exercer poder sobre uma menina inocente e desprotegida. Creio que instintivamente sabemos que há algo de errado com este tipo de dinâmica sexual – o subtexto praticamente pedófilo é algo demasiado profundo e repugnante para ignorar – e temos uma responsabilidade para com as mulheres, principalmente as mais suscetíveis de se encontrarem neste tipo de armadilhas (as mais novas): a de lhes explicar que estas ‘relações’ não são saudáveis e que as colocam numa posição de infantilização constante que as impede de amadurecer emocionalmente e sexualmente. Este tipo de situações não está confinado à cultura ocidental, sendo provavelmente o maior infrator o anime japonês, onde a prevalência de mentes de crianças em corpos de mulheres é algo comum a muitas séries ao ponto de já se ter tornado um ponto de referência cultural – vão a qualquer fórum da internet e inevitavelmente vão deparar-se com, entre outros, o termo waifu. Da mesma forma que os americanos dispõem de explosões, metralhadoras e bandeiras no seu cinema comercial, os japoneses utilizam vozes femininas infantis em personagens submissas dentro corpos completamente desproporcionais em diversas séries de anime – na verdade, não é raro encontrar discussões online sobre os méritos deste tipo de personagens, apelidados de lolis. Sim, lolis. De Lolikon. De Lolita. Exato.

É completamente possível que esta representação do sexo feminino se deva ao medo de perder a vantagem intelectual sob as mulheres e se trate de uma fantasia masculina para escapar à humilhação dos seus próprios defeitos. Filmes que representam a mulher desta forma são tipicamente filmes escritos por homens e para homens até porque normalmente o inverso não é representado da mesma forma. É raro que mulheres confiantes e determinadas se apaixonem e vejam como sensual a ingenuidade e falta de jeito de um homem; nestes casos, surge quase sempre um homem ainda mais confiante e ainda mais determinado pelo qual a mulher sente uma certa submissão e uma certa vontade de ser vulnerável. Existe, de facto, uma violência sexual subentendida nos media e é muito difícil abstrair-nos deste tipo de cultura por ser tão pervasiva e dar azo a debates e discussões em que as emoções acabam por tomar as rédeas.

É frequente associar violência sexual unicamente a violações, mas a verdade é que existem muitas outras formas de violência que abrangem todas as formas de contacto sexual indesejado – afinal de contas, o ser humano já pratica a violência há milhares de anos; seria chocante que esta não fosse um dos nossos maiores talentos enquanto espécie.  

Violência sexualizada é um termo vasto usado para descrever qualquer agressão, física ou psicológica, praticada por meios sexuais ou referindo-se à sexualidade, explícita ou implicitamente. A verdade é que vivemos numa época em que é difícil fazer sempre uma triagem de conteúdo e é ainda mais difícil fugir a um padrão que nos é imposto de forma inconsciente. Acima de tudo, é cansativo. É cansativo analisar todos os casos ponderadamente e com o tempo que eles merecem sob o risco de fazer julgamentos sumários sem dispor de todos os factos e ferramentas de análise, principalmente quando o planeta está a arder, a derreter, a afundar e a abarrotar simultaneamente. É difícil focarmo-nos nos padrões de discurso sexual, social, romântico, cultural, económico, político, tecnológico, moral, ético e filosófico e ainda sobrar tempo para comer e para dormir. Existem imensos estímulos aos quais temos que responder todos os dias. Ainda assim, devemos questionar-nos continuamente se os nossos comportamentos, ideais e expectativas dignificam não só os outros, mas também a nós próprios. Não podemos imediatamente assumir que se trata de uma sexualidade agressiva, quando é inteiramente possível que se trate de uma agressão sexualizada.

 

Ana Sofia Alcaide

Aluna do 2.º ano da Licenciatura

15
Ago20

This is America: Uma Música, Um Movimento

Jur.nal

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Lançado em 2018, o single do rapper Childish Gambino foi desenhado com o intuito de espelhar a problemática da cultura afro-americana e da violência nos Estados Unidos da América.

Entre contrastes na melodia, onde vigoram tons alegres das vozes de um coro, e batidas, iniciadas pelo som dos disparos das armas, que refletem o peso da violência naquele país, e representações peculiares visíveis no videoclipe, que remetem para um conjunto imenso de metáforas sociais, Childish Gambino procurou sensibilizar os ouvintes para uma realidade que há muito é vivida, num país em que a escravatura ajudou a erguer os pilares da democracia e a raça negra continua a ressentir as influências do passado.  

De facto, os recentes movimentos de contestação contra o racismo e abusos policiais nos EUA (o principal, conhecido por «Black Lives Matter»), que tiveram como ponto de partida a morte por asfixia de um cidadão afro-americano, George Floyd, provocada por um grupo de agentes da polícia de Minneapolis, Minnesota, que agiram de forma desproporcional perante o crime provocado por aquele, traduzem um grito de revolta de indivíduos de cultura negra, que se sentem ameaçados e discriminados, por serem tratados de uma forma diferente relativamente aos restantes, em toda ou em certas circunstâncias. É neste sentido que, imbuídos pelo cansaço a que estão constantemente sujeitos, a arte musical surge, em defesa daqueles que não são ouvidos de uma outra forma. Durante o movimento “#BlackOutTuesday”, ocorrido a 2 de junho de 2020, o single de Childish Gambino foi uma das músicas mais ouvidas no serviço de streaming Spotify naquele país, atingindo o pódio nesse mesmo dia. Pelo facto de estar carregada de enorme simbologia e por se focar, essencialmente, na comunidade negra e na violência a esta associada, a canção serviu de apoio a um número elevado de manifestantes, como forma de protesto contra a violência policial e ao racismo ressentido nos EUA, e, acima de tudo, de meio para transmitir a mensagem que lhe subjaz, com o intuito de provocar mudanças no tratamento social e de consciencializar aqueles que defendem a superioridade racial.

This is America reflete uma infeliz realidade, que perdura há muitos anos. O estereótipo criado do indivíduo afro-americano impede que, numa primeira instância, se aceitem mudanças nos padrões sociais, na medida em que os cânones sociais comportam ainda este caráter de diferenciação os indivíduos de raça branca e negra. Tal como ainda é demonstrado no videoclipe, a violência e o ódio quanto a estes é outro fator que faz mobilizar milhões, atualmente. Num dos seus momentos, Childish Gambino aparece empossando uma arma automática, disparando contra um coro afro-americano, retratando o massacre da igreja de Charleston, EUA, em 2015, provocado por um terrorista defensor da supremacia branca. Este é apenas um dos muitos exemplos de crimes de ódio a que parte da sociedade norte-americana está sujeita. Ainda assim, é de salientar que houve repercussões por todo o mundo, relativamente aos recentes eventos de abusos policiais, violência e racismo vividos nos Estados Unidos da América. Com esta disseminação, conduzida pelos ventos da globalização, procura-se erradicar aqueles atos e tornar a «aldeia global» mais igualitária e consciente, evitando o seguimento de uma tendência, que deve ficar relegada à História.  

 

Rúben Cirilo

Aluno do 2.º ano da Licenciatura

09
Ago20

Phantasus

Jur.nal

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Sou a chuva que não cai

E o sol que não doira,

A nuvem que nunca aparece

E o relâmpago que jamais estoira.

 

Sou o vento silencioso e infindável

Que vagueia errante,

Um protótipo de nada que fadado foi

A existir numa deambulação constante.

 

No vazio do preto e branco intrínseco

Vai crescendo uma glamorosa flor,

Uma rosa vermelha coberta de letras

Que me permite vislumbrar uma ínfima cor.

 

Um vislumbro ténue e desfocado,

Paradoxalmente doloroso e colorido,

Um vislumbro quimérico e distante,

Mas luminoso e portador de sentido.

 

Do sentido que naquela tarde de inverno

Com lágrimas se desvaneceu,

Do sentido que outrora julguei perdido,

Mas que avistei hoje ao contemplar o céu.

 

O céu pintou o reflexo desta rosa

Que com as vísceras rego diariamente,

Que seja ela por ti um dia arrancada

Para que o destino possa dizer que não mente.

 

Até que os deuses façam esse momento florescer

De um mero almejo não passarei,

Tudo o que julgo ser esculpido está nesta rosa,

Pelo que se a tua alma a não ler nada eu serei.

 

Esta espera é uma lâmina que me fere

O peito sem misericórdia nem pudor…

O encarnado vivo do sangue que me faz derramar

Transparece a vida do perene amor.

 

É essa vida que me suscita um desmensurado desejo de viver,

Ainda que por ora somente vivida seja através da dor…

Que venhas depressa e ilumines as minhas sombras,

Que me faças ser um trovador inebriado pela paixão e pela cor.

 

Quero contemplar o brilho da rosa escrita no teu olhar

E perceber que sentes o que jamais deixei de sentir,

Quero fechar os olhos para nos poder ver

E enfim a sensação da tua mão no meu peito conseguir.

 

André Neves

Aluno do 3.º ano da Licenciatura

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