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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

20
Dez19

Top Álbuns 2019

Jur.nal

Por: Jefferson A. Fernandes (aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

  1. Fine Line, Harry Styles

 

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Quando todos esperavam um “Harry Styles” 2 (primeiro álbum a solo do artista), Harry Styles, no dia 13 de dezembro, mostra-nos algo novo. Fine Line caracteriza-se como um dos melhores álbuns do ano, tanto pela sua complexidade (a música Watermelon Sugar demora um ano a ser produzida na sua totalidade) como pela sua pureza. Num tom de “retro pop rock”, Harry Styles explora cada faixa no seu expoente máximo. Um álbum que acaba por marcar a década, não só pela qualidade, mas pelo cantor. Harry Styles é, atualmente, umas das maiores figuras do mundo da música.

 

  1. Bubba, Kaytranada

 

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Ao senhor que conseguiu meter o SBSR de pernas para o ar. Nada fora daquilo que se estava à espera. Bubba chega às plataformas e sem grande publicidade o artista consegue juntar nas suas faixas artistas como SiR, Kali Uchis, Masego, Pharrell Williams e muito mais. Um álbum a não perder.

 

  1. Ginger, Brockhampton

 

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Possivelmente o melhor álbum do então grupo criado por Kevin Abstract. Um álbum totalmente sentimentalista que nos leva a um procurar por mais. Diz-nos tudo o que queremos. Não poderia deixar de estar nomeado para o top. O álbum surge após um momento em que o grupo estava meio separado, cada um a trabalhar individualmente nos seus diversos projetos, surgindo inclusive um álbum a solo de Kevin A, Arizona Baby, em que surge o então prodígio da música americana, Dominic Fike, na música Peach.

 

  1. Sou Rock N’ Roll, Dfideliz

 

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Dfideliz é uma das revelações da cultura brasileira. Lançando um álbum que me faz muito recordar o então Bluesman de Baco Exu do Blues, Dfideliz, vem reforçar a mensagem “Pode ficar puto quando eu tiver escrevendo”. Muito conhecido pela sua escrita um pouco pesada, este ignora as críticas e lança-se ao panorama nacional da música brasileira. Hoje conhecido por todo o país e enchendo arenas, podemos dizer que Sou Rock N’ Roll é um marco da música brasileira nesta década que acaba.

 

“Já vi muito moleque no morro
Tendo que fazer suas preces
E de passar sufoco, carai
Dinheiro é uma praga
Que eu desejo a todos que não merece”

 

  1. When We All Fall Asleep Where Do We Go, Billie Eilish

 

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Com apenas 17 anos, Billie Eilish lança o seu primeiro álbum alcançando o top mundial por diversas semanas consecutivas. Um álbum totalmente produzido pelo seu irmão Finneas (cantor e compositor) leva a que os bilhetes para os seus concertos se esgotem em horas (à semelhança do que aconteceu em Portugal, onde os bilhetes esgotaram em 40 minutos).

Com hits como Bad Guy e I Love You, Billie caracteriza-se como uma das cantoras mais requisitadas da nossa geração. Já nas palavras de Dave Grohl, antigo baterista dos Nirvana e atual vocalista dos Foo Fighters “Billie tem o mesmo efeito que os Nirvana tinham sobre as pessoas, é incrível.”

18
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte II)

Jur.nal

Ana: Bem, nós agora queremos falar um bocado sobre o vosso processo de composição musical. Nós sabemos que algumas das músicas partem de ti [para o Sebastião].

 

João: A maioria, talvez. Pelo menos as letras.

 

Ana: Exatamente, e isso é muito incomum nas bandas, porque normalmente não é o baterista a escrever as músicas, e nós queremos saber como isso funciona e como tu começas o teu processo criativo, como é que lhes passas as músicas?

 

JG: Acho que funciona muito bem… (risos)

 

SM: Como é que é o processo criativamente… Então, há contribuição [da banda] toda, mas como normalmente a imagem parte de mim, acaba por ser um bocado conduzido por mim, não havendo assim tanta liberdade, mas tento dar a sensação que existe (risos) quando a apresento, mas basicamente o que acontece é que nós, de repente, decidimos que vamos fazer mais um disco.

 

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JG: Isto foi o caso do segundo.

 

SM: No segundo e até mesmo no primeiro temos muito pouco tempo para as coisas, porque nos ocupa [tempo], e há sempre uma tentativa de surgirem coisas em conjunto e isso, mas depois é muito disperso, e não se chega a nenhum resultado. E acho que deve ser comum a todas as bandas, alguém ter de liderar [o processo]

 

JG: É difícil compor em grupo.

 

SM: Mas pronto, nessas divagações, até surgem algumas ideias lá no meio que não sei quem é que diz ou quem é que faz, mas há sempre qualquer coisa. Se calhar imponho-me um bocado, às vezes, mas só para definir.

 

João: Mas um bocadinho em cada instrumento, ou… ?

 

SM: Sim, tenho uma ideia para uma coisa e digo “faz aí isso” ou então alguém tem uma ideia e depois adapta-se e então surge um ritmo por cima daquela ideia, e depois aquela ideia vai fora e fica o ritmo, pronto, surgem elementos, e ficam lá. E depois, as ideias da música surgem por necessidade, ou outras não faço a pensar naquilo, na maior parte, simplesmente estou sempre a ter ideias e vou gravando as ideias, não sei bem para o que é que são na altura, e depois, quando é preciso, começo a tentar concretizá-las, ou seja dar-lhes algum tipo de sentido ou estrutura ou o que seja. E há uma ou duas músicas que fiz exatamente para isto, que foram feitas exatamente a pensar com aquele estímulo de “vamos fazer uma coisa nova” porque depois por acaso lembro-me sozinho e faço uma coisa a pensar nisto. Um exemplo é aquela da “Caravela”, que foi quando surgiu a possibilidade de sequer considerar um segundo álbum e começar a pensar o que seria. Foi uma coisa que foi feita a pensar naquilo.

 

JG: Aí já tinhas a guitarra?

 

SM: Não, depois acrescentou-se.

 

JG: Estás então a falar da letra?

 

SM: Estou a dizer a canção. Mas é isso, o processo criativo é sempre um bocado fragmentado, é sempre partes, na maior parte das músicas, até aquelas que parecem ser mais contínuas, tipo fluídas, os elementos vêm de várias ideias e de vários fragmentos. E depois é a questão de, eu não estar a fazer isto para mim, estou a fazer isto para ele [para o João Graça cantar], é difícil perceber que não posso fechar muito. Se eu quisesse fazer para mim, eu sei exatamente a dimensão que eu gostaria, ou a possibilidade de haver possibilidades. Aqui, eu tenho de experimentar, tenho que perceber porque são coisas, ao início, que eu imagino que resultam mas depois não resultam e tenho que mudar, não posso estar a trancar aquilo porque se não fico lixado (risos). Então é manter as coisas um bocado em possibilidade de mudança, e eu depois vou mostrando e experimentando, sendo que algumas coisas têm de ser firmes, porque eles podem não estar a ver por não estar lá na totalidade mas eu sei que pode resultar e então insisto em algumas coisas de outra forma para chegar a esse lado. Outras coisas realmente não resultam, e eu sinto logo que não resultam e por isso têm de se mudar. É um bocado triste (risos)... não sei se respondo à tua pergunta. Cada coisa, e cada música tem um processo muito diferente. Podes perguntar “esta aqui, como fizeste?”, mas passa por juntar ideias que vão sempre surgindo. Algumas surgem só voz, outras surgem só ritmo, outras surgem só melodia de instrumental, outras surgem em todos os elementos. Já tive ideias só de instrumental que depois adiciono a voz, já tive ideias só de ritmo que depois acrescentei instrumental, tipo já surgiram ideias específicas ou definidas de toda a gama de instrumentos ou elementos.

 

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João: A Caravela cheguei a mandar ao grupo da Tuna pelo Whatsapp, para fazermos uma versão. Ninguém pegou na ideia, mas pronto (risos). É muito gira a música.

 

SM: Mas a guitarra foi do Francisco, o guitarrista. Ele tinha uma linha de guitarra e, numa pausa de ensaios, eu experimentei cantar por cima da linha e funcionou, e depois a voz da Benedita era a única que podia…

 

João: Mas nunca pensaste em cantar também?

 

SM: Na banda?

 

João: Sim. As letras que escreves.

 

SM: Neste caso em específico, não sei.

 

JG: Fazes uns acordes às vezes…

 

SM: Mas mais porque é preciso para dar força. Acho que já experimentei coisas com a minha voz e apercebi-me de que na realidade não funciona. Com esta sonoridade não resulta, na minha opinião. Ele [o João Graça] tem um alcance muito maior neste tipo de música, e a música que eu faço para ele cantar ele consegue chegar muito mais às coisas que é preciso para aquele andamento.

 

João: No primeiro álbum, também foi assim? Ou não foste tu a liderar tanto o processo criativo. Eu sei que houve a presença do Pedro de Tróia....

 

JG: Sim, o processo criativo foi bastante diferente.

 

SM: Foi, mas eu reuni-me com o Pedro, e ele tinha uma ideia para a banda, e depois as primeiras músicas nós começámos a experimentar. E depois o Pedro começou a pegar naquilo e a dar ideias para mudar o andamento do instrumental, para ficar um pouco mais como este segundo, e pronto, mudou-se algumas coisas. E depois, a partir de uma ou duas músicas que definimos, o resto do processo foi com o Pedro, eu a ir ter com o Pedro, e imagina, ele tinha um refrão e depois eu surgia com o resto da música, ou então eu surgia com a música e com algumas coisas para acabar e ele acrescentava o que faltava, ou um verso. Era basicamente isto.

 

João: E agora, falando do primeiro álbum, como é que surgiu a ideia da Lena D’Água?.

 

SM: Foi ideia do Pedro.

 

JG: A história é gira: nós tiramos uma fotografia para promover o primeiro single em que fizemos uma montagem e colocamos uma fotografia da Lena D’Água numa moldura, que é uma fotografia em que está a Lena dentro de uma banheira com umas moedas.

 

SM: Não sei se és tu que está a segurar no quadro… Já não me lembro.

 

JG: Pronto, e dentro dessa moldura está uma imagem da Lena D’Água. E não sei qual foi a abordagem dela, se foi comentar, ou se foi uma mensagem ou algo assim, mas ela disse assim “Porque é que está a usar a minha imagem sem autorização?”. E nós ficamos um bocado assustados, mas o Pedro, como um gajo criativo, teve uma boa ideia e pensou em tirar um partido positivo daquilo.

 

João: Mas ela estava mesmo chateada?

 

JG: Eu suponho que era capaz estar um bocadinho (risos).

 

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João: Mas então conseguiram dar a volta?

 

JG: Sim, basicamente o Pedro disse-lhe, a tentar tirar um partido positivo, que haviam coisas que eram verdade, como o Pedro ter sido sempre um grande admirador dela, desde miúdo, e pronto, usámos a imagem de uma forma saudosista (risos) e então acabou por correr tudo, e ela até nos convidou a ir a casa dela… Para nós, é uma história assim meio engraçada. Depois, quando estávamos a gravar o disco, o Pedro convidou-a a participar naquele single do disco, A Volta ao Mundo com a Lena D’Água, e foi giro porque eu estava a gravar e não sabia que ela ia participar, mas depois de repente começo a ouvir a voz dela… Foi uma surpresa engraçada.

 

João: A próxima pergunta é sobre a vossa mudança de estilo do primeiro para o segundo álbum, porque fui buscar uma citação da Comunidade Cultura e Arte em que se dizia a certa altura “os coros colegiais foram a certa altura substituídos por uma faceta de inquietação”. E eu comecei a lembrar-me de outras bandas com o mesmo período de existência que vocês, talvez um pouco mais, e a pensar que o percurso deles é precisamente o contrário. Eles começam mais inquietos com os riffs de guitarra mais pesados, e depois tendem a ficar mais pop, como por exemplo os Capitão Fausto…

 

JG: Pois, nós estamos a tirar as amarras, e eles estão a apertá-las… (risos). Não posso falar pelas outras bandas mas acho que este disco tem uma carga tão diferente porque as nossas vidas foram-se desenvolvendo, o Sebastião criou as músicas mas vamos beber dessa criação e também nos identificamos, porque a verdade é que as nossas amizades continuaram a crescer em conjunto, e há aqui uma resposta a isso, e se calhar é o que eles querem dizer com, como é que eles dizem?

 

João: “Os coros colegiais foram substituídos por uma faceta de inquietação”.

 

JG: Faceta de inquietação… Eu acho que tem a ver com mais tensão, não sei, se calhar mais obscuridade, mais procura de dimensões que ainda não sabemos que existem… Não sei.

 

SM: Só dizer uma coisa, acho que não há nada de obscuro naquele álbum (risos). Não sei qual é a ideia que passa de negativo…

 

João: O design do disco está mais para esse lado obscuro…

 

SM: Pois, se calhar é isso. O que ficou e o que acabou por ser obscuro é a ideia de ser real, ou seja, de ser cru. E realmente as cores iludem de uma forma, e tu não vês aquilo que é, porque estás distraído: como há demasiada informação, não vês a gênese da coisa. E era mais nesse sentido, não tanto a obscuridade.

 

João: Eu ia insistir mais um pouco nesta mudança que claramente se sente. A guitarra está mais presente e mais agressiva, mas, então, não quer dizer que foi propositado ou pensado?

 

SM: Não, isso foi tudo pensado.

 

JG: É, mas é uma libertação daquilo que não se fez ao início.

 

João: Era o que vocês queriam fazer?

 

JG: Não sei se queríamos exatamente isso ao início…

 

João: Agora?

 

JG: Ah, agora sim. Até porque há uma resposta também àquilo que nós percebemos depois de começarmos a dar concertos, porque quando gravámos o [primeiro] disco nunca tínhamos tocado ao vivo. Quado comecámos a tocar ao vivo, percebemos que as músicas tinham uns arranjos muito mais a abrir e divertiamo-nos muito mais assim. Portanto, a resposta foi essa: vamos gravar uma cena assim.

 

SM: Foi também um bocado por conhecimento das qualidades de cada um e de tirar partido das coisas boas e coisas más.

 

JG: O Francisco faz ali uma boa camada de coisas diferentes com a guitarra e queríamos tirar partido disso, daquelas coisas mais vibrantes…

 

João: Ou seja, foi menos desperdício de talento.

 

JG: Não, era uma escolha criativa e agora foi outra.

 

Maria nês: Na mesma linha da outra pergunta, quais são as diferenças que vocês sentem na música portuguesa desde que começaram até agora?

 

JG: Sinto que cresceu imenso. Nós já aparecemos numa segunda vaga, porque a primeira é tipo Amor Fúria e assim, Flor Caveira e tudo mais. E nós já aparecemos inspirados por eles, e entretanto a coisa continuou a crescer muito mais, muito especialmente por causa deles, da Flor Caveira e de Amor Fúria, foram pioneiros nesta nova onda portuguesa, e se não fossem eles provavelmente não estávamos assim aqui. Mas crescemos e acho que está num excelente caminho, está ótima, há imensa oferta. Nos anos 90 só se consumia música estrangeira, e eu acho que neste momento temos condições para ter muito mais música nacional, seja cantada em português ou inglês, tanto faz.

 

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João: Eu já quase só oiço música nacional.

 

SM: A sério?

 

Ana: Ah, mas isso é porque não percebes inglês (risos).

 

João: Tinhas que me envergonhar Ana…

 

Ana: Desculpa (risos).

 

SM: Ah mas estás a falar a sério [em relação a só ouvires música portuguesa]?

 

Ana: Ele está a falar a sério.

 

SM: Mas isso é bom pá, é excelente. Há sempre muito impedimento [em relação à música portuguesa]…

 

João: E preconceito.

 

SM: Impedimento e preconceito, porque acho que há coisas que não consegues controlar neste processo, se calhar ouves música portuguesa e se calhar as pessoas estranham… Eu não oiço muita música portuguesa, por acaso, mas acho que há aí um bom caminho. Mais por causa do público.

 

Ana: Eu queria colocar ainda uma questão, nesta linha, vocês acham que as plataformas de streaming facilitam muito a divulgação de música portuguesa?

 

JG: De forma que facilita ouvir música que se calhar não seria ouvida se não tivesse editora. É ótimo, porque é muito fácil pôr a música online.

 

Ana: E receber benefício por isso, por exemplo vocês podem por no Bandcamp uma música mas não estão a ganhar com isso.

 

JG: Sim, mas acho que há benefício….

 

Ana: Vocês são apologistas de partilhar a música para as pessoas se divertirem a ouvi-la e não tanto para o benefício próprio de fazer dinheiro com isso?

 

JG: Sim, mas quando há benefício é ótimo.

 

SM: Eu acho que a posição aqui é um bocado diferente disso, acho que o objetivo nunca é esse, nós estamos a criar um vácuo para as pessoas que vêm a seguir, porque estamos a escavar cada vez mais a possibilidade disto, mas pá, toda a gente quer dispor o seu produto e toda a gente continua a fazer. As possibilidades estão cada vez mais reduzidas para quem ainda não tem poder, porque quem tem seguidores e tem estrutura consegue tomar mais decisões dessas. Neste momento nós não temos assim tanta liberdade para tomar decisões contra nós, estás a perceber? Mas gosto disso, e uso e desfruto disso, por isso, não pensei o suficiente sobre esse tema (risos).

 

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Ana: Na boa, nós compreendemos.

 

SM: Mas é importante, e acho que conheço as opiniões de diferentes pessoas, e compreendo-as todas, por acaso.

 

Maria Inês: Se vocês pudessem fazer uma colaboração com um artista português com qual seria?

 

JG: Nós já fizemos, com a Lena D’Água (risos).

 

Ana: Tirando a Lena D’Água…

 

João: E o Pedro de Tróia também.

 

JG: Acho que o Sam the Kid… Não sei, estou a gozar (risos). Nunca pensei em mais nenhuma colaboração, pelo menos numa específica, como aconteceu com a Lena.

 

Maria Inês: E internacional?

 

JG: Internacional? Isso é muito mais difícil… Nós cantamos em português…

 

SM: Com o Quim Barreiros (risos).

 

Ana: Se calhar, ele é muito divertido portanto…

 

JG: Nós por acaso nunca pensámos nesse tipo de colaboração, mas poderia acontecer… Não sei é com quem.

 

SM: Mas há essa possibilidade?

 

JG: Não, por acaso não (risos).

 

João: E com outra malta do vosso estilo? Luís Severo, Filipe Sambado, sei lá…

 

Ana: Estás a rotular o estilo agora… Já falámos sobre isso… (risos).

 

João: Pronto, não no vosso estilo mas da vossa onda.

 

JG: Talvez… É muito mais giro misturar coisas completamente diferentes…

 

SM: E não se sabe o que iria resultar, e isso é bom. Muitas parcerias que resultaram foram tipo novo e velho, aquela do Carlos Santana no Maria Maria, são dois miúdos do soul da altura, não faz sentido…

 

JG: Não sei quem canta, sei que é música do Santana. Cenas diferentes como Manuel Cruz e o Carlão resultou muito bem.

 

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João: Ok, última pergunta. Quem faz?

 

Ana: És tu, para acabar em grande.

 

João: Então vá, eu faço metade e tu fazes a outra metade.

 

Ana: Ok, pode ser.

 

João: Qual foi o concerto que mais gostaram de dar até agora? Assim em 5 segundos.

 

JG: Deste ano?

 

João: Não, de sempre.

 

JG: Eu gostei muito do Mexefest. Foi muito fixe.

 

SM: O Bons Sons.

 

JG: Pois, o Bons Sons também foi maluco.

 

Ana: Bem, última parte da questão: qual é o concerto que falta dar?

 

JG: Faltam muitos…

 

Ana: Deste ano falta o do MusicBox não é (risos)?

 

JG: Não sei o que falta…

 

João: Tendo em conta que vocês são independentes e não mainstream, qual é aquele palco?

 

JG: Não há uma relação direta entre independente e mainstream

 

João: Agora tramaram-me.

 

JG: Há muita malta independente que é mainstream, como o Bon Iver por exemplo.

 

SM: Mas cá em Portugal?

 

João: Sim.

 

SM: Um palco em Portugal…

 

JG: Eu percebo o que queres dizer, o caminho é mais difícil, mas nunca é associado. Tem a ver com aquela cena das aventuras.

 

SM: Um dos maiores palcos em que eu já estive, foi há para aí 10 anos e não tenho ideia de ver aquilo, mas foi o do Santiago Alquimista.

 

JG: Antigamente haviam imensos concertos lá, era ao pé do Castelo São Jorge. Acho que agora foi comprado…

 

SM: Mas estás a falar de um festival, ou?

 

João: Não, o que vocês acharem melhor.

 

SM: Não sei… Graça, tu conheces palcos, andas aí a agenciar coisas…

 

João: Altice Arena?

 

Ana: Isso tem uma acústica péssima.

 

JG: Mas há sítios giros…

 

SM: O Coliseu dos Recreios pá, esse palco é incrível.

 

Ana: E tem uma boa acústica.

 

SM: Por acaso tem, é perfeito.

 

João: Fica esse (risos).

 

JG: É difícil fazer estes planos assim, tanto esse como outro qualquer. Coisas grandes.

 

SM: Portanto, segundo o Graça, tudo e nada (risos).

 

JG: Todos e nenhum. Mas falta-nos imenso ir ao sul.

 

Ana: Pois, vocês nunca tocaram no Festival F pois não?

 

JG: Não.

 

Ana: É em Faro, lembrei-me agora assim…

 

JG: Pode ser para o ano, mas mesmo sem ser em Faro, nunca fomos tocar ao sul, sem ser a Évora, foi o mais sul que fomos.

 

João: Falta essa parte.

 

JG: Sim, acho que pode ter uma caraterística cultural, o facto de ainda não termos lá ido. Acho que há menos oferta em geral, menos coisas a acontecer em geral, não é?

 

Ana: É verdade.

 

João: Tens mais centros de cultura de Lisboa para cima.

 

JG: Do que para baixo. Sim, mas falta-nos ir ao sul de Portugal.

 

João: Depois se forem ao Algarve não podem tocar os “Montes da Beira” (risos) porque ninguém vai perceber…

 

SM: Tem que ser as “planícies” (risos).

 

Os entrevistadores: Ana Machado, João Duarte, Maria Inês Opinião

Fotografias: Sara Pacheco

16
Dez19

Manifestantes e governo de Hong Kong em rota de colisão

Jur.nal

 

 

O 25 de novembro de 2019 foi um dia significativo na história de HK. O bloco pró-democracia conseguiu, pela primeira vez, vencer as eleições distritais duma forma esmagadora e obter a maioria em 17 das 18 assembleias locais. O número dos lugares ganhos por este era 389 enquanto que os obtidos pela força pró-governo eram apenas 59, contrariando todas as expetativas de Pequim. Muitos consideram tal vitória inédita da oposição “uma bofetada ressonante” face às medidas repressivas tomadas pelo governo chinês no decurso dos últimos 9 meses em virtude das manifestações contra a alteração da Lei de Extradição.  

 

A fim de entender melhor o contexto deste assunto que tem atraído os holofotes internacionais, convém relembrar-nos dsua origem, um homicídio cometido por um jovem de Hong Kong durante uma viagem a Taiwan no dia 17 de fevereiro de 2018. Depois de ter morto e desmembrado sadicamente a namorada grávida, o homem fugiu para a terra natal no próprio dia. O crime foi descoberto no imediato, porém, a autoridade taiwanesa não conseguiu fazer nada. Enviou por três vezes pedidos de colaboração à região autónoma chinesa, os quais foram negligenciados por esta última devido à ausência de acordo de extradiçãopara além das subjacentes relações esfriadas entre a China e Taiwan após o Partido Democrático Progressistao qual rejeitoo princípio de “uma só China”, ter chegado ao poder na ilha Formosa em 2016. 

 

Em contrapartidao tribunal de HK não pôde incriminar o homicida, apesar de este já ter admitido o crime, visto que sistema jurídico da ex-colónia britânica adere ao princípio da territorialidade e não exerce tutela em relação aos crimes cometidos fora da sua fronteira.  

 

Neste contexto, a Chefe Executiva de Hong Kong Carrie Lam propôs a alteração da Lei de Extradição um ano depois, dando luz verde à transferência de fugitivos para outras partes da China, inclusive Macau, e Taiwan, que o governo chinês sempre considerou uma província sua mesmo que já se tenha separado dela desde o que o Partido Comunista conquistou o país em 1949Não obstante, surgiram suspeitas de que tal proposta tivesse sido orientada pelo governo central ou fosse elaborada para o agradar, fazendo com que este tome o leme na área jurídica da cidade autónoma e possa extraditar pessoas que fossem por si condenadas.  

 

A proposta gerou logo no primeiro momento contestações do tecido empresarial e da comunidade estrangeira desse centro financeiro mundial que é HK, o qual serve de trampolim para investimento no mercado mais populoso do mundo. O primeiro receou que fosse perseguido pelo governo em virtude das suas atividades na China continental, tendo em conta o seu pecado de origem, nomeadamente a inevitabilidade de pagar luvas aos funcionários públicos do alto nível em troca de obras e de recursos no âmbito do national capitalism chinês. E a segunda teve pavor de ser objeto de represália judicial em virtude da detenção da diretora financeira da Huawei pelo Canadá, na altura a pedido dtribunal norte-americano.    

 

Concomitantemente, o público em geral também não aclamou a proposta, tendo receio da manipulação do sector judicial pelo Partido Comunista chinês e das condições desumanas do sistema prisionalUm dos rostos na fase inicial da oposição foi Lam Wing-kee, um docincos protagonistas do misterioso caso Causeway Bay Booksque foram alegadamente raptados pelos agentes secretos chineses em Hong Kong por terem publicado e vendido livros dizendo respeito a temas censurados, inclusive rumores sobre a vida privada do Presidente da RepúblicaTendo sido encarcerado no continente chinês durante mais de 7 meses, o livreiro que ainda é fugitivo procurado pela autoridade nacional, autoexilou-se em Taiwan logo depois de a proposta ter dado entrada no Conselho Legislativo de Hong Kong, temendo a sua extradição para a China sob acusação de “operação do negócio ilegal”.   

 

Tampouco os profissionais jurídicos em Hong Kong se satisfizeram por essa alteração. A Ordem de Barristers de Hong Kong considerou que proposta negligenciava a diferença entre os sistemas jurídicos da China continental e Hong Kong e os registos do governo chinês na área dos direitos humanos. Manifestou ainda preocupações relativas ao excesso do poder discricionário da parte executiva em relação aos casos de extradição, segundo a proposta.  

 

De modo expectável, Taiwan, denominado oficialmente como República da China, impugnou a proposta por esta a considerar uma parte da República Popular da China com a capital em Pequim, rebaixando, assim, a sua soberania, apesar de não ser amplamente reconhecida pela comunidade internacional, devido à objeção de Pequim. Tsai Ing-wen, a presidente do país insular, alegou que não colaborava com Hong Kong no âmbito da nova lei, mesmo que esta fosse aprovada pela assembleia da região autónoma chinesa.  

 

Apesar de tudo, a situação manteve-se relativamente controlável até junho deste ano, altura em que a proposta foi sujeita à sua primeira leitura na assembleia. A fim de impedir a sua segunda leitura, mais de um milhão das pessoas saíram à rua no dia 12. Apesar do protesto ser genericamente pacífico, ocorreram vários conflitos entre a polícia e manifestantes mais radicais, que inclusive usaram cocktail molotov. O número dos manifestantes foi chocante tendo em conta que a população total da região se fixa por volta dos sete milhões e quatro centos mil habitantesNo entanto, perante tal manifestação inédita, a primeira reação do governo foi acusar a manifestação de motimnão pretendendo fazer nenhuma cedência em relação à propostaA seguir, teve lugar uma outra manifestação ainda maior três dias depois com cerca de 2 milhões de participantes. Desta vez, Carrie Lam pediu desculpa ao público e o governo reagiu com a suspensão da proposta, embora rejeitando as cinco revindicações da oposição, a saber: retirada definitiva da proposta; libertação incondicional dos manifestantes detidos; estabelecimento de uma comissão independente da investigação sobre as violências entre a policia e os manifestantes; retratação da caracterização de motim” em relação à manifestação ocorrida no dia 12 de junho; realização de sufrágio universal para as eleições do Conselho Legislativo e do Chefe Executivo. Neste contexto, o governo de HK e os manifestantes encontram-se em rota de colisão  

 

Durante o protesto ocorrido no dia 1 de julho, centenas de manifestantes invadiram o Palácio da assembleia regional, pondo graffitis no emblema nacional chinês colocando, até, durante poucos minutos, a bandeira britânica em frente do hemicicloEsse comportamento herético foi visto pelo governo chinês como flagrante blasfémia e traição contra a dignidade soberana e as emoções nacionais, tendo em conta a amargura histórica resultante da anexação de Hong Kong pelo Império Britânico em que o sol nunca se põeduma maneira faseada, na sequência das Guerras do Ópio e da Aliança das Oito Nações no século XIX e no início do século XX.   

 

O antagonismo ainda se agravou mais no final do mês em virtude do ataque de Yuen Long, no decurso do qual um grupo mafioso vestido de camisolas brancas atacou indiscriminadamente os passageiros à volta da estação de metro Yuen Long, entre os quais muito manifestantes vestidos dpreto. Os rumores de que este ataque foi conspirado pelas forças pró-Pequim alimentaram-se devido aos factos de que a polícia só chegou ao local meia hora depois de ser contactada. Também Junius Ho, deputado pró-Pequim, apertou as mãos dos atacantes, elogiando-os como “heróis”, logo a seguir à violência. Posteriormente, a atitude da força pró-governo em geral foi ambígua, mostrando certas reticências em condenar o ataque.  

 

A partir daí, algumas ruas da cidade transformaram-se em quase trincheiras de guerra na medida em que nos meses seguintes se observou o desencadear de uma chuva de protestos. seu auge foi cerco da Universidade Politécnica de Hong Kong pela polícia em novembro. Após ter entrado num jogo do gato e do rato com a polícia, omanifestantes mais radicais deslocaram-se à Universidade, destruindo os equipamentos do túnel Cross-Harbour e bloqueando a estrada com vista a paralisar o transito urbano, que deu razão para a polícia cercar o campus universitário durante mais de 2 semanas, terminando apenas 2 dias depois das eleições, depois dos alegados manifestantes, que totalizaram 1.377 pessoas, se terem entregado àautoridades.   

 

Além dos confrontos no mundo realtambém os houve no espaço virtualOs mesmos não só aconteceram entre forças contra e a favor do governo, mas igualmente entre residentes locais e os de fora, e até entre gerações mais velhas e as mais novasSendo a Internet um outro campo de batalha, cada lado tenciona compartilhar as informações mais favoráveis a si próprio como se houvesse dois universos em paralelo. Enquanto os simpatizantes da oposição põem gosto em imagens em que se evidencia o abuso da força pela polícia contra os estudantes indefesos, os apoiantes da autoridade, entretanto, fazem circular um vídeo composto por cenas de agressões a um senhor idoso por manifestantes jovens devido à discrepância das opiniões. Enquanto os alunos do continente chinês levaram tareias dos de Hong Kong nas várias universidades australianas simplesmente por estes últimos terem protestado contra a lei da extradição, os estudantes chineses em Hong Kong retiraram-se para o continente devido à hostilidade dos manifestantes radicais. É lastimável que as pessoas só se interessem por verdades das quais correspondem as suas convicções e as suas opiniões não se adquirirem a partir da análise dos factos, mas pela mera inferência da ideologia forjada. 

 

A vitória do bloco pró-democracia foi conquistada no meio dessas divisões insanáveisTanto o governo como a oposição ficaram boquiabertos perante os resultadosdado que por mais audaciosa que fosse a previsão, não teria antecipado uma derrota tão humilhante para a força pró-Pequim. Com efeito, essa disparidade entre os dois em termo de lugares vencidos nas assembleias distritais também se deveu ao sistema uninominal maioritário. Se se considerar só as percentagens dos votos ganhos, a vantagem do pró-democracia não era tão esmagadora face ao seu adversário, tendo obtido 57 por cento dos votos o primeiro e 41 por cento o segundo. Ademais, alguns acreditam que o governo central chinês estivera convencidoaté ao último minuto antes da apuração dos votos, de uma vitória dos seus aliados, dado as informações sempre agradáveis proporcionadas pelo Gabinete de Ligação do Governo Central da China em Hong Kong, através do qual Pequim consegue impor a sua diretriz na administração da região. Caso contrário, não teria permitido a realização imediata das eleições.  

 

Embora o túnel adjacente da universidade politécnica tenha voltado a funcionar logo a seguir à intervenção policialainda estamos muito longe de ver luz ao fundo do túnel em relação à saída do impasse relativo aos conflitos.  

 

Receando que uma concessão em qualquer solicitação da oposição resultasse em mais apelo à democracia pela esta última e um efeito cascata nas outras regiões que sofrem problemas congéneres tais como o Tibete e Xinjiang, Partido Comunista chinês manterá firmeza acerca da sua atitude com os manifestantes, independentemente dos resultados das eleições e da chuva de críticas. Por conseguinte, seria inadmissível para este renunciar às rédeas do poder na questão do sufrágio universal a curto prazo.  

 

Por outro lado, não acredito também que os manifestantes, maioritariamente jovens na casa dos vinte anos, desistiam do seu apelo à democracia facilmente. Influenciados profundamente pelos valores liberais do ocidente, os jovens de Hong Kong insistentes nas suas causas seriam rebeldes demais para serem domesticados pelos dogmas obsoletos do comunismo maoísta e pelos valores tradicionais chineses.  

 

Por conseguinte, o futuro de Hong Kong jamais será otimista. O governo e os manifestantes continuarão a encontrarem-se em rota de colisão e o preço disto é a estabilidade e a prosperidade da cidade serem inevitavelmente postos em causa.  

 

Xavier de Macau

 

12
Dez19

Uma Aventura no Oriente III

Jur.nal

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Já se vai evaporando esta miragem deslumbrada com cheiro a novidade. Já sabe a pouco este vinho que me deixava alegre.

O que é voltar? Voltar significa regresso, mas a que chamam ao retrocesso de um processo que envolveu mais que lançar cartas?

Já pouco aqui se passa que chame a atenção, pois a lei da vida é a racionalização de qualquer significância ao nada.

Uns despedem-se das aventuras pelo globo.

Há quem se despeça mais do campus, do quartinho que decorou para poder chamar de casa.

Outros despedem-se uns dos outros, com promessas de voltar.

E há sempre quem se vá despedindo de cada bocadinho rotineiro, cada lugar no qual, inconscientemente, se senta todos os dias na cantina, aqueles noodles de pequeno-almoço, o inverno que mais parece primavera, a biblioteca de estética arquitetura com milhares de livros espalhados em 5 andares; e das relações de vizinhança – vida cheia de gente, contente descontente, se cruza todos os dias e dá aquele apoio moral na única despedida que temos tido em comum: mais uma pinga de café por cada página virada, cada desespero nesta correria de 2 semanas nas quais já pouco nos cruzamos, no que não seja nesta companhia de noites de estudo esquizofrénicas de quem corre contra o tempo.

E ele não pára de correr.

Mas resta alguém que se despeça de si próprio? Também isso será comum?

Resta-me a graça desgraçada de me arrastar por velhas ruas e velhas gentes, enquanto todos se voltam a expressar na forma mais eficaz de violência: e vai um boato, e vai uma ofensa e vão posts de raiva injustificada. Encolhem o mundo na rotina da mesma hora, transporte, bom dia, boa tarde, qual tranbordo de sociabilidade perfumada! Perfume de intenso e espalhado que enjoa, bem como os sucessos efémeros das vedetas na sua bolha.

Aqui absorve-se água transparente, desde luzes nela refletidas até horas depois as nuvens se esgueirando perseguindo-se em linha reta.

Será um televisor sem sinal que só mostra quadradinhos pretos e brancos que se ondulam sem perderem forma, ainda que disformes?

Mas que na verdade absorve a vista no primeiro momento e de resto já capta o preguiçoso embasbacado, que com vício se deixa especar nesse nada.

Olhar cativo da rotina que sempre cativa pelo conforto. Como se sonha acordado, lá olhamos e voltamos a fitar, até que desviamos o olhar e, por alguma ciência que não me cabe a mim deslindar, já ele se acostuma ao padrão e ainda está a ver a quadrilhagem ao redor. Que impressão causa esta cegueira de vermos tudo igual.

Receio que crie nova velha deficiência de tanto ver mais do mesmo e que o que de colorido vi fique sotoposto, que sempre que tente ver o programa, continue a ir abaixo e me volte a juntar ao vício do preto e branco e não me vou querer levantar. Dá trabalho.

Porque tudo dá trabalho e se nos habituamos, deixamo-nos perder nessa fixação. Se um dia temos a chave de mudar, podemos bem perdê-la e não há chave duplicada.

E se perco?

No fundo que mudança de mundo quando se sai do televisor e estamos em casa, passa o circo e não sou personagem do outro lado; é Natal e mais um ano passa.

Adeus Macau.

E se perco

Já não sei a morada.

E se não souber

Espalhou-se por aqui que não há morada fixa.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

10
Dez19

Entrevistas #7 - Ciclo Preparatório (Parte I)

Jur.nal

Num frio fim de tarde o JUR.NAL, pela mão dos entrevistadores João Duarte (3.º ano da Licenciatura), Maria Inês Opinião (2.º ano da Licenciatura) e Ana Machado (Mestrado em Forense e Arbitragem), com as fotografias da Sara Pacheco (3.º ano da Licenciatura) recebeu na sala 007 Sebastião Macedo e João Graça dos Ciclo Preparatório, banda independente de Lisboa que conta já com vários anos de estrada e dois álbuns (o mais recente, Se é Para Perder Que Seja de Madrugada, de 2018).

 

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Ana: Surgiu-nos uma pergunta muito profunda que é: porque é que é melhor perder de madrugada?

João Graça: Pá, realmente nunca pensei muito sobre isso…

João: Foi letra tua? [Pergunta para o Sebastião Macedo].

Sebastião Macedo: Foi. Mas não significa que saiba (risos). Mas talvez seja porque tens a noite toda a tentar não perder, ou aceitar…

João: Portanto se for para perder é melhor de madrugada porque ainda está meio escuro…

SM: É mais uma coisinha para acrescentar…

João: São aquelas coisas que surgem no processo criativo sem nenhuma razão?

JG: Não, foi simplesmente parte da ideia dele, e ficou aquela frase e usou-se para o título do disco.

João: Bem, nessa linha queríamos saber - e fez agora um ano do lançamento do vosso segundo álbum - qual o balanço que fazem da receção do álbum?

JG: Este foi preparado e promovido de maneira diferente, com menos recursos, foi uma edição de autor. O primeiro tinha sido com a Optimus Discos, depois NOS discos. Depois a coisa ficou de outra forma. Foi um investimento muito grande da parte deles na parte da promoção. E agora fomos nós que fizemos tudo, com ajuda do nosso agente e manager. Portanto, agora tivemos menos impacto. Mas acho que a quem chegou foi bem recebido. Pelo menos percebemos que sim.

 

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João: O público gostou?

JG: Sim. Exatamente.

João: E isso notou-se nos vossos concertos? Ou seja, passaram 5 anos sem voltar, e quando voltaram notou-se?

JG: Sim, sim. Especialmente em Lisboa, que tivemos a casa cheia. Mas fora também: em Coimbra e no Porto o ambiente foi bom. Depois fomos assim à Covilhã, que também foi fixe.

SM: Mas acho que a nossa perceção sobre a receção do disco passa muito por estarmos muito mais confortáveis com aquilo que nós tínhamos feito. Ou, se calhar, mais conscientes. E podemos também desfrutar mais, mas essa é só a nossa perceção. Em termos estatísticos, provavelmente, o último foi [bem-recebido]. A nossa sensação deste é que estava tudo mais sólido e estruturado, e se calhar uma próxima coisa já será mais fluída.

Maria Inês: Tenho uma pergunta específica em relação a uma das músicas, que não sei se foste tu que a escreveste, mas é a “Montes da Beira”. O que é que se está a passar (risos)? Qual é que é a ideia por detrás?

SM: O que é que tu achas, o que te parece? Tens alguma ideia? Alguma coisa que te confunda?

Maria Inês: É assim, à partida, a primeira vez que ouvi essa música fiquei a achar que era literalmente montes da Beira, tipo Beira-Baixa, mas depois fiquei a achar que podia ser um bocado relacionado com a Guerra. E isto pode ser já um stretch, mas porque vocês têm um approach próximo à realidade portuguesa, tenho estas duas teorias.

Ana: Teorias da Conspiração (risos).

SM: Não, essas coisas estão todas lá. Estão é inseridas numa realidade que motivou a fazer aquilo. Mas estão todas lá. Podes ficar com isso. Não vale a pena eu estar a estragar com algo concreto que tenha que não te vai dizer nada. Estão todas na minha ideia, só com outra cara e com mais coisas.

João: Mas qual foi essa realidade? Que motivou a escrever?

SM: Coisas mais de experiência… De vida e de história… De momentos que ficaram na cabeça. E tenho coisas muito concretas, mas a ideia geral não é assim tão concreta e, sei lá, não penso muito depois de ter feito. Lá, é muito claro, tipo sei exatamente o que quero, mas depois fecho, e se for pensar agora provavelmente vou arranjar uma justificação que não é racional e que fará mais sentido agora do que aquilo que estava a tentar dizer sobre o que pensava na altura. Mas acho que estás numa realidade perfeitamente coerente.

 

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João: Ela foi logo para a teoria da Beira Baixa porque é do Fundão…

Maria Inês: Sim.

Ana: Exato (risos).

SM: Seria Beira Alta neste caso… Mas próximo…

Ana: Bem, próxima questão: nós gostaríamos de saber se estão a preparar algum single ou álbum para breve.

JG: Temos aqui umas ideias… Mas ainda estamos a reunir os ingredientes (risos). Ainda não há assim nada concreto.

SM: Por acaso foi proposto pela agente fazermos.

JG: Estamos todos a colaborar…Mas vão haver novidades em breve, não sabemos quão em breve, mas no início do próximo ano.

João: Ou seja, não vão deixar passar tantos anos de intervalo entre projetos.

JG: Exato. Queremos mesmo continuar… Mas é complicado, sendo uma coisa altamente independente, não é tão fácil. Mas pronto, vamos continuar a tentar e com essa persistência crescer também.

João: E este intervalo de 5 anos entre os dois discos. Foi propositado?

JG: Foi um bocado feito do que foi acontecendo nas nossas vidas particulares. Alguns de nós… como o Francisco que foi estudar para fora, tivemos cursos para acabar, trabalhar também. Foram coisas que foram acontecendo, e como em simultâneo, ali naquela fase pós-primeiro disco, não pusemos mãos logo à obra, se calhar perdeu-se um bocado o timing necessário. E pronto, depois foi uma coisa que foi acontecendo e foi o recomeçar o processo, que começou no Verão de 2017. Foi um processo longo, compor e gravar, e o disco só saiu em 2018.

 

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João: Mas vocês no início, quando lançaram o [primeiro] disco tiveram bastante sucesso. Chegaram a atuar num Super Bock. Bem, não nos lembramos porque éramos demasiado novos, isto é tudo fruto de pesquisa, mas queria perguntar se vocês achavam que conseguiriam ser - não sei se é a melhor palavra - profissionais, ou pelo menos viver da banda.

JG: Pá, talvez. Eu tenho esse desejo, pessoalmente. Mas não sei se na altura, mesmo tendo sucesso, se achava que ia ser uma questão de causa-efeito tão óbvia, mas se calhar na altura tínhamos alguma esperança.

SM: Tínhamos mais ilusão que seria possível. Mas não sabíamos nada sobre o que estava entre o possível. Agora temos mais consciência sobre o que está entre o possível ou impossível, portanto com tempo se calhar conseguimos gerir as expectativas de forma mais moderada. Mas se calhar mudou-se um bocado o objetivo, quando és mais novo precipitas-te muito nos objetivos que queres e perdes-te um bocado. E, aqui, estamos a pensar numa coisa de cada vez e consoante o tempo que se arranja, porque já se percebeu que se viesse alguma vez a acontecer não seria de um dia para o outro. Temos de desenvolver outras coisas e perceber o que nos enriquece.

Maria Inês: Vamos voltar a tocar num ponto que tocámos há bocado, que é serem uma banda independente.

JG: Exato, exato.

Maria Inês: Qual é a diferença entre uma banda independente e outra que o não seja, e qual é o porquê de serem uma banda independente.

JG: Porquê? É só uma questão de oportunidade, ou se ninguém quiser dar oportunidade, pelo menos de forma independente podemos sempre construir algo.

 

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João: Mas no início?

JG: Com o primeiro disco? Sim, aí tivemos uma abordagem logo direta com a Optimus. Nós gravámos um single que na altura foi mostrado ao Henrique Amaro, da Antena 3, e ele colocou-o nos Talentos Fnac, e depois a Optimus Discos teve uma abordagem logo no sentido de financiar e editar. Na altura foi aos Pontos Negros e depois a nós, e depois não sei se continuaram a financiar ou não. Mas a grande diferença entre ser independente ou não é o suporte que há. Ter alguém que ajude a colocar o disco disponível, alguém que financie e trabalhe a promoção.

João: Mas por que não houve essa continuidade a partir do primeiro disco?

JG: É assim, nós tomamos a decisão de nem sequer tentar uma editora, porque nós podíamos escolher mostrar o disco que já estava gravado. Só com o disco pronto é que decidimos o que íamos fazer. Podíamos ter ido à Sony, ou à Warner, e se eles quisessem compravam, mas nós achámos que neste momento o melhor seria termos tudo por nossa conta. Tem que se dar muita coisa em troca quando se arranja uma editora. Há muitas decisões que não são tomadas por nós, pelo menos totalmente, portanto foi uma decisão boa porque podemos decidir tudo por nós.

João: E têm-se sentido bem assim?

JG: Sim. Agora, não sabemos se vai ser sempre assim. Até porque às vezes dava jeito outro tipo de suporte. Mas pronto…

Ana: Nós gostávamos de saber quais são as vossas inspirações portuguesas para o vosso estilo musical. Em que é que vocês se inspiram?

SM: Eu não vejo tanto como influências musicais, se calhar inspirações. Mais no sentido de influências que vejo mas não são necessariamente musicais. Mas há vários livros de autores portugueses, ou quadros portugueses…

João: No teu caso em concreto, porque escreves maioritariamente as letras.

SM: Sim, exato, mas também faço muitos instrumentais e é sempre bom essa ideia de não ser bandas, porque é sempre mais com imagens, e é isso que tento induzir-lhes quando eles estão a fazer, só para encaminhar. É mais universal do que dizer só “faz essa banda, só esta linha de guitarra, mais nada”. Se puseres uma imagem, o gajo vai até à imagem e aí encontra a sua linha musical para servir daquilo, e não há nada que vai ficar aí preso.

Ana: E se calhar também não vai ficar muito parecido com uma banda. Se vocês se inspirassem numa banda ou assim já podia ser uma coisa muito parecida.

SM: Mas é um pouco mais descontrolado. Portanto, nestas coisas há sempre alguém que conhece algo que não conheces e vai dizer que estás a copiar isto (risos) mas há mais espaço para fazer.

JG: Nós ficamos a saber mais quem são as nossas influências depois de lançarmos o nosso disco (risos) e sempre por outras pessoas!

João: Exato, são rótulos que as pessoas põem.

Ana: E o Spotify também, com os artistas parecidos (risos).

João: Já agora, posso ver quem é que aparece… Não sei se vocês têm ideia.

JG: Eu, por acaso, no Spotify, acho que é um algoritmo de o que as pessoas gostam de ouvir. Mas é assim, nós conhecemos as críticas: eram relacionadas com coisas como os Heróis do Mar, coisas assim, e acho que quando gravámos era isso que lá estava (risos).

SM: Também dizem Diabo na Cruz… Mas nenhuma dessas bandas está na nossa cabeça. Não ouvimos muito, mas gostamos todos.

João: Estava aqui a tentar encontrar… Valter Lobo, São Pedro, Samuel Úria, Luís Severo, os Pontos Negros… é o que me aparece.

SM: É um bom caminho (risos).

Ana: Próxima pergunta és tu (risos).

João: Está aqui. Era mesmo… Tinha mesmo a ver com isto, eu fui ver uma entrevista vossa ao Público, de 2013. O Público não, o P3, segmento do Público…

JG: Nós demos uma entrevista ao Público?

Ana:  Também não há muitas entrevistas vossas portanto… Chegamos lá facilmente (risos)

JG: Sim, na altura tínhamos alguém que tratava disto por nós.

João: Se calhar não é uma entrevista, é tipo uma chamada deles para o vosso álbum que tinha saído. Mas eles descrevem-vos como “grupo coral, pop especial rural chique delicodoce”.

 

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SM: Por acaso essa descrição foi ponderada (risos).

João: Ponderada como assim?

JG: Porque não foi o Público que inventou isso… Isso foi mesmo algo que partiu de nós.

SM: Quando surgiu a banda…

João: Mas, em jeito de brincadeira?

SM: Claro (risos).

Ana: Não, é muito a sério (risos)

João: Ou vocês formaram a banda e decidiram “vamos tocar música em coral pop especial delicodoce?” (risos).

JG: Não sei se vocês são do tempo de páginas de MySpace.

Ana: Sim, eu sou (risos). Sou, sou.

Inês: Eu já não.

JG: Quando era mais puto tive uma banda e nós, como todas as bandas e como erámos putos fazíamos páginas de MySpace. E, pá, é sempre a guerra de pôr o género na descrição (risos), mais perto daquilo que gostávamos que fosse, mas que não vai ser necessariamente.

 

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SM: Ou então só punhas cenas aleatórias.

JG: Mas, então, isto é uma brincadeira que suponho eu que tenha vindo um bocado nesse sentido. Uma desidentificação quase daquilo que poderá ser qualquer música.

SM: Vocês têm alguma banda?

João: Não, não. Temos a tuna (risos).

SM: Olha, fixe.

João: Acaba por ser (risos) mas então, ainda melhor: partiu de vocês esta brincadeira. Podem explicar um bocadinho? Ou é ironia completa?

Ana: Pelo menos o chique está lá.

JG: Bem, “grupo coral” porque as nossas músicas têm alguns arranjos assim de harmonias com vozes, portanto pode fazer algum sentido. “Pop” porque não é pop (risos). “Especial” porque há quem diga que sim (risos).

SM: Acho que “especial” era pela conotação negativa até (risos).

JG: “Pop especial”... Se calhar queria dizer pop espacial… (risos). Pá, eu “rural chique delicodoce” acho que já é só mesmo [invenção].

João: O rural eu vejo na “Casa da Lamarosa”.

JG: Nem mais, a imagem inicial que nós tínhamos, em que estávamos mais focados, era a nossa quinta de férias. Que, atenção, é só uma casa de família de um de nós.

João: Do José?

JG: Exato.

João: E foram lá as vindimas este ano, ou não foi na Lamarosa?

JG: Não foi lá, foi na Beira Alta.

João: Nos montes da Beira (risos).

JG: Exatamente.

João: Eu lembro-me dessa publicação… E o “delicodoce”?

JG: É a suavidade…

SM: Isso eu vejo, é que a voz do João é uma voz muito delicada e doce… (risos). Mas também porque foi sempre o objetivo haver uma espécie de contraste, era algo que era sempre comum na música que tocamos.

João: E as vozes da Benedita e da Constança também são delicodoces… Passando à próxima… Esta é uma pergunta especial (risos).

 

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Maria Inês: Nós queríamos saber o porquê do visual mais retro (risos).

JG: O nome também é retro… (risos).

SM: Em que consiste um visual retro?

Ana: Roupas dos avós (risos).

Maria Inês: Sim, basicamente. Abrimos o armário dos avós e é o que temos lá dentro…

João: E podíamos fazer aqui uma sondagem de nós os quatro para ver quem é que sabe o que era um “Ciclo Preparatório”. Sabem o que era o ciclo preparatório?

Ana: Sim… (risos).

João: Já não é do nosso tempo.

JG: Nem do nosso (risos).

Inês: É a escola primária.

João: Afinal sabemos…

JG: Sim, eu acho que era a primária. Ou será quinto e sexto [ano de escolaridade]?

Maria Inês: Pois, o preparatório se calhar era o quinto e sexto.

João: Faz mais sentido, eu acho que é.

Maria Inês: Se calhar até ia até ao 9º.

Ana: Pronto, temos uma discussão aqui…

João: Eu acho que era o atual segundo ciclo. E podemos aproveitar para fazer a pergunta clássica do porquê [do nome].

JG: Pois, porque está tudo um bocado na mesma questão, o porquê do nome e do visual. Acho que tem tudo a ver com a valorização do que era bom no passado.

João: Heróis do Mar… (risos). Mas numa época mais fácil de fazer isso… Não um pós 25 de Abril.

SM: Sem conflito… Mas essa ideia das roupas e dessa imagem toda era porque há uma grande dificuldade das bandas em surgirem. Quer dizer, hoje em dia é mais fácil fazer com que surjam, mas a imagem é sempre uma coisa que é muito igual, portanto é uma forma de destacar. Foi pensado na altura, maioritariamente não por nós… Mas hoje em dia já começa a diluir, porque a partir do momento em que começas um caminho, apesar de nós se calhar não nos identificarmos necessariamente com aquela imagem, temos coisas que usávamos, mas nunca era…

João: Não são betos (risos)?

SM: Não somos agrobetos… (risos).

JG: Agro não porque nenhum de nós é agricultor (risos).

João: Vocês são todos de Lisboa?

SM: Sim.

João: Então são só betos. Ou não são betos?

JG: É assim, isso é uma construção social (risos) meio estranha. O que é que se pode dizer…

João: Pronto, são normais.

JG: Sim, somos pessoas normais, como tantas outras.

SM: Há esta falta de definição, mesmo da nossa parte, porque achamos bem antecipar uma definição que se calhar até nos protege, porque no fundo as pessoas que estão a avaliar aquilo não estão a avaliar-nos.

João: Há uma pequena guerra num vídeo de Youtube, no “Lena Del Rey”, onde o pessoal nos comentários… Não sei se já viram.

JG: Vi no outro dia um comentário que era: “Ei tanto beto” (risos).

 

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João: Portanto isso começou uma guerra de comentários sobre se são betos ou não… Isso tem muita piada (risos).

JG: Se somos ou não, bem eu sei o que as pessoas dizem sobre o que é ser beto, agora, não acho que isso seja uma questão sequer (risos), percebem? Se a ideia é que os nossos pais têm vários irmãos e que temos muitos primos (risos) e se as nossas famílias são grandes… Se for isso então sim, qualquer um de nós vem de famílias compridas.

João: Ok, mas o pessoal comenta a personagem que vocês criam na banda, não vocês próprios, através da roupa e tudo mais.

Ana: Também porque não os conhecem, não é?

SM: Os nossos vídeos são iguais a toda a gente, não percebo… É o que quiserem (risos).

JG: Quando éramos pequeninos íamos à missa, penteadinhos com as nossas mães. Se isso é ser betinho então acabamos por ser… (risos). Crescemos assim. Mas não é o que nos define.

João: A zona de Lisboa a que vocês pertencem também influencia isso.

Maria Inês: A escola…

João: Se vocês forem de Belém…

Ana: Do Restelo…

JG: Não, nós somos ali da Estrela.

Ana: Ah também, pronto (risos).

JG: Também pode ser… Estrela, Lapa… (risos).  Mas há coisas que são mais importantes, como a forma de estar no dia-a-dia, as atitudes que se tem. Acho que isso é que importa.

 

(Continua...)

06
Dez19

Poesia #7

Jur.nal

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Estou hoje vencido

Pela indiferença cansada

De quem não se deixou de perder

Pelos caminhos ilusórios

Da mentira que veste o mundo.

 

Perdi-me por entre os recantos

Daquilo que opaco sempre fora

(E permanecera)

Sem que a perceção da falta de norte

Me visitasse.

 

Não me doeu,

Nem me dói.

(Mas devia)

 

O caminho é tudo

O que somos

E o que seremos

E o que fomos,

Mas eu não.

 

Sou,

Não a estrada percorrida,

Mas a estrada por percorrer.

 

Ela era alheia e eu um alheado,

Sentia a dor dos buracos

Mas não a da escolha pelo vazio

Que me sugou a vida

Oferecendo-me nada mais

Do que nada.

 

Hoje quero que me doa

Mas não dói,

O cansaço da inércia

Está agarrado à indiferença

Do que de uma sombra alheia

(Que me oculara o ser)

Não passou.

 

Não me dói

Mas tenho a esperança

De que venha a doer,

De que o trilho da próxima

Estrada me faça sentir

Mais do que a indiferença

Da existência

De vida desprovida.

 

Quero que me doa.

 

André Neves

Aluno do 2.º ano da Licenciatura

 

03
Dez19

Slow J no Coliseu de Lisboa: a afirmação de um colosso

Jur.nal

Há magias que nunca vêm sós. É o ciclo da vida, disse Slow J, natural da Música. Há presenças que nunca estão sós. O meu avô faleceu, disse João Batista, natural de Setúbal. Confissões sem receio de quebrar qualquer magia. Deu o nome do avô recém-falecido ao filho recém-nascido. Assim continua o ciclo. Assim perpetua a magia. Assim, João ainda procura o caminho.

 

Esta confissão veio no palco do Coliseu dos Recreios, palco emblemático no coração de Lisboa, ornamentado sob a marca “Super Bock Em Stock”. Talvez não esgotado, mas a mim parecia-me inteiro, total, num palco onde já fui feliz, graças ao concerto de Sam the Kid em Outubro onde comemorou 20 anos de carreira e onde o Coliseu, esgotado nesse dia, também foi feliz e inteiro. Um mês e meio depois repetiu-se. Vejo aqui uma simbologia, uma espécie de passagem de testemunho, como se o facto de Sam ter actuado ali a comemorar o passado e Slow a comemorar o presente desenhasse magia na Música. Como se fosse Hereditário apenas de se escutar.

 

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Sendo pai de família mas também sonhando, Slow J definitivamente agigantou-se naquela noite. “O Nascimento de um Colosso” foi o título duma peça de Alexandre Ribeiro na publicação “Rimas e Batidas”, aquando o concerto de lançamento do segundo álbum "The Art of Slowing Down". Com qualquer autoridade que me possa ser atribuída, confirmo: o colosso vive, maior e mais mágico do que nunca.

 

Entrando com “Também Sonhar”, seguiu-se um dos seus emblemáticos sorrisos, tão puro e genuíno como se o mundo fosse um paraíso, como se nós, público, enérgico e apaixonado público, fossemos os habitantes do seu pedaço de terra e magia. A segunda canção foi “FAM”, com uma entrada surpresa de Papillon, que detém um verso neste som, e, de repente, os donos daquele mundo eram dois, sem qualquer problema, sem qualquer dúvida, eram eles e nós, ou só nós, todos, de olhos rendidos em poesia dançante.

 

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No meio desta apaixonante energia, decerto perdoar-me-ão por não me lembrar de todas as canções, pelo menos não da sua sequência, enquanto Slow J saltita pelo seu fantástico catálogo. O último álbum dele, obviamente, não faltou na sua totalidade, ou não fosse este uma espécie de concerto de apresentação do álbum (pelo menos foi assim publicitado, embora Slow J já tenha realizado outros concertos no entretanto). Mas outras canções poderosas não faltaram, sobretudo do seu segundo álbum, desde a “Comida”, com o público do Coliseu mágico a degustar cada uma das barras pensativas e assertivas daquela canção sem refrão, fazendo ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez com o Figo, até à “Às Vezes”, onde a ausência de Nerve no palco (a rapariga ao meu lado comentava que seria incrível se Nerve entrasse, mas não entrou, e isso não importou) não significou a ausência da sua magia no público. A “Muros”, de todas as canções, libertou-me as primeiras lágrimas; a “Serenata” trouxe ainda mais, dum público romanticamente rendido em lágrimas de corações partidos, porquanto o amor seja o ar que ali se respirou.


Na “Lágrimas”, contudo, veio aquele que foi, provavelmente, o momento mais mágico da noite. Do nada, os assistentes de palco trazem uma plataforma. Três cadeiras, um microfone, duas guitarras, uma acústica e outra portuguesa. Slow chama mais habitantes para o seu mundo (perdoem-me, novamente, por não me recordar dos nomes). Um seu ex-professor de música e um amigo produtor de longa data. O primeiro na guitarra portuguesa, maravilhosamente dedilhando lágrimas dos acordes, e o segundo na guitarra acústica, fazendo o ritmo angustiante e estranhamente reconfortante que qualquer choro tem. Só as paredes do Coliseu agora sabem o quão ecoaram "lágrimas de quem se ama" noite fora. Não dá para repetir, não imagino outro palco onde tal possa ser feito. Se lágrimas tivéssemos, ou nos olhos ou na alma, ali ficaram, deitadas no chão, libertas, abraçadas pelo pequeno mas majestoso solo de guitarra portuguesa do ex-professor de música de João Batista.

 

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Em “Mea Culpa” houve o momento mais insano, com aquele drop do beat a despertar toda a energia que ainda não havia sido exposta pelo público. Foi hora de levantar do colchão, de assistirmos a mais um sorriso de João (infinitos houveram), de escutarmos a voz intensa e rasgada e ao timbre único e acolhedor de Slow, e de prosseguirmos por mais clássicos como “Fome” (outro momento de libertação intensa de energia), “Cristalina” (numa performance sempre íntima e angelical de quem pede socorro e não encontrou o seu caminho), “Water” (onde Richie Campbell também faz sentir a sua magia despeito da sua ausência física, olha por mim mamã) ou “Vida Boa” (a terminar o concerto fazendo o público entoar que quer uma vida boa, sem se aperceberem, talvez, que são estes momentos que nos dão essa vida).


Na “Silêncio” ficou registada o momento mais insólito, que só Slow J conseguiria transformar num momento incrível. A meio da canção, o microfone começa a falhar intermitentemente, e o instrumental também salta umas partes. Antes de conseguir acabar o seu verso, que surge antes do último refrão, de repente o instrumental começa a tocar o playback do refrão, totalmente fora de tempo. Slow J, sempre olhando para a equipa técnica do lado do palco, aproxima-se deles, e assinala para parar. Sorriu, só queria sorrir. Não era suposto acontecer, é uma quebra de magia, um percalço na história que ali se fazia. Mas não era. Da sua autoridade, autoridade de amigo como quem é dono do mundo mas não cobra imposto a ninguém por existir, saído dum sorriso, pergunta ao público "vamos cantar outra vez?". Escusado será dizer que o público já estava a bater palmas, para não permitir a morte da magia; e escusado será dizer que a segunda vez foi ainda mais íntima, incrível e ressonante que a primeira. Agora, nada falhou tecnicamente. Porque nada falhou naquela noite de Lisboa rendida.

 

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Se depois desta vida vier a outra, em todas ficou eternizado a magia que João Batista carrega e que Slow J transmite. Caro leitor, não pense que isto são personas diferentes, que entre canções é-se João e nelas é-se Slow. É precisamente esta a magia: são apenas etiquetas dum mundo que não se separa, e recebe o seu público como abraços há muito suplicados. Foi como se encontrássemos o caminho nas cordas vocais de João, nos grafismos inteligentes no ecrã ao fundo do palco, no espectáculo de luzes surpreendentemente adequado a cada interpretação. Foi um sonho durante o espectáculo, durante a arte. Depois disso, o público saiu como entrou: o público continuou, também, a sonhar.

Em “Arte”, cantaste que querias ser como os grandes cantores. Conseguiste.

 

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Duarte Sales

(Licenciado em Finanças, Mestre em Gestão de Sistemas de Informação, a trabalhar no INE)

 

01
Dez19

Divididos caímos

Jur.nal

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“I can't explain, you would not understand
This is not how I am”


A 6 de julho de 1977, no Estádio Olímpico de Montreal, os Pink Floyd fechavam a digressão mundial do Animals quando Roger Waters cuspiu na direção do público. Tinha sido a primeira digressão em que os Pink Floyd tinham tocado em estádios gigantescos, e a banda, habituada à solene sala de espetáculos com apenas aqueles que compreendiam a mensagem da música, sentia-se desligada do seu novo público, gigantesco, barulhento e ignorante, interessado apenas na beleza dos músicos e em ouvir os hit singles e não os 18 minutos da Dogs. No meio dos “Roger, I love you” e “play wish you were here”, Roger perdeu a cabeça e cuspiu na cara de vários fãs na primeira fila. No meio da sua raiva e frustração, fantasiou com a ideia de dar concertos com um muro entre a banda e a plateia, de tão farto que estava da vida da fama como estrela de rock e de toda a falsidade e futilidade que vinha com ela. A ideia viria a inspirar as suas composições durante o próximo ano, enquanto os outros membros da banda lançavam álbuns a solo.


Exatamente um ano depois, a banda reencontrava-se para discutir os planos para o próximo álbum quando Roger lhes falou da sua ideia mais ambiciosa até à data: uma épica ópera rock semi autobiográfica sobre a construção de um muro mental que separaria o protagonista do mundo real. Cinco anos depois do despertar social do The Dark Side of the Moon, três anos depois da crítica à indústria musical do Wish You Were Here, e um ano depois de virar a Quinta dos Animais de George Orwell do avesso com Animals, Roger começava a preparar o trabalho mais pessoal da sua carreira, com o qual milhões de pessoas em todo o mundo se iriam identificar ao longo destes últimos 40 anos. Identificar-se-iam com as suas reflexões pessoais que partilha, e também com a mensagem que ele tinha para transmitir quanto aos vários temas do álbum. Guerra, isolamento, medo, apatia, controlo, ódio, conflito interior, alienação. Numa viagem de 81 minutos, Roger leva-nos ao seu interior profundo, deixando todos os seus demónios bem à vista. O que vemos é tudo menos bonito, mas o que ouvimos é das melhores coisas que já saiu da mente humana.


A história foca-se em Pink (uma referência ao facto de que muita gente achava que “o” Pink Floyd era o nome do líder da banda no inicio da sua carreira), um músico de rock que, confrontado com uma infância difícil e uma fama súbita que lhe traz uma vida fútil e plástica, começa a isolar-se da vida real real ao construir um muro mental entre ele e o resto do mundo, à medida que o seu estado mental se deteriora. Pink é efetivamente Roger Waters, pelo menos no início, sendo a primeira metade do álbum praticamente 100% biográfica. Pink cresceu sem o pai, piloto da Força Aérea britânica morto numa batalha travada nos céus de Londres contra a Luftwaffe na Segunda Guerra Mundial. Tudo o que tem dele é uma foto no álbum de família, e é a sua falta ao crescer que põe o primeiro tijolo no muro do protagonista (e de Waters, que ainda hoje fala com muita mágoa do facto de nunca ter conhecido o pai) na sua tentativa de se distanciar da vida real. Criando Pink sozinha, e traumatizada pelos horrores dos bombardeamentos da guerra, a sua mãe tenta protegê-lo de todos os perigos do mundo, não o deixando cair e levantar-se sozinho e mantendo-o sempre debaixo da sua asa. Na sua tentativa de manter Pink incólume, ela acaba por contribuir para a sua alienação e ajuda-o a construir mais dos primeiros tijolos do muro. Na escola, o rígido sistema escolar britânico pós-guerra faz de tudo para esmagar a criatividade e a individualidade, e os professores gozam abertamente com as capacidades e aspirações poéticas de Pink, resultando na famosa Another Brick in the Wall Pt.2 ao som da brilhante guitarra limpa de David Gilmour e dos gritos de rebeldia dos jovens da Islington Green School que gravaram o famoso segundo verso e refrão, de que nós não precisamos de educação. Não deste tipo.


Acabando por se tornar numa estrela musical mundialmente famosa e casado com uma mulher troféu que não ama, Pink identifica-se cada vez menos com o mundo real lá fora, e entrega-se completamente aos excessos superficiais do sexo, drogas e rock and roll, construindo em cada momento, mais tijolos para o seu muro. Entrega-se aos opiáceos e às groupies, em tentativas cada vez mais vãs de sentir algo que não está lá. Mais uma reflexão pessoal de Waters, preso no mundo das drogas e num loop infindável de sexo descartável para tentar preencher um vazio que achava ter. Por fim, Pink fecha-se dentro do muro para nunca mais querer sair, e diz adeus a este mundo cruel.


Mas a ligação humana é essencial para todos nós, por mais que achemos que não a queremos nem precisamos dela, e na segunda metade do álbum, que abre com a arrepiante Hey You, Pink começa a pensar que talvez tenha cometido um erro. Mas o muro é demasiado grande e é demasiado tarde agora. O seu estado mental está já a bater no fundo e no próximo concerto Pink, num devaneio de pura insanidade, usa a sua influência sobre os seus fãs, numa excelente crítica da cultura de rebanho que muitos fãs têm para com os seus artistas preferidos, para começar um motim contra as pessoas e raças que, no seu delírio, entende inferiores. No seu isolamento do resto do mundo, e no medo que lhe tem, Pink acaba por se tornar na própria força do mal contra a qual o seu pai lutou e morreu. Roger enfrenta novamente os seus próprios demónios aqui com as acusações de tirania de que sofre muitas vezes pela forma como tem liderado a banda na última década, assumindo quase todas as rédeas da composição. Reconhece que muitas vezes deixa a sua necessidade de controlo e o seu medo de falhar levar a melhor de si e imagina-se como um autêntico ditador, contra tudo aquilo em que ele realmente acredita, se fosse levado ao mais absoluto delírio. Vê-se ao espelho e reconhece a sua falha.


É nesta secção de delírio de contornos fascistas de Pink e os seus fãs que Roger deixa de lado o cunho biográfico do álbum (tirando a reflexão pessoal de se comparar a um ditador na banda) e nos mostra a mensagem mais importante deste trabalho, e a conclusão que quer a que todos cheguemos com a audição do seu Magnum Opus. Como viria a exibir em letras bem grandes nos seus ecrãs da digressão a solo que fez a tocar o álbum por inteiro em 2011, “fear builds walls”. O medo constrói muros. Medo do que não sabemos, daquilo que não compreendemos e daquilo com que não nos identificamos. O ódio vem do medo que temos do desconhecido, o ódio vem da nossa própria ignorância. Uma mensagem tão importante hoje como em 1979, num mundo que teima em dividir-se outra vez, e por isso mesmo voltou Roger a fazer digressões gigantescas, como a referida do The Wall de 2011 e a mais recente Us+Them de 2018, em que tenta espalhar a sua mensagem e ataca ferozmente aqueles que atacam a nossa união.


Pink tinha medo deste mundo. Criado sem pai por uma mãe excessivamente protetora, com professores a agredir e a pôr em causa a sua própria identidade, com uma vida fútil repleta de excessos e da plasticidade da fama, Pink nunca se deixou mostrar e nunca se abriu para o mundo. Permaneceu sempre no isolamento que achava que queria, sem real contacto nem ligações verdadeiras, que o levou ao delírio absoluto e ao ódio.


No meio do caos do motim que causou, Pink cai em si e percebe a absurdidade que acabou de cometer. E no fantástico tema The Trial, com apenas a voz de Roger e a orquestra, Pink põe-se a si próprio em tribunal na sua cabeça por todos os erros que cometeu ao longo da sua vida e a forma como se deixou moldar numa pessoa que na verdade não queria ser. Ele percebe que quer o contacto humano, que quer realmente viver no mundo real com as pessoas reais, que quer enfrentar a vida com todas as suas adversidades e todos os seus perigos, porque é assim que ela deve ser vivida, e não estar fechado em si próprio, na sua ignorância e no seu medo. Percebe que os anos de isolamento e solidão lhe retiraram tudo o que o torna humano, e anseia por livrar-se da sua apatia e voltar ao mundo real.


A sentença é decretada. Pink condena-se a enfrentar aquilo de que tem mais receio: expor-se ao resto do mundo. Enfrentar os seus maiores receios de frente, para encontrar aquilo que nunca teve ao isolar-se dentro de si mesmo. O muro é derrubado e o álbum chega ao fim.


Roger ensina-nos, através de toda esta obra, que esta vida não é ser para ser vivida sozinhos. Que não podemos ter orgulho em estar sós, e que criar muros entre nós só vai levar à nossa queda, quando podíamos ter muito mais, ser muito mais, se fossemos mais unidos. Temos que deixar o nosso medo de lado, combater a nossa ignorância e lutar contra o ódio daqueles que nos querem separar.


The Wall demorou praticamente ano e meio até ser terminado. Foi lançado a 30 de novembro de 1979, vendeu 30 milhões de cópias no mundo inteiro (sendo o 24º álbum mais vendido da história da música) e chegou ao número 1 de vendas em muitos países, incluindo em Portugal. A mensagem chegou a milhões de pessoas em todo o mundo, que se identificaram na altura com ela, e continuam a identificar-se hoje (excelente música é assim mesmo, intemporal), numa fase da história do nosso planeta em que ela precisa mesmo de ser ouvida.


Roger deixou ainda uma última surpresa para os ouvintes mais atentos. Nos primeiros segundos da primeira música do álbum, é possível ouvir, embora esteja muito baixinho, “…we came in?”. E nos últimos segundos da última música do álbum, também muito baixinho, “Isn’t this where…”. Não foi aqui que entrámos? Com este pequeno pormenor, Roger alude à natureza cíclica dos temas do álbum, e mal sabia ele em 1979 que construir muros seriam promessas de campanha no futuro. Haverá sempre quem queira construir muros entre nós. Cabe-nos estar lá para os derrubar.

 

“Together we stand
Divided we fall.”
- “Hey You”

 

Tomás Henriques

(Aluno de Mestrado)

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