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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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07
Nov19

Novos Sons #8 - Jesus is King

Jur.nal

Kanye West - Jesus is King (outubro)

 

 

Admito que desde o Yeezus, sexto álbum do Kanye lançado em 2013, cada vez levava menos a sério o seu trabalho ou mesmo a sua dedicação à reputação que tanto lutou para conquistar. Versos imortais como Prince William's ain't do it right if you ask me 'Cause if I was him, I would have married Kate and Ashley, fizeram-se substituir por videoclips de orgias com a Taylor Swift e tweets controversos em apoio à presidência de Donald Trump.


Para ser sincero, até ao lançamento do Kids See Ghosts, uma mixtape lançada com o seu protegido Kid Cudi em 2018, a única coisa relevante que o Ye tinha lançado foram as Yeezy Boost 350 V2.


2018 trouxe-nos ainda Ye, um álbum e uma promessa. Um álbum paupérrimo de conteúdo, mas com boas colaborações e uma promessa de que um dia, algures no ano de 2019, talvez com 3 ou 4 adiamentos, lançarei o meu primeiro álbum de Gospel.


Das orgias ao Gospel era um salto enorme. Maior do que a perna, diriam alguns. Mesmo assim, e tendo perdido a minha confiança neste homem em 2013, eu sabia que se houvesse alguém a fazer um álbum de Gospel, quente o suficiente para chegar a #1 no Billboard 200, era ele.


 O projeto foi-nos primeiramente apresentado como Yandhi, a fusão entre Ye (um dos muitos nomes pelo qual é conhecido o rapper americano) e Gandhi (sim, o próprio!). Um sucessão de Leaks fez com que o projeto fosse várias vezes adiado, tendo mesmo sofrido uma alteração de nome para Jesus Is King.


Jesus is King é um projeto ousado. Sente-se uma clara maturação no som do Kanye, uma seleção mais correta das colaborações e um uso excecional do seu grupo coral de Calabasas, criado juntamente com o seu novo mais recente projeto comunitário, o Sunday Service.


O rapper mostra-se com preocupações diferentes, como a marca que deixará no mundo, sempre dum ponto de vista muito intimista e familiar. Debate também sobre como descobrir Deus influenciou a sua vida e descoberta por um som coeso.


A sua música foi sempre marcada por instrumentais quase que cinemáticos, futuristas e mesmo peculiares. Foram sempre contra a corrente de tudo aquilo que estava trending. Agora, 12 anos depois de Graduation e 808 & Heartbreak, sinto que finalmente estamos a chegar ao End Game do verdadeiro som do Kanye.


Ele não é um trapper a falar de codeína com 7UP, não é um J Cole ou um Kendrick prontos para mudar a sociedade com os seus versos woke, muito menos é o Bryson Tiller ft.Chris Brown & Drake a fazerem a música preferida da tua namorada. Ele é senhor das suas convicções, que em 2019 nos trouxe o rap que ele acha que o Senhor gosta. O rap consciente e o de fusão, duas características fundamentais deste artista, estão a voltar a ser relevantes depois de 6 anos de pura dominância do trap e algum rap vazio, em conteúdos relevantes. Com este álbum, veio só mais uma vez mostrar que está dois passos à frente de quem quer fazer-se de diferente numa indústria onde já ninguém sabe ser diferente e coerente.


Não sou o maior fã do tema do álbum, acho até que tanto Jesus no álbum o pode tornar enfadonho para quem não está pronto para ver a bigger picture.


Em suma, é um álbum que vale a pena ouvir, não com a esperança de ouvir trap de discoteca ou o mesmo flow do Zara G em todas as músicas da Wet Bed Gang. Para quem aprecia boa música, este álbum é necessário.

 

Hugo Buque

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

04
Nov19

Uma Aventura no Oriente II

Jur.nal

 

 

Após mais uma aventura – esta agora em Shanghai – sinto que preciso de escrever para eu própria me relembrar de tudo aquilo que, na medida do deambular e fotografar, pensava que deveria escrever.

 

Fui a Shanghai sozinha quatro dias e um deles cheguei a ir a uma província também muito visitada e apenas a 1h de comboio. Posso dizer, antes de mais, que o que me vem mais facilmente à cabeça referir é mesmo o receio inicial de, como disse a minha amiga italiana que já viajou sozinha, «feel the void». Ainda assim, decidi seguir o meu instinto, fazer a coisa à minha maneira e canalizar o meu dinheiro em destinos prioritários.

 

Só me faz sentido retirar desta experiência idas à China, conhecer a cultura predominante dos meus dias, pois acho que são viagens de uma vida, com ida e volta contadas. Shanghai é, obviamente, um clássico chinês e dá realmente uma boa perspetiva do rumo cosmopolita, uma evolução a olhos vistos, mas que, de perto, consegue ser bem minimalista e com espaços distintos em harmonia. Há quem lhe chame a Nova Iorque chinesa quando se depare com a People’s Square e a infinita Ninjang Road, mas nem por isso descuro a tradição que está tão presente no Yu Garden e nos templos. Chega a haver uma mistura de épocas, muito visível em Jing’An. Sem querer dar o spoil, faria tudo outra vez e não mudava uma vírgula (quer dizer, mudava ter perdido o meu cartão de crédito durante três horas…mas isso não conta).

 

Cheguei e tive oportunidade de conhecer no aeroporto – um aeroporto tão imenso, tão confuso, tão… em chinês – um rapaz de Shanghai, de seu nome Larry Lu, que me viu feita barata tonta a treinar técnicas de tradução na máquina de venda de bilhetes para o metro. Assumiu ali o controlo da situação, corria e perguntava por uma máquina de multibanco, por uma máquina de trocar as notas maiores (que a máquina do metro não aceitava), explicava, esclarecia com mais energia que eu – que tinha dormido umas boas duas horas extra no avião – no melhor inglês que sabia. Levou-me inclusivé à minha paragem de metro, a uma hora do aeroporto, a dita «xinzha road» que, dita por mim, poderia ser umas outras três ou quarto que lá têm – jing’an, jinjian, entre outras combinações possíveis.

 

O meu hostel era convidativo, com um jardim exterior iluminado e colorido, bancos de baloiço e tudo em madeira, com uns cinco ou seis gatinhos que já eram tão hóspedes que se tornaram marca do espaço. As pessoas diziam olá calorosamente, mesmo não percebendo que raio de espécie eu era e porque é que estava ali sozinha aparentando ter 12 anos. Na verdade, ao lado daquela malta forasteira eu parecia uma blogger de 16 anos com a mania que é aventureira.

 

Mas senti-me tão bem: só eu e a minha câmara pendurada no ombro e um saco com carteira, bloco e caneta no outro; um saco de pano que estava a competir comigo na leveza aparentada. Não sentia aquele nó na garganta, o medo de pessoas, de metros, de culturas, de coisas. Só me sentia a chapinhar na minha própria independência, sem me preocupar para onde iam esses salpicos.

 

Lembro-me perfeitamente quando no dia 12 dei o dia de folga a Shanghai e fui para Hangzhou às 6h40. Sair do hostel às 5h e pouco e parecer-me estar numa rua completamente diferente. Aquela luz azulada a tentar encontrar tons alaranjados, uma brisa acompanhada do despertar dos pássaros; aqueles que regressavam a casa, aqueles que se preparavam para um novo dia e, subitamente, o trânsito fluído parecia uma dança de motas a rodopiar sozinhas e silenciosas. Não sei porquê, mas apeteceu-me ficar a apreciar como um início de dia pode ser tão bonito sem uma razão, mas cheia delas.

 

 

A voltar senti exatamente o mesmo. Vim a dormir na viagem de comboio e fui acordada por uma rapariga que, tal como 99(,9)% das pessoas, não falava inglês, mas ia tomar o meu lugar e percebeu que aquela era a minha paragem. Começou a abanar-me a apontar para a estação e eu sem perceber coisa alguma lá corri ensonada e estava com os fones numa playlist automática. Não conhecendo a música, esta estranhamente condizia com aquele momento, com aquela noite de volta a Shanghai e estava feliz por ter dormido e por ter sido acordada a tempo de não passar uma noite ao relento. Com aquele som, saí a sorrir e apetecia-me dançar pelas luzes intermitentes da estação sem vergonhas e inibições. Sentia-me em casa, de alguma forma. Já nem me importava de retornar às estradas de motociclos sem regras, que não cumprem sinais vermelhos e até andam no passeio e apitam para o peão se desviar, bem como o retornar a uma inquebrável barreira linguística que me treinou de certeza para o campeonato de mímica. Tudo me parecia tão insignificante de tão significante que esta viagem estava a ser para mim.

 

Não acho que seja sobre Shanghai, sobre os ares da China ou a cultura asiática. Acho que percebi que gerir o meu caminho consegue ser uma coisa tão bonita e que não sou mais eu ou menos eu com base nas pessoas com quem estou, porque sou genuína. Senti-me a mesma e descobri facetas minhas tão bonitas que às vezes não sobressaem aos outros por ausência de circunstância. Quando estamos um bom bocado sozinhos e quando conseguimos sobreviver numa selva, sem nos querermos apegar à jaula, sabemos que somos capazes e que somos uma excelente companhia. Percebemos que não há ali ninguém para nos dizer que devíamos sorrir mais, que devíamos vestir outra coisa, que devíamos ter posto um corretor de olheiras naquele dia, que isto ou aquilo já passou de moda, que aquele anda com aquela e que ela fala mal da outra, que não fomos convidados para aquela festa, que não temos um milhão de seguidores e o dinheiro para fazer uma cirurgia plástica a cada traço irrelevante que só nós notamos e todas as imperfeições e pressão que colocamos em nós todos os dias para que estes passem e possamos suspirar de alívio como quem correu uma maratona de encaixar aparências e pôr check no relatório de final de dia; no fundo, que não é preciso ir dormir de cabeça cheia e dar voltas e voltas à cama sobre o dia que vem e se vamos conquistar mais pessoas, mais coisas, numa ânsia de controlar o futuro e garantir que todos os dias estamos a trabalhar nas nossas relações, no nosso sucesso, na nossa aparência, quando podemos simplesmente viver a passos curtos e a ritmo próprio. Aí, deixei-me eu conquistar por Shanghai.

 

Desligo o VPN e, subitamente, o burburinho cala-se e sou só eu e a minha câmara.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

 

01
Nov19

Joker: tudo menos uma piada

Jur.nal

 

Esta é, provavelmente, apenas mais uma das milhares de críticas — ou meras opiniões — que vão ler acerca do novo filme de Todd Phillips, Joker. Todos os dias têm sido publicadas dezenas delas online. Os mais apaixonados pela arte que é a excelência do cinema demoram a processar aquilo que viram nos olhos de Coringa.

 

Arthur Fleck é feliz quase sempre — excepto quando sorri. Tanto o entende que o deseja a todos: que sorriam. Para que, no rasgão ensanguentado, possam sentir a sua dor.

 

JokerJokerJoker!”

 

É tudo menos uma piada. É o relato de um artista de stand-up comedy cujo sonho a realidade de outros levou ao fracasso. É a linha ténue que separa a esperança da compreensão da sua desistência. É o testemunho de um ser humano levado à loucura pela sociedade desgastante que o envolve. É o bullying perpetuado pela violência. É uma comunidade que segrega quem ousa a diferença. É o medo de uma profundidade que não se vê da superfície. É a maldade de gente que não suporta sorrisos maiores do que os seus.

 

Não há como não criar empatia por Arthur Fleck. Sentimos tudo o que ele sente. Vivemos a mesma raiva, a mesma dor, o mesmo cansaço, a mesma frustração e a mesma inevitabilidade de enlouquecer. Não só o compreendemos como o desculpamos. O que censuramos é o sistema corrosivo que se alastra em Gotham, cidade permeável à violência que, aos poucos e poucos, o suga para os becos mais refundidos da sua brutalidade, fazendo surgir Coringa.

 

JokerJokerJoker!”

 

É a solidão aliada à frieza. É a condição da pobreza que cheira ao vício do tabaco. É a repercussão do engano e da mentira. É a certeza de que o acaso é reduzido quando existe abuso. É o constante menosprezo das doenças psicológicas. É o ignorar das ansiedades e das depressões. É a sensação de cansaço derivada da incapacidade de lidar com mais sofrimento. É a conotação da infelicidade enquanto fraqueza. É a transformação do ser humano no criminoso. É a fuga ao pensamento tal é o medo da compreensão (porque somos mais felizes quando ignoramos, quando não sabemos, quando não compreendemos e quando nem tentamos).

 

Estamos perante uma obra-prima que trouxe consigo o desconforto da realidade. Incomoda porque é verdadeiro, porque é transparente, porque é puro e duro na representação da sociedade em que vivemos. Nada na elevação desta sublime criação é inocente. Tudo é rigorosamente pensado para o impacto.

 

Que qualidade cinematográfica, da frieza da imagem à sonoridade calorosa. A escolha das analogias. A profundidade dos paradoxos. O pormenor de cada perspectiva. O detalhe da mensagem de cada cena. A representação subliminar de uma poesia. Cada enquadramento traz consigo uma tradução perturbadora da realidade.

 

Este é o reflexo de todos nós, encarnado por um actor de outro calibre cuja interpretação é soberba. Joaquin Phoenix abraçou Joker de uma forma tão intensa que nos fez querer abraçá-lo do início ao fim da sua história. Trouxe à vida a personagem sob a pele mais humana em que alguma vez o vimos e, com a mesma ousadia com que se largou a si próprio, numa transição única abandonou Arthur Fleck.

 

Vejam, revejam e voltem a ver. Vale imensamente a pena. No final, guardem o sorriso ensanguentado desfeito por uma lágrima de tinta — e não se esqueçam de sair “dançando”.

 

Catarina Teles de Menezes

(Licenciada pela NOVA Direito. Antiga redatora do JUR.NAL)

 

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