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JUR.NAL ONLINE

Jornal Oficial dos Estudantes da NOVA School of Law

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29
Nov19

Marraquexe III

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Apreensão. Apreensão parece-me uma boa palavra para introduzir um texto sobre esta incrível aventura no Royaume du Maroc. Digo isto porque era o que via na cara de praticamente todas as pessoas a quem falei sobre esta viagem, curiosamente com exceção dos que já a tinham feito. “Com tanto sítio para ir… Vê lá onde é que te vais meter!” Era sempre assim. Eu ainda me dava ao trabalho de dizer que ia com dois amigos, que um deles até é campeão de boxe e que ia ser sempre muito seguro, mas não fazia diferença. Ainda assim não me preocupei muito, estávamos todos demasiado empolgados para aturar pessimismos. Ainda bem que assim foi, acabou por ser uma viagem única.


A chegada foi tranquila e se não tivéssemos esperado tanto tempo na fila para a verificação de passaportes teria sido ainda melhor. O próximo desafio era encontrarmos o nosso transfere para o hostel, o que também não foi muito difícil tendo em conta que assim que passamos pela porta das chegadas vimos logo um senhor, com os seus chinelos da Nike, e com uma placa com o nome do nosso hostel: Kasbah Castel Red Hostel… ou talvez fosse Kasbah Red Castel Hostel, nunca consegui acertar com o nome do raio do hostel. O Salah, o nosso motorista, era muito simpático e entre inglês e francês – para minha tristeza, sobretudo francês – lá nos íamos entendendo.


A viagem de carro surpreendeu-nos. A verdade é que o que estávamos a ver era algo muito parecido com o que temos cá… e depois chegamos à medina, a parte antiga da cidade. Saímos da via principal e viramos à esquerda para um sítio onde as ruas eram estreitas, mal iluminadas e labirínticas. Rapidamente perdemos a noção do caminho que fizemos a partir daí e passamos por pessoas que, naquele ambiente, não nos transmitiam confiança nenhuma. O jipe parou em frente a um edifício que, para além de ter o nome do hostel na porta, era igual a muitos outros. Confesso que nessa altura fiquei apreensivo, não foi de forma alguma a melhor primeira impressão.


Acordamos relativamente cedo para podermos apanhar o pequeno almoço e as coisas mudaram como da noite para o dia. O hostel era mesmo muito bom e tinha um rooftop incrível com grandes mesas e sofás ainda maiores, um espaço verdadeiramente agradável. Logo aí conhecemos imensas pessoas que estavam/iam fazer o mesmo que nós: correr Marrocos. Assim que meti o pé na rua percebi que tudo tinha mudado. Os becos escuros eram agora pequenas lojas com os mais variados produtos; as ruas labirínticas e estreitas estavam agora cheias de locais que tentavam ganhar a sua vida com a venda de peixe, carne, pão, vegetais, enfim, tudo o que esperamos ver nas prateleiras de um supermercado, só que ali, naquele enorme labirinto que era a medina de Marrakech. Era impossível assimilar tanta coisa ao mesmo tempo!


Rapidamente nos sentimos confiantes o suficiente para andar à vontade nas ruas e estávamos desejosos de nos estrearmos numa ronda de negociações marroquina. Pode parecer estranho, mas em Marrocos – sobretudo em Marrakech – nada tem um preço definitivo e se cairmos no erro de não negociar e aceitar o primeiro número que nos é proposto, estamos a pagar o dobro ou mesmo o triplo do valor do que estamos a comprar. As souks eram intermináveis e sem sombra de dúvida muito mais movimentadas do que se possa imaginar. É indescritível a quantidade e variedade de coisas que estavam ali!


Quando penso em Marrakech lembro-me é do ambiente que vivi lá. É um desperdício de tempo tentar visitar as “atrações turísticas”, até porque eles prometem grandes palácios reais, mas depois o melhor que temos é um muro e um sinal de interdito. Há toda uma experiência além disso, todo um mundo que tem de ser vivido.

 

António Garcia

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

26
Nov19

Um adepto desiludido

Jur.nal

 

 

Bem, confesso-me um adepto do desporto no geral. Em termos figurativos, se o desporto for um buffet, eu sou o tipo de pessoa que escolhe um pouco de muito. Pratiquei 3 desportos (natação, basquetebol e andebol, a minha modalidade predileta) durante o meu desenvolvimento, desde miúdo com jardineiras a provável futuro licenciado em direito. Apesar de vir de um meio a quem o desporto era nada mais do que uma atividade extracurricular desenvolvedora de várias competências (agradecendo os meus progenitores), sempre tive o bicho do desporto (e consequentemente fui e sou um ávido crítico da nota de Educação Física não ser contabilizada para a média). E, inevitavelmente, é o futebol que me rouba mais tempo, não só pelo espaço mediático que ocupa mas sobretudo porque é o mais fácil de visualizar em stream (ups, chibei-me!).

 

Já andava há muito tempo para fazer esta análise, que na verdade é apenas a transcrição da minha visão atual do futebol, sobretudo o português (como adepto de um não-grande, há certos aspetos que passam menos despercebidos, ou que pelo menos são mais evidentes). E confesso que fico triste com o espetáculo que observo, incessantemente.

 

O futebol não é uma modalidade estática, aliás, nenhuma o é. Estática no sentido em que as mutações que ocorrem constantemente obrigam a uma constante reflexão sobre o "estado da coisa". O futebol português, contudo, parece querer remar contra uma corrente demasiado forte para a falta de estaleca dos portugueses. Numa era de otimização do físico dos jogadores, das capacidades técnicas, da inteligência de jogo e da capacidade mental de estar perante milhares de adeptos no estádio, fora todos aqueles bem concentrados dentro das câmaras, o jogador de campeonato português é aquele colega que lá vai passando de ano pelos pingos da chuva, não se destacando em nenhum desses aspetos (será que é daqui que vem a "luz" do Costa para poupar os cofres com a questão dos chumbos?).  O exponente máximo do que refiro são as terríveis exibições dos clubes "tugas" na Europa.

 

Temos um Benfica estático, sem frescura física (talvez com Grimaldo como exemplo perfeito), debilitado tecnicamente (Rafa que esteve para rumar ao enorme campeonato turco antes do Vieira ter uma "luz" e mantê-lo no plantel, Gabriel que vem de um modesto Leganés), em suma muito inferior ao necessário para atingir a "dimensão europeia". A aposta da formação é uma necessidade sem sombra de dúvidas. Mas será que meter os melhores num jogo contra um adversário modesto do nosso campeonato para depois largar os miúdos sem para-quedas na Normandia que é a UEFA Champions League é a melhor opção?

 

Um Porto vergonhoso cuja única surpresa que nos dá esta época é a posição na tabela da Liga Europa. Futebol extremamente previsível (ora por chutão, ora por variação lenta entre flancos, com laterais projetados ofensivamente, extremos que deixam de ser extremos por estarem em terrenos interiores, e cruzamentos a torto e a direito, na esperança de que apareça Zé Luis/Marega/centrais vindos do nada), com uma carteira extremamente apertada, mas sem um aparente projeto que permita a sustentabilidade de um clube que já muito fez pela reputação do campeonato português (para o melhor e para o pior).

 

Um Sporting ainda a perceber se é carne, peixe ou soja, em completo reboliço, sem sequer ter carteira e, mais que isso, com a clara falta de ideias de jogo, parecendo um grupo de amigos que se juntou para dar uns toques antes do jantar (e que depois levam da mãe na cabeça porque o arroz com salsichas e um ovo estrelado por cima ficou frio). Além de sem saber o que é, não há um esforço entre todos os sócios para se tentar arranjar uma solução. Já imaginaram o que era se cada neurónio dum cérebro funcionasse de forma diferente de todos os outros? Pois, eis o Sporting.

 

Um Guimarães que, recordando um sketch dos Gato Fedorento, vai para a guerra com "um pau, dos mais afiados" e 11+3 homens, contra "30 mil homens", armados com "canhões, algumas metralhadoras e 3 mísseis", fez sempre um "quase conseguimos". Com Ivo Vieira ao comando, inspirado pelos longínquos tempos em que, ao comando do Marítimo, vergou o FC Porto na meia final da Taça da Liga (e que recordo, com tanta saudade), e que apresenta um futebol fluído, clínico (a falhar talvez na eficácia). Fico a pensar que, com outros intérpretes e outra carteira, quem sabe se não estaríamos perante o próximo Leicester...

 

Não posso criticar o Braga porque têm feito um excelente percurso... até olharem para dentro de casa e perceberem que talvez deixar os biscoitos no forno enquanto se sai de casa para ir ao supermercado pode ser um risco demasiado grande. António Salvador promete um título nacional... para daqui a 3 anos, todos os anos. Parece o Costa a dizer que não vai aumentar os impostos.

 

Pareço o velho do Adamastor, talvez me exceda na crítica. Mas a falta de qualidade de jogo jogado, as constantes "fitas" dos jogadores (somos das piores ligas europeias em tempo útil de jogo), o constante autocarro... Há soluções? Talvez não imediatas, mas é sempre possível criar condições para que as coisas se possam desenvolver. Campeões Europeus? Sim somos, pelo menos até 2020. O facto de o Éder, sendo o jogador que é, ter marcado aquele maldito golo, é talvez a melhor demonstração daquilo que somos, prova de que há ainda muito por fazer.

 

Pedro Catanho

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

24
Nov19

God Delusion

Jur.nal

O problema sem fim da existência de Deus e a minha inconformidade e incompreensão na fé cega que os homens têm na inexistência “D”ele.

 

 

Realmente, quem é que acredita em Deus? O ser humano, aliás, o ser humano que não pensa, ou o ser humano que pensa demasiado e acaba por ser esmagado pela insignificância, pela absurdez ou pelo horror do Mundo, sendo assim obrigado a acreditar em Deus. Isto é como os bifes, há bem-passado e mal-passado, bem-pensado e mal-pensado. O melhor é ficar no médio, ou no médio-mal. Porque quem olha para as coisas, com olhos de ver, apercebe-se de que não consegue aperceber-se de nada, isto é, exceto que a fé em algo maior não passa de um cope por ter medo de tudo o que não compreende, e que “Deus”, seja lá o que for, não passa de uma resposta predefinida a todas as grandes questões da Humanidade. Essas são as duas verdades absolutas da nossa existência. Bem, essas e que nada pode ser irracional, porque se há uma coisa que todos os grandes filósofos, pensadores e cientistas concordam sobre a nossa existência é que esta é puramente racional e explicada por factos. Portanto, arrogantes são aqueles que as contrariam, e humildes são os que as aceitam. Arrogantes são os apóstolos que se ajoelharam no momento que viram Cristo ressuscitado, humilde é Tomé, que só acredita no que vê. Arrogantes são os que preferem acreditar no mistério de Deus, numa força que admitem não compreender, mas que tentou ao máximo simplificar as coisas ao descer à Terra, e humildes são os que preferem assumir que tudo ou já foi descoberto ou estará por descobrir, e que na sua humildade chamam os crentes de arrogantes por recusarem a acreditar nas suas crenças, e bem.

 

E mal, claro. Não estou aqui para justificar a existência de Deus, nem para explicar o que é a fé. Cada um tem um caminho para a crença, ou para a descrença, e há que respeitar isso. O que é, no entanto, inaceitável, é acusar os outros de serem sabichões ao ser sabichão/sabichona. O argumento que encontramos aqui é simples, embora enganador. Quem acredita em Deus utiliza Deus para explicar tudo, exceto a própria existência de Deus. Aqui deparamo-nos com a clássica irracionalidade do crente, o ponto fulcral do texto. Digo clássica quando na realidade deveria dizer moderna, este tipo de crítica só começou a surgir, historicamente, no século XIX, tanto que antes o Racionalismo era identificado com autores bastante religiosos, sendo o Catolicismo (a religião com a qual tenho mais familiaridade e, por isso, menos problema em levantar) visto como “demasiado racional”. Aliás, podemos dizer que a teologia clássica de autores como São Tomás de Aquino era puramente racional, pretendendo sistematizar o conteúdo da revelação divina, da preambula fidei, de uma forma efetivamente compatível com a razão. Ora, o nosso amigo/a anónimo/a cai na simples contradição de assumir verdades absolutas embora incompreensíveis ao promover o que parece ser ou niilismo ou positivismo/cientismo. Uma contradição que roça na hipocrisia, diria eu. Deus é misterioso, como quem vai à missa saberá. Quem acredita em Deus aceita que não terá todas as respostas e que não conhecerá as formas com que Deus age. No entanto, dá esse salto de fé, de olhos vendados, e dá-o com confiança e alegria. Quem não acredita, irá acreditar em n outras coisas, sem as compreender também. É assim a vida. Se nem no Direito o positivismo-formalismo serve, quanto mais na vida? Ou vai me dizer que consegue explicar tudo o que vê? Ao detalhe, de forma puramente racional e empírica? Muitos já tentaram, muitos já falharam. Parece uma atitude meio arrogante. Outra opção seria não acreditar em nada, mas nem vale a pena levantar essa hipótese tendo em conta que todos acreditam em algo, mesmo se for algo mínimo que nem reparam. Citando uma frase que gosto muito de citar, de David Foster Wallace: Because here's something else that's weird but true, in the day-to day trenches of adult life, there is actually no such thing as atheism. There is no such thing as not worshipping. Everybody worships. The only choice we get is what to worship”. Espero que o absurdismo acabe por ser a posição adotada pelo texto, embora não seja claro, porque mesmo sendo mais preguiçosa sempre é mais honesta. Posto isto, será o homem mais parvo do mundo crente? Se calhar, mas até Gil Vicente dizia que esses mereciam salvação. Agora, quem está no curso de Direito, não tem mais que poucos anos de idade e acha que sabe o que está certo e errado num mundo que admite não compreender? Na melhor das hipóteses, acha-se bom e, nas piores, é hipócrita, ou iludido. Só sei que nada sei, e que prefiro estar do lado dos "parvos" do que dos intelectualmente desonestos. 

 

22
Nov19

Marraquexe II

Jur.nal

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Marrakesh é aquele Marrocos que idealizamos. É aquele Marrocos seco, quente e exótico. Marrakesh é cor e agitação. É um ataque aos 5 sentidos. Quase sentimos que não conseguimos absorver tudo, precisávamos de nos focar em cada um dos 5 de cada vez. Mas quando queremos captar bem cada cheiro, há algo que nos enche a vista ou que irrompe pelos nossos ouvidos. Marrakesh é intensa e impactante. Quando queremos tirar uma fotografia "a Marrakesh" não conseguimos. Porque a verdade é que os monumentos da cidade não chegam aos calcanhares daquilo que verdadeiramente existe para visitar: o ambiente. Não conseguimos captar o ambiente numa imagem, pelo menos eu não consigo, porque não sou particularmente dotado. É um local que tem verdadeiramente de ser visitado, pois nenhum relato lhe faz justiça, nenhuma imagem o consegue representar adequadamente.

 

As paredes vermelhas levam-nos para mais longe do que uma travessia de uma hora e meia. As pessoas que frequentam a cidade levam-nos a vários cantos do mundo, uma vez que, ao contrário das outras cidades, existem visitantes de todo o lado a habitar os hostels. As souks da cidade levam-nos a crer que não têm fim. Toda a gente se parece dedicar ao comércio, a "sacar" mais alguns dirahms aos turistas. Sobretudo se forem vestidos de calção beje e polo lacoste como o António. A venda de peixe colocado no chão com a temperatura a marcar os 33 graus e as vespas que infestam os doces vendidos fazem antever o pior, mas os deliciosos sumos naturais da praça jem el-fna acalmam qualquer preocupação e "obrigam-nos" a confiar nos vendedores.

 

Enquanto único local a visitar numa ida a Marrocos, aconselho. Aconselho porque é uma explosão de sensações que não se consegue encontrar em mais nenhuma das outras cidades e é também onde mais sentimos que estamos noutro mundo face à Europa. Mas enquanto primeira etapa de uma viagem de 16 dias pelo país, era desaconselhável. Porquê? Por um lado, porque cada detalhe em Marrakesh é avaliado em, sensivelmente, 5 vezes o preço praticado "para marroquinos" nas outras paragens. Por outro, porque tememos que a viagem seja sempre assim: calor, abordagens permanentes, um frenesim que pretendemos captar e nos foge.

 

Miguel Almeida

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

20
Nov19

God Complex

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O problema sem fim da existência de Deus e a minha inconformidade e incompreensão na fé cega e desmedida que os Homens têm “N”ele.

 

 

O ser humano, enquanto ser pensador e consciente, tem uma necessidade sôfrega de saber tudo e pensa-se merecedor de todo esse conhecimento. No entanto, e felizmente, a realidade que vivemos não nos permite obter respostas para a maioria das perguntas que nos traspassam ao longo de uma vida, por si só finita. Como seria expectável, o Homem não se contenta com o não saber, não se contenta com o inexplicável e sente medo do desconhecido, sente receio de tudo aquilo que não vê e não compreende; reside aqui, para mim, a maior contradição e irracionalidade na fé em Deus.


Numa tentativa de supressão desse medo e desse receio e com o objetivo de viver uma vida com uma consciência mais tranquila, despreocupada e desresponssabilizada, o ser humano recorre a uma identidade metafísica divina - Deus - que, através de mecanismos que transcendem a capacidade e o entendimento humano, “responde” a várias questões pendentes, exceto à própria questão, Deus.


A contradição: o Homem procura respostas para aquilo que não conhece recorrendo a algo que não tem uma explicação plausível por si só, ou seja, procura o saber e a verdade absoluta numa “coisa” que também não consegue compreender, explicar ou provar empiricamente.


Tudo aquilo que achamos saber é limitado pela única perspetiva que temos. Vivemos numa cápsula e receamos o inexplicável, no entanto recorremos a Deus para nos retirar da cápsula da qual temos medo de sair, efetivamente.

 

15
Nov19

Marraquexe I

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Uma das memórias mais vívidas que tenho de Marraquexe é a viagem feita do aeroporto até ao hostel em que iríamos ficar hospedados, que nos aterrorizou na altura, mas é hoje motivo de galhofa.


Ora, estávamos nós acabados de chegar a Marrocos, com a cabeça feita de hesitação e prudência por aqueles que deixámos em Portugal – cujo receio habitava, por vezes, no limiar da xenofobia – quando enfrentámos o primeiro teste: apanhar o transfere pré combinado que nos levaria ao hostel.

Para este efeito, lá procurámos o nosso chauffeur privé marroquino, que nos pareceu simpático, bem, pelo menos um pouco mais do que a viatura em que tivemos de entrar...


De cinto posto, colocámos o GPS para controlar a viagem e fomos trocando algumas palavras em francês e inglês. As estradas pareciam normais e o panorama não assim tão diferente... isto é, até ao momento em que encostámos o carro ao pé de uma rua estreita e escura, saída de uma mistura entre um filme de guerra e um de terror.


“Ah, vai só mostrar-nos aquele monumento ali! Não vai entrar por aqui, é impossível...”
E de facto mostrou. Porém de seguida, entrou pela tal rua a dentro e, aí, troquei um olhar com os meus companheiros que dizia tudo.


“Bem. Já fomos."


As casas acomulavam-se umas após as outras e as passagens encolhiam cada vez mais. As luzes do carro eram as únicas naquele labirinto sombrio. Na rua, vivalma excepto um marroquino aqui e ali, que naquele contexto, pareciam fazer jus ao que nos haviam dito.


Paramos no meio do nada. De repente, motas.


“É agora. Preparem-se para ser assaltados e/ou raptados.”

Mas não foi. E não fomos. E o hostel era fantástico.

 

André Carmona

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura; Diretor do JUR.NAL)

 

13
Nov19

Entrevistas #6 - Benjamim

Jur.nal

“(…) escritor de canções, músico e produtor. Em 2015 lançou 'Auto Rádio' e em 2017 gravou '1986', disco a meias com o músico britânico Barnaby Keen.” É o que se começa por ler na biografia da página de Facebook de Benjamim, que, de resto, deu que falar nesta entrevista. A Micaela Ribeiro e o André Certã, ambos alunos do 3.º ano da Licenciatura, partiram para a conversa com este multifacetado artista português.

 

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André - Quem é o Benjamim?

Benjamim – O Benjamim é uma personagem que eu criei para escrever canções, basicamente. Vem originalmente do Walter Benjamin, que era outra personagem que eu criei para fazer canções em inglês. Mas depois passei a escrever em português e achei que o nome já não fazia sentido e fiquei só com o ‘Benjamim’. Acaba sempre por haver uma vontade de escapar ao nome [Luís Nunes] (risos).

André – Sendo nós alunos universitários gostávamos de conhecer a tua experiência universitária.

B – Comecei por estudar Antropologia na NOVA. Fui para lá em 2004 e saí em 2008. Foi uma boa experiência, acabei o curso. Depois, tive uma experiência em Londres. Estudei Engenharia de Som. Portanto, tenho dois currículos académicos bastante diferentes.

Micaela – De onde surgiu Antropologia?

B – Honestamente, veio de não ter média para Direito (risos). Acabou por ser engraçado porque apesar de ter Direito como primeira opção nunca quis fazer Direito. Era uma obrigação moral que eu sentia pelas expectativas familiares. Mas não entrei, e ainda bem, porque se tivesse entrado não teria acabado o curso porque é demasiado exigente para um gajo como eu que passou a Faculdade a fazer música.

Micaela – Consideras que o ambiente da FCSH te ajudou a perceber que o caminho era a música?

B – Foi claramente um ambiente mais favorável porque existiam mais pessoas ligadas às artes. Há malta ligada às artes em todas as Faculdades, mas na FCSH… eu conheci o B Fachada na FCSH! Foi absolutamente determinante no início da minha carreira musical.

 

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André – Focando-nos agora na tua música, e recuperando teu último álbum: como foi gravar o 1986 com o Barnaby Keen e todo o percurso que se seguiu com ele?

B – Isso surgiu porque eu conheço o Barnaby de Inglaterra já de alguns anos. Cruzámo-nos quando estava lá a trabalhar e acabei por fazer som para a banda dele. Ele percebeu que eu era português – ele viveu no Brasil e fala português, e é fanático por música brasileira. Criámos uma amizade baseada nisso. Ele é um grande músico. Houve uma vez em que veio a Portugal e fizemos uma jam juntos e aquilo estava a soar bem. Surgiu-nos a ideia: ‘bora fazer um conjunto, e fazemos um álbum em que eu posso cantar músicas tuas e tu músicas minhas. Ele veio duas vezes a Lisboa, depois, e gravámos. Foi incrível andar com ele na estrada.

Micaela – Em relação ao teu primeiro álbum, o Auto Rádio, que pessoalmente é o meu preferido, tem a canção Exílio. De onde veio? Parece-me uma ode de agradecimento a Lisboa.

B – Não é bem um agradecimento. Surgiu numa altura em que eu estava chateado com Lisboa- Foi quando voltei para Portugal, em 2013, na altura da crise, em que toda a gente dizia “não voltes, aqui não há nada”. Nasceu um pouco de eu andar por Lisboa à noite e pensar nos prédios com centenas de anos que resistiram a crises bem piores e continuam de pé. É essa ideia de que a vida continua e teres de te agarrar à cidade como coisa constante na tua vida.

André – Com o álbum 1986, a Terra Firme tornou-se a tua canção mais famosa. Como te sentes em relação a isso: tinha-lo previsto?

B – Não (risos). Não tinha previsto nada disso. Nunca prevejo esse tipo de coisas. Imagino sempre que vai correr mal, e depois logo se vê se corre bem. Foi surpreendente, e obviamente fiquei muito feliz. Na verdade, era uma canção na qual eu acreditava bastante, e acabou por ser uma grande luta chegar a ela tal qual ficou no disco, houve até momentos em que me disseram que a devia tirar. Foi uma canção que teve um parto algo difícil e, portanto, foi surpreendente ver o quanto cresceu e o impacto que teve. Fui completamente apanhado de surpresa. É uma canção que, ao contrário de outras, eu não me farto de tocar, e, portanto, fico contente que tenha ressoado nas pessoas.

André – Mas, ao contrário de outras canções, Terra Firme tem um cariz diferente, mais político.

B – Sim. Não lhe chamaria político, mas mais humanista em consciência. Não é uma canção política nem pretendo ter intervenção política. Estava no sofá, a assistir ao que se passava no mundo (na altura, havia mais ecos do Mediterrâneo), e tinha um pouco aquele sentimento de impotência. A única coisa que podia fazer era desabafar [através da música].

André – E o resto do álbum tem alguma back story?

B – Tem referências ao mar, que eu acho que têm a ver comigo. Não foi propositado. As minhas quatro canções deste último álbum são todas diferentes. Não tentámos que as canções tivessem uma ligação entre elas, porque isso era muito difícil de fazer e talvez nem desse grande resultado. A nossa ideia foi conseguir uni-las através da nossa energia musical. Mas são histórias diferentes.

 

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Micaela – Há muitos artistas que dizem que os pontos maus das suas vidas são o que lhes dá mais criatividade. Revês-te nisso?

B – Não quero acreditar nisso, espero que não seja verdade (risos).

Micaela – Se tivesses de escolher uma das músicas de todas as que já compuseste para te caracterizar enquanto músico qual seria?

B – Neste momento, é a Terra Firme que mais me representa. É uma canção na qual me revejo muito. Se pensar na Os Teus Passos ou na Tarrafal, os meus primeiros singles, e que lançaram o projeto, são canções nas quais eu me revejo pouco, mas foram muito importantes quando comecei a tocar. Também já estou um pouco farto: fiz 200 concertos com aquelas músicas, a certa altura começas a ganhar aversão… e há canções que sobrevivem melhor [Terra Firme]. Não me chateia nada que as pessoas me conheçam só por essa canção; seria pior se só me conhecessem pela Os Teus Passos ou pela Tarrafal.

Micaela – Que artista português podes dizer que, neste momento, está na tua playlist?

B – Olha, o Luís Severo está na minha playlist, o Filipe Sambado também. O B Fachada obviamente. Mas estou a esquecer-me de nomes…

André – O B Fachada é quase um ícone. Também na entrevista ao Luís Severo se falou dele.

B – Ele foi um grande precursor. Em 2008, com a Flor Caveira, quando aparece ele, o [Samuel] Úria, essa malta toda…, o B Fachada obviamente teve muito destaque na altura, e era um gajo que ocupava um território um bocado diferente porque não era religioso. De entre aquela malta toda ele apelou a públicos um pouco diferentes. Foi um pouco mais longe, na altura, do que os outros. Não esquecendo, obviamente, o Úria que hoje tem uma grande carreira e é um gajo que eu ouço bastante. E ando a ouvir muito Sam The Kid! [Ainda sobre a pergunta anterior].

André - Recentemente, quando aconteceu o triste falecimento do Daniel Johnston, puseste um vídeo no teu instagram de uma cover tua da True Love Will Find You In the End.

B – Não é uma grande cover (risos). Senti um bocado de vergonha com essa gravação.

André – Eu, pessoalmente, gostei. E também gosto do Johnston. Ele teve alguma influência na tua música?

B – Sim, claro. Quando eu o descobri foi um pouco uma revelação. Aquele tipo de som lo-fi… eu já tenho 33, portanto sou daquela geração que bebeu muito do indie rock dos anos 90 americano (Yo La Tengo, Pixies, Nirvana, Smashing Pumpkins, …) e, obviamente, nesse pacote também há Daniel Johnston. Aquela maneira de cantar deixa-te desconfortável, tu não percebes se gostas ou se não gostas – aquele som mais cru. Mais depois acabas por te apaixonar. Eu gosto mesmo muito da música dele.

 

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André – Tu colaboras com outros músicos portugueses, nomeadamente a Lena D’Água. Donde surgiu esta colaboração, tendo em conta que se trata já de um ícone da música portuguesa?

B – Eu conheci a Lena porque a tinha posto nas minhas influências no meu perfil de Facebook, e ela, uma vez, ouviu uma música minha na rádio e foi investigar no Facebook quem era eu. Deu de caras com a minha página no Facebook e viu lá o nome dela… mandou-me mensagem e começámos a falar. Depois, veio fazer uma colaboração comigo, na última vez que toquei no CCB, há 3 anos. , e eu sempre tive a cena de querer trabalhar um dia com ela. Entretanto, mais amigos meus também andavam a namorar essa ideia e acabaram por também tocar com ela. A primeira canção que gravámos com a Lena foi no Festival da Canção, há 3 anos. Aí, fomos a banda de suporte dela e fomos nós que gravámos a canção dela. Fomos à final, ganhou o Salvador [Sobral]. Foi aí que tudo começou – estivemos 2 anos a gravar o disco dela [Desalmadamente, 2019].

André – Quanto à Joana Espadinha, têm juntos a canção Leva-me a Dançar. De onde surgiu essa tua colaboração?

B – Eu conhecia a Joana apenas de “Olá, tudo bem?”. Conhecia, na altura, o João Firmino, namorado dela, vocalista dos Cassete Pirata. Houve um dia em que ela me mandou mensagem a convidar-me para um café dizendo que gostava muito de falar comigo, e surgiu a ideia. A história é mais comprida que esta, mas basicamente foi o que aconteceu. Sendo que desde este momento até começarmos a trabalhar demorou cerca de 1 ano. Houve uma série de coisas que tivemos de harmonizar.

André – Planeias algum álbum em breve? Qual o futuro do Benjamim?

B – Eu estive 3 anos a produzir montes de discos (Joana Espadinha, Cassete Pirata, Flak, Lena D’Água, e agora João Pedro Pais, muito recentemente), foram muitas coisas e foi muito duro em termos de trabalho. Cada disco são meses em que estás focado naquilo. É um trabalho física e psicologicamente muito exigente. E agora cheguei à fase em que parei completamente de trabalhar para outros e estou só focado em fazer o meu disco e fazer canções (desde o verão de 2018). Em 2020, seguramente, terá de haver um disco. Se não, estou tramado (risos).

 

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Micaela – Vais manter a vibe dos discos anteriores ou podemos esperar algo de diferente?

B – É diferente. Não há guitarras, quase. É quase tudo ao piano, sintetizadores, caixas de ritmo, bateria, baixo… Estou um pouco a explorar o universo. Eu sempre gostei de música diferente, e odeio que a coisa fique ali sempre naquele rock. Portanto, acho que o disco vai ser bastante diferente do que foram os anteriores. Quando acabei de gravar o 1986 comecei a gravar um disco sozinho, um disco muito eletrónico, que se chama Berlengas e que já está quase todo gravado, mas ainda não está terminado. É uma espécie de disco perdido. Então, nós, no CCB [próximo concerto], também vamos tocar uma malha desse disco. No CCB acho que se vai perceber a onda do novo disco, mas não completamente (há canções que “puxam mesmo a corda” do ponto de vista sónico e que no CCB não conseguimos explorar).

André – A nível internacional, o que tens na tua playlist?

B – Eu ouço muita música, e demoro muito tempo a ouvir discos. Sou crente de que 85% das coisas que saem num ano não são assim tão boas. Hoje em dia há tanta informação, tanta música, tanta coisa apresentada como grandes projetos que é muito difícil seguir. Então, tento agarrar-me às coisas que ficam. Acho que o disco que tenho curtido mais este ano é o último da Sharon von Etten. Fiquei coladíssimo ao disco, é um dos que me marcou muito este ano. Depois, também ouço muitas coisas antigas: anos 60, 70…

André – E Benjamim consulta o Spotify… (risos).

B – Olha, tenho aqui Filipe Sambado, Elliot Smith, Purple Mountains, Glockenwise, Bob Marley, Little Joy, a All Things Must Pass do George Harrison, Capicua, Jungle, Beck, Panda Bear, Barnaby Keen, Primeira Dama, Beatles…

 

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Micaela – Houve algum momento-chave em que tu pensaste, quando eras novo, que era mesmo isto que querias fazer para a vida?

B – Foi gradual. Eu comecei por querer ser polícia, piloto de aviões, astronauta, inventor (esta foi uma cena que durou muito tempo)… A determinada altura, quando já estudava música, e quando comecei a tocar e a experimentar gravar coisas, comecei a ficar obcecado. Em 1997, tinha 11 anos, comprei uma revista de gravação numa loja de discos, que custava 990 escudos, portanto quase 5 euros. Comprei essa revista e lembro-me de ficar completamente transtornado com aquilo, no bom e no mau sentido. Lia aquilo de trás para a frente. Se calhar foi mesmo esse o momento em que percebi que queria fazer música na minha vida.

 

Os entrevistadores: André Certã, Micaela Ribeiro

Fotografias: Petra Freire

 

 

11
Nov19

Parasite

Jur.nal

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Parasite (Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019

Direção: Bong Joon Ho

Guião: Bong Joon Ho, Jin Won Han

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park

Duração: 132 min.

 

Num ano repleto de obras-primas cinematográficas, de entre as quais podemos destacar Joker (dirigido por Todd Phillips) e Midsmommar (dirigido por Ari Aster), eis que surge o filme mais ousado de Bong Joon Ho – Parasite. Muitos poderão conhecê-lo pelo filme Snowpiercer, baseado no romance gráfico Le Transperceneige, ou até de Okja, mas atrevo-me a dizer que Parasite é talvez “o filme” da sua carreira, tendo sido galardoado com a Palma de Ouro no festival de Cannes deste ano.

 

As obras de Bong Joon Ho exibem traços de crítica e sátira sociais, imbuídas por um tom cómico, com alguns cenários de violência, que demonstram o domínio do meio social na construção dos comportamentos e vivências das personagens. O filme Parasite não é exceção e constitui um grande exemplo dessas características.

 

Parasite possui uma narrativa bastante cativante, repleta de surpresas – das gargalhadas ao incómodo, é um filme que inquieta o público, mas que transmite uma mensagem bastante profunda sobre as discrepâncias sociais, concretamente na Coreia do Sul, contudo, é uma mensagem bastante abrangente que se pode aplicar a qualquer tipo de sociedade.

 

O filme retrata o quotidiano de uma família pobre, apresentando a perspetiva daqueles que sobrevivem numa sociedade que apresenta cada vez mais desigualdades. Estes “parasitas” – forma como são considerados pelos membros das classes mais elevadas - fantasiam com vidas envoltas em luxo, aspeto que analisado ao pormenor revela um profundo desejo de alguma segurança social e financeira. A família de Ki Woo (família pobre que protagoniza o filme) vive numa cave minúscula, sem quaisquer condições ou segurança, tendo inclusive de roubar a wifi dos vizinhos – confesso que soltei uma longa gargalhada enquanto assistia ao filme, por causa deste anedótico pormenor.

 

Inicialmente conseguimos perceber que todos os membros da família se encontram desempregados, vivendo tempos muito difíceis, e ganhando algum dinheiro a dobrar caixas de pizza. Entretanto surge a oportunidade de Ki woo dar aulas particulares de inglês a Da-hye, filha mais velha da família Park (família esta bastante abastada). À medida que o filme avança surge uma problemática muito pouco conhecida – a pobreza na periferia das grandes cidades da Coreia do Sul, engrossando o abismo social. É possível verificar o contraste entre os espaços físicos: por um lado temos a cave onde mora a família de ki woo, composta por quatro membros e, por outro, temos a casa da família Park, uma casa majestosa, demasiado grande para a família Park. Esta discrepância entre espaços físicos é intensificada pelos tons de lente utilizados em cada cena: enquanto que na zona de residência da família mais pobre são utilizados tons mais escuros, que transpõem um enorme negativismo, e gerando alguma repulsa no público, nas cenas em que surge a moradia da família mais rica são utilizados tons muito mais claros, com muita luz, sendo este o ambiente mais agradável presente no filme.

 

Como não pretendo “arruinar” com spoilers a eventual experiência dos leitores, abstenho-me de prolongar a minha exposição sobre Parasite. Resta-me dizer que este é, de facto, um dos melhores filmes de 2019, difícil de classificar em termos de género, com um enredo nada expectável e um final que deixa alguma abertura para o surgimento de teorias (e quem sabe, uma possível continuação).

 

Ana Machado

(Aluna de Mestrado em Forense e Arbitragem) 

 

09
Nov19

O Evangelho segundo Kanye West: Reflexões sobre Jesus is King

Jur.nal

“Christ is essentially the exemplar, that is we are to resemble Him, not mere profit from Him.”

 

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Assim dizia o filósofo existencialista e cristão Søren Kierkegaard, ainda no século XIX, anos antes de Kanye West, o grande pensador da era contemporânea, lançar o seu álbum mais divisivo e controverso até agora: Jesus is King. Embora costume fazer críticas acerca do álbum propriamente dito, decidi explorar o que será o ponto focal do álbum, a relação de Kanye West com Jesus Cristo, através de um prisma cultural, filosófico e essencialmente teológico. Porquê? Porque Jesus is King é, talvez, o álbum mais importante deste ano, do ponto de vista cultural, e porque Kanye West, para o bem ou para mal, é o artista cristão mais importante da atualidade, e está aqui para ficar.

 

Jesus is King é tudo menos um álbum linear e consistente, variando entre exaltações eufóricas e flexs ou piadas comuns por toda a discografia de Kanye (e algumas delas muito más: “Closed on Sunday, you’re my Chick-fil-a”?). Tal como o álbum varia em conteúdo (ou pelo menos em forma de apresentar o conteúdo), as opiniões regurgitadas pelos inúmeros críticos de sofá (eu incluído) pelo planeta variam também. A malta religiosa parece estar toda em êxtase com Jesus is King, e com razão: afinal, podem ver a redenção de um homem outrora muito perdido ao vivo e a cores. Entretanto, a malta menos religiosa mostra-se cética, como é costume, questionando a integridade e o caminho que Kanye fez até agora, as letras esotéricas e “extremistas” da sua nova música e as decisões que o rapper/produtor assumiu durante o processo criativo, tal como a abstinência de todos os criativos envolvidos, os sunday services que roçam no cultismo e as pesadas referências bíblicas incluídas no álbum (para além da contratação de Kenny G, que acabou por ser a revelação surpresa de Jesus is King, diria eu). Entretanto, os stans vão cegamente segui-lo e os haters vão cegamente odiá-lo e deles não retiro nada. Retiro, no entanto, dois grandes pontos de cada um dos lados do debate que primeiro expus, e decidi adicionar um terceiro meu, tal como o padre da minha paróquia costuma fazer.

 

Em primeiro lugar, é inegável constatar uma verdadeira evolução a nível pessoal neste álbum. Kanye West apresenta-se mais focado e mais comprometido que nunca, inteiramente dedicado a esta nova direção que apenas recentemente assumiu, mas que sempre esteve presente no seu trabalho. Desde Jesus Walks, e passando por Life of Pablo, que Kanye tem uma relação muito próxima com Deus, sendo que nem sempre essa relação fora a mais saudável. No entanto, em Selah, de longe a melhor canção do álbum, digna de ser tocada numa Catedral, com um coro gregoriano a acompanhar, vemos essa relação a atingir o seu expoente máximo, com Kanye a invocar João 8:33-36 para anunciar que o Homem apenas será livre quando abandonar o pecado e se entregar inteiramente a Deus. Kanye sente-se finalmente livre e vê como o seu principal objetivo levar esta salvação aos outros, de modo a libertar o que ele vê como o seu povo escravizado. Chegamos ao fim da canção com uma clara referência a Lucas 10:27, à golden rule e ao mandamento de amar Deus e de amar o nosso vizinho. Ver Kanye, um homem tão consumido por uma cultura tóxica e obcecada com dinheiro, sexo e poder, a ajoelhar-se assim perante o Rei dos Reis, passa uma mensagem de esperança, que por sua vez só magnifica a sua salvação, levando-a a todos os outros. Relembra-me de Zaqueu (Lucas 19:1-10), um homem viciado pelo seu poder e odiado por todos, e que, para o choque de todos, recebeu Jesus em sua casa e rendeu-se perante a sua presença. Tal como Zaqueu, Kanye desceu da sua “àrvore”, do conforto da sua fama, para criar um álbum destruidor de barreiras e de preconceitos da indústria, como é costume dele e da sua personalidade abrasiva e controversa, mas desta vez orientado para Deus. Follow God reafirma esta orientação, sendo que esta canção foca-se mais nos problemas e conflitos que surgem na sua relação com Deus, fazendo Kanye passar-se por um autêntico Jacob (Genesis 32:24-32), com medo de se submeter à autoridade divina e ao caminho de Cristo. A canção On God, e basicamente todas as outras canções do álbum ecoam este sentimento, algumas de melhor forma que outras, e o álbum acaba com um coro Gospel a cantar que todos os joelhos se dobrarão e todas as línguas se confessarão perante o nome de Deus, claramente extraído da carta de S. Paulo aos Filipenses 2:10-11. Em Use This Gospel, vemos a primeira “evangelização” do álbum com os irmãos Pusha T e No Malice, os antigos Clipse, a discutirem as suas vivências praticamente opostas, num diálogo que acaba por aproximar os dois de Deus. Jesus is King termina e torna-se, na sua mente, no mensageiro escolhido para espalhar a Palavra e, mesmo tendo em conta toda a sua personalidade e todas as suas ridicularidades, há que aceitar o inegável progresso de Kanye a nível religioso e pessoal, e admitir a autenticidade da sua dedicação para com Deus.

 

Não obstante, a clara evolução de Kanye contrasta com a sua experiência de vida, com a sua atitude abertamente controversa e com a sua constante auto-promoção. É curioso ver a quantidade de ateus ou agnósticos não só a criticar Kanye pelo conteúdo do álbum, mas também pela sua hipocrisia, acusando-o de não ser “bom cristão”. Embora não seja uma situação tão a preto-e-branco como estas críticas a pintam, há letras no álbum e atitudes na produção que devem levantar algumas sobrancelhas. As auto-comparações com Noé em Selah, acompanhadas por uma invocação das “víboras” que João Batista expõe em Mateus 3:7 em Closed on Sunday, sendo que os fariseus dificilmente podem ser comparados à indústria do hip-hop e muito menos aos críticos de Kanye, são claramente desadequadas, e até mesmo um pouco heréticas. Em Hands On, outra canção problemática do álbum, Kanye foca a sua mira nos cristãos, acusando-o de puritanismo e de o criticar por não ser um bom-cristão. Para além de serem claramente injustas, estas críticas revelam que Kanye olha para a escritura através de uma visão própria muito fechada, e que se faz vítima em vez de tentar varrer as contradições na sua fé. Kanye obviamente está determinado a evoluir e a melhorar-se e, para isso, precisa de receber certas críticas construtivas para o fazer, e não apenas fazer um álbum gospel que nem tem muito de gospel. Um grande problema de Kanye que nós cristãos (e não só) podemos apontar é a sua falta de humildade, bem como a sua excentricidade excessiva e por vezes nociva. Não é raro Kanye comparar-se com Sócrates, Shakespeare, ou até mesmo Jesus Cristo, e não é raro Kanye lucrar com esta atitude, tornando-se numa das pessoas mais ricas da indústria no processo, bem como uma das mais arrogantes. Estes comportamentos e esta arrogância são refletidas no álbum, que reflete também a indústria do prosperity gospel, que lucra com a fé dos seus crentes e seguidores. Kanye assemelha-se mais a um pastor evangélico de uma mega-igreja do que a Jesus Cristo propriamente dito, e talvez essa semelhança até seja uma ambição do cantor. Resumidamente, falta-lhe humildade na sua mensagem e na sua pessoa. Tal como invoquei Zaqueu, invoco a figura do jovem rico, que em Mateus 19:16 pergunta a Jesus Cristo o que é que tem de fazer para alcançar os portões sagrados e entrar na vida eterna (em Selah, Kanye admite achar que já tem entrada garantida, como se tratasse de uma discoteca e não da Cidade de Deus), dizendo-lhe que tinha cumprido todos os mandamentos fielmente. Jesus responde-lhe de uma forma bastante simples e direta: “Vai, e dá tudo o que tens aos pobres”. Aqui, Jesus Cristo afirma claramente que a liberdade perfeita só vem com uma libertação completa da cobiça terrestre e de um amor ao próprio vizinho radical, uma ideia exposta na encíclica Veritatis Splendor, do Papa João Paulo II, uma reflexão sobre a doutrina moral da Igreja e o problema do Bem e do Mal, que afirma: “O diálogo de Jesus com o jovem ajuda-nos a identificar as condições necessárias para o crescimento moral do homem chamado à perfeição: o jovem, que observou todos os mandamentos, mostra-se incapaz de, unicamente com as suas forças, dar o passo seguinte. Para o conseguir, são precisos uma liberdade humana amadurecida: «Se queres», e o dom divino da graça: «Vem, e segue-Me»”. Kanye quer ser livre e sente-se libertado e salvo pela palavra de Deus mas não pode ainda afirmar-se como perfeito. Aliás, como afirma Santo Agostinho, citado na mesma encíclica, esta liberdade perfeita e plena só é alcançada na eternidade, “uma vez que ficou em nós alguma fraqueza” e “na medida em que servimos a Deus somos livres, mas somos escravos na medida em que seguimos a lei do pecado”. Surpreendentemente, como podemos ver em Selah, Kanye parece estar ciente desta escravidão do pecado e sinceramente parece querer ser libertado desta, e este álbum é um excelente primeiro passo.

 

Antes de terminar, dirijo um ponto para os críticos de Kanye e não para o homem em si, de modo a responder a algumas injustiças ou permissões excessivas e pouco construtivas, não só para o homem, como para a nossa cultura em geral. Em primeiro lugar, dirigindo-me aos cristãos apologistas de um Kanye evangelizador, tenham cuidado com quem cegamente seguem. Kanye está num bom caminho, e ninguém o pode negar, mas não pode ser visto como um profeta, como o próprio se vê, muito menos como o salvador da nossa cultura. No fim do dia, Kanye é um homem com muitas falhas, como tantos outros, com uma dedicação e adoração a Deus fora do comum e, para além disso tudo, não tenho dúvidas de que a sua intenção é boa e que ele é “boa árvore, que dá boa fruta”. No entanto, Mateus 15:20 não enaltece apenas estas boas árvores, avisa também dos “falsos profetas” e, por vezes, a falsidade destes profetas não é essencial destes mas jaz na nossa percepção deles. Tenhamos cuidado com a forma com que vemos Kanye, pois este tem muito por onde caminhar.

 

Em segundo lugar, dirigindo-me aos céticos duvidosos da religiosidade do álbum e do próprio Ye, tenham cuidado com quem cegamente opõem. Para alguns, a religião é imediatamente motivo de repúdio e até mesmo de risos, causando assim uma cascata de acusações de falta de profundidade e de hipocrisias. Há poucas coisas mais profundas que a relação de um homem com Deus, e um álbum dedicado à adoração deste Deus, de uma forma completamente nova e pessoal é um dos maiores exemplos de dedicação religiosa dos últimos tempos. É corajoso um artista, tão famoso e tão controverso como Kanye, ou como Bob Dylan, que também lançou álbuns a anunciar a sua fé, assumir esta relação, e ninguém o pode negar. E, para adicionar insulto à injúria, estas acusações de hipocrisia são no mínimo desadequadas e no máximo hipócritas também. Lembremo-nos de um dos ensinamentos mais conhecidos da Bíblia: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra (obviamente não referindo-se a Kanye, mas a uma mulher adúltera que ia ser condenada ao apedrejamento pelos fariseus). João 8:7 diz-nos, quando o trazemos para esta discussão, que antes de atacar Kanye pela pessoa que foi ou é, devemos olhar para nós próprios primeiro e, talvez, no processo dessa reflexão, iremos perceber que tal como ele temos muito por onde evoluir, e que se calhar o melhor que podemos retirar de Jesus is King é uma lição de vida.

 

Voltemos à frase que usei para abrir o texto. Kanye, ao longo do seu álbum, mostra a sua evolução religiosa, a sua dedicação ardente para com Deus e o quão bem esta relação o fez. No entanto, não vemos Kanye a falar de um Cristo exemplar, mas sim de um Cristo a adorar, uma visão necessária, mas incompleta. Para além de o adorar, Kanye precisa de o seguir e o imitar, o que significará mudar a sua personalidade para se tornar mais plácido e próximo de Deus. Jesus is King é um primeiro passo para esta mudança e, como podemos ver, não só por Selah como também pela sua mais recente entrevista com Zane Lowe, onde West proclamou Roma como a “Silicon Valley da Humanidade”, está certamente mais focado e sereno, não só melhorando a sua relação com Deus como também a sua relação consigo próprio e com a sua bipolaridade, foco do álbum Ye do ano passado. Mesmo assim, falta neste álbum e na sua pessoa um simples aspeto: humildade. Como nos diz o gigante literário G.K. Chesterton: “It has been often said, very truly, that religion is the thing that makes the ordinary man feel extraordinary; it is an equally important truth that religion is the thing that makes the extraordinary man feel ordinary”. Kanye certamente se sente extraordinário, aliás, sempre se sentiu. No entanto, estará disposto a sentir-se ordinário? Está no caminho certo, mas estará em risco de se perder? Enfim, teremos de esperar por um novo álbum. Felizmente, parece que este virá ainda este ano, se Kanye resolver também o seu eterno problema com o cumprimento de prazos. Como diz o padre da minha paróquia, o caminho faz-se caminhando, e mesmo estando longe de o acabar, Kanye, com Jesus is King, já começou a caminhar.

 

Tomás Burns

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

08
Nov19

Humorista no séc. XXI

Jur.nal

(Imagem: NiT)

 

Vivemos numa altura em que a sociedade critica os jovens por tudo e por nada. Vêem-nos como seres impessoais, que já não se apaixonam da mesma maneira, que estão constantemente agarrados a um ecrã demasiado ocupados com a opinião dos outros para levantar a cabeça e ver o que o mundo tem para oferecer. Face a esta ideia distorcida da nossa geração, personalidades como o Pedro Teixeira da Mota vêm provar que nós conseguimos estar 1 hora sem sequer pensar em ir ao telemóvel.

 

É um humorista que sabe o que faz. Criou, através do podcast e do Instagram, uma relação extremamente forte com os seus ouvintes e seguidores e isso sente-se nos seus espetáculos ao vivo. Ainda que possa haver muitas opiniões diferentes sobre o tema, penso que a proximidade de idades entre ele e os seus ouvintes ajuda também a fazer do próprio o fenómeno que é. Podemos contar pelos dedos das mãos as pessoas que comparecem ao espetáculo dele que não fazem parte da sua faixa etária porque a verdade é que, ainda que seja um jovem cheio de talento para o que faz, o tipo de humor que apresenta não é para todos e certamente não é para pessoas mais velhas, mas ele não parece muito preocupado com isso.

 

É aqui que voltamos ao ponto inicial. Ora, se a sociedade nos critica por estarmos constantemente atentos ao que se passa na vida dos outros e não na nossa então, quem melhor para gozar com a nossa geração do que nós? E o Pedro Teixeira da Mota sabe fazer isso melhor que ninguém. No seu espetáculo de stand-up denominado de Caramel Macchiato, o humorista consegue gozar com todo o tipo de personalidade, desde o João Gabriel à Rita Ferro Rodrigues, e todo o tipo de situação, desde ir morar sozinho a uma rapariga do Porto que observava nuvens, sem nunca se preocupar em ferir suscetibilidades e, ora aí está, outro grande ponto a seu favor. O facto de ser jovem e estar no ramo da comédia há pouco tempo faz com que seja totalmente verdadeiro e transparente nos seus comentários e críticas, a maior parte delas tudo menos construtivas mas, na verdade, é isso que se espera e se quer dele pois foi essa a reputação e imagem que criou ao longo dos anos.

 

A plateia não parou de rir o espetáculo todo, muito provavelmente porque qualquer pessoa ali se conseguia identificar com ele e com os temas falados. Ouviram-se aplausos durante todo o tempo e até isso foi razão de gargalhada.

 

Beatriz Pires

(Aluna do 1.º ano da Licenciatura)

 

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