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JUR.NAL

O blog da revista oficial dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

O blog da revista oficial dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

14
Abr20

Why you should absolutely read the Catcher in the Rye - Jane and Holden

jurnal

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The Catcher in the Rye stands as one of my favourite books ever, due to the mark it left on me while I was growing up, in my teen years. I shall be forever thankful to the Portuguese teacher who recommended said book to me. While admittedly, it probably will not have such an impact on an older reader, I still wholeheartedly believe that the book can be a fond trip to the past for him or her.

The Catcher in the Rye is a coming of age book, we’ve all lived some of the things the protagonist, Holden Caulfield, goes through and we’ve all felt some of the emotions that he experiences. I could write at great length about the book and its scenes, the things it tries to convey, the points it tries to make, but, I find it way more satisfying to present you with one of, if not, my favourite scenes.

It takes us to a dialog between Holden and his “friend” Stradlater. Notice that I chose to use quotation marks around this word, because they aren’t exactly friends, perhaps not even at all: Stradlater is Holden’s roommate at his prep school and they spend a lot of time together, but that’s about it.

Now, Stradlater is discussing his date for the night, with this girl, and Holden knows he’s quite the womanizer – not really in a romantically redeeming way; we learn in the book that the two boys have double dated, and during that date, Stradlater keeps pressing his advances on his date, who keeps saying no, until, well, she doesn’t and they hook up (something that today would, and understandably so, generate a lot of controversy.)

Moving on, Holden is quite uninterested about the whole ordeal, until he learns that the girl Stradlater is seeing is Jane, his childhood friend. This event represents a complete “180” for Holden: he becomes really invested in the situation.

This is because Jane is someone very special to him - although they never dated and Holden never directly mentions it, you can see in the way he talks about her, that he cares deeply for her, in a clearly platonic interest I’d say. Take for example, the way he recalls her habit of keeping her kings on the back of the board in a checkers game, just because she wants to keep them safe – this is a memory and a girl which Holden is very fond of.

He keeps asking questions about Jane, to the point that he annoys Stradlater so much, that he tells Holden to just go talk to Jane himself, revealing that she is downstairs. Holden becomes even more upset, hesitant and unsure on whether to go see her or not. It had been a while since they had seen each other. Ultimately, he decides not to – he also fails to give her a call for the remainder of the story for fear of a lack of words, despite wishing to do so.

Before Stradlater leaves, Holden makes him promise that he will ask Jane if she still keeps all her kings in the back row, much to the confusion and disinterest of Stradlater.

During all of this, Holden is suffering with the idea that Stradlater will not appreciate and understand Jane, to him, she will just be another girl like the one in the car. This leaves Holden agonizing while Stradlater is gone, unable to distract himself, and makes him break out into a fight with his roommate, once he returns from his date and refuses to give him any details.

This was, to my young and developing self, a picture perfect portrayal of what some crushes and romances were like, and in that sense, provided me the understanding and comfort we all seek at that age – at a time where we all believe to be Holdens but never Stradlaters (which is quite ironic, because Holden probably, also, underappreciates and womanizes his share, namely the other significant girl interest in the book).

Not to say that the book fully loses its touch with an older demographic, we may all still be unable, at times, to go down stairs and meet our Jane's or to find the right words – and hopefully so, if we wish to still be young at heart.

Anyway, back to the main motif: this is why I believe you should read it…

However, if scenes like this fail to captivate you in any sense, then, well, perhaps the Catcher in the Rye may not have been the book for you, then or now.

André Carmona
(Aluno do 4º ano da Licenciatura)

29
Mar20

Uncut Gems (2019) - Crime para Outra Geração

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Em Good Time (2017), Josh e Benny Safdie agradeceram especialmente a Martin Scorsese. O agradecimento é justíssimo – em Good Time ressoa, entre outras coisas, o pouco reconhecido After Hours (1985) – e o realizador regressou aos créditos do trabalho dos nova-iorquinos como produtor. Curiosamente, li há pouco tempo alguém que lembrava uma comparação do novo filme da dupla com Goodfellas (1990), o magnum opus de Scorsese, alegando que Uncut Gems seria para esta geração o que os bons rapazes foram para a sua. Arriscada como é, arrastando a força que, inevitavelmente, arrasta, talvez esta ideia diga muito sobre o que a última sensação dos irmãos Safdie significa para o cinema.


A internet já se encheu de imagens de Adam Sandler, de óculos escuros, os dentes grandes e branquíssimos, a legenda, This is me, this is how I win, pelo que não há muito que valha a pena dizer: está, sim, extraordinário; é, sim, uma atuação que reforça a força da transição da comédia para o drama – como com Jim Carrey ou Steve Carell; era, com certeza, performance para mais nomeações. Posto isto, Sandler é Howard Ratner, um negociador carismático, proprietário de uma loja de joias, que se envolve em vários negócios à volta de um novo e especial artigo: uma opala negra.


Neste circuito de negócios, Uncut Gems cansa. Propositadamente. A entrada no filme funciona como um salto de altitude, um mergulho na confusão sem a qual o mundo de Ratner não existiria. Trivial como possa parecer, este é um exercício particularmente difícil de executar: aos irmãos Safdie não interessava a suspensão da envolvência, ou o foco sobre determinado aspeto da ação, o que é estruturalmente constituinte do cinema com esta exposição. Uncut Gems é um filme lotado, é a cidade de Nova Iorque espremida na pequena loja de Howard Ratner, é a confusão de um homem soterrado pela rede de negócios que montou. A câmara flutua freneticamente ou amplia progressivamente, as luzes são saturadas, as cores dão uma dimensão de artificial àquela realidade, aquele mundo. E é justamente isso que isto é: é o dinheiro que vai e vem, as trocas desmesuradas, as apostas irreais, é um fugazi, é o poder de uma joia.


Essa dimensão de artificialidade é constante ao longo do filme e os irmãos Safdie trabalham-na primorosamente: na sua construção e na sua destruição. Uncut Gems é um cinema frenético, de sobreposição, de confusão, que cria, que gera, que cresce e que, finalmente, derrama. E derrama com estrondo e com estilo: para isto muito ajuda a fotografia do eclético Darius Khondji, numa aproximação (diria que melhorada) ao estilo visual do Good Time. Na verdade, a fotografia da longa é prodigiosa na configuração do ambiente. No que ao peso do filme concerne, por ser tão meândrico, tão enleado, tão convulso, Uncut Gems torna-se claustrofóbico; e, para isso, não servem apenas as vozes que se sobrepõem constantemente, os diálogos que se perdem na multidão ou as portas defeituosas – a câmara sabe sempre onde estar, de que forma se mexer, quando e como aproveitar o desfoque. Seja na forma como capta o posicionamento de Howard nas massas nova-iorquinas, no toque quase documental, no aproveitamento do espaço ou, e isto vale a pena ser frisado, na extraordinária última cena (e num plano particularmente bom).

Evidentemente, o protagonismo de Sandler não é aleatório. Uncut Gems funciona como um estudo de personagem, inserido num meio que lhe é, em medidas avulsas, ao mesmo tempo conhecido e estranho, a que pertence e não pertence, que o aceita e o parece querer expulsar. A atmosfera ilusória que os irmãos Safdie criam, atraídos pelo errado, pela mentira, pelo transcendental – os zoom-in que falam do passado, da origem, da essência -, é  o próprio interior das personagens, profundamente americanas, perfeitamente mediadas pelo meio. Tudo funciona, porque tudo está na mesma página, do mesmo lado: o trabalho de câmara, a fotografia, as luzes dispersas são tão psicológicos e tão psicologizantes como o diálogo, o olhar, a postura; são tão criadores de atmosfera como a música ou o silêncio e tão essenciais para o que o filme significa como Howard é para a opala e a opala para Kevin Garnett. Como um ciclo de significados, como um interior acessível por uma objetiva, e como um exterior inquieto, turbulento, opaco. As personagens dos irmãos Safdie não são só consequências dos seus ambientes, são o próprio ambiente, são as histórias com que cresceram e que tiveram acesso. Por isso são tão reais, tão pesadas; por isso a aproximação ao visual do documentário. São personagens imperfeitas, que existem ali, naquele mundo ilusório, destrutivo, imparável; homens repartidos como o reflexo de um corpo morto num espelho dividido em vários.

Uncut Gems é isso: é frenético, é tenso, é claustrofóbico. O efeito que produz no espectador é do mesmo espírito do slogan do anterior filme dos realizadores, que perguntava are you ready to have a good time? Aqui, as regras da longa-metragem de 2017 crescem, como que sob o efeito de uma levedura, não necessariamente em termos de dimensão, mas de amadurecimento, de qualidade. Uncut Gems é menos sobre a sua história – embora seja uma bela história – e sobre o seu guião – embora esteja muito bem escrito -, do que é sobre ritmo, criação de ambiente, desenvolvimento de tensão. E não há nada de errado nisto: é uma experiência válida, é um good time, é uma forma de ser de uma geração que quer contar outras histórias, de outras formas. E há algo fascinante na forma de contar histórias destes dois irmãos: talvez a sedução da confusão, da saturação, de outros e novos perigos. O facto é que o que Goodfellas fez pelas narrativas de crime dos anos 80 e 90, Uncut Gems poderá fazer pelas de hoje. O tempo das histórias dos gangsters do Scorsese, da máfia do Coppola ou dos assaltos do Mann, ainda que inqualificáveis e, inevitavelmente, insubstituíveis, já não ressoa na geração do hip-hop, das redes sociais, do The Weeknd. Não é que não possam fazer nada por ela; é que há algo de espiritual no cinema de cada geração que, por mais recuperável que possa ser, na lembrança, no Criterion Collection, nos ciclos, nasce e morre nessa geração. Os bons rapazes vivem até hoje e viverão muito mais, mas esta já não é a geração dos molhos de tomate com alho cortado com lâminas de barbear ou do Somewhere Beyond The Sea; é uma geração profundamente diferente – convalescente, frenética, imediata, onde o crime, os protagonistas e o seu espírito são outros.

 

Francisco Fernandes

(Aluno do 2º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na FCSH)

22
Mar20

Melhores Álbuns da Década - Opinião de Miguel Horta e de Zé Pedro Paiva

jurnal

Tal como qualquer outra carta de amor, todas as listas de melhores álbuns são ridículas. 

Tomando esta verdade inevitável como ponto de partida, propusemo-nos a criar, em primeira mão e exclusivamente para o Jur.nal, a lista mais próxima possível do que achamos terem sido os álbuns mais relevantes dos últimos 10 anos. 

Para tal, foram usados, como critérios, o impacto que cada um teve na indústria, no público, mas, principalmente, no gosto pessoal de ambos. Este último critério foi, sem dúvida, o mais difícil de conjugar, e talvez essa seja uma das primordiais razões pelas quais este texto não está a ser lido nos primeiros dias de janeiro (procrastinações à parte). 

Resta-nos agradecer ao Jur.nal, e desejar que muitos de vós discordem veemente das nossas escolhas. Se assim for o caso, sintam-se no direito (deixamos ao critério do leitor o escrutínio de a piada ser propositada ou mero acaso linguístico) de nos insultarem na caixa de comentários abaixo, de preferência, defendendo aquelas que seriam as vossas escolhas que, desde já informamos, estariam erradas, porque só as nossas é que interessam.

Ora, vamos lá.

20. A Tribe Called Quest - We Got it from Here, Thank You 4 Your Service (2016)

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Dificilmente se poderia prever, no início da década, que uma lista como esta abriria com um álbum de A Tribe Called Quest. Separados desde 1998, o coletivo de Queens, liderado por Q-Tip - uma das mais singulares vozes da história do hip-hop - reuniu-se em 2015 para gravar aquele que viria a ser o último álbum  do grupo, após a prematura morte de Phife Dawg, que faleceu durante as gravações do álbum.

Os Tribe de 2016 são diferentes dos Tribe do início da década de 90. A lírica, anteriormente pautada por letras bem-dispostas, descontraídas, de auto-vangloriação, mas sempre autoconscientes e marcadamente tongue-in-cheek, é agora forçada a confrontar os problemas socio-raciais que definiram a sociedade e a cultura americana nos últimos anos. Não se limita, porém, a isso: há também tempo para recuperar temas antigos, para falar de amor, mas, principalmente, para recordar Phife, o Five-Foot Assassin que era, verdadeiramente, a cola deste grupo. Sobre a produção, há pouco a dizer: Q-Tip é, como sempre foi, dos produtores mais interessantes, progressivos e idiossincráticos da música urbana dos Estados Unidos, e We Got it From Here é só o último reduto disso mesmo.

Uma verdadeira passagem de testemunho - oiça-se Dis Generation, veja-se a lista de convidados do álbum - daquele que fica na história como um dos melhores e mais importantes grupos da história do hip-hop.

19. Lorde - Melodrama (2017)

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Quanta da melhor música que ouvimos podemos agradecer a corações partidos?

Em Melodrama, Lorde encontra, no final de uma relação, a tempestade perfeita para fazer uma introspeção bildungsroman-iana acerca daquela agitada e confusa fase a que chamamos ser um jovem adulto. A solidão é pintada em tons de cinza, com Lorde a deixar claro o sofrimento que esta lhe causa, mas a reconhecê-la como uma boa amiga que faz parte do seu crescimento pessoal. É um álbum que explora, com mestria e elegância, as desilusões, as incertezas e os arrependimentos pelos quais todos passamos, e um que é brilhantemente produzido por Jack Antonoff: um produtor e compositor virado para paletas sonoras modernas e frescas, que, com perícia singular, serpenteia por entre sintetizadores dançáveis, silêncios que valem como instrumentos, e baladas de piano que não soam fora do lugar num álbum dominado por uma sonoridade synthpop. 

Lorde, juntamente com Antonoff, constrói um álbum transversalmente emotivo e exuberante, um coming-of-age musical que é simultaneamente dançável e melancólico, e que é, sem margem para dúvidas, uma das obras pop mais interessantes e progressivas da década.

18. Arctic Monkeys - AM (2013)

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É evidente que, antes de 2013, os rapazes de Sheffield não eram propriamente desconhecidos do grande público. No entanto, foi com AM que os Arctic Monkeys conquistaram aquilo que só está ao alcance da mais restrita elite da música britânica: o mercado americano.

Não muito longe iam os dias em que Alex Turner e companhia soavam ao que de mais britânico há, acompanhando a linhas de voz a roçar o spoken word com guitarras descuidadas e sapatos de vela. Contudo, e talvez devido ao pouco sucesso do seu antecessor Suck It and See (2011), os Arctic Monkeys decidiram adotar uma abordagem diferente em AM. A mudança começou, desde logo, pela mudança de paisagem, deixando Inglaterra para trás, e mudando-se para Los Angeles.

O resultado é uma produção bastante mais cuidada do que o habitual, em que as guitarras barulhentas deram lugar a riffs precisos, de uma sensualidade notável, e onde  a bateria acelerada de Matt Helders passou a ser mais direta e frequentemente alinhada com a linha de baixo. É audível a influência de Josh Homme dos Queens of the Stone Age neste disco, mas não só. O hip-hop, e a própria Califórnia, também são presenças assíduas no álbum. Não é por acaso que muitos apontam os Arctic Monkeys como estando entre os responsáveis por manter o rock vivo e popular nos últimos 10 anos.

17. Joanna Newsom - Divers (2015)

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É altamente discutível - e, provavelmente, até será mais fácil argumentar em sentido contrário - se Divers é, sequer, o melhor álbum de Joanna Newsom desta década, porque Have One On Me é uma extensa e brilhante obra da harpista, tendo sido lançada no início da década.

Permitam-nos a defesa de Divers. O álbum de 2015 é um trabalho particularmente focado e coeso, sem abdicar de singularidade musical em cada uma das 11 músicas do mesmo. Newsom é uma compositora mais originais e completas da cena musical alternativa, incorporando, com mestria, elementos e arranjos clássicos em composições tipicamente folk, construindo, ao mesmo tempo, aquela que é, provavelmente, a sua obra mais acessível até hoje.

A acompanhar a incrível instrumentalização, as letras de Joanna Newsom, sempre carregadas de referências obscuras e influenciadas por poesia barroca, constroem uma temática que culmina em ‘Time, As a Symptom’, brilhante closing track que traz clareza a todo o álbum e à mensagem que Newsom quer passar. 

Newsom é, sem dúvida, uma das mais singulares artistas da música contemporânea, e Divers só vem ajudar a consolidar esse estatuto, revelando a sua capacidade de, sem pôr de lado a veia barroca e grandemente ornamentada da sua música, construir um álbum conciso, que condensa todas as suas qualidades enquanto compositora e intérprete nuns deslumbrantes 50 minutos.

16. Kamasi Washington - The Epic (2013)

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Por muito que tenha gostado do La La Land, não consigo concordar com o Sebastian: o jazz não está a morrer! Muito pelo contrário. Com a ascensão do novo movimento de jazz londrino, já é possível encontrar este gênero em muitos dos maiores festivais de música em Portugal. Outro excelente exemplo de que o jazz está vivo e recomenda-se são os jovens canadianos BADBADNOTGOOD que também têm particular afinidade por subir aos palcos lusos, o que voltarão a fazer já na próxima edição do Vodafone Paredes de Coura.

No entanto, não parece haver como fugir a 2015 e a este disco - para ser mais exato, a estes três discos. No mesmo ano em que emprestou o seu saxofone a Kendrick Lamar, em To Pimp a Butterfly, Washington surpreende tudo e todos com o lançamento de um disco triplo que ficaria para a história do jazz. O disco é tocado por uma banda de volume surpreendente, duas baterias, o pai de Kamasi, parecendo haver espaço para tudo, e para todos. O que é certo é que o disco não só é uma carta de amor aos nomes mais conceituados da história da música afro-americana como vai um pouco mais longe e amplia horizontes sonoros muito próximos do jazz de fusão. É difícil de descrever. Ouça-se!

O saxofonista americano trouxe toda a sua banda (que mal cabia em palco) a Lisboa em 2016, e voltou a terras lusitanas em 2019. Continuamos com saudades.

15. Car Seat Headrest - Teens of Denial (2016)

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Will Toledo gravou oito dos seus álbuns, enquanto Car Seat Headrest, de forma, convenhamos, pouco ortodoxa. Toledo singrou na cena DIY e lo-fi, e desde cedo soube tornar a sua limitação de recursos naquela que foi, durante muito tempo, o seu principal apelo: música pouco convencional, experimental, praticamente incompreensível em certos momentos, altamente biográfica, direta, honesta, crua, sem grandes adornos, mas sempre carregada de emoções e sentimentos com os quais já todos nos pudemos relacionar.

Teens of Denial abdica do pouco convencional, do experimental e do incompreensível, e faz excelente uso de todos os recursos que Will e a sua rapaziada tem agora ao seu dispor. Optando por um estilo de composição muito mais straightforward, sem renunciar às composições mais longas que sempre caracterizaram a sua música (à parte de ‘Joe Goes to School’, todas as músicas correm por pelo menos 4 minutos), Toledo brinda-nos com um álbum rock moderno, polido, e que, sem esconder as suas influências, soa a algo verdadeiramente original.

Não houve, sequer, renúncia ao caráter biográfico e emotivo da música de Toledo. Teens of Denial é uma obra de auto-depreciação, de histórias embaraçosas, de constrangimentos sociais, de confissões cantáveis, de refrões orelhudos que fazem - talvez demasiado - sentido para os nossos seres deambulantes e sem rota definida. Quiçá, nós, tal como Toledo, também não saibamos como é que é suposto dirigirmos este navio; e, quiçá, o melhor que ainda temos é sabermos que não somos os únicos.

14. Solange - A Seat At The Table (2016)

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Apesar de não ser o seu primeiro lançamento, foi com este disco que Solange se libertou do rótulo de “irmã mais nova de Beyoncé” aos olhos da crítica, o que não vemos como uma grande surpresa. Não que os outros discos sejam maus, mas a A Seat At The Table é o mais refrescante que a artista lançou, e serviu de início a uma sonoridade que viria a cunhar como sua, transportando-a para o seu seguinte disco, When I Get Home, de 2019.

Com faixas como ‘Don’t Touch My Hair’, fica bastante claro que o disco é dominado pela tensão racial sentida os Estados Unidos da América. Este tema proliferou pela indústria discográfica dos últimos 10 anos e, consequentemente, é também uma incontornável presença nesta lista. 

Solange surpreende neste álbum com uma produção que, apesar de muito mais trabalhada, é também concisa e coerente, o que dá espaço às suas linhas de voz para crescerem e ficarem no ouvido. Este disco ilustra também uma das grandes tendências da música popular dos 10’s, a fusão e mistura com outras sonoridades fora do espectro da Pop.

13. Radiohead - A Moon Shaped Pool (2016)

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Servirá de parca surpresa a todos os que minimamente conhecem estes que aqui vos escrevem que A Moon Shaped Pool tenha encontrado uma forma de estar nesta lista.

Depois de um álbum menos bem conseguido em 2011, os gigantes britânicos regressam cinco anos depois para lançar aquele que, provavelmente, ficará para a história como o seu mais belo e emocionalmente arrasador álbum de sempre. Não se deixem enganar pela energia de ‘Burn the Witch’: A Moon Shaped Pool é uma bomba cujo rastilho arde lentamente, um turbilhão de emoções que soará bonito ao ouvinte mais desatento, mas que arrebatará aquele que preste atenção às palavras de Yorke. Nele, encontramos algumas das composições mais suaves e contemplativas dos Radiohead (‘Daydreaming’ e ‘Glass Eyes’ vêm à mente, ornamentadas com os seus melancólicos arranjos de cordas); uma sonoridade orientada para o rock mais artístico e ambiente, e ainda algumas sonoridades totalmente inovadoras na sua sonoridade (‘Present Tense’ é uma fantástica balada com elementos de bossa nova).

No fim, encontramos ‘True Love Waits’, e, aí, o nosso coração parte-se. Yorke, que se havia separado da sua mulher, com a qual mantinha um relacionamento há mais de 20 anos, antes da gravação do álbum, escolhe este momento para, finalmente, gravar a música que havia escrito em meados dos anos 90. Não, esta não é uma decisão infundada. E é isso que faz com que os versos finais doam tanto.

12. Fleet Foxes - Helplessness Blues (2011)

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Questionem-se connosco: como é que um álbum gravado de forma a soar imperfeito pode soar tão...perfeito?

O álbum de 2011 de Pecknold e companhia expande tudo o que havia sido feito bem na sua estreia, sem comprometer, por momento algum, a sonoridade que lhes é tão típica. Com Helplessness Blues, os Fleet Foxes entregam-nos uma obra de folk progressivo que não se abstém de ser, também, desavergonhadamente pop.

É, contudo, nas suas letras que Helplessness Blues mais se distancia do seu antecessor. Ao longo de todo o álbum, Pecknold procura uma forma de lidar com as mudanças que ocorrem ao longo da sua vida, de lidar com um mundo que não é estático, que desafia o nosso conforto e as nossas perceções sobre o mesmo. É um álbum sobre crescer, só para nos apercebermos que, afinal, e contrariamente ao que sempre nos disseram, somos só mais um “snowflake among snowflakes”; sobre estarmos presos nesta confusa idade - os malditos 20s - em que já não somos jovens, sem sermos já adultos. E o que fazer disto? 

Pecknold não sabe, mas, em ‘Grown Ocean’, faz-nos uma promessa:  “I know someday the smoke will all burn off/All these voices I’ll someday have turned off/I will see you someday when I’ve woken/I’ll be so happy just to have spoken/I’ll have so much to tell you about it.” E esperamos estar cá para ouvir o que terá para nos contar.

11. Tame Impala - Lonerism (2012)

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Talvez o aspeto mais curioso sobre Lonerism seja o facto de que o álbum é, na realidade, a desavergonhada confissão de que Kevin Parker ama pop foleira. Sem problema, Kevin, nós também.

Em Lonerism, Parker define a sonoridade psicadélica-rock-prog-pop (esta mania de rotular música torna-se chata, não é?), que viria a ficar conhecida como o som dos Tame Impala: músicas relativamente diretas, com uma instrumentalização rica e uma produção altamente criativa, sem cinismo, sem pretensiosismos. Guitarras carregadas de reverb, baixos carregados de groove e uma bateria carregada de punch, os vocais agudos de Parker e os seus sintetizadores reluzentes criam uma atmosfera psicadélica e relaxada que viria a ser emulada por tantos outros que a utilizaram como benguela antes de construírem a sua própria sonoridade. 

É um verdadeiro testemunho à criatividade de Parker que o som de Lonerism tenha estado em todo o lado ao mesmo tempo, sem nunca soar tão bem e único como soa aqui.

10. Kids See Ghosts - Kids See Ghosts (2018)

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Kids See Ghosts são 24 minutos praticamente perfeitos de hip-hop confessional, com coragem de abordar temáticas sensíveis e atípicas ao género, mantendo o nível de produção a que, quer Cudi, quer West, sempre nos habituaram. Cada música é célere, direta e eficaz, e serve o seu propósito numa narrativa que é transversal a todo o álbum. É o projeto mais focado que alguma vez ouvimos de qualquer um dos membros do duo, e, tal como seria de antever pelas suas colaborações passadas, a química e compatibilidade criativa de Kanye e Kid Cudi criam um dos mais interessantes e diversos álbuns de hip-hop dos últimos tempos.

E, claro, é um álbum terapêutico, de exorcismo de demónios, que despe os rappers de qualquer inibição e lhes dá liberdade para confessarem os seus problemas e pensamentos, abrindo-lhes ainda espaço para refletirem sobre o seu passado, sobre o seu sucesso, e sobre a relação de ambos.

Um álbum central à carreira dos dois artistas, e que exorciza os demónios de ambos da melhor forma possível: dando-nos um dos mais criativos e entusiasmantes álbuns que alguma vez saiu das mãos de West ou Cudi.

9. Death Grips - The Money Store (2010)

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The Money Store não é um álbum para todos. Aliás, Death Grips não é para todos, nem para todos os dias. Leia-se isto da forma mais despretensiosa possível: a música de Zach Hill (principal força criativa do coletivo), de Andy Morin e MC Ride é pouco convencional, barulhenta, agressiva, por vezes desconfortável.

Mas não há como negar que estamos perante uma das obras mais criativas e expansivas da história do hip-hop. Com a sua produção altamente distorcida e comprimida, os vocais inconfundíveis (e incompreensíveis) de MC Ride, as suas caóticas e vulgares odes a personagens neuróticas e violentas - que, só por vezes, são contadas na primeira pessoa -, e com as suas percussões latejantes, The Money Store é um álbum construído sobre uma sonoridade industrial que, apesar de não ser isenta de precedente no hip-hop, veio ditar muita da paleta musical que viríamos encontrar nas vertentes mais glitchy e alternativas do hip-hop da década. 

Muitos tentaram replicar o que os Death Grips criaram aqui; ainda estamos à espera de uma tentativa bem-sucedida.

8. Daft Punk - Random Access Memories (2013)

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É certo que o facto de, no final do verão de 2013, a canção Get Lucky continuar em loop em todas estações de rádio poderá ter afastado muita gente das restantes faixas do álbum da dupla francesa. No entanto, com este disco, os Daft Punk ensinaram-nos que ainda se pode (e deve) fazer música de dança recorrendo ao analógico.

É fascinante ver como, em vez de mascararem as suas influências, com este álbum, os Daft Punk vestem orgulhosamente a camisola da música disco. Exemplos desta celebração da música dançável é a participação Nile Rodgers, mítico guitarrista do Chic, na elaboração de várias linhas de guitarra, incluindo a icônica Get Lucky. No entanto, a participação de figuras icônicas não se fica por aí: o álbum dedica uma faixa a Giorgio Moroder, o grande pioneiro da utilização do sintetizador neste gênero musical, sonoridade essa que viria a marcar a disco como género. 

7. Tyler The Creator - Igor (2019)

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Personas e personagens não serão estranhas a quem já estiver familiarizado com o universo de Tyler the Creator, mas a de Igor talvez tenha sido a mais relevante de toda da sua carreira até hoje. Com este disco, Tyler foi o primeiro rapper a solo a ter um álbum totalmente produzido por si no número 1 da Billboard, o que poderá ter sido um dos primeiros passos para ganhar o Grammy de Melhor Álbum de Rap na cerimónia de 2020.

Igor tem uma estrutura narrativa bastante simples e direta. É um álbum conceptual em que cada faixa cumpre a sua função para a história que Tyler nos quer contar. Depois da introdução (‘IGOR’S THEME’) nos dá o tom daquilo nos espera, o disco tem duas metades que se distinguem facilmente, não só pela sonoridade, mas também pela temática. 

Na primeira metade (‘EARFQUAKE’ - ‘A BOY IS A GUN’), Tyler ilustra uma paixão desmedida que se transforma progressivamente em dependência. Em seguida, entramos na segunda metade do disco (‘PUPPET’ - ‘I DON’T LOVE YOU ANYMORE’). Após uma pequena colaboração vocal Kanye West a personagem principal “recupera os sentidos” e desperta Igor, uma personificação do seu ego que o acompanha na superação da paixão não concretizada. O disco acaba com a pergunta retórica e desoladora: “Are we still friends?” 

Nota curiosa: a última sequência de acordes do disco é interrompida a meio, e só vem ser concluída com o primeiro acorde do disco, se o voltarmos a ouvir de seguida. Alguns críticos apontam que o álbum, tal como os degostos amorosos, é cíclico, construindo um loop perfeito em volta de si.

6. LCD Soundsystem - This is Happening (2010)

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Não é fácil encontrar uma estrela rock menos cliché do que James Murphy; e garantimos-vos que ele sabe disso.

Murphy iniciou o projeto que o fez saltar para a ribalta com 32 anos, aquela que foi, de forma quase demasiado adequada, apelidada de ‘Losing My Edge’. Em 2007, com 37 anos, lança Sound of Silver, obra que define e estabelece os standards de toda a cena dance-punk, da qual é figura central.

Aos 40, lança This is Happening - e, pasme-se, isso nota-se. Não que a sua música não soe tão moderna e forward-thinking como sempre soou. É só que, se a premissa de Losing My Edge se verificou, então, em This is Happening, Murphy já não está muito preocupado com isso; e nós também não.

Em 2010, o nova-iorquino soa a Bowie; soa a David Byne; soa a Iggy Pop; e já não quer saber. This is Happening é mais homenagem e “wearing your influences on your sleaves” do que puro e duro pastiche. É um álbum despreocupado, livre, provocador (‘You Wanted a Hit’, senhoras e senhores), criado por um artista repleto de confiança e na posse das suas plenas capacidades musicais, que, sem abdicar de ser um pateta adorável, continua a conseguir, seja essa a sua vontade, tocar - e encantar - os nossos corações. 

E se o forem ouvir, não se esqueçam: cuidado com o volume em ‘Dance Yrself Clean’.

5. Sufjan Stevens - Carrie & Lowell (2015)

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Não há palavras suficientemente adequadas para se falar sobre Carrie & Lowell. A música de Sufjan Stevens sempre foi bela, mas só por vezes a beleza das suas melodias se tornava assombrosa e carregada de pesar. Aqui, tudo é assombroso, tudo é carregado de pesar, tudo é remorso, arrependimento, mágoa, saudade.

Carrie & Lowell é o luto de Sufjan. Após a morte da sua mãe, em 2012, Sufjan encontra, na sua música, uma forma de lidar com a sua perda, e o resultado é incrivelmente belo. A música, aqui, é frágil; a música de Sufjan, que anteriormente era altamente instrumentalizada - oiça-se Illnois para tornar isto claro - cinge-se, aqui, a pouco mais que uma guitarra, um piano, um banjo. A sua voz é, também ela, pouco mais que um sussurro ao nosso ouvido, um suspiro carregado de dor e munido de honestidade, que nos transporta pela sua infância, que nos fala sobre a sua mãe, sobre a sua morte, e, sobretudo, sobre o que isto despoletou na vida do cantor.

É esta simplicidade que torna Carrie & Lowell um dos mais bonitos discos desta década (e, aqui, talvez estejamos a criar uma injusta baliza temporal). É um disco de silêncios, de pausas, de contemplação, de recordação, um que nos transporta a momentos que não vivemos, e que, ainda assim, nos faz sentir na pele o que nos é contado. Sufjan fala-nos de uma forma pessoal, com letras confessionais e com uma crueza poética que expõe os seus sentimentos mais profundos e reflete sobre a relação com a sua mãe, com o seu padrasto, com a perda de alguém próximo, com a religião - esta última, temática central ao longo da sua carreira - e, principalmente, sobre a sua relação consigo mesmo, 

A troco de tudo isto, Sufjan pede-nos, apenas, que carreguemos um pouco da sua dor, e que o escutemos enquanto ele reflete sobre esta. Por nós, é um preço justo a pagar por podermos ouvir, e viver, as histórias de Lowell, Carrie, e do pequeno Subaru. 

4. David Bowie - Blackstar (2016)

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Blackstar foi, e bem, uma das obras musicais mais dissecadas da década passada, embora o tenha sido, principalmente, por ter sido o álbum com que David Bowie encerra não só a sua carreira, como a sua vida.

É simultaneamente arrebatador e fascinante que Bowie tenha escrito, composto e gravado Blackstar enquanto padecia da doença que lhe viria, mais tarde, tirar a vida. Arrebatador, porque Bowie não foge da fugacidade com que a sua saúde de dissipa no álbum: ‘Lazarus’, peça nuclear do álbum, é um assumido e digno adeus, que não cai em facilidades melodramáticas, e que nos mostra Bowie a receber a morte de braços abertos, como uma velha amiga que escolheu ser esta a sua hora para aparecer. Fascinante, por perante o cenário mórbido que é o final da sua vida, Bowie opta por deixar uma obra virada para um futuro que não vai viver, com composições experimentais e energéticas, recheada de rasgos de jazz, e que se afasta largamente das tendências pop que marcaram grande parte da sua carreira.

São cerca de quarenta os minutos que constituem o “canto do cisne” de um dos maiores artistas da história da música, uma obra que serve como lúgubre despedida, mas que perdurará pelo tempo, imortalizando um artista que sempre foi, verdadeiramente, maior que a própria vida.

3. Frank Ocean - Blond(e) (2016)

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Blond, ou Blonde de Frank Ocean é um dos nossos álbuns favoritos. Está nesta lista por essa razão, mas não só. Objectivamente,  este é um álbum extremamente relevante para a indústria discográfica, tendo sido um dos grandes marcos da evolução dos lançamentos independentes que dominou esta década. Após uma laborada manobra para se ver livre das suas obrigações para com a editora Def Jam, Frank Ocean lança Blond(e), de forma completamente independente, um dia após concluir o seu contrato. 

Quanto à obra propriamente dita, se com Channel Orange o artista se apresentava ao mundo como uma das maiores promessas da nova geração do R&B,  com o segundo longa-duração fica claro que Frank Ocean é bem mais do que uma promessa. Poucos discos têm um poder nostálgico tão imediato como Blond(e), que nos transporta sem pedir licença para os verões perdidos da nossa infância. Verões esses que, tal como o artista canta em Skyline To, já não são tão longos como costumavam ser e que provavelmente nunca mais voltaram a ser. 

É difícil explicar o grau de intimidade que o músico atingiu com este disco, mas é mais que certo que Blond(e) são 60 minutos aos quais vamos recorrer frequentemente na próxima década. Recomendamos que façam o mesmo.

2. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

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Poucos álbuns foram mais dissecados na passada década do que My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Falar sobre este de um ponto de vista puramente objetivo é não trazer nada de novo à discussão, é dizer palavras e expressar ideias que outros, provavelmente por outra ordem sintática, já disseram e já exprimiram; é ser, no fundo, redundante - um bocado como esta enumeração.

Cometendo, de plena consciência, o pecado da tautologia crítica, tentemos ser objetivos.

Em MBDTF, Kanye pega em todo o seu passado - musical, e não só - e pinta um quadro em que tudo parece maior, mais vibrante, mais detalhado; um quadro que retrata o luxo e a extravagância com as quais Kanye não sabe viver sem, mas também não sabe viver com.

São os conflitos internos e as incongruências que definem o rapper de Chicago que trilham o caminho que percorremos ao longo destes quase 70 minutos. Nas suas letras, encontramos o seu ego ferido, mas também o seu ego em esteroides, em devaneios megalómanos que já anteviam Yeezus, lançado três anos depois. Contrastando estes, encontramos West fragilizado e emocionalmente vulnerável; Runaway e Blame Game são exemplos claros de um Kanye pós-relacionamento que, sem pedir perdão, confessa não só a sua arrogância, como também as suas inseguranças, conjugando estes dois elementos antagónicos e dando-nos um vislumbre do caos emocional que o define. 

Contudo, é, maioritariamente, a sua relação conflituante com a fama, e, em particular, com a decadência que vê como um inevitável decurso da vida debaixo dos holofotes que estabelece a tónica lírica que nos acompanha quase durante toda a duração do álbum. Kanye sempre quis esta vida, e desde sempre o tornou bem claro - oiça-se, por exemplo, Last Call, do álbum de estreia de West, para este efeito - mas aquilo para que o miúdo prepotente de Chicago não estava pronto era para estar na boca do mundo apenas seis anos após o lançamento de The College Dropout. E as letras de MBDTF são, precisamente, um espelho disto: de alguém que estava, e está, a viver o seu sonho, só para se aperceber que este sonho é uma fantasia que, embora bela, é, também, negra e perversa.

Há muito mais a dizer sobre MBDTF. Kanye pega na sonoridade electropop de Graduation e 808s & Heartbreaks, na soulfulness de The College Dropout e na grandiosidade sinfónica que abrilhanta Late Registration e evoluí para o maximalismo que encontramos aqui, em beats que vão beber ao que foi feito de bem atrás, só para darem um passo grande à frente, sendo mais ricos, mais variados e mais extravagantes.

Quase 10 anos depois, mantenho todo o deslumbre e fascínio por My Beautiful Dark Twisted Fantasy; afinal de contas, foi este o álbum que me expandiu horizontes na tenra idade em que o ouvi pela primeira vez. Sim, há momentos, e frases, intrinsecamente foleiras aqui (olá, Chris Rock,). Eu perdoo, porque se Kanye pinta aqui um quadro, ele pinta um autorretrato: o de alguém altamente imperfeito, que sabe ser altamente imperfeito, mas que vê perfeição nas suas imperfeições, e por isso, nos graceja com todo o seu caótico esplendor.

1. Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

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Selecionar e ordenar os álbuns que constituem esta lista foi uma tarefa ingrata e árdua e que asseguramos ter gerado bastante discórdia entre os seus autores. No entanto, desde o primeiro momento que mantivemos uma conceção unânime e quase dogmática: To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, iria estar na primeira posição. 

O rapper, originário de Compton, na Califórnia, era apenas uma promessa da cena alternativa aquando do início da década e, nos dias que correm, é já uma presença assídua nas listas de melhores rappers da história. Muito desse reconhecimento deve-se ao seu álbum de 2015.

Após o sucesso do inteiramente autobiográfico Good Kid, M.A.A.D City, Kendrick Lamar lança o seu terceiro álbum de estúdio, e com este abraça toda uma nova sonoridade. A lista de instrumentistas convidados é ínfima - a destacar nomes como Thundercat, Flying Lotus ou Kamasi Washington - que contribuem para o ambiente ‘jazzístico’ que caracteriza e pauta todo o disco. TPAB trata-se de um álbum conceptual, no qual Kendrick recita, progressivamente, um poema entre as faixas que o compõem. Após última faixa, fica claro que a leitura é dirigida a um dos maiores ícones da música afro-americana, com quem Lamar encerra o disco a debater o futuro da sua comunidade, numa espécie de premonição do seu próprio futuro.

Dificilmente poderíamos ter escolhido uma obra com mais impacto nesta década, algo que se pode sentir desde a receção por parte da crítica e no impacto social. O tema ‘Alright’ tornou-se o hino do movimento “Black lives matter”, protagonizando a grande parte dos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos da América. 

Quanto ao reconhecimento por parte da crítica, a obra recebeu uma aclamação geral, encabeçando a maior parte dos tops do ano, tendo sido nomeado para 11 Grammys. 

Um álbum que vale a pena experimentar ou simplesmente recordar. Para uma melhor compreensão do seu conteúdo, recomendamos o podcast de análise musical Dissect, que dedica a sua primeira temporada integralmente a To Pimp a Butterfly, o nosso álbum da década. 

 

José Pedro Paiva

(Estudante de Mestrado em Direito e Tecnologia)

Miguel Horta

(Estudante de Mestrado em Direito e Gestão)

21
Mar20

Melhores Álbuns Portugueses da Década - Opinião de João Duarte

jurnal

Se a arte e o engenho eram já escassos, a tarefa é também ela árdua: se, por um lado, a década ainda não se cumpriu na íntegra (eu sou daqueles perfecionistazinhos que dizem que é preciso ter calma, que a década de 20 só se inicia em 2021 – tal como o século XXI só começou em 2001), por outro, o gosto é, como se sabe, intrinsecamente subjetivo (não se discute, sequer, a qualidade – essa é, por todas as vias, indiscutível: se tempos houve em que a música nacional, cantada em português, andava adormecida, a década de 10 do século XXI veio mostrar que onde há juventude também há talento e capacidade de manobrar a língua portuguesa e de reinventar os acordes e as batidas de sempre – tantos outros, que ficaram de fora, poderiam entrar para esta contagem). Propor uma lista dos melhores álbuns nacionais desta década é, então, inevitavelmente inglório. O meu gosto é forjado pelo que me habituo a ouvir, daí que este top-15 seja, em rigor, um top dos álbuns que mais tenho ouvido. 

 

P.S. Não pode haver outra ordem que não a alfabética para dispor todos estes álbuns: depois de uma seleção de somente 15 de entre um oceano de álbuns, todos estes mereceriam o primeiro lugar... 

1. Capitão Fausto – A Invenção do Dia Claro (2019) 

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Incluir nesta lista Capitão Fausto e não despejar aqui todos os quatro álbuns da banda pode parecer contraditório. Todos teriam qualidade para aqui figurar. Mas este é especial – este significou o dobrar da juventude, com tudo o que de bom isso traz: um som apurado e uma história inspiradora, para o bem ou para o mal (ou nos dá para correr atrás do nosso amor de sempre, ou para chorar por não podermos viver o mesmo Final deste álbum – estas duas situações podem ser cumulativas). Cinco jovens adultos que não são mais diamantes em bruto. 

2.Capitão Fausto – Pesar o Sol (2014)

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Aqui ainda tínhamos pedras preciosas por lapidar. E ainda bem. No auge da juventude e da ingenuidade, cinco jovens que faziam música exuberante, não tão imediata quanto a de Gazela, mas aliando instrumentais viajantes a letras que interrogam o mundo (próprio, aliás, de jovens que se prezem), o resultado foi algo que em muito superou os experimentos do primeiro disco – e, a meu ver, todos os restantes. Ouvir este disco é tocar no peito e sentir o coração a querer saltitar cá para fora, sentir na boca o sabor a sangue como quem termina de dar infinitas voltas à pista na aula de Educação Física. A referência não é displicente – estávamos no já longínquo ano de 2014, andava eu no 9.º ano... 

Pesar o Sol é mesmo a melhor metáfora para aquilo que deve representar a vida de um jovem. 

3. Ciclo Preparatório – As Viúvas Não Temem a Morte (2013)

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Este é o grupo coral pop especial rural-chique delicodoce (assim se descreveram estes jovens ao jornal Publico no já longínquo ano de 2013) que descobri somente há cerca de um ano. Foi, porém, o suficiente para me apaixonar. Há aqui algo de Heróis do Mar, seja nas letras, nas roupas ou no próprio nome da banda. Um quê de portugalidade latente, forte e indiscutível. Agrada-me bastante. Combinam ritmos frenéticos com canções contemplativas e até nostálgicas. Algo que não perderam no mais recente álbum, o segundo, que tardou (2018) – mas a espera compensou. 

Exulto ao som de Lena del Rey, mergulho sobre mim mesmo ao escutar a Casa da Lamarosa. Se esta antítese de sensações é possível de conter num só álbum, temos de contar com os Ciclo Preparatório. 

Tive a fantástica oportunidade de entrevistar, aqui para o JUR.NAL (leiam!), o baterista e o vocalista desta incrível banda. 

4. Diabo na Cruz – Lebre (2018)

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Estes são os homens corretos para falar de portugalidade.

Que dizer de Diabo na Cruz. Novamente, podia ter incluído todos os álbuns da banda. Tomai, todos, e bebei: este é o rock tradicional português dos Diabo. Quis o destino que Lebre fosse o último trabalho da banda. E acabou em grande: guitarras e letras marcantes. Ao leme o inquieto Jorge Cruz, que logo em Forte se descreve de forma tão certeira: “Não troco desespero por agravo, nem perigo por um bom lugar marcado”. 

Procissão (a fazer lembrar, com aquele poderoso riff inicial, a Roadhouse Blues dos The Doors) e Malhão 3.0 (a transportar-nos para as quentes noites de verão mesmo se estivermos a viver o mais profundo dos invernos) são canções vibrantes. Pelo meio, Terra Ardida acorda-nos cruamente para o fenómeno dos incêndios que vastas vezes tem dizimado a nossa pátria. No geral, é um belo retrato (ou resumo, se quisermos) do que é ser português. É mesmo por aí que finda o álbum: Portugal. Inicia-se com ritmos mais tradicionais e é paulatinamente substituído pela dominância da guitarra: “Vagueei por Portugal, com assombro ancestral. Quando chegue a minha hora, seja terra em Portugal.”

Diabo na Cruz não se pode explicar. Tem de ouvir-se. 

5. Filipe Sambado – Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo (2018)

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Se em Diabo na Cruz encontramos o cru rock balançado com os ritmos tradicionais portugueses, Filipe Sambado é, por entre as minhas viagens acompanhado do Spotify, a lufada de ar fresco a que recorro amiúde. Os ritmos mais frenéticos da guitarra, por vezes, também cansam. Filipe Sambado oferece-nos sonoridades arrojadas e letras por vezes atrevidas. O resultado final é um caldo bastante aprazível.

Deixem Lá foi sem dúvida uma das canções que mais ouvi em 2019. 

2020 trouxe-nos novidades quanto a Filipe Sambado (Revezo). Mantenho-me, ainda assim, firme nas minhas preferências: Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo é um belo álbum, porque constante. Mexido e agradável do início ao fim.  

6. Ganso – Costela Ofendida (2016)

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Esta será uma das escolhas menos óbvias. Trata-se de um EP de uma das bandas “satélite” dos Capitão Fausto. A banda tem já dois álbuns, mas não há volta a dar: esta é a minha produção de eleição. Psicadelismo, algum non-sense, letras despreocupadas mas com sentido bastante para serem uma letra de uma música. Nos Ganso – pelo menos neste Ganso - há loucura e razão em doses certas. 

Os tempos mais recentes são de Não Tarda (2019), algo menos apetecível - há que dizer. Habituei-me aos tempos iniciais de Ganso, mas as bandas transformam-se – é uma inevitabilidade. 

Sinto saudades daqueles tempos em que se comemorava Idalina, e investia-se na Idalina ingenuamente, sem pensar no que viria depois. 

7. Lena D’Água – Desalmadamente (2019)

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Lena D’Água tinha de estar presente. Foram três décadas sem editar. Desde os anos 80, em que era a namoradinha de Portugal. Nem já os meus pais têm idade para se lembrarem dos tempos em que a Lena “explodiu” na ribalta, mas eu gosto de Lena D’Água. Talvez porque nos últimos anos tem colaborado com vários artistas nacionais emergentes (dos quais os Ciclo Preparatório são exemplo), o que me deu a oportunidade de me cruzar com ela, e explorá-la. 

E o privilégio que foi poder passar dos intemporais Demagogia, Vigaro Cá, Vigaro Lá ou Sempre Que o Amor me Quiser para canções das quais sou contemporâneo: Opá, Grande Festa ou Hipocampo surgiram carinhosamente no meu dia-a-dia, ao bom estilo da Lena. Recebi-as com gosto e a elas regresso de quando em vez. 

8. Linda Martini – Linda Martini (2018)

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Linda Martini é para aqueles fins de tarde em que o céu se reveste de tons alaranjados. A alma aquece e só apetece ouvir esta banda fantástica. Em específico, este álbum efusivo e ao mesmo tempo reflexivo. Para que a alma aqueça ainda mais.

Foi este álbum que marcou o início da minha aventura em torno dos Linda Martini. Foi um amor à primeira vista. É uma aventura que está para durar. 

9. Luís Severo – Luís Severo (2017)

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Este rapaz com um ar tímido revela todo o talento que vive dentro de si quando pega na guitarra ou se senta ao piano. Das suas mãos e da sua voz saem canções fantásticas, e este álbum é um perfeito exemplo disso - todo ele muito bem conseguido. 

Hoje, ao cabo de três álbuns, pode dizer-se que Luís Severo construiu uma sonoridade que é marca sua. E eu aprecio-a bastante. 

Há momentos em que sinto que o que há a fazer é somente encostar-me nas costas da cadeira do comboio e escutar Luís Severo. De entre essas vezes, o que a minha cabeça maioritariamente me pede é o álbum que aqui menciono. 

Amor e Verdade é uma obra de arte. Nela se encontra a quadra que descreve o estranho momento que, enquanto aprendiz de adulto, vivo:

“Deixaste a mocidade à espera
Fumo a desaparecer
E só voltou a primavera
P'ra trabalhar até morrer”

10. Os Pontos Negros – Soba Lobi (2013)

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O triunfo da juventude, nu e crua. Estes mantiveram-se, até ao seu fim (este foi o último álbum da banda), iguais a si próprios. Talvez tenha apreciado em maior dose o Magnífico Material Inútil (2008), cuja canção homónima é, de facto, a minha favorita dos Pontos Negros. 

Mas não se percam: este Soba Lobi é de qualidade superior. Corrido, agressivo e assertivo. 

“Se tudo neste mundo é imprestável

Se não sou sal nem sou luz

Não há insipidez que esconda a nudez

De não carregar uma cruz”

Senna

E pensar que em 2012 o Festival NOVA Música (que anualmente se realizava no nosso campus) contou com Pontos Negros, Ciclo Preparatório e Capitão Fausto...

11. Salvador Sobral – Paris, Lisboa (2019)

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Não nego: conheci Salvador Sobral somente depois do Festival RTP da Canção de 2017. Mas o que ouvi deveras me agradou. E este Paris, Lisboa foi a confirmação dessa minha opinião. 

Não há muito mais que se possa dizer a propósito de Salvador Sobral. O que faz com a sua voz é, a todos os níveis, incrível. 

Ouço-o para me sentir bem, ainda que não com a regularidade que talvez merecesse este génio. 

12. Tara Perdida – Dono do Mundo (2013)

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Este é o último álbum de Tara Perdida com João Ribas, o bastião da cultura e mentalidade punk no nosso país. Também ele, ao seu jeito, um génio, que se foi demasiado cedo. 

Deste álbum fazem parte os hinos O Que é Que Eu Faço Aqui e o eterno Lisboa (com o Tim). 

Tara Perdida é, quer queiramos quer não, uma das bandas marcantes (talvez de culto) nacionais. E com eles não há surpresas: vão diretos ao assunto. Entregam à sua legião momentos para descarregar a adrenalina. 

“Hei de um dia ser alguém
Não a qualquer preço
Estás cá tu para lembrar
Tudo o que me esqueço”

O Que é Que Eu Faço Aqui

13. Tiago Bettencourt – Do Princípio (2014)

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Sou por tendência, uma pessoa calma, reflexiva e algo apática. Nessa medida, Tiago Bettencourt leva-me a constantes reflexões melancólicas sobre a vida e as aventuras que esta me oferece. Maria, Aquilo Que eu Não Fiz e Sara são, para mim, bom exemplo disso. A qualidade não deve sequer ser discutida. Merece, sem dúvida, este top. 

14. Xutos & Pontapés – O Cerco Continua (2012)

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Quem me conhece não estranhará esta “nomeação”. Pois é, talvez sejam os Xutos a minha banda de eleição. O Cerco Continua é um álbum carregado de significado. É uma reedição (com nova produção) do Cerco (1985). A verdade é que, 27 anos depois, as letras do Tim continuavam, e continuaram, atuais. Só o tipo de cerco era distinto: em 1985, o cerco era da banda, por não conseguirem encontrar uma editora que quisesse produzir as suas canções; em 2012, era a Troika e a crise quem cercava o país.

“Eu vou para longe, para muito longe
Fazer-me ao mar. Num dia negro
Vou embarcar. Num barco grego
Falta-me o ar, falta-me emprego
Para cá ficar.”

Barcos Gregos

A estas canções juntaram-se mais duas originais e uma terceira, Vossa Excelência, da banda brasileira Titãs, na voz do Tim e ainda na guitarra do Zé Pedro. Uma canção com uma letra agressiva, diretamente dirigida à classe política e aos titulares dos órgãos soberanos do Estado. 

Por entre todas estas letras de intervenção (uma marca indelével dos Xutos & Pontapés e um estilo que eu tanto aprecio), haveria ainda espaço para relembrar hinos como o Homem do Leme ou Conta-me Histórias

15. Zarco – Zarcotráfico (2017)

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À semelhança dos Ganso, Zarco, com um EP. Como em Filipe Sambado, há ritmos arrojados, acelerados, e letras que não me deixam indiferente. Em suma, tudo o que, por norma, me cativa numa banda. 

A referência à Tava Num Bar (de um disco posterior a este que menciono) na canção Sempre Bem dos Capitão Fausto foi o mote para conhecer esta maravilhosa banda. Não me arrependi. Recomendo-a a todos, caso ainda não a tenham ouvido. 

 

João Duarte

(Aluno do 3º ano da Licenciatura)

20
Mar20

Melhores Álbuns da Década - Opinião de Ana Machado

jurnal

Em continuação da nossa série, e para dar um forte acréscimo de música aos nossos leitores, a nossa colaboradora Ana Machado elencou os 100 melhores álbuns da década passada (em classificação aleatória), com mais umas menções honrosas no final. 

 

Melhores Álbuns da Década:

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1. El Mal Querer – Rosalía
2. Melodrama – Lorde
3. Pony – Rex Orange County
4. Flower Boy – Tyler the Creator
5. Caracal – Disclosure
6. My Beautiful Dark Twisted Fantasy – Kanye West
7. Life of Pablo – Kanye West
8. Blonde – Frank Ocean
9. Good Kid mad city – Kendrick Lamar
10. 6 Feet Beneath the Moon – King Krule

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11. Hallucinogen – Kelela
12. Apollo XXI – Steve Lacy
13. Lost & Found – Jorja Smith
14. 99.9% - Kaytranada
15. BUBBA – Kaytranada
16. The Suburbs – Arcade Fire
17. Run the Jewels 2 – Run the Jewels
18. Like Clockwork – QOTSA
19. White Men Are Black Men Too – Young Fathers
20. Norman Fucking Rockwell – Lana del Rey

LAM3.png21. Isolation – Kali Uchis
22. Process – Sampha
23. When I Get Home – Solange
24. Bon Iver, Bon Iver – Bon Iver
25. 22, A Million – Bon Iver
26. To Pimp a Butterfly – Kendrick lamar
27. ANTI – Rihanna
28. How Big, How Blue, How Beautiful – Florence + The Machine
29. Goblin – Tyler the Creator
30. Kids See Ghosts – Kids See Ghosts

LAM4.jpg31. Paper Mâché Dream Balloon – King Gizzard and the Lizard Wizard
32. Nonagon Infinity – King Gizzard and the Lizard Wizard
33. American Dream – LCD Soundsystem
34. ASTROWORLD – Travis Scott
35. TESTING – A$AP Rocky
36. <atrás/além> - O Terno
37. Manual – Boogarins
38. Blood Pressures – The Kills
39. Carrie & Lowell – Sufjan Stevens
40. Helplessness Blues – Fleet Foxes

LAM5.jpg41. Plastic Beach – Gorillaz
42. God’s Favorite Customer – Father John Misty
43. I Love You, Honeybear – Father John Misty
44. InnerSpeaker – Tame Impala
45. Lonerism – Tame Impala
46. Beard, Wives, Denim – Pond
47. Summer 08 – Metronomy
48. Crystal Castles (II) – Crystal Castles
49. LP1 – FKA twigs
50. Fantasea – Azealia Banks

LAM6.jpeg51. A Moon Shaped Pool – Radiohead
52. Trouble Will Find Me – The National
53. Ego Death – The Internet
54. To Be Kind – Swans
55. Los Niños Sin Miedo – The Parrots
56. Hippies – Harlem
57. Parcels – Parcels
58. Bloom – Beach House
59. Yours Conditionally – Tennis
60. Irisdescence – BROCKHAMPTON

LAM7.jpg61. The Idler Wheel is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve you… - Fiona Apple
62. MY WOMAN – Angel Olsen
63. Not Waving, But Drowning – Loyle Carner
64. Geography – Tom Misch
65. Dear Annie – Rejjie Snow
66. Total Life Forever – Foals
67. Angles – The Strokes
68. Salad Days – Mac Demarco
69. 2 – Mac Demarco
70. City Club – The Growlers

LAM8.jpg71. Piñata – Freedie Gibbs e Madlib
72. Flume – Flume
73. Built on Glass – Chet Faker
74. Let England Shake – PJ Harvey
75. Skeleton Tree – Nick Cave & the Bad Seeds
76. Channel ORANGE – Frank Ocean
77. Ventura – Anderson .Paak
78. Diaspora – GoldLink
79. Goddess – BANKS
80. Avida Dollars – C. Tangana

LAM9.png81. Modern Vampires of the City - Vampire Weekend
82. King of The Beach – Wavves
83. Gb City – Bass Drum of Death
84. Fine Line – Harry Styles
85. Titanic Rising – Weyes Blood
86. I See You – The XX
87. In Colour – Jamie XX
88. Halcyon Digest – Deerhunter
89. Antisocialites – Alvvays
90. The Money Store – Death Grips

LAM10.jpeg91. Love Songs For Robots – Patrick Watson
92. Big Fish Theory – Vince Staples
93. Veteran – JPEGMAFIA
94. GREY Area – Little Simz
95. Don’t smile at me – Billie Eilish
96. Acid Rap – Chance the Rapper
97. Swimming – Mac Miller
98. Melophobia – Cage the Elephant
99. El camino – The Black Keys
100. Assume Form – James Blake

 

EXTRA:

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1. Mulher do Fim do Mundo – Elza Soares
2. REDUXER – Alt-J
3. Wakin On A Pretty Daze – Kurt Vile
4. Lost In The Dream – The War On Drugs
5. Psychic – DARKSIDE
6. Cold Spring Fault Less Youth – Mount Kimbie
7. What Did You Expect from the Vaccines? – The Vaccines
8. 1992 – Princess Nokia
9. SBTRKT – SBTRKT
10. I Don’t Run – Hinds

 

Melhores Álbuns Portugueses da Década:

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1. Lisboa Mulata – Dead Combo
2. Mediterrâneo – Valter Lobo
3. Zanibar Aliens III – Zanibar Aliens
4. Se é para Perder, Que Seja de Madrugada – Ciclo Preparatório
5. O FIM – S. Pedro
6. Pés Frios – Doismileoito
7. Heat – Glockenwise
8. #FFFFFF – Profjam
9. Tourquesa – Cálculo ou ‘A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança’ 
10. Those Who Throw Objects at The Crocodiles Will Be Asked to Retrive Them – Bruno Pernadas

Ana Machado

(Estudante de Mestrado em Forense e Arbitragem)

18
Mar20

Melhores Álbuns da Década - Opinião de Duarte Sales

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Já muito tempo passou desde do ano novo e, com o isolamento social, 2019 parece uma realidade distante. Mas, com tanto tempo nas nossas mãos, podemos e devemos recordar os bons tempos pelos quais passámos, bem como a boa música que ouvimos, não só no ano passado, mas na década passada. Para abrir este novo segmento, segue a opinião de Duarte Sales, colaborador do Jur.nal. Todos os álbuns são acessíveis por links integrados nas imagens.

 

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10. Kids See Ghosts - KIDS SEE GHOSTS (2018)

É o reerguer de duas almas criativas (Kanye/Cudi) que, após as suas quedas e os seus vícios, após as peripécias e mediáticas e obras de arte dúbias, encontram novamente forças e mostram-se capazes de enfrentar o mundo e encontrar terapia neste projecto incrivelmente conciso. Duas almas renascidas.

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9. Noname - Telefone (2014)

Desde o amanhecer de Yesterday até ao crepúsculo de Shadow Man, Noname elucida-nos a sua viagem de vida, os seus devaneios e pontos de interrogação, histórias de amor e desamor, numa mescla bela de spoken word, jazz e hip-hop.

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8. Beach House - Teen Dream (2010)

Um indie etéreo com a grandiosidade dos seus refrões entoados como cânticos de guerra e versos sangrentos com guitarras suaves e a voz honesta e intensa de Victoria Legrand, que nos eleva a quaisquer nuvens sonhadoras das nossas mágoas.

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7. The War on Drugs - Lost in the Dream (2014)

Um álbum que nos convida a meter-nos numa estrada mítica qualquer, sem fim, e desfrutar desta jornada de rock grandioso, por entre ventos solitários que nos entram pela janela do carro e melodias que nos fazem sonhar e esquecer de outros devaneios.

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6. Danny Brown - Atrocity Exhibition (2016)

Um álbum absolutamente insano onde Danny Brown explana a sua mente caótica, danificada por uma vida que ele sabe ser nefasta dos vícios (dos quais felizmente já saiu), num puzzle entre beats desconexos e versos delirantes que, de alguma forma, se encaixam na perfeição. 

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5. MGMT - Little Dark Age (2018)

Uma mirabolante mistura de post e goth rock, com texturas sonoras viciantes, refrões grandiosos e temas líricos contemporâneos, desde a desumanização do vício do telemóvel até à radicalização da política. Um álbum que deixaria qualquer Dead Can Dance ou The Cure orgulhoso.

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4. Frank Ocean - Blonde (2016)

Um convite ao seu mundo íntimo, embrenhado em suaves harmonias vocais e sons distantes que ecoam como se tivéssemos mergulhados no fundo dum oceano de fama, amor e dor, Frank deita, aqui, o seu coração e a sua alma para fora, e podemos apenas ser privilegiados ouvintes e sentir o abraço do seu timbre. 

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3. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

São passos de ballet num purgatório banhado por diamantes, coroas, rios de sangue e anjos sem asas. É a montra da personalidade opulenta, intensa, caótica, binária, excêntrica, mediática e genial do único Kanye West. Não é preciso mais.

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2. Papillon - Deepak Looper (2018)

É a obra-prima da vida. É a viagem do ciclo de borboleta, erguer, transformar, quiçá morrer, sempre viver, reerguer. É um mundo com cores sonoras que pintam esta história, a nossa história, Humanidade. Desde o sangrar do coração em Impec até ao questionar a definição de heróis e vilões em Imito. Desde a mesma aborrecida rotina em 1:AM até às soberbas mágoas da vida de cada um em Imagina. É encontrar a luz dentro do casulo e renascer metamorfoseando o nosso universo. É Deepak Looper. 

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1. Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

Quem me conhece já sabe que seria isto. Para mim, o melhor álbum da década, do Hip-hop, da Música, do Sempre. A celebração da Arte e da Vida. É o despertar consciente da Humanidade dentro de cada um de nós. Em semelhança ao Deepak Looper, pega-se na grandiosidade da vida de cada um e simultaneamente alarga-se a mensagem à sociedade em geral e ao indivíduo em particular. Mas, aqui, acrescenta-se uma tela original de jazz, funk e soul, presta-se respeito a ídolos como George Clinton ou 2Pac, ecoa-se um poema ao longo do álbum, verso a verso, até se revelar a bigger picture, e obtém-se algo muito maior que a soma das partes, embora as partes, em si, sejam infinitas em qualidade. Já muito escrevi sobre este álbum, e espero poder continuar a escrever muito mais, mas não existem palavras que descrevam com justiça esta obra de arte, e, como tal, por aqui me ficarei, ainda não sei em que estado, se dentro do casulo ou da borboleta, se no casulo de Papillon ou a borboleta viciada de Kendrick, pode ser que esta próxima década me responda, se a Mãe Natureza não se decidir vingar com rapidez sobre todos nós, se começarmos a tratá-La bem, veremos outras condições humanas, e o despertar consciente de cada uma.

 

Duarte Sales

(Licenciado em Finanças e Mestre em Gestão de Sistemas de Informação, atualmente a trabalhar no INE)

18
Mar20

Melhores Filmes da Década - Escolhidos por Maria Inês Opinião

jurnal

Porque a arte não é só música (e porque temos bastante tempo livre para ficar em frente da televisão), a nossa colaboradora Maria Inês Opinião traz-nos a sua lista de melhores filmes da década (um por ano). Através de cada imagem podem aceder ao trailer, e uma grande parte dos escolhidos estão disponíveis na Netflix, estando indicados quais. 


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2010 – Shutter Island, de Martin Scorsese
O Marshall Teddy Daniels, volvido recentemente da 2º Guerra Mundial, investiga o desaparecimento de uma paciente num hospital psiquiátrico. Como seria expectável através da premissa, é uma viagem pela sanidade. Com ótimas prestações, já habituais, de Mark Ruffalo e, especialmente, Leonardo DiCaprio, é-nos apresentado um filme que, apesar das características habituais de thriller, como a atmosfera arrepiante bem sucedida, fruto de uma aliança entre a imagem e o som, escolho não o ver como tal. De modo a evitar spoilers, não me alongo nesta ideia; acredito que quem já o viu saberá ao que me estou a referir. As cenas finais são difíceis de apagar da memória, quer pela sua harmonia, quer pelas suas implicações. (Disponível na Netflix)

 

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2011 – Hugo, de Martin Scorsese
A primeira vez que me deparei com a Invenção de Hugo Cabret foi no cinema. Gostei sem saber ao certo o porquê. Ao longo dos anos revi-o, muitas vezes, tal como fiz com o livro de Brian Selznick, no qual se baseia. Lá aprendi que tinha sido realizado por um dos cineastas mais reconhecidos da atualidade, que retratava uma realidade temporalmente menos distante do que achava e o que isso significava. Trato este filme como um abraço: sei que passe o tempo que passar vou sempre encontrar a mesma história que me encanta que é também uma ode ao cinema enquanto arte, não sendo perfeito em qualquer dos seus aspetos demonstra carinho pelo cinema de um modo infantil e genuíno. Georges Méliès, a personagem, quase no término do filme, pede à audiência para sonhar com ele; é apenas uma verbalização daquilo que o filme, em si, nos pede para fazer. (Disponível na Netflix)

 

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2012 – Amour, de Michael Haneke
Georges e Anne, casal octogenário de classe média-alta, ultrapassam, juntos, as consequências do AVC de Anne. Amour é um dos filmes mais angustiantes que já vi. É, também, um dos mais bonitos. Em apenas uma localização, Georges realiza uma viagem nostálgica por todas as décadas que passaram juntos. É personalização de um medo, profundo amor e sacrifício num só filme.

 

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2013 – Her, de Spike Jonze
Não tenho muitos filmes de 2013 no meu espólio. Assim, a história do escritor solitário, Theodore, que desenvolve uma relação amorosa com um sistema informático que tem como objetivo satisfazer todas as necessidades do utilizador, encontra-se no topo. Jonze apresenta-nos uma história que se tem mantido e irá manter relevante de forma honesta, pura – algo que não é assim tão comum. Esteticamente agradável, com um elenco imaculável (Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Amy Adams) e uma realização impecável. Her distancia-se das histórias de amor e das ficções científicas às quais estamos habituados e é, sem dúvida, uma das melhores conseguidas. Volto ao filme de tempo em tempo.

 

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2014 – Birdman or (the unexpected virtue of ignorance), de Alejandro G. Iñárritu
Tenho a memória particularmente viva de assistir a este filme em meados de 2017, felizmente, pois caso o tivesse feito aos 14 anos provavelmente achá-lo-ia simplesmente estranho, possivelmente nem o iria terminar. A história do ator em decadência, Riggan, unicamente conhecido pela interpretação de um super-herói, que tenta reerguer a sua carreira atuando numa peça da Broadway. Presos no limbo entre a realidade e o imaginário, acompanhamos Riggan e a suas relações marcadamente difíceis entre o próprio e aqueles que o rodeiam, com problemas quotidianos mais ou menos peculiares. A inclusão de atores participantes em filmes de super-heróis – Michael Keaton e Emma Stone – torna-se especialmente irónica na crítica da obsessão das massas, que agravou com os anos, com o género. A aparente realização de um único take excecional, uma soundtrack muito específica de jazz percussionista, porém adequada, e um final que me deixou completamente em êxtase tornam este filme num dos primeiros que adorei adorar, sabendo que é fruto de mais do que atores e enredo. (Disponível na Netflix)

 

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2015 – The Lobster, de Yorgos Lanthimos
2015 é, infelizmente, um ano que não nos presenteou com filmes de particular destaque. Tal não impediu Yorgos Lanthimos de apresentar uma sátira visualmente deslumbrante – algo a que já nos habituou – que retrata de forma peculiar e forçada o desenvolvimento de relações amorosas através de personagens monocórdicas e diálogo invulgar, com especial ênfase na importância da existência de semelhanças entre duas pessoas que se relacionam. A ruptura evidente define e divide somente a história, os juízos críticos acerca do filme continuam a colocá-lo num pedestal; pessoalmente, prefiro, sem desdenhar o restante, o início. O elenco, que conta com Colin Farrel, Rachel Weisz, Olivia Colman e Léa Seydoux, faz um trabalho incrível num filme que, até hoje, continua a surpreender e a deixar sem qualquer tipo de indiferença qualquer um que o veja.

 

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2016 – Arrival, de Denis Villeneuve
Louise Banks, linguista, é contratada pelo exército americano de modo a interpretar o modo de linguagem utilizado por alienígenas. Villenueve cria, então, um filme de ficção científica que ultrapassa as barreiras do género para se focar nas da linguagem e do tempo. Arrival é um filme ao qual não aponto falhas. Presenteia-nos com um elenco incrível, em especial a performance fenomenal de Amy Adams (que não foi devidamente premiada), banda sonora e cinematografia excepcionais, e um guião único. Ainda assim, o filme poderia não se destacar. Felizmente, pelo contrário, é inesquecível, tratando assuntos complexos de modo delicado.

 

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2017 – Three Billboards outside Ebbing, Missouri; de Martin McDonagh
Mildred (Frances McDormand), 7 meses depois do homicídio da sua filha, desafia pessoalmente a polícia a encontrar o culpado, ao colocar 3 outdoors vermelhos à porta da cidade. Num filme repleto pela imprevisibilidade, é complicado descrevê-lo sem incorrer em detalhes indesejados. Os pontos altos do filme são as prestações surpreendentes de McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell, tal como o guião impecável. Three Billboards outside Ebbing, Missouri, no seu âmago, não se trata necessariamente de uma história de vingança. No entanto, e reitero, não devo detalhar: deve ser uma experiência pessoal.

 

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2018 – Roma, de Alfonso Cuarón
Roma é um filme simples. Apresenta-nos uma família e as suas empregadas domésticas nos anos 70, na Cidade do México. É, no entanto, um filme ambicioso. As prestações, especialmente de Yalitza Aparicio, são impecáveis, não deixando qualquer margem de dúvida no realismo das personagens – algo de louvar, especialmente considerando que muitas destas são crianças. A cinematografia, exclusivamente a preto e branco, é encantadora. Não deixa qualquer margem para um desejo de cor. Contudo, o fator mais surpreendente é o som. Um ladrar à distância, o motor de um carro, músicos ao fundo da rua e até o vento tornam a experiência completamente imersiva (não é por acaso que cada vez que menciono o filme aconselho também um bom sistema de som). Todas as cenas são impressionantes e devastadoras à sua maneira. (Disponível na Netflix)

 

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2019 – Parasite, de Bong Joon-ho
Bong Joon-ho é o homem do momento. Não só rompeu com o hábito da Academia de não premiar filmes estrangeiros com o prémio de “Melhor Filme”, como tal foi totalmente justificado. A realidade sul-coreana é-nos exposta através de um enredo insólito, colmatado pela crítica social daquele que, como diz o próprio realizador, é o país da humanidade – o capitalismo. Performances impecáveis, uma direção tão harmoniosa que seja a ser musical, um equilíbrio perfeito entre comédia, drama e emoção. Parasite é o início da valorização comum do cinema internacional.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

10
Mar20

O Feminismo à Escala Mundial será o Colapso Económico

jurnal

 

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Na obra Feminismo para os 99%, Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya renvindicam um feminismo que se opõem radicalmente à ideia de emancipação feminina, aquilo a que apelidam de feminismo liberal ou “power feminism”. Para as autoras, não há nada de comovente na ascensão de mulheres de elite a posições de poder, afirmando de forma perentória que o feminismo universal é indissociável da luta de classes: “Não queremos celebrar diretoras executivas em gabinetes de canto, queremos livrar-nos de direções executivas e gabinetes de canto”.


As próximas linhas assumem o compromisso de explorar a alternativa ao feminismo liberal no contexto da economia globalizada, uma das várias vertentes da luta feminista que a autora escolheu carinhosamente abordar, não só por ser causa e reação de um conjunto emergente de desafios da humanidade (o colapso ambiental, direitos laborais na era da sobre-produção, migrações e desigualdades económicas) mas também por ser radical por natureza, isto é, pela sua discussão implicar focar as atenções na raiz do problema. A oposição ao feminismo da meritocracia passa pela constatação de que o trabalho das mulheres e meninas afigura um acréscimo de valor desproporcionado à economia global face à reduzida partilha de riqueza de homens (segundo o último relatório da Oxfam, 9 em cada 10 bilionários no mundo são homens)- é o trabalho invisível das mulheres.


O trabalho invisível das mulheres
O facto do trabalho invisível das mulheres, que se relaciona com a sua função primária reprodutiva, não ter valor de troca que o faça mercantizável nas estruturas económicas, significa para as mulheres um ónus de apaziguamento social - trata-se do trabalho doméstico e de cuidados. Segundo o relatório do insuspeito Fórum Económico Mundial estima-se que as mulheres contribuem anualmente com mais de 10 triliões de dollars americanos para a economia mundial em trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. Sem este trabalho, a nossa economia de crescimento sem limites não seria possível.


Ainda que o que é social e legalmente considerado uma ocupação feminina tenha diferentes significados nas várias partes do mundo, o trabalho não remunerado das mulheres está longe de ser um problema exclusivo dos países com menor PIB. Em Portugal, em média, a mulher despende cerca de 5 horas e meia diárias em trabalho não remunerado, enquanto que o homem se ocupa de uma mera hora e meia. Na China, são cerca de 4 horas e na Índia não atinge as 6 horas. Para além disto, um grupo consultivo as Nações Unidas conclui ainda que a adição de trabalho remunerado ao quotidiano feminino (por contraponto a países em que a mulher é socialmente considerada inútil à economia formal) significa pouca ou nenhuma redução do trabalho doméstico.


Desde que o trabalho se tornou especializado que as tarefas dos homens se tornaram as mais privilegiadas (à luz do valor que lhes é atribuído pelo mercado). Uma das vertentes da ação feminista tem sido atender ao valor e imprescindibilidade do trabalho da mulher no geral das sociedades do mundo fora, ao mesmo tempo que desconstrói o desiquilíbrio entre géneros dos papeis sociais que desempenham e que lhes é esperado desempenhar. Se diferenças existem na resposta a dar a estes problemas, relacionam-se com visões estruturais da sociedade e respetivas teorias de mudança: devem as mulheres ser todas incorporadas na força de trabalho do mercado? Se sim, o que acontece às tarefas especializadas de trabalho doméstico e cuidado? Devemos tentar incorporá-las na economia formal atribuindo-lhes um valor monetário único? Ou a sua valorização deve ir para além do cash nexus? Se sim, qual deve ser a nossa medida de valor e como evitar que o trabalho feminino seja desvalorizado como suporte à economia e não elemento da economia?

As mulheres na economia global
Por outro lado, a invisibilidade do trabalho feminino que perpetua papeis sociais e de género não só sustenta o sistema de hiperprodução capitalista global, como também por ele é explorado. Com efeito, a ação de agentes internacionais que pretendem o desenvolvimento económico dos países do sul global expandido o sistema capitalista à escala universal gera muitas muitas vezes externalidades que são suportadas pelas mulheres e crianças na sociedade (invisíveis ao modelo de mercado), levando as primeiras a abdicar de direitos reprodutivos, desenvolvimento físico e liberdade indivídual. Vejamos dois exemplos.


Um instrumento comumente utilizado em países em desenvolvimento por entidades como o FMI ou o Banco Mundial é a desvalorização da moeda acompanhada da redução de gastos públicos. Por um lado, a desvalorização da moeda leva à inflação do preço dos produtos na medida em que o valor das importações aumentar. A chance de tornar as exportações nacionais atrativas aos países ocidentais é remota- os países podem ter pouco para oferecer e poderão ter que competir com carteis ou monopólios no mundo ocidental- e mesmo que se verifique, é questionável se se refletirá num melhoramento do nível de vida da população no geral. Por outro lado, a redução da despesa pública, ainda que signifique uma redução da dívida pública do país, afigura-se comumente como desinvestimento nas áreas da educação, saúde, assistência social e providência de bens essenciais. Nestes momentos, recai sobre as mulheres providenciar estes serviços às suas famílias a custo zero, permitindo o apaziguamento social e que políticas públicas pouco originais sejam menos nefastas aos olhos da população que desatenta ao papel social da mulher.


Noutro sentido, a inserção das mulheres no mercado em alternativa ao trabalho doméstico nem sempre é um mar de rosas; pelo contrário, muitas vezes deparam-se com estruturas opressoras da mesma natureza. Na Guatemala, no âmbito de tratados internacionais de comércio que facilitam a mobilidade de capitais, vulgarizou-se a criação de zonas francas conhecidas como Maquilas. As maquilas são fábricas de texteis descritas pelo governo como um dos mais promissores fenómenos económicos a que o país assistiu, atraindo mulheres jovens sem educação do interior rural, entre os 14 e os 24 anos e solteiras. Apesar de se afigurarem como o escape urbano ao trabalho doméstico, num país em que a iliteracia feminina é significativamente superior à masculina, a International Women's Rights Action Watch apontou no início do século para as condições de trabalho precárias das jovens que abandonam a escola: doenças respiratórias e problemas de visão, falta de acesso a água potável no espaço de trabalho e situações de abuso sexual por parte dos gerentes e supervisores. Como podem estas mulheres iliteradas ter poder de negociação sindical num país em que os espaços decisórios são ocupados por homens que tiveram acesso a vários níveis de educação?


As mulheres em cargos de topo e a apropriação o conceito de feminismo
Apesar de em Portugal a representatividade feminina nas decisões públicas ser bastante significativa, a maior parte das mulheres que entram na casa do povo têm uma agenda política desligada da responsabilidade europeia pelas estruturas de poder opressoras das mulheres em países não ocidentais e estão longe de arriscar desafiar a agenda liberal ecnonómica. A ascensão de mulheres a posições de topo (tanto no espaço público como privado) é uma conquista em nome da pluralidade democrática exigível nos Estados de Direito, mas não pode ser uma bandeira da luta feminista- ou pelo menos, do feminismo global.


Por tudo isto, isolar o patriarcado da economia capitalista atribuindo-o a praxes sociais e a mentalidades antiquadas é falacioso. Uma economia que por pretender ser racional incentiva a precariedade laboral de mulheres, a desigualdade salarial, e a exploração do papel da mulher enquanto cuidadora não pode ser a economia de todos e todas; e qualquer luta feminista indiferente às condições da mulher no sul global é mais uma manobra de marketing apropriada pelo capitalismo.

 

Mariana Ferreira

(Aluna do 4.º ano da Licenciatura)

21
Fev20

Erasmus à Bolonhesa: Mudar de País e Mudar de Vida

jurnal

 

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Peçam-me para descrever Erasmus em duas palavras. Tenho várias:
Piazza verdi;
Inês Correia;
Apperol spritz;
Alma Mater.

Todas elas representam um pouco de tudo aquilo que tive e todas elas culminam numa só palavra: crescimento.

A mudança para outro País, e a independência a que a isso está associada também traz muitas escolhas. Ir às aulas com presença obrigatória depois de uma saida à noite, ao mesmo tempo que a casa que deixaste nessa manhã precisa de ser limpa e arrumada, nunca esquecendo as tarefas que ninguém pode fazer por ti, e o orçamento mensal que tens para gerir.

Estas escolhas resultam num constante crecimento de priorização. Se queres apanhar um voo no fim de semana por 30€ (ida e volta), não vais comprar as calças giras novas na montra da Via dell'Independenza... se queres ir almoçar fora durante as 24 horas que passas em Viena, talvez as compras de comida do mês se reduzam ao essencial, sem os ditos guilty pleasures.

Estas prioridades também se revelam nas pessoas: naquelas com quem de um mês para o outro passam a ser os teus amigos, com quem por mais cafés tomados e croissants de albicoca que partilhes, vais ter sempre mais conversa para um aperitivo ao sabor de um Apperol spritz. São pessoas maiores do que qualquer distância.

São amizades mais fortes do que qualquer fronteira.

Mas amizades novas nunca susbtituem as da vida, porque essas manifestam se através de uma pequena mensagem ou de uma curta chamada "só para saber como é que está a ser". Estas enchem o coração, porque concretizam a realidade de que "casa" pode ser qualquer país. Porque as pessoas que de casa fazem parte, nunca te deixaram partir.

Erasmus é intensidade, é descoberta, é espontaneidade.

É uma tela em branco sem qualquer preconceito. Ali, seja onde for, és tu, sem filtro e sem limite. Mas é também um espaço de reflexão e realização.

É aprender a apreciar os outros e a gostar de nós mesmos, da nossa companhia, porque passamos a contar connosco para tudo e de nós mesmos não podemos fugir, por mais aviões que apanhemos.

É sentir saudades do que ainda não se viveu e é olhar para trás e ver que não houve um dia em que não houve algo de novo a aprender.

Foram 4 meses de vida. Porque todos os momentos pelos quais aquela cidade me viu passar são momentos que só posso olhar com a mesma felicidade com que os vivi.  E só conhece essa felicidade por quem ela passou.

Mas por isso é que dizem que Erasmus é um estado de vida e assim chego ao final deste texto e do meu Erasmus capaz de o descrever em uma palavra:

Grazie.

 

Joana Nunes

(Aluna do 3.º ano da Licenciatura)

 

20
Fev20

Joker: Um Filme que a nossa Sociedade não estava pronta para receber

jurnal

 

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Não pretendendo incorrer em qualquer tipo de desentendimento factual fui, como todos os outros, vítima de todo o hype à volta do Joker. Estamos, afinal, a falar de um dos filmes mais esperados do ano. Vi-o no Alvaláxia, numa sala tão cheia que eu e os meus amigos tivemos que ficar separados, apenas trocando considerações no intervalo e no fim do filme. Lembro-me de já no intervalo saber quais os aspetos que me estavam a surpreender: a soundtrack e o quão desconfortável poderia o filme ter sido em algumas cenas caso não tivesse sido bem dirigido. Pela altura dos créditos finais estava feliz, era pois um bom filme que tinha correspondido às expectativas.


No entanto, estava destinado ao infortúnio de ter sido lançado em 2019. Assim sendo, a internet procedeu a arruinar o filme. Tal como no enredo, as reações dos espectadores em relação às ações do Joker revelam-se acidentalmente caóticas e anárquicas. Não levam, todavia, a gritos de morte aos mais ricos, mas materializam-se na tragédia da década de 2010: a criação de um meme.

Nesta versão, o célebre vilão não se forma a partir de uma queda para um barril de químicos enquanto se esquiva do seu Némesis, nem numa história trágica de abuso infantil. Aqui, Joker, solteiro e mal amado, sofre de um distúrbio psicológico. Arthur Fleck é um homem profundamente perturbado que, quando falha enquanto comediante, acaba por se revoltar contra a sociedade na qual se inclui que, não obstante pertencer ao universo fictício de Gotham, se assemelha à nossa por, muitas vezes, negligenciar ou até caricaturar quem não se encontra de acordo com os habituais padrões de “sanidade”.


Em primeiro lugar, estou a meio do processo de me perdoar por não ter previsto o que ia acontecer. Achava estar já habituada a ver os sinais. Mesmo assim, quando começaram a sair as primeiras notícias, ainda antes da première do filme, nas quais se estabelecia uma relação entre o caráter violento do mesmo e atitudes impetuosas de quem o pudesse ver - também recorrente em videojogos e enquadramentos factuais de Moot Courts de Direito da União Europeia – ignorei. Apelidei-as de “lixo jornalístico”, como é meu habitual. E, afinal, eu tinha razão. O filme acerca de uma das personagens que me faz tolerar e ainda dar oportunidades ao universo dos super-heróis era acerca de um doente mental. Respirei de alívio e falhei ao desconsiderar as consequências daquilo que os media iniciaram.


Todo o mediatismo que cercava o filme levou-o a uma explosão na bilheteira, movendo um público completamente heterogéneo ao cinema. Honestamente, só consigo pensar num aglomerado tão aleatório de pessoas em dia de eleições.


Com esperanças de não chocar ninguém com a minha próxima afirmação (que não contém qualquer tipo de julgamento, pois cada um sabe da sua vida): aliar uma plateia habituada a comédias românticas e trágicas histórias de amor que roçam levemente temas popularmente considerados “mais pesados” a um filme como este é uma receita para o desastre. Não tardou até frases marcantes como “The worst part of having a mental illness is people expect you to behave as if you don’t” e “What do you get when you cross a mentally-ill loner with a society that abandons him and treats him like trash?” fossem totalmente retiradas do contexto e utilizadas em chamadas de atenção para o problema real que é a fragilidade da mente humana. Não só simpatizam com as atitudes de um vilão, como problematizam quem sofre.


Ora, retirar do contexto as aflições de Arthur e unindo-as com dicas, awareness threads no Twitter e opiniões mal fundamentadas acerca do que é um distúrbio mental elevam o filme ao ridículo. Para tal compactuam as relações forçadas entre a dança do personagem e a sua “libertação pessoal”. A massificação destes comportamentos fundem-se num fenómeno típico da nossa geração: o meme.


Arthur Fleck nunca quis ser um símbolo de uma revolução, de uma luta de classes. Queria somente que ele, e todas as pessoas que sofrem de distúrbios psicológicos fossem incluídas e tratadas, ao invés de desvalorizadas e enviadas para hospitais. Joker, o filme, nunca quis ser um grito de revolta dos oprimidos. Peço, então, que não o tornem num. Há outros tipos de entretenimento que o pretendem fazer, apoiem-nos. Não sobrecarreguem a obra de Todd Phillips, que nunca quis ou tem capacidade para ser mais do que um filme acerca de um vilão.

 

Maria Inês Opinião

(Aluna do 2.º ano da Licenciatura)

 

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