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JUR.NAL

O blog da revista oficial dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

O blog da revista oficial dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa

11
Nov19

Parasite

jurnal

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Parasite (Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019

Direção: Bong Joon Ho

Guião: Bong Joon Ho, Jin Won Han

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park

Duração: 132 min.

 

Num ano repleto de obras-primas cinematográficas, de entre as quais podemos destacar Joker (dirigido por Todd Phillips) e Midsmommar (dirigido por Ari Aster), eis que surge o filme mais ousado de Bong Joon Ho – Parasite. Muitos poderão conhecê-lo pelo filme Snowpiercer, baseado no romance gráfico Le Transperceneige, ou até de Okja, mas atrevo-me a dizer que Parasite é talvez “o filme” da sua carreira, tendo sido galardoado com a Palma de Ouro no festival de Cannes deste ano.

 

As obras de Bong Joon Ho exibem traços de crítica e sátira sociais, imbuídas por um tom cómico, com alguns cenários de violência, que demonstram o domínio do meio social na construção dos comportamentos e vivências das personagens. O filme Parasite não é exceção e constitui um grande exemplo dessas características.

 

Parasite possui uma narrativa bastante cativante, repleta de surpresas – das gargalhadas ao incómodo, é um filme que inquieta o público, mas que transmite uma mensagem bastante profunda sobre as discrepâncias sociais, concretamente na Coreia do Sul, contudo, é uma mensagem bastante abrangente que se pode aplicar a qualquer tipo de sociedade.

 

O filme retrata o quotidiano de uma família pobre, apresentando a perspetiva daqueles que sobrevivem numa sociedade que apresenta cada vez mais desigualdades. Estes “parasitas” – forma como são considerados pelos membros das classes mais elevadas - fantasiam com vidas envoltas em luxo, aspeto que analisado ao pormenor revela um profundo desejo de alguma segurança social e financeira. A família de Ki Woo (família pobre que protagoniza o filme) vive numa cave minúscula, sem quaisquer condições ou segurança, tendo inclusive de roubar a wifi dos vizinhos – confesso que soltei uma longa gargalhada enquanto assistia ao filme, por causa deste anedótico pormenor.

 

Inicialmente conseguimos perceber que todos os membros da família se encontram desempregados, vivendo tempos muito difíceis, e ganhando algum dinheiro a dobrar caixas de pizza. Entretanto surge a oportunidade de Ki woo dar aulas particulares de inglês a Da-hye, filha mais velha da família Park (família esta bastante abastada). À medida que o filme avança surge uma problemática muito pouco conhecida – a pobreza na periferia das grandes cidades da Coreia do Sul, engrossando o abismo social. É possível verificar o contraste entre os espaços físicos: por um lado temos a cave onde mora a família de ki woo, composta por quatro membros e, por outro, temos a casa da família Park, uma casa majestosa, demasiado grande para a família Park. Esta discrepância entre espaços físicos é intensificada pelos tons de lente utilizados em cada cena: enquanto que na zona de residência da família mais pobre são utilizados tons mais escuros, que transpõem um enorme negativismo, e gerando alguma repulsa no público, nas cenas em que surge a moradia da família mais rica são utilizados tons muito mais claros, com muita luz, sendo este o ambiente mais agradável presente no filme.

 

Como não pretendo “arruinar” com spoilers a eventual experiência dos leitores, abstenho-me de prolongar a minha exposição sobre Parasite. Resta-me dizer que este é, de facto, um dos melhores filmes de 2019, difícil de classificar em termos de género, com um enredo nada expectável e um final que deixa alguma abertura para o surgimento de teorias (e quem sabe, uma possível continuação).

 

Ana Machado

(Aluna de Mestrado em Forense e Arbitragem) 

 

09
Nov19

O Evangelho segundo Kanye West: Reflexões sobre Jesus is King

jurnal

“Christ is essentially the exemplar, that is we are to resemble Him, not mere profit from Him.”

 

kanye.jpeg

 

Assim dizia o filósofo existencialista e cristão Søren Kierkegaard, ainda no século XIX, anos antes de Kanye West, o grande pensador da era contemporânea, lançar o seu álbum mais divisivo e controverso até agora: Jesus is King. Embora costume fazer críticas acerca do álbum propriamente dito, decidi explorar o que será o ponto focal do álbum, a relação de Kanye West com Jesus Cristo, através de um prisma cultural, filosófico e essencialmente teológico. Porquê? Porque Jesus is King é, talvez, o álbum mais importante deste ano, do ponto vista cultural, e porque Kanye West, para o bem ou para mal, é o artista cristão mais importante da atualidade, e está aqui para ficar.

 

Jesus is King é tudo menos um álbum linear e consistente, variando entre exaltações eufóricas e flexs ou piadas comuns por toda a discografia de Kanye (e algumas delas muito más: “Closed on Sunday, you’re my Chick-fil-a”?). Tal como o álbum varia em conteúdo (ou pelo menos em forma de apresentar o conteúdo), as opiniões regorgitadas pelos inúmeros críticos de sofá (eu incluído) pelo planeta variam também. A malta religiosa parece estar toda em êxtase com Jesus is King, e com razão: afinal, podem ver a redenção de um homem outrora muito perdido ao vivo e a cores. Entretanto, a malta menos religiosa mostra-se cética, como é costume, questionando a integridade e o caminho que Kanye fez até agora, as letras esotéricas e “extremistas” da sua nova música e as decisões que o rapper/produtor assumiu durante o processo criativo, tal como a abstinência de todos os criativos envolvidos, os sunday services que roçam no cultismo e as pesadas referências bíblicas incluídas no álbum (para além da contratação de Kenny G, que acabou por ser a revelação surpresa de Jesus is King, diria eu). Entretanto, os stans vão cegamente segui-lo e os haters vão cegamente odiá-lo e deles não retiro nada. Retiro, no entanto, dois grandes pontos de cada um dos lados do debate que primeiro expus, e decidi adicionar um terceiro meu, tal como o padre da minha paróquia costuma fazer.

 

Em primeiro lugar, é inegável constatar uma verdadeira evolução a nível pessoal neste álbum. Kanye West apresenta-se mais focado e mais comprometido que nunca, inteiramente dedicado a esta nova direção que apenas recentemente assumiu, mas que sempre esteve presente no seu trabalho. Desde Jesus Walks, e passando por Life of Pablo, que Kanye tem uma relação muito próxima com Deus, sendo que nem sempre essa relação fora a mais saudável. No entanto, em Selah, de longe a melhor canção do álbum, digna de ser tocada numa Catedral, com um coro gregoriano a acompanhar, vemos essa relação a atingir o seu expoente máximo, com Kanye a invocar João 8:33-36 para anunciar que o Homem apenas será livre quando abandonar o pecado e se entregar inteiramente a Deus. Kanye sente-se finalmente livre e vê como o seu principal objetivo levar esta salvação aos outros, de modo a libertar o que ele vê como o seu povo escravizado. Chegamos ao fim da canção com uma clara referência a Lucas 10:27, à golden rule e ao mandamento de amar Deus e de amar o nosso vizinho. Ver Kanye, um homem tão consumido por uma cultura tóxica e obcecada com dinheiro, sexo e poder, a ajoelhar-se assim perante o Rei dos Reis, passa uma mensagem de esperança, que por sua vez só magnifica a sua salvação, levando-a a todos os outros. Relembra-me de Zaqueu (Lucas 19:1-10), um homem viciado pelo seu poder e odiado por todos, e que, para o choque de todos, recebeu Jesus em sua casa e rendeu-se perante a sua presença. Tal como Zaqueu, Kanye desceu da sua “àrvore”, do conforto da sua fama, para criar um álbum destruidor de barreiras e de preconceitos da indústria, como é costume dele e da sua personalidade abrasiva e controversa, mas desta vez orientado para Deus. Follow God reafirma esta orientação, sendo que esta canção foca-se mais nos problemas e conflitos que surgem na sua relação com Deus, fazendo Kanye passar-se por um autêntico Jacob (Genesis 32:24-32), com medo de se submeter à autoridade divina e ao caminho de Cristo. A canção On God, e basicamente todas as outras canções do álbum ecoam este sentimento, algumas de melhor forma que outras, e o álbum acaba com um coro Gospel a cantar que todos os joelhos se dobrarão e todas as línguas se confessarão perante o nome de Deus, claramente extraído da carta de S. Paulo aos Filipenses 2:10-11. Em Use This Gospel, vemos a primeira “evangelização” do álbum com os irmãos Pusha T e No Malice, os antigos Clipse, a discutirem as suas vivências praticamente opostas, num diálogo que acaba por aproximar os dois de Deus. Jesus is King termina e torna-se, na sua mente, no mensageiro escolhido para espalhar a Palavra e, mesmo tendo em conta toda a sua personalidade e todas as suas ridicularidades, há que aceitar o inegável progresso de Kanye a nível religioso e pessoal, e admitir a autenticidade da sua dedicação para com Deus.

 

Não obstante, a clara evolução de Kanye contrasta com a sua experiência de vida, com a sua atitude abertamente controversa e com a sua constante auto-promoção. É curioso ver a quantidade de ateus ou agnósticos não só a criticar Kanye pelo conteúdo do álbum, mas também pela sua hipocrisia, acusando-o de não ser “bom cristão”. Embora não seja uma situação tão a preto-e-branco como estas críticas a pintam, há letras no álbum e atitudes na produção que devem levantar algumas sobrancelhas. As auto-comparações com Noé em Selah, acompanhadas por uma invocação das “víboras” que João Batista expõe em Mateus 3:7 em Closed on Sunday, sendo que os fariseus dificilmente podem ser comparados à indústria do hip-hop e muito menos aos críticos de Kanye, são claramente desadequadas, e até mesmo um pouco heréticas. Em Hands On, outra canção problemática do álbum, Kanye foca a sua mira nos cristãos, acusando-o de puritanismo e de o criticar por não ser um bom-cristão. Para além de serem claramente injustas, estas críticas revelam que Kanye olha para a escritura através de uma visão própria muito fechada, e que se faz vítima em vez de tentar varrer as contradições na sua fé. Kanye obviamente está determinado a evoluir e a melhorar-se e, para isso, precisa de receber certas críticas construtivas para o fazer, e não apenas fazer um álbum gospel que nem tem muito de gospel. Um grande problema de Kanye que nós cristãos (e não só) podemos apontar é a sua falta de humildade, bem como a sua excentricidade excessiva e por vezes nociva. Não é raro Kanye comparar-se com Sócrates, Shakespeare, ou até mesmo Jesus Cristo, e não é raro Kanye lucrar com esta atitude, tornando-se numa das pessoas mais ricas da indústria no processo, bem como uma das mais arrogantes. Estes comportamentos e esta arrogância são refletidas no álbum, que reflete também a indústria do prosperity gospel, que lucra com a fé dos seus crentes e seguidores. Kanye assemelha-se mais a um pastor evangélico de uma mega-igreja do que a Jesus Cristo propriamente dito, e talvez essa semelhança até seja uma ambição do cantor. Resumidamente, falta-lhe humildade na sua mensagem e na sua pessoa. Tal como invoquei Zaqueu, invoco a figura do jovem rico, que em Mateus 19:16 pergunta a Jesus Cristo o que é que tem de fazer para alcançar os portões sagrados e entrar na vida eterna (em Selah, Kanye admite achar que já tem entrada garantida, como se tratasse de uma discoteca e não da Cidade de Deus), dizendo-lhe que tinha cumprido todos os mandamentos fielmente. Jesus responde-lhe de uma forma bastante simples e direta: “Vai, e dá tudo o que tens aos pobres”. Aqui, Jesus Cristo afirma claramente que a liberdade perfeita só vem com uma libertação completa da cobiça terrestre e de um amor ao próprio vizinho radical, uma ideia exposta na encíclica Veritatis Splendor, do Papa João Paulo II, uma reflexão sobre a doutrina moral da Igreja e o problema do Bem e do Mal, que afirma: “O diálogo de Jesus com o jovem ajuda-nos a identificar as condições necessárias para o crescimento moral do homem chamado à perfeição: o jovem, que observou todos os mandamentos, mostra-se incapaz de, unicamente com as suas forças, dar o passo seguinte. Para o conseguir, são precisos uma liberdade humana amadurecida: «Se queres», e o dom divino da graça: «Vem, e segue-Me»”. Kanye quer ser livre e sente-se libertado e salvo pela palavra de Deus mas não pode ainda afirmar-se como perfeito. Aliás, como afirma Santo Agostinho, citado na mesma encíclica, esta liberdade perfeita e plena só é alcançada na eternidade, “uma vez que ficou em nós alguma fraqueza” e “na medida em que servimos a Deus somos livres, mas somos escravos na medida em que seguimos a lei do pecado”. Surpreendentemente, como podemos ver em Selah, Kanye parece estar ciente desta escravidão do pecado e sinceramente parece querer ser libertado desta, e este álbum é um excelente primeiro passo, mas, como podemos ver, ainda tem muito por onde caminhar.

 

Antes de terminar, dirijo um ponto para os críticos de Kanye e não para o homem em si, de modo a responder a algumas injustiças ou permissões excessivas e pouco construtivas, não só para o homem, como para a nossa cultura em geral. Em primeiro lugar, dirigindo-me aos cristãos apologistas de um Kanye evangelizador, tenham cuidado com quem cegamente seguem. Kanye está num bom caminho, e ninguém o pode negar, mas não pode ser visto como um profeta, como o próprio se vê, muito menos como o salvador da nossa cultura. No fim do dia, Kanye é um homem com muitas falhas, como tantos outros, com uma dedicação e adoração a Deus fora do comum e, para além disso tudo, não tenho dúvidas DE que a sua intenção é boa e que ele é “boa árvore, que dá boa fruta”. No entanto, Mateus 15-20 não enaltece apenas estas boas árvores, avisa também dos “falsos profetas” e, por vezes, a falsidade destes profetas não é essencial destes mas jaz na nossa percepção deles. Tenhamos cuidado com a forma com que vemos Kanye, pois este tem muito por onde caminhar.

 

Em segundo lugar, dirigindo-me aos céticos duvidosos da religiosidade do álbum e do próprio Ye, tenham cuidado com quem cegamente opõem. Para alguns, a religião é imediatamente motivo de repúdio e até mesmo de risos, causando assim uma cascata de acusações de falta de profundidade e de hipocrisias. Há poucas coisas mais profundas que a relação de um homem com Deus, e um álbum dedicado à adoração deste Deus, de uma forma completamente nova e pessoal é um dos maiores exemplos de dedicação religiosa dos últimos tempos. É corajoso um artista, tão famoso e tão controverso como Kanye, ou como Bob Dylan, que também lançou álbuns a anunciar a sua fé, assumir esta relação, e ninguém o pode negar. E, para adicionar insulto à injúria, estas acusações de hipocrisia são no mínimo desadequadas e no máximo hipócritas também. Lembremo-nos de um dos ensinamentos mais conhecidos da Bíblia: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra (obviamente não referindo-se a Kanye, mas a uma mulher adúltera que ia ser condenada ao apedrejamento pelos fariseus). João 8:7 diz-nos, quando o trazemos para esta discussão, que antes de atacar Kanye pela pessoa que foi ou é, devemos olhar para nós próprios primeiro e, talvez, no processo dessa reflexão, iremos perceber que tal como ele temos muito por onde evoluir, e que se calhar o melhor que podemos retirar de Jesus is King é uma lição de vida.

 

Voltemos à frase que usei para abrir o texto. Kanye, ao longo do seu álbum, mostra a sua evolução religiosa, a sua dedicação ardente para com Deus e o quão bem esta relação o fez. No entanto, não vemos Kanye a falar de um Cristo exemplar, mas sim de um Cristo a adorar, uma visão necessária, mas incompleta. Para além de o adorar, Kanye precisa de o seguir e o imitar, o que significará mudar a sua personalidade para se tornar mais plácido e próximo de Deus. Jesus is King é um primeiro passo para esta mudança e, como podemos ver, não só por Selah como também pela sua mais recente entrevista com Zane Lowe, onde West proclamou Roma como a “Silicon Valley da Humanidade”, está certamente mais focado e sereno, não só melhorando a sua relação com Deus como também a sua relação consigo próprio e com a sua bipolaridade, foco do álbum Ye do ano passado. Mesmo assim, falta neste álbum e na sua pessoa um simples aspeto: humildade. Como nos diz o gigante literário G.K. Chesterton: “It has been often said, very truly, that religion is the thing that makes the ordinary man feel extraordinary; it is an equally important truth that religion is the thing that makes the extraordinary man feel ordinary”. Kanye certamente se sente extraordinário, aliás, sempre se sentiu. No entanto, estará disposto a sentir-se ordinário? Está no caminho certo, mas estará em risco de se perder? Enfim, teremos de esperar por um novo álbum. Felizmente, parece que este virá ainda este ano, se Kanye resolver também o seu eterno problema com o cumprimento de prazos. Como diz o padre da minha paróquia, o caminho faz-se caminhando, e mesmo estando longe de o acabar, Kanye, com Jesus is King, já começou a caminhar.

 

Tomás Burns

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

08
Nov19

Humorista no séc. XXI

jurnal

(Imagem: NiT)

 

Vivemos numa altura em que a sociedade critica os jovens por tudo e por nada. Vêem-nos como seres impessoais, que já não se apaixonam da mesma maneira, que estão constantemente agarrados a um ecrã demasiado ocupados com a opinião dos outros para levantar a cabeça e ver o que o mundo tem para oferecer. Face a esta ideia distorcida da nossa geração, personalidades como o Pedro Teixeira da Mota vêm provar que nós conseguimos estar 1 hora sem sequer pensar em ir ao telemóvel.

 

É um humorista que sabe o que faz. Criou, através do podcast e do Instagram, uma relação extremamente forte com os seus ouvintes e seguidores e isso sente-se nos seus espetáculos ao vivo. Ainda que possa haver muitas opiniões diferentes sobre o tema, penso que a proximidade de idades entre ele e os seus ouvintes ajuda também a fazer do próprio o fenómeno que é. Podemos contar pelos dedos das mãos as pessoas que comparecem ao espetáculo dele que não fazem parte da sua faixa etária porque a verdade é que, ainda que seja um jovem cheio de talento para o que faz, o tipo de humor que apresenta não é para todos e certamente não é para pessoas mais velhas, mas ele não parece muito preocupado com isso.

 

É aqui que voltamos ao ponto inicial. Ora, se a sociedade nos critica por estarmos constantemente atentos ao que se passa na vida dos outros e não na nossa então, quem melhor para gozar com a nossa geração do que nós? E o Pedro Teixeira da Mota sabe fazer isso melhor que ninguém. No seu espetáculo de stand-up denominado de Caramel Macchiato, o humorista consegue gozar com todo o tipo de personalidade, desde o João Gabriel à Rita Ferro Rodrigues, e todo o tipo de situação, desde ir morar sozinho a uma rapariga do Porto que observava nuvens, sem nunca se preocupar em ferir suscetibilidades e, ora aí está, outro grande ponto a seu favor. O facto de ser jovem e estar no ramo da comédia há pouco tempo faz com que seja totalmente verdadeiro e transparente nos seus comentários e críticas, a maior parte delas tudo menos construtivas mas, na verdade, é isso que se espera e se quer dele pois foi essa a reputação e imagem que criou ao longo dos anos.

 

A plateia não parou de rir o espetáculo todo, muito provavelmente porque qualquer pessoa ali se conseguia identificar com ele e com os temas falados. Ouviram-se aplausos durante todo o tempo e até isso foi razão de gargalhada.

 

Beatriz Pires

(Aluna do 1.º ano da Licenciatura)

 

07
Nov19

Novos Sons #8 - Jesus is King

jurnal

Kanye West - Jesus is King (outubro)

 

 

Admito que desde o Yeezus, sexto álbum do Kanye lançado em 2013, cada vez levava menos a sério o seu trabalho ou mesmo a sua dedicação à reputação que tanto lutou para conquistar. Versos imortais como Prince William's ain't do it right if you ask me 'Cause if I was him, I would have married Kate and Ashley, fizeram-se substituir por videoclips de orgias com a Taylor Swift e tweets controversos em apoio à presidência de Donald Trump.


Para ser sincero, até ao lançamento do Kids See Ghosts, uma mixtape lançada com o seu protegido Kid Cudi em 2018, a única coisa relevante que o Ye tinha lançado foram as Yeezy Boost 350 V2.


2018 trouxe-nos ainda Ye, um álbum e uma promessa. Um álbum paupérrimo de conteúdo, mas com boas colaborações e uma promessa de que um dia, algures no ano de 2019, talvez com 3 ou 4 adiamentos, lançarei o meu primeiro álbum de Gospel.


Das orgias ao Gospel era um salto enorme. Maior do que a perna, diriam alguns. Mesmo assim, e tendo perdido a minha confiança neste homem em 2013, eu sabia que se houvesse alguém a fazer um álbum de Gospel, quente o suficiente para chegar a #1 no Billboard 200, era ele.


 O projeto foi-nos primeiramente apresentado como Yandhi, a fusão entre Ye (um dos muitos nomes pelo qual é conhecido o rapper americano) e Gandhi (sim, o próprio!). Um sucessão de Leaks fez com que o projeto fosse várias vezes adiado, tendo mesmo sofrido uma alteração de nome para Jesus Is King.


Jesus is King é um projeto ousado. Sente-se uma clara maturação no som do Kanye, uma seleção mais correta das colaborações e um uso excecional do seu grupo coral de Calabasas, criado juntamente com o seu novo mais recente projeto comunitário, o Sunday Service.


O rapper mostra-se com preocupações diferentes, como a marca que deixará no mundo, sempre dum ponto de vista muito intimista e familiar. Debate também sobre como descobrir Deus influenciou a sua vida e descoberta por um som coeso.


A sua música foi sempre marcada por instrumentais quase que cinemáticos, futuristas e mesmo peculiares. Foram sempre contra a corrente de tudo aquilo que estava trending. Agora, 12 anos depois de Graduation e 808 & Heartbreak, sinto que finalmente estamos a chegar ao End Game do verdadeiro som do Kanye.


Ele não é um trapper a falar de codeína com 7UP, não é um J Cole ou um Kendrick prontos para mudar a sociedade com os seus versos woke, muito menos é o Bryson Tiller ft.Chris Brown & Drake a fazerem a música preferida da tua namorada. Ele é senhor das suas convicções, que em 2019 nos trouxe o rap que ele acha que o Senhor gosta. O rap consciente e o de fusão, duas características fundamentais deste artista, estão a voltar a ser relevantes depois de 6 anos de pura dominância do trap e algum rap vazio, em conteúdos relevantes. Com este álbum, veio só mais uma vez mostrar que está dois passos à frente de quem quer fazer-se de diferente numa indústria onde já ninguém sabe ser diferente e coerente.


Não sou o maior fã do tema do álbum, acho até que tanto Jesus no álbum o pode tornar enfadonho para quem não está pronto para ver a bigger picture.


Em suma, é um álbum que vale a pena ouvir, não com a esperança de ouvir trap de discoteca ou o mesmo flow do Zara G em todas as músicas da Wet Bed Gang. Para quem aprecia boa música, este álbum é necessário.

 

Hugo Buque

(Aluno do 4.º ano da Licenciatura)

 

04
Nov19

Uma Aventura no Oriente II

jurnal

 

 

Após mais uma aventura – esta agora em Shanghai – sinto que preciso de escrever para eu própria me relembrar de tudo aquilo que, na medida do deambular e fotografar, pensava que deveria escrever.

 

Fui a Shanghai sozinha quatro dias e um deles cheguei a ir a uma província também muito visitada e apenas a 1h de comboio. Posso dizer, antes de mais, que o que me vem mais facilmente à cabeça referir é mesmo o receio inicial de, como disse a minha amiga italiana que já viajou sozinha, «feel the void». Ainda assim, decidi seguir o meu instinto, fazer a coisa à minha maneira e canalizar o meu dinheiro em destinos prioritários.

 

Só me faz sentido retirar desta experiência idas à China, conhecer a cultura predominante dos meus dias, pois acho que são viagens de uma vida, com ida e volta contadas. Shanghai é, obviamente, um clássico chinês e dá realmente uma boa perspetiva do rumo cosmopolita, uma evolução a olhos vistos, mas que, de perto, consegue ser bem minimalista e com espaços distintos em harmonia. Há quem lhe chame a Nova Iorque chinesa quando se depare com a People’s Square e a infinita Ninjang Road, mas nem por isso descuro a tradição que está tão presente no Yu Garden e nos templos. Chega a haver uma mistura de épocas, muito visível em Jing’An. Sem querer dar o spoil, faria tudo outra vez e não mudava uma vírgula (quer dizer, mudava ter perdido o meu cartão de crédito durante três horas…mas isso não conta).

 

Cheguei e tive oportunidade de conhecer no aeroporto – um aeroporto tão imenso, tão confuso, tão… em chinês – um rapaz de Shanghai, de seu nome Larry Lu, que me viu feita barata tonta a treinar técnicas de tradução na máquina de venda de bilhetes para o metro. Assumiu ali o controlo da situação, corria e perguntava por uma máquina de multibanco, por uma máquina de trocar as notas maiores (que a máquina do metro não aceitava), explicava, esclarecia com mais energia que eu – que tinha dormido umas boas duas horas extra no avião – no melhor inglês que sabia. Levou-me inclusivé à minha paragem de metro, a uma hora do aeroporto, a dita «xinzha road» que, dita por mim, poderia ser umas outras três ou quarto que lá têm – jing’an, jinjian, entre outras combinações possíveis.

 

O meu hostel era convidativo, com um jardim exterior iluminado e colorido, bancos de baloiço e tudo em madeira, com uns cinco ou seis gatinhos que já eram tão hóspedes que se tornaram marca do espaço. As pessoas diziam olá calorosamente, mesmo não percebendo que raio de espécie eu era e porque é que estava ali sozinha aparentando ter 12 anos. Na verdade, ao lado daquela malta forasteira eu parecia uma blogger de 16 anos com a mania que é aventureira.

 

Mas senti-me tão bem: só eu e a minha câmara pendurada no ombro e um saco com carteira, bloco e caneta no outro; um saco de pano que estava a competir comigo na leveza aparentada. Não sentia aquele nó na garganta, o medo de pessoas, de metros, de culturas, de coisas. Só me sentia a chapinhar na minha própria independência, sem me preocupar para onde iam esses salpicos.

 

Lembro-me perfeitamente quando no dia 12 dei o dia de folga a Shanghai e fui para Hangzhou às 6h40. Sair do hostel às 5h e pouco e parecer-me estar numa rua completamente diferente. Aquela luz azulada a tentar encontrar tons alaranjados, uma brisa acompanhada do despertar dos pássaros; aqueles que regressavam a casa, aqueles que se preparavam para um novo dia e, subitamente, o trânsito fluído parecia uma dança de motas a rodopiar sozinhas e silenciosas. Não sei porquê, mas apeteceu-me ficar a apreciar como um início de dia pode ser tão bonito sem uma razão, mas cheia delas.

 

 

A voltar senti exatamente o mesmo. Vim a dormir na viagem de comboio e fui acordada por uma rapariga que, tal como 99(,9)% das pessoas, não falava inglês, mas ia tomar o meu lugar e percebeu que aquela era a minha paragem. Começou a abanar-me a apontar para a estação e eu sem perceber coisa alguma lá corri ensonada e estava com os fones numa playlist automática. Não conhecendo a música, esta estranhamente condizia com aquele momento, com aquela noite de volta a Shanghai e estava feliz por ter dormido e por ter sido acordada a tempo de não passar uma noite ao relento. Com aquele som, saí a sorrir e apetecia-me dançar pelas luzes intermitentes da estação sem vergonhas e inibições. Sentia-me em casa, de alguma forma. Já nem me importava de retornar às estradas de motociclos sem regras, que não cumprem sinais vermelhos e até andam no passeio e apitam para o peão se desviar, bem como o retornar a uma inquebrável barreira linguística que me treinou de certeza para o campeonato de mímica. Tudo me parecia tão insignificante de tão significante que esta viagem estava a ser para mim.

 

Não acho que seja sobre Shanghai, sobre os ares da China ou a cultura asiática. Acho que percebi que gerir o meu caminho consegue ser uma coisa tão bonita e que não sou mais eu ou menos eu com base nas pessoas com quem estou, porque sou genuína. Senti-me a mesma e descobri facetas minhas tão bonitas que às vezes não sobressaem aos outros por ausência de circunstância. Quando estamos um bom bocado sozinhos e quando conseguimos sobreviver numa selva, sem nos querermos apegar à jaula, sabemos que somos capazes e que somos uma excelente companhia. Percebemos que não há ali ninguém para nos dizer que devíamos sorrir mais, que devíamos vestir outra coisa, que devíamos ter posto um corretor de olheiras naquele dia, que isto ou aquilo já passou de moda, que aquele anda com aquela e que ela fala mal da outra, que não fomos convidados para aquela festa, que não temos um milhão de seguidores e o dinheiro para fazer uma cirurgia plástica a cada traço irrelevante que só nós notamos e todas as imperfeições e pressão que colocamos em nós todos os dias para que estes passem e possamos suspirar de alívio como quem correu uma maratona de encaixar aparências e pôr check no relatório de final de dia; no fundo, que não é preciso ir dormir de cabeça cheia e dar voltas e voltas à cama sobre o dia que vem e se vamos conquistar mais pessoas, mais coisas, numa ânsia de controlar o futuro e garantir que todos os dias estamos a trabalhar nas nossas relações, no nosso sucesso, na nossa aparência, quando podemos simplesmente viver a passos curtos e a ritmo próprio. Aí, deixei-me eu conquistar por Shanghai.

 

Desligo o VPN e, subitamente, o burburinho cala-se e sou só eu e a minha câmara.

 

Madalena Almeida

Aluna do 3.º ano da Licenciatura (atualmente em Erasmus em Macau)

 

01
Nov19

Joker: tudo menos uma piada

jurnal

 

Esta é, provavelmente, apenas mais uma das milhares de críticas — ou meras opiniões — que vão ler acerca do novo filme de Todd Phillips, Joker. Todos os dias têm sido publicadas dezenas delas online. Os mais apaixonados pela arte que é a excelência do cinema demoram a processar aquilo que viram nos olhos de Coringa.

 

Arthur Fleck é feliz quase sempre — excepto quando sorri. Tanto o entende que o deseja a todos: que sorriam. Para que, no rasgão ensanguentado, possam sentir a sua dor.

 

JokerJokerJoker!”

 

É tudo menos uma piada. É o relato de um artista de stand-up comedy cujo sonho a realidade de outros levou ao fracasso. É a linha ténue que separa a esperança da compreensão da sua desistência. É o testemunho de um ser humano levado à loucura pela sociedade desgastante que o envolve. É o bullying perpetuado pela violência. É uma comunidade que segrega quem ousa a diferença. É o medo de uma profundidade que não se vê da superfície. É a maldade de gente que não suporta sorrisos maiores do que os seus.

 

Não há como não criar empatia por Arthur Fleck. Sentimos tudo o que ele sente. Vivemos a mesma raiva, a mesma dor, o mesmo cansaço, a mesma frustração e a mesma inevitabilidade de enlouquecer. Não só o compreendemos como o desculpamos. O que censuramos é o sistema corrosivo que se alastra em Gotham, cidade permeável à violência que, aos poucos e poucos, o suga para os becos mais refundidos da sua brutalidade, fazendo surgir Coringa.

 

JokerJokerJoker!”

 

É a solidão aliada à frieza. É a condição da pobreza que cheira ao vício do tabaco. É a repercussão do engano e da mentira. É a certeza de que o acaso é reduzido quando existe abuso. É o constante menosprezo das doenças psicológicas. É o ignorar das ansiedades e das depressões. É a sensação de cansaço derivada da incapacidade de lidar com mais sofrimento. É a conotação da infelicidade enquanto fraqueza. É a transformação do ser humano no criminoso. É a fuga ao pensamento tal é o medo da compreensão (porque somos mais felizes quando ignoramos, quando não sabemos, quando não compreendemos e quando nem tentamos).

 

Estamos perante uma obra-prima que trouxe consigo o desconforto da realidade. Incomoda porque é verdadeiro, porque é transparente, porque é puro e duro na representação da sociedade em que vivemos. Nada na elevação desta sublime criação é inocente. Tudo é rigorosamente pensado para o impacto.

 

Que qualidade cinematográfica, da frieza da imagem à sonoridade calorosa. A escolha das analogias. A profundidade dos paradoxos. O pormenor de cada perspectiva. O detalhe da mensagem de cada cena. A representação subliminar de uma poesia. Cada enquadramento traz consigo uma tradução perturbadora da realidade.

 

Este é o reflexo de todos nós, encarnado por um actor de outro calibre cuja interpretação é soberba. Joaquin Phoenix abraçou Joker de uma forma tão intensa que nos fez querer abraçá-lo do início ao fim da sua história. Trouxe à vida a personagem sob a pele mais humana em que alguma vez o vimos e, com a mesma ousadia com que se largou a si próprio, numa transição única abandonou Arthur Fleck.

 

Vejam, revejam e voltem a ver. Vale imensamente a pena. No final, guardem o sorriso ensanguentado desfeito por uma lágrima de tinta — e não se esqueçam de sair “dançando”.

 

Catarina Teles de Menezes

(Licenciada pela NOVA Direito. Antiga redatora do JUR.NAL)

 

30
Out19

IN MEMORIAM - Diogo Freitas do Amaral [1941 — 2019]

jurnal

No passado dia 3 de Outubro de 2019, deixou-nos o Senhor Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral. Tendo-me sido pedido, pelos estudantes da Nova Direito, um testemunho na qualidade de ex-aluno e de ex-colaborador, presto-o sem hesitar, embora não sem contida emoção.

 

Vem, desde logo, à memória a aura carismática do grand Seigneur Professor-Pedagogo. Inteira e apaixonadamente doado à tarefa da renovação do estudo do Direito, as suas aulas ao 1.º ano do curso jurídico da Nova, mais problemáticas do que dogmáticas, produziam vivíssima impressão nos estudantes: relembro, por exemplo, envolventes discussões sobre a questão da existência de um «estado de natureza», com o Professor a desafiar os alunos a terçarem armas sob as antagónicas bandeiras da dupla Aristóteles e S. Tomás ou dos modernos Hobbes, Locke e Rousseau, com as suas distintas antropologias; ou vibrantes desenvolvimentos doutrinais acerca dos elementos essenciais do conceito de Direito, designadamente sobre o lugar aí da coacção; ou a apologia, não sem uma sugestiva invocação de Antígona, da necessidade de um direito anterior e superior ao direito posto, i.é., do Direito Natural.

 

Recordo ainda o académico que, sem cessar, procurou fazer compreender, a um amplo público, a essência do fenómeno político e os grandes momentos, figuras, ideias e ideais do pensamento político ocidental (Introdução à Política – 2014; História do Pensamento Político Ocidental – 2012). E que quis legar à posteridade um trabalho reflexivo sobre a sua concreta existência de homem político, de pai-fundador de um novo Regime, que queria mais inclusivo do que as ordens políticas nacionais que supostamente o prefiguraram ou do que as hipotéticas alternativas de pendor não democrático-ocidental (ver memórias políticas em três volumes). Trabalho esse acompanhado pela consideração e ponderação da(s) experiência(s) de homens políticos seus contemporâneos (Glória e Tragédia de Gorbatchov – 2012).

 

Penso também no seu continuado e persistente esforço de edificação, em perspetiva jurídico-política e jurídico-pública, de um olhar sobre o percurso histórico da comunidade política portuguesa e as marcas nele deixadas pelos «grandes homens de Estado», designadamente os que entendeu terem contribuído para elevar Portugal aos mais altos patamares de civilização e de desenvolvimento integral. O que deu origem à emergência de um notável corpus de estudos – Em que Momento se Tornou Portugal um País Independente (1996); D. Afonso Henriques: uma biografia (2000 - 1.ª edição); D. Manuel I e a Construção do Estado Moderno em Portugal (2003), Do Absolutismo ao Liberalismo: as Reformas de Mouzinho da Silveira (2008); D. Afonso III: um grande homem de Estado (2015). Enfim, todo um trajecto que terá culminado num dos seus últimos livros, contendo uma leitura abrangente da História Pátria: Da Lusitânia a Portugal (2017).

 

Agora, não mais será possível continuar o (meta-)diálogo sobre o sentido e a viabilidade de Portugal na Europa e no Mundo, o qual tem acompanhado a contemporaneidade portuguesa (Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, António Sérgio, Franco Nogueira…), sem considerar a visão do saudoso Professor. Destacaria, muito em especial, uma lição contida nas derradeiras páginas de Da Lusitânia a Portugal: o Portugal pós-imperial será viável enquanto País independente («independência possível na interdependência necessária», citando o seu bem conhecido Giscard d'Estaing), se, para além da radicação europeia, buscar também apoio num pilar extra-europeu «de segurança e contrapeso».

 

Os referidos interesses histórico-políticos terão, em parte, justificado a última etapa do ensino de Freitas do Amaral, agora fortemente dedicada à história das instituições, à história das instituições portuguesas e à história do Estado e do Direito Público (no Direito Administrativo Especial, centralidade do estudo dos tipos históricos de Estado). Foi um privilégio tê-lo presenciado de perto: a forma intelectual não havia sido fundamentalmente beliscada pelo tempo.

 

«Last, but not least» (num tour de phrase característico de Diogo Freitas do Amaral), porque o saudoso Mestre não escondia mas, pelo contrário, sempre queria tornar transparente a “opção fundamental” que o guiava, não poderia, ainda, deixar de evocar aqui o Cristão que, na vida pessoal e na vida pública, sempre procurou – e confessou – inspirar-se «na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo». Requiescat in pace.

 

Pedro Velez

(Professor na NOVA Direito. Aluno, orientando e co-regente de várias disciplinas com o Prof. Diogo Freitas do Amaral)

 

29
Out19

Novos Sons #7 - 2020

jurnal

Richard Dawson - 2020 (outubro)

Nota: O Artigo começou a ser escrito dia 21 de Outubro de 2019 e acabou de ser escrito dia 29 de Outubro de 2019.

 


2020. É 2019 e faltam 73 dias para 2020. Mas, antes, ainda temos o dia 31 de outubro, “the end of the world”, como descreveu Timothy Endicott, o Professor de Oxford que foi acolhido pela nossa faculdade para dar uma palestra sobre o Brexit. Faltam então 10 dias para o fim do mundo. 10 dias para o dia da revelação. 10 dias para o dia do apocalipse. E, 20 dias antes da babilonização do Reino Unido, Richard Dawson publica o que aparenta ser um grito final do povo inglês, um sumário de tudo o que os britânicos passaram e sofreram nestes lentos anos de dor, angústia e sofrimento. É, por um lado, um choro existencial, angustiado com uma sociedade que pouco quer saber dos seus cidadãos e, por outro, um suspiro de alívio. É um ensaio sobre um país moribundo, sobre um governo que pouco quer saber de quem realmente importa e sobre um povo cada vez mais desligado da sua própria realidade, e uma homage ao inglês, seja lá quem for, que entrega o seu corpo à escravatura assalariada, num ato de inocência e dor que Dawson tão bem representa na sua pintura avant-folk do Reino Unido de 2019.


Em primeiro lugar, há que dizer que Dawson não é conhecido, mas devia sê-lo. Em vez de preferir a fama, Dawson esconde-se na penumbra do mundo musical, até mesmo do mundo folk, preferindo a coragem do experimentalismo à segurança da simplicidade, com álbuns com desde quatro tracks de dezasseis minutos a curtas baladas acústicas, Newcastle-upon-tyne a Seattle ou qualquer outra grande capital de folk, e até mesmo música mística islâmica, o tal Qawwali, a uma sonoridade mais típica do genre. As suas letras invocam um detalhe e uma atenção aos pormenores do dia-a-dia semelhante a Sun Kil Moon, mas com um pessimismo marcadamente inglês e irónico, não tão americano nem tão sombrio, rindo-se do caos, da dor e da desgraça, enquanto que a sua música invoca uma sensibilidade folk que não tem medo de quebrar as barreiras e fronteiras tão bem definidas há séculos pelo estilo (tanto que alguns até o poderiam chamar de Judas, como ele próprio já o fez no seu álbum Nothing Important).


Antes de entrar em 2020, há que referir que o álbum não viria a nascer se não fosse pelo seu antepassado, o Peasant de 2017. Em Peasant, como se fosse uma pintura de Brueghel ou de um dos mestres da Alta Idade Média, vemos um retrato de uma sociedade medieval, pintada por um som campestre e pastoral simbólico de uma era há muito ultrapassada e cuja beleza é superada pelos detalhes sombrios ou hilariantes das personagens por Dawson retratadas, da prostituta ao mendigo ou do ogre ao pai que vende os filhos para ter o que comer. Mas, se Peasant é os Netherlandish Proverbs, 2020 é uma fotografia tirada a drone sobre qualquer cidade contemporânea. Aqui, as personagens são pessoas que conhecemos, não pormenores de um quadro num museu. São o funcionário público, o dono de um bar na terrinha, o trabalhador precário da Amazon e o renegado social, o hikikomori. 2020 é os Netherlandish Proverbs de agora, o retrato de uma sociedade a ruir e das vidas ignorantes desse facto mas arrastadas à mesma.


2020 abre com uma erupção de som, uma guitarra distorcida ao ponto de soar como um martelo numa linha de montagem, um grito industrial digno de Ode Triunfal que nos puxa para a vida de um funcionário público cuja rotina é mais próxima do Fordismo do que de uma vida minimamente saudável. Dawson grita as instruções como um patrão a um megafone: “Open your eyes, time to wake up, shit, shower, brush your teeth, drain your cup, wolf down a bowl of ready-brek, fasten a tie around your neck”. Terminado o processo de construção, e seguramente preso por uma gravata, o funcionário público é lançado para o seu mundo juntamente com os outros milhões de prisioneiros da rotina, que por toda a cidade se levantam para um trabalho que odeiam. O funcionário público, que na verdade pode ser qualquer um, odeia a sua vida, odeia o seu emprego, odeia os seus colegas, odeia o público em geral, mas sente-se impotente perante a gigante e kafkaesque máquina burocrática que o esmaga e que o que força a notificar pessoas com deficiências para que os seus benefícios sociais sejam cortados. Ele é apenas mais uma engrenagem no sistema que ele tanto detesta, mas pouco pode fazer para o mudar. E ele está farto. Fica sentado no seu escritório a enfardar batatas e a sonhar com a morte violenta dos seus colegas coscuvilheiros. Mas, num ato de rebelião extrema, digno de um conto de Camus, o funcionário público liga ao seu patrão para o avisar que está doente, e passa o dia a jogar Call of Duty em casa. Com isto, Civil Servant torna-se na história de um servo preso na máquina capitalista e neofeudalista do sistema social e hiper-burocrático do Reino Unido que se vira contra a máquina que o paga e alimenta, e Dawson conta-a para mostrar a importância de todas as revoluções, mesmo as mais pequenas e “insignificantes”.


Depois dos apetrechos eletrónicos e da força industrial de Civil Servant, The Queen’s Head abre com um dedilhar de guitarra acústica de mão dada com um baixo levezinho, puxando a orientação do álbum para uma soundscape mais indie folk e mais calmo, ao mesmo tempo que Dawson nos tira do mundo urbano e nos leva para o mundo rural. No entanto, Dawson cedo levanta a voz e introduz uma bateria que inunda os nossos ouvidos tal como como as margens do Humber inundam a vila arquetípica da vivência britânica que Dawson cria nesta canção. As cheias são mais comuns do que parece no Reino Unido, e as personagens principais desta história apressam-se para salvar o seu negócio para não ser arrasado pelas águas imundas do rio. Percorrendo esta nova atlântida dos Midlands, a família depara-se com pessoas que perderam tudo, pessoas que culpam o governo ou os imigrantes por tudo e pessoas a ajudarem os outros. Apercebem-se do quão pequenos são ao enfrentarem a gigante força da natureza, mas encontram conforto numa comunidade que, indiferente à sua pequenez, faz tudo para ajudar os seus vizinhos. É uma história representativa da força que a comunidade tem perante o mundo moderno, e da derrota do individualismo perante a natureza, sendo assim um apelo à reconstrução dos laços de solidariedade e vizinhança num mundo cada vez mais desconexo e hostil.


The Queen’s Head passa a bola para Two Halves, uma canção que nos lança para um campo de futebol indeterminado, contando uma história intemporal e expondo uma relação entre pai e filho que, quando joga à bola, parece tudo menos saudável. O futebol é um desporto feito de metades, basta olhar para a linha do meio-campo ou considerar as duas partes de 45 minutos cada, excetuando tempos de compensação. Temos também duas metades na figura do pai e do filho, cada um revendo-se no outro, um gritando para motivar e outro esforçando-se para causar orgulho. Enquanto a derrota do filho se torna cada vez mais provável, o pai perde progressivamente a cabeça, e os seus gritos tornam-se tão altos que ocupam o estádio inteiro, criando a ilusão de uma multidão a guinchar: “Man on!”. No final do jogo, o filho apercebe-se da desilusão que criou no pai, que este tenta esconder para não perder uma única pinga de masculinidade. O pai diz ao filho para ser persistente, e agora se focar no próximo jogo, mas é evidente que está desiludido, não só com o filho mas consigo próprio. O filho e o pai são fragilmente retratados por Dawson numa caracterização sublime, mas animada por um som próprio do estádio, que procura representar um pai desiludido com o filho e consigo próprio, um filho triste por desiludir o pai, e ainda uma geração ciente das suas falhas mas crítica das sucessoras, e uma outra geração condenada a enfrentar um mundo que poderá vir a ser a sua desgraça. São estas as duas faces da história que Two Halves quer contar.


O tom acelera e o volume aumenta enquanto Dawson entra de rompante na quarta canção, Jogging, numa correria característica do tema que decide representar e da ansiedade que escolheu enfrentar. Jogging é sobre saúde mental, ansiedade social e auto-piedade, e Dawson dispara logo a rematar com estes temas, sem se conter. Jogging conta a história de um homem assustado pelo mundo exterior ao ponto de não conseguir sair de casa, ao ponto de ficar imediatamente contraído pelos olhares flutuantes no autocarro, e ao ponto de ter abandonado o seu posto como conselheiro académico por um trabalho freelance, preferindo o conforto e a hibernação à realização pessoal que alcançava ao trabalhar com crianças. Jogging conta um conto que já ouvimos vezes sem conta, a minimização do indivíduo pela tecnologia, pela economia e por uma sociedade hiperavançada, cada vez mais atomizada, fracionada e especializada. A guitarra distorcida, constante pelo álbum, marcha de mão dada com as letras, evocando uma montagem à anos 80, enquanto que o bridge robótico nos aproxima ainda mais da distopia que Dawson vai construindo ao longo do álbum através das sua personagens. Aqui, o herói de Dawson encontra um escape no jogging, apercebendo-se lentamente da apatia, da indiferença e da intolerância (representada pelo crime de ódio contra uma família curda que Dawson descreve no quarto verso) cada vez mais prevalente no seu país, mas apercebe-se do quão imponente é perante estas atrocidades do dia-a-dia, culpando a sua paranóia. No entanto, Dawson conclui a canção ao retratar mais uma vez o heroísmo do cidadão normal, sendo que a canção termina com o sujeito a angariar fundos para a Cruz Vermelha e a ganhar a coragem precisa para participar na Maratona de Londres.

 

Após a correria de Jogging, entramos no tom mais calminho mas certamente mais aterrador de Heart Emoji, uma tragédia amorosa digna de século XXI, onde um marido e pai descobre que a sua esposa o tem andado a trair através de um emoji de coração avistado pelo canto do olho durante a noite. É uma canção triste, com um falsetto choramingão a molhar a história de amor e de desamor incrivelmente pouco romântica que Dawson nos conta. Conheceram-se no emprego, trabalhavam os dois num bar a servir Guinness’s para pagar as propinas, e eventualmente casaram-se, e tiveram uma filha.Toda uma história (deprimente, sim, mas uma história de qualquer das formas), uma vida juntos, a terminar com um emoji. Em duas palavras, e no que será o ponto mais deprimente do álbum, Dawson resume a mensagem do seu álbum. O coração, a paixão, a história de cada um dos seus personagens contrastado com o emoji, a tecnologia, a sociedade moderna do mundo onde eles habitam. Heart Emoji é a quinta canção do álbum, situando-se mesmo a meio, e reduz tudo o que Dawson quer dizer a uma dialética: futuro contra passado, felicidade contra tristeza, empatia contra apatia, indivíduo contra sociedade. São as two halves de 2020, um álbum que só com uma das suas metades condena por completo a nossa atualidade, e que com uma tragédia intemporal de amor não-correspondido e traição expõe o nossa proximidade tecnológica, responsável pelo nosso afastamento emocional cada vez mais profundo.


Black Triangle surge em imediato e óbvio seguimento a Heart Emoji, com um som aterrador, arrepiante e curiosamente vintage, evocando Stranger Things ou uma qualquer relíquia da moda, e aparece para nos contar a história de um avistamento de Ovni, reparado por dois jovens assumidamente não-bêbados no parque de estacionamento de um Aldi. Um dedilhar folk é acompanhado por uma guitarra elétrica, fornecendo um choque de culturas enquanto duas civilizações chocam também. O Ovni muda a vida dos dois jovens: um torna-se num engenheiro mecânico com uma família e relação estável e uma quinta convertida em casa; e o outro torna-se na personagem trágica que Dawson já expôs em Heart Emoji (pelo menos é o que parece), que se torna num vendedor de teorias de conspiração a la Alex Jones no Youtube. O Triângulo Negro (salientando aqui a forma da nave, um triângulo negro) avistado pelo protagonista da canção acaba por se tornar num ponto de ligação entre este e a sua filha, e os dois aproveitam o fim de semana juntos a acampar na natureza, um escape da tensão que permaneceu após o divórcio. Isto é, até serem raptadas pelo mesmo triângulo. Um fim certamente irónico, mas que de certo modo traz conforto e que nos faz considerar que se calhar o melhor é mesmo ser levados deste mundo para outro, talvez melhor.


Chegamos ao Fulfilment Center representativa da distopia que Dawson demorou um álbum a criar (ou a imitar), ao mais adequado símbolo de uma sociedade hipercapitalista e hiperatomizada, e à história dos trabalhadores forçados a embrulhar tudo, de Playstations a máquinas de café, de cartas de tarot a legos, por um mísero salário, durante horas intermináveis que nem o Natal consegue interromper. O protagonista de Fulfilment Center é tudo menos protagonista no seu dia-a-dia tendo, como qualquer um, sonhos (como ter o seu próprio café), rotinas (como apanhar o comboio na madrugada) e pessoas que ama (como a família que não o terá presente no jantar de Natal), e tendo um trabalho escravizador e aterrorizador, que tira a energia aos novos, a saúde mental aos velhos e a vontade de viver a qualquer um. No seu dia-a-dia, vê pessoas a desmaiar, a ter ataques de pânico e a convulsionar no chão, enquanto é obrigado a trabalhar horas a fio e sem intervalos de casa de banho (explicitamente explica que tem de urinar para uma garrafa de plástico para não perder tempo) para corresponder às quotas que lhe são impostas. Tudo isto enquanto uma voz robótica e distorcida o esmaga com instruções ou, ainda mais medonhas, mensagens de motivação por um altifalante distante. É um Modern Times que é certamente moderno e adequado ao nosso tempo, mas certamente que não é cómico. Tem 10 minutos de duração. É, enfim, um épico para a nossa época. Mas não serve para enaltecer um país. Serve para enaltecer o povo descontente e moribundo face à máquina capitalista e burocrática de empresas-Estado como a Amazon, adamastores que engolem tudo o que pode ser comprado, de pessoas a outras empresas. É, também, um momento apoteótico para Dawson. É, por falta de melhores palavras, o seu suplício por mudança. Por empatia. E por um mundo melhor.


Aterramos de Fulfilment Center em Fresher’s Ball, uma gentil balada folk, ao ritmo de lindos arranjos eletrónicos, sobre um pai a deixar a filha na universidade, em Leeds, a várias milhas de distância da casa onde cresceu e onde o pai vai agora morar sozinho. A paternidade volta a surgir como tema, e a canção torna-se no momento mais íntimo e bonito do álbum, onde a voz ríspida mas calmante de Dawson nos embala ao contar esta história de amor, saudade e despedida. Serve para nos mostrar que mesmo num mundo de fulfilment centers, traições, ovnis arrepiantes e depressão financeira há sempre algo que nos faz correr pelo labirinto, fugindo do minotauro que nos quer devorar. É um abraço antes do fim do mundo. Uma gentil festinha na cabeça antes de tudo acabar. É um adeus, mas um adeus terno e suave, porque o caminho até ao adeus certamente não o foi. É saber que o fim está a chegar, mas saber também que tivemos muito por viver, ganhámos muitas histórias para contar e que, afinal, a longa e enrolada estrada até ao nosso adeus valeu toda a pena.


Antes de nos largar na última canção, Dawson repete o que fez em Peasant e deixa um breve interlúdio de poucos segundos no penúltimo track do álbum, sempre apelidada de No-One. Aqui, ouvimos um cão a gemer e a ranger com o frio, audível pelo vento forte que ressoa como um vulto por detrás do suplício do cão. E, com este omen, entramos em Dead Dog in an Alleyway. Retorna o som pesado e eletrónico para um final digno de acabar com um álbum destes. É-nos contada a história de um sem-abrigo que se depara com um cão morto na neve. Ao longe, no “labirinto de neón”, ouve-se o fim do mundo. Gritos, vómito, sirenes, uma cidade a derreter. No Nando’s local, música, talheres e risos de criança quase faz parecer que está tudo bem. No entanto, no beco escondido por detrás do restaurante, o nosso protagonista sabe que o fim está por chegar. Gritos pulsam dos pulmões de Dawson para nos mostrar a agonia do seu sujeito, que foi tratado como lixo a vida todo, e cujos suplícios de ajuda serão sempre não-correspondidos. Ele sabe que vale tanto como o cão morto no beco. Curiosamente, é a canção mais animada e pop-friendly do álbum. É um fim contrastante, mas representativo de o que Dawson quis retratar desde do início.

 

2020 é uma daquelas obras de arte raras que transforma um período histórico na sua tela, explorando-o exaustivamente e detalhadamente, embrulhando-o de uma forma cativante e fácil de compreender para futuros historiadores e curiosos olharem para trás e aperceberem-se que tudo melhorou. Certamente não é único, a desgraça do Reino Unido já foi contada mil e uma vezes, basta olhar para os filmes de Danny Boyle (Trainspotting, 1996) ou de Ken Loach (I, Daniel Blake, 2016), no entanto, a exposição de Dawson é muito diferente. É sublime, é bonita, é arrepiante, é subtil, é in-your-face e é honesta e humilde. Dawson revê-se em todas as suas personagens, talvez seja por isso que têm tanto em comum umas com as outras, e revê-se num povo acima de tudo desiludido, mas também esperançoso. No dia em que acabo este artigo, o Brexit é adiado para 2020. A data do fim do mundo é claramente flexível, e até 2020 chegar, muito pode mudar.

 

Tomás Burns

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

24
Out19

As Nações não se forjam nos Tribunais

jurnal

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O início da passada semana ficou marcado, no país vizinho, pela condenação de nove líderes catalães. A necessidade de tais penas, bem como os tumultos que sucessivamente vêm ornando o território Catalão ilustram bem o carácter ilusório da nação que a Constituição de Espanha chama de indissoluble e española[1].

 

Bem sei que muitos daqueles que têm discutido tal problemática se têm centrado no panorama jurídico. É ou não o referendo legal? Pode ou não ser referendada a independência? Foram ou não os independentistas bem condenados? Esta é uma discussão tão válida quanto estéril caindo numa petição de princípio. Será legal tudo o que for conforme à lei. A discussão terá que dar um passo atrás e atender à legitimidade

 

É na sociedade, e não já num direito acrítico, que a legitimidade do Estado se encontra e onde se funda a legitimidade da Constituição. Deste contexto, não pode deixar de resultar como óbvio que o normativo não deve esquecer a realidade social que lhe subjaz e de onde resulta a sua vigência, tornando-se, caso contrário, numa mera ficção jurídica.

 

É pois neste ponto que a discussão se complica, já que entram em confronto a sociedade e o direito, o sentimento nacional catalão e a unidade do Estado espanhol, a maioria espanhola e a minoria catalã. Aqui, o certo e o errado só poderá ser escrutinado pela filosofia política e, portanto, aparto-me de tal questão.

 

Tendo localizado o problema, importa agora compreender a realidade plurinacional em que vive o país irmão que, sendo indubitavelmente um Estado unitário, nunca poderá honestamente ser qualificado como nação. De resto, os séculos de integração espanhola não nos podem fazer esquecer que, até ao século XV, a Catalunha era um principado independente dentro da Coroa de Aragão usufruindo de instituições próprias, língua própria e de uma cultura de oposição às vizinhas França e Castela que, em parte, ainda mantém.

 

A verdade é que, longe de constituírem uma união pacífica, Madrid e Barcelona têm-se encontrado, por diversas vezes, em posições opostas nas maiores crises de Espanha.

 

Veja-se, a este propósito, a Guerra dos Segadores, em que o povo catalão (tal como o português, de resto) se insurgiu contra o centralismo de Filipe IV, ou a Guerra da Sucessão espanhola em que a Catalunha tomou partido contra aquele que viria a ser Filipe V de Espanha (cuja vitória condenou a pouca autonomia de que esta região ainda usufruía e gerou uma extensa repressão contra qualquer demonstração de cultura catalã). Observe-se, ainda, mais recentemente, a oposição da maioria republicana na Catalunha à ascensão de Franco que, saindo vitorioso, aboliu a autonomia da região e perseguiu qualquer amostra de nacionalismo catalão.

 

Neste contexto de afastamento, seria, curiosamente, a tentativa de aproximação do governo de Zapattero, com a reforma do estatuto de autonomia, atribuindo maior liberdade à região na sua gestão política e financeira, que despertou a crise actual.

 

Assim, a oposição da direita espanhola, bem como o chumbo pelo Tribunal Constitucional de catorze artigos instrumentais para as pretensões catalãs vieram imprimir neste povo o sentimento de que não conseguiriam mais autonomia sem suprimir os laços ao Estado espanhol.

 

Para além disto, a crise económica e financeira e os sacrifícios exigidos aos catalães precipitaram o conflito. Agora, a pertença a Espanha também doía no bolso! De resto, são as transferências fiscais de Barcelona para Madrid que originam a primeira consulta popular sobre a independência em 2014 e, posteriormente, o referendo de 2017.

 

Perante tal panorama, a História não pode voltar atrás. A Espanha enfrentará nos anos vindouros o derradeiro desafio à sua unidade e sistema político.

 

No que respeita à unidade da soberania, a evolução actual de partilha dos poderes do Estado, quer a nível interestadual quer a nível infra-estadual, levará, nas próximas décadas, e não só em Espanha, à diminuição da importância do Estado central. Estando, neste caso, a sua legitimidade já diminuída, a comunidade política de Espanha será mais cedo ou mais tarde forçada a alargar o leque de poderes das comunidades autónomas.

 

Porém, não se pode duvidar que, afastado o sentimentalismo, o impulso e o populismo, a maioria dos catalães prefere a estabilidade e o cosmopolitismo de Espanha à incerteza e isolamento de uma independência. Cabe, porém, ao governo de Madrid mostrar que a Espanha não é uma entidade externa e opressora mas sim a comunidade dentro da qual a nação catalã se poderá desenvolver e prosperar.

 

Neste sentido, os partidos espanhóis não poderão ter medo de apoiar as nacionalidades. Só com uma política de tolerância e negociação se poderão afastar os preconceitos nacionalistas (de ambos os lados) e salvar a unidade e o sistema político espanhol. A incerteza neste quadro político acabará por deixar o protagonismo ao VOX que, com o seu nacionalismo espanholista, ameaça não só a saúde da democracia espanhola como a própria paz entre os espanhóis (de diferentes nações, mas também de diferentes classes sociais, géneros e orientações sexuais).

 

Para além disto, não é despicienda a questão da chefia de Estado. Não se pode ignorar que a Catalunha é maioritariamente republicana. Contudo, como Chefe de Estado numa monarquia constitucional, Filipe VI tem a oportunidade de agir como conciliador e colocar-se acima das tricas partidárias. A monarquia poderá, se bem utilizada, ser uma vantagem a favor da união tal como, após a morte de Franco, o foi na transição da ditadura para a Democracia.               

 

Claro que a reconversão que se impõe a Espanha não será um processo fácil, nem se poderá esperar que este seja rápido. Contudo, se conseguirem reunir sobre uma só bandeira várias nacionalidades num contexto de cooperação e solidariedade, a Espanha poderá vir a ser o balão de ensaio para a futura Federação Europeia. De facto, não é tempo de divisões, mas de união!  

 

 

[1] A Constituição Espanhola refere, no seu artigo 2º: “A Constituição baseia-se na unidade indissolúvel da Nação Espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis e reconhece e garante o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que a integram e a solidariedade entre eles.”

 

João Carrilho

(Aluno do 3.º ano da Licenciatura)

 

22
Out19

Anónimos #10

jurnal

imagem anonimo 10.jpg

 

Nada. É o que eu sinto ao olhar nos olhos de quem me passa à frente.

Vazio. É aquilo que me consome a alma, que aos poucos deixa o meu corpo.

Zero. É o esforço que sinto da tua parte para me tentares acalmar estes pensamentos que só me levam à destruição.

Há quem diga que o amor basta para fazer andar uma relação. Eu nunca fui muito de concordar com essa opinião.

É suposto eu conformar-me com o facto de estarmos no mesmo patamar em que isto começou?

É suposto eu dar o litro sem cair, sem estremecer, por uma carruagem que nem andou?

Não consigo. Não sou capaz. Nunca fui de me sentar à espera, a ver se o tempo traz solução a uma situação que já vem de trás.

Posso falar em códigos, às vezes - alguns difíceis de decifrar. Mas noutras vezes sou bastante explícita e cuidadosa nas palavras que escolho proferir. Se não percebes, é porque realmente para ti nada está mal. Se assim é, isto não pode continuar.

Eu tentei. Acredita em mim quando digo que tentei. Tu sabes que tentei. É por isso que saio pela porta de consciência tranquila: eu fiz tudo o que pude por nós.

Lamento. E adeus.

 

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